Não é notícia velha: Brasil bate novo recorde de autorizações de agrotóxicos em 2025

Leonardo Fernandes para “Brasil de Fato”  

Parece notícia requentada, mas não é. Em 2025, o Brasil bateu um novo recorde na liberação de agrotóxicos para uso agrícola. A apuração exclusiva do Brasil de Fato mostra que foram 725 novos produtos liberados de fevereiro ao início de dezembro deste ano, o que representou um aumento de quase 10% em relação a 2024, quando o país já havia batido o recorde de liberação até aquele momento, com o ingresso de 663 novos produtos no mercado brasileiro.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, lembra que o mercado de agrotóxicos no Brasil movimenta bilhões de reais com a colaboração do Estado, enquanto a população amarga as duras consequências dessa política.

“Isso significa que a gente tem mais água contaminada, a gente tem mais alimento contaminado e a gente tem mais pessoas diretamente intoxicadas, seja de forma aguda ou de forma crônica pelos agrotóxicos”, pontua Andrade.

“Nosso país é uma verdadeira lixeira química, nosso país está envenenado. E todas as estruturas estão caminhando em prol do agronegócio, seja em torno de subsídio, seja em torno de lei, seja em torno da permissividade que o governo dá para arrecadação bilionária dessas empresas no ramo dos agrotóxicos, em detrimento do ônus sofrido por toda a sociedade brasileira e dos impactos que isso tem causado”, afirma Andrade, que atribui esse alto volume de liberações à aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como o pacote do veneno”, que flexibilizou as normas e enfraqueceu o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no procedimento para o registro dos venenos.

Diante do empoderamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) promovido pela lei, Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, considera que o Mapa se tornou um “cartório de venenos”.

“O aumento contínuo nos registros de agrotóxicos no Brasil mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de venenos. Basta um carimbo, e está aprovado. É impensável que estes agrotóxicos estejam sendo submetidos de fato aos estudos necessários para garantir a sua segurança. Se estivéssemos tratando de novas substâncias, menos tóxicas e mais eficientes, seria um esforço louvável; porém, o que vemos são novos registros de velhas moléculas, inclusive de glifosato e atrazina, já comprovadamente cancerígenos de acordo com a Organização Mundial da Saúde”, aponta Pivato.

Mas não era para reduzir?

O novo recorde ocorre no mesmo ano em que foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que estabelece diretrizes para políticas públicas na direção de reduzir o uso dessas substâncias químicas tóxicas na agricultura brasileira, o que despertou questionamentos das organizações da sociedade civil.

“O que a gente questiona é: qual é o compromisso do governo brasileiro na redução no uso de agrotóxicos que deveria ser institucionalizada pelo Pronara, que inclusive está sob ameaça do Congresso Nacional de ser revogado”, questiona Andrade, em referência à aprovação, no final de novembro deste ano, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 443/2025, de autoria do deputado federal Rodolfo Nogueira (PL/MS), que busca sustar o decreto presidencial de criação do Pronara.

Por outro lado, Pivato lembra que o programa foi construído com a participação dos movimentos e organizações sociais, que trabalharam pela assinatura do decreto em julho passado, e cobra sua implementação. “É urgente que o Pronara comece a funcionar de fato, e que possa colocar um freio nesta festa do agronegócio”, defende.

Brasil: lixão tóxico do mundo

Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves, como distúrbios neurológicos, má-formação fetal, abortos espontâneos e vários tipos de câncer.

Entre os mais utilizados, está a atrazina, herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, que agora é objeto de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS), que busca a proibição de seu uso e a reavaliação imediata pelos órgãos de controle.

A ação foi movida a partir de estudos que comprovaram a contaminação por atrazina em dois rios importantes que cortam o Mato Grosso do Sul: o rio Dourados e o rio Paraguai. A substância foi identificada em águas superficiais, de chuva e, inclusive, nas torneiras de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Procurado pelo Brasil de Fato para comentar os dados recentes de liberação de agrotóxicos, o procurador federal Marco Antonio Delfino, autor da ação no Mato Grosso do Sul, alertou para o fato de que grande parte dos produtos liberados são genéricos, sobre os quais há pouca fiscalização.

“A produção de genéricos não vem acompanhada de um incremento no processo de fiscalização. Tanto dos produtos produzidos quanto dos insumos utilizados”, afirma o procurador, fazendo referência em seguida ao famoso “Agente Laranja”, substância química utilizada pelo exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1964-1975) e posteriormente aplicada como herbicida para uso agrícola.

“É importante recordar que o Agente Laranja, o principal efeito dele não foi o efeito da junção de dois agrotóxicos, mas justamente os resíduos tóxicos advindos do processo de fabricação. Então, uma liberação massiva de genéricos desacompanhada de uma fiscalização presente pelo Estado brasileiro é muito provavelmente um indício de muitos agrotóxicos com um alto nível de resíduos tóxicos, que vão causar danos tanto à saúde quanto ao meio ambiente”, comenta o procurador.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, solicitando a comparação dos dados da pesquisa com os computados pelo ministério, além de uma posição da pasta em relação ao recorde de liberações de agrotóxicos em 2025. O MAPA apenas confirmou o recebimento da demanda, informando que foi encaminhada à área responsável, e que daria retorno assim que possível. No entanto, a resposta não foi recebida até o momento desta publicação. As informações serão agregadas à matéria tão logo sejam recebidas.


Fonte: Brasil de Fato

Empresas autuadas pela Operação Rejeito em MG estão em outras regiões do Brasil

A máfia mineral descoberta em MG pode acontecer em outras cidades mineradas do país e pode se agravar com o PL da Devastação; mais impactos nos territórios e na saúde vem por aí…  

Empresas autuadas pela Operação Rejeito em MG estão em outras regiões do Brasil

Por Márcio Zonta – Comunicação nacional do MAM 

As empresas Ferro Sul Mineração / SA e Irontech Mineral LTDA, denunciadas na Operação Rejeito, em setembro desse ano pela Polícia Federal, que revelou uma trama entre órgãos do meio ambiente e mineradoras para conseguir licenças de operação, atuam em outros estados.

A mineradora Ferro Sul mineração / SA, com sede em Nova Lima (MG), que foi fundada em 2020, tem pesquisa ativa concedida pela Agência Nacional de Mineração (ANM) para pesquisar cobre e ouro em Canaã dos Carajás (PA).

Além dela, outra mineradora envolvida no escândalo em Minhas Gerais é a Irontech Mineral LTDA, com sede na cidade baiana de Alagoinhas, onde tem autorização de pesquisa permitida pela ANM, de minério de ferro e manganês. A empresa foi fundada em 2012 e usa também o nome fantasia de Global Tecnologia em Logística.

Subsídio estatal  

Ambas, as mineradoras, são consideradas de pequeno porte por estudiosos do setor mineral, o que denotaria uma proliferação dessas empresas para aproveitar os subsídios governamentais para mineração no Brasil, lançados ultimamente.

É  o que explica o professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Tadzio Peter Coelho: “O fato é que mesmo essas operações ilegais ou atos ilícitos que essas empresas tem recorridos nos últimos tempos, como  a gente viu na Operação Rejeito, é bem verdade que existe uma estrutura financeira, estatal e econômica que fornece a possibilidade dessas chamadas pequenas empresas se expandirem pelo Brasil, tanto pela flexibilização das licenças ambientais que ocorre em todo país, como pelos financiamentos de bancos públicos”.

As mineradoras podem recorrer aos editais abertos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e por meio da Financiadora de Fundos e Projetos (FINEP), órgão do governo federal. As duas lançaram esse ano, aproximadamente 5 bilhões de reais, para linha de crédito de exploração mineral no país, sobretudo, voltado para exploração dos chamados minerais utilizados para transição energética, como cobre, lítio, cobalto, ferro, entre outros.

Ademais, em outubro passado, no Invest Mining Summit 2025, evento que ocorreu em São Paulo e que reúne empresas minerais de todo mundo para tratar de negócios, o BNDES em parceria com a multinacional Vale, apresentou um fundo para investir em empresas júnior de mineração no valor inicial de R$ 3 bilhões.

“Isso na verdade atraí uma espécie de empresários aventureiros, que se quer tem capital para instalar uma mina, mas com os empréstimos começam a abrir minas em muitos lugares, e muitas vezes eles nem pagam esses empréstimos. Nós estamos vendo isso acontecer em vários lugares em MG e em outros lugares do Brasil”, denuncia Coelho.

Mesmo modus operandi?

Para Julia Sanders, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM, em Belo Horizonte, a pergunta que fica é se o modo de atuação dessas empresas com regalias ilegais do Estado, em MG, se repete em diversos lugares.

“Isso é grave, ver empresas que atuavam ilegalmente em MG se expandir pra outros estados. Embora a Operação Rejeito mostre que os crimes dessas mineradoras estavam enraizados na Secretaria de Meio Ambiente do estado de MG, ela também mostra que havia envolvidos da ANM nesses processos ilícitos, que podem ter facilitados a aquisição desses direitos minerários de pesquisas em outros estados do Brasil. Isso precisa ser investigado!”

A Integrante do MAM defende que a Operação Rejeito dê continuidade para que novos crimes e esquemas de corrupção das mineradoras venham à tona.

“É necessário que a Operação Rejeito avance, pois podemos ter muito mais pessoas envolvidas nessa trama, como deputados federais, o próprio governo Zema. O Fator Zema que promoveu um desmonte ambiental em MG ajudou a contribuir com essa proliferação de mais de 40 empresas atuando irregularmente em MG, e o que também, na minha opinião, motivou o PL da Devastação”, define.

Mineração agradece ao PL da Devastação

Coelho destaca três pontos preocupantes, na visão dele, que abarcam a mineração no chamado PL da Devastação aprovado no Congresso Nacional.

 “O primeiro é uma espécie de um licenciamento ambiental especial no qual os empreendimentos entendidos como prioritários e estratégicos passariam a tramitar mais rápido de uma maneira mais acelerada em comparação a outros. Isso é bastante preocupante porque essa aceleração pode prejudicar diversos grupos sociais, que podem ser impactados e podem não serem consultados dentro desse processo”, comenta.

A segunda preocupação esboçada pelo pesquisador diz respeito ao chamado licenciamento por adesão, “no qual os empreendimentos considerados de médio porte passariam por um auto licenciamento, onde as empresas ficariam responsáveis pelo próprio licenciamento do seu projeto”.

Embora, ele mencione que de certa forma isso ocorra na mineração, onde as empresas executam os estudos dos impactos dos seus próprios projetos, isso pioraria.

“Vários empreendimentos poderiam ser considerados de médio porte na mineração, mas isso não significa que ele não causará impacto de menor escala, poque também causam grandes danos e impactos a natureza e a população”, explica.

Numa terceira questão, ele destaca que a relação com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e Fundação Palmares sofrerá mudanças. Se antigamente todo empreendimento mineral dependia da consulta prévia dessas instituições como parte do projeto, agora não será mais necessário.

“Tem agora uma restrição no caso da consulta à FUNAI e na Fundação Palmares que passam a ser consultados somente em alguns casos, que é mais uma limitação dentro do processo decisório sobre um projeto minerador. Em suma a gente vê que é um ambiente antidemocrático, realizado uma semana depois do término da COP 30, não representativo aos interesses do povo brasileiro de maneira geral”, define.

Problema de saúde pública

A atividade mineral se constituiu no Brasil como um problema de saúde pública para a médica Diele Amorim. Ela indica que o avanço da mineração é proporcional ao adoecimento das populações que vivem em áreas mineradas.

“É preciso discutir os problemas da saúde gerada pela mineração, para não ficar somente discutindo aspectos econômicos da mineração, pois ela é um problema público de saúde”.

A médica alerta, que muitos dos territórios adentrados pelas mineradoras sequer sofriam de doenças, que passaram a ser comum depois da instalação da atividade mineral.

“Enfermidades que não existiam nos territórios passaram a atordoar as populações tradicionais, que são as mais impactadas. E como não tem acesso a saúde pública digna viram migrantes buscando atendimento médico adequado nas cidades, o que muitas vezes não acontece e acabam morrendo”, exemplifica.

Ela cita hoje a contaminação dos rios pelas mineradoras como um dos principais vetores de doenças, principalmente, pelo consumo dos peixes.

“O peixe é uma das principais fontes de proteínas, por exemplo, de populações tradicionais, como indígenas e quilombolas. Os metais pesados ficam depositados nos tecidos dos peixes. As doenças começam a aparecer no sistema nervoso central com dores de cabeça constantes, problemas gástricos e intestinais, infertilidade e má formação congênita”, afirma.

Por fim, Diele deixa um recado, que considera importante para população brasileira em geral, diante dos agravos da crise ambiental no país. “Nós somos parte inerente da biodiversidade e dos ecossistemas, se eles não estiverem livres da destruição, provocadas pela mineração, nós não seremos saudáveis”, conclui.

Essa matéria é fruto do projeto: Ampliação das Ações Voltadas para Área de Mineração, Saúde e Territórios- Impactos da Extração Mineral – FASE IV, em parceria do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MA) e Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)


Fonte: MAM

Observatório dos Agrotóxicos: na surdina, Ministério da Agricultura passa a controlar exclusivamente o registro de agrotóxicos

Enquanto a população brasileira está sendo distraída pelo show de horrores que está acontecendo no Congresso Nacional em meio à PECda Blindagem e a anistia para os golpistas frustrados de janeiro de 2023, o Ministério da Agricultura, segundo o que foi aprovado no Pacote do Veneno, se tornou a porta exclusiva para os pedidos de registros de novos (velhos) agrotóxicos no Brasil.

É que entrou em vigor na última segunda feira (15.set.2025), as regras apontadas no ATO Nº 40, DE 1º DE SETEMBRO DE 2025 que determinam que todos os pedidos de registro de novos agrotóxicos devem ser protocolados exclusivamente no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).   Com isso, os protocolos que tenham sido enviados diretamente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou ao Ibama  não serão mais considerados válidos, como acontecia antes da promulgação do Pacote do Veneno.

Ainda que com a análise técnica dos pedidos continuará sendo tripartite, envolvendo também a Anvisa, responsável pela área de saúde, e o Ibama, que avalia os impactos ambientais, na prática isso será apenas consultivo, já que caberá ao MAPA que serve primariamente aos interesses do latifúndio agro-exportador e dos fabricantes de venenos agrícolas.

É aquela velha história, o que é ruim sempre pode piorar. Como venho acompanhando mais de perto a questão dos registros de novos agrotóxicos desde 2019 e disponibilizando as informações via o Observatório dos Agrotóxicos, considero que essa mudança trará prejuízos consideráveis à capacidade de controle, que já era baixa, dos impactos ambientais e sobre a saúde humana de uma grande quantidade de substâncias que são sabidamente causadoras de uma série de alterações significativas nos fluxos ambientais, e que acabam atingindo a população brasileira.

A verdade é que com o Pacote do Veneno sendo aplicada na prática, o papel tanto da Anvisa como do Ibama serão meramente decorativos, já que o poder decisório estará totalmente concentrado no MAPA. Assim, poderemos esperar a ampliação do quadro de doenças que já está sendo detectado em todo o território nacional, quadro esse resultante da contaminação das fontes de abastecimento e alimentos.

Considerado particularmente preocupante a falta de dados recentes sobre a contaminação por agrotóxicos da água de abastecimento e dos alimentos que estão sendo consumidos diariamente pelos brasileiros.  Em ambos os casos, a obrigação do governo Lula seria garantir não apenas a ampliação da coleta de dados, mas também da divulgação expedita dos resultados. Mas não é o que está se vendo, e estamos basicamente em um voo cego no que se refere ao processo de contaminação.

A situação é complicada pelo baixo nível de investimento feito nas universidades públicas onde são feitas as pesquisas sobre o processo de contaminação por agrotóxicos. O pior é que as pesquisas que ainda possuem financiamento sempre trazem notícias alarmantes sobre a contaminação em ampla escala de solos, água, alimentos, e até da chuva.  

 

Alvisseras notícias: Wladimir Garotinho corrige erro e recria secretaria de Meio Ambiente e adiciona Sustentabilidade

Wladimir Garotinho | O pôr do sol da nossa cidade é um PETÁCULO mesmo🌅❤️  Tão bonito que até peguei o cavaquinho só pra lançar o enigma do dia:  alguém arrisca... | Instagram

Quando é para dar boa notícia, a gente dá.  Graças a um colega pesquisador da UFF-Campos, hoje fui informado que no dia 02 de junho o Diário Oficial do Município trouxe a excelente notícia da recriação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e que agora abarcará também o tema da Sustentabilidade, tendo como secretário o ex-vereador Jorge Rangel (ver imagem abaixo).

Como os leitores deste blog sabem, venho criticando o prefeito Wladimir Garotinho desde que ele tomou posse do seu primeiro mandato por ter cometido a impropriedade de extinguir, em vez de fortalecer, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Agora, apesar de ainda não constar do organograma da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, o maior município do estado do Rio de Janeiro, onde existem engatilhados vários problemas graves do ponto de vista socioambiental, poderá a ter uma secretaria própria para avançar o processo de adaptação climática.

Como estou terminando a orientação de mais uma dissertação que confirma o atraso crônico na adoção dos chamados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da ausência objetiva de ações mínimas em prol da adaptação climática no plano municipal, posso dizer que melhor do que recriar a secretaria, o prefeito Wladimir Garotinho deveria oferecer o devido suporte orçamentário para as ações urgentes que precisam ser tomadas.

Eduenf lança livro sobre impactos dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores rurais

A Editora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Eduenf) acaba de lançar o livro “Saúde dos Trabalhadores Rurais Relacionada ao Uso de Agrotóxicos”, de autoria dos professores Enilce Maria Coelho, Fábio Cunha Coelho e Demetrio Ferreira de Azeredo

Tive a oportunidade de ler previamente esta obra e escrever o seu prefácio, e considero que esta obra merece ser disseminada amplamente, especialmente naqueles segmentos que labutam diretamente com substâncias altamente tóxicas, tanto para o meio ambiente, como para a saúde humana.

A obra está dividida em quatro capítulos, abordando o uso dessas substâncias, suas consequências nos países do Sul Global (com ênfase no Brasil) e do Norte Global (com destaque para os Estados Unidos), além de discutir alternativas agroecológicas para reduzir a dependência de produtos químicos.  A obra também destaca o aumento do uso de agrotóxicos impulsionado pelo agronegócio e os riscos à saúde dos trabalhadores, incluindo intoxicações, doenças ocupacionais e impactos ambientais.

É importante lembrar que n,No Brasil, políticas públicas e incentivos fiscais facilitaram a expansão desses produtos, tornando o país o maior consumidor mundial de venenos agrícolas. O livro apresenta estudos de caso, mostrando as dificuldades de fiscalização e a falta de proteção adequada dos trabalhadores.

Finalmente, a obra inova ao propor a agroecologia como alternativa sustentável para minimizar os efeitos nocivos dos agrotóxicos, defendendo a adoção de práticas agrícolas baseadas na biodiversidade e no equilíbrio ecológico.

Quem desejar baixar gratuitamente, o “Saúde dos Trabalhadores Rurais Relacionada ao Uso de Agrotóxicos”, basta clicar [Aqui!].

Opção pelo mercúrio em restaurações dentárias expõe descaso com a saúde pública e o ambiente

Altamente tóxico, o mercúrio está em 70% das obturações feitas no SUS. No estado de SP, que concentra metade dos procedimentos no Brasil, lideranças e movimentos sociais buscam reverter veto de Tarcísio de Freitas à lei que protege a população

Por Cida de Oliveira 

O mercúrio é um metal pesado considerado a substância mais tóxica já conhecida pela ciência moderna. Isso porque causa intoxicações, que dependendo do grau, provocam síndromes, como as neurológicas, muitas das quais graves, irreversíveis e letais. Altamente volátil, evapora mesmo à temperatura ambiente, permanecendo suspenso no ar, até ser inalado ou absorvido pela pele. Ao cair na circulação sanguínea, se deposita em órgãos onde fará estragos, como o sistema nervoso central, seu alvo principal.

Em gestantes, tem a capacidade de atravessar a barreira placentária, afetando diretamente tecidos fetais em desenvolvimento. Mas os bebês também podem ser intoxicados por meio do leite materno, como mostram estudos. A lista longa de problemas vai muito além, conforme pode ser conferida no final da reportagem. E há ainda os danos ao meio ambiente, com a contaminação de rios, do mar e de peixes, que traz mais doenças para quem deles se alimenta.

Por incrível que possa parecer, a substância responde por metade da composição do amálgama dentário, juntamente com uma liga de prata, estanho e cobre. A mistura, tóxica, está em 70% das obturações realizadas nos consultórios do serviço público de saúde do país. Dentro da boca de tanta gente, encurta o caminho dos vapores de mercúrio, que atravessam rapidamente as mucosas e o palato. 

Já entre a clientela da rede privada, que pode pagar e fazer escolhas, a massinha cinza caiu em desuso. Entraram em seu lugar materiais biocompatíveis, resistentes, seguros, estéticos e com custo equivalente, segundo profissionais. Ou seja, é possível restaurar os dentes com a mesma funcionalidade, melhor resultado estético e ainda proteger a saúde de pacientes, equipe odontológica e o meio ambiente como um todo sem gastar mais por isso.

Segundo dados do Datasus, foram realizadas 708,3 mil restaurações com mercúrio em consultórios públicos de todo o Brasil entre 2020 e 2023. A ampla maioria está no estado de São Paulo, com 351 mil (49% do total). O número é quase 3,5 vezes maior que a soma desses procedimentos nos estados vizinhos da região Sudeste. Nesses mesmos quatro anos, as restaurações com resinas nos consultórios privados paulistas chegam perto de 5 milhões, algo perto de 93% do total.

Negacionismo

Essa triste liderança paulista poderia ter sido revertida. E o estado de SP poderia tomar a dianteira no combate ao mercúrio na odontologia, tornando-se um exemplo. No entanto, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) desprezou essa chance ao vetar, em outubro passado, o  Projeto de Lei 1.475/2023, que disciplina a utilização do amálgama. De autoria do deputado Maurici (PT), a lei aprovada em julho de 2023, com votos até de integrantes da base governista, tem efeito imediato na proteção de gestantes, mulheres que estejam amamentando ou em idade reprodutiva. E também de crianças, adolescentes menores de 14 anos, pessoas com doenças neurológicas ou renais, além daquelas com histórico de intoxicação ou mesmo exposição prolongada à substância. O projeto, porém, é mais amplo. Determina um prazo de três anos para a abolição total dessas restaurações de massinha cinza.

Tarcísio desprezou apelos e argumentos de especialistas, pesquisadores, professores universitários, profissionais e ativistas brasileiros e estrangeiros que compõem a Campanha Mundial para uma Odontologia Livre de Mercúrio. E preferiu ouvir a voz apenas das entidades de classe do setor. Aliás, classe profissional que deve ser orientada pelos governos.

Em seu veto, o governador parece raso e confuso em seus argumentos. Cita erroneamente a resolução da Anvisa 171, de 2017, sobre revisão de alterações pós-registro e prazos para produtos já registrados, como se fosse a resolução 173, de 2017. E depois ele também menciona a resolução Anvisa 879 de 2024, que não contempla integralmente a Emenda das Crianças da Convenção de Minamata, como o PL/1475/2023 faz. E o veto também foi determinante para não disciplinar efetivamente o uso de amálgama dentário de mercúrio em São Paulo. Permanece, assim, a exposição continuada de profissionais e pacientes ao metal tóxico.

Tarcísio alega ainda que a “Secretaria da Saúde manifestou-se desfavoravelmente à propositura, assinalando que até o momento não há material no mercado com o custo, acesso, resistência e durabilidade comparáveis”. E que “o material (mercúrio) está caindo em desuso seja por suas características estéticas, ou por exigir maiores habilidades profissionais”. E mais: “que o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), em evidente afronta ao princípio da precaução, observa que não há evidências científicas significativas que associem danos à saúde do paciente ou do profissional, se utilizado de acordo com as normas técnicas existentes, e que ainda fundamentam a possibilidade de continuidade da utilização do amálgama de prata”.

Entidades defendem metal tóxico

Após a decisão do governador, o conselho divulgou nota na qual afirma que, junto com a Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas (APCD) e a Associação Brasileira de Cirurgiões-Dentistas (ABCD), “elaborou um dossiê técnico com a participação de professores universitários, representantes do Poder Público e das Câmaras Técnicas e Comissões Temáticas do CROSP, o que foi determinante para fundamentar a justificativa do governo estadual”.

A redação procurou o conselho em busca de uma justificativa para o lobby negativo das entidades junto ao governo, que em vez disso deveria apoiar e proteger os profissionais e os pacientes, principalmente do SUS. Para isso pediu uma cópia do referido dossiê técnico, bem como uma explicação para a suposta segurança do mercúrio dentro da boca das pessoas, já que é reconhecido como altamente tóxico no meio ambiente. Entretanto não houve retorno até a conclusão da reportagem.

Segundo Jeffer Castelo Branco, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio, o veto contraria a Convenção de Minamata. Isso porque o tratado internacional, do qual o Brasil é signatário, estabelece que os governos devem informar aos conselhos profissionais a importância da eliminação do amálgama dentário. “E o que temos visto no Brasil é o contrário. Em vez de os governos notificarem os conselhos, são eles que estão fazendo um lobby contrário junto aos governos para não eliminar o amálgama, colocando em risco os seus profissionais e aqueles que buscam serviços odontológicos. A gente gostaria de ter como parceiro o conselho profissional dos dentistas. É preciso que ele venha ao encontro da Convenção e faça o Brasil aprovar leis como a proposta por Maurici”, disse.

Diferentemente do negacionismo do governador Tarcísio, prevaleceu em Peruíbe, litoral sul do Estado, a preocupação com a saúde e o meio ambiente. Em 20 de novembro passado a Câmara dos Vereadores aprovou por unanimidade a Lei Ordinária nº 4587/2024, que restringe a utilização de amálgamas de mercúrio em procedimentos odontológicos. O projeto apresentado pelo então prefeito Luiz Maurício (PSDB), com indicação da vereadora Maria do Socorro Antunes Mendonça (PSD), é muito semelhante ao vetado por Tarcísio.

Além do prazo de três anos para a abolição total dos amálgamas de mercúrio, proíbe as empresas responsáveis pela sua destinação final ambientalmente adequada de comercializar o metal eventualmente recuperado. E as obriga de informar a quantidade, procedência e destinação de cada lote aos órgãos de vigilância sanitária. A lei pioneira no Brasil ainda determina que o poder público municipal estabeleça políticas e programas que favoreçam o uso de alternativas aos amálgamas em procedimentos odontológicos. E que promova juntamente com órgãos e entidades públicas e privadas o esclarecimento e conscientização dos profissionais e estudantes da área de odontologia sobre riscos e perigos do mercúrio, além da promoção de melhores práticas alternativas.

Mercúrio liberado na escovação

A cirurgiã-dentista Magda Siqueira, especialista com certificação internacional e especialista em ozonioterapia, integrou o grupo da Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio que esteve na Secretaria de Saúde após a aprovação da lei estadual. O objetivo era esclarecer os pontos da lei no sentido de obter apoio para a sanção junto ao governador Tarcísio. Mas segundo ela, durante a visita falou bastante sobre a toxicidade do mercúrio. Para seu espanto, as pessoas ali diziam desconhecer os riscos. “Mas sabiam que havia um parecer técnico de duas entidades dos dentistas em defesa do amálgama”, disse. “O desconhecimento está dentro dessas entidades técnicas também?”, questionou.

A especialista explicou que o perigo dessas obturações é grande. “Estudos apontam que há liberação constante de vapores de mercúrio durante a mastigação, a escovação dos dentes e a ingestão de bebidas quentes. Com isso há uma absorção sistêmica crônica”.

Na avaliação de Magda Siqueira, o uso contínuo no Brasil, especialmente em populações vulneráveis atendidas nos consultórios do SUS, com aval de gestores, contraria princípios constitucionais, a equidade e segurança em saúde pública. E fere diretamente a responsabilidade do Estado na proteção da integridade física, psíquica e ambiental do cidadão.

“O SUS tem a missão e o dever de garantir o cuidado integral, com a inclusão de materiais seguros e biocompatíveis, como resinas compostas, ionômero de vidro e cerâmicas, entre outros. O Brasil é signatário da Convenção de Minamata. É inaceitável que mesmo após 10 anos da assinatura não tenhamos políticas públicas e diretrizes efetivas para a transição segura e protetiva. E nem pessoas e gestores que olhem para esse detalhe”, criticou.

Para a especialista, o fim das obturações de mercúrio é uma questão crucial, tanto que em 2020 foi tema de alerta da agência dos Estados Unidos para medicamentos e alimentos (FDA). Sendo assim, é urgente incluir o mercúrio no currículo dos cursos de odontologia. “A formação acadêmica precisa refletir os avanços da ciência e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Professores têm responsabilidade ética de preparar seus alunos sobre os riscos do mercúrio dental e preparar essa nova geração para práticas éticas e seguras”, disse.

Mulheres e crianças: principais alvos

A assistente social Gleisy Xavier, conselheira tutela em Mauá, no ABC paulista, vê nas restaurações dentárias à base de mercúrio mais um componente da desigualdade social. “É cansativo vivenciar esse racismo institucional. Nós sabemos que o amálgama praticamente só é colocado na boca das mulheres, crianças, adolescentes e homens periféricos. Somos nós que estamos lá na ponta (do atendimento) e que vamos vivenciar isso que está sendo dito aqui. Essa é a verdade”, disse, durante participação na audiência pública na Alesp.

Ela reforçou as críticas a Tarcísio de Freitas. “E esse governo ainda persiste em marginalizar e discriminar a população pobre e preta. Não bastam as polícias nas favelas matando pretos, a gente ainda tem de ter isso em nossas bocas”, disse a conselheira, que defendeu a derrubada do veto e prometeu levar a grave questão para ser discutida em seu município. “São as nossas crianças e nossos adolescentes. Não dá mais para tolerar esse uso. Enquanto tiver mercúrio nas bocas pretas, a gente não vai poder discutir políticas de saúde bucal.”

A cirurgiã-dentista Martha Faissol, integrante da Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia, aponta o risco elevado do uso de amálgamas de mercúrio para mulheres e crianças em geral. “Ao serem expostas no ambiente de trabalho, seja universidades ou nos serviços de saúde, milhares delas são alvos dos efeitos nocivos que comprometem a função ovariana, desregulam ciclos menstruais, favorecem a menopausa precoce e aumentam o risco de abortos espontâneos”, disse. Segundo ela, 58% dos profissionais da odontologia no Brasil são mulheres.

A especialista destacou que estudos recentes dão uma ideia da gravidade da situação. Mostram altos níveis de mercúrio no leite materno e uma correlação entre esses índices e o número de obturações; o pico de intoxicação em bebês logo após o nascimento, quando passam a receber leite da mãe contaminado; a presença de metal no organismo de mulheres acima do limite recomendado pela Organização da Saúde, mesmo entre aquelas com baixo consumo de peixes, uma outra fonte de exposição e intoxicação. “A bioacumulação de mercúrio favorece níveis letalmente elevados em gestantes, comprometendo diretamente o desenvolvimento neurológico de seus fetos e, posteriormente, prejudicando habilidades motoras, cognitivas e comportamentais. Dizer que esses riscos podem ser tolerados é, no mínimo, um desserviço que ameaça a saúde das futuras gerações”, disse.

Fragilidades no veto

Decorridos seis meses do veto de Tarcísio, a presidência da Assembleia Legislativa de São Paulo, que integra a base governista, ainda não pautou sessão para análise e possível derrubada. Por isso a Campanha Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio se articula nesse sentido. No último dia 23, especialistas, dentistas, estudiosos, lideranças de movimentos sociais e trabalhadores se reuniram em audiência pública no legislativo paulista. Juntos com o autor do projeto, deputado Maurici, discutiram o tema e propostas em defesa da promulgação. Entre elas, uma reunião com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e com a direção da Anvisa.

Os ativistas e especialistas também têm críticas quanto às resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, especialmente a 879, citada pelo governador. Em seu artigo 1º, o texto diz que “ficam proibidas em todo o território nacional a fabricação, a importação e a comercialização, assim como o uso em serviços de saúde, de mercúrio e do pó para liga de amálgama na forma não encapsulada indicados para uso em odontologia”.

No entanto a mudança não traz proteção, segundo a cirurgiã-dentista Raquel Cembranelli, que pesquisa o tema.  “Em 2019 a Anvisa seguiu a FDA e proibiu amálgamas abertas. Mas as cápsulas permitidas contêm o mesmo pozinho, o líquido, e o dentista também tem de agitar, usando um aparelho, de alta velocidade, que gera calor e mais vapor de mercúrio”, contou. Segundo ela, estudos mostram que a abertura de cada cápsula permite o vazamento de 400 microgramas de vapor de mercúrio. “Esse valor é quatro vezes maior que o pico máximo permitido de exposição ocupacional. Ou seja, a adoção das cápsulas não resolve nada; não é melhor que antes”, reclamou, referindo ao antigo preparo manual do amálgama.

“O mercúrio é um líquido volátil, que evapora em temperatura ambiente. E a cada 10º C que aquece, dobra sua volatização. Durante a remoção da massinha, a broca gira em alta velocidade, provocando calor que aumenta a vaporização. E há liberação da poeira de amálgama com partículas menores que um mícron, que é absorvida pela pele, pulmões. O consultório fica infestado de mícrons de mercúrio. Uma lambança sem fim”, afirmou.

Segundo ela, um estudo feito em Porto Rico mostra que essas partículas de mercúrio permanecem suspensas por 36 horas, em níveis acima do limite. “Ou seja, uma cápsula aberta na segunda-feira segue contaminando todos até na quarta. Como são usadas várias ao longo do dia, a pessoa que vai ao consultório fazer um orçamento sai de lá contaminada com o mercúrio que inalou”. E concluiu: “Não pode mercúrio na lâmpada, no termômetro, mas pode na boca do cidadão?”, questionou. Segundo ela, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estima em uma tonelada a quantidade de mercúrio na boca dos americanos. “Não faz sentido. Há substitutos que não são mais caros e funcionam. Os dentistas são os profissionais mais expostos ao mercúrio”.

Outro pronto criticado na resolução 879 é o artigo 2º, que determina que “as notificações de produtos constituídos por liga de amálgama na forma encapsulada para uso odontológico deverão indicar, como advertência, que não são recomendados para uso em gestantes, lactantes e na dentição decídua (em indivíduos de até 15 anos de idade).  “Notificações? Isso é um produto tóxico. Tem de ter registro. Notificação é para produtos que não são perigosos. É o primeiro detalhe nessa resolução que eles falham e a gente precisa corrigir isso”, destaca Jeffer Castelo Branco.

Ele aponta outra incorreção no mesmo documento, quanto à interpretação inadequada da Convenção de Minamata. “A resolução falha também ao dizer que em crianças até os 15 anos, os únicos dentes que não podem receber amálgama são os de leite. A convenção diz que não pode em nenhum dos dentes até os 15 anos”. Segundo o pesquisador, “a resolução é caótica, está em desacordo com a convenção internacional e por isso precisa ser consertada.”

A reportagem procurou a assessoria da Agência Nacional de Vigilância, que não respondeu até o fechamento.

Expectativas

Na avaliação do deputado Maurici, o governador Tarcísio não discute o mérito do projeto em seu veto. “Ao contrário, destaca que a matéria tem alta relevância para a área de saúde. E alega que se contrapõem às normas da União, no caso específico, da Anvisa. No entanto, a Constituição Federal faculta aos Estados a criação de leis que complementem ou aprofundem as normas gerais da União, especialmente quando são mais restritivas”, disse o parlamentar.

Segundo lembrou, este foi o entendimento da Comissão de Constituição e Justiça da Alesp que aprovou parecer, ressaltando que, “no que atine à constitucionalidade da proposta, não há qualquer ofensa de cunho material ou formal que venha a impedir a regular tramitação da proposta”.

Maurici acredita na possibilidade de reverter a decisão. Isso porque há um precedente em tema semelhante. Em 2013, um Projeto de Lei similar, do ex-deputado Marcos Martins (PT), proibindo instrumentos contendo mercúrio, como aparelhos de pressão e termômetros, foi vetado pelo Poder Executivo. “Porém, ao reexaminar o projeto, as comissões de Constituição e Justiça e de Meio Ambiente recomendaram a sua aprovação, o que foi seguido pelo Plenário, convertendo em lei o Projeto na Lei nº 15.313/2014, que está vigente e não sofreu contestação de constitucionalidade por parte do Executivo”, lembrou. “Então, a perspectiva é que, ao examinar vetos do governador com base nos precedentes e no posicionamento favorável já fixado, o veto será derrubado em favor da saúde da população e da preservação ambiental.”

Amálgama: alvo da vez

A luta pelo fim do amálgama já dura décadas. Mas se acirrou com a assinatura da Convenção de Minamata. Ratificada por mais de 140 países, busca eliminar o metal tóxico dos produtos, serviços e processos em todo o mundo. Neste ano chega ao fim o prazo para eliminação de todas as indústrias de cloro e soda que utilizam células eletrolíticas de mercúrio. De acordo com Castelo Branco, o processo de descomissionamento dessas indústrias já começou. “Tivemos rios e populações ribeirinhas contaminadas. Agora é hora do amálgama dentário, setor que mais usa mercúrio no mundo”, destacou. Segundo ele, o amálgama responde por 341 toneladas do metal colocadas anualmente no planeta por causa do uso na odontologia.

As discussões para a Convenção de Minamata começaram em 2010, após a constatação que a quantidade de mercúrio na atmosfera havia sextuplicado em algumas partes do planeta. O acordo foi assinado em 2013, entrou em vigor em 2017 e o Brasil promulgou em 2018. Um acordo anterior, a Convenção de Estocolmo sobre poluentes persistentes, que já poderia ter incluído o mercúrio, foi assinado em 2001.

Segundo Castelo Branco, que preside a Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), dentistas de várias regiões relatam dificuldades de dar destinação ao amálgama tóxico. Isso porque as cidades sequer contam com serviço adequado para essa finalidade. E há outro detalhe: o mercúrio cuspido pelos pacientes durante o tratamento ou remoção vai para o esgoto. “Alcança a rede pública e contamina córregos e rios, afetando toda a vida aquática, marinha, como a gente tem visto em vários estudos”, disse. “Há inúmeras pesquisas de qualidade que associam o mercúrio ao Alzheimer, Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), Transtorno do Espectro Autista, doenças do pulmão, fígado, rins, da pele. E o SUS, possivelmente, arcando com toda essa despesa, que vem da exposição ao mercúrio contido no amálgama.”

Saiba mais sobre as intoxicações causadas pelo mercúrio usado nas restaurações

A intoxicação pelo mercúrio, o mesmo que é usado nos amálgamas dentários pode ser aguda – desencadeada por grande quantidade de vapores de mercúrio em um curto período – ou crônica, devido ao acúmulo de partículas no organismo pela exposição prolongada e contínua.

Na intoxicação aguda as vias aéreas são afetadas, causando irritação brônquica, bronquite erosiva, pneumonia intersticial difusa com dor torácica, falta de ar, tosse, hemoptise (expectoração de sangue), cianose (coloração azulada em várias partes do corpo), taquipneia (alteração na respiração) e edema pulmonar, que podem levar à morte. Há também intoxicação nos rins, irritação de mucosa da boca, náuseas, diarreia, fadiga, fraqueza, letargia e câimbras abdominais. Por isso esses sintomas exigem atendimento imediato.

Já na intoxicação crônica pode haver sintomas isolados ou simultâneos. Eles são agrupados em:

Síndromes no sistema neurológico Geralmente aparece em toda pessoa intoxicada porque ao penetrar no Sistema Nervoso Central, o mercúrio se liga a proteínas e dificilmente se desprende delas. Por isso se propagam localmente e também no sistema periférico. Os problemas causados geralmente deixam sequelas. Os tremores são os sinais mais comuns e característicos da intoxicação. Mas há ainda cefaleia, insônia, nervosismo, vertigem, debilidade, mal estar, dores nas articulações e musculares, contrações musculares involuntárias, descoordenação motora, movimentos involuntários dos olhos, dismetria, dificuldade de realizar movimentos rápidos e alternados, de equilíbrio e de caminhar, nevralgia, parestesia, ardência nos pés, polineuropatia, visão borrada, hipertonia muscular com reflexos de postura exagerados, câimbras, paralisia flácida, voz monótona, arrastada e hesitante, com mudança de linguagem, gagueira e dificuldade de pronúncia, timidez. Há ainda encefalopatia difusa crônica, com redução das funções manifestada por mudança de personalidade, rigidez, movimentos involuntários, redução na função motora, incapacidade de se manifestar por gestos e sinais, marcha incerta e vacilante, ausência de reflexos, de recuperação do equilíbrio e fraqueza muscular. “Essas alterações neurológicas podem ser progressivas e piorarem após cessada a exposição. É o que a gente tem percebido no atendimento a trabalhadores expostos”.

Síndrome neuropsíquica ou eretismo psíquico (conjunto de alterações comportamentais) – “Pode começar com sintomas suaves, que vão se somando a outros até o embotamento intelectual, até a demência”, disse a médica Cecília Zavariz, que há décadas estuda o assunto. “Como o caso de pessoas que não podiam sair de casa sozinhas porque não sabiam voltar, se perdiam, não sabiam onde estavam e nem mesmo o seu endereço”, disse Cecília.

O quadro é caracterizado por sintomas como irritabilidade, ansiedade, mudanças de comportamento, apatia, perda da auto-estima e de memória, depressão, insônia, delírio, cefaléia, dores musculares e tremores. Pode haver também hipertensão arterial, problemas renais, imunológicos e alérgicos. Isso porque a síndrome pode acometer outros órgãos e sistemas, como o imunológico, enzimático, endócrino, visual e cardiovascular. Assim pode afetar a pele, fígado, pulmões e o ciclo reprodutivo, além de provocar abortos espontâneos, baixo peso ao nascer e anomalias congênitas.

Síndrome no sistema digestório (sabor metálico, sensibilidade, inflamação, edema e sangramento gengival, linha gengival azulada/acinzentada, necrose alveolar, halitose, afrouxamento e queda de dentes, irritação e ulceração de mucosa oral, palato, gengiva e língua, salivação excessiva, dor à mastigação e dificuldade para engolir, faringite, inflamação da língua, hipertrofia de glândulas salivares, saburra das vias digestivas, náuseas, vômitos, dor epigástrica, gastrite, duodenite, indigestão, diarreia, anorexia, emagrecimento, fadiga excessiva, fraqueza muscular, debilidade.

De acordo com Cecília, o diagnóstico é complicado porque não há exame específico e os sintomas variam de indivíduo para indivíduo e podem ser atribuídos a outras patologias. “O médico vai pensar em mil e uma doenças, e não na intoxicação crônica por mercúrio. Por isso é preciso uma anamnese muito profunda, esmiuçando o histórico laboral da exposição, além de avaliações oftalmológicas, psiquiátricas, neurológicas e neuropsicológicas para verificação de funções cognitivas (memória, atenção, concentração, raciocínio, abstração e linguagem), motoras (coordenação motora, rapidez de movimentos e precisão na execução de tarefas, capacidade/habilidades construtivas e visuoespaciais – usamos para controlar a possível distância entre dois objetos), além de estados afetivos. São feitas entrevistas psicológicas e aplicação de testes. A depressão é um dos sintomas mais comuns no exposto ao mercúrio.

Segundo ela, o prognostico é desfavorável quando a intoxicação atinge certa gravidade. Nos casos leves, pouco a pouco, ao longo de vários anos, o quadro pode reverter se a exposição ao mercúrio for interrompida. Pode também ocorrer um quadro intermitente, com período em que os sinais e sintomas se exacerbam, alternando-se com períodos de intoxicação latente. Alguns chegam a desaparecer temporariamente. Mas nos casos moderados e graves o quadro é irreversível e tende a piorar com o tempo.

“Em resumo, a intoxicação crônica pode ser ou se tornar grave, irreversível, incurável, incapacitante, penosa e ‘infelicitante’. O único caminho é a extinção do uso do mercúrio em quaisquer de suas formas químicas, pelo bem da saúde e do planeta. Cada grama lançada no ambiente causa o acúmulo de toneladas de problemas deste metal tóxico, que não se degrada e pode mudar para outra forma química ainda mais agressiva, o mercúrio orgânico”, disse a médica.

Outro pesquisador do tema, o dentista Rodrigo Venticinque alertou sobre outras situações problemáticas: como exemplo, alterações genéticas que podem afetar a capacidade do organismo em eliminar o mercúrio, além de outros metais pesados. É o caso da APOE4, uma variante da enzima CPOX4, que desempenha um papel importante na síntese da hemoglobina e na produção de energia das células. E ainda a glutationa GSTS, uma família de enzimas com papel crucial na desintoxicação celular, entre outras variantes.

Crédito da imagem: Reprodução/Youtube

2,4-D: o veneno utilizado na Guerra do Vietnã reina na agricultura brasileira e ameaça a saúde dos brasileiros

O que está em jogo é a saúde dos agricultores, das comunidades que vivem perto de áreas de plantio e todos os consumidores

Por Adão Pretto Filho para o Brasil 247

Nos últimos anos, o Brasil se consolidou como o maior consumidor mundial de agrotóxicos, um título que nos envergonha e que não podemos mais ignorar. Entre os produtos químicos utilizados de forma intensiva, destaco o herbicida 2,4-D, cujos riscos para a saúde humana e para o meio ambiente são amplamente reconhecidos e comprovados. Esse composto, que já foi parte do famigerado “Agente Laranja” durante a Guerra do Vietnã, tem causado sérios impactos em nosso país, afetando não apenas trabalhadores rurais, mas também a biodiversidade e os ecossistemas.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica o 2,4-D como um produto altamente tóxico. Não é difícil entender por que essa substância recebe tal classificação. Dados da própria Anvisa revelam que, entre 2007 e 2015, foram registrados 619 casos de intoxicação pelo herbicida no Brasil. A grande maioria desses casos – cerca de 71% – envolveu homens que trabalham nas zonas rurais, expostos ao 2,4-D durante suas atividades diárias, especialmente nas pulverizações das lavouras.

No entanto, os perigos do 2,4-D não se limitam à intoxicação imediata. Estudos científicos mostram uma ligação clara entre o uso desse herbicida e o aumento de casos de doenças graves e crônicas, como câncer, doença de Parkinson e até distúrbios psicológicos, como a depressão. O impacto desse produto na saúde humana não deve ser subestimado, já que as consequências a longo prazo podem ser devastadoras.

Outro aspecto crucial que não podemos ignorar é o impacto ambiental causado pela deriva do 2,4-D. Quando esse herbicida é pulverizado nas lavouras, ele não permanece limitado à área onde ocorre a aplicação do veneno. A ação do vento pode levá-lo para regiões adjacentes, afetando ecossistemas inteiros e, muitas vezes, chegando até áreas urbanas. O resultado é a contaminação do ar, solo e águas de rios e lagos. Fauna e flora locais são severamente impactadas, com destaque para a morte de animais como frangos e peixes, que são extremamente sensíveis a essas substâncias químicas.

Até mesmo a viticultura, uma atividade agrícola tradicional, que faz com que o sul do Brasil seja reconhecido pela qualidade dos vinhos e espumantes, também sofre com os efeitos devastadores do 2,4-D. O mesmo efeito ocorre em pomares de laranjas e nas plantações de hortifruti. Esse herbicida prejudica a saúde das plantações de uva, comprometendo diretamente a qualidade da produção e, consequentemente, afetando a economia de diversas regiões que dependem dessa atividade. A utilização desenfreada desse produto coloca em risco a sustentabilidade de setores chave da nossa agricultura.

O uso do 2,4-D é autorizado no Brasil, mas é fundamental questionarmos: até quando vamos permitir que produtos tão tóxicos sigam sendo amplamente utilizados? Mais de oitenta agrotóxicos levam o 2,4-D em sua composição. Um absurdo!

O que está em jogo com a utilização deliberada do herbicida 2,4-D é a saúde dos agricultores, das comunidades que vivem perto de áreas de plantio e todos os consumidores que levam à mesa diariamente toneladas de alimentos contaminados por agrotóxicos. As evidências sobre os danos causados pelo uso excessivo de agrotóxicos são claras, e nossa dependência desses produtos coloca em risco tanto a saúde pública quanto o meio ambiente.

Em resposta a essa ameaça crescente, propus, no Rio Grande do Sul, a proibição do uso do 2,4-D, com o objetivo de proteger a saúde pública e o meio ambiente. A medida visa reduzir os riscos associados ao uso desse herbicida e promover alternativas agrícolas mais sustentáveis no estado.

Parreral destruído pela deriva de 2,4-D vindo dos campos de soja no Rio Grande do Sul

É urgente que o debate sobre a liberação e o uso de agrotóxicos seja levado a sério. O Rio Grande do Sul foi devastado em 2024 devido às enchentes. O impacto ambiental de práticas como o abuso de agrotóxicos é gigantesco. Por isso, devemos priorizar políticas públicas que incentivem práticas de agroecologia, a produção sustentável e o uso de alternativas menos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. O Brasil não pode continuar sendo um líder mundial no consumo de agrotóxicos. Para revertermos esse cenário assustador, temos que ser radicais no combate ao uso de veneno em nossas plantações. Não temos mais tempo a perder! 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


Fonte: Brasil 247

O dilema ambiental da Inteligência Artificial em um mundo cada vez mais digital

Imagem: Freepik

São Paulo, fevereiro de 2025 – A ascensão das Inteligências Artificiais Generativas, tanto para uso pessoal quanto corporativo, já é uma realidade e vem revolucionando diversos setores, impulsionando a inovação e a produtividade. No entanto, seu uso contínuo e crescente tem gerado impactos ambientais e sociais significativos, devido ao alto consumo de energia e água, especialmente nos data centers. Esses centros de processamento, armazenamento e gerenciamento de dados utilizam milhões de litros de água para lidar com os grandes volumes de informações que recebem. Por exemplo, o GPT-4, a versão mais avançada do chat de IA generativa da OpenAI, pode consumir até meio litro de água para gerar um único e-mail.

Com o aumento da demanda por modelos avançados de Inteligência Artificial, a necessidade de centros de dados robustos cresce na mesma proporção. Essas estruturas exigem uma quantidade massiva de energia para operar e resfriar os servidores, resultando em um impacto ambiental considerável. Segundo um estudo realizado pela Deloitte, só em 2023 essas estruturas foram responsáveis pelo consumo de 1,4% da energia global. Além disso, apenas o treinamento de um grande modelo de linguagem de IA pode gerar cerca de 300 toneladas de CO2.

Diante desse cenário, é essencial compreender os desdobramentos energéticos e ecológicos que o uso excessivo de IA poderá causar. Gustavo Fortuna, líder em Inteligência Artificial da BlueShift, empresa referência em soluções de dados e tecnologia, destaca que promover o uso sustentável da IA depende de práticas sólidas de governança por parte das empresas de tecnologia. “A adoção de medidas sustentáveis e a transparência sobre questões ambientais são essenciais para que tanto as empresas quanto o público em geral possam fazer um uso consciente dessas ferramentas.”

A urgência de práticas mais sustentáveis nas empresas deve acelerar a implementação de regulamentações não apenas para o uso, mas também para a criação e aprimoramento das Inteligências Artificiais. A União Europeia já deu um passo importante nesse sentido com o AI Act, o primeiro marco legislativo mundial sobre IA, que busca garantir a segurança e o uso ético dessas tecnologias. Contudo, embora seja um avanço significativo, o AI Act ainda não aborda de maneira aprofundada a sustentabilidade e o impacto ambiental das inteligências artificiais, nem estabelece limites claros sobre o consumo de energia e água pelas empresas. Em contrapartida, em Frankfurt, na Alemanha, uma iniciativa já limita a construção de novos data centers e o consumo de recursos, mostrando novas alternativas para regulamentar este setor.

Para Gustavo Fortuna, a criação de políticas de regulamentação das IAs deve buscar o equilíbrio entre os avanços tecnológicos e a proteção ambiental. “As próprias IAs podem ser usadas para analisar dados e tendências climáticas de forma mais aprofundada. Com a transparência das empresas que gerenciam essas ferramentas, podemos estabelecer processos para medir os impactos ambientais e sociais das IAs e como mitigá-los de forma eficaz”, explica.

Divulgação do livro “O Olhar Triste do Cachorro” de Fernando da Cunha

olhar triste

Logo após o incidente ambiental de Mariana em 2015, publiquei um artigo escrito pelo biólogo Fernando da Cunha sobre suas impressões a relação direta entre o abandono dos órgãos ambientais e a ocorrência daquela tragédia de proporções gigantescas.

Em meio ao caos gerado pelo Tsulama da Samarco, Fernando da Cunha dizia que “é impossível não relacionar o maior desastre ambiental da história do Brasil com o caos total em que se encontram praticamente todos os órgãos públicos ambientais brasileiros, e que o “descaso com o meio ambiente agora também tira vidas humanas, característica antes exclusiva do descaso com a saúde, segurança e educação principalmente.”.

Olhando em retrospectiva e para o que estamos vivendo atualmente no Brasil, as palavras de Fernando da Cunha soam como profecia e nos forçam ver que aquilo que nos assombra neste momento não começou hoje.

Pois bem, a boa notícia é que Fernando da Cunha continua refletindo e escrendo sobre o que está acontecendo com o meio ambiente no Brasil, agora na pele de um escrito de romance. É que Fernando da Cunha acaba de lançar o romance “O olhar triste do cachorro pela Caravana

Abaixo posto a Sinopse do livro que parece ser tão ou mais interessante do que o texto que eu repercuti em 2015:

Após um período vivendo em uma comunidade ribeirinha na Amazônia, Augusto ingressa na carreira de analista ambiental na fervilhante Manaus. Ao retornar para Minas, seu estado natal, ele se dá conta de que a atuação no serviço público é mais difícil do que ele poderia supor. Diante de intensas pressões políticas e financeiras, ele se vê encurralado frente ao colapso das relações institucionais e o iminente fim do ambiente natural. Em meio ao caos, teve a oportunidade de aprender valiosas lições com alguns que ainda insistem em manter intacta a dignidade. Augusto vivenciou fatos marcantes e acabou por se tornar testemunha de um dos episódios mais impactantes do século XXI no país. O relato fictício atravessa a realidade nos provando que temos mais influência nos acontecimentos traumáticos que nos cercam do que poderíamos supor. Em tempos de eventos climáticos extremos intensificando-se em todo o planeta, nunca é tarde para se repetir o óbvio. Nem que seja apenas para uma espécie de catarse.

Microplásticos estão se infiltrando até no tecido cerebral, mostram estudos: ‘Não há lugar intocado’

Vinte e quatro amostras de cérebro coletadas no início de 2024 mediram em média cerca de 0,5% de plástico em peso

microplasticoUm pedaço retangular azul de microplástico encontrado em Tacoma, Washington, em 19 de maio de 2010. Fotografia: Ted S Warren/AP 

Douglas Principal para o “The Guardian”

Um crescente conjunto de evidências científicas mostra que microplásticos estão se acumulando em órgãos humanos essenciais, incluindo o cérebro, levando pesquisadores a pedir ações mais urgentes para controlar a poluição plástica.

Estudos detectaram pequenos fragmentos e partículas de plástico em pulmões humanos , placentas, órgãos reprodutivos, fígados, rins, articulações dos joelhos e cotovelos, vasos sanguíneos e medula óssea.

Dadas as descobertas da pesquisa, “agora é imperativo declarar uma emergência global” para lidar com a poluição plástica, disse Sedat Gündoğdu , que estuda microplásticos na Universidade Cukurova, na Turquia.

Os seres humanos são expostos a microplásticos — definidos como fragmentos menores que 5 mm de diâmetro — e aos produtos químicos usados ​​para fazer plásticos devido à poluição generalizada de plástico no ar, na água e até mesmo nos alimentos.

Os riscos à saúde dos microplásticos dentro do corpo humano ainda não são bem conhecidos. Estudos recentes estão apenas começando a sugerir que eles podem aumentar o risco de várias condições, como estresse oxidativo , que pode levar a danos celulares e inflamação, bem como doenças cardiovasculares .

Estudos em animais também relacionaram microplásticos a problemas de fertilidade , vários tipos de câncer, distúrbios no sistema endócrino e imunológico e comprometimento do aprendizado e da memória .

Atualmente, não há padrões governamentais para partículas de plástico em alimentos ou água nos Estados Unidos. A Agência de Proteção Ambiental está trabalhando na elaboração de diretrizes para medi-las e tem concedido subsídios desde 2018 para desenvolver novas maneiras de detectá-las e quantificá-las rapidamente.

Encontrar microplásticos em mais e mais órgãos humanos “levanta muitas preocupações”, dado o que sabemos sobre os efeitos na saúde em animais, estudos de células humanas em laboratório e estudos epidemiológicos emergentes, disse Bethanie Carney Almroth , ecotoxicologista da Universidade de Gotemburgo, na Suécia. “É assustador, eu diria.”

“Bastante alarmante”

Em um dos estudos mais recentes a surgir – um artigo pré-impresso ainda em revisão por pares e publicado on-line pelos Institutos Nacionais de Saúde – os pesquisadores descobriram um acúmulo particularmente preocupante de microplásticos em amostras de cérebro.

Um exame dos fígados, rins e cérebros de corpos autopsiados descobriu que todos continham microplásticos, mas as 91 amostras de cérebro continham em média cerca de 10 a 20 vezes mais do que os outros órgãos. Os resultados foram um choque, de acordo com o autor principal do estudo, Matthew Campen , toxicologista e professor de ciências farmacêuticas na Universidade do Novo México.

Os pesquisadores descobriram que 24 das amostras de cérebro, coletadas no início de 2024, continham em média cerca de 0,5% de plástico em peso.

“É bem alarmante”, disse Campen. “Há muito mais plástico em nossos cérebros do que eu jamais imaginaria ou me sentiria confortável.”

O estudo descreve o cérebro como “um dos tecidos mais poluídos por plástico já amostrados”.

Partículas minúsculas, algumas coloridas, sobre um fundo branco.
Partículas de microplástico na poeira atmosférica. Fotografia: Janice Brahney/Proceedings of the National Academy of Sciences

O estudo cerebral pré-impresso liderado por Campen também sugeriu uma ligação preocupante. No estudo, os pesquisadores analisaram 12 amostras de cérebro de pessoas que morreram com demência, incluindo doença de Alzheimer. Esses cérebros continham até 10 vezes mais plástico em peso do que amostras saudáveis.

O artigo também descobriu que a quantidade de microplásticos em amostras de cérebro de 2024 era cerca de 50% maior do que o total em amostras que datam de 2016, sugerindo que a concentração de microplásticos encontrados em cérebros humanos está aumentando em uma taxa semelhante à encontrada no ambiente. A maioria dos órgãos veio do Office of the Medical Investigator em Albuquerque, Novo México, que investiga mortes prematuras ou violentas.

“Você pode traçar uma linha – ela está aumentando ao longo do tempo. É consistente com o que você está vendo no ambiente”, disse Campen.

Muitos outros artigos encontraram microplásticos nos cérebros de outras espécies animais, então não é totalmente surpreendente que o mesmo possa ser verdade para humanos, disse Almroth, da Universidade de Gotemburgo, que não estava envolvido no artigo.

Quando se trata dessas partículas insidiosas, “a barreira hematoencefálica não é tão protetora quanto gostaríamos de pensar”, disse Almroth, referindo-se à série de membranas que impedem que muitos produtos químicos e patógenos cheguem ao sistema nervoso central.

Explosão de pesquisas

Somando-se às preocupações sobre o acúmulo no corpo humano, o Journal of Hazardous Materials publicou um estudo no mês passado que encontrou microplásticos em todas as 16 amostras de medula óssea examinadas, o primeiro artigo do tipo. Todas as amostras continham poliestireno, usado para fazer amendoins de embalagem e eletrônicos, e quase todas continham polietileno, usado em embalagens transparentes de alimentos, garrafas de detergente e outros produtos domésticos comuns.

Outro artigo recente analisando 45 pacientes submetidos a cirurgia de quadril ou joelho em Pequim, na China, encontrou microplásticos no revestimento membranoso de cada articulação do quadril ou joelho examinada.

Um estudo publicado em 15 de maio no periódico Toxicological Sciences encontrou microplásticos em todos os 23 testículos humanos e 47 caninos estudados, descobrindo que amostras de pessoas tinham uma concentração quase três vezes maior do que aquelas de cães. Uma quantidade maior de certos tipos de partículas de plástico – incluindo polietileno, o principal componente de garrafas plásticas de água – correlacionou-se com pesos testiculares mais baixos em cães.

Close de um prato transparente com uma pilha de pequenos pedaços de plástico coloridos.
‘Não há lugar intocado, do fundo do mar à atmosfera e ao cérebro humano.’ Fotografia: David Kelly/David Kelly/Universidade de Queensland

“Os potenciais efeitos à saúde são preocupantes, especialmente considerando as consequências desconhecidas a longo prazo do acúmulo de microplásticos em tecidos sensíveis, como os órgãos reprodutivos”, disse Ranjith Ramasamy, principal autor do estudo e pesquisador médico e urologista da Universidade de Miami.

Enquanto isso, um grupo chinês publicou um estudo em maio mostrando pequenas quantidades de microplásticos no sêmen de todos os 40 participantes. Um artigo italiano de alguns meses antes relatou resultados semelhantes.

Um punhado de estudos também encontrou contaminação em placentas humanas. Um estudo que apareceu na edição de maio da Toxicological Sciences relatou a descoberta de micro e nanoplásticos em todas as 62 amostras de placenta, embora a concentração tenha variado amplamente.

Na Itália, pesquisadores acompanharam 312 pacientes que tiveram depósitos de gordura, ou placas, removidos de suas artérias carótidas . Quase seis em cada 10 tinham microplásticos, e essas pessoas se saíram pior do que aquelas que não tinham: nos 34 meses seguintes, elas tinham 2,1 vezes mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco ou derrame, ou morrer.

‘Nenhum lugar deixado intocado’

A Food and Drug Administration afirma em uma declaração em seu site que “as evidências científicas atuais não demonstram que os níveis de microplásticos ou nanoplásticos detectados em alimentos representam um risco à saúde humana”.

Ainda assim, os pesquisadores dizem que os indivíduos devem tentar reduzir sua exposição evitando o uso de plástico no preparo de alimentos, especialmente no micro-ondas; bebendo água da torneira em vez de água engarrafada; e tentando evitar o acúmulo de poeira, que é contaminada com plásticos. Alguns pesquisadores aconselham comer menos carne, especialmente produtos processados .

Leonardo Trasande, pesquisador médico da Universidade de Nova York, disse que muito permanece desconhecido sobre os impactos do acúmulo de microplásticos em humanos. Os impactos negativos à saúde de produtos químicos usados ​​em plásticos, como ftalatos, são mais bem estabelecidos, ele disse. Um estudo do qual ele foi coautor descobriu que a exposição a ftalatos aumentou o risco de doenças cardiovasculares e morte nos Estados Unidos, causando US$ 39 bilhões ou mais em perda de produtividade por ano.

Partículas de microplástico podem ser contaminadas com e transportar tais produtos químicos para o corpo. “Os micro e nanoplásticos podem ser sistemas de entrega eficazes para produtos químicos tóxicos”, disse Trasande.

O American Chemistry Council, que representa fabricantes de plástico e produtos químicos, não respondeu diretamente a perguntas sobre os estudos recentes que encontraram microplásticos em órgãos humanos. Kimberly Wise White, vice-presidente do grupo, observou que “a indústria global de plásticos se dedica a avançar a compreensão científica dos microplásticos”.

A Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente concordou há dois anos em começar a trabalhar em prol de um tratado global para acabar com a poluição por plástico, um processo que está em andamento .

Vários relatos de notícias na semana passada sugerem que o governo Biden sinalizou que a delegação dos EUA envolvida nas discussões apoiará medidas para reduzir a produção global de plásticos, o que os pesquisadores dizem ser fundamental para lidar com o problema .

“Não há nenhum lugar intocado, do fundo do mar à atmosfera e ao cérebro humano”, disse Almroth.

Esta história é co-publicada com o New Lede , um projeto de jornalismo do Environmental Working Group.


Fonte: The Guardian