Especialistas apelam por metas climáticas nacionais de alta ambição a fim de cumprir Acordo de Paris

amazonia rioBrasil se comprometeu a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% em 2035, na comparação com os níveis de 2005. Foto: Secom Pará/ Fotos Públicas

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As metas climáticas atuais dos países membros da ONU não atingem o nível de ambição necessário para o cumprimento do Acordo de Paris, deixando o mundo a caminho de um aumento de temperatura muito acima do limite de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Diante da necessidade urgente de intensificar a ação climática, as metas nacionais atualizadas para a próxima década (2025-2035), a serem entregues pelas nações até fevereiro, devem ser mais ambiciosas e cientificamente rigorosas. O alerta está no relatório publicado nesta terça (12) pelo Grupo de Consultoria sobre a Crise Climática (CCAG), que divulgou princípios orientadores para a elaboração dos objetivos.

De acordo com o documento, as metas atuais dos países — chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) — colocam os objetivos do Acordo de Paris fora de alcance, gerando uma projeção de aquecimento superior a 3°C até 2100. Esse nível de aquecimento global representa uma ameaça grave à vida na Terra. No relatório, os especialistas estabelecem critérios mínimos que cada país deve cumprir ao atualizar suas NDCs, a fim de garantir um futuro mais seguro para a humanidade.

“As NDCs de Alta Ambição devem refletir cotas justas, com os países desenvolvidos assumindo maior responsabilidade por meio de cortes mais profundos e um aumento no apoio a nações em desenvolvimento”, diz Mercedes Bustamante, membro do CCAG e professora da Universidade de Brasília (UnB). “ Estamos à beira de mudanças irreversíveis, mas também diante de uma oportunidade sem precedentes para redefinir nossa abordagem à ação climática”.

“Acelerar a resposta global à crise climática é uma escolha política que devemos fazer agora. Temos as soluções ao nosso alcance, mas o progresso é constantemente obstruído pela indústria de combustíveis fósseis. As próximas NDCs vão definir o rumo para os próximos cinco anos; os últimos cinco ficaram muito aquém do necessário”, afirma David King, presidente do CCAG.

O Brasil se antecipou e apresentou na última sexta (8) a nova meta climática do país para os próximos dez anos, se comprometendo a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% em 2035, na comparação com os níveis de 2005. O anúncio foi feito às vésperas da 29ª Conferência do Clima da ONU (COP29), em Baku, no Azerbaijão, que teve início nesta segunda (11). O Brasil será anfitrião da próxima COP, que acontecerá no país em 2025, em Belém (PA). ⁠

Princípios orientadores do CCAG para NDCs de Alta Ambição:

Entrega equitativa: Devem priorizar a equidade em todos os níveis, protegendo as comunidades mais vulneráveis e assegurando que os benefícios da transição energética sejam amplamente compartilhados.

Implementação eficaz: Devem incluir planos detalhados sobre como transformar as promessas em ações concretas, além de abordar medidas de adaptação e estratégias para lidar com as perdas e danos causados pela mudança climática.

Financiamento climático: O financiamento climático deve ser um compromisso central, para que os recursos cheguem aonde são mais necessários, com mecanismos claros para redirecionar o financiamento público e privado para soluções climáticas.

Soluções práticas: O CCAG aponta que há ferramentas e tecnologias para combater as mudanças climáticas já disponíveis, e recomenda que as NDCs priorizem essas oportunidades imediatas de ação, ao mesmo tempo em que incentivem a inovação contínua e a escalabilidade das soluções em todos os setores.


Fonte: Agência Bori

Que NDC é essa? Nova meta climática do Brasil decepciona

Divergências entre os ministérios? O que levou o governo a divulgar a tão esperada nova promessa para o Acordo de Paris numa noite de sexta-feira?

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Por ClimaInfo

Sem uma cerimônia oficial, fato comum quando se trata de anúncios de grande relevância, e sem convocação da imprensa, o governo brasileiro divulgou a principal informação sobre a nova meta climática do país para a próxima década na noite de 6ª feira (8/11), por meio de um simples comunicado. Havia grande expectativa quanto à divulgação da meta de emissões antes da COP29 que começa hoje em Baku, no Azerbaijão. Mas a forma como isso foi feito indica divergências entre ministérios.

Segundo o comunicado, o Brasil se compromete a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% em 2035, em relação aos níveis de 2005. Isso equivale a reduzir as emissões para algo entre 850 milhões a 1,05 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) por ano. Sim, um inédito e estranho sistema de “bandas” de emissão.

Como isso será atingido? Só saberemos nas cenas dos próximos capítulos, já que nada mais foi divulgado. Espera-se agora que o detalhamento venha a ser feito pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, líder da delegação brasileira em Baku.

Os números conservadores e a ausência de detalhes decepcionaram especialistas e entidades socioambientais. Ainda mais considerando-se que o país sediará a COP30, cujo mote serão as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), ou seja, as metas de cada país para reduzir suas emissões e combater as mudanças climáticas. E sobretudo pela ambição brasileira de liderar a agenda climática, algo ainda mais importante após a vitória de Donald Trump e todo o seu negacionismo climático.

Segundo o comunicado do governo, a nova meta “está alinhada ao objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento médio do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial” e “permitirá ao Brasil avançar rumo à neutralidade climática até 2050, objetivo de longo prazo do compromisso climático”. Mas especialistas discordam esgrimindo conclusões do IPCC e promessas do próprio governo.

Segundo o painel de cientistas, para termos a chance de manter o aquecimento global sob o teto de 1,5°C, as emissões globais em 2035 teriam que ser 60% menores que as realizadas em 2019. Como as emissões brasileiras em 2019 foram de 1,7 GtCO2e, o teto das emissões brasileiras para 2035 seria de 680 MtCO2e.

O limite inferior da banda divulgada também não respeita os compromissos  já assumidos publicamente por Lula. Se levarmos em conta a promessa de desmatamento zero até 2030 feita pelo presidente; a recuperação de 12 milhões de hectares de florestas proposta no Planaveg; e o compromisso de redução de metano assinado na COP de Glasgow, as emissões em 2035 ficariam abaixo de 650 milhões de tCO2e.

Além de afirmar que os números da nova meta nacional são “desalinhados com a contribuição justa do Brasil para a estabilização do aquecimento global em 1,5°C”, o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, observou que no comunicado “foram omitidas informações cruciais para avaliar a ambição da nova NDC brasileira”, e pergunta no Valor: “Como será tratado o desmatamento? Como será tratada a expansão dos combustíveis fósseis? Qual será a contribuição dos setores da economia para o atingimento das metas?”

Sabemos dos compromissos e do trabalho árduo de Marina Silva e da equipe do Ministério do Meio ambiente, mas estaria o restante do governo – sua parte mais poderosa aliás – mais uma vez “abrindo a porteira” para o agronegócio, um dos setores que mais tem chiado e tentado se livrar do corte de emissões de carbono?

O Brasil formou uma troika com o Azerbaijão e os Emirados Árabes Unidos (sede da COP28) para defender a “missão 1,5” justamente para que os países, ao fazerem suas novas NDCs, comprometam-se com ações que não percam de vista esse limite de temperatura, lembra a Agência Pública. Isso apesar desse limite já estar prestes a ser superado neste ano, como projeta o observatório climático europeu Copernicus.

“Estamos em um momento crítico e esses números não inspiram para que, de fato, haja um movimento eficaz para o planeta não ultrapassar o limite de 1,5°C. Vindo do país-sede da COP30, isso é preocupante, pois esse é o momento para irmos além e mostrarmos que queremos virar o jogo”, ressaltou Ilan Zugman, diretor da 350.org na América Latina.

Quanto às bandas, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) defendeu o sistema, afirmando que o país precisa de “flexibilidade”, relata a Folha. E informou que o alvo do Brasil é cortar 67% das emissões em 2035 – ou seja, ficar nas 850 milhões de tCO2e. 

A explicação de Marina Silva não convenceu: “Vale o teto. Neste caso, o 1,05 GtCO2e para 2035, que representa um esforço baixo entre 2030 e 2035. O Brasil, que vive o drama climático atual e tem o ponto de inflexão da Amazônia no horizonte, precisa de mais redução. Esse nível de emissões nos mantém dentre os poucos que liberam mais de 1 gigatonelada ao ano para a atmosfera. É decepcionante”, disse Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa.

Pois é, vale perguntar: se 850 MtCO2e é o alvo, porque uma banda superior? Coisa do Rui Costa, ministro da Casa Civil e presidente do  Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima?

A nova meta climática brasileira também foi tema de matérias na CNNUOLAgência Brasilg1Brasil 247Globo RuralSul21Revista FórumEstado de MinasPoder 360Jornal HojeForbes e Brasil de Fato, entre outros.

ClimaInfo, 11 de novembro de 2024.


Fonte: ClimaInfo

Não há necessidade de os países emitirem novas licenças de petróleo, gás ou carvão, conclui estudo

Pesquisadores dizem que o mundo tem projetos de combustíveis fósseis suficientes planejados para atender às previsões de demanda até 2050 se o carbono zero for alcançado

oil rigEspera-se que o artigo reacenda as críticas ao governo conservador do Reino Unido, que prometeu centenas de licenças de exploração de petróleo e gás para impulsionar a indústria do Mar do Norte. Fotografia: Russ Bishop/Alamy 

Por Jillian Ambrose para o “The Guardian”

O mundo tem projetos de combustíveis fósseis suficientes planejados para satisfazer as previsões da procura global de energia até 2050 e os governos devem parar de emitir novas licenças de petróleo, gás e carvão, de acordo com um grande estudo dirigido a líderes políticos.

Se os governos concretizarem as mudanças prometidas, a fim de impedir que o mundo infrinja as suas metas climáticas, não serão necessários novos projetos de combustíveis fósseis, afirmaram na quinta-feira investigadores da University College London e do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD).

Os dados ofereceram o que disseram ser “uma base científica rigorosa” para os governos globais proibirem novos projectos de combustíveis fósseis e iniciarem um declínio controlado da indústria de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que encorajavam o investimento em alternativas de energia limpa.

Ao estabelecer uma “demanda clara e imediata”, os líderes políticos seriam capazes de estabelecer uma nova norma em torno do futuro dos combustíveis fósseis, contra a qual a indústria poderia ser responsabilizada “imediatamente”, disseram os pesquisadores.

Publicado na revista Science, o artigo analisou as previsões da procura global de energia para o petróleo e o gás, bem como para a electricidade proveniente do carvão e do gás, utilizando uma vasta gama de cenários compilados para o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que limitaram o aquecimento global a dentro de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

O estudo concluiu que, além de não necessitar de nova extração de combustíveis fósseis, não seria necessária nova geração de energia a carvão e gás num futuro líquido zero.

Espera-se que o jornal reacenda as críticas ao governo conservador do Reino Unido, que prometeu oferecer centenas de licenças de exploração de petróleo e gás para impulsionara indústria do Mar do Norte , uma política que emergiu como uma importante linha divisória com o Partido Trabalhista, da oposição, antes do 4º ano. Eleições gerais de julho.

Os trabalhistas prometeram pôr fim às novas licenças do Mar do Norte se chegarem ao poder, e também planeiam aumentar os impostos sobre os lucros obtidos pelos campos de petróleo e gás existentes para ajudar a financiar investimentos em projectos de energia verde através de uma nova empresa estatal, Grande Energia Britânica.

Dr. Steve Pye, coautor do relatório do UCL Energy Institute, disse: “É importante ressaltar que nossa pesquisa estabelece que existe uma base científica rigorosa para a norma proposta, mostrando que não há necessidade de novos projetos de combustíveis fósseis”.

“A clareza que esta norma traz deve ajudar a concentrar a política na ambiciosa expansão necessária do investimento em energias renováveis ​​e limpas, ao mesmo tempo que se gere o declínio da infra-estrutura de combustíveis fósseis de uma forma equitativa e justa”, disse Pye.

O relatório expandiu o trabalho da Agência Internacional de Energia (AIE), que alertou nos últimos anos que nenhum novo projeto de combustíveis fósseis era compatívelcom o objectivo global de construir um sistema energético líquido zero.

A AIE descartou qualquer novo investimento em projectos de combustíveis fósseis de longo prazo, mas reconheceu que seria necessário investimento contínuo em activos de petróleo e gás existentes e em projectos já aprovados.

Dr Fergus Green, do departamento de ciência política da UCL, disse: “Nossa pesquisa tira lições de mudanças passadas nas normas éticas globais, como a escravidão e os testes de armas nucleares. Estes casos mostram que as normas têm ressonância quando contêm exigências simples pelas quais os actores poderosos podem ser imediatamente responsabilizados.

“Objetivos complexos e de longo prazo, como ‘emissões líquidas zero até 2050’, não possuem essas características, mas ‘nenhum novo projeto de combustíveis fósseis’ é uma demanda clara e imediata, contra a qual todos os governos atuais e a indústria de combustíveis fósseis podem ser corretamente avaliados. .”

O chefe cessante do Comité das Alterações Climáticas do Reino Unido, Chris Stark, disse no mês passado que o conceito de emissões líquidas zero setornou um slogan político usado para iniciar uma guerra cultural “perigosa” sobre o clima, e que pode ser melhor abandoná-lo.

“Se for apenas um slogan, se for visto como uma espécie de caneta para uma série de questões culturais, então estou extremamente tranquilo quanto a abandoná-lo”, disse Stark. “Mantemos isso como uma meta científica, mas não precisamos usá-lo como um distintivo que mantemos em todos os programas.”

Green disse que uma posição política sobre o apoio a novos projetos de combustíveis fósseis deveria “servir como um teste decisivo” para saber se um governo estava a levar a sério o combate à crise climática. “Se estão a permitir novos projetos de combustíveis fósseis, então não são sérios”, acrescentou.


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Fonte: The Guardian

‘Polícia’ de combate ao desmatamento no Brasil entrou em greve – ameaçando metas climáticas

Os servidores de agências ambientais do governo federal interromperam as operações de campo e poderão interromper completamente o trabalho

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Grupo de fiscalização do Ibama encerra operação de mineração ilegal em floresta nacional brasileira em 2018. Crédito: Felipe Werneck/Ibama

Por  Meghie Rodrigues para a Nature 

No último mês, os trabalhadores das agências ambientais do governo federal estiveram parcialmente em greve: pararam de trabalhar no campo, onde realizam vigilância do desmatamento e ajudam a encerrar operações ilegais de mineração. Mas, se as suas exigências não forem satisfeitas, poderão em breve aumentar a pressão sobre o governo e parar completamente de trabalhar – o que poderá interromper a investigação que ajuda na elaboração de políticas ambientais.

Funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA), órgão de proteção ambiental do país; o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra as áreas protegidas do país; e o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) pedem desde 2017 mais recursos e melhores salários.

A administração do atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, emitiu no ano passado um aumento de 9% para todos os funcionários públicos depois que ele assumiu o cargo. Mas os trabalhadores ambientais não receberam aumento nos últimos sete anos, e o aumento salarial não é suficiente para conter a inflação, dizem eles. Seu sindicato, a Associação Brasileira de Carreiras Ambientais (Ascema Nacional), aponta que, de 2003 a 2023, cerca de 720 trabalhadores ambientais foram demitidos para ocupar outras funções governamentais – o que significa que os que permanecem estão sobrecarregados.

Como candidato presidencial em 2022, Lula prometeu atingir o desmatamento zero em todos os biomas brasileiros até 2030 . Para reduzir o desmatamento, as agências ambientais tiveram que reforçar as inspeções na floresta amazônica e em outros lugares. Os seus esforços até agora parecem ter ajudado: as taxas de desflorestação na Amazónia, que é crucial para conter as alterações climáticas porque absorve enormes quantidades de dióxido de carbono, caíram para o nível mais baixo dos últimos cinco anos em 2023 .

Não só estão sobrecarregados de trabalho, dizem os funcionários, mas a sua segurança também está em risco. No terreno, têm de lidar com pessoas ligadas ao crime organizado, como garimpeiros ilegais e grileiros de terras.

Bombeiros do Prevfogo/Ibama participam de operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019.

Trabalhadores do IBAMA e do ICMBio colaboraram em operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019. Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama

“Por causa da baixa remuneração, temos perdido pessoal para carreiras mais atraentes, até mesmo no serviço público”, diz Alexandre Gontijo, membro do conselho de administração da Ascema Nacional e especialista ambiental da BFS. “Nossas responsabilidades aumentam enquanto o número de servidores diminui e as coisas ficam mais difíceis à medida que o trabalho se acumula. Vigilar a Amazônia, por exemplo, não é uma tarefa trivial.”

A Ascema Nacional se reunirá com representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil e do Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos no dia 1º de fevereiro para discutir as demandas e se os trabalhadores irão suspender adicionalmente o trabalho administrativo.

Embora preocupados com as consequências, os pesquisadores brasileiros apoiam o movimento e apelam ao governo Lula para que invista nos seus trabalhadores. “Se o meio ambiente está no centro da política externa do Brasil, apoiar os trabalhadores na área deveria ser uma política interna fundamental”, diz Erika Berenguer, pesquisadora de incêndios na Amazônia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. “É fundamental valorizar quem coloca o próprio corpo na linha de frente.”

Em comunicado à Nature , o Ministério da Administração brasileiro disse que realizou 21 mesas redondas no ano passado para negociar com funcionários federais de vários departamentos. Disse ainda que está trabalhando dentro dos limites orçamentários para atender às demandas.

Sentindo os impactos

Funcionários do IBAMA entraram em greve no dia 2 de janeiro, e trabalhadores de outros órgãos ambientais fizeram o mesmo alguns dias depois. O seu objectivo era trazer o governo de volta à mesa de negociações. No passado mês de Outubro, a Ascema Nacional reuniu-se com o ministério da gestão, mas não foi alcançada qualquer resolução. “O governo prometeu nos dar uma resposta em 30 a 45 dias, mas não obtivemos nenhuma”, diz Cleberson Zavaski, presidente do sindicato e especialista ambiental do ICMBio.

Cerca de 90% de todos os especialistas ambientais federais estão participando da greve parcial, diz Zavaski. De acordo com o Painel de Estatística de Pessoal do Brasil e a Ascema Nacional, há cerca de 4.800 trabalhadores ambientais ativos nas agências federais do Brasil.

Após a greve, apenas 16 fiscais ambientais permanecem em campo no Brasil, dois dos quais estão na Amazônia, segundo o sindicato. E os impactos começam a ser sentidos: os fiscais emitiram 93% menos multas ambientais na Amazônia durante as duas primeiras semanas de janeiro do que no mesmo período do ano passado.

Mudança estrutural

O fato de a greve ter acontecido durante o mandato de Lula é surpreendente para alguns. Sob o seu antecessor – Jair Bolsonaro, um líder favorável à indústria – a desflorestação na Amazónia atingiu o máximo dos últimos 15 anos e mais de 180 mil multas ambientais, no valor de 1,3 mil milhões de reais (260 milhões de dólares), foram anuladas. “A perda de recursos e os ataques públicos dificultaram muito o nosso trabalho [sob Bolsonaro], mas fizemos um esforço de resiliência para continuar trabalhando”, diz Gontijo. “Aí entrou Lula e, embora tenhamos tido apoio institucional público e o fim dos ataques, não tivemos mudança estrutural.”

Em comunicado público no início deste mês , o Ministério do Meio Ambiente, que abriga os órgãos em greve, disse que, após negociações no ano passado, enviou ao Ministério da Gestão um pedido para realizar chamadas públicas para preencher cerca de 3.300 vagas de pessoal no IBAMA, ICMBio e Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Os pesquisadores estão ansiosos para que as negociações dêem frutos esta semana. Celso Silva Jr, pesquisador de sensoriamento remoto e uso da terra do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, em Brasília, afirma que a vigilância e a fiscalização são fundamentais para reprimir o desmatamento ilegal na Amazônia. A greve suscita preocupação “porque a reversão da actual tendência decrescente [na desflorestação] resultaria numa maior perda de biodiversidade e de emissões de carbono para a atmosfera”.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-00279-2


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

A produção planejada de combustíveis fósseis excede amplamente os limites das metas climáticas globais

Entre os 20 principais países produtores de combustíveis fósseis, os EUA, o Brasil e a Arábia Saudita prevêem aumentos significativos na produção interna de petróleo, enquanto a Rússia, a Índia e a Indonésia projectam aumentos substanciais na produção de carvão

Gas Exports Reckoning

Guindastes de construção são recortados ao pôr do sol no Terminal Golden Pass LNG em Sabine Pass, Texas, em abril de 2022. Golden Pass LNG, uma joint venture entre a ExxonMobil e a Qatar Petroleum, começou como um terminal de importação e a construção vista hoje criará capacidade de exportação. Crédito: The Washington Post via Getty Images

Por  Nicholas Kusnetz para o Inside Climate News

Os principais países produtores de combustíveis fósseis do mundo ainda planejam aumentar a sua produção de petróleo, gás e carvão muito além do que as metas climáticas mundiais permitiriam, de acordo com um novo relatório das Nações Unidas. 

As conclusões revelam uma lacuna cada vez maior entre as promessas de redução de emissões que estas nações fizeram e as suas políticas contínuas para promover a mineração e a perfuração dentro das suas fronteiras.

Embora a grande maioria dos países tenha adoptado compromissos de zero emissões líquidas para reduzir as suas emissões climáticas, os seus próprios planos e projeções colocam-nos no caminho certo para extrair mais do dobro do nível de combustíveis fósseis até 2030 do que seria consistente com a limitação do aquecimento a 1,5 graus. Celsius, e quase 70% mais do que seria consistente com 2 graus Celsius de aquecimento, de acordo com um relatório divulgado quarta-feira pelo Programa Ambiental da ONU. 

Os cientistas dizem que além de 1,5 graus de aquecimento, mudanças mais extremas e perigosas nos sistemas planetários tornar-se-ão cada vez mais prováveis.

Esta “disparidade de produção” entre a produção planejada e os objetivos climáticos é um aviso, afirma o relatório, de que a transição dos combustíveis fósseis continua fora de curso.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou as descobertas como “uma acusação surpreendente de descuido climático descontrolado”.

Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, disse num comunicado que acompanha o relatório que “os planos dos governos para expandir a produção de combustíveis fósseis estão minando a transição energética necessária para alcançar emissões líquidas zero, colocando em questão o futuro da humanidade”.

O relatório sobre a lacuna de produção de 2023, produzido por quatro grupos de reflexão sobre o clima em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, analisou os planos e projeções publicados pelos governos de 19 dos 20 maiores países produtores de combustíveis fósseis (os dados da África do Sul não estavam disponíveis). Os autores utilizaram esses dados para chegar a estimativas de produção global que compararam com a modelização do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas do fornecimento de combustíveis fósseis em vários cenários climáticos.

Esta lacuna de produção permaneceu praticamente inalterada desde 2019 , o primeiro ano em que os grupos publicaram o relatório. Os autores disseram que isso destacou o facto de que, apesar da maior ambição de introduzir formas de energia mais limpas, os governos ainda não começaram a lutar para decidir como irão cortar o fornecimento de combustíveis fósseis.

Embora muitas nações tenham anunciado metas climáticas mais ambiciosas, os subsídios aos combustíveis fósseis atingiram o seu nível mais elevado no ano passado, de acordo com o Fundo Monetário Internacional . Em alguns casos, os governos estavam a responder às consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, que fez disparar os preços das matérias-primas e reordenou os mercados globais de energia.

Funcionários da administração Biden, por exemplo, apelaram às empresas de petróleo e gás para aumentarem a produção para compensar a perda de produção russa e continuaram a apoiar novos terminais para exportar gás natural em todo o mundo. Esta expansão, disseram as autoridades, é necessária para ajudar a proteger a segurança energética e estabilizar os mercados.  Em outros casos, os governos continuam a apoiar a produção devido às receitas das quais dependem com a venda de petróleo, gás e carvão, ou ao seu desejo de reduzir as importações de energia.

Embora muitos desses argumentos possam ter mérito por si só, “quando você junta tudo isso, é isso que leva à lacuna de produção”, disse Michael Lazarus, principal autor do relatório e diretor do centro dos EUA no Instituto Ambiental de Estocolmo. durante uma apresentação para jornalistas.

A diferença continua a ser maior no caso do carvão, com os governos a prepararem-se para produzir 460% mais do combustível poluente em 2030 do que a meta de 1,5 graus permitiria. Para o petróleo, os planos do governo excedem o orçamento em quase 30 por cento, enquanto para o gás excedem-no em mais de 80 por cento.

Estas estimativas baseiam-se em modelos que pressupõem algum grau de sucesso para tecnologias que capturariam as emissões de dióxido de carbono das chaminés e as removeriam da atmosfera, o que significa que o mundo poderia continuar a utilizar pequenas quantidades de combustíveis fósseis durante mais tempo. Mas nenhuma destas tecnologias foi ainda implementada numa escala significativa, alertaram os autores, pelo que uma abordagem mais cautelosa exigiria a eliminação progressiva da produção de combustíveis fósseis ainda mais rapidamente do que a sua análise sugere.

Das 20 nações examinadas pelo relatório, 17 assumiram compromissos de neutralidade em carbono, mas nenhuma alinhou as suas políticas de produção de combustíveis fósseis com a limitação do aquecimento a 1,5 graus. O Brasil, a Arábia Saudita e os Estados Unidos prevêem aumentos significativos na produção interna de petróleo, enquanto o Qatar e a Rússia projectam os maiores aumentos na produção de gás. Para o carvão, a Índia, a Indonésia e a Rússia planeiam aumentos significativos, o que contrariaria as grandes reduções planeadas pela China e pelos Estados Unidos. No caso do petróleo e do gás, os únicos produtores que planeiam quedas significativas na produção são a Noruega e o Reino Unido.

O risco, afirma o relatório, é que os países invistam excessivamente no fornecimento de novos combustíveis fósseis, retardando a transição do carvão, do petróleo e do gás e potencialmente desperdiçando milhares de milhões de dólares em projetos que poderão ser desnecessários à medida que mais fontes de energia limpa forem disponibilizadas. No mês passado, a Agência Internacional de Energia disse que espera que a procura por todos os combustíveis fósseis atinja o pico nesta década.

Embora o relatório da ONU se concentre no risco para as nações, outro estudo divulgado esta semana examinou o risco que enfrentam os investidores e acionistas que apoiam as empresas petrolíferas cotadas na bolsa. Numa nova análise , a Carbon Tracker Initiative, um think tank financeiro centrado no clima, argumentou que as empresas petrolíferas não estão a conseguir antecipar o próximo pico da procura e o inevitável declínio que se seguirá e, como resultado, planeiam gastar centenas de milhares de milhões em investimentos que podem não proporcionar retornos.

“As empresas que planeiam uma forte procura de petróleo nas próximas duas décadas podem ser apanhadas de surpresa”, disse Mike Coffin, chefe de petróleo, gás e mineração da Carbon Tracker.

Apontando para as projecções da Agência Internacional de Energia, o relatório afirma que as empresas devem concentrar-se em projectos de petróleo e gás de curto prazo, diversificando os seus negócios ou devolvendo dinheiro aos accionistas, em vez de investir em novos fornecimentos.

A mensagem do relatório sobre a lacuna de produção é semelhante e aponta para alguns sinais de progresso. Canadá, China, Alemanha e Indonésia começaram a desenvolver cenários para alinhar a produção nacional com metas neutras em carbono, afirmou. A Colômbia, um produtor de petróleo, juntou-se recentemente a um grupo de países comprometidos com a eliminação progressiva da produção de petróleo e gás.

O relatório alerta que uma transição para o abandono dos combustíveis fósseis poderá, se não for devidamente planeada, impor encargos adicionais às nações mais pobres, que são altamente dependentes das receitas provenientes da produção. Para resolver esta questão, os autores apelaram às nações ricas e menos dependentes, como os Estados Unidos, para eliminarem gradualmente a produção mais rapidamente e também para ajudarem a financiar as transições nos países em desenvolvimento.

Um modelo emergente inclui as chamadas Parcerias para uma Transição Energética Justa, onde as nações ricas comprometem-se a financiar para ajudar os países a substituir os combustíveis fósseis por energia limpa. Os Estados Unidos e outros países formaram estas parcerias com a Indonésia, a África do Sul e o Vietname para eliminar gradualmente as centrais eléctricas a carvão.

O alinhamento dos planos para a produção de combustíveis fósseis com outros objectivos climáticos ajudaria a evitar os choques de preços e os desfasamentos entre a oferta e a procura que abalaram a economia global desde que a pandemia do coronavírus provocou uma queda acentuada no consumo de energia em 2020, afirma o relatório. Isso exigirá um nível de cooperação entre as nações que tem faltado até agora.

O Acordo de Paris foi notoriamente omisso sobre a produção de combustíveis fósseis, e as negociações recentes revelaram divergências sobre se os países estavam dispostos a comprometer-se com a eliminação progressiva do carvão, do petróleo e do gás. O novo relatório da ONU surge poucas semanas antes de as nações se reunirem novamente para a sua cimeira anual sobre o clima, no Dubai, e os autores disseram que uma das principais mensagens do relatório é que os negociadores finalmente adoptem metas para reduzir a produção.


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Este trecho escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Inside Climate News [Aqui!].

Registro Global de Combustíveis Fósseis escancara descompasso entre meta climática e novos projetos de exploração

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O Carbon Tracker e o Global Energy Monitor acabam de lançar o primeiro banco público de dados sobre produção e reservas de combustíveis fósseis, o chamado Registro Global de Combustíveis Fósseis. Além de reunir os dados totais da produção atual e reservas não exploradas, o registro traduz esses dados em emissões de gases de efeito estufa (GEE). Isso permite indicar o impacto dessas emissões potenciais sobre o orçamento de carbono, isto é, tudo que a humanidade ainda pode emitir antes de estourar a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento abaixo de 1,5C.

O Registro contém dados de 50.000 campos de exploração em 89 países, cobrindo 75% da produção global. As primeiras informações oferecidas por ele mostram que a atual produção e o consumo das reservas mundiais remanescentes levariam a 3,5 trilhões de toneladas de emissões de gases de efeito estufa. Este valor é mais de sete vezes o orçamento de carbono restante e mais do que todas as emissões produzidas desde a revolução industrial.

A ferramenta mostra que os EUA e a Rússia possuem, cada um, reservas de combustíveis fósseis suficientes para explodir todo o orçamento global de carbono, mesmo que todos os outros países tenham cessado a produção imediatamente. Dos 50.000 campos cobertos pelo registro, a fonte mais potente de emissões é o campo de petróleo de Ghawar na Arábia Saudita, que produz aproximadamente 525 milhões de toneladas de emissões de carbono a cada ano.

“O Acordo de Paris marcou um ponto de inflexão na governança climática internacional. O Registro Global é outro”, afirma Simon Kofe, Ministro da Justiça, Comunicações e Relações Exteriores de Tuvalu. “O Registro Global ajudará governos, empresas e investidores a tomar decisões para alinhar sua produção de combustíveis fósseis com o limite de temperatura de 1,5 e, assim, evitar concretamente o desaparecimento de nossas casas insulares.

Impacto na política

Até hoje, os esforços da diplomacia climática se concentraram na redução da demanda e do consumo de petróleo, gás e carvão, mas ignoraram a oferta desses combustíveis. O Acordo de Paris, por exemplo, não menciona em nenhum momento a produção de combustíveis fósseis, apesar de tais combustíveis representarem mais de 75% das emissões globais de GEE. A primeira mudança de direção veio na COP26, quando a criação do Registro Global ganhou o apoio da França, Suécia, Ilha de Nauru e Luxemburgo. Desde então, mais países estão se aproximando.

Os relatórios do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) estabeleceram o fato de que as projeções de produção de combustíveis fósseis superam grandemente o orçamento de carbono restante. A Agência Internacional de Energia também mostrou que não é possível desenvolver novos campos de exploração e que alguns campos existentes precisam ser desativados precocemente se quisermos limitar o aquecimento a 1,5C.

Mesmo assim, os formuladores de políticas e a sociedade civil careciam de dados específicos sobre o impacto de novas explorações sobre o orçamento de carbono e para balizar políticas de eliminação gradual. O Registro atende esta demanda e também será útil para informar agentes do mercado sobre quais ativos da indústria fóssil provavelmente ficarão encalhados.

Segundo os idealizadores, o Registro é totalmente neutro em termos de política e transparente em suas suposições e cálculos, e espera-se que, no devido tempo, ele se situe formalmente dentro do processo de elaboração de políticas climáticas internacionais. Eles também planejam incluir atributos econômicos, como impostos e royalties associados a ativos específicos. De acordo com a iniciativa, este passo é fundamental para que governos e sociedade civil administrem uma eliminação gradual e ordenada dessa produção em relação ao impacto na arrecadação.

“A ciência é cristalina. A transição para longe das economias alimentadas por combustíveis fósseis é fundamental para a sobrevivência das pessoas e do planeta”, afirma Inger Andersen, subsecretária geral das Nações Unidas e diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

“O Registro Global de Combustíveis Fósseis é um passo importante para fornecer insights aos formuladores de políticas e investidores ao embarcarmos em uma transição justa para longe dos combustíveis fósseis”, conclui a executiva da ONU.

“Saúdo a iniciativa de estabelecer um registro global aberto de combustíveis fósseis”, declara Patrick Graichen, secretário de Estado do Ministério Federal Alemão para Assuntos Econômicos e Ação Climática.

“Precisamos nos afastar dos combustíveis fósseis e nos aproximar de sistemas de energia sustentável para limitar o aquecimento global a 1,5°C enquanto construímos uma economia forte e inclusiva para o futuro”, continua Graichen. “É por isso que é ainda mais importante que quaisquer medidas de curto prazo que tomemos agora para enfrentar a crise energética sejam acompanhadas de uma expansão mais rápida da energia renovável – por exemplo, a construção de uma infra-estrutura para hidrogênio verde”.

Impostos versus produção

Uma das primeiras “aplicações híbridas” mapeia as emissões de combustíveis fósseis em relação a sua rentabilidade e localização em termos de PIB per capita, conforme o gráfico abaixo.

 A partir daí, três insights emergem. Grupos de carvão na parte inferior esquerda, refletindo sua menor rentabilidade e concentração em países de menor renda. Os produtores de petróleo se agrupam ao longo do topo do gráfico, já que o petróleo continua a proporcionar lucros muito maiores por unidade de energia do que o gás ou o carvão. Já a produção de combustíveis fósseis da OCDE (inferior, à direita) se caracteriza por uma rentabilidade relativamente baixa quando se considera a força geral das economias desses países.

A Carbon Tracker Initiative também trabalhou com a Iniciativa de Transparência das Indústrias Extrativas (EITI) para comparar as emissões geradas pela produção de combustíveis fósseis e os impostos pagos pelas empresas produtoras em 20 países membros da EITI, conforme o gráfico abaixo.

 

 Isto revela uma grande discrepância nos impostos por tonelada de emissões, com o Iraque gerando quase US$ 100 em impostos por tonelada de emissões, comparado a pouco mais de US$ 5 por tonelada no Reino Unido.

“Esta ferramenta tornará governos e empresas mais responsáveis por seu desenvolvimento de combustíveis fósseis, permitindo que a sociedade civil vincule facilmente as decisões de produção às políticas climáticas nacionais”, diz Mark Campanale, fundador do Carbon Tracker e presidente do Comitê de Direção do Registro. “O Registro também permitirá que bancos e investidores avaliem com mais precisão o risco de que determinados ativos fiquem encalhados”

“[O Registro] É um passo bem-vindo em direção a um acesso aberto a informações vitais sobre combustíveis fósseis”, afirma Suneeta Kaimal, Presidente e Diretora Executiva do Instituto de Governança de Recursos Naturais.”Agora os cidadãos e investidores em todos os lugares têm uma ferramenta essencial para responsabilizar governos e empresas por suas decisões”.

Montadoras estão sabotando meta climática de 1,5°C, mostra nova pesquisa

Fabricantes de automóveis fazem lobby contra a políticas alinhadas ao Acordo de Paris e não planejam produzir veículos elétricos no sul global

toyota

Toyota tem o pior nível de engajamento no cumprimento das metas climáticas

As maiores montadoras do mundo estão minando as metas climáticas globais ao não conseguirem atingir metas para a fabricação de veículos elétricos. Para isso, as empresas estariam fazendo lobby para prolongar a vida útil do motor de combustão interna, indica uma nova pesquisa do think tank InfluenceMap.

A pesquisa mostra ainda que as principais montadoras estão planejando descarregar a produção de veículos movidos a combustão interna em países pobres, principalmente na América do Sul. As empresas planejam produzir apenas 3% de veículos elétricos a bateria na América do Sul até 2029, sendo 8% na África e 9% na Índia. Mesmo as fabricantes mais ambiciosas da Europa, como a Volkswagen, estão preparadas para produzir muito poucos veículos elétricos nesses mercados emergentes chave.

As conclusões partiram de uma avaliação do engajamento climático de doze montadoras comparado aos indicadores de produção futura dessas empresas reunidos pela consultoria IHS Markit até 2029. Esse desempenho foi analisado em relação ao cenário de 1,5°C indicado pela Agência Internacional de Energia (AIE) para descarbonizar o setor de transportes.

Todas as doze empresas analisadas para esta pesquisa declararam publicamente seu apoio ao Acordo de Paris, mas apenas uma – Tesla – está engajada com uma política alinhada com os objetivos do acordo. Apenas duas – Tesla (100%) e Mercedes-Benz (56%) – estão executando uma transição para veículos elétricos a bateria (BEV) com a rapidez necessária para atender ao caminho de 1,5°C da AIE até 2029.

Ao analisar as previsões de produção de veículos, o relatório identifica uma ligação clara entre o engajamento das montadoras na política climática e as estratégias de produção. A Toyota, por exemplo, tem o engajamento mais negativo da política climática de todas as doze montadoras analisadas. Ela também tem o nível mais baixo de produção prevista de BEV.

“Esta pesquisa mostra que os mais atrasados são também os mais negativos quando se trata de defesa da política climática”, avalia Ben Youriev, analista sênior da InfluenceMap. “Quase todas as montadoras estão falhando em acompanhar a transição para emissões zero.”

Enormes diferenças regionais

Na União Européia, que tem algumas das políticas mais ambiciosas para descarbonizar o setor de transportes, os dados da IHS Markit mostram que 59% da produção local está prevista para ser veículos elétricos a bateria até 2029. Ainda assim, algumas montadoras como a BMW ainda lideram os esforços contra uma meta de emissões zero até 2035 proposta pela UE.

Os resultados dos Estados Unidos são quase uma completa inversão do cenário da União Europeia. Apenas duas montadoras de automóveis – Tesla (100%) e Volkswagen (57%) – planejam produzir veículos elétricos a bateria suficientes nos EUA para atingir a meta da AIE. Embora haja uma mudança limitada de veículos com motor de combustão interna para veículos elétricos, 65% dos veículos leves produzidos nos EUA ainda serão movidos por motores de combustão até 2029.

Por exemplo, 49% da frota da Toyota produzida na UE será de veículos elétricos a bateria até 2029, enquanto nos Estados Unidos é de apenas 4%. Ford (36%) e General Motors (28%) devem permanecer atrás das exigências do cenário de 1,5°C da AIE em sua produção mundial para veículos elétricos a bateria. Entretanto, a produção da Ford baseada na UE está prevista para 65% até 2029.

O que explica essas diferenças de atuação, segundo o estudo, é uma forte correlação entre a política governamental de eliminar gradualmente os veículos de passageiros com motor a combustão e a produção local de carros elétricos a bateria. Nos países onde a legislação está mais adiantada, haverá mais veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a maioria dos fabricantes de automóveis está engajada negativamente na política climática.

8 das 12 montadoras analisadas pontuaram um ‘D+’ ou abaixo no sistema de medição A-to-F do InfluenceMap em relação ao compromisso com as metas do Acordo de Paris. Segundo o estudo, essas montadoras se opuseram estrategicamente às políticas projetadas para regular e/ou eliminar progressivamente os veículos a combustão.

A Toyota é a montadora com a menor pontuação. Tesla (B) é o único fabricante de automóveis considerado como amplamente favorável à política climática alinhada com Paris, representando o claro líder do setor. As três empresas restantes – Volkswagen (C), Ford (C-) e General Motors(C-) – mostram um engajamento de política climática mista.

As associações industriais que representam montadoras nas principais regiões (EUA, UE, Alemanha, Japão e Reino Unido) têm um engajamento altamente negativo na política climática e são estrategicamente empregadas pelas montadoras para liderar esforços globais negativos de defesa contra a legislação climática.

“O último relatório do IPCC é claro que uma rápida ampliação dos veículos elétricos a bateria é fundamental para atingir as metas globais de mudança climática. No entanto, esta pesquisa destaca como os principais fabricantes de automóveis continuam entre os maiores opositores da política climática global.”, conclui Youriev.

A crise climática além das metas de cúpula

O movimento não deve se concentrar apenas nas metas climáticas, deve também falar sobre justiça

ventoinhasFoto: dpa/Jens Büttner

Por Lasse Thiele para o Neues Deustchland 

Limitar o aquecimento global “se possível” a 1,5 graus, ou pelo menos bem abaixo de 2 graus – esse é o objetivo declarado do acordo climático de Paris . Mas os números objetivos parecem sombrios. A cada ano que passa, a curva que teria que ser feita para entrar no curso no tempo fica mais íngreme. Mas essas convulsões revolucionárias não estão à vista. Portanto, é realista esperar que as metas sejam alcançadas mesmo que os sucessos da política climática sejam alcançados nos próximos anos. Provavelmente teremos que conviver com e na crise climática. A adaptação baseada na solidariedade faz parte da necessária mudança do sistema.

Ativistas climáticos e organizações ambientais sabem disso melhor. No entanto, as pessoas estão relutantes em falar sobre isso – por medo de serem mal compreendidas para significar que seria tarde demais de qualquer maneira. Porque para não piorar tudo, ainda é necessária uma proteção climática radical, e mesmo medíocre é melhor do que nada.

Adaptação ao que realmente deve ser evitado? Comunicar essa ambivalência é uma tarefa ingrata em um ambiente político e midiático em que mesmo as conexões mais simples são alegremente distorcidas. O fato de as metas climáticas oficiais terem sido aumentadas recentemente em muitos lugares (sem serem seguidas por uma ação correspondente) não facilita nada – grupos climáticos e ONGs dificilmente podem ficar para trás. Muitos temem que as distopias sejam difíceis de mobilizar. Portanto, fica principalmente com o otimismo estratégico do slogan impotente de que o próximo governo deve finalmente mudar tudo para melhor em 1,5 grau.

Essa tendência de tabular o futuro da crise climática é arriscada para o movimento interno e externo. A perspectiva do movimento – o medo de se esgotar em uma sensação de fracasso final – é abordada pelo grupo de justiça climática Ausgeco2hlt em um texto inteligente em seu site: “Não acreditamos em ‘tarde demais'”, escrevem eles, discutindo a limites do otimismo estratégico e a perspectiva da “esperança pela ação”. São necessárias alternativas sóbrias e combativas que permaneçam eficazes mesmo depois de não cumprirem as metas climáticas, porque não pensam apenas em termos de números de CO2.

Isso está ligado a uma verdade que não afeta apenas os ativistas: quando for tarde demais para evitar completamente a crise climática, o debate social sobre a justiça climática só começará realmente. Quem tem acesso a recursos cada vez mais escassos? Que fronteiras estão abertas a quem? Estão sendo tentadas experiências arriscadas de geoengenharia? Quão democraticamente, quão autoritárias são essas questões respondidas? A questão climática finalmente flui junto com a questão social, com o feminismo, o antirracismo e o antifascismo.

De fato, o mundo da crise climática está estruturado há muito tempo. A adaptação às consequências das mudanças climáticas não só sempre foi uma (difícil) linha principal de negociações nas cúpulas climáticas da ONU , mas está sendo impulsionada de forma bastante tangível por atores poderosos: por governos que, por um lado, estão construindo diques mais altos, mas por outro por outro lado, estão construindo cercas de fronteira mais altas. Dos serviços militares e secretos que estão se preparando para guerras de recursos e movimentos migratórios. De bancos e seguradoras que, por um lado, calculam os riscos de danos e, por outro, visam novas oportunidades de lucro.

Apenas a sociedade civil e o movimento climático têm pouco a dizer. A (in)justiça climática é pré-negociada aqui – na maioria das vezes intransparente, com tendência autoritária. Há uma necessidade urgente de contra-projetos para uma vida solidária na crise climática. Poderíamos realmente chegar “tarde demais” aqui se nos fixarmos em metas de graduação por muito tempo.

Muitas soluções climáticas »de baixo« já incluem adaptação – como fazendas solidárias que trabalham na segurança alimentar local. Mas onde governos, militares e corporações definem o rumo, os movimentos sociais não podem se limitar a projetos exemplares de nicho. Para lutar por justiça distributiva, saídas seguras e direitos democráticos para todos politicamente, mesmo tendo em vista um futuro difícil, devemos ousar o debate ingrato – de preferência junto com outros movimentos sociais.

compass

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

COP26: Pequenos passos, greenwashing e uma mancha feia

A conclusão da Conferência Mundial do Clima ” COP26 ” em Glasgow foi comentada na noite de sábado pelo especialista em clima Jan Kowalzig, que estava no local para a organização Oxfam

greenwashing

Os pequenos passos dados pela COP26 não devem nos levar à ilusão de que estamos voltando para casa com um verdadeiro sucesso. É amargo que, mais uma vez, os países mais pobres do sul global, particularmente afetados pela crise climática, tenham sido marginalizados. Seu apelo por apoio para lidar com os danos e a destruição causados ​​pelas mudanças climáticas – quando os limites da adaptação são atingidos – quase não foram ouvidos novamente. Com sorte, eles podem esperar um apoio técnico limitado nos próximos anos, por exemplo, ao planejar a reconstrução após severos desastres climáticos, mas não a ajuda financeira para a reconstrução em si. Com os custos crescentes dos danos econômicos conseqüentes, os países afetados permanecem sozinhos. Essa injustiça colossal é a mancha feia no resultado de Glasgow. 

O apelo da conferência a todos os países para que melhorem suas metas climáticas só será um sucesso se os países do G20 em particular também seguirem esse apelo. Ninguém pode sentar agora. Nenhuma das principais economias está atualmente preparada para contribuir de forma suficiente e justa para a proteção do clima necessária em todo o mundo, nem mesmo a Alemanha. Glasgow está enviando um sinal inequívoco para as negociações da coalizão em andamento em Berlim: o próximo governo federal deve apresentar imediatamente um plano robusto que colocará a Alemanha em um caminho compatível com o limite de 1,5 grau do Acordo de Paris. Especialmente o FDP e o SPD terão que mudar significativamente nas próximas semanas se não quiserem trair as resoluções de Glasgow nos pequenos detalhes de sua política de clientela.

Alguns dos resultados relativos à implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris são problemáticos. Em breve, créditos de CO2 não utilizados de antigos projetos de proteção climática com qualidade muitas vezes duvidosa poderão contar para as metas climáticas atuais dos países sob o Acordo de Paris sob os mecanismos do Protocolo de Kyoto. Mesmo assim, esse “ar quente” enfraqueceu o comércio de emissões europeu por meio do Protocolo de Kyoto. As novas regras também oferecem uma oportunidade para uma lavagem verde colossal para empresas que estabeleceram para si mesmas a meta de neutralidade climática, menos por insight e mais para fins de relações públicas.

Quase todos os dias na conferência, fora das negociações formais, houve anúncios e novas iniciativas, por exemplo, para eliminar gradualmente o carvão prejudicial ao clima ou acabar com o financiamento público de energias fósseis no âmbito da cooperação internacional. Essas iniciativas enviam o importante sinal de que a era dos assassinos do clima fóssil está chegando ao fim. Mas eles não devem esconder o fato de que só podemos colocar a crise climática sob controle se os governos traduzirem essas iniciativas voluntárias em um endurecimento de suas metas de proteção climática.

compass

Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Jungewelt” [Aqui!].

Por não ter nada de bom para dizer, Jair Bolsonaro foge da COP26 e vai fazer turismo na Itália. Pior para o Brasil

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Em meio ao caos econômico, sanitário e social em que o Brasil está metido neste momento, muito em parte por causa das desastrosas políticas ultraneoliberais adotadas pelo ministério da Economia sob o comando de Paulo Guedes, o presidente Jair Bolsonaro resolveu fugir da 26a. edição da Conferência do Clima que será realizada em Glasgow, capital da Escócia, a partir deste domingo (31/10).  Em vez de se juntar a maioria dos líderes mundiais que estarão na COP26 para discutir a adoção de políticas de mitigação (senão de controle) da crescente climática em que estamos metidos. Em vez disso, o presidente do Brasil resolveu dar uma de “Leão da Montanha”, saiu pela direita, e foi fazer turismo na Itália onde deverá participar como mero expectador da reunião anual do chamado G-20, que nesta edição não contará com a presença de Xi Jinping e Vladimir Putin.

Bolsonaro-Roma-29-10-21-868x644Para fugir da COP26, Jair Bolsonaro resolveu fazer turismo de rua na Itália

Ao contrário da reunião do G-20 que não trará medidas efetivas para o quer que seja, a COP26 deverá trazer uma série de resoluções que poderão sim afetar a forma pela qual a economia mundial funciona, pelo menos nos próximos anos. Nesse sentido, não estar presente na COP26 certamente não será benéfico para o Brasil, independente de quem seja o seu presidente em 2023. Ao se negar a discutir seriamente medidas de confronto da crise climática, o governo Bolsonaro está contribuindo para um maior aprofundamento do isolamento diplomático em que o Brasil já se encontra.

O fato é que ao se recusar a estabelecer propostas de controle das emissões de gases estufa, e objetivamente agir para aumentá-las, o governo Bolsonaro está levantando barreiras com nossos principais parceiros comerciais, inclusive a China (que, aliás, já impõe um congelamento na importação de carne brasileira). E é importante notar que, ainda que as decisões da COP26 fiquem aquém do que se precisa para conter o avanço da crise climática, países que são centrais no controle das emissões, como é o caso do Brasil, não serão poupados de cumprir suas responsabilidades. Em outras palavras, as barreiras que já sendo levantadas são apenas o princípio do que virá pela frente.

Finalmente, há que se observar a declaração do vice-ministro Hamilton Mourão que justificou a ausência de Jair Bolsonaro sob a alegação de que se fosse o presidente brasileiro seria alvo de apedrejamento, não havendo nada de prático que pudesse ser feito. Pelo jeito, o general Mourão, do alto de sua soberba, ainda não entendeu sobre o que significa ser apedrejado dentro da diplomacia mundial. A verdade é que até agora Jair Bolsonaro não foi sequer incomodado, apesar de todas as ações bizarras na área ambiental. No entanto, o castigo pode até tardar, mas virá. Pior para o Brasil.