Microplásticos de pneus: como partículas de desgaste afetam peixes e camarões em estuários

A tire is half submerged in a pool of water on a coastline. Tree trunks or wood pieces are also poking out of the sand in the background.

Por Mariana Figueiredo Nascimento para “NewEnergyBrasil” 

Sempre que um carro trava, faz uma curva ou simplesmente segue pela estrada, os pneus liberam fragmentos microscópicos de borracha. Com a chuva, esse resíduo vai parar em córregos e estuários – e, ao que tudo indica, representa um risco para a vida marinha muito maior do que os cientistas imaginavam.

Um estudo recente indica que essas partículas podem alterar a forma como peixes e camarões crescem, se alimentam e se comportam, sobretudo depois de passarem por um período de “envelhecimento” no ambiente.

Para se aproximar do que ocorre de fato nos cursos d’água, os investigadores expuseram duas espécies típicas de estuários a uma combinação de partículas de pneu envelhecidas e partículas “novas”, procurando evitar testes limitados a borracha fresca, sem uso.

Um poluente negligenciado

Quando o tema é microplásticos, a discussão costuma girar em torno de lixo de embalagens e microesferas.

Já os pneus quase nunca entram na conversa – apesar de figurarem entre as maiores fontes desse tipo de contaminação. Há trabalhos que sugerem que o desgaste de pneus pode responder por quase metade dos microplásticos encontrados tanto em ambientes terrestres como em sistemas aquáticos.

“Dirigir um carro ou até mesmo andar de autocarro é um pouco como arrastar uma borracha pelo planeta, só que as migalhas são microplásticos. Microplásticos tóxicos”, disse Britta Baechler, diretora de investigação em plásticos no oceano da Ocean Conservancy, à AGU.

Um motivo para a subestimação está na classificação. Só há pouco tempo a investigação ambiental passou a reconhecer os fragmentos de pneus como partículas nano e microplásticas; por isso, a dimensão real do problema provavelmente ficou subcontada durante anos.

O que realmente há em um pneu

Um pneu não é apenas “borracha”. Ele reúne borracha natural e sintética, além de químicos, aditivos e metais – componentes que, à medida que o pneu se desgasta, podem acabar a integrar a dieta de peixes e de outros animais marinhos.

Grande parte dos estudos existentes concentrou-se nos químicos provenientes de pneus novos, e não no material que o uso real na estrada gera. Com isso, permanece uma lacuna sobre o que, de facto, está a entrar nos cursos de água.

“Vai haver maior contaminação [por partículas de pneu] ao longo das bermas, por exemplo, e não apenas nos cursos de água”, disse à AGU Susanne Brander, ecotoxicologista da Universidade Estadual do Oregon.

As partículas menores tornam-se suspensas no ar assim que se formam. Depois, a chuva arrasta o restante do pavimento para sarjetas e bueiros, frequentemente conduzindo diretamente a mananciais de água doce.

“É aí que o ciclo começa. Essas partículas de pneu são pequenas, conseguem deslocar-se; algumas são transportadas pelo ar, outras pela água, e é assim que se tornam tão disseminadas”, afirmou Baechler à AGU.

Entre os ingredientes, um chama atenção pela toxicidade: o 6PPD, adicionado para evitar que a borracha rache, é capaz de matar salmões mesmo em concentrações surpreendentemente baixas.

Recriando as condições da estrada

Para simular o que realmente vai parar nos cursos de água, os investigadores usaram uma mistura de pneus que corresponde ao tráfego típico dos EUA: 14% de veículos utilitários leves, 41% de carros de passageiros e 45% de camiões e autocarros.

As partículas foram “envelhecidas” ao serem mantidas em suspensão em água com matéria orgânica e, em seguida, degradadas mecanicamente por meio de agitação e autoclavagem. Assim, formaram-se micropartículas entre 1 e 20 micrômetros e nanopartículas ainda menores.

Num segundo conjunto, o material foi processado para isolar o lixiviado – os compostos químicos libertados pelas partículas de pneu na água.

Para representar diferentes níveis de contaminação do mundo real, os investigadores expuseram larvas do peixe prateado-do-interior e camarões misídeos a uma faixa de concentrações de partículas de pneu e de lixiviado.

Efeitos em peixes e camarões

Em comparação com as partículas novas, as partículas de pneu envelhecidas levaram a taxas de ingestão consideravelmente maiores nas duas espécies.

“Observámos taxas de ingestão significativamente mais altas em ambas as espécies quando foram expostas a partículas de pneu envelhecidas”, disse à AGU a autora principal Clarissa Raguso, investigadora de pós-doutoramento em ciência marinha na Universidade Estadual de Portland.

Não houve mortalidade relevante em nenhuma das espécies, mas o material envelhecido reduziu o crescimento em ambas. Os camarões mostraram-se mais sensíveis: reagiram a quantidades menores de resíduo e, no total, consumiram mais partículas – provavelmente por se alimentarem no fundo.

“Fiquei surpresa com as respostas específicas de cada espécie”, disse Raguso. “Esperávamos que as partículas de pneu envelhecidas tivessem, de forma consistente, os efeitos mais fortes em ambas as espécies e em todos os desfechos.”

Também houve alterações comportamentais, mas não de maneira igual. Nos peixes, a resposta comportamental foi mais marcada com partículas novas; nos camarões, o impacto foi maior com as partículas envelhecidas.

“Embora tenhamos observado efeitos mais fortes em crescimento e ingestão em ambas as espécies, o aumento de alterações comportamentais associado ao envelhecimento só foi observado em [camarões misídeos], o que sugere que a vulnerabilidade à poluição por pneus varia entre espécies”, acrescentou Raguso.

Microplásticos na teia alimentar

Algumas exposições desencadearam hiperatividade e respostas ao estresse atenuadas; outras fizeram os animais desacelerarem. Em ambiente natural, qualquer uma dessas mudanças pode facilitar a captura por predadores ou atrapalhar alimentação e reprodução, com efeitos em cascata por toda a teia alimentar.

“Os camarões misídeos são um alimento muito importante para espécies críticas”, disse Brander à AGU. “As baleias-cinzentas, por exemplo, comem milhões desses organismos por dia.”

“Os peixes maiores que capturamos como alimento do mar comem misídeos. Mesmo que estejamos a olhar para esses peixes e camarões larvais pequenos que humanos não comem, eles são um caminho para chegar ao que nós comemos.”

Reduzindo a poluição por pneus

As soluções já começam a avançar. Uma linha de investigação procura formulações de pneus que libertem menos partículas nocivas durante o uso.

Na Universidade Estadual de Portland, outros grupos testam armadilhas concebidas para reter o resíduo de pneus no escoamento pluvial antes de ele alcançar ambientes marinhos. Em paralelo, um projeto distinto está a desenvolver dispositivos que capturam poeira de pneus diretamente nos veículos, antes mesmo de tocar no asfalto.

“Este estudo é importante porque aproxima a investigação sobre microplásticos das condições do mundo real, do tipo de partículas a que os organismos realmente ficam expostos na natureza”, disse Baechler à AGU.

“E compreender como essas partículas se comportam depois de envelhecerem é fundamental para avaliar o risco ecológico e orientar futuras estratégias de prevenção e mitigação.”


Fonte: NewEnergyBrasil

Microplásticos também estão na comida dos animais

Estudo encontrou contaminação em 76% dos alimentos comerciais analisados e revela uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas

A contaminação planetária por plásticos parece determinada a destruir, uma após outra, todas as fronteiras que imaginávamos capazes de nos separar dos resíduos produzidos pela sociedade capitalista. Depois de estudos científicos encontrarem microplásticos nos oceanos, rios, solos, atmosfera, alimentos e até em diferentes órgãos do corpo humano, um novo estudo mostra que eles também estão presentes na comida oferecida diariamente aos animais domésticos.

O estudo Microplastic prevalence in commercially available petfoods, publicado em maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, foi realizado por Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, pesquisadores das universidades britânicas de Sussex e Exeter e dos Laboratórios de Pesquisa do Greenpeace. O trabalho analisou 38 produtos comercializados no Reino Unido para cães, gatos e ouriços, abrangendo 19 marcas, diferentes faixas de preço e alimentos secos e úmidos. Para reduzir a possibilidade de que os resultados fossem explicados por episódios isolados de contaminação, os pesquisadores analisaram seis unidades de lotes diferentes de cada produto, totalizando 228 amostras.

Os resultados são muito preocupantes. Das 228 amostras analisadas, 27,6% continham microplásticos confirmados. Quando a análise passa para os produtos comerciais, o quadro se torna ainda mais expressivo: 76,3% dos 38 produtos apresentaram pelo menos uma amostra contaminada e quase metade teve duas ou mais amostras positivas. Entre as 19 marcas analisadas, apenas três não apresentaram microplásticos.

E mesmo esses números podem representar uma subestimativa. Os pesquisadores analisaram apenas um grama de alimento por embalagem, e a metodologia empregada não era capaz de detectar as partículas de dimensões muito pequenas. Uma investigação de volumes maiores e com técnicas mais sensíveis poderia, portanto, revelar uma contaminação ainda mais ampla. 

Por outro lado, os pesquisadores  também encontraram 95 partículas confirmadas de microplásticos, com dimensões entre 0,09 e 3,8 milímetros. As fibras representaram 60% das partículas, enquanto os fragmentos corresponderam aos 40% restantes. Entre os polímeros mais frequentes estavam o poliéster, a poliacrilamida, o polipropileno e o polietileno, materiais associados à produção têxtil, aos processos industriais e às embalagens.

Essa diversidade  de microplásticos sugere que não existe uma única fonte de contaminação. Os microplásticos podem estar entrando nos alimentos por meio dos ingredientes utilizados na fabricação das rações, do desgaste de máquinas, dos ambientes industriais e das próprias embalagens. O poliéster, o polímero mais frequente, pode chegar à cadeia alimentar inclusive por meio da aplicação de lodo de esgoto contaminado em solos agrícolas. Já o polietileno e o polipropileno podem ser liberados durante o processamento, o transporte, o manuseio e a abertura dos pacotes.

Um dos resultados mais inquietantes se refere à composição dos alimentos. Dos 21 produtos que continham os chamados “derivados de carne e de origem animal”, 90,4% apresentaram pelo menos uma amostra positiva para microplásticos. Os três produtos com pior desempenho — aqueles nos quais cinco das seis amostras estavam contaminadas — continham esses derivados.

Os autores também encontraram maior frequência de contaminação nos produtos mais baratos. Isso não significa, entretanto, que comprar rações mais caras resolva o problema, pois os microplásticos apareceram em todas as faixas de preço e em diferentes tipos de alimento. O preço parece influenciar a probabilidade de contaminação, mas não oferece qualquer garantia de proteção.

À primeira vista, os alimentos secos pareceriam representar o maior risco, pois apresentaram mais partículas por grama. Entretanto, quando os pesquisadores calcularam a exposição diária efetiva, o quadro se inverteu. Como os alimentos úmidos possuem menor densidade energética, os animais precisam consumir uma quantidade maior para obter a mesma quantidade de energia e, com isso, acabam ingerindo mais microplásticos.

O problema não termina no organismo dos animais. Parte dos microplásticos ingeridos é eliminada pelas fezes, que podem permanecer diretamente no ambiente ou ser destinadas à compostagem. Com isso, a ração contaminada se transforma em uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas.

Essa circulação torna-se ainda mais complexa porque alimentos destinados a cães e gatos também são consumidos por animais silvestres. Raposas, texugos e ouriços visitam jardins urbanos e comem alimentos deixados por seres humanos, enquanto centros de reabilitação da fauna utilizam grandes quantidades de rações comerciais. O que parecia ser apenas uma questão de segurança alimentar dos animais domésticos passa, portanto, a constituir também um problema ecológico.

O fato é que o estudo de Thrift e seus colegas mostra que a poluição por plásticos alcançou um estágio no qual aquilo que descartamos retorna continuamente para dentro dos sistemas vivos. O plástico presente nos ingredientes, máquinas, tecidos ou embalagens entra no alimento, é consumido pelos animais, circula pelos organismos e retorna ao ambiente por meio das fezes. A conclusão talvez seja a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais incômoda: não existe um “fora” para onde possamos mandar o plástico. Ele volta. E agora sabemos que também volta na tigela de comida dos animais que vivem conosco.

O artigo “Microplastic prevalence in commercially available petfoods”, de Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, foi publicado em 21 de maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, pode ser baixado [Aqui!].

A violência lenta dos microplásticos já alcançou a Amazônia Azul

Pesquisa publicada no Journal of Soils and Sediments identifica contaminação em todos os pontos analisados no litoral baiano e mostra que a degradação dos ecossistemas marinhos avança muito antes de aparecer nas manchetes

A poluição por microplásticos deixou há muito tempo de ser um problema restrito aos grandes centros urbanos ou às regiões industriais. Um estudo recém-publicado no Journal of Soils and Sediments mostra que essa contaminação já está disseminada nos sedimentos marinhos da chamada Amazônia Azul, conceito utilizado para designar a vasta zona econômica exclusiva brasileira no Atlântico. A pesquisa, conduzida por Rayane Sorrentino e colaboradores, analisou sedimentos de diferentes regiões do litoral da Bahia e encontrou microplásticos em todos os locais amostrados, sem exceção.

À primeira vista, os números podem parecer modestos quando comparados a áreas extremamente degradadas do planeta. Foram identificados 270 microplásticos por quilograma de sedimento seco, variando entre 8 e 90 partículas por quilograma conforme o local analisado. Mas a relevância do estudo não está apenas na quantidade encontrada. O verdadeiro alerta reside no fato de que mesmo áreas reconhecidas por sua elevada biodiversidade e importância ecológica já apresentam um nível consistente de contaminação, demonstrando que praticamente não existem mais ambientes costeiros livres da presença desse novo poluente planetário.

Outro aspecto que merece destaque é o predomínio das microfibras, responsáveis por aproximadamente dois terços de todas as partículas identificadas. Esse resultado aponta diretamente para uma das principais fontes contemporâneas de poluição: os tecidos sintéticos utilizados pela indústria da moda. A simples lavagem de roupas produzidas com poliéster, poliamida e outros polímeros libera milhares de microfibras que passam pelos sistemas convencionais de tratamento de esgoto e acabam sendo transportadas para rios, estuários e, finalmente, para o oceano. Não se trata apenas de lixo plástico descartado inadequadamente, mas de uma forma contínua e invisível de contaminação produzida diariamente pelo próprio funcionamento da economia contemporânea.

Os autores também identificaram uma tendência de maiores concentrações de microplásticos nas áreas mais urbanizadas, especialmente em Salvador e Itaparica. Embora a correlação estatística com a densidade populacional não tenha alcançado significância, a distribuição espacial dos resultados indica que o crescimento urbano, o lançamento insuficientemente tratado de esgoto, a drenagem pluvial e o turismo intenso constituem importantes vetores da poluição marinha. Em outras palavras, os microplásticos acompanham o avanço da urbanização desordenada e das deficiências históricas da infraestrutura sanitária brasileira.

Talvez o aspecto mais inquietante do estudo seja justamente aquilo que ele não consegue medir plenamente. Os pesquisadores reconhecem que as limitações analíticas impediram a identificação química de muitas partículas extremamente pequenas. Isso significa que a contaminação observada provavelmente representa apenas uma fração do problema real. À medida que os plásticos continuam sofrendo fragmentação física e química no ambiente, transformam-se em partículas cada vez menores, potencialmente mais biodisponíveis e mais facilmente incorporadas por organismos marinhos ao longo da cadeia alimentar.

Esse processo merece atenção especial porque os microplásticos já não são considerados apenas resíduos inertes. Hoje se sabe que eles funcionam como vetores de contaminantes químicos, metais pesados e microrganismos patogênicos, além de liberarem aditivos utilizados durante sua fabricação. Dessa forma, cada pequena partícula pode atuar como um veículo de múltiplas formas de contaminação ambiental e alimentar.

No caso brasileiro, o trabalho ganha importância adicional por demonstrar que a degradação da Amazônia Azul ocorre de maneira silenciosa e cumulativa. O debate público costuma concentrar-se em grandes desastres ambientais, como derramamentos de petróleo, rompimentos de barragens ou episódios de mortandade de peixes. Entretanto, a poluição por microplásticos representa um tipo distinto de ameaça: difusa, permanente e praticamente invisível. Todos os dias milhões de partículas chegam ao ambiente marinho sem provocar manchetes ou mobilizações políticas, mas acumulam-se lentamente nos sedimentos e nos organismos que sustentam a biodiversidade e a pesca costeira.

Esse caráter gradual aproxima a contaminação por microplásticos do conceito de violência lenta, formulado pelo pesquisador Rob Nixon. Ao contrário das catástrofes espetaculares, a violência lenta se manifesta por processos ambientais que evoluem quase imperceptivelmente ao longo do tempo, acumulando danos que acabam recaindo de forma desproporcional sobre populações costeiras, pescadores artesanais e comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas marinhos para sua sobrevivência. É justamente essa invisibilidade que torna o problema tão difícil de enfrentar politicamente.

O estudo de Sorrentino e colaboradores reforça, portanto, uma constatação incômoda: o Brasil continua tratando seus oceanos como receptores passivos dos resíduos produzidos pelo atual modelo de desenvolvimento. Enquanto o país celebra a expansão da chamada economia azul e projeta novos investimentos em infraestrutura portuária, exploração offshore e turismo costeiro, a contaminação por microplásticos avança silenciosamente sobre ecossistemas cuja recuperação poderá levar décadas, talvez séculos. A Amazônia Azul, frequentemente apresentada como patrimônio estratégico nacional, já revela sinais de uma degradação que não pode mais ser considerada um problema do futuro. Ela já está presente nos sedimentos do presente.

Girinos da Amazônia já carregam microplásticos, revela estudo

Perereca-de-banheiro. Imagem: Taucce et al., 2022, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Por David Brown para “Mongabay Brasil” 

Pela primeira vez, pesquisadores encontraram microplásticos em girinos e nos corpos d’água que lhes servem de habitat na Amazônia, segundo um novo estudo. A descoberta reforça evidências de contaminação por microplásticos na floresta amazônica, afirmam os pesquisadores.

Estudos anteriores realizados na região já haviam detectado contaminação por microplásticos em peixes, invertebrados, amostras de solo e de água.

No estudo mais recente, a ecologista Fabrielle Barbosa de Araújo, da Universidade Federal do Pará, e seus colegas coletaram amostras de água de cinco poças temporárias no solo do Parque Ecológico do Gunma, na Região Metropolitana de Belém. Essas poças, formadas pelo acúmulo de água da chuva, são importantes áreas de reprodução e desenvolvimento de girinos de várias espécies de anfíbios na Amazônia.

Em cada um dos cinco corpos d’água, os pesquisadores também coletaram cem girinos da perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), espécie encontrada tanto em áreas florestais quanto urbanas com ampla distribuição na América do Sul.

Microplásticos foram encontrados em todas as poças e em todos os girinos analisados. A maioria das partículas era composta por fibras plásticas, como poliéster, principalmente transparentes, azuis e pretas. Estudos anteriores também identificaram fibras semelhantes em diferentes partes da Amazônia, possivelmente oriundas de esgoto sanitário e atividades pesqueiras.

Em entrevista por e-mail à Mongabay, Araújo disse que não ficou surpresa ao encontrar microplásticos nos girinos e em seus habitats. “O que realmente chamou nossa atenção foi a grande quantidade encontrada, principalmente porque esta é uma área com baixa densidade populacional humana e considerada relativamente bem preservada”, afirmou.

Araújo disse estar especialmente preocupada com a presença de microplásticos nos girinos porque “a contaminação pode afetar negativamente a saúde dos anfíbios, causando danos genéticos e morfológicos, como alterações nas células sanguíneas e no próprio DNA”. Segundo ela, as partículas também podem se acumular nos tecidos e provocar alterações fisiológicas nos anfíbios.

Os autores observam que os girinos da perereca-de-banheiro se alimentam de algas, fungos e ovos presentes na água, o que pode ajudar a explicar a ingestão dos microplásticos.

“As pesquisas sobre a presença de microplásticos na Amazônia se intensificaram nos últimos anos, e o nosso objetivo é continuar monitorando essa contaminação, principalmente em girinos de anuros, a fim de entender melhor como esse poluente está afetando a biodiversidade da nossa região”, disse Araújo.

“Este estudo apresenta as primeiras evidências de que microplásticos estão alcançando girinos na Amazônia, uma região sobre a qual temos muito poucos dados”, disse à Mongabay Jess Hua, pesquisadora de ecologia de água doce e de anfíbios que não participou do estudo.

“Isso é importante porque os anfíbios representam o grupo de vertebrados mais ameaçado e, para sua conservação, é fundamental entender as ameaças potenciais, incluindo os microplásticos.”

Hua acrescentou que a contaminação por microplásticos em ecossistemas de água doce ainda é muito menos estudada do que em ambientes marinhos.

Por mais informação informação sobre o problema da contaminação de microplásticos na Amazônia, clicar [ Aqui!].


Fonte: Mongabay Brasil

1º Simpósio Internacional de Microplásticos em Ecossistemas Aquáticos

O 1º Simpósio Internacional de Microplásticos em Ecossistemas Aquáticos (SIMEA) e o 1º Workshop de Coleta, Caracterização e Aplicações de Técnicas Nucleares para Mitigação de Microplásticos (NuclearMicro) integrará cientistas, tecnólogos, gestores públicos, legisladores, profissionais de saneamento e o terceiro setor para debater o impacto do descarte inadequado de plásticos em rios, lagoas, estuários e oceanos.

Reciclagem ‘agrava problema dos microplásticos’

A Changing Markets Foundation revela que o poliéster reciclado gera 55% mais poluição por microplásticos.
Imagem do site da Patagonia. 
Por Brendan Montague para “The Ecologist”

Uma nova investigação revelou que a estratégia ambiental do setor da moda está agravando a poluição por microplásticos.

Mais de cem marcas afirmam que o poliéster reciclado proveniente de garrafas de plástico descartadas pode ajudar a reduzir a poluição e outros problemas ambientais. Adidas, H&M, Puma e Patagonia substituíram quase todo o poliéster virgem por poliéster reciclado em suas linhas de produção por motivos de sustentabilidade.

Mas uma nova pesquisa laboratorial , publicada hoje pela organização sem fins lucrativos Changing Markets Foundation , descobriu que o poliéster reciclado cria, em média, 55% mais partículas de poluição microplástica durante a lavagem do que o poliéster virgem, que é menos quebradiço. 

Organismos

Constatou-se também que as partículas eram quase 20% menores, o que as tornava mais capazes de se espalhar no ambiente e causar danos. 

Urska Trunk, gerente sênior de campanhas da Changing Markets Foundation, afirmou: “A indústria da moda vem vendendo poliéster reciclado como uma solução ecológica, mas nossas descobertas mostram que isso está agravando o problema da poluição por microplásticos. 

“Isso expõe o poliéster reciclado pelo que ele é: uma cortina de fumaça da sustentabilidade que encobre a crescente dependência da moda em relação aos materiais sintéticos.” 

“Ajustes de design mais inteligentes e correções pontuais apenas arranharão a superfície. Soluções reais significam desacelerar e eliminar gradualmente a produção de fibras sintéticas e interromper o desvio de garrafas plásticas para a fabricação de roupas descartáveis.”

Um único ciclo de lavagem pode liberar até 900.000 fibras de microplástico. Os microplásticos estão tão disseminados que são encontrados nos locais mais extremos e circulam em todos os ambientes: solo, ar, água e organismos vivos. Foram encontrados em diversos órgãos humanos e estão associados a um número crescente de problemas de saúde.

Vestuário

O poliéster reciclado é uma cortina de fumaça da sustentabilidade que encobre a crescente dependência da moda em relação aos materiais sintéticos. 

O estudo focou em um número relativamente pequeno de peças de roupa de cinco grandes marcas, e os resultados fornecem apenas uma indicação das prováveis ​​taxas de poluição. Camisetas, blusas, vestidos e shorts vendidos pela Adidas, H&M, Nike, Shein e Zara foram testados. 

O estudo é o primeiro a comparar marcas em relação à poluição por microplásticos, segundo a Changing Markets. As marcas estão entre as maiores produtoras e usuárias de tecidos sintéticos do mundo da moda, de acordo com uma pesquisa recente da Changing Markets . 

As roupas de poliéster da Nike foram consideradas as mais poluentes, tanto para tecido virgem quanto para tecido reciclado. O poliéster reciclado da marca liberou, em média, mais de 30.000 fibras por grama de amostra de roupa, quase quatro vezes a média da H&M e mais de sete vezes a média da Zara.

As roupas da Shein também se destacaram. Suas peças de poliéster reciclado liberam microplásticos em uma taxa semelhante à das roupas de poliéster virgem.

Superprodução

Mesmo antes das descobertas de hoje, ambientalistas já haviam concluído que a campanha da indústria da moda em prol do poliéster reciclado era, em grande parte, uma estratégia de marketing verde. 

Os sistemas de reciclagem de roupas de poliéster são considerados “ importantes ”, mas também “em desenvolvimento”, sendo capazes de processar apenas “cerca de dois por cento de todo o poliéster reciclado”. Em contrapartida, o setor de bebidas pode reutilizar repetidamente garrafas plásticas descartadas, mas agora precisa competir com as marcas de moda por elas. 

Entretanto, o uso de poliéster virgem na moda está crescendo tão rapidamente que a participação do poliéster reciclado no ano passado chegou a cair . O baixo custo dos tecidos sintéticos, agora produzidos em níveis recordes , impulsionou uma enorme superprodução, superconsumo e desperdício.

Um porta-voz da Puma disse: “Os resultados dos nossos testes de liberação de fibras em tecidos 100% poliéster reciclado e 100% poliéster virgem mostram que o poliéster reciclado não libera consistentemente mais ou menos microfibras do que o poliéster virgem.”

Um porta-voz da H&M disse ao The Ecologist : “Acreditamos que as microfibras precisam ser abordadas em várias etapas de nossa cadeia de valor, incluindo design, produção, uso e descarte, e é por isso que cooperamos com outras partes interessadas para encontrar soluções eficazes.”

O Ecologist entrou em contato com a Adidas e a Patagonia para obter um posicionamento.

Este autor

Brendan Montague é editor da revista The Ecologist.


Fonte: The Ecologist

Estudo sugere que microplásticos impulsionam o acúmulo de placas nas artérias de camundongos machos

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Por Shanon Kelleher para “The New Lede” 

De acordo com um novo estudo, a exposição a minúsculas partículas de plástico presentes no meio ambiente pode acelerar o acúmulo de placas nas artérias de ratos machos, uma condição que leva a doenças cardíacas.

O estudo , publicado em 17 de novembro na revista Environment International , constatou aumentos significativos na formação de placas nas artérias de ratos machos expostos a fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros de comprimento, chamados microplásticos, em doses semelhantes às que encontrariam no meio ambiente.

Os pesquisadores afirmaram ter encontrado também alterações em tipos de células relacionados e genes ativados ligados ao acúmulo de placas, embora os ratos não tenham desenvolvido obesidade ou colesterol alto, condições associadas à doença.

As ratas não foram afetadas da mesma forma. Os autores sugeriram que o estrogênio pode ter tido um efeito protetor nas ratas do estudo, poupando suas artérias do acúmulo de placas induzido por microplásticos.

“Este estudo enfatiza a importância de limitar a exposição humana às fontes de microplásticos e de implementar abordagens para limitar sua produção”, disse Timothy O’Toole, professor associado de medicina da Universidade de Louisville, que não participou do estudo.

Microplásticos são liberados por inúmeros produtos do dia a dia, incluindo roupas, embalagens e itens plásticos, contaminando alimentos, água e ar em todo o mundo, no que especialistas chamam de crise da poluição plástica. Representantes de países de todo o mundo se reuniram em Genebra, na Suíça, em agosto, para discutir pela sexta vez um tratado para combater a crise, mas não conseguiram chegar a um acordo .

O novo estudo soma-se a um crescente conjunto de pesquisas alarmantes que mostram que os microplásticos estão se acumulando no cérebro , pulmões, rins, articulações, vasos sanguíneos e outras partes do corpo humano. As descobertas vêm na sequência de um relatório de 6 de novembro que constatou que os impactos na saúde humana associados ao uso de plásticos nos EUA podem totalizar US$ 930 bilhões, e de um relatório separado de agosto que alerta que os plásticos são responsáveis ​​por cerca de US$ 1,5 trilhão em custos anuais relacionados à saúde em todo o mundo.

As novas descobertas também ajudam a esclarecer o papel dos microplásticos nas doenças cardíacas, sugerindo que eles estão diretamente envolvidos no início ou na progressão da formação de placas, disse O’Toole. “Embora a presença de microplásticos de vários tipos tenha sido identificada em vasos sanguíneos e corações doentes, e os níveis desses microplásticos tenham sido associados à gravidade da doença e à probabilidade de futuros desfechos adversos, seu envolvimento direto em doenças cardiovasculares era incerto”, afirmou.

Um estudo realizado por O’Toole e sua equipe, publicado em abril de 2024 na revista Circulation Research , descobriu que camundongos machos que receberam água contaminada com poliestireno, um plástico amplamente utilizado, apresentaram maior acúmulo de gordura nas válvulas cardíacas após 20 semanas do que camundongos machos que receberam água normal para beber (o estudo não avaliou camundongos fêmeas).

As conclusões de ambos os estudos abordam “questões justificáveis” levantadas em um artigo de março de 2024 do New England Journal of Medicine (NEJM) “sobre se os microplásticos causam a doença ou são apenas espectadores”, disse Matthew Campen, pesquisador de ciências da saúde da Universidade do Novo México e um dos autores do estudo publicado na Environment International .

O estudo publicado no NEJM comparou os resultados de saúde em mais de 250 pacientes com ou sem microplásticos e partículas ainda menores, chamadas nanoplásticos, em suas artérias. Os pesquisadores descobriram que pacientes com placas na artéria carótida contendo partículas de plástico apresentavam maior risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou morte por qualquer causa após um acompanhamento de quase três anos, em comparação com aqueles em que as partículas não foram detectadas.

“É importante ressaltar que nossos resultados não comprovam causalidade”, escreveram os autores do estudo publicado no NEJM , observando que as descobertas podem ser influenciadas por riscos de outros tipos de exposição ao longo da vida do paciente, bem como por seu estado de saúde e comportamentos.

Imagem em destaque: Zyanya Citlalli via Unsplash .


Fonte: The New Lede

Custos sociais do plástico nos EUA podem ultrapassar US$ 1 trilhão anualmente, mostra relatório

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede” 

A produção, o uso e o descarte de plástico geram custos sociais de até US$ 1,1 trilhão para os Estados Unidos a cada ano, sendo a maior parte deles devido aos impactos na saúde humana, segundo um novo relatório da Universidade Duke, que classifica esse valor como uma estimativa “conservadora”.  

O relatório , publicado em 6 de novembro por cinco pesquisadores da Universidade Duke, conclui que os impactos na saúde humana associados ao uso de plásticos podem chegar a US$ 930 bilhões, com a exposição a substâncias químicas tóxicas presentes nos materiais ligada a despesas com saúde, morte prematura e uma força de trabalho menos produtiva, além de custos adicionais com saúde relacionados à extração de combustíveis fósseis usados ​​na fabricação de plásticos.

Segundo o relatório, as emissões nocivas de gases de efeito estufa geradas pela indústria de plásticos podem custar aos EUA até quase US$ 16 bilhões por ano, já que contribuem para eventos climáticos extremos e outros custos relacionados ao clima. Outros custos estão ligados ao descarte de resíduos plásticos em aterros sanitários e à limpeza do lixo plástico, bem como aos impactos dos detritos plásticos nos oceanos sobre as indústrias marítimas.

De forma geral, os pesquisadores estimaram os custos sociais anuais associados à produção e ao uso de plástico entre US$ 436 bilhões e US$ 1,109 trilhão, mas consideraram as estimativas “provavelmente subestimadas” devido à falta de dados. 

“Os preços que os consumidores pagam por produtos de plástico não contam toda a história dos seus custos”, disse Nancy Laure, cientista da Clínica de Direito e Política Ambiental da Universidade Duke e uma das autoras do relatório, em um comunicado. “Os subsídios aos combustíveis fósseis mantêm os plásticos relativamente baratos nos Estados Unidos. Mas, como nosso relatório revela, os verdadeiros custos econômicos, ambientais e de saúde para a sociedade são muito maiores.”

Os autores escreveram que as intervenções políticas devem reduzir tanto a oferta de novos plásticos quanto a demanda por produtos plásticos, observando que a falta de atenção às preocupações com o plástico pode levar a um custoso “jogo de soma zero”.

O relatório, baseado em uma análise de dados disponíveis realizada em julho, examinou todo o ciclo de vida dos plásticos, desde a extração e produção de combustíveis fósseis até o uso, descarte e “má gestão”.

O relatório da Duke surge na sequência de um relatório publicado em agosto na revista The Lancet, que classificou os plásticos como um perigo “grave” para os seres humanos e para o planeta, estimando que esses materiais resultam em custos de saúde no valor de 1,5 biliões de dólares em todo o mundo a cada ano. Apenas cerca de 5% dos plásticos são reciclados nos EUA, e prevê-se que a utilização global de plástico triplique até 2060 em comparação com os níveis de 2019.

Evidências científicas mostram cada vez mais que fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros de comprimento, chamados microplásticos , se acumulam em diversos órgãos humanos, incluindo cérebro , testículos , pulmões, fígado e rins, e alguns estudos sugerem que eles podem aumentar o risco de várias doenças. Os microplásticos se formam quando pedaços maiores de plástico se quebram em partículas menores ou podem vir de minúsculas esferas encontradas em produtos de higiene e beleza.

Alguns estados e municípios estão tentando tomar medidas para reduzir o uso e a produção de plástico, mas estão enfrentando forte oposição da indústria.

Mais de 100 empresas e organizações estão fazendo lobby contra um projeto de lei de Nova York que busca reduzir embalagens descartáveis, eliminar gradualmente 17 substâncias químicas e materiais nocivos comumente encontrados em embalagens plásticas e impor uma taxa às empresas que vendem produtos embalados, de acordo com um relatório de outubro  do grupo Beyond Plastics. O projeto de lei foi aprovado pelo Senado do Estado de Nova York em maio, mas a Assembleia Legislativa do estado não o votou antes do término da sessão legislativa.

Uma ação judicial movida em setembro na Filadélfia contra as empresas Bimbo Bakeries e SC Johnson alega que as empresas enganaram os consumidores ao sugerir que seus sacos de pão e produtos Ziploc poderiam ser reciclados, somando-se a uma série de reclamações recentes sobre as alegações de reciclagem de plástico feitas por empresas, apresentadas por cidades e estados em todo o país.

A análise da Duke recebeu financiamento da Bloomberg Philanthropies, a organização beneficente do empresário e político Mike Bloomberg, que foi apelidado de ” Inimigo Público Número 1 no setor de plásticos  por seus esforços para bloquear a construção de fábricas petroquímicas nos EUA, incluindo uma fábrica de metanol e plásticos na paróquia de St. James, Louisiana.

“Este relatório contabiliza apenas os custos atribuídos aos plásticos, ignorando convenientemente os enormes benefícios econômicos, sociais e de saúde e segurança que os plásticos proporcionam”, disse Matthew Kastner, diretor sênior de relações com a mídia e porta-voz do American Chemistry Council (ACC), que se opôs às medidas de Bloomberg para conter a expansão da indústria de plásticos. 

Uma análise da ACC publicada em setembro concluiu que a indústria de plásticos contribui com mais de US$ 1,1 trilhão para a economia dos EUA. Segundo o relatório, o setor gera quase US$ 380 bilhões em remessas industriais, exporta cerca de US$ 64 bilhões em mercadorias e cria milhares de empregos que sustentam a indústria manufatureira americana.

“O caminho certo a seguir é fortalecer a forma como gerenciamos, reutilizamos e refazemos materiais, modernizando a infraestrutura de reciclagem, inovando e adotando políticas inteligentes, e não eliminando materiais essenciais à saúde, à segurança e a praticamente todos os aspectos da vida moderna”, disse Kastner.

Imagem em destaque: tanvi sharma / Unsplash


Fonte: The New Lede

Resíduos de “quentinhas” são principal origem de microplásticos encontrados em praia carioca

microplásticos praia vermelhaMetodologia envolveu amostragem sistemática na linha de maré alta da praia para garantir resultados confiáveis 

Agência BORI

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que a Praia Vermelha, cartão-postal carioca, sofre com o descarte inadequado de resíduos plásticos. No total, foram identificados 32 itens microplásticos, sendo que a maioria, 70%, é formada pelo poliestireno expandido, popularmente conhecido como isopor. O material é abundante em produtos descartáveis como embalagens de alimentos. Os resultados estão publicados em artigo na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências na sexta (3).

A pesquisa estabeleceu e validou um protocolo padronizado para a coleta, tratamento e caracterização de microplásticos em areias de praias costeiras. A metodologia envolveu amostragem sistemática na linha de maré alta, flotação (separação de partículas dá água por meio da flutuação) e tratamento laboratorial com microscopia óptica e Espectroscopia de infravermelho (FTIR) para garantir resultados confiáveis e minimizar a contaminação externa.

“Procuramos adaptar o protocolo às condições brasileiras, considerando fatores específicos como clima, velocidade do vento e marés, além de aspectos relacionados à latitude e longitude dos locais de coleta”, diz Marina Sacramento, pesquisadora da UFRJ e uma das autoras do artigo. Ela explica que essa abordagem é um avanço em relação a estudos anteriores, que frequentemente empregavam diferentes metodologias de coleta e extração, limitando a comparabilidade dos dados.

A pesquisa apontou que, entre os 32 microplásticos identificados na Praia Vermelha, os diâmetros médios das amostras variaram entre 2.1 e 4 milímetros. Os itens encontrados apresentaram formatos diversos, como espuma, filamentos e pequenos grânulos. Além do isopor, que corresponde à categoria de espuma, o polietileno e o polipropileno foram encontrados em menor proporção, representando cerca de 18% e 12% das amostras, respectivamente. Esses materiais podem ser encontrados em sacolas e filmes plásticos, copos descartáveis e tampas de garrafas.

A presença desses resíduos em uma praia pequena e de grande circulação turística, cercada por restaurantes e próxima ao Pão de Açúcar, reforça a preocupação com o descarte inadequado de plásticos em áreas costeiras. A equipe já esperava encontrar microplásticos no local. “No entanto, a grande surpresa foi a expressiva quantidade de poliestireno, proveniente das quentinhas de alimentação, especialmente durante os grandes feriados brasileiros”, afirma Marina Sacramento. O isopor é reciclável, mas seu reaproveitamento encontra desafios como o descarte incorreto e o baixo valor de mercado do material, que inviabiliza ganhos financeiros para catadores e cooperativas.

Além de dar continuidade às pesquisas na área, a equipe já possui outros projetos em andamento, com foco na análise de microplásticos em amostras de água do mar, de rios e de cachoeiras. A intenção é ampliar a compreensão sobre a distribuição e os impactos desses poluentes em diferentes ecossistemas aquáticos.


Fonte: Agência Bori

Microplásticos podem afetar a saúde dos ossos

Pesquisadores brasileiros analisaram mais de 60 artigos científicos sobre o tema e identificaram que os materiais têm efeitos negativos no tecido ósseo

Cientistas estão começando um projeto que vai verificar na prática a relação entre a exposição aos microplásticos e o agravamento de doenças ósseas metabólicas. Estima-se que ocorra um aumento de 32% nas fraturas por osteoporose até 2050. (imagem: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP 

A produção e o uso de mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano têm contaminado praias, rios e até o lugar mais profundo dos oceanos, a 11 mil metros de profundidade. Para além dos impactos ambientais visíveis, o plástico também impacta as mudanças climáticas: estima-se que a sua produção seja responsável pela geração de 1,8 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa por ano. Evidências científicas sugerem ainda que o uso de materiais plásticos na vida cotidiana tem também impactado a saúde humana.

Uma quantidade muito grande de partículas de plástico, que se desprendem de cortinas, móveis, roupas ou qualquer outro objeto feito do material, fica em suspensão no ar, se solubiliza na água potável, ou adere a alimentos, podendo ser inalada, ingerida ou entrar em contato com a pele das pessoas. Como resultado, cientistas já encontraram microplástico no sangue, no cérebro, na placenta, no leite materno e até mesmo nos ossos humanos.

Um estudo vinculado a um projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP e publicado na revista Osteoporosis International revisou 62 artigos científicos e constatou que o microplástico também tem prejudicado a saúde óssea de diferentes formas. Um exemplo notável é a capacidade desses materiais de comprometer as funções das células-tronco da medula óssea, ao favorecer a formação de células multinucleadas, denominadas osteoclastos, que degradam o tecido em um processo conhecido como reabsorção óssea.

“O potencial de impacto dos microplásticos nos ossos é motivo de estudos científicos e não é desprezível. Por exemplo, estudos in vitro com células do tecido ósseo demonstraram que o microplástico prejudica a viabilidade celular, acelera o envelhecimento das células e altera a diferenciação celular, além de promover inflamação”, afirma Rodrigo Bueno de Oliveira, coordenador do Laboratório para o Estudo Mineral e Ósseo em Nefrologia (Lemon) na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp).

Oliveira relata ainda que estudos realizados em animais descobriram que com a aceleração da senescência dos osteoclastos pode ocorrer comprometimento da microestrutura óssea e displasia, o que pode provocar enfraquecimento, deformidades e, possivelmente, propiciar a ocorrência de fraturas patológicas. “Nesse estudo, os efeitos adversos observados culminaram, de forma preocupante, na interrupção do crescimento esquelético dos animais”, diz o pesquisador.


Interior de uma célula óssea do tipo MG-63, onde pequenas esferas de microplástico de poliestireno aparecem dentro do citoplasma. O núcleo da célula está em vermelho, enquanto os microplásticos se destacam em azul (imagem: Lemon-FCM-Unicamp)

Oliveira explica ainda que, embora os efeitos dessas partículas nas propriedades mecânicas dos ossos ainda não estejam totalmente compreendidos, os dados sugerem que a presença do material circulando no sangue, por exemplo, possa comprometer a saúde óssea. “O mais impressionante é que um conjunto significativo de estudos sugere que os microplásticos podem atingir a intimidade do tecido ósseo, como, por exemplo, a medula óssea, e potencialmente causar diversas perturbações em seu metabolismo”, diz.

Conexão

Não por acaso, a equipe de Oliveira está começando um projeto de pesquisa que vai verificar na prática o que parece ser perfeitamente possível na teoria: a relação entre a exposição aos microplásticos e o agravamento de doenças ósseas metabólicas. A partir de pesquisa em modelo animal, os cientistas vão investigar o efeito do microplástico na resistência de ossos do fêmur de roedores.

De acordo com a International Osteoporosis Foundation (IOF), a prevalência de fraturas por osteoporose está aumentando em todo o mundo por causa do envelhecimento da população. Estima-se que ocorra um aumento de 32% nas fraturas por osteoporose até 2050.

“Melhorar a qualidade de vida e reduzir o risco de complicações ósseas, como fraturas, é uma prioridade na área da saúde. Já sabemos que práticas como exercícios físicos, alimentação equilibrada e tratamentos farmacológicos contribuem significativamente para isso. No entanto, apesar de as doenças osteometabólicas serem relativamente bem compreendidas, existe uma lacuna quanto à influência de microplásticos no desenvolvimento dessas doenças. Por isso, um de nossos objetivos é gerar evidências na direção de que os microplásticos poderiam ser uma potencial causa ambiental, controlável, para explicar, por exemplo, o aumento da projeção de fraturas ósseas”, diz Oliveira.


Segundo Oliveira, apesar de as doenças osteometabólicas serem relativamente bem compreendidas, há uma lacuna quanto à influência de microplásticos no desenvolvimento dessas enfermidades (foto: Lemon-FCM-Unicamp)

O artigo Effects of microplastics on the bones: a comprehensive review pode ser lido emhttps://link.springer.com/article/10.1007/s00198-025-07580-4.


Fonte: Agência Fapesp