Microplásticos podem afetar a saúde dos ossos

Pesquisadores brasileiros analisaram mais de 60 artigos científicos sobre o tema e identificaram que os materiais têm efeitos negativos no tecido ósseo

Cientistas estão começando um projeto que vai verificar na prática a relação entre a exposição aos microplásticos e o agravamento de doenças ósseas metabólicas. Estima-se que ocorra um aumento de 32% nas fraturas por osteoporose até 2050. (imagem: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP 

A produção e o uso de mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano têm contaminado praias, rios e até o lugar mais profundo dos oceanos, a 11 mil metros de profundidade. Para além dos impactos ambientais visíveis, o plástico também impacta as mudanças climáticas: estima-se que a sua produção seja responsável pela geração de 1,8 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa por ano. Evidências científicas sugerem ainda que o uso de materiais plásticos na vida cotidiana tem também impactado a saúde humana.

Uma quantidade muito grande de partículas de plástico, que se desprendem de cortinas, móveis, roupas ou qualquer outro objeto feito do material, fica em suspensão no ar, se solubiliza na água potável, ou adere a alimentos, podendo ser inalada, ingerida ou entrar em contato com a pele das pessoas. Como resultado, cientistas já encontraram microplástico no sangue, no cérebro, na placenta, no leite materno e até mesmo nos ossos humanos.

Um estudo vinculado a um projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP e publicado na revista Osteoporosis International revisou 62 artigos científicos e constatou que o microplástico também tem prejudicado a saúde óssea de diferentes formas. Um exemplo notável é a capacidade desses materiais de comprometer as funções das células-tronco da medula óssea, ao favorecer a formação de células multinucleadas, denominadas osteoclastos, que degradam o tecido em um processo conhecido como reabsorção óssea.

“O potencial de impacto dos microplásticos nos ossos é motivo de estudos científicos e não é desprezível. Por exemplo, estudos in vitro com células do tecido ósseo demonstraram que o microplástico prejudica a viabilidade celular, acelera o envelhecimento das células e altera a diferenciação celular, além de promover inflamação”, afirma Rodrigo Bueno de Oliveira, coordenador do Laboratório para o Estudo Mineral e Ósseo em Nefrologia (Lemon) na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp).

Oliveira relata ainda que estudos realizados em animais descobriram que com a aceleração da senescência dos osteoclastos pode ocorrer comprometimento da microestrutura óssea e displasia, o que pode provocar enfraquecimento, deformidades e, possivelmente, propiciar a ocorrência de fraturas patológicas. “Nesse estudo, os efeitos adversos observados culminaram, de forma preocupante, na interrupção do crescimento esquelético dos animais”, diz o pesquisador.


Interior de uma célula óssea do tipo MG-63, onde pequenas esferas de microplástico de poliestireno aparecem dentro do citoplasma. O núcleo da célula está em vermelho, enquanto os microplásticos se destacam em azul (imagem: Lemon-FCM-Unicamp)

Oliveira explica ainda que, embora os efeitos dessas partículas nas propriedades mecânicas dos ossos ainda não estejam totalmente compreendidos, os dados sugerem que a presença do material circulando no sangue, por exemplo, possa comprometer a saúde óssea. “O mais impressionante é que um conjunto significativo de estudos sugere que os microplásticos podem atingir a intimidade do tecido ósseo, como, por exemplo, a medula óssea, e potencialmente causar diversas perturbações em seu metabolismo”, diz.

Conexão

Não por acaso, a equipe de Oliveira está começando um projeto de pesquisa que vai verificar na prática o que parece ser perfeitamente possível na teoria: a relação entre a exposição aos microplásticos e o agravamento de doenças ósseas metabólicas. A partir de pesquisa em modelo animal, os cientistas vão investigar o efeito do microplástico na resistência de ossos do fêmur de roedores.

De acordo com a International Osteoporosis Foundation (IOF), a prevalência de fraturas por osteoporose está aumentando em todo o mundo por causa do envelhecimento da população. Estima-se que ocorra um aumento de 32% nas fraturas por osteoporose até 2050.

“Melhorar a qualidade de vida e reduzir o risco de complicações ósseas, como fraturas, é uma prioridade na área da saúde. Já sabemos que práticas como exercícios físicos, alimentação equilibrada e tratamentos farmacológicos contribuem significativamente para isso. No entanto, apesar de as doenças osteometabólicas serem relativamente bem compreendidas, existe uma lacuna quanto à influência de microplásticos no desenvolvimento dessas doenças. Por isso, um de nossos objetivos é gerar evidências na direção de que os microplásticos poderiam ser uma potencial causa ambiental, controlável, para explicar, por exemplo, o aumento da projeção de fraturas ósseas”, diz Oliveira.


Segundo Oliveira, apesar de as doenças osteometabólicas serem relativamente bem compreendidas, há uma lacuna quanto à influência de microplásticos no desenvolvimento dessas enfermidades (foto: Lemon-FCM-Unicamp)

O artigo Effects of microplastics on the bones: a comprehensive review pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00198-025-07580-4.


Fonte: Agência Fapesp

Cientistas cidadãos localizam pontos críticos de poluição plástica em 39 países

Apesar das frequentes limpezas de praia e dos murais ousados ​​que nos alertam sobre a necessidade de proteger o oceano, a Praia de Wellawatte, em Colombo, Sri Lanka, está mais uma vez inundada de resíduos plásticos. Imagem: Nazly Ahmed . Nazly Ahmed / Creative Commons 4.0.

Por Brendan Montague para “The Ecologist”  

A Big Microplastic Survey reúne dados de 39 países, revelando contaminação generalizada por nurdles e bioesferas.

Pelotas de plástico, bioesferas e outros microplásticos estão poluindo litorais ao redor do mundo, com novas pesquisas mostrando grandes diferenças regionais nos tipos e concentrações de plástico encontrados.

As descobertas vêm de um estudo da Universidade de Portsmouth usando dados do Big Microplastic Survey (BMS) — um dos maiores projetos de ciência cidadã do gênero — que analisou 1.089 pesquisas realizadas por voluntários em 39 países entre 2018 e 2024. 

O  estudo , publicado no Environmental Monitoring and Assessment , examinou quase 59.000 pedaços de plástico para mapear padrões globais de poluição costeira.

Envio

O autor principal, Dr. David Jones, da Universidade de Portsmouth, disse: “Nossos resultados mostram que a poluição plástica não é apenas um problema local, é uma crise global, com diferentes regiões enfrentando diferentes desafios. 

“Vários milhares de voluntários participaram da Pesquisa Big Microplastic, que demonstra o poder da ciência cidadã para coletar dados em uma escala que os métodos tradicionais sozinhos nunca conseguiriam alcançar.”

A pesquisa revelou que nurdles — pellets plásticos de pré-produção — foram o tipo mais comum de plástico registrado. 

A Holanda relatou as contagens mais altas, com níveis 14 vezes maiores do que o segundo país mais afetado — principalmente como resultado de um desastre com um contêiner. 

As bioesferas, amplamente utilizadas no tratamento de águas residuais, também estavam fortemente concentradas na Holanda e em Honduras, com a Grã-Bretanha em terceiro lugar, com base na contagem média por amostra.

Negociação

Em contraste, plásticos secundários – fragmentos que se decompõem de itens maiores – foram encontrados com mais frequência no Quênia e em Honduras. O poliestireno expandido foi particularmente prevalente na Tailândia, Indonésia e Portugal. Em todos os países, os plásticos brancos predominaram, seguidos pelos transparentes ou opacos, azuis e verdes.

Além dos dados sobre poluição, o estudo demonstrou como a ciência cidadã pode atuar em escala global. Houve mais de 1.000 inscrições para participar do projeto de 66 países, com o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália apresentando os maiores números.

No entanto, menos de um em cada cinco inscritos enviou dados, destacando os desafios de manter o engajamento dos voluntários. 

Quando os projetos tiveram sucesso, eles geralmente eram conduzidos por organizações não governamentais, que provaram ser as contribuidoras mais efetivas e frequentemente eram responsáveis ​​pela maior parte das pesquisas em suas regiões.

A poluição plástica não é apenas um problema local: é uma crise global, com diferentes regiões enfrentando diferentes desafios.

A pesquisa destaca a crescente importância da ciência cidadã no apoio aos esforços internacionais para combater a poluição plástica. Em 2022, a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente concordou com um tratado juridicamente vinculativo para acabar com a poluição plástica, que exige que os Estados-membros aprimorem o monitoramento e a elaboração de relatórios. O tratado ainda está em negociação.

Inclusivo

A Dra. Michelle Hale , Diretora da  Escola de Meio Ambiente e Ciências da Vida  da Universidade de Portsmouth, acrescentou: “Embora existam limitações nos dados coletados por voluntários, a ciência cidadã pode preencher lacunas críticas, especialmente em regiões onde os recursos para monitoramento ambiental são limitados. Também ajuda a fortalecer o engajamento da comunidade – um passo vital para combater a poluição plástica em sua origem.”

O estudo conclui que a combinação da ciência cidadã com métodos científicos tradicionais pode oferecer a abordagem mais eficaz para rastrear a disseminação de microplásticos e formular políticas para reduzi-los.

A Universidade de Portsmouth abriga o Revolution Plastics Institute  , que se dedica a encontrar soluções para lidar com a poluição plástica e gerar uma comunidade globalmente relevante de pesquisadores de plásticos.

O Instituto visa enfrentar urgentemente a crise global do plástico por meio de pesquisa e inovação inclusivas e focadas em soluções para apoiar a transição para um futuro sustentável do plástico. Os projetos abrangem todas as disciplinas, combinando criatividade, pesquisa e inovação para abordar o impacto do plástico.

Este autor

Brendan Montague é membro da equipe editorial do The Ecologist online.


Fonte: The Ecologist

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Pesquisa mostra contaminação de águas subterrâneas por resíduos plásticos agrícolas

Contaminação mostra urgência em substituir plástico por materiais biodegradáveis 

Apesar de invisíveis, micro e nanoplásticos estão presentes em sistemas de águas subterrâneas, fontes de quase metade da água potável consumida no mundo. Esses materiais são em grande parte provenientes de produtos para agricultura, como as coberturas plásticas (mulches), recipientes de agrotóxicos e sacos de fertilizantes. O tamanho das partículas faz com que elas atravessem as camadas de solo e contaminem os lençóis freáticos. É o que mostra artigo publicado na sexta (5) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os pesquisadores fizeram uma revisão de literatura a partir de mais de 50 artigos disponíveis nas bases de dados Web of Science e ScienceDirect e publicados entre 2019 e 2024. Eles usaram combinações de termos relacionadas ao assunto, priorizando artigos de periódicos com fatores de impacto mais altos para garantir a relevância e qualidade das fontes.

Os resultados mostram a quase onipresença dos resíduos plásticos nesses ambientes. Diante desse contexto, Victor R. Moreira, pesquisador da UFMG e um dos autores do estudo, atenta para a importância de substituir plástico por materiais biodegradáveis. “Observamos muitas vezes que as partículas menores predominam nas camadas mais profundas, inclusive nos aquíferos. Isso acaba sendo um desafio maior, porque é mais difícil de remover”, diz Moreira.

A revisão também indica que o estudo de microplásticos é mais frequente do que o de nanoplásticos, embora estas partículas microscópicas sejam mais predominantes em sistemas de água subterrânea. Essa presença se deve ao tamanho menor e, por efeito, maior mobilidade através das camadas do solo.

Na dinâmica de contaminação, os autores também apontam como fonte relevante os biossólidos, que são os resíduos orgânicos provenientes do tratamento do esgoto. Os biossólidos são materiais ricos em matéria orgânica e nutrientes e usados em atividades agrícolas como fertilizantes. “O processo de tratamento de esgoto remove contaminantes, mas muitos deles, incluindo microplásticos, acabam sendo agregados ao lodo por adsorção, e, portanto, reintroduzidos no solo ao aplicar os biossólidos”, explica Moreira.

Para compreender melhor os efeitos dessa contaminação, são necessários estudos temporais com foco na variabilidade sazonal dos micro e nanoplásticos nos sistemas subterrâneos de água, assim como a análise espacial em regiões com significativa produção agrícola, avaliam os pesquisadores. Além disso, próximos passos para investigar o impacto da contaminação envolvem estudos de laboratórios, que podem analisar a toxicidade dos micro e nanoplásticos e seu papel como carregador de agrotóxicos.


Fonte: Agência Bori

Estudo revela que humanos inalam até 68.000 partículas de microplástico por dia

Partículas são pequenas o suficiente para penetrar nos pulmões, diz relatório, com impactos na saúde ‘mais substanciais do que imaginamos’

close de microplásticos nos dedos

Entre outras questões, os microplásticos estão associados à inflamação pulmonar crônica, que pode levar ao câncer de pulmão. Fotografia: pcess609/Getty Images/iStockphoto

Por Tom Perkins para o “The Guardian” 

Cada respiração que as pessoas dão em suas casas ou carros provavelmente contém quantidades significativas de microplásticos pequenos o suficiente para penetrar profundamente nos pulmões, de acordo com uma nova pesquisa revisada por pares , trazendo à tona uma rota pouco compreendida de exposição e ameaça à saúde.

O estudo, publicado na revista Plos One, estima que os humanos podem inalar até 68.000 minúsculas partículas de plástico por dia. Estudos anteriores identificaram pedaços maiores de microplásticos no ar, mas estes não representam uma ameaça tão grande à saúde, pois não permanecem no ar por tanto tempo nem se movem tão profundamente no sistema pulmonar.

Os pedaços menores medem entre 1 e 10 micrômetros, ou cerca de um sétimo da espessura de um fio de cabelo humano, e representam um risco maior à saúde, pois podem ser distribuídos mais facilmente por todo o corpo. As descobertas “sugerem que os impactos da inalação de microplásticos na saúde podem ser mais substanciais do que imaginamos”, escreveram os autores.

“Ficamos bastante surpresos com os níveis de microplástico que encontramos – eram muito maiores do que o estimado anteriormente”, disse Nadiia Yakovenko, pesquisadora de microplásticos e coautora do estudo na Universidade de Toulouse, na França. “O tamanho da partícula é pequeno e sabidamente se transfere para os tecidos, o que é perigoso porque pode entrar na corrente sanguínea e penetrar profundamente no sistema respiratório.”

Microplásticos são pequenos pedaços de plástico adicionados intencionalmente a bens de consumo ou que são produtos da decomposição de plásticos maiores. As partículas contêm cerca de 16.000 substâncias químicas presentes no plástico, muitas das quais, como BPA, ftalatos e Pfas, apresentam sérios riscos à saúde .

A substância foi encontrada em todo o corpo humano e pode atravessar as barreiras placentárias e cerebrais . Acredita-se que alimentos e água sejam a principal via de exposição, mas a nova pesquisa destaca os riscos da poluição do ar. Entre outras questões, os microplásticos estão associados à inflamação pulmonar crônica, que pode levar ao câncer de pulmão.

Todos os dias, respiramos dezenas de milhares de partículas microplásticas.
Estimativa da média diária de partículas microplásticas inaladas (1 a 10 micrômetros de diâmetro).

As concentrações no ar interno são muito maiores do que no ar externo, o que, segundo os autores do estudo, é preocupante, visto que os humanos passam cerca de 90% do dia em ambientes fechados. Yakovenko afirmou que as concentrações em ambientes fechados são maiores porque se trata de um ambiente fechado com altos níveis de plástico em uma área pequena, e geralmente há pouca ventilação.

O estudo mediu o ar em vários cômodos de vários apartamentos, bem como em cabines de carros enquanto os autores dirigiam. Acredita-se que a fonte dos microplásticos nos apartamentos seja o plástico degradado presente em produtos de consumo, desde roupas a utensílios de cozinha e carpetes.

Praticamente qualquer atividade humana libera microplásticos, pois os fragmentos são muito leves. Os níveis eram muito mais altos em um apartamento onde moravam duas pessoas, devido a praticamente qualquer atividade humana que liberasse partículas. Partículas menores permanecem suspensas no ar por mais tempo porque são mais leves, disse Yakovenko.

“Qualquer movimento de ar, vibrações, seu movimento, se você anda, senta, levanta, se você abre uma janela — tudo isso vai ressuspender as partículas”, disse Yakovenko.

Enquanto isso, a concentração de plástico no ar dos carros era cerca de quatro vezes maior do que nos apartamentos. Por ser um ambiente fechado e menor, os carros têm uma concentração maior de plástico, e a ventilação não é boa, disse Yakovenko. Os pesquisadores compararam o material microplástico com o usado no painel, maçaneta, volante e outros componentes.

Embora seja impossível evitar todos os microplásticos no ar, as exposições podem ser reduzidas eliminando o máximo possível de plástico do ambiente doméstico – compre produtos feitos de madeira, metal e fibras ou materiais naturais.

Os sistemas de filtragem de ar HEPA demonstraram ser eficazes na remoção de microplásticos, e Yakovenko afirmou que aspirar regularmente com um aspirador HEPA e tirar o pó pode ajudar. Reduzir os níveis no carro é mais desafiador. Abrir as janelas pode ventilar o interior do carro, mas isso pode permitir a entrada de microplásticos provenientes dos pneus.


Fonte: The Guardian

A poluição macroplástica representa uma “ameaça urgente”

poluição macroplástica 1Os macroplásticos têm um impacto negativo na biodiversidade e podem causar doenças em comunidades. Crédito da imagem: Cortesia de Inty Grønneberg, de Ichthion.

A pesquisa, publicada no Journal of Environmental Management , analisou 3,8 milhões de quilos de resíduos de oito sistemas costeiros em quatro continentes, incluindo América Latina e Caribe, e descobriu que os macroplásticos são “igualmente prejudiciais e frequentemente precursores de microplásticos” – fragmentos de plástico menores que 5 mm.

O trabalho foi realizado entre 2020 e 2023, de forma contínua e sincronizada, nas águas do Cânion Laureles (México); do Porto Kingston (Jamaica); do Rio Juan Díaz (Panamá); do Rio Portoviejo (Equador); do Rio Athi (Quênia); do Rio Vermelho (Vietnã); do Canal Lat Phrao (Tailândia); e do Rio Citarum (Indonésia).

O objetivo era coletar e analisar dados sobre o impacto dos resíduos macroplásticos nos países em desenvolvimento. Para isso, eles analisaram rios, que servem como um “principal vetor de transporte” de resíduos plásticos para os oceanos.

Sessenta e seis por cento dos resíduos coletados (mais de 2,5 milhões de quilos) eram plásticos. No entanto, esse não foi o caso em todos os ecossistemas: o Rio Athi, no Quênia, registrou 45.863 quilos por mês, o maior número, enquanto o Rio Portoviejo, no Equador, registrou 484 quilos por mês, o menor.

Em Rio Portoviejo, Equador, pesquisadores encontraram uma média de 484 quilos de plástico por mês. Crédito da imagem: Cortesia de Inty Grønneberg, da Ichthion.

Entre os rios latino-americanos, os mais poluídos com plástico foram Kingston Harbour, na Jamaica; Los Laureles Canyon, no México; e o Rio Juan Díaz, no Panamá.

“É o maior estudo global para entender a poluição plástica, um dos maiores fenômenos ambientais que a humanidade enfrenta”, disse ao SciDev.Net o engenheiro e cientista equatoriano Inty Grønneberg, CEO da Ichthion, uma das organizações que participaram da pesquisa.

Dos macro aos microplásticos

Durante anos, estudos se concentraram no impacto dos microplásticos. Em 2017, a ONU alertou sobre os altos níveis de poluição dos oceanos,pediu o fim do uso excessivo de plásticos descartáveis e observou que 51 trilhões de partículas de microplástico estavam poluindo os mares.

Recentemente, outro relatório da ONU indicou que 400.000 toneladas de plástico são produzidas anualmente, mas apenas 10% são recicladas, e estima-se que 11 milhões de toneladas acabem em lagos, rios e oceanos.

“Estamos vivendo a ‘era do plástico’, somos muito dependentes dele. E o desperdício, até agora, continua sendo um problema sem solução.”

Sebastián Andrade Muñoz, Centro de Pesquisas das Montanhas e Estepes Patagônicas Esquel

O grupo decidiu estudar os macroplásticos porque eles são a principal fonte de microplásticos.

A pesquisa destacou o impacto negativo na saúde humana devido à proximidade das comunidades com os ecossistemas onde se acumulam e à sua dependência, especialmente em áreas agrícolas . “Estudos demonstraram um risco elevado de doenças cardiovasculares , inflamação, câncer e danos reprodutivos”, afirmou. Os macroplásticos aumentam o risco dessas doenças por meio de sua degradação e subsequente exposição humana.

Eles também têm impactos negativos na biodiversidade . Grønneberg disse que eles detectaram emaranhamento e sufocamento entre animais marinhos.

Também está afetando a infraestrutura urbana , bloqueando esgotos, aumentando o risco de inundações e prejudicando a economia ao impactar o transporte marítimo, a pesca e o turismo.

Para coletar e analisar resíduos, os pesquisadores usaram barreiras flutuantes, coleta manual, correias transportadoras e máquinas semiautomatizadas, algumas movidas a energia solar.

Segundo a ONU, 400.000 toneladas de plástico são produzidas a cada ano, mas apenas 10% são recicladas, e 11 milhões de toneladas acabam em lagos, rios e oceanos. Crédito: Cortesia de Inty Grønneberg, da Ichthion.

Em relação às iniciativas de reciclagem nos locais analisados, o estudo constatou que 14% dos macroplásticos coletados foram reciclados (México e Jamaica), 62,9% foram reprocessados em produtos de menor valor (Quênia e Indonésia), 3% foram reutilizados, 12,3% foram utilizados para recuperação de energia (Tailândia) e 7,8% foram depositados em aterros sanitários ou incinerados. A proporção variou dependendo da infraestrutura e do desenvolvimento de cada país.

O biólogo argentino Sebastián Andrade Muñoz, bolsista do Conicet no Centro de Pesquisas da Serra de Esquel e da Estepe Patagônica , disse ao SciDev.Net que a pesquisa é valiosa para coletar dados sobre a poluição em sistemas ribeirinhos. “A boa qualidade das águas ribeirinhas permite rios com melhor qualidade de água e promove maior diversidade de habitats. É um bom estudo que fornece informações sobre gestão em várias partes do mundo.”

Estratégias para combater a poluição

O estudo oferece quatro ações para reduzir as emissões de plástico nos rios, desde a criação de valor por meio de políticas de reciclagem até a promoção de investimentos em infraestrutura de reciclagem.

Ele também exige uma coleta de dados aprimorada com protocolos padronizados para monitorar o desperdício de plástico ao longo do tempo e a promulgação de políticas — locais, nacionais e internacionais — como a proibição de plásticos de uso único que “comprovaram ser eficazes” em países como o Quênia.

Para Grønneberg, é essencial “trabalhar em mecanismos de coleta de informações” nos países em desenvolvimento para padronizar mecanismos e tomadas de decisão.

Andrade Muñoz, que publicou recentemente um estudo sobre macroplásticos encontrados em rios da Patagônia , concordou com essa abordagem e acrescentou que é importante conscientizar, promover a reciclagem e desencorajar o uso de plásticos descartáveis. “Estamos vivendo a ‘era do plástico’, somos altamente dependentes dele. E o desperdício, até agora, é um problema sem solução”, observou.


Fonte: SciDev.Net

Estudo alerta que o mundo enfrenta uma ‘crise de plástico’ de US$ 1,5 trilhão que afeta a saúde desde a infância até a velhice

Produção de plástico aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e afeta a saúde em todas as etapas, da extração ao descarte, diz revisão na Lancet 

Um homem caminha por um rio cheio de lixo

Um homem coleta lixo das margens repletas de lixo do Rio Mithi, em Mumbai, Índia. Fotografia: Indranil Aditya/NurPhoto/Shutterstock

Por Damian Carrington, Editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Os plásticos representam um “perigo grave, crescente e sub-reconhecido” para a saúde humana e planetária, alertou uma nova revisão especializada. O mundo está em uma “crise do plástico”, concluiu a pesquisa, que está causando doenças e mortes desde a infância até a velhice e é responsável por pelo menos US$ 1,5 trilhão (£ 1,1 trilhão) por ano em danos relacionados à saúde.

O impulsionador da crise é uma enorme aceleração da produção de plástico, que aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e deve quase triplicar novamente para mais de um bilhão de toneladas por ano até 2060. Embora o plástico tenha muitos usos importantes, o aumento mais rápido ocorreu na produção de plásticos de uso único, como garrafas de bebidas e recipientes de fast-food .

Como resultado, a poluição plástica também aumentou, com 8 bilhões de toneladas poluindo o planeta inteiro, segundo a análise, do topo do Monte Everest até a fossa oceânica mais profunda . Menos de 10% do plástico é reciclado.

O plástico ameaça as pessoas e o planeta em todas as etapas, afirmou a análise, desde a extração dos combustíveis fósseis dos quais é feito, até a produção, uso e descarte. Isso resulta em poluição do ar, exposição a produtos químicos tóxicos e infiltração de microplásticos no corpo. A poluição plástica pode até mesmo aumentar a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, já que a água capturada em plásticos descartados proporciona bons criadouros.

A revisão, publicada na revista médica de referência Lancet , foi divulgada antes da sexta e provavelmente última rodada de negociações entre os países para chegar a um acordo sobre um tratado global juridicamente vinculativo sobre plásticos para enfrentar a crise. As negociações têm sido marcadas por um profundo desacordo entre mais de 100 países que apoiam um teto para a produção de plástico e petroestados, como a Arábia Saudita, que se opõem à proposta. O jornal The Guardian revelou recentemente como petroestados e lobistas da indústria do plástico estão atrapalhando as negociações.

“Sabemos muito sobre a extensão e a gravidade dos impactos da poluição plástica na saúde e no meio ambiente”, afirmou o Prof. Philip Landrigan, pediatra e epidemiologista do Boston College, nos EUA, e principal autor do novo relatório. Ele afirmou ser fundamental que o tratado sobre plásticos inclua medidas para proteger a saúde humana e planetária.

“Os impactos recaem mais fortemente sobre as populações vulneráveis, especialmente bebês e crianças”, disse ele. “Eles resultam em enormes custos econômicos para a sociedade. Cabe a nós agir em resposta.”

Petroestados e a indústria do plástico argumentam que o foco deveria ser a reciclagem do plástico, e não a redução da produção. Mas, ao contrário do papel, vidro, aço e alumínio, plásticos quimicamente complexos não podem ser facilmente reciclados. O relatório afirma: “Agora está claro que o mundo não pode reciclar para sair da crise da poluição plástica.”

Mais de 98% dos plásticos são feitos de petróleo fóssil, gás e carvão. O processo de produção com alto consumo de energia impulsiona a crise climática, liberando o equivalente a 2 bilhões de toneladas de CO2 por ano – mais do que as emissões da Rússia, o quarto maior poluidor do mundo. A produção de plástico também polui o ar, enquanto mais da metade dos resíduos plásticos não gerenciados são queimados a céu aberto, aumentando ainda mais a poluição do ar, observou o relatório.

Mais de 16.000 produtos químicos são usados em plásticos, incluindo cargas, corantes, retardantes de chama e estabilizantes. Muitos produtos químicos plásticos foram associados a efeitos na saúde em todas as fases da vida humana, segundo o relatório, mas havia falta de transparência sobre quais produtos químicos estavam presentes nos plásticos.

A análise descobriu que fetos, bebês e crianças pequenas eram altamente suscetíveis aos danos associados aos plásticos, com exposição associada a maiores riscos de aborto espontâneo, parto prematuro e natimorto, defeitos congênitos, crescimento pulmonar prejudicado, câncer infantil e problemas de fertilidade mais tarde na vida.

Os resíduos plásticos frequentemente se decompõem em micro e nanoplásticos, que entram no corpo humano através da água, dos alimentos e da respiração. As partículas foram encontradas no sangue , no cérebro , no leite materno , na placenta , no sêmen e na medula óssea . Seu impacto na saúde humana ainda é amplamente desconhecido, mas elas têm sido associadas a derrames e ataques cardíacos , e os pesquisadores afirmam que uma abordagem preventiva é necessária.

O plástico é frequentemente visto como um material barato, mas os cientistas argumentam que ele é caro quando se inclui o custo dos danos à saúde. Uma estimativa dos danos à saúde causados por apenas três produtos químicos plásticos – PBDE, BPA e DEHP – em 38 países foi de US$ 1,5 trilhão por ano .

A nova análise é o início de uma série de relatórios que monitorarão regularmente o impacto dos plásticos. Margaret Spring, advogada sênior e uma das coautoras do relatório, afirmou: “Os relatórios oferecerão aos tomadores de decisão em todo o mundo uma fonte de dados robusta e independente para subsidiar o desenvolvimento de políticas eficazes para lidar com a poluição plástica em todos os níveis.”


Fonte: The Guardian

A vida do microplástico: como os fragmentos se movem através de insetos, plantas, animais, e de você

The Microplastics Scourge | Hopkins Bloomberg Public Health Magazine
Por Phoebe Weston  & Tess McClure para o “The Guardian” 

Microplásticos foram encontrados em placentas de bebês em gestação, nas profundezas da Fossa das Marianas, no cume do Everest e nos órgãos de pinguins-da-antártida. Mas como eles viajam pelo mundo e o que fazem com as criaturas que os carregam? Aqui está a história de como o plástico contamina ecossistemas inteiros – e até mesmo os alimentos que comemos. Ilustrações de Claire Harrup

O começo: um único fio

Imagem sobreposta mostrando plásticos passando pelo cano de esgoto e acabando misturados ao fertilizante pulverizado no solo. Imagem sobreposta mostrando plásticos nos peixes, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

A história começa com um único fio de poliéster, desprendido da trama de um suéter de acrílico rosa barato enquanto ele gira em uma máquina de lavar. Essa lavagem descarta centenas de milhares de minúsculos fragmentos e fios de plástico – até 700.000 em um único ciclo de lavagem .

Junto com bilhões de outras fibras sintéticas microscópicas, nosso fio percorre os canos de esgoto doméstico. Muitas vezes, acaba como lodo de esgoto, sendo espalhado nos campos dos agricultores para ajudar no crescimento das plantações. O lodo é usado como fertilizante orgânico nos EUA e na Europa , transformando inadvertidamente o solo em um enorme reservatório global de microplásticos. Uma estação de tratamento de águas residuais no País de Gales descobriu que 1% do peso do lodo de esgoto era plástico.

A partir daí, ele sobe pela cadeia alimentar, passando por insetos, pássaros, mamíferos e até humanos. Talvez a vida do nosso suéter como peça de roupa acabe em breve, durando apenas algumas saídas antes de sair da lavagem encolhido e com bolinhas, para ser descartado. Mas a vida do nosso fio será longa. Ele pode ter sido parte de um suéter por apenas algumas semanas, mas pode viajar pelo mundo natural por séculos.

No mundo do solo e das minhocas

Imagem sobreposta mostrando plásticos no solo e na minhoca, no besouro e na borboleta

Espalhados pelos campos como água ou lodo, nossos minúsculos filamentos se entrelaçam na estrutura dos ecossistemas do solo. Uma minhoca que vive sob um campo de trigo cava seu caminho através do solo, confundindo o fio com um pedaço de folha ou raiz velha. A minhoca o consome, mas não consegue processá-lo como matéria orgânica comum.

A minhoca se junta a quase uma em cada três minhocas que contêm plástico, de acordo com um estudo publicado em abril , bem como a um quarto das lesmas e caracóis que ingerem plástico enquanto pastam no solo. Lagartas de borboletas pavão, azul-claro e almirante-vermelha também contêm plástico, talvez por se alimentarem de folhas contaminadas com ele, mostram pesquisas.

Com o plástico no intestino, a minhoca escavadora terá mais dificuldade para digerir nutrientes e provavelmente começará a perder peso . Os danos podem não ser visíveis, mas, para os insetos, a ingestão de plástico tem sido associada a crescimento atrofiado , fertilidade reduzida e problemas no fígado, rins e estômago. Mesmo algumas das menores formas de vida em nosso solo, como ácaros e nematoides – que ajudam a manter a fertilidade da terra – são afetadas negativamente pelo plástico .

A poluição plástica no ambiente marinho tem sido amplamente documentada, mas um relatório da ONU constatou que o solo contém mais poluição microplástica do que os oceanos. Isso importa não apenas para a saúde dos solos, mas também porque insetos rastejantes como besouros, lesmas e caracóis formam os blocos de construção das cadeias alimentares. Nosso verme agora está permitindo que essa fibra plástica se torne um viajante internacional.

Na cadeia alimentar, em mamíferos e aves

Imagem sobreposta de plásticos no pássaro, nas vacas, na minhoca e nas plantas Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que foram apresentados na ilustração anterior.

Em um jardim suburbano, um ouriço fareja uma dúzia de invertebrados em uma noite, consumindo fibras plásticas dentro deles. Um deles é a nossa minhoca.

Um estudo que analisou as fezes de sete ouriços descobriu que quatro delas continham plástico, um dos quais continha 12 fibras de poliéster, algumas das quais eram rosa. Se ouriços não vivem em seu país, substitua-os por outro pequeno mamífero ou pássaro apressado: o mesmo estudo descobriu que camundongos, ratazanas e ratos também estavam comendo plástico, diretamente ou por meio de presas contaminadas.

Aves que se alimentam de insetos, como andorinhões , tordos e melros, também estão ingerindo plástico por meio de suas presas. Um estudo realizado no início deste ano descobriu pela primeira vez que as aves têm microplásticos nos pulmões porque também os inalam. “Os microplásticos estão agora onipresentes em todos os níveis da cadeia alimentar”, afirma a Professora Fiona Mathews, bióloga ambiental da Universidade de Sussex. A carne, o leite e o sangue de animais de fazenda também contêm microplásticos.

No topo da cadeia alimentar, os humanos consomem pelo menos 50.000 partículas de microplástico por ano . Elas estão presentes em nossos alimentos , na água e no ar que respiramos . Fragmentos de plástico foram encontrados no sangue , no sêmen , nos pulmões , no leite materno , na medula óssea , na placenta , nos testículos e no cérebro .

Lavando nos rios e soprando no vento

Imagem sobreposta mostrando plásticos no rio, no mar e nos peixes Imagem sobreposta mostrando plásticos nos peixes, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Mesmo ao subir na cadeia alimentar animal, nossa fibra de poliéster não se decompõe. Em algum momento, o fio retorna à terra quando a criatura que consumiu seu hospedeiro morre, e uma nova aventura começa. O corpo se decompõe, mas a fibra de poliéster perdura. Uma vez no solo, ela é arada pelo agricultor antes da semeadura. Mas pode não permanecer lá por muito tempo – ventos fortes sopram o solo seco e degradado para o ar, levando consigo um fragmento rosado de plástico. Em chuvas fortes, a fibra pode ser arrastada para um rio que deságua no mar: uma das principais fontes de contaminação marinha é o escoamento da terra.

Esse processo de movimentação pelos sistemas naturais ao longo dos anos é chamado de “espiral plástica”. Cientistas descobriram que microplásticos equivalentes a 300 milhões de garrafas plásticas de água caíram no Grand Canyon, em Joshua Tree e em outros parques nacionais dos EUA. Até mesmo os lugares mais remotos estão contaminados. Um cientista encontrou 12.000 partículas de microplástico por litro em amostras de gelo marinho do Ártico, arrastadas pelas correntes oceânicas e trazidas pelo vento.

Infiltração em plantas, flores e plantações

Imagem sobreposta mostrando plásticos no trigo e no solo Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Com o passar do tempo, nosso fio de plástico ainda não apodreceu, mas se quebrou em fragmentos, deixando pequenos pedaços de si mesmo no ar, na água e no solo. Ao longo dos anos, ele pode se tornar tão pequeno que se infiltra na parede celular da raiz de uma planta enquanto suga nutrientes do solo. Nanoplásticos foram encontrados nas folhas e frutos de plantas e, uma vez dentro, podem afetar a capacidade da planta de fotossíntese, sugere a pesquisa . Aqui, dentro dos sistemas microscópicos da planta, os pedaços de nossa fibra rosa causam todos os tipos de estragos – bloqueando os canais de nutrientes e água, danificando as células e liberando substâncias químicas tóxicas . Alimentos básicos como trigo, arroz e alface demonstraram conter plástico, que é uma maneira pela qual eles entram na cadeia alimentar humana.

Oito bilhões de toneladas de plástico e contando

Imagem sobreposta mostrando plásticos no peixe, no pão e no leite que apareceram na ilustração anterior.

Desde suas origens humildes, nossa fibra pode ter viajado pelo mundo, desprendendo-se ao longo do caminho e penetrando em quase todas as camadas de diferentes ecossistemas e nos confins do mundo natural. Extraí-la depois de iniciada essa jornada é extremamente difícil. A melhor maneira de prevenir sua disseminação é detê-la desde o início – antes da minhoca, antes do solo, antes da máquina de lavar, até mesmo antes da fabricação do suéter.

Desde a década de 1950, a Humanidade produziu mais de 8,3 bilhões de toneladas de plástico – o equivalente ao peso de um bilhão de elefantes. Ele está presente em embalagens, tecidos, materiais agrícolas e bens de consumo. Optar por viver sem ele é quase impossível.

Empresas de fast fashion, gigantes de bebidas, redes de supermercados e grandes empresas agrícolas não se responsabilizaram pelos danos que isso causou, afirma Emily Thrift, pesquisadora de plástico no meio ambiente na Universidade de Sussex. Ela afirma que os consumidores individuais podem reduzir seu consumo, mas não devem sentir que isso é inteiramente sua responsabilidade. “Se você produz esse nível de desperdício, precisa haver alguma forma de penalização por isso”, afirma. “Eu realmente acredito que, até que haja políticas e maneiras de responsabilizar as grandes corporações, não vejo muita mudança nisso.”


Fonte: The Guardian

Pesquisadores encontram microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes brasileiras pela primeira vez

Estudo identificou 110 partículas de microplástico nas placentas e 119 nos cordões umbilicais.


Um estudo inédito conduzido em Maceió revelou a presença de microplásticos em placentas e cordões umbilicais de gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na capital alagoana. Trata-se da primeira pesquisa a identificar esse tipo de contaminação em humanos no Brasil e em toda a América Latina. Os resultados foram publicados na sexta (25) na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com a instituição havaiana University of Hawai’i at Mānoa.

A equipe analisou amostras de dez gestantes do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes e do Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira, em Maceió. Após a coleta, os tecidos foram digeridos com solução de hidróxido de potássio por sete dias, filtrados e analisados por espectroscopia Micro-Raman, uma técnica de alta precisão para identificação da composição química das micropartículas.

Foram identificadas 229 partículas de microplásticos, sendo 110 nas placentas e 119 nos cordões umbilicais. Entre os materiais mais encontrados estavam o polietileno (presente em embalagens plásticas descartáveis) e a poliamida (comum em tecidos sintéticos). “Como a análise foi realizada em apenas cerca de 40 gramas de tecido — enquanto uma placenta inteira pode pesar até 500 gramas —, estimamos que a quantidade real de partículas por órgão seja ainda maior”, afirma o biomédico Dr. Alexandre Urban Borbely, professor da UFAL e um dos autores do estudo.

Um dos achados mais preocupantes foi a detecção de maior quantidade de microplásticos nos cordões umbilicais do que nas placentas em oito das dez amostras. Isso indica que essas partículas atravessam a barreira placentária e chegam até o feto, o que levanta dúvidas sobre os possíveis impactos no desenvolvimento gestacional e na saúde futura da criança.

Outro dado surpreendente foi a menor quantidade encontrada de aditivos químicos utilizados para a fabricação do plástico em comparação com estudo anterior feito pelo mesmo grupo, com placentas dos Estados Unidos. Ainda assim, os resultados alinham-se aos de pesquisas internacionais, pois o perfil químico ligeiramente diferente pode refletir fatores ambientais e hábitos de consumo regionais.

A poluição marinha é apontada pelo estudo como uma possível origem da contaminação, pois a população da região costuma consumir frutos do mar, uma potencial fonte de ingestão de partículas plásticas. Estudos anteriores também apontam outros agravantes: 75% do lixo na orla de Maceió é composto por plásticos — sobretudo sacolas e embalagens de produtos ultraprocessados —, e a falta de acesso à água tratada leva a população a recorrer ao consumo de água envasada, cujo transporte sob intensa radiação solar pode acelerar a liberação de partículas dos recipientes plásticos.

O levantamento reforça a necessidade de compreender melhor os efeitos dos microplásticos sobre a gestação e a infância, e destaca a urgência de ações como a melhoria na gestão de resíduos, a regulação de plásticos descartáveis, o monitoramento da contaminação por microplásticos em água e alimentos, o incentivo ao uso de tecnologias de filtragem e o estímulo ao desenvolvimento de alternativas ao plástico tradicional.

Além do ineditismo da pesquisa no Brasil e na América Latina, o estudo se destaca por focar em uma população socioeconomicamente vulnerável — um grupo frequentemente ausente nos estudos internacionais, destaca Borbely. Focada no estudo do impacto dos microplásticos desde 2023, a equipe está continuando esse trabalho em um estudo epidemiológico mais amplo, com previsão de publicação para 2027.


Fonte: Agência Bori

México: Raio-X sem precedentes de microplásticos expõe pontos cegos

A Grande Mancha de Lixo do Pacífico (https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Pacific_garbage_patch) faz com que grandes quantidades de lixo sejam levadas para a costa no extremo sul do Havaí. É muito triste ver um litoral tão pitoresco arruinado por tantos detritos. Veja também: http://www.atlasobscura.com/places/kamilo-beachNo Oceano Pacífico, existem vastas áreas de acúmulo de lixo eletrônico e microplásticos, conhecidas como Garbage Patches, como visto na foto. Crédito da imagem: Justin Dolske/Flickr , sob licença Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed. 

Esta é a conclusão de um novo estudo a ser publicado na edição de agosto da revista Science of the Total Environment , que analisa pela primeira vez o conhecimento disponível sobre a presença ambiental dessas partículas sintéticas no país.

“Não houve uma revisão sistemática que integrasse as informações e pudesse orientar pesquisas futuras ou políticas públicas”, disse Diana Marcela Caro-Martínez, doutoranda em Desenvolvimento Sustentável na Universidade de Quintana Roo e principal autora do artigo, em entrevista ao SciDev.Net .

Para descobrir o panorama nacional, a equipe acompanhou estudos sobre microplásticos em sedimentos, solos, organismos vivos, água (doce e marinha) e ar.

Eles localizaram 80 estudos publicados entre 2014 e 2024 em 20 dos 32 estados do México. Analisando-os, identificaram padrões de distribuição, polímeros predominantes, concentrações relatadas e desafios a serem enfrentados, especialmente a falta de métodos padronizados para monitorar e comparar a abundância de microplásticos.

Eles encontraram relatos de até 586.400 partículas por quilo em sedimentos e um recorde de 936.000 por metro cúbico em água doce.

Esses números indicam poluição extrema e colocam o México entre os países mais afetados.

No entanto, María Belén Alfonso — professora do Centro de Estudos de Plástico Oceânico da Universidade de Kyushu, no Japão, que não esteve envolvida no estudo — sugere interpretá-los com cautela.

“Em alguns lugares haverá concentrações muito altas e em outros muito baixas, mas às vezes isso não está tanto relacionado ao fato de um lugar estar mais contaminado do que outro, mas sim à forma como as amostras foram coletadas”, comentou ele em entrevista ao SciDev.Net .

Ele alertou que “900.000 partículas por metro cúbico é superabundante, mas eu me arriscaria a dizer que se trata de uma amostra retirada de um pequeno volume de água”. Como os microplásticos são capazes de formar manchas, o número pode ser uma superestimativa devido a uma dessas agregações.

“Se eu coletar uma amostra de água com uma garrafa de 1 litro, ela não será tão representativa daquele ambiente quanto se eu arrastasse uma rede por pelo menos 100 metros e coletasse uma quantidade considerável de água filtrada”, acrescentou.

Da lacuna à ação

As observações de Alfonso coincidem com um desafio fundamental identificado pela revisão: a falta de padrões metodológicos, um problema global agora confirmado no México.

Os autores, incluindo Lorena Rios Mendoza — professora da Universidade de Wisconsin-Superior e pioneira no estudo de microplásticos — descobriram que a maioria dos estudos usa análise visual com sensibilidades variadas, unidades não comparáveis ​​e protocolos não harmonizados.

“Vinte anos se passaram desde que comecei a estudá-los”, disse Rios Mendoza ao SciDev.Net , “e ainda não conseguimos concordar sobre como inspecioná-los, como relatá-los, como quantificá-los, como identificá-los”.

Os estudos se concentram em estados costeiros industrializados, especialmente Campeche e Sinaloa, enquanto regiões do interior — como o planalto central, o norte semiárido e o sudeste continental — permanecem praticamente inexploradas.

Segundo Rios Mendoza, isso ocorre porque “os primeiros estudos sobre microplásticos foram realizados no oceano, principalmente no Pacífico, onde encontramos a Garbage Patch ” [grandes áreas de mar onde se acumulam lixo e outros resíduos, incluindo equipamentos de pesca] e é preocupante porque a verdadeira magnitude nos ecossistemas continentais pode estar subestimada.

Há também um viés nos tipos e tamanhos das amostras, visto que mais de 75% dos estudos são realizados em sedimentos e biota, e apenas um foi encontrado no ar. Além disso, a maioria relata partículas maiores que um milímetro, ignorando os menores microplásticos e nanoplásticos, que representam um risco ecotoxicológico maior.

“Essa lacuna se deve à necessidade de protocolos mais especializados e instrumentação extremamente cara que nem todos podem pagar”, explica Rios Mendoza.

“É muito fácil culpar a má gestão de resíduos, mas há duas fontes que não foram levadas em conta e que precisamos abordar primeiro: a superprodução da indústria petroquímica e o consumo excessivo.”

Diana Marcela Caro-Martínez, doutoranda em Desenvolvimento Sustentável na Universidade de Quintana Roo, México

Outra descoberta importante foi a predominância do polietileno (PE) e do polipropileno (PP), dois polímeros comuns usados ​​em embalagens, roupas e itens descartáveis. Sua onipresença revela pontos cegos tanto nas normas mexicanas quanto nas recomendações internacionais.

“É muito fácil culpar a má gestão de resíduos, mas há duas fontes que não foram levadas em conta e que devemos abordar primeiro: a superprodução da indústria petroquímica e o consumo excessivo”, reclama Caro-Martínez.

Para corrigir a situação, os pesquisadores delineiam uma série de diretrizes que começam com a padronização de metodologias de amostragem de campo, análises laboratoriais, unidades usadas para relatar microplásticos e sua identificação inequívoca.

Eles propõem então a criação de um banco de dados nacional para coletar, organizar e armazenar informações: “onde o comportamento e a abundância dos microplásticos no país possam ser vistos a cada três ou seis meses, durante a estação seca ou chuvosa”, enfatiza Caro-Martínez.

Ele acrescenta que é necessária uma abordagem coordenada, baseada em redes de monitoramento, compartilhamento de dados e acordos políticos, juntamente com responsabilidade individual.

Como ressalta María Belén Alfonso, a longo prazo, essas iniciativas favorecem a regulamentação ambiental: “Para desenvolver leis, é preciso baseá-las em dados científicos comparáveis ​​que determinem se essa concentração é muito alta ou muito baixa”.


Fonte: SciDev

Cientistas alertam que abelhas enfrentam novas ameaças de guerras, iluminação pública e microplásticos

Relatório da Universidade de Reading diz que conflitos, incluindo a guerra na Ucrânia, estão entre as 12 ameaças mais urgentes aos polinizadores

uma abelha em uma flor vermelha

Descobriu-se que antibióticos afetam o comportamento dos polinizadores, incluindo a redução de suas visitas às flores

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Relatório da Universidade de Reading diz que conflitos, incluindo a guerra na Ucrânia, estão entre as 12 ameaças mais urgentes aos polinizadores

Zonas de guerra, microplásticos e iluminação pública estão entre as ameaças emergentes à população de abelhas , de acordo com cientistas.

Especialistas em abelhas elaboraram uma lista das 12 ameaças mais urgentes aos polinizadores na próxima década, publicada em um relatório, Ameaças emergentes e oportunidades para a conservação de polinizadores globais, pela Universidade de Reading.

O aumento de guerras e conflitos em todo o mundo está prejudicando as abelhas, alertam os cientistas. Isso inclui a guerra na Ucrânia , que forçou os países a cultivar menos tipos de culturas, deixando os polinizadores sem alimentos diversos durante toda a temporada.

Os pesquisadores descobriram que partículas de microplástico estavam contaminando colmeias em toda a Europa. Testes em 315 colônias de abelhas revelaram a presença de materiais sintéticos, como plástico PET, na maioria das colmeias. A luz artificial de postes de iluminação pública reduziu em 62% a visitação de polinizadores noturnos às flores, e a poluição do ar afetou sua sobrevivência, reprodução e crescimento.

Antibióticos, usados ​​na agricultura, chegaram às colmeias e ao mel. Descobriu-se também que afetam o comportamento dos polinizadores, incluindo a redução de sua procura por alimento e visitas às flores. “Coquetéis” de pesticidas também desempenham um papel significativo e emergente; embora alguns pesticidas sejam agora regulamentados para serem mantidos abaixo dos limites “seguros” para abelhas e outros animais selvagens, pesquisas descobriram que eles podem interagir com outros produtos químicos e causar efeitos perigosos.

O Prof. Simon Potts, da Universidade de Reading, principal autor do relatório, afirmou: “Identificar novas ameaças e encontrar maneiras de proteger os polinizadores precocemente é fundamental para evitar novos declínios significativos. Não se trata apenas de uma questão de conservação. Os polinizadores são essenciais para nossos sistemas alimentares, resiliência climática e segurança econômica. Proteger os polinizadores significa proteger a nós mesmos.”

Os autores pediram uma série de medidas para proteger as abelhas, incluindo leis mais rígidas que limitem a poluição por antibióticos que prejudica a saúde das abelhas, a transição para veículos elétricos para reduzir a poluição do ar que afeta os polinizadores, a criação de habitats ricos em flores dentro de parques solares e o cultivo de culturas com pólen e néctar aprimorados para melhor nutrição dos polinizadores.

A coautora do relatório, Dra. Deepa Senapathi, também da Universidade de Reading, acrescentou: “Será necessário um esforço de todos para enfrentar essas ameaças. Precisamos manter, gerenciar e melhorar nossos habitats naturais para criar espaços seguros para os polinizadores. Ações individuais, como fornecer alimento e áreas de nidificação em nossos próprios quintais, podem ajudar muito. Mas mudanças políticas e ações individuais devem funcionar em conjunto para que tudo, desde jardins e fazendas a espaços públicos e paisagens mais amplas, possa se tornar habitats favoráveis ​​aos polinizadores.”


Fonte: The Guardian