Na geopolítica de crise sistêmica, as aparências enganam…e matam

Por Douglas Barreto da Mata 

Desde os primórdios, quando os ajuntamentos de pessoas começaram a disputar territórios e recursos entre si, tão importante quanto o esforço militar de cada parte, era o controle da narrativa. Se a História é a tradução da versão dos vencedores, definir quem, e como se conta essa história é crucial. Desde os papiros até os meios digitais muita confusão e distração foram produzidas, confundindo não só o senso comum, mas também acadêmicos e pessoas dotadas de acesso às informações mais, digamos, qualificadas.

A esquerda brasileira, por exemplo, está tão perdida quanto cego em tiroteio. A mídia brasileira é um caso à parte, com raríssimas e honrosas exceções. Ela não está perdida, ela está na coleira. Jornalistas brasileiros, na maioria, não pensam por si, só reproduzem o conteúdo que vem da matriz, os EUA. É um trabalho constante de sustentação de um pensamento hegemônico global, sem qualquer compromisso com verdade factual, ou intenção de pensar “fora da caixa”.

Assim, em um estranho universo, mídia e esquerda se juntam, cada qual por uma razão distinta, a primeira por burrice, a segunda por má fé, e apresentam visões muito ruins sobre o tabuleiro geopolítico, e claro, sobre os conflitos que envolvem Israel.

Sim, eu sei. Ideologicamente há argumentos para odiar Israel, desde a ideia esdrúxula de sua existência, a partir de 1948, sua posição agressiva a partir de então, e culminando com os episódios recentes, o holocausto palestino e a guerra com o Irã. Eu já disse isso aqui antes.

Uma coisa é uma posição política e afetiva a favor dos mais fracos. Outra é desconhecer a História. Apesar de serem os únicos que confrontam o império estadunidense, e terem sido alvo de agressões por muito tempo, passando pelas Cruzadas e outros embates, as sociedades islâmicas são teocráticas, ultra conservadoras e com hierarquia de classes rígidas. Não são um paraíso socialista.

Lá nos idos do início do capitalismo, e nos períodos anteriores de acumulação primitiva, o Islã reunia condições tecnológicas e científicas muito mais avançadas, e dominavam rotas de comércio cruciais (uma cena ilustrativa é o Saladin oferecendo gelo no deserto para os prisioneiros cruzados, no filme Cruzadas). Foram massacrados em um momento que a História e seus desígnios decidiu quem ia dar o salto Paes uma sociedade de produção capitalista, ou não. Se não fosse por esse motivo, o mundo ocidental não existiria como conhecemos, e talvez Hollywood fosse Meca. Por isso foram massacrados, embora a justificativa tenha sido a fé.

Então é, no mínimo, contraditório, a esquerda desconhecer que combater o autoritarismo israelense não faz sentido, se a escolha for autoritarismo islâmico, que são regimes que praticam o modo de produção capitalista, mais atrasados pelas razões já expostas aí em cima.

Por outro lado, a mídia nacional (sucursal da Casa Branca), bate tambor por Israel, e vende o conto do mocinho contra o bandido, reduzindo a questão a uma luta entre o mundo (ocidental) “esclarecido” e os “bárbaros” do Islã, requentando ódios medievais misturados com ressaca da guerra fria. Não, não se luta por democracia ou por valores universais no oriente médio, a disputa ali é por grana. Aliás, no mundo todo. No entanto, não é só isso.

O que está em colisão são três grandes modelos autoritários, que se colocam em blocos: O complexo sino-indo-russo e associados, aqui juntos o Irã e facções do mundo árabe, e do outro, EUA, Europa, e associados, incluindo Israel e partes do mundo árabe. A América Latina parece hesitar, mas não vai resistir muito, e deve aderir, a um ou outro bloco, no todo ou dividida. Essa parte Sul do mapa talvez seja o local de alternativas genuínas, todas abortadas, é claro, pelo esforço EUA-Europa.

O sucesso chinês e, de certa forma, os relativos sucessos russo e indiano estabeleceram um padrão a ser perseguido pelas potências ocidentais decadentes, que se ressentem do fardo “democrático”, ou seja, da impossibilidade de fazer o capitalismo sem amarras ambientais, eleitorais e de regulamentação, melhor dizendo, impondo rígidas regras para retirar “obstáculos sociais” do caminho, com planejamento verticalizado ao máximo. Se antes chineses eram conhecidos pelas cópias, hoje é o “mundo livre” que deseja o padrão chinês de gestão política do capitalismo.

Diferente da Segunda Guerra, nos dias atuais não há oposição de um suposto bloco “democrático” contra um eixo totalitário. A contenda é para saber quem será o mais autocrático. Esqueça a “vocação humanista europeia”. Essa farsa acabou na tentativa de insuflar a Ucrânia contra a Rússia (outra historinha da mídia nacional).

Mesmo desse jeito, pensando de forma pragmática, o fato é que torcer pelo Irã exige o desprendimento, em outras palavras, vontade de andar a pé e deixar uma pauta de produtos (derivados de petróleo, ou quase tudo) fora de nossa vida ocidental. É Israel que, como preposto militar dos EUA e da Europa, mantém o preço do petróleo em um patamar que nos permite viver. Dura verdade, mas é a verdade.

O Irã é um regime que existe como oposição aos EUA, mas não significa que isso nos favoreça. Talvez aqui e ali, mas não se pode confundir o regime iraniano com aquele que foi derrubado pelos EUA, em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh prometeu estatizar o petróleo. Naquela época o Irã era um país secular (religião separada do Estado), que foi transformado em uma brutal ditadura pela CIA.

Na década de 1970, os aiatolás mobilizaram a resistência e o ódio, fermentando esse movimento com fanatismo religioso, e o resto todo mundo sabe. O Irã é uma analogia da nossa extrema-direita por aqui, que mistura religião, repressão de costumes, e hierarquias políticas.

Engraçado é também assistir os ultra direitistas atacando o Irã e a Palestina, quando nesses locais estão instalados regimes que esses contingentes políticos nacionais desejam instalar no Brasil Religiosos, autocráticos e ultra capitalistas.

A geopolítica, às vezes, exige deslocamentos e alinhamentos temporários, demanda sopesarmos qual é mal menor, e o que é ou não possível para alcançar um objetivo estratégico. Acima de tudo, requer bom senso. Eu leio muita gente boa por aí babando russos e chineses, imaginando um mundo cor de rosa pós EUA.

Não creio que a solução para a esquerda e para o Brasil seja mudar de dono. Ao mesmo tempo, a aversão que a extrema-direita brasileira tem pelo Islã e China, ou o amor incondicional ao EUA não se justificam.

Vozes Silenciadas – Energias Renováveis: como a mídia encobre as injustiças sociais na transição energética

Por Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

2023 foi o ano mais quente da história do planeta, segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). No Brasil, a média das temperaturas do ano ficou em 24,92°C, ou seja, 0,69°C acima da média histórica de 1991-2020, que é de 24,23°C.[1] A chamada crise climática é estruturada e acelerada por um modelo socioeconômico capitalista, baseado no racismo ambiental, na apropriação privada, na mercantilização e na exploração desmedida da água, do solo e dos demais bens comuns. Suas raízes históricas remontam ao colonialismo e às relações de poder e opressão do Norte sobre o Sul Global.

Baixe aqui a publicação.

Fato é que, nos últimos anos, o tema tomou conta da agenda da população brasileira, sendo assunto constante nas redes sociais, na mídia tradicional e na vida cotidiana. Seja em decorrência de eventos ambientais adversos e trágicos, como secas, enchentes e queimadas, seja por força de declarações de figuras públicas, expressões e categorias como “crise climática”, “energias verdes”, “energias renováveis” e “transição energética” circulam cada vez mais no debate público.

Nesse contexto, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a partir do diálogo com movimentos sociais, pesquisadoras/es, ativistas e grupos diretamente impactados pelos conflitos decorrentes dessa conjuntura – dentre eles pescadoras/es, agricultoras/es e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) – se lançou ao desafio de analisar a cobertura de veículos jornalísticos da mídia com alcance nacional e local acerca dos empreendimentos em solo brasileiro vinculados às ditas “energias limpas”.

A pesquisa faz parte da série Vozes Silenciadas, em que o Intervozes analisa a cobertura da mídia sobre temas que impactam os direitos da população brasileira. Este é o sétimo volume da série, que já tematizou: a criminalização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2011; as jornadas de manifestações de junho de 2013; a reforma da previdência do governo Bolsonaro (2019); a tragédia provocada pelo crime de derramamento de petróleo na costa brasileira (2020); os direitos sexuais e reprodutivos, com foco no aborto (2023); e as leis de cotas para acesso ao ensino superior no país (2024). Todos os volumes da série estão disponíveis gratuitamente no site do Intervozes.[2]

Próximo de sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em 2025, e assumindo compromissos internacionais e um papel estratégico na economia global como sede do G20, o Brasil vem se colocando como protagonista na chamada transição energética, imprimindo ritmo acelerado à implantação de megaprojetos de energia renovável e lançando as bases de políticas de compromisso que alegam enfrentar a chamada crise climática.

Tais políticas, entretanto, têm se mostrado insuficientes no enfrentamento das raízes profundas de um cenário de injustiça socioambiental marcante, atuando mais como esforços retóricos e sinalização ao mercado (numa estratégia de greenwashing) do que, propriamente, apresentando soluções justas, eficazes e que respeitem os biomas e a autonomia dos povos sobre seus territórios.

Nós, do Intervozes, esperamos que este olhar sobre como as mídias corporativa e pública têm se colocado no debate como ator estratégico que é, ajude no fortalecimento da luta de quem, a partir dos territórios, nos presta valiosas lições de como habitar muitos mundos em coerência e em defesa da biodiversidade e do bem viver.

Que esta pesquisa alimente discussões e buscas de soluções a partir de perspectivas diversas e críticas, fortalecendo as lutas no Brasil, na América Latina e mundo afora, ajudando a transformar as angústias necessárias em férteis esperançares.

Boa leitura!

Baixe o PDF


Fonte: Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

O jornal que virou papel para embrulhar peixe

peixe reclamando

Por Douglas Barreto do Mata

Há muitos anos, quando os blogs exerciam mais influência na rede mundial de computadores, denominei um veículo de comunicação campista com essa utilidade citada no título.  Eram tempos de ingenuidade, quando acreditávamos no conto da internet como ferramenta de comunicação livre, e enfim, de exercício de liberdade de expressão e luta política contra o “sistema”. 

Bem, ficou claro que nem a internet era, ou será livre, e nem há possibilidade de liberdade de expressão dentro da institucionalidade capitalista, seja qual for o meio utilizado. Muito menos liberdade de imprensa.  O capitalismo se sustenta, principalmente, pela hegemonia ideológica. Há truques fantásticos, que nos fazem aceitar, e pior, aderir às ideias sem questionamento algum, normalizando absurdos.  As ciências (mormente as sociais e políticas), os entes políticos, o estado, a escola, as religiões, partidos políticos, e a mídia fazem parte dessa estrutura sofisticada e complexa.

Primeira prestidigitação: Capitalismo e Democracia são compatíveis. Já falamos por várias vezes dessa impossibilidade, por isso mesmo, vamos resumir:  Um sistema que se dedica à concentração e desigualdade econômica não pode ter na sua esfera política de controle (super estrutura) uma correspondência democrática.

Não sejamos tolos de imaginar que processos eleitorais sejam sinônimo de Democracia, ou que “o pleno funcionamento do Estado de Direito” também seja.  Qual nada. O Estado de Direito do capitalismo é garantir privilégios às elites e deveres aos pobres.  Esse é o “normal” no capitalismo.

Por outro lado, se concordamos que não há democracia no capitalismo, muito menos haverá liberdade de expressão ou de imprensa.  Pessoas, classes e empresas vocalizam suas demandas sempre filtradas por uma hierarquia (de classes), assim como tais atores são retratados e tratados com essa mesma clivagem, sempre.

Outra sacada genial do capitalismo:  Dizer que a existência de empresas de comunicação em pleno funcionamento, e sem qualquer regulamentação social ou controle social coletivo são sinônimos de plena democracia.

Ora, como empresas que são, os meios de comunicação de massa agem para defesa de interesses (e de seus pares, os ricos), e não em busca de uma verdade factual, ou de ampliar “os horizontes da democracia e dos direitos coletivos e individuais”, como gostam de recitar os empregados e os barões da mídia.

Acidentalmente, a verdade factual pode até servir a tais interesses, geralmente através de distorções e manipulações, usar uma parte desta verdade para legitimar uma mentira inteira.  Na essência, porém, a imprensa empresarial trabalha para dificultar que a maioria explorada se enxergue como tal, e quando há uma fresta de luz nestas trevas, logo é fechada com os poderes constituídos, dentre eles, o principal, o judiciário.

Não haveria problema algum em reconhecer que tais empreendimentos de mídia se inclinam a defender seus interesses de classe.  Isso seria honesto.  Daria a todos nós, os consumidores de conteúdo, a correta visão do que consumimos, fazendo o julgamento necessário. Nem sempre um interesse, como dissemos, invalida uma informação.  Mas não é assim que acontece.  Eles preferem seguir na lenga-lenga da democracia como valor universal. 

Desde que esse “universalismo” seja para garantir seus pontos de vista, como no caso da ferrenha luta pela democracia venezuelana, e a amnésia em relação ao regime saudita, por exemplo, ou para dar tons dramáticos à guerra russo-ucraniana, e banalizar o genocídio israelense.  Capturar os conceitos de liberdade (de imprensa e de expressão) como valores empresariais foi uma ideia brilhante, confesso.

Confesso que a angústia que tenho com o descalabro da internet e das redes sociais é suavizado, um pouco, quando assisto a luta (perdida) e renhida dos meios tradicionais de mídia e as redes sociais.

De tanto manipularem o conceito de liberdade de expressão (e de imprensa), agora são vítimas da “ditadura da liberdade de expressão” das redes, do “totalitarismo democrático” pós-capitalista, que tornou os grandes veículos meros papéis de embrulhar a sobra da feira. Os grupos de mídia aprendem, no leito de morte, que nem todo barulho é democracia, nem toda narrativa é liberdade de expressão, nem toda atividade econômica pode existir sem controle.

Foram engolidos pelo monstro que criaram.  Digo sempre que a luta agora, entre os escombros da mídia e as redes digitais, é pelo controle da mentira. Esse monopólio sempre foi dos grandes grupos nacionais e seus afilhados regionais, como o grupo referenciado nesse texto. Perderam essa batalha.

Se eu fosse sentimental, diria que sinto pena. Não, não sinto.

Mas também não cheguei a festejar, porque o que foi colocado no lugar da mídia corporativa pode ser bem pior. Em Campos dos Goytacazes, aquele que se jactava de ser o mais influente e poderoso grupo de comunicação, que se dizia, e se imaginava ter o poder de “fazer e derrubar reis e rainhas”, de estabelecer o padrão de costumes, na verdade, trejeitos “jecas” e provincianos, com sonhos de cosmopolitismo mal ilustrado e, quase sempre, preconceituoso, agora, se contorce na inutilidade absoluta.

Não imaginem um insucesso financeiro, nada disso. Ninguém vai passar fome. A questão central para um grupo de mídia é monopolizar o verbo, e aí sim, obter a verba, quer dizer, convencer a todos que ganha dinheiro porque detém “a verdade”, ou pior, aquilo que será “a verdade”, justamente, porque eles disseram que é. Esses dias ficaram no passado.

Todos os antigos empregados, com algo entre 2 e 5 neurônios, saíram em busca da autonomia, e arrecadam para si mesmos aquilo que faziam em troca de salários de fome, chantageados pela falta de opção e pelo delírio de “trabalhar em um jornal influente”.

No velho jornal, e na tentativa de versão digital, ficou só o pessoal do “copia e cola” dos “releases” das assessorias dos órgãos oficiais, cujos responsáveis ainda guardam alguma memória afetiva com a redação carcomida pela irrelevância, enquanto colocam recursos grossos nas redes sociais e nas suas próprias estruturas de mídia.  A morte de um jornal se dá pela sua irrelevância.

Vamos esperar a próxima Páscoa, e quem sabe, o jornal vai servir para o comércio de pescados descartar o peixe apodrecido?

A mídia, o cachimbo e a boca torta

IMPRENSA VENDIDA – Bem Blogado

Por Douglas Barreto da Mata

A cobertura “futebolística” da mídia empresarial sobre as sabatinas na CCJ do Senado dos indicados aos cargos de PGR e para ocupar vaga no STF beirou ao ridículo.

Quer dizer, foi ridícula mesmo…

Antes de tudo e mais nada:

O chamado “placar” da votação no plenário do Senado diz muito mais daquela casa parlamentar do que do Ministro da Justiça, senador, ex governador, ex juiz federal, e etc, etc, etc…

A desinformação dos meios empresariais de mídia se assemelha ao que eles dizem combater, a indústria dos boatos na internet, as “fake news”…

Aliás, quem olhar bem de perto vai perceber que fake news e noticiários das grandes redes se retroalimentam…

Na verdade, o único problema das grandes, médias e pequenas empresas de mídia com as fake news e as redes sociais é que as primeiras perderam o monopólio da mentira e da desinformação…só isso…

A edição foi calculada para mostrar as tentativas (infrutíferas) de constrangimento ao ministro da justiça…

Como ele se saiu muito bem, dada a pouca ou nenhuma capacidade intelectual dos seus opositores, restou o “placar”, o segundo pior, diz a mídia…

Volto ao começo: se recebesse os votos em números parecidos aos consagrados ao PGR, aí sim, eu estaria preocupado…

Não que eu espere grande coisa de Flávio Dino, até porque, salvo os embates das redes sociais, sua gestão foi parecidíssima com todas as demais que o antecederam, ou seja, foi a mesma porcaria…

A mídia parece desconhecer, ou em alguns casos, desconhece mesmo, que o STF, ou qualquer outra Corte Constitucional com o modelo dos EUA (é o nosso caso, com algumas adaptações) é uma instância essencialmente política, dada a natureza do controle de constitucionalidade…

Vou um pouco além, não existe, de fato, nenhuma decisão judicante (do Poder Judiciário) que seja isenta das crenças que o magistrado acumular ao longo dos anos de sua vida…

Não, não senhores e senhoras, não existe Poder Judiciário “neutro”…

Muito menos no STF…

Ora, se Judiciário e o MP fossem “neutros” e/ou ao menos tendessem a um equilíbrio, em questões penais, por exemplo, as cadeias não estariam cheias de pretos e pobres, quase que exclusivamente…

Se Judiciário e o MP fossem “neutros” e/ou tendessem ao equilíbrio, a prestação jurisdicional não seria tão hierarquizada, a ponto de terem criado um juizado menor, os Juizados Especiais, onde as demandas “baratas” (abaixo de 20 SM ou 40SM) fossem tratadas…

Experimente acionar na Justiça uma empresa em valores maiores que esse limite…

Uns 10 anos, na média, de espera…

Tente bancar o custo de recursos ao TJ ou ao STJ, ou enfim, ao STF, se a ação assim necessitar…

Pois é… 

Então, é preciso que se diga que no STF se discute politicamente o conteúdo da Constituição Federal, e suas mudanças e reinterpretações, que serão adequadas e moldadas a enunciados jurídicos…

É isso…nada mais…

Não há nada de técnico ou jurídico, em senso restrito, em definir se as áreas de povos originários serão entregues ou não à grilagem, como se pretendia com o marco temporal…

Muito menos em decidir, na questão do aborto, quem é que manda nos corpos das mulheres, se elas mesmas, ou todos, menos elas…

E por aí vamos…

Campos dos Goytacazes: entre o terrorismo fiscal e o populismo acadêmico

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Por Douglas da Mata

Todos sabemos que uma narrativa nunca é resultado de interesses lineares ou de uma única fonte.

A expressão discursiva humana contém sempre múltiplas faces, que lógico, vocalizam vários interesses e posições, algumas contraditórias, outras coerentes entre si.

Atualmente, como resultado do intenso debate político nacional, e das eleições municipais que se inserem nesta agenda, está em curso a elaboração e/ou a reformulação de algumas ideias sobre gestão pública, que eu gostaria de resumir dentro do meu vulgar conhecimento.

Não raro, e Campos dos Goytacazes não é exceção, os setores de mídia buscam a legitimação da ideia de que não há saída para a gestão orçamentária das cidades, ao mesmo tempo que buscam em alguns nichos universitários o eco à estas premissas.

Todos estes canais empresariais de mídia estão sempre comprometidos com o conservação das estruturas de desigualdade geradas pelo capitalismo, do qual são parte integrante como negócios empresariais, e determinantes no edifício de controle ideológico das classes em conflito.

Sabemos, de antemão, que tais teses não são falsas per si, pois há sim algum estrangulamento nas gestões orçamentárias, mas o problema é apresentar tais questão como insuperáveis, ou pior, apenas superáveis pela adoção dos mesmos remédios do arrocho fiscal, que já se comprovaram venenos para a maioria das populações.

Então, fiéis a tática de contar uma mentira a partir de uma meia verdade, as mídias identificam o problema, mas submetem-no à apenas uma forma de solução, e simultaneamente escondem as reais causas deste estrangulamento fiscal.

Este movimento ganhou o nome de terrorismo fiscal, justamente por aquele setores progressistas que sabem que a gestão do Estado brasileiro não pode ser resolvida pela agenda liberal “tecnocrata”.

Aliás, vou além e digo que a gestão do Estado capitalista pode ser representada fielmente no Mito de Sísifo.

Me filio a tal movimento.

Vejo que na cidade de Campos dos Goytacazes, vastos segmentos da chamada “Academia” ingressaram nas fileiras do terrorismo fiscal, enquanto outras, um pouco mais comedidas, trilham o caminho do populismo acadêmico.

Explico.

Acreditando que receberão alguma forma de empoderamento político (que serão chamadas a intervir com seu capital intelectual na gestão política das cidades), estes setores populistas da Academia criaram uma tese alternativa, mas que na verdade é apenas complementar ao terrorismo fiscal, um tipo de sofisticação.

Este truque aparece bem no texto do “ólogo” zé da cruz, publicado hoje do Blog do Marcos Pedlowski, a quem tenho como rara exceção neste meio de iludidos que se creem espertos.

O texto do “ólogo” zé da cruz advoga que o problema central da chamada “crise fiscal” da cidade é um misto de “falta de articulação política com articulação técnica”, nas palavras do “ólogo” que imagina que picadeiro de mídia empresarial é tribuna acadêmica, e por isso frauda a si mesmo para ser digerível a este setor e seus associados.

Digo e repito, a intenção do Marcos Pedlowski foi dar um contraponto, uma tese alternativa à do terrorismo fiscal e ampliar o debate pobre, mas esbarrou na intelectualidade capturada e sequestrada pelas elites locais.

Não, meus caros, não faltou articulação política ou técnica, ao contrário, sobraram tais articulações “políticas e técnicas”, que se destinaram sempre a mesma coisa: transferir bilhões de reais dos royalties para as classes dirigentes, as elites, que se associaram à governos para este saque, e depois se desfizeram destas classes políticas descartáveis nas fogueiras do lawfare.

zé da cruz quer nos convencer que nossos problemas são morais, mas mesmo assim, restringe o sentido de moralidade quando subtrai a amplitude das escolhas políticas, e deixa tudo na conta da ausência de “vontade”, sem dizer em alto e bom som que foram as elites que comandaram a pirataria dos royalties, implementando modelos de gestão que atendessem primeiro aos negócios.

Sem nomear corretamente o que aconteceu, nunca poderemos alterar a direção para onde estamos indo!

Estamos então, entre os terroristas do orçamento, e o celebritismo intelectual de baixo calão.

fecho

 

Este texto foi originalmente publicado no blog “Diário da Pandemia” [Aqui!].

Mídia internacional e a nacional: adivinhem qual delas informa os motivos e a força da greve geral!

Acabo de assistir pela TV por agonizantes 15 minutos um âncora da Band News culpar os manifestantes pela violência que ocorre neste momento no centro da cidade do Rio de Janeiro. Mas pior do que oferecer uma versão parcial dos enfrentamentos, esse âncora fez um enorme malabarismo para explicar que não houve adesão à greve geral no Rio de Janeiro, mas sim a realização de piquetes, bloqueios e paralisações de determinadas categorias. Ora bolas, o nome disso é o que mesmo? Deixe-me ver… ah sim, greve geral!

bandnews

Entretanto, quem tiver acesso à cobertura de grandes veículos da mídia internacional como o New York Times, The Guardian, El País e até a BBC verá que o foco desses matérias é informar que o Brasil foi sim palco de uma greve geral neste 28/04, e que o protesto está dirigido contra as reformas neoliberais do governo “de facto” de Michel Temer (Aqui!Aqui!Aqui! Aqui!)

Assim, ainda que o presidente “de facto” Michel Temer decida se iludir e desmentir a força do movimento de hoje, quem evitar este tipo de ilusão causada pela desinformação imposta pela mídia corporativa brasileira basta acessar a mídia internacional. Simple assim!

UFRJ sediará simpósio sobre “Mídia, estado, democracia”

Nos dias 24 e 25 de Outubro ocorrerá o simpósio “Mídia, estado, democracia” no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.  O evento contará com mesas redondas na parte da manhã, de tarde e de noite (ver cartaz abaixo).

cartaz

Este evento é uma realização do Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino de História (LPPE) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre a África, Ásia e as Relações Sul-Sul (NIEAAS), do Departamento de Ciência Política da UFRJ, e do Núcleo de Estudos de História Política da América Latina (NEHPAL) da UFRRJ

Segundo  o site do simpósio, o evento têm o objetivo de ampliar a consciência crítica sobre um tema que tem tido um papel fundamental no contexto político atual não apenas nacional, como em todo mundo, onde a mídia tem assumido um papel preponderante e que merece uma reflexão mais profunda de seus efeitos.

Os interessados em participar das atividades programadas para este seminário podem se informar Aqui!

Blog O Cafezinho desvenda caminhos do financiamento estatal da mídia corporativa

Apesar da crise econômica, repasses de dinheiro público à Folha crescem 78% sob o governo Temer; Abril tem mais 624%

Exclusivo! Temer inicia trem da alegria para a mídia do golpe. Repasses federais à Folha crescem 78%

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Miguel do Rosário, em O Cafezinho

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Agora entendi um pouco melhor dois movimentos da Folha nos últimos sete dias. Primeiro, o jornal publicou reportagem sobre si mesmo, se autoelogiando, dizendo que faz “cobertura crítica” do governo Temer.

Segundo, publica matéria requentando notícia de maio deste ano, sobre decisão do governo de suspender publicidade federal aos blogs, uma não-notícia bizarra, pois não informa afinal que veículos receberam recursos durante esses primeiros meses de governo Temer.

Então fui olhar com mais calma os números da Secom, fazendo o seguinte comparativo: peguei as execuções contratuais (pagamentos efetivamente realizados) neste quatro meses de “governo Temer”, de maio a agosto deste ano, e os comparei com os quatro meses de 2015.

Os pagamentos federais à Folha/UOL, nos quatro meses de maio a agosto de 2016, foram 78% maiores que no mesmo período de 2015.

Apesar da grave crise fiscal, da recessão, da campanha da mídia para o governo cortar gastos, o volume de recursos publicitários pagos nos últimos meses já é quase 50% maior que o registrado em 2015.

A grande mídia começou a receber a propina oficial do governo pelo apoio ao golpe, e a campanha contra os blogs é um preparativo para neutralizar aqueles que podem denunciar a mamata.

É bom lembrar que o governo Temer só conseguiu sua verdadeira “alforria” há pouco mais de um mês, quando o Senado aprovou o afastamento definitivo da presidenta Dilma, e as execuções contratuais espelham frequentemente contratos celebrados em período anterior.

O trem da alegria está apenas começando a pegar velocidade.

Mas já dá para ter uma ideia dos pixulecos a serem pagos à mídia tradicional,  em pagamento a uma cobertura bem ao contrário de “crítica” ao governo Temer. Na verdade, a mídia, assim como durante o regime militar, dá sustentação ao golpe que ela mesmo articulou.

A Globo não viu crise este ano em termos de publicidade federal. De maio a agosto, as empresas da Globo receberam R$ 15,8 milhões de repasses federais (sem contar as estatais!), 24% a mais que no ano anterior.

Enquanto os Marinho defendem o fim da aposentadoria rural, o fim da gratuidade da universidade pública, o arrocho do salário mínimo, eles arrancam mais e mais dinheiro do povo brasileiro. E olha que isso é só o começo!

A Abril também começou a recuperar o terreno perdido. Nos quatro meses de maio a agosto de 2015, o grupo que edita a Veja recebeu apenas R$ 52 mil, valor que saltou para R$ 380,77 mil no mesmo período de 2016, um crescimento de 624%!

A concentração dos recursos federais em mãos da Globo já era uma realidade gritante antes do golpe, como se pode ver nos dados de 2015, quando a Globo ficou com 31% de toda a publicidade federal sem as estatais.

É bom lembrar que estamos falando apenas da publicidade do governo federal e seus ministérios. Se o Judiciário aceitar a liberação dos dados das estatais, veremos que o trem da alegria para a mídia que apoiou o golpe é bem maior.

FONTE: http://www.viomundo.com.br/denuncias/apesar-da-grave-crise-economica-repassea-de-dinheiro-publico-a-folha-crescem-78-sob-o-governo-temer-abril-tem-mais-624.html

(Chomsky) As 10 estratégias de manipulação mediática

Avatar de colibevPortal Anarquista

Manipulacao.2

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Noam Chomsky
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1. A estratégia da distracção. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, presa a temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à quinta com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
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2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-reacção-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa…

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Porto do Açu: sucesso de mídia , mas só na regional

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Tenho observado um esforço concentrado da atual controladora do Porto do Açu de promover uma volta daquelas famosas visitadas guiadas dos tempos de Eike Batista, onde o alvo principal é a mídia regional. Os relatos, como é de se esperar, são sempre bem impressionados e contribuem para um esforço de construção de imagem que não tem preço, especialmente em tempos de tanta incerteza por falta de interessados.

Essa volta das visitas guiadas ao interior do Porto do Açu é, contudo, um fenômeno regional. Tenho observado os grandes órgãos de imprensa nacional e internacional (por ex: Exame, Valor Econômico, Bloomberg, BBC, Reuters), e as entradas de matérias voltadas para cobrir o empreendimento são, quando muito, escassas e antigas. Em outras palavras, todo esse esforço é aparentemente para legitimar o empreendimento no plano local, visto que não se nota qualquer repercussão para além dos municípios diretamente influenciados por sua existência.

E ai é que reside um detalhe curioso: no plano local o que se vê é uma combinação de “cash in” e “trash out”.  Em português claro, isso significa que o Porto do Açu se tornou um ponto focal de entrada de dinheiro público graças aos generosos empréstimos do BNDES, mas por causa da sua natureza de enclave estadunidense, não há muita repercussão positiva para o entorno. Aliás, muito pelo contrário! O que se sobra para o entorno é muito lixo, seja na forma mais básica, ou na mais complexa que são suas múltiplas e profundas mazelas sociais e ambientais. Na prática, quem caminha pelas comunidades de entorno notará cenas que mais parecem saídas das regiões mais pobres do Brasil, e não de uma área que tem sido tão generosamente abastecida com vários bilhões de reais.

Apenas numa contagem básica, o que temos de objetivo do Porto do Açu para o município de São João da Barra? Os mais otimistas apontarão seus dedos para a única coisa palpável: o aumento no recolhimento do Imposto sobre Serviços (ISS). Mas e o custo social e ambiental? Começando pela salinização de águas e solos, passando pela erosão costeira que segue incontida e por incêndios na floresta de restinga, e mais recentemente no despejo de minério de ferro nas águas oceânicas que banham a área de carregamento. 

O mais impressionante é que todas essas mazelas ambientais continuam crescendo todos os dias, sem que haja qualquer esforço palpável para contê-las, o que permite estabelecer um cenário de profunda degradação ambiental caso todas as promessas de novos empreendimentos dentro do Porto do Açu se concretizam. È como se estivéssemos vivendo a aurora de uma nova “Cubatão” em nossa região, sem que ninguém pareça querer notar.

E ai todo esse esforço para angariar simpatia entre a mídia regional faz muito sentido. Resta saber se haverá como se jogar para debaixo tantos problemas… e por quanto tempo. É que não há campanha agressiva de mídia positiva que consiga encobrir tantos problemas por todo o tempo. A ver!