Sininho: A mídia e os tradutores da polícia

Por José Ribamar Bessa Freire, Diário do Amazonas

Terroristas liderados pela badalante Sininho planejavam tocar fogo no Rio de Janeiro e fazer do Maracanã uma gigantesca fogueira junina para impedir a realização da Copa do Mundo 2014. O plano diabólico foi descoberto a tempo pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) que identificou os incendiários, decodificou suas mensagens em linguagem cifrada e prendeu a quadrilha, impedindo a transformação do Rio numa Faixa de Gaza. Está tudo gravado pela Polícia.
Foi com base nessas gravações registradas no inquérito policial que o ínclito juiz da 27ª Vara Criminal, Flávio Itabaiana, determinou a prisão dos vândalos. Com estardalhaço, a mídia detalhou o esquema do terror, que consistia em incendiar o prédio da Câmara Municipal, matar policiais, fabricar bombas e explosivos caseiros, quebrar bancos, atacar estádios e até desmoralizar a seleção brasileira, contando com a leniência do Felipão e o financiamento de algumas entidades, como os sindicatos de professores, de petroleiros e da saúde (Sepe, Sindpetro e Sindprev) do Rio.

Como é que soubemos de tudo isso? Autorizada pelo juiz, a polícia grampeou telefones e começou a monitorar emails dos terroristas há mais de um ano. As mensagens gravadas aparentemente inocentes mencionavam “livro”, “caneta”, “aula”, “apostila”, “caderno” e “prova”. O Serviço de Inteligência da Polícia desconfiou dos grampeados, alguns deles professores ou estudantes: “Eles sabiam que estavam sendo monitorados e, por isso, passaram a chamar coquetéis molotovs de ‘pisca-pisca’ ou ´drinques’; bombas de ‘livros’; e ouriços  de ‘canetas’. “(O Globo 21/7).

Tá ligado?

Os nossos sherlocks queimaram a mufa, mas qual Champollion com a Pedra de Roseta decifraram a linguagem esotérica usada pelos ativistas, embora por razões de segurança nunca revelaram seu método. O resultado está no relatório de duas mil páginas, mantido prudentemente inacessível aos acusados e a seus advogados, mas escancarado aos jornais que divulgaram mensagens dos vândalos. Bendito o país cujas instituições – Policia, Judiciário e  mídia – se unem em defesa da ordem pública!  O Taquiprati acessou o relatório por telepatia e registrou o seguinte diálogo:

Camila Jourdan (ativista, professora da Uerj) – Oi, Bom Dia. Não esquece que hoje tem prova, leva pra aula livro, caderno e caneta.
Igor D Icarahy –  Tou ligado. Hoje vai fazer calor.
Camila – Depois da aula, a gente toma uns drinques no bar. 
É estranho, muito estranho, não é  não? Uma leitura ingênua, ao pé da letra, não percebe que os dois estavam planejando quebrar bancos e tocar fogo em caixas eletrônicos. Mas os brilhantes tradutores da polícia sacaram que bom dia =  bomba diasfixia; prova = enfrentamento com a polícia; aula = passeata, enquanto bar = agência bancária, fazer calor, evidentemente, significa tocar fogo, tou ligado é vou à manifestação e caneta é mesmo ouriço, aquela peça feita de vergalhões e pregos usada nos protestos. Era dessa forma que os baderneiros se comunicavam.
Faltava identificar a origem da bufunfa, “o ouro de Moscou” dos velhos tempos. Com destemor, O Globo denunciou em letras garrafais “A Conexão Sindical” que financia os manifestantes com “dinheiro, transporte, carro de som e alimentação“. Registrou telefonema em que “Sininho pede a um integrante do Sepe cem quentinhas para um ato“. (22/07). Informou ainda que “Sininho liderou a organização das manifestações, não apenas no Rio, mas também em Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS). Também tinha a função de arrecadar e distribuir recursos”(21/07).

Este alerta à pátria foi sem dúvida alguma uma contribuição corajosa da inteligência policial e doGlobo, que divulgou declarações do candidato a presidente da República,  Aécio Neves,  apoiando a prisão dos baderneiros, o que serviu para desviar o debate sobre o aecioporto construído na fazenda de seu tio com recursos públicos.

O outro lado

O que O Globo não revelou, mas nós soubemos através de leitura mediúnica do relatório policial, é que a ação de Elisa Quadros, a Super-Sininho, não se limitou ás capitais mencionadas, mas originou o misterioso “apagão” por seis minutos da seleção brasileira no jogo contra a Alemanha. Acontece que o movimento “Não vai ter copa”, quando se viu derrotado mudou o objetivo para “Não vai ter hexa”. Tem um telefonema antes do jogo contra a Colômbia de Sininho para o Capitão Gancho, codinome do zagueiro Zuñiga:
SininhoCompañero, acuerdate de las FARC. Dale leña en la tercera vértebra, que me encargo de hablar con  el gran rey de España.
Capitão Gancho Tranquilo, Campanita! Su merced puede confiar. No te olvides de mi “calentita”.
Zuñiga recebeu a “quentinha” das mãos da própria Sininho, a Campanita,  e em seguida fez o que todo mundo viu na televisão. Depois disso, disfarçada com óculos escuros, Sininho, a fada da baderna, entrou sorrateiramente na Granja Comary, em Teresópolis, onde desestabilizou psicologicamente todos os jogadores da seleção brasileira. Sua presença teria sido facilitada pelo “gran rey de España” que segundo as técnicas clássicas de criptografia usadas pela Polícia seria nada mais nada menos que Felipón.
Ou vocë acredita nesta última história, ou não leva a sério nenhuma delas. Há quem ache que se trata de invenção, esquecendo que a Polícia do Rio tem uma tradição de leitura de intenções delituosas. No Arquivo Nacional, no Fundo Polícia da Corte, encontrei um documento que registra a prisão de um índio, em 1831, por “estar numa atitude de quem estava pensando em roubar“. Embora não tenha conseguido ler as intenções,  entre outros, dos assassinos da dona do Restaurante Guimas, a Polícia usou seu faro para prender, pelo menos, quem estaria pensando em fazer baderna.
O desembargador Siro Darlan foi um dos que não caiu nessa conversa e concedeu habeas-corpus liberando os presos, no que contou com o apoio de várias instituições como OAB, ABI, Anistia Internacional, Justiça Global, Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) e Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP).   
– A ordem de prisão, baseada em ilações e conjecturas, carece de fundamentação legal – sentenciou o desembargador. Para ele, “a prisão cautelar é medida excepcional que deve ser decretada apenas quando aparada pelos requisitos legais, em observância ao princípio constitucional da presunção de inocência”. Desmoralizou assim as interpretações fantasiosas de grampos telefônicos consideradas pura xaropada e o depoimento à polícia da única testemunha, uma fofoqueira preterida pelo namorado, que teve enorme espaço nos jornais.
Os ativistas, já em liberdade, acham com razão que a mídia reproduz relatórios policiais sem qualquer senso crítico. Em troca do acesso, ás vezes com exclusividade, de dados protegidos por “segredo de justiça”, os jornais publicam como verdades acabadas as versões policiais, sem checar com outras versões e sem ouvir o outro lado. Em consequência, acabam criminalizando os movimentos sociais e negando o direito á livre manifestação.
Não se coloca ninguém no paredão sem chance de defesa. A mídia não publicou uma única linha, sequer uma só palavra, com explicações dos acusados, tratados como criminosos, mas que podem ser vistos também como “jovens que, embora se possa discordar dos seus métodos de atuação política, acreditam em um país melhor“, como quer o advogado Patrick Mariano.
Preciso saber o que minha colega da UERJ tem a dizer sobre as acusações da Policia, porque se “livro” for mesmo “bomba” para incendiar bancos, quero manifestar meu desacordo, ainda que reconheça que há livros que são verdadeiras bombas. Mas se “livro” for apenas “livro”, quero somar meu grito ao dela. Afinal, até onde sei, quem quebrou bancos não foi a Sininho e a Camila. Foram  banqueiros como Daniel Dantas, Ângelo Calmon de Sá, Edemar Cid Ferreira, Carlos Eduardo Schahin, acusados de fraudes e evasão fiscal, todos eles em liberdade e que tiveram amplo direito de defesa com espaço na mídia. 
FONTE: http://www.taquiprati.com.br/index.php

Morre Icushiro Shimada, nome que a imprensa brasileira jamais vai esquecer

Você pode até não lembrar de Icushiro Shimada mas, provavelmente, ouviu falar da Escola Base e de como a irresponsabilidade com a notícia pode destruir vidas. O caso, que envolve denúncias infundadas de pedofilia,  completou 20 anos em março desse ano, e, na última quarta-feira, dia 23, o proprietário da escola morreu, vítima de mais um infarto no miocárdio, segundo informações divulgadas pelo portal Bluebus.

O caso veio à tona em 28 de março de 1994, durante o Jornal Nacional da Globo. Icushiro, dono da Escola Base, sua esposa e mais um casal de sócios da escola, além dos pais de um  dos alunos, foram acusados de abusar sexualmente de crianças no horário de aula. Sem qualquer averiguação, foram detidos, a escola e a residência dos envolvidos foram depredadas. Notícias trazendo denúncias de crianças proliferaram, e os acusados conseguiram escapar do linchamento físico, mas não do moral.

Quase um mês depois, foi constatado que o tal “furo de reportagem”, propagado pelos mais variados veículos de comunicação, foi na verdade fruto de um jornalismo irresponsável, que não apurou o fato como deveria. Pior, foi necessária uma determinação judicial para que os veículos se retratassem. Eles até o fizeram, mas em pequenos espaços, sem o mesmo alarde. A Justiça  determinou o pagamento de indenização por parte de alguns veículos de comunicação, para outros, não e, nas poucas matérias em que as vítimas da imprensa apareceram depois do ocorrido sempre falaram que não há dinheiro que apague os horrores que enfrentaram ou que recupere tudo que lhes foi retirado.O caso se tornou emblemático, e é um bom lembrete de que o princípio da presunção da inocência precisa ser respeitado.

FONTE: http://mudamais.com/erraram/morre-icushiro-shimada-nome-que-imprensa-brasileira-jamais-vai-esquecer

O jogo perigoso da desinformação

Por Luciano Martins Costa

Os três principais jornais de circulação nacional, que ainda definem a agenda institucional no país, fecham a semana com uma proeza digna de figurar na longa lista de trapalhadas da imprensa, cujo troféu mais lustroso é o caso da Escola Base. Por uma dessas ironias da história, no dia 22 do mês que vem completam-se vinte anos do noticiário que inventou um caso de pedofilia numa escola infantil de São Paulo, e o roteiro se repete perversamente.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido na cabeça por um rojão de alta potência durante manifestação no Rio de Janeiro, tem todos os ingredientes para se tornar uma versão revista e ampliada desse que foi o marco do jornalismo espetaculoso e irresponsável no Brasil.

Os ingredientes para uma grande farsa estão reunidos: os dois jovens que foram identificados como autores do homicídio são compulsoriamente representados por um advogado que ganhou dinheiro com a defesa de milicianos e – colocados no grande liquidificador da mídia –, produzem uma sucessão de declarações que, a rigor, não poderiam ser incluídas num inquérito. E tudo que dizem – ou alguém diz que disseram – vira manchete.

Na sexta-feira (14/2), o alvo do noticiário é uma lista de doadores que contribuíram para a realização de uma festa, no dia 23 de dezembro do ano passado, intitulada “Celebração da Rua – Mais Amor, Menos Capital”. O evento foi realizado na Cinelândia, no centro do Rio, com coleta de doações em benefício de moradores de rua e vítimas das enchentes (ver aqui), juntando militantes de todos os tipos, inclusive professores e ativistas contra a Copa do Mundo. Os jornais citam vereadores, um delegado de polícia e até um juiz do Tribunal de Justiça, insinuando que eles estavam apoiando o movimento chamado Black Bloc.

Nessa corrente de declarações, suposições e especulações, a imprensa já afirmou que os atos de vandalismo que acompanham a onda de protestos no Rio de Janeiro têm o dedo do deputado Marcelo Freixo, do PSOL; depois, o Globo citou uma investigação que acusa o deputado e ex-governador do Rio Anthony Garotinho, do PR, de incentivar a violência.

Um exemplo desse jornalismo de fancaria: o título publicado no domingo (9/2) pelo portal G1, do grupo Globo (ver aqui): “Estagiário de advogado diz que ativista afirmou que homem que acendeu rojão era ligado ao deputado Marcelo Freixo”.

O fundo do poço

Nas edições de sexta-feira (14/2), os jornais fazem malabarismos para concentrar a denúncia no PSOL, PSTU e numa organização pouco conhecida chamada Frente Independente Popular.

A citação dessas organizações foi tirada de uma frase do auxiliar de limpeza Caio Silva de Souza, acusado de haver acendido o petardo que matou o cinegrafista. Segundo os jornais, o jovem disse acreditar que os partidos que levam bandeiras às manifestações são os mesmos que pagam a ativistas que se dedicam a depredações e a enfrentamentos com a polícia. Nenhuma referência às investigações sobre a participação de militantes ligados a Anthony Garotinho, ainda que tais informações tenham como fonte um inquérito oficial em vez de declarações fora de contexto.

Exatamente como no caso da Escola Base, o julgamento apressado produz desinformação: pinta-se um perfil bipolar dos dois jovens, ora como se fossem perigosos terroristas, ora como se se tratasse de duas criaturas desamparadas que foram aliciadas por forças políticas interessadas em uma espécie de “revolução bolivariana”, para usar a expressão irônica da colunista Barbara Gancia, na Folha de S. Paulo (ver aqui).

Nas duas versões, o enredo vai compondo um painel cujo resultado parece a cada dia mais claro: a demonização da política partidária, com foco muito claro em agremiações de pouca expressão eleitoral, todas coincidentemente alinhadas à esquerda do espectro político.

Pode-se discordar de objetivos e estratégias de partidos, indivíduos e organizações que se consideram artífices de uma revolução, pode-se acusá-los de tentar compensar a falta de correligionários com bumbos e palavras de ordem, mas o jogo torna-se muito perigoso quando a imprensa, hegemonicamente, atua no sentido de criminalizar o direito à manifestação pública de opiniões sobre o que quer que seja.

Nas redes sociais, esse noticiário tendencioso e irresponsável alimenta o extremismo reacionário ao ponto de inspirar chamamentos ao crime.

Se não é o fundo do poço para a imprensa, estamos quase lá.

FONTE: http://www.observatoriodaimprensa.com.br./news/view/o_jogo_perigoso_da_desinformacao