O dia em que 45 virou 6: uma síntese do tamanho do buraco onde o Brasil se meteu

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O presidente Jair Bolsonaro discursa no Fórum Econômico Mundial de Davos. Discurso que deveria durar 45 minutos, durou apenas 6.
Nas primeiras três semanas do governo Bolsonaro ficamos sendo brindados com a informação de que o novo presidente brasileiro iria discursar por 45 minutos no Fórum Econômico de Davos para apresentar ao mundo a sua visão de futuro do Brasil.
Acabo de saber que os 45 minutos viraram 6, o que num jogo de futebol significaria dizer que em vez de se jogar todo o tempo regulamentar, o juiz fosse obrigado a parar a partida quando os times ainda estavam se estudando. Em outras palavras, o que era para ser o ponta inicial para os investidores internacionais, acabou sendo uma espécie de “micro discurso” de generalidades superficiais.
Mas o que esperar deste governo senão pitadas intermináveis de situações bizarras que vão rapidamente tornando este governo uma aposta para lá de arriscada por parte das elites brasileiras? O problema é que a maior parte da elite brasileira nem vive no Brasil, preferindo ir ao país apenas para recolher as fortunas acumuladas na especulação financeira. Vão e voltam do Brasil em seus jatinhos privados, e a maioria dos brasileiros que se dane.
Por outro lado, é compreensível que Jair Bolsonaro estivesse nervoso em Davos. É que ali se joga um jogo para o qual ele nunca realmente se preparou. Não falo nem da incapacidade de se comunicar em língua inglesa, pois o ex-presidente Lula também não falava a língua de Shakespeare e sempre sai bem. A ponto de termos aquela cena durante um encontro do G-20 em que Barack Obama e Lula trocaram amabilidades com a conjunta de um intérprete (ver vídeo abaixo). Mas Lula é Lula, e Bolsonaro e Bolsonaro.


Para complicar ainda mais a situação do governo Bolsonaro, hoje tivemos a prisão de membros de uma milícia que estariam implicados na morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A ligação com o governo Bolsonaro veio a público fato que dois dos milicianos arrolados no caso foram alvo de homenagens por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Se isso não fosse ruim o suficiente, a mãe de um deles foi assessora de Flávio Bolsonaro no mesmo gabinete em que ele hospedeu Fabrício Queiróz.
Em suma, como eu já havia dito aqui, este governo que ainda não chegou ao fim do seu primeiro mês está dando todos sinais de esclerose precoce. O problema é o que vem pela frente se o paciente não sobreviver por muito tempo.

Audiência Pública sobre TKCSA marcada por irregularidades em Santa Cruz

Houve tumulto, violência e intimidação aos que denunciavam a empresa.

Na última quinta-feira, 27 de Março, a Secretraria de Ambiente do estado do Rio de Janeiro (SEA) promoveu uma audiência pública no bairro de Santa Cruz, zona oeste da capital, com o objetivo de apresentar à população os resultados da auditoria contratada para acompanhar o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado entre a própria SEA e a empresa ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA).

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A TKCSA opera sem licença desde 2010 pois não conseguiu se adequar à legislação ambiental brasileira. O TAC funciona como improviso jurídico que permite a companhia manter-se aberta, irregularmente, ainda que sob protestos da população local atingida pelas “chuvas de prata” emitidas pela siderúrgica. O Ministério Público do estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que também esteve presente na audiência, já abriu dois processos criminais contra a TKCSA e negou-se a assinar o TAC.

Na audiência de quinta-feira, a empresa buscava mostrar à população que supostamente havia cumprido o TAC. No entanto, os próprios auditores contratados pela TKCSA foram obrigados a admitir que mais de 13 cláusulas do termo não foram cumpridas, mantendo-se como “oportunidades de melhoria”, eufemismo para acobertar o não-cumprimento do acordo.

Já o representante do MPRJ, promotor Sandro Machado, foi mais incisivo e lembrou dos processos abertos contra a empresa. Além disso, Sandro questionou a falta de ambiente democrático na audiência, pois o auditório estava repleto de funcionários uniformizados da TKCSA (e não de moradores de Santa Cruz) que gritavam e assediavam aqueles que buscavam denunciar as violações cometidas pela empresa e pelos órgãos ambientais. O promotor chegou a pedir o microfone para coibir a postura de uma pessoa da organização do evento – que estava com crachá de “Apoio” – e constantemente insulflava os funcionários para que não permitissem falas contrárias à empresa.

O clima de intimidação e coação durou do começo ao fim da audiência. Houve tumulto, violência e insultos quando uma parlamentar da Assembléia Legistlativa do Rio de Janeiro exigiu a palavra para denunciar a empresa e a falta de divulgação prévia da audiência. Funcionários da empresa, capangas e outros homens truculentos trocaram socos, empurrões e pontapés por quase 10 minutos, tirando qualquer possibilidade de uma atmosfera democrática se estabelecer.

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Mas não foi apenas na platéia (de funcionários) que a lisura e a imparcialidade da audiência foram desfeitas. No palco, diretores da empresa se confundiam com auditores e autoridades públicas que deveriam fiscalizá-la. Por mais de uma vez, tanto auditores quanto o representante da SEA consultaram o diretor da TKCSA para conseguir responder às perguntas de pesquisadores, moradores, pescadores e demais presentes que questionavam, perplexos, a farsa que estava ocorrendo.

Ao fim, o MPRJ retirou-se antes de terminar a audiência, que já varava a madrugada. Por questão de segurança, os moradores, pescadores, pesquisadores e demais ativistas da sociedade civil que questionavam a relação entre os órgãos públicos e a empresa tiveram que sair juntos, para evitar represálias.

Uma audiência pública que fez de tudo, menos ouvir o público. Impedido de se manifestar diante do verdadeiro rolo compressor (de democracia) preparado pela empresa, tanto o povo quanto as normas democráticas ficaram esquecidas em Santa Cruz. O próprio telão mostrava que as relações público-privadas estavam por demasiado embaralhadas, pois a logomarca da TKCSA ficou estampada como se fosse a própria empresa a organizadora da audiência. De fato, era.

A TKCSA está acostumada a se auto-fiscalizar e também a transformar em propaganda publicitária as violações que pratica.

No entanto, a farsa não conseguiu alcançar os mínimos contornos de democracia. O próprio diretor da empresa mostro-se várias vezes preocupado no palco, tentando orientar seus funcionários sobre que tipo de intimidações seriam toleradas pelas autoridades públicas e quais não seriam. É provável que o MPRJ, que presenciou todas as irregularidades, peça a anulação da audiência.

O TAC da TKCSA termina em 10 de Abril de 2014 e a empresa já estourou todos os prazos para seguir operando sem licença. Organizações da sociedade civil, moradores e pescadores prometem seguir na ofensiva denunciando os desmandos da empresa e a conivência do Estado com as violações de direitos praticadas em Santa Cruz e na Baía de Sepetiba.

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FONTE: http://www.pacs.org.br/2014/03/29/audiencia-publica-sobre-tkcsa-marcada-por-irreguralidades-em-santa-cruz-houve-tumulto-violencia-e-intimidacao-aos-que-denunciavam-a-empresa/