O assassinato de Marielle e Anderson: o início do fim ou o fim do início?

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Dizem conhecidos meus que labutam nas forças de segurança pública, que quando se inaugura uma investigação policial, basta responder às seguintes perguntas:  O quê, quem, quando, onde, como, por quê e tem testemunhas?

O trabalho policial se resume a isso, ou melhor, é tudo isso, porque não é pouca coisa estabelecer as respostas a tais quesitos, de forma a oferecer ao Ministério Público a robustez de provas (ou indícios) para a propositura de uma ação penal.

O relatório do caso Marielle, com suas quatrocentas e tantas páginas, não responde a uma pergunta sequer.  As respostas trazidas aos autos pela Polícia Federal (PF) já estavam no trabalho da Polícia Civil do Rio de Janeiro, isto é, os executores, a arma do crime, o veículo.

Todo o resto são ilações, e é bom que se diga, algumas corretas, do ponto de vista sociológico, antropológico e da ciência política.  No entanto, a respeito das provas necessárias para “encerrar o caso”, como foi dito pelo Ministro da Justiça, ombreado pelo Diretor Geral da PF, é possível afirmar que não existem.

Não bastassem tais lacunas, há contradições graves, senão: ora, como imaginar que o grupo de mandantes teria contratado um delegado, feito dele chefe de polícia, e ele ter prendido justamente o executor do crime, e a delação deste executor tenha se transformado na pièce de résistance de toda a investigação?

Ao mesmo tempo, como aceitar a tese de que este delegado tenha orientado a execução e local do crime para afastar a presunção de delito político (aquela história louca de que ele mandou evitar a morte perto da Câmara), se desde a mais tenra hora, o modus operandi indicado (ou planejado) por ele, supostamente, deixou tal impressão mais que evidente, isto é, de que se tratava de uma execução com motivos não passionais ou patrimoniais?

Outra coisa engraçada: ora, se o Chefe de Polícia estava na lista de pagamento dos grupos organizados do crime no Rio, e se inclusive essa lealdade o levaram ao posto mais alto na hierarquia da corporação, como dizer que a esposa do Chefe de Polícia passou a movimentar mais dinheiro após a morte da vereadora?

Todo mundo sabe que nesse meio, quando já há um pagamento regular, e quando há um favor do tamanho da indicação ao posto de Chefe de Polícia, as contrapartidas estão inclusas no pacote, sem extras.

Supor que o Chefe de Polícia usou a conta da esposa para lavar dinheiro obtido com propinas por ter planejado a morte da vereadora é de rolar de rir.  O cara que planejou o crime do século, que manteve tudo em segredo por 06 anos, lavou dinheiro na conta da esposa? Como assim?

Podem haver outras implicações ilícitas nas contas do casal, de outras fontes?  Novamente dizemos: sim, mas vincular ao fato em apuração parece roteiro de filme B, e novamente se fazem necessárias provas.  Afinal, ter dinheiro em conta não é crime, até que o Estado-juiz, no devido processo, diga que é crime.

Outra coisa, se houve direcionamento nos mais altos escalões da polícia, como dito, e o delegado por isso foi preso cautelarmente, perfeito, mas e as alegações da PF sobre promotores, as as possíveis manipulações no Ministério Público do Rio de Janeiro, troca de titulares da investigação, e etc.?

Alguém imagina que uma conspiração dessas só contamina a polícia, mas por que só a polícia serve de Geni?  Nenhum promotor preso? Nada?

A imprensa  corporativa platinada (isto é, a Rede Globo) martela todo o tempo:  A PF que desvendou o caso, após a chegada do atual governo, mas esquece de dizer que os executores foram presos durante as investigações do delegado preso e de seu grupo, e foi desse executor que se extraiu a delação.

Há milícias no RJ e estas contaminam o aparato estatal fluminense, como disse Marcelo Freixo, do alto de sua memória seletiva (ou cinismo?) crime, polícia e política andam juntas no Rio?  Sim. Há.

Desde 2007/2008, como consta no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito  tocada pelo então deputado estadual Freixo? Sim.  Ele só esquece de dizer, talvez porque hoje faz parte do esforço governamental federal em promover o turismo carioca, e a chamada vocação Cidade-Evento que começava ali, é que, em 2007, as milícias eram a opção das autoridades federais, estaduais e municipais para garantir a “paz” nas áreas pobres e adjacentes às instalações do Pan Americano.

Freixo agora parece ter esquecido esse detalhe do próprio trabalho.  O que nos parece, e nos estarrece, é ver o PT e seu governo fazerem justamente aquilo que reclamam terem sido vítimas.  A fala do Ministro da Justiça parece um PowerPoint sem PowerPoint.  Quando Lula entregou ao STF a tarefa de fazer aquilo que ele, Comandante em Chefe das Forças Armadas, deveria ter feito, ou seja, punir, prender e mandar para reserva todo e qualquer militar envolvido com o golpe, além de dirigir ele próprio o processo político de seu desagravo democrático, aquilo que se exigia, ele inaugurou, com sua omissão, a sua versão da Lava Jato.

Porém, como o governo Lula não sabe lidar bem com essas coisas, podemos dizer que a patacoada da PF é o início do fim da versão lulista da Lava Jato, personificada na pessoa do Ministro Relator (super), tanto do IP de Marielle, quanto do 08 de janeiro.  De uma tacada só, essa peça de ficção da PF vai subtrair legitimidade do STF de tudo que foi feito até agora.  Vai lançar uma suspeição indelével, como aquela que recaiu sobre o pato (ou seria marreco?) de Curitiba, quer dizer, o ex-juiz Sérgio Moro.

Riem os verdadeiros mandantes, riem os advogados de Bolsonaro e sua turma de aloprados de 8 de janeiro. 

Na verdade, não é o início do fim…é o fim de tudo bem no início.

Brasil: pelo menos 45 mortos em série de operações policiais em três estados

Dez pessoas foram mortas em favela do Rio e 19 pessoas morreram na Bahia, enquanto o número de mortos subiu para 16 na região de São Paulo

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Policiais militares realizam operação contra o tráfico de drogas em favelas da zona norte da cidade, em outubro de 2022. Foto: Agência Anadolu/Getty Images

Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

Pelo menos 45 pessoas foram mortas em uma série de operações policiais em três estados brasileiros, em uma semana particularmente sangrenta até mesmo para o Brasil – um país notório por sua violência policial.

Dez pessoas foram mortas durante uma operação das polícias civil e militar contra traficantes de drogas na favela do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro , na manhã desta quarta-feira, com moradores afirmando que os tiros começaram às 3h.

No estado da Bahia, 19 pessoas morreram entre sexta e segunda-feira em confrontos com a polícia militar na capital do estado, Salvador, e nas cidades vizinhas de Camaçari e Itatim.

A Bahia e o Rio de Janeiro abrigam a segunda e terceira forças policiais mais letais do Brasil, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Enquanto isso, as autoridades estaduais de São Paulo confirmaram na quarta-feira que o número de mortos em uma operação policial em andamento na região da Baixada Santista subiu para 16, tornando esta uma das operações mais mortais já realizadas pela polícia de São Paulo.

Batizada de Operação Escudo, a mobilização de cerca de 600 policiais foi motivada pelo assassinato, na última quinta-feira, de um policial no Guarujá. Um último suspeito de envolvimento na morte de Patrick Bastos Reis, integrante da unidade tática Rota da Polícia Militar, foi preso na madrugada desta quarta-feira. A polícia diz ter prendido 58 pessoas até agora e apreendido 400 quilos de entorpecentes, além de 18 armas.

Organizações de direitos humanos denunciaram as ações da polícia na Baixada Santista como um massacre motivado por vingança, enquanto moradores relataram ameaças e casos de tortura.

“O que aconteceu no Guarujá foi um massacre. As mortes foram deliberadas. […] O estado de São Paulo precisa conter essa onda de violência”, disse Dimitri Sales, presidente do conselho estadual de defesa dos direitos humanos (Condepe), à ​​emissora GloboNews.

O governador do estado, Tarcísio de Freitas, defendeu a polícia, dizendo que agiu em resposta a ataques de criminosos e descartando relatos de abusos como uma “narrativa”. A Operação Escudo, supostamente um esforço para combater o narcotráfico na região, deve durar até o final de agosto.

A alegação das autoridades de que todas as vítimas são supostos criminosos que morreram em confrontos com a polícia foi contestada por especialistas em direitos humanos e segurança, que exigem que as ações da polícia sejam cuidadosamente examinadas.

“É extremamente preocupante que o governador e o secretário de segurança declarem que não houve abusos [dos direitos humanos] antes mesmo de uma investigação ser realizada … [Isso] é efetivamente um endosso de práticas arbitrárias”, disse Oscar Vilhena, advogado e membro do Comissão Arns, uma organização de direitos humanos.

As forças policiais militares estaduais do Brasil são notoriamente violentas e muito mais mortais do que suas contrapartes civis. A volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em janeiro despertou a esperança de uma reforma , mas especialistas em segurança pública dizem que um projeto de lei recentemente aprovado por uma comissão do Senado não tratará de questões cruciais de segurança pública, como câmeras corporais policiais.

Em São Paulo, o uso de câmeras corporais pela polícia militar tem sido amplamente creditado por ajudar a reduzir a violência cometida por e contra a força. Mas os assassinatos cometidos pela polícia de São Paulo aumentaram sob Tarcísio Freitas , um aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro que adota um discurso de segurança linha-dura e questionou a política de câmeras corporais.

Os últimos assassinatos podem marcar um “ponto de inflexão” para a segurança pública no maior estado do Brasil, de acordo com David Marques, coordenador do projeto no Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Essa mudança está ligada a um discurso político que valoriza [a violência], que diz que a polícia deve usar a violência para controlar a violência e o crime organizado”, afirmou.


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Este artigo escrito originalmenteem inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A natureza no Rio de Janeiro está sendo destruída pelas milícias

Criminosos estão desmatando santuários da floresta tropical para a construção ilegal de prédios de apartamentos

desmatamento rondoniaNão só no Rio: um terreno desmatado na região amazônica próximo a Porto Velho, no estado de Rondônia (17.9.2019)

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Oficialmente,a onça ‘parda, que tem até 2,3 metros de altura e 70 quilos, é considerado extinto na Grande Rio de Janeiro desde a década de 1930. Mas, surpreendentemente, no ano passado, uma câmera de vigilância filmou o felino em um parque paisagístico na zona oeste da cidade brasileira. Um grupo de pesquisadores da Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) deu início a sua trilha. Eles percorreram as reservas naturais e florestais da área urbana e montaram várias armadilhas fotográficas. O esforço valeu a pena. “Nossos dados confirmam que Puma concolor está repovoando a cidade”, relatou a equipe de pesquisa na revista científica Check List em setembro . No entanto, não se sabe ao certo quantos exemplares do felino, também conhecido como puma, vagam pelo Rio.

O que está claro: a volta da onça-parda ressalta a importância da preservação dos vestígios de Mata Atlântica na metrópole carioca e a necessidade de manutenção e ampliação dos corredores entre os fragmentos florestais maiores. Mas o oposto tem acontecido há anos. O oeste do município do Rio de Janeiro, em particular, é controlado por milícias criminosas fortemente armadas. As milícias estão aproveitando os preços dos imóveis que explodiram há cerca de dez anos e a resultante carência de moradias na metrópole carioca. Eles se rasgam sob as unhas de espaços públicos e muitas vezes cravam ilegalmente prédios inteiros de apartamentos sob o olhar da polícia e das autoridades ambientais, para depois venderem. As milícias, também recrutando de ex-policiais, estão abrindo caminho cada vez mais para a ocupação das reservas naturais. De acordo com os últimos dados da secretaria de meio ambiente da cidade do Rio de Janeiro, os criminosos desmataram cerca de 500 hectares de floresta para a construção de moradias ilegais  entre 2017 e 2020. Quase metade delas está nos três bairros da zona oeste de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba.

A prefeitura do Rio declarou guerra ao alvoroço e, segundo suas próprias declarações, demoliu mais de 300 prédios ilegais desde o início do ano – 34 deles em área de Mata Atlântica. No entanto, gravações da TV Globo em junho mostraram que prédios ilegais ainda estão sendo construídos em reservas naturais.

Em outubro, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro montou uma força-tarefa especial contra a grilagem de terras e transações imobiliárias ilegais pelo crime organizado na cidade. O decreto do Ministério Público destacou as ações das milícias no manguezal protegido de Guaratiba. Eles venderam ilegalmente terras na área, construíram estradas nos manguezais e ergueram prédios sem qualquer infraestrutura. O esgoto não tratado das casas danificou o rio Cabuçu-Piraquê e os manguezais. Além disso, o Ministério Público reclamou do desmatamento dentro da reserva de 4.398 hectares de mata atlântica do Mendanha, que faz parte da serra Gericinó-Mendanha e, como os manguezais de Guaratiba, é habitat da redescoberta onça-parda.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal JungeWelt [Aqui! ].

Caso Henry: Morte, Milícia e Mídia no Rio De Janeiro

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Por Luciane Silva, Tiago Abud, Eliz Rosa, Pesquisadores do Núcleo Cidade Cultura e Conflito da UENF

Como pesquisadores e pesquisadoras do Núcleo de Pesquisa Cidade, Cultura e Conflito (NUC) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a morte de Henry Borel, criança de 4 anos, tem sido objeto de nossa reflexão. Para este artigo vamos aplicar a Análise de Conteúdo (AC), uma técnica que possibilita o estudo de sentidos, posicionamentos e ideologias a partir de elementos dispersos. A AC pode ser realizada com base em cartas de soldados em guerra, colunas de um jornal, ocorrências policiais ou letras de música. A proposta é pensar que esses materiais formam um conjunto capaz de fornecer uma compreensão sobre determinado grupo particular, sobre sentimentos de uma categoria profissional ou mesmo sobre uma sociedade em determinada conjuntura. Nesse exercício reflexivo, a partir das manchetes, canais de vídeo e sites de discussão, o objetivo é compreender a avaliação dos moradores fluminenses (especialmente cariocas) sobre o caso e como essa compreensão pode ser útil para problematizar questões sobre moral, democracia e segurança pública.

O caso

Em 8 de março o menino Henry Borel, residente à Barra da Tijuca dá entrada em um hospital. Posteriormente é divulgada a notícia de que a criança já estaria morta naquele momento. A alegação de queda da cama feita pela mãe e padrasto são contraditórias com as lesões (posteriormente foram  apontadas 23) no corpo de Henry.

Os acusados

A alegação de que a morte teria sido causada por um acidente doméstico (a queda da cama) foi descartada pela necropsia. O vereador Jairo Souza Santos Júnior (Dr. Jairinho), o padrasto com formação em medicina, e Monique Medeiros, mãe de Henry, foram presos por suspeita de atrapalhar a investigação.

A ação policial

Uma força-tarefa foi montada pelo delegado Henrique Damasceno, titular da 16º DP (Barra da Tijuca). Perícias, depoimentos, uso de tecnologia de ponta e reprodução simulada foram recursos utilizados em uma investigação de excelência da Polícia Civil do Rio de Janeiro. A conclusão do inquérito deve ocorrer antes do final do mês de abril. No desdobramento do caso, os dois acusados, Dr. Jairinho e Monique Medeiros devem ser indiciados por homicídio duplamente qualificado, por emprego de tortura e sem possibilidade de defesa da vítima.

A cobertura midiática

Todas as grandes redes de televisão e rádio têm noticiado o caso diariamente. E uma infinidade de canais de análise comportamental, sensacionalistas, investigativos e jurídicos tem tomado o caso como objeto de suas pautas. É nas redes sociais e canais como YouTube que podemos acompanhar a cobertura ao vivo e sua repercussão sobre a opinião pública.

Análise do conteúdo das redes e YouTube

Desde o início do caso temos analisado o conteúdo das manifestações em canais, blogs, jornais e outros veículos de mídia. Algumas delas merecem destaque para compreendermos a reação ao ato lesivo e o que estas manifestações indicam.

Em primeiro lugar, a mãe aparece como cruel, fútil e não raras vezes é responsabilizada pela morte de Henry. Ou seja, a figura materna como responsável pelo bem-estar da família ganha centralidade em um crime no qual um dos acusados apresenta um histórico de agressão a mulheres e crianças, com uso de tortura. Em declarações recentes, Monique apresenta uma carta com riqueza de detalhes sobre o modus operandi de Jairinho. É absolutamente crível a declaração feita por ela: ciúmes, perseguição, manipulação, uso de remédios, ameaças, violência física cotidiana, opressão. Neste ponto vemos os perigos da formação de uma opinião pública a partir de imagens da mãe indo ao salão ou bem vestida no dia da morte do filho. Nenhum destes elementos (vaidade, futilidade, frieza) suplanta a prova: Jairinho é um homem extremamente violento, manipulador e acima de tudo, poderoso. Julgar Monique desconhecendo o poder da milícia é um equívoco. Quem o enfrentaria ?

Em segundo lugar, a tese de psicopatia individualiza o caso como resultado da ação de pessoas más. Aceitar essa tese é desconhecer a regularidade e intensidade dos maus tratos às crianças e aos adolescentes no Brasil. E desconhecer que a violência doméstica exercida sobre uma criança frequentemente se estende aos outros membros da família. Mesmo que seja mais reconfortante expressar o ódio ao casal, o assassinato de Henry revela que a infância em nosso país é vulnerável. Essa revelação não pode ser combatida com teses sobre psicopatia, pois, para reduzirmos danos dessa natureza, é preciso política pública de assistência e proteção social. Não estamos tratando de pessoas com comprometimento de nenhuma faculdade mental. Estamos tratando de práticas sociais conhecidas por toda opinião pública.

Em terceiro lugar, a cobertura do caso Henry e a investigação explicitam a seletividade da ação do Estado quanto ao perfil das vítimas. Neste 23 de abril de 2021, completamos 4 meses sem saber o paradeiro de Fernando Henrique de 11 anos, Alexandre da Silva de 10 anos e Lucas Matheus de oito. Os três meninos brincavam na rua na comunidade de Castelar, em Belford Roxo, quando foram vistos pela última vez. Segundo os familiares as investigações deveriam ter início imediatamente. O que não aconteceu. Este desaparecimento não tem lugar na mídia.

O que falta explicitar e qual seria o significado de tornar explícito?

Por último, cabe destacar o elemento mais interessante desse caso. Dos sites e material analisado podemos acompanhar a comoção social na expressão do ato bárbaro em relação à uma criança de 4 anos. As acusações a Monique Medeiros também são frequentes. Quando são endereçadas separadamente ao vereador Jairinho, vêm acompanhadas de crítica ao sistema político como corrupto. RAROS SÃO OS COMENTÁRIOS SOBRE O FATO DO VEREADOR SER APONTADO COMO MILICIANO. Jairo Santos, filho de Coronel Jairo, já foi acusado pela tortura de jornalistas do jornal O Dia na favela do Batan.

Por que esse é um fato tão importante no caso Henry?

Porque o Rio de Janeiro trava, há muitas décadas, uma guerra às drogas[1]. Uma guerra que tem custado milhares de vidas anualmente de civis e agentes do Estado. Porque a cognição dos moradores do Rio e do Brasil associa todo mal existente na periferia a ação do tráfico. Porque o governador Wilson Witzel se elegeu com esse discurso e deu tiros com um helicóptero, além de comandar ações oficiais desastrosas em favelas, causando a morte de crianças inocentes e sem qualquer efeito prático sobre o mercado de drogas. Quando assumiu o cargo, o governador já sabia que o mapa da cidade e do Estado já não mostrava mais o tráfico como o grande problema da segurança pública.

Chama a atenção que Dr. Jairinho tenha ligado para o governador em exercício Cláudio Castro no dia do ocorrido. Chama a atenção que tenha tentado uma resolução rápida no hospital (tenha imaginado que isso seria possível). O pesquisador José Cláudio Souza Alves, em entrevista à Publica de 28 de janeiro de 2019, afirmara: “no Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”. O pesquisador tem demonstrado em livros e entrevistas, os tentáculos da milícia avançando para dentro do Estado. Em gabinetes parlamentares, na ocupação de cargos fundamentais como deputados e na estratégia de intimidação e ampliação dos espaços por dentro das instituições. Chegando aos mais “altos poderes” da República.

É terrível pensar que após cometer tantos crimes, foi preciso o homicídio de uma criança para que Jairinho fosse preso. É terrível pensar que, em seu início, a milícia em Rio das Pedras foi saudada pelo prefeito Eduardo Paes. É terrível pensar que moradores na região norte da cidade já defenderam a Liga da Justiça, de qual o coronel Jairo é apontado como liderança. Não estamos falando de um fato isolado, mas de uma prática comum a este grupo. Uma banalização do mal repetida anteriormente e amparada no medo das vítimas. Amparo que possibilitou a Jairinho seguir torturando crianças nos últimos anos.

É terrível pensar que ainda não sabemos quem mandou matar Marielle.

Todos esses crimes convergem para um mesmo fenômeno. E ele precisa ser nomeado por cada leitor e leitora quando tratar do caso Henry. As milícias avançam sobre o Estado sem recuo e construindo laços no Legislativo, Executivo e Judiciário. 

Essa é a questão central pouco explicitada nos grandes jornais.

[1] Agradecemos a Rafael Barros Vieira pela leitura e sugestões.

Quando as gangues cuidam da sua saúde

rio de janeiro favelasEm muitas favelas do Rio de Janeiro (nesta imagem vê-se o Morro da Coroa), as condições de higiene são preocupantes. (Foto: Mauro Pimentel / AFP)

Por Christoph Gurk para o Süddeutsche Zeitung

Pelo menos quando o sol se põe, o bairro fica quieto, diz Lidiane. Ela prefere não ver seu sobrenome no jornal, nem mesmo na Alemanha distante, porque muita atenção pode ser perigosa onde ela mora.

O jovem de 29 anos é da Cidade de Deus, uma favela do Rio de Janeiro. Estima-se que 40.000 pessoas moram aqui em pequenas casas aninhadas. Em 2002, o bairro pobre ganhou fama mundial pelo filme de mesmo nome do diretor Fernando Meirelles, no final de semana passado, pelo menos infelizmente em todo o país, porque a Cidade de Deus registrou o primeiro caso oficial de infecção por corona em uma favela.

Desde então, a vida mudou, diz Lidiane. “As ruas estão vazias à noite”, diz ela, e assim que escurece, há um silêncio estranho. O jovem de 29 anos acredita que as pessoas têm medo do vírus, mas também dos traficantes de drogas que patrulham as ruas depois da noite para que ninguém viole o toque de recolher que eles impuseram.

A partir das 20h, ninguém pode estar na rua, então a facção que comanda o local determinou. Para que todos saibam, eles dirigiram pelas ruas com carros de alto-falante, diz Lidiane. Também haveria uma mensagem do WhatsApp, que supostamente veio da facção: “Queremos o melhor para a população”, afirmou. “Se o governo não acertar, o crime organizado tomará o assunto por conta própria”.

“Para servir de exemplo”

As facções que atuam em outras favelas da cidade veem a situação da mesma forma. Em favelas como Rocinha, Rio das Pedras ou Morro dos Prazeres, os líderes dessas facções impuseram toque de recolher, em alguns lugares as festas populares foram canceladas e, em outros lugares, as pessoas só podem sair às ruas em pares durante o dia, relatam os moradores. Se você for pego à noite,  você será usado como um exemplo.

Existem várias centenas de favelas no Rio, estima-se que dois milhões de pessoas moram aqui, ninguém sabe exatamente. Alguns locais são dominados por facções clássicas do tráfico de drogas, outros pelas chamadas milícias, que são compostas por criminosos locais e ex-policiais . O estado se retirou da grande maioria das favelas faz um longo tempo.

As facções do narcotráfico e as milícias estão no controle, não apenas sobre o tráfico de drogas, mas também sobre coisas mundanas, como a venda de canais ilegais de TV a cabo. Os comerciantes geralmente precisam deduzir o dinheiro da proteção, as empresas de transporte pagam pedágio. As leis brasileiras podem ter pouco significado em muitas favelas, mas as áreas pobres não são sem lei, muitas vezes existem regras e proibições claras, cujo cumprimento é monitorado pelas facções e punido com punições que são muitas vezes draconianas.

Bolsonaro ignora todos os avisos

Sob essa perspectiva, é apenas paradoxal à primeira vista que as facções de traficantes   estão fazendo o que o Estado brasileiro até agora deixou de fazer. Embora o Brasil tenha sido o primeiro país da América Latina a registrar a infecção pelo COVID-19, ainda não existe uma estratégia nacional contra o vírus. Pelo contrário: o presidente Jair Bolsonaro chamou Corona de “gripezinha”, ou seja, uma pequena gripe.  Bolsonaro ignorou todos os avisos e recomendações de seu próprio ministro da Saúde e instou o Brasil a voltar ao normal. Enquanto isso,  Bolsonaro fala do “maior desafio para nossa geração”.

O comportamento passado de Bolsonaro levou a uma disputa aberta com os governadores dos estados brasileiros, a maioria dos quais há muito ordenou medidas por conta própria. A maioria das escolas em todo o país está fechada, São Paulo e Rio de Janeiro estão em quarentena desde a semana passada, e o fato de as  facções que dominam os bairros pobres estarem ajudando a reforçar as restrições mostra o quão dramática é a situação.

Porque de políticos a traficantes ou chefes de  facções – todos sabem que isso quase inevitavelmente levará a uma catástrofe se o coronavírus se espalhar amplamente nas favelas. É uma ironia do destino que a doença tenha sido trazida de avião dos ricos para o Brasil, disse o professor Paulo Buss, do renomado centro de pesquisas da Fiocruz.

Extremamente densamente povoado

Enquanto os pacientes da classe alta mais abastada costumam receber cuidados saudáveis ​​em hospitais particulares depois de serem infectados na Europa antes de retornar a seus apartamentos com elevador e ar condicionado, as favelas geralmente carecem de atendimento médico adequado, nenhum sistema de esgoto ou água corrente. A lavagem regular das mãos, conforme exigido por todos os profissionais de saúde é quase impossível. Além disso, as favelas também costumam ser extremamente densamente povoadas, até 50.000 pessoas vivem em um quilômetro quadrado, grandes famílias geralmente sob o mesmo teto, divididas em duas ou três salas. Sob essas condições, o distanciamento social é impossível.

Lidiane divide um pequeno apartamento de dois quartos com os pais, avó, namorado e filha de dois anos. Ela mesma trabalha como faxineira, o pai como vendedor ambulante e a amiga faz todo o trabalho que pode conseguir. O dinheiro é escasso, principalmente porque a vida pública quase parou. E não há economia. “Não podemos ficar em casa”, disse Lidiane.

É assim que se sente a grande maioria das pessoas nas partes pobres do Brasil. Mais de um terço da força de trabalho no país não tem contrato de trabalho, nem segurança. O governo agora quer pagar 600 reais por mês aos milhões de pessoas que têm empregos informais, quase 100 euros, mas a maioria das pessoas ainda não recebeu o dinheiro.

Então as pessoas tentam se ajudar da melhor maneira possível. Associações de moradores e organizações de ajuda em várias favelas começaram a distribuir pacotes de sabão e alimentos. E com ela na vizinhança, diz Lidiane, alguns traficantes não apenas impuseram um toque de recolher, mas também tomaram outras medidas de precaução: eles ainda vendem drogas nas esquinas, mas, mais recentemente, usam máscaras faciais e luvas de borracha.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo Süddeutsche Zeitung [Aqui! ].

Crônica de uma pacificação falida

A violência sacode a favela carioca de Pavão-Pavãozinho onde esta semana foi assassinado um jovem bailarino

Por FRANCHO BARÓN

Enterro de Douglas Rafael da Silva Pereira no Rio, no último dia 24/FELIPE DANA (AP)

A sequência começa um dia qualquer na praia de Copacabana. O bailarino Douglas Rafael da Silva Pereira, 26 anos, conhecido como DG, joga futebol tranquilamente com um grupo de amigos. Quando acaba a partida, começa o caminho a favela de Pavão-Pavãozinho, encravada em uma colina do bairro mais turístico do Rio de Janeiro. O jovem, mulato e forte, caminha pelos becos íngremes do subúrbio cumprimentando os vizinhos. Nota-se sua popularidade na comunidade. Recebe fruta de um vendedor ambulante e ajuda uma senhora a carregar suas sacolas de compra. Um pastor evangélico lhe dá sua benção sob um sol atroz. E lá vai Douglas, bamboleando feliz pelas ruas, brincando e batendo nas mãos de conhecidos quando, de repente, escutam-se os tiros e em um beco deserto aparecem três policiais militares fora de si. O acurralam, o socam e chutam. Douglas, com voz entrecortada e olhos de pânico, pede misericórdia e tenta esclarecer sem êxito que é “um trabalhador”. Então é quando o agarram pelos cabelos e, sem lhe dar a mínima oportunidade de se defender, lhe descarregam um tiro na cabeça. Pelas costas. Douglas estira-se agora no solo, sem vida, enquanto os agentes entram em estado de histeria frente a evidência de que este “auto de resistência” (licença da polícia para matar em defesa própria” será muito difícil de justificar.

Todo o anterior não é mais que uma breve narração do curta-metragem que DG protagonizou um ano antes de morrer na mesma favela. Tirando alguns detalhes, como o lugar exato da execução, o número de policiais ou a velocidade do ocorrido, os primeiros indícios mostram que Douglas, como em seu próprio filme, morreu depois de receber um tiro da Polícia Militar. Ainda é cedo para concluir se tratou-se de uma execução, ainda que vários elementos apontem a tese que DG foi vítima de uma violência policial fora do controle. Várias testemunhas presentes em um raio próximo ao local dos acontecimentos asseguram que aquela noite fatídica não houve nenhum confronto armado entre os traficantes e policiais, como sustenta a Polícia Militar para manter a tese da morte por “bala perdida”. Os mesmos vizinhos de Pavão-Pavãozinho, que exigem anonimato, dizem que escutaram alguns disparos concentrados em um período muito curto de tempo, ao redor da uma hora da madrugada de terça-feira 22 de abril. Passaram nove ou dez horas até que corresse a voz que o cadáver de DG estava no interior de uma creche. Ainda que esta noite não tenha chovido, estava molhado. Seus documentos haviam sido retirados pela polícia e na área não havia cartuchos de bala.

Alertado por um movimento não usual de policiais, um grupo de vizinhos montou guarda na porta do local. Alguns tiraram fotos e gravaram vídeos. Segundo a mãe de Douglas, Maria de Fátima Silva, a intervenção do bairro foi crucial para evitar que os agentes se desfizessem do cadáver de DG. A onda de protestos que protagonizaram desembocaram nos graves distúrbios da última terça em Copacabana. Os investigadores da Polícia Militar já interrogaram várias testemunhas e os nove agentes que participaram da operação, mas a instituição ainda não chegou a nenhuma conclusão.

A primeira informação perita realizada in loco negou que o cadáver apresentasse marcas de disparo. Uma segunda análise do corpo, realizada pelo Instituto Médico Legal (IML) frente a pressão da imprensa confirmou “uma hemorragia interna desencadeada por laceração pulmonar gerada por objeto transfixante”. Sem rodeios: os peritos certificaram que um disparo penetrou a zona lombar esquerda e saiu pelo ombro direito do jovem. Maria de Fátima sustenta desde então que os policiais o mataram e que o plano inicial incluía fazer desaparecer o cadáver.

Em conversa telefônica com o EL PAÍS, a mãe de Douglas repete até a saciedade “Meu filho foi assassinado”. Também assegura que irá até onde for necessário para que “se saiba a verdade”, custe o que custar. Seus planos incluem a cooperação da Amnistia Internacional e de doisexperts norte-americanos independentes, que também trabalharão nas investigações. E se for necessário, pedirá que o cadáver seja exumado. Enquanto fala, nervosa, a TV Globo emite em seu principal jornal uma reportagem sobre a morte de seu filho. Quando o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, aparece muito sério na tela assegurando que encontrará os responsáveis, a mulher grita: “É tudo mentira”. Horas antes, Maria de Fátima deixou Pezão plantado, que pretendia recebe-la em frente as câmeras de televisão do palácio do Governo. “Não vou permitir que a morte do meu filho se transforme em uma plataforma política”, justificou.

A favela de Pavão-Pavãozinho vive estes dias sob a comoção gerada pela morte de Douglas e os distúrbios de terça-feira, que incluíram barricadas incendiadas, artefatos explosivos, intensos tiroteios e um morto. Vários vizinhos consultados por este jornal concordam que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) instaurada na favela em 2009 tem a rejeição total do bairro. Também asseguram que são frequentes as agressões e os insultos por parte dos agentes pacificadores. Paulo Henrique dos Santos, 37 anos e bombeiro de profissão, conta que 48 horas antes da morte de Douglas foi intimidado por um agente que o ameaçou. “É um vagabundo e vive rodeado de delinquentes”. No momento do incidente Douglas estava do lado de Paulo Henrique. “Agora tenho claro que existe uma conexão direta entre esta ameaça velada e o assassinato de Douglas”, afirma.

“Se a pacificação estivesse sendo um êxito, isso não estaria acontecendo”, reflete Alzira Amaral, presidenta da Associação de Vizinhos do Pavão-Pavãozinho, que admite não haver presenciado nos últimos 40 anos protestos como os de esta semana. “As pessoas estão saindo do armário porque não se sentem escutadas. Esta pacificação consiste em colocar a polícia na comunidade, mas o resto segue praticamente igualmente ruim”, denuncia.

A sensação de que esta favela estava saindo pouco a pouco do poço da violência e o crime se evaporava de repente. À presença de pequenas células da rede criminosa Comando Vermelho (CV), que atualmente controlam a venda de drogas na dimensão mais alta de Pavão-Pavãozinho, há que somar a proliferação repentina nas ruas de pitadas da principal milícia do Rio, denominada Batman. Segundo várias fontes locais, os paramilitares, que tem como objetivo expulsar os traficantes dos territórios onde desembarcam e controlam sua economia local, já estariam infiltrados nas formações da UPP local e aqui estaria o verdadeiro germe da deterioração da convivência entre a tropa e a população. Pavão-Pavãozinho onde vivem umas 18.000 pessoas é um caso sintomático do câncer que corre o processo de pacificação das favelas cariocas.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/26/politica/1398535146_877900.html

Sem resposta

Por Jânio de Freitas

Mesmo as denúncias vazias podem ter caroços; se não surgem com caroços, logo aparece quem os ponha

O advogado Jonas Tadeu enveredou por caminhos pedregosos e de direção incerta. Tanto se pode supor que levem a mais desvios da verdade para servir a seus dois clientes do momento como se pode suspeitar de objetivos muito maiores.

Ainda bem que o estranhíssimo percurso feito ontem por Jonas Tadeu foi demarcado por sugestões involuntárias de precaução dos seus ouvintes, quanto ao que ouviam. Fossem reconhecimentos de inverdades ditas nos dias anteriores, fossem respostas burladas, na longa entrevista à excelente Leila Sterenberg, da GloboNews, estava a mensagem: inverdades de antes previnem contra as verdades de hoje.

“Ninguém pagará” a Jonas Tadeu pela defesa de Caio Silva de Souza e Fábio Raposo Barbosa, os causadores da morte de Santiago Andrade. Por quê? Resposta obscura. Já defendeu outros manifestantes acusados de violência? Resposta tortuosa. Não conhecia Caio, só se falaram por telefone duas vezes sobre fuga e prisão, mas cita até o valor do aluguel pago pela mãe de Caio. “Fabinho”, sim, conhece-o há muito tempo, é amigo dos seus assistentes. A propósito, aquilo dito sobre Fábio ser tatuador era mentira, ele mora sozinho, mas é desocupado.

Já que era o capítulo dos desmentidos, outro dos vários: “Eu sabia desde o começo que Fábio conhecia o Caio”. Apesar de corrigir-se, tornou ainda maior o alegado número de intermediários até identificar Caio, rapidamente, inclusive com RG, CPF e dois endereços, para dar à polícia. “Um miserável.” “Não no sentido ruim.” Miserável por precisar do que recebe para ir às manifestações. “R$ 150.”

Foi a entrada no trecho sempre reto, longo, de aceleração invariável. “Os manifestantes violentos são pagos.” Quem paga? “Vão buscá-los em casa.” Quem vai? “Tem organização por trás deles.” Quem? “É preciso investigar vereadores, deputados, diretórios regionais de partidos.” Quem? Quais? “Minhas conversas indicaram, é preciso investigar vereadores, deputados, diretórios regionais, não só do Rio, de São Paulo e outros Estados também.” “Vereadores, deputados, diretórios”, “vereadores, deputados, diretórios” –sem fim. Quem e quais? “Não me disseram.”

Jonas Tadeu é reconhecido como muito habilidoso nas artimanhas próprias da advocacia que pratica. Para quem duvide, uma credencial de peso, no gênero: já foi advogado de Natalino Guimarães, preso em 2008 sob a acusação de chefiar uma milícia que atuava em Campo Grande (zona oeste do Rio). Não é provável que acrescentar aos dois clientes atuais a condição de mercenários convenha à defesa. Poderia, sim, abrir caminho, por exemplo, para uma delação premiada, com os dois implicando alguém ou determinadas pessoas. Mas essa é uma especulação útil apenas para lembrar que mesmo as denúncias vazias podem ter caroços. Aliás, tê-los é da sua natureza: se não surgem com caroços, logo aparece quem os ponha.

Cedo ainda, ontem já aparecia no rádio um comentarista a falar na “extrema esquerda” como a possível pagadora das arruaças. Por que não também o possível interesse da direita, que toma outras muitas providências de organização encoberta para impor-se na sucessão presidencial? Jonas Tadeu recomenda não responder a certas perguntas.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/151966-sem-resposta.shtml

Black Bode expiatório

Os fatos dos últimos dias em 10 passos, por Samuel Braun. Via coletivo vinhetando

1 – Fabio se entrega voluntariamente à polícia, acompanhado de um advogado particular.
1.A – Nenhum manifestante (ou PM) se entregou até hoje, em nenhuma manifestação.
1.B – Fabio não estava foragido, nem procurado, ele resolveu se apresentar ‘voluntariamente’.

2 – Seu advogado é o mesmo que fez a defesa de ex-vereador miliciano preso em penitenciaria federal.
2.A – O miliciano preso é irmão de outro miliciano preso, Jerominho, do mesmo partido (PMDB) do governador e do prefeito, alvos dos protestos.
2.B – Quando defendia o miliciano, responsável pela morte de diversas pessoas em chacinas, este advogado não entregou seu cliente em nenhuma delegacia.

3 – Advogado denuncia, através de seu assistente, o deputado Freixo como ligado aos atos criminosos em apuração.
3.A – Após fazer questão de comunicar esta versão ao delegado e registrá-la, voltou atrás. Não antes de toda míidia dar ampla divulgação.
3.B – Freixo concorreu contra Eduardo Paes e se constituiu como único candidato forte de oposição ao atual governo.

4 – Fabio alega que apenas entregou o artefato, que outra pessoa o detonou, mas não sabe quem foi.
4.A – Fabio repentinamente conhece alguem, que conhece alguém que sabe nome, apelido e CPF deste que teria acendido o artefato.
4.B – O tal denunciante não é revelado, e o advogado é que assume a responsabilidade pela denúncia.

5 – O advogado Jonas denuncia à polícia quem teria sido o detonador do artefato. A estratégia da defesa de Fabio é responsabilizar Caio, negro de cabelo curto e duro.
5.A – As imagens apontam um rapaz claro, cabelos lisos e volumosos.
5.B – Polícia vai a caça de Caio na casa de sua família. Jonas, o advogado denunciante vai junto.

6 – Partem num avião um delegado do Rio, o advogado denunciante e a imprensa para prenderem Caio na Bahia, após sua família ser pressionada a entregá-lo.
6.A – Caio é preso pelo delegado e pelo advogado denunciante. Um trunfo para a defesa de Fabio.
6.B – Inexplicavelmente, o advogado de Fabio, denunciante e auxiliar na captura, vira defensor TAMBÉM de Caio.

7 – Jonas, que não entregou Natalino, mas entregou Fabio, acusou e prendeu Caio agora defende Caio contra Fabio e Fabio contra Caio.
7.A – a polícia aceita que um advogado da parte ré participe de uma operação policial.
7.B – Autoridade policial aceita, sem estranhamento, que advogado de um réu que denunciou outro e auxiliou na prisão deste siga como defensor deste.

8 – Jonas, o advogado que faz prisões, e a Globo, que teve permissão pra cobrir com exclusividade a operação (porque, porque?) dizem que Caio afirmou que “políticos aliciam para manifestações”.
8.A – Caio não assinou nenhuma declaração nesse sentido. Um vídeo mostra que ele disse claramente que pessoas são convocadas (não aliciadas) e que é papel da polícia investigar quem convoca (portanto, não acusou ninguém, muito menos políticos).

9- Senadores do PT, PRB e PP (aliança dos governos municipal e estadual, foco dos protestos) apresenta projeto que tipifica manifestação e greve como terrorismo. Outro senador do mesmo partido sobe na tribuna exigindo urgência na aprovação.
9.A – Secretário de Segurança do Rio apresenta projeto para Congresso (!!!) para tipificar tambem crime de desordem e incitação a desordem pública.
9.B – Imprensa, liderada pela Globo, exige maior repressão policial e jurídica ao que chama de atentado à liberdade de imprensa.

10 – Instituições democráticas, partidos de esquerda, militantes e personalidades ligada aos governos apoiam a cruzada acima.
10.A – Em se aprovando os projetos, todas as atividades dos sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais serão considerados terrorismo e desordem pública.
10.B – Santiago foi a 10ª pessoa morta em decorrência das manifestações, a primeira por conta de manifestantes. Das outras 9, nem o nome se sabe direito.

FONTE:http://rebaixada.org/os-fatos-dos-ltimos-dias-em-10-passos-por-samuel-braun-via-coletivo-vinhetando/

Nem precisa torturar que eu confesso: tenho ligações com Marcelo Freixo!

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As organizações Globo estão tentando utilizar o episódio ainda mal explicado da morte do cinegrafista Santiago da Band TV para atacar sem nenhum pudor o deputado estadual Marcelo Freixo do PSOL/RJ.  Como conheço o Freixo desde antes de que ele assumisse o cargo de deputado, sei que ele não apoia ou tolera o uso de métodos violentos para fazer política. Assim, se alguém mais precisa ser ligado a ele pelo respeito que ele adquiriu na prática política, na defesa dos interesses trabalhadores e dos direitos dos que ninguém defende, por favor, me coloquem na fila.

E como eu disse, nem é preciso prender e arrebentar. Eu entro na fila de forma voluntária!