Este blog vem recebendo muito tráfego por causa da entrevista realizada com o Prof. Carlos Eduardo Rezende do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que destrinchou algumas das dificuldades para que a previsão feita por outro especialista, o Prof. Paulo César Rosman, da COPPETEC da UFRJ para que a ressurreição do Rio Doce se confirme até o dia 28 de Abril de 2016.
Mas é óbvio que a entrevista do Prof. Carlos Rezende não exauriu o debate, e nem foi essa a minha pretensão, pois o incidente da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) ainda deverá ser alvo de muito debate.
Entretanto, resolvi verificar que os principais jornais de Minas Gerais e do Espírito do Santo estão estampando em suas manchetes no dia de hoje, e verifiquei que a realidade é muito mais complexo do que a nossa tela de computador ou o nosso modelo de circulação oceânica pode querer nos mostrar.
Vejamos as capas dos sítios da internet de O TEMPO, Estado de Minas, Hoje em Dia e do Século Diário estampam na manhã desta 2a. feira (30/11).
Mas se as capas não forem suficientes para elucidar a complexidade do momento por que passam os ecossistemas do Rio Doce e da região costeira do Espírito Santo, a matéria abaixo da Gazeta provavelmente o faça, pois trata da repentina mudança da direção do TsuLama da Samarco que agora se dirige para o litoral sul capixaba por causa da ação dos ventos!
De toda forma, como muitas coletas independentes estão sendo feitas é provável que outras provas mais materiais da inviabilidade da ressurreição venham a público até o dia anunciado para que ela ocorra.
As reações à entrevista dada pelo prof. Paulo César Rosman da COPPETEC à BBC sobre a situação criada pelo incidente da Mineradora Samarco em Mariana (Aqui!) não tardaram. Um membro da rede social Facebook resolveu inclusive criar um evento que ele denominou de “Dia da Ressureição do Rio Doce, segundo Paulo Rosman e o MMA” e a adesão já foi significativa poucos minutos o convite estar disponível.
E o interessante é que a data anunciada para a “ressurreição” é 28 de Abril de 2015. Será que o Rio Doce ressuscita até lá?
Quem quiser aderir ao evento, basta clicar (Aqui!)
Já notei neste blog a ironia simbolizada pela dualidade existente no caso da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) entre de um lado a complacência do Estado brasileiro em seus diferentes níveis e, de outro, a punição imposta pelo mercado de ações às corporações-mães que são a Vale e a BHP Billiton.
Como mostra a matéria abaixo publicada pelo jornal O TEMPO, repercutindo material da FOLHAPRESS, a BM&FBOVESPA acaba de retirar a Vale de seu índice de Sustentabilidade Empresarial, o que efetivamente contribuirá para mais perdas no valor das ações da Vale como, aliás, já sinaliza a própria matéria.
Em seu livro “Globalização”, o megaespeculador George Soros alertava para a importância do papel de controlador do Estado em relação ao funcionamento dos mercados, visto que o mercado seria, digamos, amoral (Aqui!).
O irônico é notar que o Estado brasileiro está demostrando ser mais amoral do que os mercados, o que certamente é uma “inovação” que nem mesmo George Soros conseguiu prever.
Vale sai do índice de sustentabilidade da Bolsa após tragédia em MG
Bolsa não especificou o motivo pelo qual os papéis da mineradora não farão parte do ISE em 2016
Por FOLHAPRESS
A BM&FBovespa anunciou nesta quinta-feira (26) a nova carteira do ISE, seu Índice de Sustentabilidade Empresarial. A novidade está na ausência das ações da mineradora Vale. Somadas, as ações preferenciais e ordinárias da companhia totalizam 12,04% de participação na carteira do índice que vigora até dezembro deste ano.
Após o anúncio, as ações da Vale reduziram os ganhos na BM&FBovespa. Às 11h22, os papéis preferenciais da mineradora tinham alta de 0,68%, para R$ 11,77, enquanto os ordinários tinham avanço de 0,71%, para R$ 14,16.
A Bolsa não especificou o motivo pelo qual os papéis da mineradora não farão parte do ISE em 2016. Sonia Favaretto, presidente do conselho deliberativo do ISE e diretora de imprensa e sustentabilidade da BM&FBovespa, se limitou a dizer que “as duas possibilidades para a empresa não estar no ISE são a companhia não ter participado do processo para ser incluída no índice ou não ter se qualificado para compor a carteira”.
Os organizadores da carreata estão animados e já confirmaram a presença de surfistas e atletas como Neymara Carvalho, Krystian Kymerson e também da banda Macucos.
Não vou nem me ater ao caso do mais tucano dos senadores petistas Delcídio Amaral (MS) para marcar minha opinião de que o Partido dos Trabalhadores (PT) se transformou inapelavelmente em mais um partido da ordem capitalista que no Brasil se manifesta de um jeito particularmente perverso. É que existe uma instância em que o afastamento do PT das suas origens históricas de um partido que pretendia modernizar o Estado brasileiro a partir de um princípio básico mas revolucionário: democratizá-lo para que pudesse servir ao povo e não às oligarquias que sempre dominaram o Brasil.
Falo aqui da aprovação em regime de urgência do PL 2.946/15 que foi enviado pelo governador Fernando Pimentel para efetivamente precarizar o já precário sistema de licenciamento ambiental existente em Minas Gerais, de modo a encurtar o período de análise técnica de empreendimentos potencialmente poluidores, como é o caso de um sem número de novos projetos de mineração que pretendem transformar o já esburacado território mineiro em algo semelhante às crateras lunares.
E qual foi o argumento dessa fragilização? Que é preciso acelerar a análise dos projetos, começando com a dispensa de Estudos de Impacto Ambiental para projetos que sejam considerados de pequeno potencial ofensivo ao ambiente. Quem conhece minimamente o que foi feito no Rio de Janeiro, particularmente no Porto do Açu, sabe que isto é uma senha para a fragmentação dos pedidos de aprovação de novos empreendimentos, dificultando uma compreensão global dos impactos sinergísticos que a combinação dos projetos totais vão ter sobre o ambiente e a população humana.
O que mais me parece insidioso no regime de urgência que foi imposto pelo governador Fernando Pimentel é que ainda nem se acharam os mortos do caso da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) ou, tampouco.se conseguiu estabelecer com um mínimo de critério os impactos ambientais que a lama liberada da represa de rejeitos em Bento Rodrigues,
Em meio a essa grave demonstração de insensibilidade há que se lembrar que a celeridade demonstrada para instalar o licenciamento ambiental “Fast Food” pode ser facilmente traçada aos interesses da Vale e outras mineradoras que financiaram a campanha eleitoral de Fernando Pimentel. É que como dizem os críticos do sistema privado de campanhas eleitorais, financiadores privados não doam, fazem empréstimos. E não custa nada lembrar que a coletiva de imprensa realizada por Fernando Pimentel para se posicionar sobre o incidente em Mariana foi realizada na sede da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), o que foi para mim uma demonstração clara de onde está depositada a obediência do seu governo.
Um aspecto que me parece óbvio, mas que foi omitido por Fernando Pimentel: quando vão ser contratados as centenas de servidores que deverão atuar não apenas na análise dos pedidos de novos empreendimentos, mas também para fiscalizar os já existentes? Sem isso, o que acaba de ser aprovado a seu pedido na Assembleia Legislativa de Minas Gerais representará uma sentença de morte para seres humanos e ecossistemas naturais que serão ou já são afetados pela atividade das mineradoras. A ver!
Ainda que eu esteja devendo uma reflexão acadêmica mais robusta sobre todos os telecouplings (teleconexões) (Aqui!) que estão emergindo da lama lançada pela Mineradora Samarco (Vale+BHP Billiton) no Rio Doce, a qual chega agora de forma gradual mas inexorável ao litoral capixaba, me lembrei de uma entrevista que concedi ao Instituto Humanitas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) em 19 de Novembro de 2013 para comentar os efeitos do colapso do Grupo EBX do então bilionário Eike Batista (Aqui!).
Vejo agora que a chamada da entrevista tinha um caráter de premonição ao anunciar que o ” Colapso de Eike Batista é ensaio do que virá com a manutenção das Parcerias Público-Privadas”. Pois bem, passados pouco mais de dois anos da queda inexorável de Eike Batista, eis que outro campeão nacional do ex-presidente Lula, o Grupo Vale, está imerso em mais um incidente de grandes proporções que abala o já indefensável modelo Neoextrativista (alcunhado de Neodesenvolvimentista para efeitos de propaganda governamental) que embalou a bonança dos oito anos de governo Lula, e deu sobrevida ao primeiro mandato de Dilma Rousseff.
Ainda que a chamada oposição de direita (PSDB e DEM) tente se banquetear na lama fétida que foi lançada em Mariana pela negligência da Samarco (Vale+BHP Billiton) essa postura não passa de hipocrisia, pois nos estados governados por ela, principalmente em Minas Gerais com Aécio Neves e Anastasia, o modelo Neoextrativista também reinou e reinava absoluto até o fatídico dia 05 de Novembro de 2015. Aliás, cabe aos tucanos mineiros explicar o que acontecia debaixo de seus bicos nas minas que a Vale possui em Minas Gerais sob diferentes franquias e joint ventures!
Mas vamos ao que interessa porque é exatamente o que não está sendo mostrado pela mídia corporativa brasileira. O que vem surgindo nas mídias sociais e veículos de imprensa regional é um genuíno repúdio ao modelo Neoextrativista, com populações locais apontando o dedo e fazendo questões cruciais que têm sido ignoradas por quase todo mundo, inclusive pela comunidade científica brasileira. Essa indignação que não me parece ser apenas um reflexo momentâneo das graves consequências que o incidente da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) vem trazendo para a vida de centenas de milhares de pessoas e para o ecossistema do Rio Doce. O que eu venho ouvindo é que as pessoas estão entendendo perfeitamente o papel dos telecouplings existentes entre o papel das corporações agudizado pela solidariedade ativa do Estado brasileiro e a piora da sua condição de existência e subsistência.
E desse entendimento das vítimas dos efeitos negativos do Neoextrativismo e da subserviência das diferentes esferas do Estado brasileiro às corporações que nasce a possibilidade de que este castelo de cartas esteja para desmoronar. O mais interessante disso é que esse processo nasce por fora da estrutura política formal, o que torna tudo muito mais volátil e obviamente mais difícil de controlar.
Finalmente, eu diria que não é impensável que a BHP Billiton decida em breve terminar sua joint venture com a Vale e se retirar da Mineradora Samarco e do Brasil, apesar das inevitáveis perdas financeiras que terá. É que os donos do capital internacional sabem como ninguém que um incidente das proporções que o de Mariana alcançou é péssimo para seus interesses em esfera global. Daí que entregar os anéis para não perder os dedos será um pequeno passo. Já a Vale, para essa corporação privada nascida das benesses da privataria tucana, o jeito vai ficar ser ficar por aqui e conviver com a revolta dos atingidos. A ver!
MP anuncia análise mais rigorosa em processos pendentes relativos a barragens de mineração. Especialistas defendem regras mais rígidas para o setor e até a suspensão de novas licenças enquanto não houver revisão
Por Guilherme Paranaiba , Gustavo Werneck
Barragem do Complexo Casa de Pedras, vizinho à cidade de Congonhas: um dos 10 procedimentos que esperam licença para operar se refere à ampliação de represa de rejeitos da CSN (foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press. Brasil)
O Ministério Público decidiu fazer um pente-fino em todos os processos de licenciamento ambiental relacionados a barragens de rejeitos da mineração em Minas Gerais. O objetivo do órgão é analisar com calma e mais rigor os pedidos de licença, para melhorar a segurança dos empreendimentos e evitar novos desastres, como o da barragem do Fundão, em Mariana, que se rompeu e espalhou 62 milhões de metros cúbicos de lama e água, matando pelo menos 11 pessoas, deixando 12 desaparecidas e mais de 600 desabrigadas. Ambientalistas pedem até a suspensão de novos licenciamentos enquanto as autoridades não definirem novas regras para aumentar a segurança das barragens. Atualmente, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) está analisando 26 pedidos de licença específicos para barragens de contenção de rejeitos, sendo 10 referentes à licença de operação, última etapa antes de o empreendimento funcionar.
“Vamos pedir vistas em todos os processos em andamento, porque se trata de uma questão de preservação do meio ambiente. Estaremos superatentos”, diz o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador das promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam) do Ministério Público mineiro. O MP é um dos órgãos que têm posição assegurada nas unidades regionais colegiadas do Comitê de Política Ambiental (Copam) – formado por integrantes do poder público e da sociedade civil –, que autoriza ou não os licenciamentos, sempre com base em um parecer técnico de servidores da Semad.
Quem também tem assento nas regionais do Copam é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A coordenadora do Núcleo de Emergência Ambiental do Ibama em Minas Gerais, Ubaldina Maria da Costa Issac, é conselheira na regional do Rio Paraopeba e também suplente na unidade Rio das Velhas. Ela defende maior atenção a quesitos de segurança no momento do licenciamento. “Eu acho que os planos de atendimentos a emergências precisam de um detalhamento bem maior, prevendo cenário mais crítico. Também é necessário observar com mais atenção as estruturas de barramento”, afirma.
MORATÓRIA
O tamanho do desastre em Mariana, com desdobramentos que estão chegando ao Oceano Atlântico pelo Rio Doce, leva o ambientalista Marcus Vinícius Polignano, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, a pedir a suspensão de todos os licenciamentos que estiverem sendo analisados pela Semad antes da apreciação do Copam. Outro fator que pesa na opinião do especialista é a constatação da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) de que 42 barragens de rejeitos não têm garantia de estabilidade no estado, conforme inventário produzido no ano passado.
“Nossa preocupação agora é que sejam lançadas diretrizes emergenciais para aumentar a segurança, principalmente das barragens que estão sem atestado de estabilidade. Por isso, estamos defendendo a moratória de novos barramentos, especialmente os minerários, até que novas regras sejam definidas”, diz Polignano. Ele ainda defende que uma das medidas necessárias é a proibição de construção ou ampliação de barragens perto de áreas povoadas. “A sociedade tem que ser ouvida para ver se aceita aquele barramento. A mineração vai ter que se reinventar. Mariana é o grito de que não temos mais para onde caminhar com esse modelo”, afirma o ambientalista.
Quem também acredita ser necessário mudar as regras do setor é o promotor Vinícius Alcântara Galvão, curador do Meio Ambiente de Congonhas. Ele acompanha de perto a tramitação de todos os processos relacionados ao Complexo Casa de Pedras, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), na cidade histórica. Um dos 10 procedimentos em tramitação na Semad para obter a licença de operação de barragens é da CSN, que se refere à ampliação de uma represa de contenção no complexo de Congonhas, bem próxima da área urbana. “Como não se tem certeza sobre segurança manifestada pelos órgãos públicos e pelos especialistas, Minas Gerais precisa do aprofundamento dos debates para que decisões sejam tomadas nesse sentido”, afirma.
O capitão Juliano Trant, comandante da Companhia de Polícia Militar do Meio Ambiente de Belo Horizonte e conselheiro de duas unidades regionais do Copam, diz que o trabalho será mantido, pois já é feito com o rigor necessário para a análise segura de barragens de mineração. “Pegamos o processo, analisamos, fazemos visita, pedimos vistas, fazemos diligências e vamos continuar assim. A primeira reunião após o acidente de Mariana será na semana que vem e é claro que podem surgir demandas de discussões por mais segurança. Por enquanto, nada ainda foi conversado entre os conselheiros”, afirma.
A Semad informou que ainda não tem recomendação aos técnicos da pasta, mas admite que isso está sendo discutido internamente. A pasta lembra que existe um projeto de lei tramitando na Assembleia Legislativa que prevê a reestruturação do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema). A CSN informou, por meio de nota, que suas barragens são seguras e que a confirmação vem de auditorias e laudos feitos por autoridades competentes. “A empresa opera em conformidade com as licenças vigentes”, diz o texto.
Localização das 10 licenças de operação em tramitação na Semad
1 – Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) – Congonhas
2 – GO4 Participações e Empreendimentos S.A – Antônio Dias
3 – Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração S.A – Santa Bárbara
4 – Companhia Vale do Rio Doce – Sabará
5 – Vale Fertilizantes S.A – Tapira
6 – Vale Fertilizantes S.A – Araxá
7 – Vale S.A – Itabira
8 – Vale S.A – Itabirito
9 – Vale S.A – São Gonçalo do Rio Abaixo
10 – Vale S.A – Ouro Preto
Saiba mais –> Licenças por etapas
Licença prévia é a autorização concedida na fase preliminar de planejamento do empreendimento, que considera a localização e a concepção, estabelecendo condicionantes e atestando a viabilidade ambiental. É válida por no máximo quatro anos. Já a licença de instalação autoriza que o empreendimento seja implantado, incluindo medidas de controle ambiental. Vale por no máximo seis anos. A licença de operação garante que o empreendedor pode iniciar as atividades, depois de fiscalização obrigatória para verificar o cumprimento do que está nas licenças anteriores e também das condicionantes. Pode valer por quatro ou seis anos e precisa de revalidação periódica.
‘Exemplo’ de gestão ambiental, Samarco coleciona histórico de infrações
Mineradora registrou em 19 anos 23 autuações apenas em Mariana, apesar de a fiscalização ser tida como frágil
Por Mateus Parreiras
Acesso ao complexo do Germano, onde ocorreu rompimento: após 18 irregularidades flagradas em duas décadas, interdição ocorreu depois da catástrofe concretizada (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Tida por especialistas em impactos ao meio ambiente e do setor minerário como exemplo na gestão ambiental de suas atividades, a Samarco tem um histórico de infrações por descumprimento de normas de segurança em Mariana que somaram, só nos últimos 19 anos, 23 autos da fiscalização no âmbito estadual . Só pelo rompimento da Barragem do Fundão, que vitimou pelo menos 11 pessoas, deixou 12 desaparecidos e mais de 600 desabrigados, foram cinco autos lavrados pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e Polícia Militar do Meio Ambiente. Em 2005 e em 2007, duas infrações foram referentes a irregularidades em barragens de contenção de rejeitos e de resíduos no Complexo Alegria, da Mina Germano, a mesma onde o dique cedeu, provocando o maior desastre do tipo na história do país. O valor total dessas multas não foi divulgado ainda, mas há pelo menos R$ 26.243,37 a serem pagos, referentes a três irregularidades encontradas, e outras nove multas quitadas pela empresa ao longo dos anos.
Entre os mais graves problemas apontados pela fiscalização, que renderam autos de infração, se destacam irregularidades nas barragens, dois problemas em minerodutos que escoam ferro e água para o litoral capixaba e oito infrações em operações minerárias diversas, que envolvem extração, transporte do material, separação e disposição dos rejeitos, de acordo com autos dos fiscais estaduais. Parte das informações foi fornecida pela Semad e o restante consta no Sistema Integrado de Informações Ambientais do Estado de Minas Gerais (Siam).
Há outros impactos negativos ao meio ambiente relatados, como uma intervenção que resultou em danos aos recursos hídricos da região e que provocou R$ 5 mil em multas, no ano de 2011; danos a florestas e vegetação em área de preservação permanente, com multa de R$1.242,37, apreensão de 100 metros cúbicos de eucalipto e suspensão de atividades extrativistas, em 2013; e trabalhos que tornaram a qualidade das águas inferior aos padrões estabelecidos, no ano passado, com multa de R$ 20.001.
Os cinco autos lavrados pela PM, Feam e Semad referentes ao último desastre começaram a ser produzidos dois dias após o rompimento, no dia 7 deste mês, resultando na suspensão imediata das atividades da Mina do Germano, devido ao “grave e iminente risco para vidas humanas, meio ambiente, recursos hídricos ou para os recursos econômicos”. Outras infrações foram expedidas nos dias 11, 12 e duas no dia 13. Multa para esse processo, por enquanto, só a expedida pelo Ibama e anunciada pela presidente Dilma Rousseff, em Mariana, no dia 12, no valor de R$ 250 milhões.
Para Mário de Lacerda Werneck Neto, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Minas Gerais, as multas mostram que ocorreram descumprimentos da legislação e de procedimentos em Mariana, que não chegaram a se destacar, por ser a mineração uma atividade de risco. “É uma atividade de alto risco. Por isso, a empresa deve produzir relatórios constantes e estar sob o crivo das autoridades. Quando há desvios, estes devem ser imediatamente revisados e as multas só ocorrem porque foram detectados descumprimentos das exigências”, afirma.
Mas, ainda assim, a Samarco tinha reputação de empresa séria e comprometida com a sustentabilidade, segundo Werneck. “Era uma das referências entre as mineradoras. Por zelar por tudo, tinha-se a impressão de que buscava sustentabilidade. Mas um dano como esse mostra, no mínimo, negligência no que diz respeito à segurança de pessoas que poderiam ser atingidas”, disse. O presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB/MG salienta ainda que essa quantidade de multas aparece em uma realidade de pouca fiscalização e de punições leves, como mostrou ontem a reportagem do Estado de Minas, ao revelar que a Feam não tem mais que oito fiscais para 735 barragens, sendo que esses podem ser reforçados por 80 fiscais da Semad. “Só o Ibama tem R$ 2 bilhões de infrações para cobrar, dos quais só cobrou R$ 140 milhões. Em um universo desses, os R$ 9 milhões anunciados pela presidente Dilma (para investimento em fiscalização) são irrisórios. O poder público é preguiçosos e ineficiente. Nem quando tem dinheiro a receber trabalha”, critica.
Para o professor da Escola de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto Hernani Mota de Lima, doutor em gerenciamento ambiental, as estruturas de fiscalização, engenharia e operação da Samarco são consideradas exemplares. “As barragens foram construídas dentro das técnicas de engenharia internacionalmente adotadas. O ocorrido serviu para que essas técnicas sejam revistas e passem por mais garantias de segurança com utilização de tecnologia mais avançada”, afirma.
A reportagem procurou a Samarco para saber mais detalhes sobre as infrações que constam em nome da empresa nos empreendimentos em Mariana e se os mesmos foram solucionados. Em nota, a empresa informou que “está, e sempre esteve, em constante diálogo com os órgãos públicos, cumprindo e arcando com suas obrigações”.
Na última segunda-feira (16/11) fui entrevistado pelo economista Paulo Passarinho no programa “Faixa Livre” que é levado ao ar pela Associação de Engenheiros de Petrobras sobre o incidente causado pela Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) em Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana (MG).
Coloco abaixo o link para quem desejar ouvir essa entrevista.
Diretor da Samarco diz que não é o caso de pedir desculpas à população
De acordo com o diretor de operações e infraestrutura da mineradora, Kleber Terra, o momento é de continuar apurando as causas do acidente e priorizar o atendimento estrutural às vítimas FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO Representantes da Samarco durante entrevista coletiva
JULIANA BAETA
“Não é o caso de pedir desculpas à população de Mariana”, disse o diretor de operações e infraestrutura da Samarco, Kleber Terra, sobre a tragédia causada pelo rompimento da barragem do Fundão, durante coletiva nesta terça-feira (17) para tratar da segurança das outras barragens que estão em risco. Segundo ele, o momento agora é de continuar apurando as causas do acidente e priorizar o atendimento estrutural às vítimas. A coletiva aconteceu na unidade industrial de Germano, em Mariana.
A empresa admitiu, 11 dias após o rompimento da barragem de Fundão, que as outras duas barragens vizinhas – Germano e Santarém – foram abaladas com o acidente, correm risco de arrebentar e estão passando por manutenções de urgência. Para conter os riscos de rompimento na barragem de Germano, os trabalhos irão durar cerca de 45 dias.
De acordo com Terra e os demais representantes da mineradora presentes na coletiva, José Bernardo, engenheiro civil geotécnico, e Germano Lopes, gerente geral de projetos estruturantes, a margem de segurança das barragens de Santarém e de Selinha é de 20% a mais do recomendado pela norma brasileira, que determina um fator de segurança de 1,5 em condições normais, e de 1,3 em condições adversas.
Os trabalhos da empresa, segundo os a Samarco, estão concentrados no reforço das estruturas para que um novo rompimento não aconteça. Blocos de rocha serão retirados de minas da própria mineradora para que sejam feitos os aterros de reforço no complexo de Germano.
“Tem o risco e nós, para aumentarmos o fator de segurança e reduzirmos ele, estamos fazendo as ações emergenciais necessárias. São blocos de rocha, que nós tiramos da mina e levamos para o local pra fazer o aterro de reforço das estruturas. O aterro será construído de baixo para cima, para escorar o dique”, explicou o engenheiro civil geotécnico José Bernardo.