Mariana e São João da Barra: em meio a minas, minerodutos e portos, agoniza o Neodesenvolvimentismo neoextrativista

porto do açu

A tragédia social e ambiental causada pela explosão de duas lagoas de rejeitos tóxicos em Mariana (MG) possui paralelos que merecem ser analisados com o que temos vivido no Norte Fluminense, mais precisamente no V Distrito de São João da Barra. 

É que se à primeira vista não há qualquer ligação meritória de ser notada, eu aponto que o caso é justamente o contrário, tantas são as coisas que ligam esses dois casos. Então vejamos os pontos de ligação:

  1. Em Mariana temos uma mina que é explorada por uma “joint venture” formada pela Vale e pela mineradora australiana BHP Billiton, a Mineradora Samarco, que transporta o minério extraído por meio de um mineroduto que termina em Anchieta (ES), e é ali exportado via o Porto de Ubú. 
  2. Em São João da Barra, temos um porto controlado por uma corporação estudanidense (a EIG Global Partners que aqui se apresenta como Prumo Logística Global) que irá exportar minério extraído por uma corporação sul africana, a Anglo American, que transporta o minério extraído em Conceição do Mato Dentro (MG) por um mineroduto operado pela Ferroport, uma joint venture formada pela Prumo Logística Global e por ela própria (i.e., Anglo American).

Então o que temos unindo Mariana, Conceição do Mato Dentro em Minas Gerais com Anchieta no Espírito Santo e São João da Barra no Rio de Janeiro? Além de minas de minério de ferro, minerodutos e portos, eu acrescentaria graves riscos sociais e ambientais, com episódios ocasionais que misturam tragédia humana, graves prejuízos ao ambiente natural e omissão dos responsáveis, sejam eles privados ou estatais.

Além disso, o que está acontecendo  nessas minas, minerodutos e portos expõe de forma emblemática os intestinos do modelo Neoextrativista disfarçado de Neodesenvolvimentismo que embalou boa parte dos investimentos de infraestrutura que foram e estão sendo realizados por todo o território nacional desde o início do governo Lula para transformar o Brasil na maior potência mundial de commodities.

Assim, o que foi enterrado ontem em Mariana não foram apenas casas, seres humanos e seus sonhos de vida, mas um modelo de inserção do Brasil na economia globalizada. É justamente esse modelo Neoextrativista que começou a sangrar quando a China iniciou a esfriar sua demanda por commodities minerais e agrícolas que estrebucha diante de nós. O problema é que como não existe uma alternativa pensada a um modelo que se esgotou muito mais rápido do que seus mentores pensavam que iria, teremos provavelmente que continuar imersos na lama que tudo isto efetivamente representa para o Brasil.

Um pequeno consolo que eu tenho é que, dado o tamanho da tragédia que ocorreu em Mariana, é provável que determinados processos que dormitavam em gavetas empoeiradas agora ganhem “tracking” e velocidade, de forma que possamos finalmente ver alguns desdobramentos concretos para a reparação dos graves prejuízos que já foram causados pelo Neoextrativismo contra os segmentos mais pobres e politicamente marginalizados da população brasileira, seja em Mariana, Conceição do Mato Dentro, Anchieta ou São João da Barra. 

Tragédia em Mariana: mais uma vez a imprensa internacional tem cobertura mais completa e objetiva

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A explosão de duas áreas de contenção de rejeitos tóxicos da Mineradora Samarco ocupou ontem parte do noticiário da imprensa corporativa brasileira, mas foi na mídia internacional que apareceram detalhes mais completos sobre o caso, e sobre as corporações privadas envolvidas.

Um exemplo da diferença das coberturas dadas ao caso se refere aos termos usados para definir o que aconteceu. Enquanto por aqui se usou o termo “rompimento”, a agência usou ‘burst” o que pode ser traduzido com “explosão” (Aqui!). A diferença não é apenas semântica, já que romper ou explodir uma bacia de rejeitos pode ter causas bastante diferentes, bem como penalizações perante a lei.  

Outra informação crucial que passou em branco na imprensa brasileira foi sobre quem são os proprietários da Mineradora Samarco. Essa informação no plano internacional foi oferecida tanto pela Reuters como pelo jornal “The Guardian” (Aqui!) que informaram aos seus leitores que a empresa é uma “joint venture” que reúne a brasileira Vale e a australiana BHP Billiton, e que a mina de Germano é um empreendimento cuja propriedade é de 50% para cada uma das delas. Confesso que já deveria ter me perguntando antes sobre quem eram os verdadeiros donos da Samarco, mas agora esta charada está resolvida.   O “The Guardian” também reporta que o minério de ferro escavado na área do desastre é transportado para o Espirito Santo na forma de borra onde é beneficiado de forma primária antes de ser exportado (por meio de mineroduto e transporte pelo Porto de Ubú em Anchieta, acrescento eu).

Já a Reuters inclui a informação de que as corporações da mineração se encontram em dificuldades por causa da queda nos preços do minério de ferro e outras commodities por causa do esfriamento das demandas vindas da China que é a maior consumidora de matérias primas industriais do planeta.  A Reuters informa ainda que a Mineradora Samarco produz anualmente 30 milhões de toneladas de ferro, o que representa aproximadamente 10% da produção brasileira.

Agora, voltando ao evento em si e à cobertura nacional, uma criança sobrevivente narrou á Folha de São Paulo que todos os moradores da localidade de Bento Rodrigues esperavam que um dia houvesse a explosão das bacias de rejeito da Mineradora Samarco (Aqui!). Assim, como é que as autoridades mineiras e suas agências ambientais permitiram que esta situação chegasse ao ponto das bacias de rejeito explodirem? Essa pergunta é que deveria ser feita em face das intermináveis concessões de novas áreas de mineração que estão sendo expedidas em Minas Gerais e outras partes do território brasileiro.

Finalmente, essa explosão de rejeitos e suas consequências sociais e ambientais ocorre em meio a uma tentativa de impor um novo código de mineração que seja ainda mais permissivo para as grandes mineradoras. Esse será mais um golpe contra os interesses da população brasileira que, como vemos no caso de Bento Rodrigues, acaba sendo pagando os maiores preços para que corporações nacionais e internacionais saqueiem o Brasil.

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Tragédia em Mariana: em entrevista à Globo News, professora da UFOP fala da situação de caos causado pela mineração

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Em entrevista concedida á Globo News, a professora do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Juçara Brittes, deu detalhes sobre a situação de caos ambiental que cerca a região de Mariana por causa da atuação praticamente descontrolada das empresas de mineração. 

Segundo o que disse Juçara Brittes, a conservação ambiental se dá basicamente na área histórica de Mariana, enquanto no resto do município a atuação das empresas de mineração se dá praticamente de forma secreta, já que nada se sabe sobre o que acontece dentro das minas. 

Além da tragédia humana que não para de crescer já que se estima que até 45 pessoas podem ter morrido, Juçara Brittes informou que a cidade de Mariana se ecnontra sem abastecimento de água, podendo este fato estar ligado também ao incidente que ocorreu na mina da Mineradora Samarco.

O que mais salta aos olhos neste caso é a combinação de ação praticamente desregulada do setor da mineração, o que favorece a que este tipo de incidente se torne rotineiro em Minas Gerais, já que não faz muito tempo um incidente semelhante ocorreu em Itabirito. Resta saber agora como vão se comportar os governantes e, especialmente, a população mineira. É que se nada for feito, novas tragédias deverão ocorrer cedo ou tarde.

 

O Globo também noticia incidente com represa da Mineradora Samarco

Barragem de rejeitos se rompe em Mariana, Minas Gerais

Distrito está sendo esvaziado; prefeitura e empresa não falam em número de vítimas

POR O GLOBO 

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Barragem se rompeu em Mariana (MG) e causou estragos na região – Reprodução / Luís Eduardo Franco / TV Globo

RIO — Uma barragem de rejeitos se rompeu na tarde desta quinta-feira no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. Moradores da região disseram que pessoas estão soterradas. De acordo com o site “G1”, entre 15 e 16 pessoas morreram e 45 estão desaparecidas, segundo o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Extração de Ferro e Metais Básicos de Mariana (Metabase). Prefeitura e empresa responsável pela barragem, no entanto, não falam ainda em número de vítimas.

As equipes do Corpo de Bombeiros, agentes da Guarda Municipal e Defesa Civil Municipal estão no local neste momento para avaliação dos danos.

De acordo com nota oficial divulgada pela prefeitura de Mariana, o rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco Mineração, ocorreu por volta das 16h20 desta quinta-feira, atingindo parte do distrito de Bento Rodrigues, zona rural há 23 quilômetros de Mariana. A nota acrescenta que a empresa Samarco, em contato com a prefeitura, está pedindo aos moradores de Bento Rodrigues que evacuem a comunidade local e sigam, imediatamente, para o distrito de Camargos, que é mais alto e seguro.

Já a Samarco Mineração, em nota publicada em seu site às 18h04, confirmou o rompimento de sua barragem de rejeitos, denominada Fundão, nos municípios de Ouro Preto e Mariana e reforçou que está “mobilizando todos os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de danos ao meio ambiente”. Além disso, a empresa disse que, neste momento, não é possível confirmar as causas e extensão do ocorrido, assim como a existência de vítimas.

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Imagem do Google mostrando a localização da barragem – Reprodução TV Globo

FONTE: http://oglobo.globo.com/brasil/barragem-de-rejeitos-se-rompe-em-mariana-minas-gerais-17975110#ixzz3qeXL5dKl