O TEMPO continua sua série sobre danos sociais e ambientais causados pelo mineroduto da Anglo American: sem indenização!

Anglo American subestima  o número de atingidos

Há exemplos de tubos que passam nos quintais de casas em que as famílias não foram reconhecidas como atingidas e, por isso, não receberam indenização nem foram reassentadas

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Obra está no terreiro de Ary Teixeira, mas empresa não o considera “atingido”




Os dois são exemplos de como o Estudo de Impactos Ambientais (EIA), apresentado pela empresa, pode ter subdimensionado o número de atingidos pelo projeto. O EIA aponta dois grupos, os da Área Diretamente Afetada (ADA) e os da Área de Influência Direta (AID), mas, segundo relatório da consultoria Diversus, feito a pedido do Ministério Público de Conceição do Mato Dentro, os impactos não foram mensurados corretamente. O relatório se refere apenas à mina, considerando as cidades de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim, onde a mineradora reconhece oficialmente duas comunidades – Ferrugem e Mumbuca – como atingidas. O estudo apontou 22 comunidades afetadas, entre elas, o Sapo, onde mora Ary Teixeira.

“A gente ficou ‘circulado’ no meio de um canteiro de obras, e ninguém explica nada”, resume o borracheiro, que há quase um ano convive com as máquinas e os operários dentro de sua propriedade. A maioria dos moradores dos arredores foi removida pela empresa, mas a família de Ary não foi considerada atingida. Somente com a ajuda de um advogado, a família conseguiu pequenos reparos, como a instalação de uma caixa d’água de 10 mil litros, que se fez necessária depois que a nascente que passava pela propriedade secou. A Anglo American também fez uma pequena obra de contenção para evitar deslizamentos em época de chuva.

Os transtornos e preocupações, porém, permanecem. “Antes, eu ficava até tarde da noite conversando com os vizinhos. Agora, nem tem mais vizinho”, compara. Ele completa que suas filhas adolescentes não saem sozinhas nem para ir à escola, com medo do grande número de estranhos circulando no local. Ary não sabe quanto vale sua propriedade e conta que poderia passar o resto da vida ali se não fossem as mudanças recentes. Agora, ele gostaria de vender a área para a mineradora e se mudar. “Aqui não tem mais paz”, diz.

Divergência. De acordo com a Anglo, a área onde a família de Ary Teixeira vive “não se encontra dentro do canteiro de obra, mas sim no entorno deste”. A empresa afirma ainda que a terra faz parte do espólio de Francisco de Souza Ferreira, e que há decisões judiciais que garantem a posse da área. “É certo que as obras do mineroduto vêm sendo executadas rigorosamente de acordo com as normas legais, nos exatos termos das decisões judiciais que garantiram a posse da área” diz a empresa, em nota.

A mineradora também garante que solicitou à área técnica uma avaliação em relação ao problema de água na propriedade e que “independente da conclusão dos trabalhos vem disponibilizando água durante todo o período da obra e, ainda, disponibilizou a construção de um poço que não foi aceito pela família, optando por discutir a questão em juízo”.

FONTE: http://www.otempo.com.br/cmlink/hotsites/especial-mineroduto/anglo-american-subestima-o-n%C3%BAmero-de-atingidos-1.813092

O TEMPO continua série especial sobre problemas causados pelo mineroduto da Anglo American

A ÁGUA SUMIU

‘Não adianta brigar com empresa grande’

Os moradores de Água Quente tiveram que incluir na rotina uma caminhada de 3 km até o córrego Teodoro para tomar banho e buscar água para as atividades cotidianas

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Por  ANA PAULA PEDROSA e QUEILA ARIADNE

Desde que as obras do projeto Minas-Rio, complexo que está sendo construído pela Anglo American entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, começaram nas imediações da comunidade de Água Quente, na zona rural de Conceição do Mato Dentro, região Central de Minas, a água sumiu. As 46 famílias que vivem no local habitam casinhas muito simples e, desde que as nascentes começaram a secar, aprenderam que a vida podia ser ainda mais dura do que era antes. Acostumados a acordar com o sol e se dedicar ao trabalho na roça, os moradores tiveram que incluir na rotina uma caminhada de 3 km até o córrego Teodoro para tomar banho e buscar água para as atividades cotidianas.

 O problema durou 12 dias seguidos e foi apenas amenizado com a instalação, pela Anglo, de uma caixa d’água para abastecer o povoado. “Ainda falta água, mas é só uns dois dias. Aí a gente liga pro pessoal da firma, e eles enchem de novo”, diz, resignado, José Lúcio Reis dos Santos. Morador do lugarejo desde que nasceu, há 45 anos, ele não tem esperança de que as coisas melhorem. “Não adianta brigar com empresa grande. Já ouvi muita promessa”, diz.

Problemas com água são comuns em todo o trajeto da obra e são graves, já que, segundo estudo da consultoria Diversus, encomendado pelo Ministério Público de Conceição do Mato Dentro e realizado em 2011, entre as comunidades afetadas pelo empreendimento em Conceição, Dom Joaquim e Alvorada de Minas, só 6,5% das casas usam rede pública de água. A maioria (93,5%) se abastece em nascentes, rios, brejos, poços e similares.

Também morador do local, Renato dos Santos Reis, 34, teme que a situação piore. “Será que eles vão continuar colocando água quando a obra acabar?”, pergunta. A resposta é não. O gerente geral de desenvolvimento social da Unidade de Minério de Ferro da Anglo American, Maurício Martins, explica que a empresa vai implantar um sistema de captação “profissional”, com base em especificações técnicas da Copasa, e que será gerido pela prefeitura. “Esses problemas vão acabar, e a qualidade da água deles vai melhorar”, garante.

A água encanada, no entanto, não vai resolver o problema de João Generoso Filho, 65, que conta os prejuízos da extinção do córrego Passa Sete no povoado. O leito em que antes corria o rio agora parece uma estrada de terra, onde o mato cresce à vontade e, em alguns trechos, alcança 1 metro de altura. Sem água, o moinho e o engenho deixaram de funcionar e os bebedouros dos animais secaram.

Ele diz que, desde o início da obra, as águas não eram mais as mesmas, até que secaram de vez. “A água vinha vermelha. A gente cozinhava e lavava roupa com água suja. Não dava nem para os animais beberem.” O que Generoso conta de memória, os pesquisadores da UFMG atestaram em um relatório feito em 2010. Segundo o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta), já naquela época a água do córrego Passa Sete era “muito suja, com aspecto muito barrento”.

FONTE: http://www.otempo.com.br/cmlink/hotsites/especial-mineroduto/n%C3%A3o-adianta-brigar-com-empresa-grande-1.812015

O TEMPO: Obras do projeto Minas-Rio deixam rastro de destruição em 525 km

Em Conceição do Mato Dentro, a instalação do projeto da Anglo American está virando a vida dos moradores de cabeça para baixo

Por ANA PAULA PEDROSA E QUEILA ARIADNE

Economia - Especial - Minas GeraisMineroduto Minas Rio o maior do mundo aproximadamente 525km ligando Conceicao do Mato Dentro em Minas Gerais com o porto em Acu distrito de Sao Joao da Barra no Rio de Janeiro Empresas responsaveis pela Obra MMX Anglo American Camargo CorreaFOTOS: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO 12.02.2014

Fazenda Santa Cruz Areas, no distrito de Alvorada, sofre com a falta de água e com a obra que passa pela região. Foto: Mariela Guimarães
Se Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas Gerais, tivesse saído da imaginação do colombiano Gabriel García Márquez, talvez a cidade se chamasse Macondo e sua riqueza fosse banana em vez de minério. Tal como o povoado fictício da obra “Cem Anos de Solidão”, do autor, a cidade mineira também viu sua vida alterada repentinamente pela chegada de uma empresa estrangeira. No livro, é a Companhia Bananeira quem faz “uma invasão tão tumultuada e intempestiva que nos primeiros tempos era impossível andar na rua”. Em Conceição, é a instalação do projeto Minas-Rio, pela Anglo American, que está virando a vida dos moradores de cabeça para baixo.

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A cidade é apenas a ponta do projeto e dos problemas causados por ele. O empreendimento começa com a mina e a barragem de rejeitos em Conceição do Mato Dentro e termina no porto do Açu, em São João da Barra, no Norte do Rio de Janeiro. Um mineroduto que terá 525 km, que será o maior do mundo, vai unir as duas pontas. O projeto corta 32 municípios, sendo 25 em Minas Gerais e sete no Rio de Janeiro. Outras quatro cidades são afetadas indiretamente, totalizando 36.

Assim como a Companhia Bananeira criada pelo escritor que venceu o Nobel de Literatura, a atuação da Anglo American vai deixando um rastro de histórias quase invisíveis, escondidas em pequenos povoados e comunidades rurais onde os moradores relatam uma coleção de problemas que vão desde a invasão de terrenos até o soterramento de nascentes, falta de água, passando pela destruição de sítios arqueológicos e prejuízos a aldeias indígenas.

O Minas-Rio está em fase de Licença de Operação, a última antes de iniciar seu funcionamento. A expectativa é que a autorização para funcionar saia ainda neste ano. A obra que a empresa considera praticamente acabada, deixou cicatrizes profundas em gente simples que habita seu caminho.

Durante duas semanas, rodou 3.400 km de uma ponta a outra do empreendimento para descobrir essas histórias, que serão apresentadas na série de reportagens “Um Mineroduto que Passou em Minha Vida”, que começa hoje. 

FONTE: http://www.otempo.com.br/capa/economia/obras-do-projeto-minas-rio-deixam-rastro-de-destrui%C3%A7%C3%A3o-em-525-km-1.811973

Comunidades socialmente atingidas pelo mineroduto Minas-Rio da Anglo American lançam carta aberta à sociedade brasileira

As comunidades do entorno do projeto Minas-Rio (mineradora Anglo American), em Conceição do Mato e Alvorada de Minas, reuniram-se no último dia 22 de fevereiro de 2014, para discutir o agravamento dos problemas a que estão submetidas. No encontro,  deliberou-se publicar a carta-denúncia, em anexo e a seguir apresentada.

Desde o início do processo de licenciamento ambiental do empreendimento Minas-Rio (mina e mineroduto), os conflitos gerados pelas pressões e abusos para sua implantação  permanecem sem adequado tratamento e vigilância das autoridades públicas. A situação das comunidades atingidas configura-se pelo alto grau de precarização das condições de vida, devido à degradação das condições ambientais, sociais e econômicas nos respectivos territórios.

 Ao longo dos últimos anos a mobilização dos atingidos se fortaleceu com a participação em diferentes processos de discussão, negociação, acompanhamento socioambiental e culminou com seu reconhecimento comocomunidades socialmente atingidas”.

Apesar de todas as denúncias, audiências públicas e da exposição da violação dos direitos humanos e ambientais, tais comunidades permanecem, entretanto, invisíveis perante as autoridades do Estado – políticos, governantes, Justiça. A impunidade dos agentes responsáveis por tal situação incentiva a perpetuação de práticas desrespeitosas e criminosas por parte da empresa Anglo American e de procedimentos viciados e imorais por parte de servidores públicos.

 Entidades sociais, ambientalistas e  grupos de pesquisa se unem às comunidades social e ambientalmente atingidas para contribuir com a compreensão do conluio e promiscuidade nas relações entre representantes do segmento minerador, da Anglo American e, particularmente, do governo de Minas Gerais, associados na consolidação dos cenários de degradação desta digna região de Minas.

É nesse sentido que divulgamos à sociedade a Carta Aberta das COMUNIDADES ATINGIDAS pelo Projeto Minas-Rio (Anglo American – Governo de Minas).

Solicitamos a todos que nos ajudem a denunciar as arbitrariedades cometidas e a dar visibilidade a aqueles que não têm merecido a atenção e respeito necessários dos poderes constituídos e de boa parte dos veículos de comunicação.

 Compartilhe nossa carta, manifeste sua posição aos amigos e grupos sociais a que estiver ligado.

 Abaixo, a íntegra do texto:

 

Carta Aberta das Comunidades Socialmente Atingidas 

pelo Empreendimento Minas-Rio à sociedade

As comunidades do Distrito de São Sebastião do Bom Sucesso, Sapo – Água Quente, Beco, Cabeceira do Turco, Ferrugem, Quatis, Turco, e de Córregos – Gondó e do Jassém se reconhecem como COMUNIDADES SOCIALMENTE ATINGIDAS pelo empreendimento Minas-Rio, na região de Conceição do Mato Dentro.

Nós, comunidades socialmente atingidas, vimos a público manifestar o nosso repúdio às práticas violadoras de direitos humanos e ambientais impostas pela empresa Anglo American com a conivência e omissão do poder público municipal, estadual, federal e todas as instâncias responsáveis pela fiscalização e promoção do bem comum.

Exigimos que as comunidades sejam esclarecidas sobre as condições reais a que estão e estarão submetidas e que sejam paralisadas as práticas desrespeitosas, excludentes e geradoras de conflitos sociais tais como:

•          Não reconhecimento dos atingidos;

•          Fragmentação das famílias e das relações entre os membros da comunidade e marginalização dos atingidos;

•          Desigualdade nos critérios de negociação com ausência de tratamento isonômico, conforme critérios transparentes e coletivamente acordados;

•          Não cumprimento das condicionantes, sobretudo às de reestruturação fundiária e produtiva;

•          Embaraços e impedimentos à liberdade de expressão, reunião e associação, além de ameaças veladas por meio de perseguição de pesquisadores, movimentos sociais e atingidos com carros de segurança da Anglo American;

•          Inviabilização do uso dos cursos d’água por degradação provocada pelo empreendimento;

•          Interrupção de caminhos e, consequentemente, do direito de ir e vir;

•          Desrespeito ao modo de vida tradicional, à preservação dos bens culturais e sua reprodução;

•          Utilização de mão de obra em condição análoga à de escravo e tráfico de pessoas;

•          Degradação das condições de saúde, violação aos direitos dos idosos, de grupos vulneráveis e que necessitam de proteção especial.

A par desses problemas, conclamamos a todos os cidadãos, movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos humanos, sociais e ambientais a se unirem aos atingidos para denunciar as irregularidades do Projeto Minas-Rio da Anglo American e para exigir:

•          A fiscalização dos órgãos responsáveis pelo licenciamento ambiental – IBAMA, SEMAD, SUPRAM-Jequitinhonha, IGAM, CBH-Santo Antônio, com a participação dos atingidos e das instituições responsáveis pela fiscalização e promoção do bem comum – Ministério Público Federal e Estadual, Defensoria Pública, Polícia Ambiental.

•          A presença do Prefeito de Conceição do Mato Dentro em uma reunião com as comunidades socialmente atingidas para esclarecimentos sobre a postura da prefeitura em relação aos problemas, conflitos ambientais e o futuro das comunidades e distritos do entorno do empreendimento.

•          Audiência Pública da Câmara Municipal de Conceição do Mato Dentro como meio de dar visibilidade aos problemas e conflitos vivenciados pelas comunidades socialmente atingidas.

•          Audiência com o representante do Ministério Público Estadual para solicitar explicações e conhecer os encaminhamentos que foram realizados sobre as demandas apresentadas pelas comunidades durante as reuniões da REASA.

•          Que sejam cumpridas as definições do processo de trabalho da DIVERSUS, conforme metodologia aprovada na URC-Jequitinhonha, especificamente, no que se refere à realização da reunião geral com as comunidades para apresentação dos objetivos e critérios de ação.

•          Que seja respeitado o direito à melhoria contínua da vida.

São Sebastião do Bom Sucesso, 22 de fevereiro de 2014.

Comunidades Socialmente Atingidas.