Natal sem desmatamento: consumidores cobram marcas de moda sobre relação com desmatamento

Recentemente, centenas de empresas de moda foram ligadas à destruição da Amazônia por meio das cadeias de abastecimento de couro. Mesmo signatárias de acordos ambientais e climáticos, muitas delas não têm políticas para desmatamento zero em suas redes produtivas

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O Projeto de Lei nº 2.159/2021, conhecido como #PLdaBoiada, que visa regularizar o desmatamento no Brasil a partir do libera geral, é a mais recente tentativa de Jair Bolsonaro de destruir a Amazônia, os povos que ali residem bem como qualquer chance de alcançar as metas dos acordos climáticos. 

Centenas de marcas de moda conectadas ao desmatamento da Amazônia assumiram compromissos no combate às mudanças climáticas na COP 26 ao se tornarem signatárias, ou reforçarem seu compromisso com o Fashion Industry Charter for Climate Action (UNFCCC). No entanto, a ZERO marcas disponibiliza compromissos mensuráveis com o desmatamento zero conforme revelou o Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB), lançado pelo Instituto Fashion Revolution em novembro. Dados do Observatório do Clima mostram que o desmatamento é o principal vetor de emissões de gases de efeito estufa no Brasil (70%). 

Recentemente, uma pesquisa realizada pela Stand Earth, organização especializada em análise de cadeias de custódia, revelou que todas as marcas que se abastecem direta ou indiretamente da JBS para couro estão ligadas ao desmatamento da floresta tropical amazônica. As marcas com múltiplas conexões com fornecedores-compradores da JBS são as que possuem mais risco de terem produtos associados ao desmatamento. 

“As conclusões da pesquisa mostram que marcas de moda multinacionais, do fast fashion ao luxo, estão financiando, por meio de sua cadeia produtiva, o desmatamento da Amazônia. Ao mesmo tempo, mais de 200 pesquisadores revelaram durante a COP como a floresta está próxima de atingir um ponto de não retorno. O setor da moda é responsável por isso, mas não está comprometido em limpar sua rede produtiva”, afirma Marina Colerato, do Instituto Modefica, organização que atua por justiça socioambiental e climática, e que vem articulando no Brasil a campanha internacional #SupplyChange, com objetivo de exigir rastreabilidade das redes produtivas e metas mensuráveis para desmatamento zero por parte das corporações de moda. 

Quase 200 marcas pertencentes a 74 empresas foram mapeadas. 22 dessas 74 empresas (30%) estão potencialmente violando suas próprias políticas contra a utilização de couro proveniente de desmatamento. Os outros dois terços não possuem qualquer política a esse respeito. Estamos falando de marcas como Nike, Asics, Puma, H&M, Louis Vuitton, Tiffany & Co, Vans, Prada e muitas outras. 

Nome aos Bois 

Criada pela organização The Slow Factory, a campanha #SupplyChange tem como objetivo exigir comprometimento das marcas de moda multinacionais com o desmatamento zero em suas redes produtivas. O momento é crucial pois acontece em meio a tentativa de aprovação do PL 2.159/2021, cujo principal objetivo é facilitar e legalizar o desmatamento da floresta pelo agronegócio.  

Nas redes sociais, a campanha internacional chamou atenção para o papel de Rodrigo Pacheco nessa decisão, o que levou o político a desativar suas redes sociais. A pressão por meio das redes se estendeu para o Brasil, com objetivo de cobrar comprometimento com desmatamento zero hoje das marcas de moda que estão relacionadas ao desmatamento da floresta e são signatárias do Fashion Industry Charter for Climate Action. No Brasil, a ação retoma a #NomeAosBois, importante por relacionar as corporações com o desmatamento da floresta. Além de pressionar as marcas, a campanha sinaliza para a importância da articulação setorial para a não aprovação do PL, dado os interesses de preservação de imagem de marca.

“A aprovação do PL inundará as redes produtivas de matérias-primas oriundas do desmatamento. Isso compromete o ativo mais importante que as corporações têm hoje, a percepção pública da marca. Quando a CEO de uma corporação de moda senta para almoçar com o presidente do país, sua influência política deixa de ser segredo. A indústria da moda tem influência e, portanto, pode se articular para evitar o que será um completo desastre para nós e para a floresta”, finaliza Marina. 

Fonte: Relatório Stand Earth

Fonte: Modefica

Mais imagens com comentários dos consumidores no link: https://www.dropbox.com/sh/vngewa1fw9slatq/AAAZ7jNt8vVtcAHja__JGJ5za?dl=0

Para ver os materiais da campanha, acesse: https://modefi.co/insta-couro-desmatamento.

Para ver os materiais da pesquisa, acesse: https://www.stand.earth/publication/forest-conservation/amazon-forest-protection/amazon-leather-supply-chain 

Para mais informações da campanha, entre em contato com: contato@modefica.com.br.

Para informações da pesquisa, entre em contato com: SRG@stand.earth.  

Contato para imprensa:redacao@modefica.com.br

Sobre o Modefica

O Modefica é uma mídia independente criada em 2016, fundada por Marina Colerato, com objetivo de fomentar o debate e o entendimento sobre sustentabilidade de forma ampla e radical, usando o jornalismo como ferramenta de transformação. Produz reportagens, matérias, opinativos e pesquisas sobre questões ambientais, climáticas e sociais, além de podcasts e conteúdo multimídia.

 

Livro de Yamê Reis revela como o agronegócio do algodão se apropriou do discurso da sustentabilidade para se esverdejar

Acabo de receber de forma de um gentil presente de sua autora, Yamê Reis, o livro intitulado “O agronegócio do algodão” que foi publicado pela editora “Livros Ilimitados”. O trabalho aborda de forma meticulosa a produção do algodão em grandes áreas de monocultura no Brasil, e as implicações socioambientais que cercam o avanço desta cultura sobre áreas anteriormente ocupados pelo Cerrado, incluindo o uso intensivo de agrotóxicos.

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Um aspecto que merece atenção do trabalho de Yamê Reis tem a ver com a análise que ela faz sobre a apropriação do discurso da sustentabilidade pelo agronegócio cotonicultor para, em que pesem todas as agressões ambientais que acompanharam a transformação do Brasil em um dos maiores produtores mundiais de algodão, formar uma imagem relativamente benigna. Essa imagem supostamente benigna seria então utilizada para isentar as grandes marcas de vestuário para também se apropriar do discurso da sustentabilidade.

Entretanto, com dados empíricos e com uma análise teórica bem definida, o que Yamê Reis demonstra é que a supostamente adesão ao conceito de sustentabilidade por parte do setor cotonicultor não resiste a um exame mínimo das práticas que poderiam ser consideradas como sustentáveis, a começar pelo compromisso de que o monocultivo de algodão não seja causador de desmatamento de vegetação nativa, como no caso do Cerrado.

É interessante notar que este livro é fruto do trabalho que Yamê Reis desenvolveu no âmbito de Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), onde a autora concluiu sua dissertação de mestrado. Yamê Reis também é uma das fundadoras do “Rio Ethical Fashion que, inclusive, terá sua terceira edição em 2022, para discutir o estabelecimento de formas mais éticas de convívio com a Terra e as pessoas.

Quem desejar adquirir uma cópia do “Agronegócio do algodão”, basta clicar [Aqui!].

 

75 horas de trabalho semanal na Shein: Public Eye olha por trás da fachada chamativa da gigante da moda online chinesa

A marca de moda jovem mais descolada de hoje está crescendo rapidamente – e sua receita de sucesso baseada na Internet é ultrassecreta. Ainda assim, pesquisadores chineses trabalhando em nome da Public Eye conseguiram visitar alguns dos fornecedores de Shein em Guangzhou, onde as condições de produção violam várias leis trabalhistas estaduais. Nossa viagem dentro do líder da moda ultra-rápida também nos leva ao centro de logística europeu na Bélgica, onde as precárias condições de trabalho também são uma ocorrência diária.

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Bem-vindo à maior empresa têxtil da qual você nunca ouviu falar. A geração TikTok, no entanto, há muito associa Shein a uma ampla gama de roupas da moda a preços mais baixos, que são comercializadas agressivamente nas redes sociais e fazem com que as principais marcas, como H&M ou Zara, pareçam antiquadas. Nos Estados Unidos, na primavera de 2021, o aplicativo Shein era baixado com mais frequência do que o da Amazon. A estrela em ascensão conseguiu alcançar a H&M e a controladora da Zara, Inditex, também em termos de receita, mas devido ao modelo de negócios de entrega direta, não há números confiáveis ​​sobre participação de mercado ou lucro. Com um ciclo de produção de três a quatro semanas, a Zara até hoje é sinônimo de fast fashion. Shein pode supostamente produzir um vestido em uma semana – do design à embalagem. Public Eye decidiu descobrir quem está pagando o preço por este super barato,

Os pesquisadores, que devem permanecer anônimos por razões de segurança, lançam luz sobre o outro lado do mundo chamativo da Shein.Eles viajaram pelas ruas estreitas da megacidade de Guangzhou, onde a Shein está sediada e onde seus fornecedores mais importantes estão localizados. Os pesquisadores localizaram 17 das 1.000 empresas que produzem para Shein, incluindo várias oficinas informais sem saídas de emergência e com janelas gradeadas que teriam implicações fatais em caso de incêndio. Os funcionários, que sem exceção vêm de diferentes províncias chinesas, trabalham de 11 a 12 horas por dia e têm apenas um dia de folga por mês. Isso significa 75 horas de trabalho por semana, o que viola não apenas o Código de Conduta do Fornecedor da Shein, mas a lei trabalhista chinesa, em vários aspectos. Quem estiver disposto a trabalhar na prática em dois empregos – e o que é pior, sem um contrato ou prêmio por horas extras – não ganhará mais de 10.000 Yuan (R$ 8.800,00), mesmo em bons meses.

Condições semelhantes prevalecem no enorme armazém principal de Shein, localizado a uma hora de carro de Guangzhou.  A empresa emprega mais de 10.000 pessoas e opera 24 horas por dia, 7 dias por semana. Dias de trabalho de 12 horas são uma prática comum. Os funcionários também reclamam desses “padrões chineses” no centro de logística em Liège, na Bélgica , onde devoluções europeias eram processadas até recentemente e onde vimos a situação por nós mesmos. A causa mais frequente de demissão é o incumprimento de metas de desempenho irrealistas, que têm de ser alcançadas para receber o salário de 12,63 euros por hora. Até junho, 30.000 devoluções – incluindo da Suíça – foram reembaladas aqui diariamente. Desde então, os pacotes provavelmente estão fazendo a jornada completa de volta à China. A Public Eye também examinou a complexa estrutura corporativa do novo império da moda. Encontramos muitas entidades offshore para disfarçar a propriedade e evitar impostos, o que também parece ser uma prática comum na China.

O modelo de negócios da Shein é configurado para controlar o máximo possível da cadeia de valor, assumindo o mínimo de responsabilidade possível. Por meio de sua combinação de uma estratégia online de ponta e horários de trabalho arcaicos, a recém-chegada chinesa está aperfeiçoando a indústria da moda rápida de uma maneira particularmente insidiosa. Ao fazer isso, está levando a tradição do setor de evitar responsabilidades a outro nível. O único meio de contrariar esse desenvolvimento é impor uma exigência de transparência em relação às cadeias de abastecimento e introduzir diretrizes políticas sobre responsabilidade corporativa. Cabe ao Conselho Federal Suíço e às associações industriais atuar nesse sentido.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela “Public Eye” [Aqui!].