Do Brasil à Grã-Bretanha: o custo oculto da soja e da carne bovina na destruição do Cerrado

Frequentemente negligenciado nos debates globais sobre conservação, o Cerrado brasileiro está sendo rapidamente transformado pela agricultura industrial, com o comércio com o Reino Unido desempenhando um papel direto na perda de sistemas hídricos, biodiversidade e estabilidade climática

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Com o aumento da demanda global por commodities, o Cerrado brasileiro está desaparecendo em um ritmo alarmante, com consequências que vão muito além da América do Sul. Essa extensa área mista de campos, savanas e florestas desempenha um papel fundamental nos sistemas hídricos e no clima da América do Sul, mas é um dos ecossistemas mais ameaçados do continente

A destruição do Cerrado chega ao Reino Unido através dos alimentos que consumimos, transformando uma crise regional em uma responsabilidade compartilhada com consequências globais.

Uma revisão científica publicada na revista Nature Conservation constatou que mais da metade da vegetação nativa do Cerrado desapareceu, principalmente nas últimas cinco décadas. Isso corresponde a aproximadamente 1.000.000 quilômetros quadrados, uma área maior que a França e a Alemanha juntas, agora substituída por terras agrícolas, pastagens e cidades em expansão.

Frequentemente descrito como o motor hidrológico do Brasil, o Cerrado alimenta oito das doze principais bacias hidrográficas do país. Sua contínua degradação ameaça a segurança hídrica muito além de suas fronteiras, com consequências sentidas em grande parte da América do Sul.

Segundo Cássio Cardoso Pereira, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e principal autor da revisão, os danos ecológicos vão muito além da perda de habitat:

A consequência mais urgente é a ruptura do papel do Cerrado como regulador hídrico continental.

A perda da vegetação nativa reduz a recarga dos aquíferos, seca rios que abastecem importantes bacias hidrográficas na América do Sul e agrava secas e ondas de calor extremas.

Ao mesmo tempo, estamos perdendo biodiversidade única e enormes reservas subterrâneas de carbono, o que torna essa destruição uma ameaça direta tanto para as espécies quanto para a estabilidade climática.

O Cerrado é o segundo maior ecossistema da América do Sul, depois da Amazônia, ocupando 23% da superfície do Brasil.

Os autores da revisão usam o termo “Ecodomínio” para se referir a grandes áreas ecológicas que incluem múltiplos ecossistemas, biomas e ecorregiões. O termo descreve essas regiões como existiam em sua extensão original, independentemente de seu estado atual de conservação.

Soja e carne bovina

A destruição do Cerrado não é impulsionada apenas pelo Brasil; está intimamente ligada à demanda global por soja e carne bovina, commodities que vinculam essa paisagem diretamente ao sistema alimentar e à pegada climática do Reino Unido.

A agricultura industrial é responsável por grande parte dessa perda. Desde o início do monitoramento por satélite em 2001, mais de 326.000 quilômetros quadrados do Cerrado foram desmatados, às vezes em ritmo mais acelerado do que até mesmo na Amazônia.

As plantações de soja e as fazendas de gado dominam hoje grandes áreas que antes abrigavam uma biodiversidade extraordinária. Essas paisagens, em sua maioria monoculturas, dependem de máquinas pesadas, fertilizantes e agrotóxicos, deixando pouco espaço para a recuperação dos ecossistemas.

O estudo destaca a região do MATOPIBA, que abrange os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, como um ponto focal das recentes mudanças no uso da terra, onde a expansão agrícola continua a avançar sobre a vegetação nativa remanescente.

O desmatamento está remodelando o clima do Cerrado: a estação chuvosa agora chega cerca de um mês mais tarde, a precipitação total diminuiu e as temperaturas diurnas subiram aproximadamente 1,5 ° C.

Com a chuva cada vez menos previsível, a agricultura torna-se cada vez mais dependente da irrigação. Isso cria um ciclo vicioso perigoso, acelerando o esgotamento dos recursos hídricos e aprofundando a degradação ecológica em toda a região.

Grande parte do carbono do Cerrado está armazenado no subsolo, aprisionado em raízes que podem atingir mais de 15 metros de profundidade. Essa “floresta invertida” ajuda as plantas a suportarem longos períodos de seca, enquanto silenciosamente reabastece os aquíferos.

Quando a vegetação nativa é desmatada, o carbono armazenado por longos períodos é liberado. Paisagens que antes absorviam emissões se transformam em fontes de gases de efeito estufa, intensificando as pressões climáticas que já afetam a região.

Colapso ecológico

O Cerrado desempenha um papel central no sistema hídrico brasileiro. Ele dá origem a oito bacias hidrográficas e se situa sobre três imensos aquíferos que armazenam vastas reservas de água doce. A crescente demanda da agricultura industrial, da geração de energia hidrelétrica e da expansão urbana está submetendo esses sistemas a uma pressão implacável.

A extração de água em larga escala, combinada com o uso generalizado de agrotóxicos, está contaminando solos e cursos d’água, além de esgotar as reservas subterrâneas. Os rios estão diminuindo, os ecossistemas estão se desestabilizando e a biodiversidade está declinando à medida que os sistemas hídricos perdem sua resiliência.

O desenvolvimento da energia hidrelétrica acelerou os danos. As barragens fragmentam os rios, interrompem os fluxos naturais e bloqueiam as rotas de migração dos peixes, das quais dependem tanto a vida selvagem quanto as comunidades locais. Com o tempo, essas mudanças estão remodelando fundamentalmente sistemas fluviais inteiros.

O estudo também documenta a extensa degradação causada pelo fogo, que muitas vezes não é contabilizada nos números oficiais de desmatamento. Incêndios naturais no Cerrado são raros, geralmente provocados por raios, mas estima-se que 99% dos incêndios no Brasil sejam causados ​​por atividades humanas ligadas ao desmatamento e à expansão agrícola.

Entre 1985 e 2022, cerca de 40% do Cerrado foi queimado pelo menos uma vez. Quase dois terços dessa área queimaram repetidamente, matando espécies sensíveis ao fogo e favorecendo o crescimento de gramíneas invasoras que aprisionam as paisagens em ciclos de degradação.

O Ecodomínio abriga cerca de 13.000 espécies de plantas, mais de 3.200 vertebrados e dezenas de milhares de invertebrados. Aproximadamente um terço de sua flora é endêmica, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar da Terra.

No entanto, apenas uma pequena parte do Cerrado está estritamente protegida. Muitas espécies ameaçadas, particularmente plantas e insetos, permanecem mal avaliadas e politicamente negligenciadas. Ecossistemas com menor cobertura arbórea, como os campos, continuam sendo subvalorizados apesar de sua imensa importância ecológica.

Não se trata apenas de proteger espécies ameaçadas. Cerca de 80 povos indígenas vivem em mais de 200 territórios reconhecidos no Cerrado, muitos deles salvaguardando os últimos trechos de vegetação intacta da região.

Por gerações, essas comunidades cuidaram da terra, guiando rios, protegendo a vida selvagem e mantendo as paisagens resilientes. Muitos territórios permanecem apenas parcialmente reconhecidos pela lei, deixando tanto as pessoas quanto os ecossistemas expostos às crescentes pressões da agricultura e do desmatamento.

Rodolfo Salm, ecologista, ativista, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos autores da revisão, afirma que as lacunas legais atuais têm raízes em uma longa história de desapropriação, agora reforçada por novas leis:

Durante grande parte da história do Cerrado, os povos indígenas foram progressivamente expulsos de seus territórios, primeiro pela pecuária, depois pela produção de grãos em larga escala. Esse processo se acelerou com a mudança da capital do Brasil para Brasília e se intensificou sob a ditadura militar das décadas de 1960 e 70.

Hoje, a recém-aprovada Lei do Marco Temporal , que restringe o direito ao reconhecimento legal de um território indígena às áreas que eram efetivamente ocupadas por povos indígenas na época da Constituição de 1988, combinada com complexas barreiras legais e burocráticas, tornou o reconhecimento de novas terras indígenas no Cerrado praticamente impossível.

Isso representa um duro golpe para a biodiversidade, pois os territórios indígenas estão entre as áreas mais eficazes e confiáveis ​​para a proteção dos ecossistemas.

A participação do Reino Unido no Cerrado

Muitas pessoas no Reino Unido ficariam surpresas ao saber o quão intimamente suas dietas estão ligadas a essa paisagem distante.

A Grã-Bretanha importa milhões de toneladas de soja por ano, a maior parte destinada à alimentação animal. Cerca de 90% é direcionada à pecuária, principalmente aves e suínos, o que liga diretamente a destruição do Cerrado à cadeia de abastecimento de carne.

Somos profundamente dependentes do resto do mundo, importando cerca de 40 a 50% dos nossos alimentos. E grande parte disso provém de regiões que também estão sendo duramente atingidas pelos impactos climáticos de que temos falado, disse o Professor Paul Behrens na Reunião Informativa Nacional de Emergência em Londres, em novembro passado.

Investigações da ONG Mighty Earth mostram que os principais comerciantes globais que abastecem os mercados do Reino Unido e da Europa continuam a obter soja de áreas ligadas à destruição do Cerrado, apesar dos repetidos compromissos públicos com a sustentabilidade.

A Mighty Earth também alertou que as regras de due diligence pouco rigorosas do Reino Unido podem transformar a Grã-Bretanha em um depósito de soja e carne bovina ligadas ao desmatamento, à medida que as empresas desviam o fornecimento de alto risco de mercados mais rigorosamente regulamentados.

Apesar das promessas do governo, as importações britânicas de soja e carne bovina continuam a impulsionar a destruição do Cerrado por meio das cadeias de suprimento de ração animal.

Philip Fearnside, professor pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e um dos autores da revisão, explica por que os compromissos voluntários e os códigos de sustentabilidade não atingiram seus objetivos, destacando os impactos indiretos negligenciados da produção de commodities:

A maior parte da expansão da soja na Amazônia e no Cerrado ocorre não por meio do desmatamento direto, mas pela conversão de pastagens de gado em plantações de soja. Essa transformação geralmente resulta da venda de terras por pecuaristas para plantadores de soja, em vez da conversão deles próprios para o cultivo da soja.

Como as terras adequadas para o cultivo de soja têm preços elevados, os pecuaristas frequentemente usam o dinheiro para comprar extensões muito maiores e mais baratas de floresta tropical no interior da Amazônia, o que indiretamente impulsiona ainda mais o desmatamento. Esses impactos indiretos escaparam, em grande parte, de todos os sistemas de monitoramento e certificação existentes.

O Reino Unido pode estabelecer regras juridicamente vinculativas para empresas fornecedoras de produtos como a soja, exigindo que elas prestem contas dos impactos ambientais diretos e indiretos. Ao monitorar esses efeitos combinados, o Reino Unido poderia evitar o fornecimento de soja associada ao desmatamento generalizado tanto no Cerrado quanto na Amazônia.

O Regulamento de Produtos Florestais de Risco do Reino Unido (UKFRC, na sigla em inglês), previsto na Lei Ambiental de 2021, ainda não entrou em vigor. E como a lei visa apenas o desmatamento ilegal, vastas áreas de terra que foram legalmente convertidas, mas que ainda assim estão destruindo habitats únicos, permanecem desprotegidas.

Grande parte desses danos permanece invisível. A soja necessária para a alimentação animal é uma “pegada fantasma”, invisível nos rótulos, mas muito real em termos climáticos e ecológicos.

Pereira afirma que os responsáveis ​​pela destruição do Cerrado são bem conhecidos e, em grande parte, tolerados:

A rápida destruição do Cerrado é impulsionada principalmente pela expansão do agronegócio, especialmente o cultivo de soja e a pecuária, facilitada por políticas permissivas de uso da terra e fiscalização deficiente.

Diferentemente da Amazônia, a maior parte do desmatamento no Cerrado ainda é legalmente permitida, o que protege corporações e cadeias de suprimentos da fiscalização. A responsabilização internacional falhou porque as estruturas globais de clima e biodiversidade negligenciam amplamente os campos e savanas, tratando-os como paisagens descartáveis ​​em vez de ecossistemas críticos.

Um aviso e uma escolha

Segundo o relatório da Nature Conservation, o Cerrado está sendo levado ao colapso.

Fearnside alerta que a destruição contínua do Cerrado não é apenas uma crise regional, mas um risco global, que acelera as alterações climáticas e prejudica os sistemas hídricos, a biodiversidade e as comunidades que deles dependem:

A perda do Cerrado contribui diretamente para o aquecimento global e para a interrupção do ciclo da água, assim como o desmatamento da Amazônia. Juntos, esses processos destroem a biodiversidade e as sociedades humanas que dependem da vegetação nativa.

As práticas atuais estão levando o clima global a pontos de inflexão que, se ultrapassados, seriam devastadores não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Evitar esse desfecho exige mais do que apenas proteger as florestas: significa acabar com o desmatamento do Cerrado e da Amazônia e interromper rapidamente o uso de combustíveis fósseis.

Para o Reino Unido, o Cerrado não é um problema distante. Seu destino está diretamente ligado às nossas importações, dietas e escolhas diárias. A responsabilidade climática começa muito antes da linha costeira, em nossas cozinhas, em nossos pratos e por meio das escolhas que fazemos todos os dias.

Imagem em destaque: O primeiro-ministro Sir Keir Starmer (à esquerda) reunindo-se com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, para um encontro bilateral em Nova York, antes de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Alamy/Leon Neal


Fonte: Your Voiz

Do Tâmisa ao Brasil: água à venda

Rios poluídos, ecossistemas em colapso e comunidades abandonadas para arcar com as consequências: o sistema de água privatizado da Grã-Bretanha normalizou os danos ambientais no país. Agora, o mesmo modelo está sendo exportado para o Brasil, onde seus impactos podem ser ainda mais difíceis de reverter

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

No Reino Unido, a visão de esgoto bruto sendo despejado em rios tornou-se perturbadoramente comum. O que antes causava indignação agora é apenas ruído de fundo. A cada ano surgem novos dados , novos pedidos de desculpas das empresas de água e novas multas dos órgãos reguladores. Os rios continuam poluídos, a vida selvagem está diminuindo e as comunidades são deixadas para conviver com as consequências.

Após mais de três décadas de privatização da água, o padrão é claro. As contas das famílias continuam subindo, o investimento a longo prazo diminuiu, a dívida corporativa disparou e os danos ambientais se tornaram rotina. A regulamentação existe em grande parte no papel, intervindo apenas depois que o dano já foi causado.

Isso é importante porque o modelo falho de gestão da água no Reino Unido não está mais restrito às suas fronteiras. Agora, ele está sendo exportado para países como o Brasil . Lá, os danos podem ser mais profundos, duradouros e muito mais difíceis de combater e reverter.

Político

A crise de saneamento básico no Brasil é frequentemente atribuída à geografia ou à falta de desenvolvimento, mas isso é enganoso, já que o país é um dos mais ricos em água do planeta. O problema não é a escassez, mas sim as decisões políticas sobre quem controla a água e a quem ela deve servir.

Apesar de possuir uma das maiores reservas de água doce do mundo, mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso a tratamento adequado de esgoto.

Livi Gerbase, pesquisadora do Centro de Pesquisa e Responsabilidade Tributária Corporativa Internacional (CICTAR) para a América Latina e o Caribe, destaca o acesso à água e ao saneamento como uma das expressões mais evidentes da desigualdade no Brasil:

O acesso à água e ao saneamento é um dos indicadores mais fortes de desigualdade no Brasil. Cerca de 40% da população ainda não tem acesso a sistemas adequados de água e saneamento, principalmente em áreas rurais e nas regiões Norte e Nordeste, onde vivem as comunidades mais vulneráveis.

Essas falhas afetam desproporcionalmente as comunidades mais pobres, racializadas e rurais, particularmente no Norte e Nordeste do país. Isso é injustiça ambiental, não falha técnica.

Esses resultados refletem escolhas políticas sobre propriedade, financiamento e regulamentação, espelhando o caminho trilhado pelo Reino Unido no final da década de 1980, quando a água foi retirada do controle público e redefinida como um serviço comercial em vez de um recurso compartilhado.

A água como um recurso

Em 2020 , o Brasil aprovou o Novo Marco Legal do Saneamento, que promete saneamento básico e abastecimento de água quase universais até 2033.

Segundo análise da CICTAR e do Sindicato dos Trabalhadores de Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado da Bahia, SINDAE, esse método era conhecido: privatização, financiamento privado e proteções destinadas a tranquilizar os investidores.

No Brasil, os municípios foram incentivados a leiloar os serviços de água e esgoto por meio de concessões com duração de até 35 anos. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desempenha um papel central, estruturando os acordos e absorvendo os riscos. Pelo menos 67 novos projetos de saneamento estão em andamento, muitos deles estruturados explicitamente para atrair capital internacional .

O modelo de financiamento espelha o acordo adotado pelo Reino Unido após 1989. A infraestrutura não é mais financiada principalmente por meio de investimento público, mas sim por meio de dívida (empréstimos). No Brasil, o principal instrumento são as debêntures incentivadas, títulos isentos de impostos vendidos a investidores, que se assemelham às estruturas com alta carga de títulos utilizadas pelas empresas de água britânicas após a privatização.

Gerbase descreve como as reformas sanitárias de 2020 no Brasil aceleraram a privatização e transferiram o risco financeiro para o setor público:

Após as reformas sanitárias de 2020, a privatização acelerou e investidores internacionais entraram no mercado. As debêntures incentivadas tornaram-se uma ferramenta fundamental, permitindo que as empresas captassem grandes somas rapidamente, enquanto o custo real era arcado pelo setor público, e não pelas empresas ou autoridades locais.

Entre 2017 e 2024, quase R$ 40 bilhões (£ 5,5 bilhões) foram captados por meio desses instrumentos no setor de saneamento do Brasil. Mais da metade desse dinheiro não foi usada para melhorar a infraestrutura, mas sim para pagar taxas de concessão para refinanciar dívidas. Isso reflete de perto a experiência do Reino Unido, onde os empréstimos têm sido usados ​​para sustentar os balanços corporativos em vez de modernizar sistemas deteriorados.

A Gerbase salienta que a utilização de obrigações incentivadas é uma escolha política que poderia ser revertida através de alterações regulamentares:

Todas as obrigações incentivadas devem ser aprovadas pelo governo, e já existem regras que definem quais projetos se qualificam para o benefício fiscal. Por meio de um decreto executivo que altere a regulamentação do incentivo, seria possível impedir que fundos públicos sejam usados ​​para subsidiar privatizações em vez de infraestrutura.

BRK e Thames Water

Uma investigação detalhada do CICTAR identifica o paralelo mais forte com o Reino Unido no caso da BRK Ambiental, a maior operadora de saneamento do Brasil, controlada pela gestora de ativos canadense Brooksfield, uma importante empresa no setor de infraestrutura privatizada da Grã-Bretanha e presença conhecida no setor de água do Reino Unido.

No Brasil, a BRK opera em mais de 100 municípios e expandiu-se rapidamente por meio de aquisições financiadas por dívida. A empresa captou mais de R$ 12 bilhões (£ 1,6 bilhão) em dívidas, gerando pagamentos de juros substanciais, enquanto as tarifas médias aumentaram mais de 70% entre 2017 e 2024, muito acima dos níveis de inflação.

Gerbase explica como os modelos de concessão financeirizados limitam o investimento real, deixando as comunidades mais pobres com alternativas inadequadas:

Essas populações não estão completamente sem soluções, mas alternativas como fossas sépticas só são acessíveis a pessoas com recursos financeiros para construí-las. Quando as empresas gastam grandes somas em taxas de concessão e dívidas, sobra muito pouco para expandir e melhorar a infraestrutura. É exatamente isso que o modelo BRK demonstra.

Para as famílias do Reino Unido atendidas pela Thames Water, essa história é bem conhecida. Contas crescentes vêm acompanhadas de dívidas cada vez maiores, enquanto o desempenho ambiental piora e as melhorias prometidas não se concretizam.

A Thames Water atende aproximadamente um quarto da população. Desde a privatização, as contas das famílias aumentaram cerca de 40% em termos reais, enquanto o investimento caiu cerca de 15%. Os vazamentos continuam generalizados e os rios são rotineiramente poluídos com esgoto não tratado.

As falhas da Thames Water não são um caso isolado. Este mês, a South East Water deixou pelo menos 30.000 residências sem água corrente por vários dias, expondo a fragilidade de um sistema moldado pela fragmentação da propriedade e da financeirização.

A South East Water é propriedade conjunta de um fundo de infraestrutura australiano, uma empresa canadense de private equity e o fundo de pensão NatWest, o que evidencia como os serviços essenciais são cada vez mais geridos por investidores distantes, sem qualquer interesse real nas localidades afetadas por falhas.

Regulamento

Apesar das falhas ambientais, a Thames Water acumulou dezenas de bilhões de libras em dívidas, grande parte das quais foi usada para financiar pagamentos aos acionistas.

Em 2023, a empresa foi multada em £122,7 milhões por violações ambientais e agora sobrevive graças a uma intervenção regulatória de emergência.

O Brasil está caminhando na mesma direção, mas com instituições regulatórias mais frágeis e desigualdades mais acentuadas.

A CICTAR registra que subsidiárias da BRK foram multadas em quase R$ 50 milhões (£ 6,9 milhões) por violações ambientais, incluindo despejo de esgoto e descumprimento de contratos. As reclamações sobre a qualidade da água, faturamento e interrupções no fornecimento são generalizadas.

Gerbase argumenta que a regulamentação no Brasil tende a intervir somente depois que o dano já ocorreu, oferecendo pouca responsabilização durante longos períodos de concessão:

A regulamentação não é muito eficaz. O que geralmente acontece é que os problemas se agravam até que as multas e sanções já não consigam alterar o comportamento da empresa. O momento mais crítico para a responsabilização surge quando uma concessão termina e o processo recomeça, pois o escrutínio público aumenta. Mas, no caso da BRK, a maioria das concessões ainda tem muitos anos de vigência.

Assim como no Reino Unido, a regulamentação é lenta e fragmentada. Contratos de longo prazo limitam a supervisão pública, enquanto líderes políticos relutam em desafiar operadores privados poderosos. Inquéritos parlamentares em estados brasileiros como o Tocantins suscitaram preocupações sobre a responsabilização, ecoando debates já conhecidos na Grã-Bretanha.

Evidências de pesquisas enfraquecem os argumentos a favor da privatização. Um estudo comparativo publicado na revista Frontiers in Water constatou que os provedores públicos de saneamento no Brasil frequentemente superam os privados em eficiência, qualidade do serviço e equidade, contestando diretamente a alegação de que a propriedade privada proporciona melhores resultados.

Falha na exportação

Esta é fundamentalmente uma questão de justiça ambiental. As Nações Unidas reconhecem o acesso à água e ao saneamento como direitos humanos, contudo, os sistemas privatizados atribuem esse acesso de acordo com a rentabilidade, e não com a necessidade social.

Tanto no Brasil quanto no Reino Unido, as mesmas comunidades pagam o preço mais alto. As áreas mais pobres enfrentam contas mais elevadas, serviços piores e maior exposição à poluição.

Municípios menores no Brasil, assim como áreas carentes no Reino Unido, são menos atraentes para investidores porque os retornos são mais lentos e os riscos maiores.

Há relatos de que a Brooksfield está se preparando para vender a BRK Ambiental, considerando-a um ativo consolidado. Se a experiência do Reino Unido servir de parâmetro, o provável legado será uma operadora altamente endividada com capacidade limitada de investimento, enquanto as comunidades permanecerão presas a contratos de longo prazo que não foram elaborados por elas.

Para os leitores do Reino Unido, a lição é clara. A crise hídrica britânica não é uma exceção, mas sim um padrão. Do Tâmisa ao Brasil, a mesma lógica financeira produz os mesmos resultados: rios poluídos , contas cada vez mais caras, menor responsabilização e desigualdade crescente.

O Reino Unido é um grande exemplo de como as coisas podem dar errado. Nossa pesquisa mostra que o Brasil está caminhando na mesma direção, mesmo que ainda não tenha entrado em colapso total, conclui Gerbase.

Justiça ambiental significa reconstruir o controle público, priorizar a recuperação ecológica e medir o sucesso em termos de rios limpos, saúde pública e dignidade, e não em retornos para investidores e estratégias de saída.

O Brasil está sendo iludido com as mesmas promessas que a Grã-Bretanha ouviu há mais de 30 anos. No Reino Unido, o resultado já é visível em rios poluídos e infraestrutura precária. Só isso já deveria nos deixar profundamente céticos quanto ao tratamento da água, em qualquer lugar, como apenas mais um recurso.


Fonte: Your Voiz

A era dos fungos

Por Monica Piccnini para “The Ecologist” 

Profissionais de saúde e acompanhantes de pacientes na enfermaria oncologista do Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, começaram a relatar doenças respiratórias em outubro de 2025: tosse, febre, fadiga, falta de ar.

Tratamentos que normalmente funcionavam falhavam, e a recuperação era lenta ou ausente. À medida que mais pessoas adoeciam, ficou claro que o problema não era individual, algo circulava pelo próprio hospital.

Após semanas de investigação, as autoridades estaduais de saúde confirmaram 33 casos de histoplasmose, uma infecção causada pelo fungo Histoplasma capsulatum. O organismo, comumente encontrado em solo enriquecido com fezes de aves e morcegos, havia entrado em um ambiente clínico considerado selado contra exposição ecológica.

Ecossistemas

Isso não foi só uma falha de higiene. Era um sinal de mudança ambiental que chegava a lugares feitos para mantê-las afastadas. Era um organismo mais antigo que a própria humanidade, um que aprendeu a sobreviver em um mundo que estamos mudando rapidamente, superaquecendo.

“Esse fungo faz parte do meio ambiente”, disse Tyago Hoffmann, secretário de saúde do Espírito Santo. “Mas a exposição ambiental pode alcançar lugares que acreditamos serem controlados.”

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Os fungos são essenciais para a vida em terra. Eles decompõem matéria orgânica, ciclam nutrientes e sustentam os ecossistemas vegetais. Sem eles, os solos falhariam e as florestas desavariam. Ainda assim, eles continuam entre os organismos menos estudados e menos compreendidos da Terra.

Cientistas estimam que pode haver entre 1,5 e 3,8 milhões de espécies fúngicas e menos de 10% já foram formalmente descritas. Ainda menos são estudados quanto ao seu impacto na saúde humana.

Floreio

O que está mudando não é o comportamento fúngico, mas as condições ecológicas que antes o limitavam. A mudança climática não cria doenças fúngicas do nada. Ela remodela as condições em que os fungos vivem, se espalham e persistem.

Historicamente, essa lacuna de conhecimento não foi particularmente perigosa, pois nossos corpos foram protegidos pelo calor. A temperatura média humana, em torno de 37 graus centígrados, cria uma barreira biológica natural, que a maioria dos fungos simplesmente não conseguiria sobreviver.

À medida que a temperatura global sobe, essa barreira está enfraquecendo. Os fungos estão se adaptando, espécies antes restritas a ambientes mais frios agora evoluem para tolerar calor mais alto. Alguns agora são capazes de sobreviver em temperaturas mais próximas às do corpo humano.

“Patógenos fúngicos representam uma séria ameaça à saúde humana”, disse Viv Goosens, do Wellcome Trust. “As mudanças climáticas vão agravar esses riscos.”

Temperaturas mais quentes expandem a área geográfica de muitas espécies. Por exemplo, mudanças na chuva alteram a umidade do solo, ajudando os fungos a prosperar em lugares onde antes não podiam. Enchentes transportam esporos através das paisagens, e secas secam o solo, permitindo que partículas microscópicas entrem em edifícios que nunca foram projetados para mantê-los afastados.

O surto não foi uma anomalia; era um aviso.

Surgimento

Os fungos são excepcionalmente bons sobreviventes, pois seus esporos são leves, duráveis e capazes de viajar longas distâncias. Em um clima desestabilizado, essas características de sobrevivência tornam-se um risco à saúde pública.

Pesquisadores médicos reconhecem cada vez mais a mudança climática como um fator que impulsiona o surgimento de doenças fúngicas. Uma revisão publicada na Therapeutic Advances in Infectious Disease alerta que o aumento das temperaturas e a perturbação ecológica estão redesenhando o mapa global das doenças.

Já vimos como isso se manifesta com Candida auris. Identificado pela primeira vez em 2009, o fungo multirresistente a medicamentos foi detectado em hospitais de mais de 50 países em seis continentes.

Muitos pesquisadores acreditam que o aumento das temperaturas ambientais pode ter ajudado a superar as barreiras térmicas que antes impediam os fungos de infectar os humanos.

O Dr. Norman van Rhijn, da Universidade de Manchester, disse: “Já vimos o surgimento do fungo Candida auris devido ao aumento das temperaturas, mas, até agora, tínhamos pouca informação sobre como outros fungos poderiam responder a essa mudança no ambiente.

Vulnerável

“Os fungos são relativamente pouco pesquisados em comparação com vírus e parasitas, mas esses mapas mostram que patógenos fúngicos provavelmente impactarão a maioria das regiões do mundo no futuro.”

Histoplasma capsulatum está presente há muito tempo em toda a América. A infecção ocorre quando esporos são inalados, muitas vezes após o solo ser perturbado por obras, vento ou mudanças na ventilação.

Em Vitória, os investigadores acreditam que esporos entraram no Hospital Santa Rita de Cássia através do sistema de ar-condicionado ou de outras vulnerabilidades estruturais. Uma vez dentro, encontraram pessoas menos capazes de resistir à infecção: pacientes imunocomprometidos com câncer e profissionais de saúde sobrecarregados.

A histoplasmose frequentemente se assemelha à gripe ou pneumonia, atrasando o diagnóstico. Em indivíduos saudáveis, pode se resolver sem tratamento, mas em pessoas vulneráveis, pode se espalhar além dos pulmões e se tornar fatal.

Resistência

Padrões semelhantes estão surgindo em outros lugares. Doenças fúngicas estão surgindo em novas regiões, ligadas ao aumento das temperaturas, perturbações ecológicas e infraestrutura falhante.

Os mais expostos raramente são os mais responsáveis. Profissionais de saúde, faxineiros, funcionários juniores e acompanhantes de pacientes são frequentemente os primeiros afetados e os últimos protegidos. Muitos vivem em bairros mais quentes, dependem de sistemas públicos de saúde subfinanciados e não têm acesso a diagnóstico precoce ou licença remunerada.

As comunidades menos responsáveis pelas emissões de combustíveis fósseis estão sendo forçadas a aceitar as consequências primeiro. Isso é injustiça climática, acontecendo no nível microbiano.

Apesar das evidências crescentes de risco, a doença fúngica permanece negligenciada. Existem poucos antifúngicos, resistência crescente e vigilância limitada. O financiamento para pesquisa e a atenção política continuam mínimos, especialmente quando comparados às ameaças virais que afetam populações mais ricas.

Isolado

O surto no Hospital Santa Rita de Cássia não é apenas uma história médica – é uma história ecológica. Isso mostra como a perturbação ambiental não fica fora dos muros do hospital. Ele entra nos edifícios por meio de sistemas de ar, fraquezas da infraestrutura e suposições de separação entre a saúde humana e o mundo natural.

As mudanças climáticas são frequentemente discutidas em termos distantes, como o derretimento das calotas polares, a queima de florestas e o aumento do mar, mas seus efeitos já estão presentes em hospitais, locais de trabalho e pulmões.

A saúde humana depende de ecossistemas estáveis e, quando esses sistemas se desestabilizam, os padrões das doenças mudam. Os esporos que circularam por um hospital no Brasil carregavam uma mensagem que não podemos ignorar.

As mudanças climáticas estão remodelando doenças, e as instituições criadas para nos proteger não estão mais protegidas das consequências.

Este Autor

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Dirty Dozen: Um coquetel de agrotóxicos contamina a mesa dos britânicos

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de pesticidas, que agora cobre apenas culturas como grãos

Download the Dirty Dozen shopping list

Por Monica Piccinini para “The Ecologist” 

Milhões de compradores no Reino Unido adquirem alimentos básicos do dia a dia, incluindo pão, frutas, vegetais, toda semana, confiando que são seguros para consumo.

Mas análises e estudos recentes sugerem que muitos desses produtos contêm múltiplos resíduos de agrotóxicos cujos efeitos a longo prazo na saúde humana permanecem pouco compreendidos.

LEIA: O relatório Dirty Dozen.

De acordo com uma nova análise da Pesticide Action Network UK (PAN UK), três quartos das frutas e um quarto dos vegetais testados pelo governo britânico contêm um coquetel de agrotóxicos.

Produtos químicos

Os cientistas detectaram 123 agrotóxicos diferentes em apenas 17 tipos diferentes de produtos examinados. Entre eles estão substâncias químicas ligadas ao câncer, e outras conhecidas por desestabilizar os hormônios humanos, os sistemas que moldam a fertilidade e o desenvolvimento saudável.

As uvas surgiram como um dos alimentos mais contaminados, com uma única amostra contendo resíduos de 16 agrotóxicos diferentes.

Os consumidores frequentemente ouvem dizer que resíduos químicos permanecem “dentro dos limites seguros”. Os reguladores afirmam que permanecer abaixo dos níveis máximos de resíduos (MRLs) é considerado seguro.

As regras foram criadas em torno de produtos químicos isolados, assumindo que cada um provavelmente não causaria danos se aplicado corretamente – mesmo que raramente comamos apenas um.

Muitos cientistas e ativistas argumentam que esse sistema não leva em conta os efeitos combinados de múltiplos produtos químicos tóxicos consumidos ao longo dos anos, ou mesmo décadas.

Coquetel

Nick Mole, que liderou a análise para a PAN UK, alerta que esse ponto cego na regulamentação nos deixa perigosamente expostos.

“Os limites de segurança são definidos para um agrotóxico por vez, ignorando completamente o fato de que é muito comum a comida conter múltiplos produtos químicos.

“A verdade é que sabemos muito pouco sobre como esses produtos químicos interagem entre si, ou o que essa exposição a centenas de agrotóxicos diferentes está fazendo com nossa saúde a longo prazo.

“Sabemos que agrotóxicos podem se tornar mais tóxicos quando combinados, um fenômeno conhecido comoefeito coquetel.”

Ele concluiu: “Dado o quão alto é o risco, o governo deveria fazer tudo o que puder para eliminar agrotóxicos dos nossos alimentos.”

Toxina

Uma nova lista de ‘dúzia suja’ revela os produtos com maior probabilidade de conter múltiplos produtos químicos. Toranja vem primeiro, seguida pelas uvas e limas. Cada um deles aparece regularmente em promoções de supermercados celebrando frescor e bem-estar – mas por trás do marketing, a contaminação é generalizada.

A PAN UK analisou os resultados dos testes para descobrir quais Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) apareceram mais em nossas frutas e vegetais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas. 

Dois fungicidas lideraram a lista: imazalil e tiabendazol. Eles foram encontrados em cerca de 9% das amostras, principalmente em frutas como bananas, toranja e melões.

Eles são usados para impedir o crescimento de mofo durante o armazenamento e transporte, mas há sérias preocupações quanto à sua segurança. Ambos são suspeitos de prejudicar hormônios e podem até estar ligados ao câncer.

Até mesmo a comida da qual dependemos mais do que de qualquer outra, nosso pão diário, é afetada. Os testes do governo descobriram que quase todos os pães continham clormequat, uma toxina para o desenvolvimento que os cientistas alertam que pode prejudicar nossos bebês e crianças.

Fazendas

Mais de 25% das amostras de pão continha glifosato, o herbicida mais utilizado no Reino Unido, repetidamente associado a cânceres e outras doenças crônicas.

Quase 50% do pão testado continha vários produtos químicos. Até mesmo a torrada da nação se tornou fonte de exposição química.

Embora os órgãos reguladores argumentem que os níveis de exposição detectados no pão estão bem abaixo dos limiares considerados perigosos, a ausência de estudos abrangentes sobre toxicidade da mistura faz com que a incerteza permaneça.

A exposição crônica e de baixa dose ao longo de décadas, essencialmente uma vida inteira de consumo diário, não foi estudada a fundo.

Um detalhe particularmente preocupante está mais escondido nos dados: quase um terço dos pesticidas detectados não são aprovados para uso em fazendas britânicas.

Trading

Culturas cultivadas no exterior usando produtos químicos proibidos no Reino Unido ainda podem ser importadas e vendidas nas prateleiras britânicas. Os próprios órgãos consultivos do governo alertaram que isso prejudica injustamente os agricultores locais que trabalham sob regras mais rígidas e, pior ainda, expõe os consumidores a riscos que os reguladores já reconhecem serem grandes demais.

Estamos consumindo justamente os produtos químicos considerados perigosos demais para serem pulverizados aqui em nossas fazendas.

A Grã-Bretanha corre o risco de importar produtos contendo altos níveis de pesticidas, incluindo Agrotóxicos Altamente Perigosos (HHPs) já proibidos no país. Por exemplo, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e metade deles são HHPs.

Ainda assim, o ministro britânico do comércio, Sir Chris Bryant, que se descreve como um “latinófilo apaixonado”, disse ao Politico que o acordo Reino Unido-Mercosul (bloco comercial sul-americano incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) é uma escolha óbvia.

Bryant comentou: “Tive conversas muito positivas na Argentina e com o Brasil, mas ainda não tive conversas com o Uruguai e o Paraguai.”

Arável

A PAN UK está pedindo ao Governo Britânico que repense sua nova estratégia de redução de agrotóxicos, que agora cobre apenas culturas como grãos.

Argumenta que frutas e vegetais – os alimentos que nós e nossos filhos mais comemos, e onde os resíduos químicos costumam ser mais altos – devem ser incluídos se o plano quiser realmente proteger as pessoas e o meio ambiente.

A organização também está pedindo apoio para ajudar os agricultores a fazer a transição para métodos mais seguros e para eliminar e banir os HHPs conhecidos por prejudicar a saúde humana.

Mole enfatiza que o sistema atual não pode realisticamente nos proteger da exposição.

Ele disse: “Agrotóxicos aparecem em milhões de combinações diferentes e concentrações variadas em nossos alimentos, então é simplesmente impossível projetar um sistema sofisticado o suficiente para nos proteger desses coquetéis químicos. A única solução é reduzir significativamente nosso uso geral de pesticidas.

“Este ano, o governo introduziu uma meta para reduzir agrotóxicos no setor arável. Mas esses dados mais recentes dos testes revelam que – pelo bem da nossa saúde – precisamos urgentemente expandir a meta para abranger também frutas e vegetais.”

Radical

Isso não é uma preocupação ambiental distante; É uma questão de saúde pública que estamos em nossas agendas.

A maioria das famílias não tem o luxo de encher suas cestas com alternativas orgânicas. Os pais não deveriam precisar analisar planilhas de substâncias químicas ao fazer as compras semanais.

E os agricultores frequentemente dizem que não têm realmente escolha – o sistema os pressiona a usar produtos químicos, ao mesmo tempo em que dificulta que ganhem a vida de forma justa e se mantenham competitivos.

A comida deve nutrir, não prejudicar nosso corpo. Querer comida que não venha acompanhada de produtos químicos não deve ser visto como radical, é uma expectativa básica de que o que alimentamos nossas famílias não as prejudicará, e que as pessoas que cultivam também não corram risco.


Fonte: The Ecologist

COP30 no Brasil: uma cúpula climática manchada por petróleo e desmatamento

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Com o início da COP30 Brasil em Belém, o mundo se reúne mais uma vez para prometer salvação — uma solução para a crise climática. Líderes globais chegam de avião e se encontram sob a copa da floresta amazônica , prometendo ambição, justiça e preservação.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, comparece diante das câmeras proclamando a liderança de sua nação na luta global contra as mudanças climáticas, mas sua retórica parece estar em desacordo com a realidade.

O governo brasileiro que agora se veste com a linguagem da sustentabilidade é o mesmo que promove leis, projetos e indústrias extrativistas que colocam em risco a própria floresta que alega proteger.

A Amazônia está ameaçada não apenas por madeireiros e garimpeiros ilegais, mas também pelo próprio governo do país, que promove uma cúpula climática enquanto abre novas fronteiras petrolíferas, enfraquece a proteção de terras indígenas e acelera a emissão de licenças para atividades ecodestrutivas.

COP30 Brasil — Fumaça e espelhos

Enquanto diplomatas saboreiam smoothies de açaí em Belém, incêndios, desmatamento e degradação continuam a devastar a Amazônia.

No final de 2023, Manaus, a capital do Amazonas, desapareceu sob uma sufocante nuvem escura de fumaça. Os moradores acordaram com céus cinzentos e o gosto de floresta queimada na boca. As máscaras deixaram de ser uma proteção contra o vírus e se tornaram escudos contra o próprio ar de que precisavam para sobreviver.

Monitores de qualidade do ar registraram níveis de PM2,5 vinte vezes superiores ao limite da Organização Mundial da Saúde. É a Amazônia falando, e ela estava gritando.

Os incêndios seguem um caminho muito familiar: a rodovia BR-319, antes abandonada e agora sendo revitalizada pelo governo Lula, corta a floresta tropical como uma faca. Tratores abrem um corredor de destruição em uma das partes mais intactas da floresta, dando margem à pecuária, à grilagem de terras, ao crime organizado, à mineração legal e ilegal, aos incêndios e, possivelmente, a novas pandemias.

“O Brasil está retrocedendo enquanto promete liderança climática, caminhando na direção oposta aos seus compromissos para a COP30 Brasil”, afirma Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Ele acrescentou :

O desmatamento e a degradação já são visíveis ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, poderá desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas a um nível incontrolável.

Cássio Cardoso Pereira , ecologista e editor da revista BioScience, disse :

Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a desastrosa proposta de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical cada vez mais perto do colapso.

Perfuratriz, perfuratriz, perfuratriz

Uma das contradições mais flagrantes é a aprovação, por parte do Brasil, da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, na chamada margem equatorial brasileira.

Apesar dos apelos globais para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, a gigante estatal Petrobras recebeu autorização ambiental do Ibama , órgão ambiental brasileiro , para perfurar um poço exploratório no Bloco 59, a cerca de 500 km da foz do rio, em uma área que abriga ecossistemas sensíveis, incluindo o Grande Sistema Arrecifal da Amazônia e manguezais. Ambientalistas alertam para os riscos de tal projeto e as trágicas consequências de um derramamento de petróleo.

Como um país pode sediar uma cúpula sobre ação climática enquanto expande a extração de petróleo em uma das regiões mais biodiversas e sensíveis ao clima do mundo?

A contradição é tão flagrante que quase parece deliberada, um lembrete de que a diplomacia climática muitas vezes serve à ilusão de progresso, sinalizando que a cúpula pode estar mais voltada para a promoção da marca do que para uma mudança real.

A batalha pelas terras indígenas

A narrativa climática do Brasil também desmorona quando se trata de direitos indígenas.

O controverso “Marco temporal ”, legislação apoiada pelo lobby do agronegócio (“ruralistas”), afirma que os povos indígenas só podem reivindicar terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição brasileira entrou em vigor.

Comunidades indígenas inteiras deslocadas antes dessa data perderiam seus direitos aos territórios ancestrais.

Embora o Supremo Tribunal Federal do Brasil tenha derrubado o projeto de lei em 2023, o Congresso logo aprovou a Lei 14.701/2023 para reimpor a lei, uma manobra legislativa enganosa que mina a justiça constitucional.

Para quem vive perto da floresta, a questão é existencial.

Especialistas da ONU alertaram que a lei pode invalidar centenas de demarcações de terras e acelerar o desmatamento. No entanto, na COP30, é provável que delegados indígenas participem de painéis governamentais, e sua presença será usada como prova de inclusão, mesmo enquanto seus direitos territoriais estão sendo corroídos em seus próprios países.

Desregulamentação

Como se isso não bastasse, em julho de 2025, o Congresso brasileiro aprovou a chamada “PL da devastação ”, oficialmente a lei 2159/2021 . Essa legislação afrouxa radicalmente as normas de licenciamento ambiental, permitindo que muitos projetos prossigam com avaliações de impacto mais brandas, contornando a fiscalização e concedendo mais poder aos estados e municípios.

Organizações de direitos humanos alertaram que o projeto de lei coloca as pessoas e o planeta em risco ao enfraquecer as proteções relacionadas às comunidades indígenas e quilombolas.

Embora o presidente Lula tenha vetado ou emendado 63 dos quase 400 artigos do projeto de lei em agosto, observadores alertam que as disposições restantes ainda representam uma séria ameaça. Consciente de que o Congresso poderia derrubar seus vetos, Lula pareceu buscar um delicado equilíbrio, tentando apaziguar tanto a direita quanto a esquerda, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de neutralidade.

Organizar uma cúpula climática enquanto o governo aprova esse tipo de lei é declarar guerra à credibilidade. Um país não pode, simultaneamente, presidir a mesa de negociações climáticas e acelerar a desregulamentação que incentiva o desmatamento e o deslocamento de comunidades.

A bioeconomia disfarçada de verde

Outro dos temas de maior orgulho do presidente Lula é a “revolução da bioeconomia” no Brasil. No Fórum Empresarial dos BRICS, ele declarou :

Nossos países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento baseado na agricultura sustentável, na indústria verde, em infraestrutura resiliente e na bioeconomia.

Parece visionário, mas por trás dos slogans, persistem as mesmas dinâmicas extrativistas .

As monoculturas em larga escala de soja, cana-de-açúcar, óleo de palma e milho estão se expandindo pela Amazônia, justificadas como culturas para biocombustíveis “renováveis”, “verdes”, “limpas” e “sustentáveis”, o “combustível do futuro”. Projetos como a Amazônia 4.0 prometem inovação sustentável, mas correm o risco de replicar a lógica colonial de extração de recursos sob um disfarce verde.

“A extensão desse conceito à Amazônia acarreta o risco inerente de que a matéria-prima acabe sendo transformada em polpa e vendida para obter lucro”, alerta o pesquisador Ossi Ollinaho, da Universidade de Helsinque.

Entretanto, o especialista em política ambiental, Jorge Rodriguez Morales, observa que:

“Posicionar a bioenergia como uma estratégia climática justificou, na prática, políticas mais amplas de apoio à indústria de biocombustíveis e contribuiu para a deturpação dos princípios verdes da política climática brasileira.”

Deslocamentos

Enquanto isso, outro destaque da COP30 Brasil são os mercados de carbono, a suposta varinha mágica para a ação climática, mas as compensações voluntárias de carbono estão agora sob intenso escrutínio . Uma pesquisa liderada pelo Dr. Thales West, da Universidade Livre de Amsterdã, descobriu que muitos projetos florestais REDD+, antes celebrados como prova de progresso, são construídos sobre “esperança, não prova”, baseando-se em premissas frágeis.

A revista Nature relata que as compensações de carbono muitas vezes “minam a descarbonização, permitindo que empresas e países reivindiquem reduções que não existem”.

No cerne do problema está o cenário base: ameaças exageradas permitem que projetos vendam mais créditos, mesmo para florestas que nunca estiveram em risco. O Dr. West  afirma :

Mesmo com as melhores intenções, se você seguir a ‘receita errada’, provavelmente não obterá o resultado desejado.

Os sistemas de certificação, financiados pelos próprios projetos que auditam, criam conflitos de interesse, enquanto muitos créditos não levam em consideração a perda florestal causada por incêndios, exploração madeireira ou deslocamento de populações.

O projeto Suruí, no Brasil, outrora celebrado como um sucesso de conservação liderado por indígenas, entrou em colapso devido à mineração ilegal e à pressão sobre a terra, demonstrando que mesmo compensações bem planejadas não conseguem ter sucesso em um sistema falho.

Os críticos alertam que as compensações de carbono se tornaram uma forma de greenwashing, permitindo que companhias aéreas, empresas de tecnologia e marcas de luxo continuem poluindo.

O Dr. West adverte :

A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.

Integridade, verdade e justiça

A retórica internacional de Lula continua poderosa, seus discursos sobre “salvar a Amazônia” ainda recebem aplausos em Nova York, Londres, Paris e Davos, mas poder sem integridade é apenas ruído.

Na COP30 Brasil, a palavra “justiça” será repetida muitas vezes, mas justiça exige mais do que palavras, exige ação, alinhamento de políticas e princípios.

O Brasil não pode sediar a cúpula mundial do clima enquanto concede licenças para exploração de petróleo na foz do Amazonas, enquanto afrouxa as proteções territoriais dos povos indígenas e enquanto acelera projetos ambientalmente sensíveis sob a égide da “lei da devastação”.

A Amazônia não é apenas uma floresta, é o pulmão de um continente, guardiã de “rios voadores” que trazem chuva e umidade para o Brasil e outras regiões, um escudo contra o caos climático. Destrua-a, e as consequências se espalharão muito além do Brasil, trazendo secas, inundações, instabilidade climática e até mesmo novas pandemias.

A floresta já se manifesta através dos incêndios, da fumaça, do desaparecimento dos rios e das pessoas ameaçadas. O mundo ouve os discursos da COP30, mas a floresta ouve as ações — ela responde ao que os líderes fazem, não ao que prometem.

A Amazônia não tem mais tempo para hipocrisia.

Imagem em destaque via Foreign Policy Centre


Fonte: The Canary