O El Niño não será o desastre: o desastre será chegar a ele despreparado

Mike Davis e Rob Nixon ajudam a entender por que eventos climáticos extremos se transformam em catástrofes sociais. Com um El Niño potencialmente muito forte avançando sobre um planeta cada vez mais quente, o Brasil já dispõe de conhecimento suficiente sobre o que poderá acontecer; falta transformar esse conhecimento científico em preparação concreta

Estou lendo Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, um livro que, apesar de publicado há mais de duas décadas, adquire uma atualidade particularmente incômoda diante do El Niño que começa a se estabelecer sobre um planeta muito mais quente do que aquele do final do século XIX. Nessa obra, Davis analisa, entre outras coisas, as gigantescas fomes associadas aos grandes ciclos de El Niño ocorridos entre as décadas de 1870 e 1890. Sua estimativa mais conhecida situa entre 30 e 50 milhões o número de pessoas que morreram durante aquelas crises. Considerando que a população mundial girava então em torno de 1,5 bilhão de habitantes, estamos falando de algo equivalente a aproximadamente 2% a 3,3% de toda a humanidade. Se transportássemos mecanicamente essa proporção para a população mundial atual, chegaríamos a algo entre 166 e 277 milhões de pessoas.

Evidentemente, não estou sugerindo que o atual El Niño produzirá semelhante mortandade, pois fazer isso seria cientificamente irresponsável e cairia justamente no alarmismo que precisamos evitar. A comparação serve para outra coisa: mostrar a dimensão que eventos climáticos podem assumir quando encontram sociedades profundamente desiguais e despreparadas para enfrentá-los.

Esse é precisamente um dos grandes argumentos de Mike Davis. As dezenas de milhões de pessoas que morreram no final do século XIX não foram simplesmente “mortas pelo El Niño”; o fenômeno climático produziu secas, alterações nas monções e quebras de safras, enquanto a organização política e econômica das sociedades atingidas, particularmente sob o domínio colonial, transformou esses eventos em gigantescas crises de fome. Em outras palavras, o El Niño produziu o perigo; o imperialismo e a desigualdade produziram boa parte da vulnerabilidade que permitiu que esse perigo se convertesse em catástrofe.

É neste ponto que Davis se encontra de maneira particularmente fértil com Rob Nixon e seu conceito de “violência lenta”. Nixon chama nossa atenção para formas de violência que não explodem diante das câmeras, mas se acumulam silenciosamente durante anos ou décadas. A degradação ambiental, a contaminação, o empobrecimento, a destruição dos meios de subsistência e as mudanças climáticas constituem processos que raramente produzem uma imagem espetacular no momento em que estão construindo suas vítimas.

Essa perspectiva nos obriga a reconhecer que um desastre começa muito antes da enchente, da seca ou da onda de calor. A catástrofe começa a tomar forma quando as cidades crescem sobre áreas inundáveis sem infraestrutura adequada; quando trabalhadores ocupam encostas porque não conseguem acessar habitação segura; quando governos deixam sistemas de drenagem durante décadas sem investimentos; quando intervenções urbanas canalizam rios e impermeabilizam suas várzeas; quando populações rurais ficam sem acesso seguro à água; quando governos municipais mantêm sistemas de Defesa Civil sem pessoal, equipamentos e recursos suficientes; e quando alertas meteorológicos existem, mas não chegam a quem precisa deles. Quando finalmente chega a chuva extraordinária, a seca prolongada ou a onda de calor, décadas de escolhas políticas aparecem subitamente sob o conveniente rótulo de “desastre natural”.

Mas o evento físico pode ser natural; a distribuição social de suas consequências não é.

O problema brasileiro é que já sabemos o que está vindo

Essa discussão deixa de ser apenas histórica quando olhamos para o Brasil de agosto de 2026. O El Niño já está estabelecido e deverá ganhar força nos próximos meses; o INMET informa que as condições do fenômeno estão presentes desde junho e que ele deverá persistir até o final do verão austral de 2026/2027. As previsões mais recentes elevaram ainda mais o sinal de preocupação, pois indicam probabilidade igual ou superior a 90% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte nos próximos trimestres, com seu período mais crítico podendo ocorrer justamente entre a primavera e o início do verão.

As consequências possíveis para o território brasileiro tampouco constituem mistério. O fenômeno tende a favorecer excesso de precipitação e maior risco de eventos extremos no Sul, enquanto partes do Norte e Nordeste podem enfrentar redução das chuvas, secas e agravamento do risco de incêndios; temperaturas elevadas poderão aumentar ainda mais a pressão sobre ecossistemas, agricultura, recursos hídricos e populações vulneráveis.

Nem precisamos esperar outubro ou dezembro para constatar que eventos extremos constituem uma ameaça concreta. O Sul já enfrentou sucessivos episódios de chuva intensa e tempestades neste inverno, enquanto o Sudeste experimentou grandes oscilações térmicas, calor, baixa umidade e episódios de ventos intensos associados à passagem de sistemas meteorológicos. Não podemos atribuir automaticamente cada um desses eventos ao El Niño; podemos, entretanto, enxergar neles a vulnerabilidade territorial sobre a qual um El Niño muito forte atuará durante os próximos meses.

A agricultura também começa a incorporar esse risco às suas decisões. As estimativas para a safra brasileira de trigo de 2026 já sofreram redução, acompanhadas de preocupação com os possíveis efeitos de um El Niño intensificado sobre uma cultura fortemente concentrada na Região Sul. O país, portanto, não enfrenta uma ameaça desconhecida; temos satélites, modelos climáticos, séries meteorológicas, supercomputadores, universidades, institutos de pesquisa e sistemas de monitoramento que permitem enxergar com meses de antecedência pelo menos parte considerável dos riscos. Essa capacidade científica nos coloca numa situação radicalmente diferente daquela enfrentada pelas populações analisadas por Mike Davis no século XIX; justamente por isso, ela aumenta nossa responsabilidade política diante do que poderá ocorrer.

Monitorar não significa estar preparado

Seria incorreto afirmar que o Estado brasileiro nada está fazendo. O governo federal criou um Painel El Niño 2026–2027 que reúne INMET, INPE, CEMADEN, ANA, Serviço Geológico Brasileiro, Defesa Civil e outras instituições; também iniciou articulações com os estados para enfrentar os riscos associados ao fenômeno. Essas iniciativas representam passos necessários, mas reconhecer o risco, produzir boletins e realizar reuniões não significa que municípios, estados e União tenham preparado o território brasileiro para enfrentá-lo.

A pergunta fundamental precisa ir além do monitoramento: o conhecimento científico disponível já se transformou em planos operacionais, recursos financeiros, pessoal, equipamentos e capacidade de resposta na escala exigida pelo problema?

Essa pergunta abre imediatamente outras. Quantos municípios brasileiros possuem planos atualizados para enfrentar enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios? Quantas Defesas Civis municipais possuem equipes e equipamentos compatíveis com os riscos previstos? Quantos governos municipais estão limpando e ampliando preventivamente seus sistemas de drenagem? Quantos hospitais possuem protocolos específicos para ondas de calor? Quais estoques estratégicos de alimentos, água e medicamentos governos municipais, estaduais e federal estão preparando? Quais comunidades vulneráveis conhecem previamente suas rotas de evacuação e seus locais de abrigo? Quais políticas apoiarão agricultores familiares caso a seca ou o excesso de chuva comprometam suas safras?

Governadores, prefeitos, ministérios e candidatos deveriam colocar essas perguntas no centro de suas agendas neste momento; afinal, quando a água entra nas casas, a prevenção já fracassou.

E começou a campanha eleitoral

Talvez um dos aspectos mais preocupantes da conjuntura seja justamente o fato de o Brasil ter entrado oficialmente na campanha eleitoral de 2026 sem que a emergência climática tenha ocupado, até agora, um espaço compatível com sua importância objetiva. Os primeiros movimentos da campanha concentram-se fortemente em segurança pública, economia, soberania e nas disputas políticas tradicionais; embora apareçam referências ambientais nos programas e discursos, ainda não se percebe uma centralidade política equivalente à magnitude de um problema que poderá atingir o país justamente durante os meses decisivos da eleição e da transição para o próximo governo.

Essa ausência ganha contornos ainda mais estranhos quando lembramos que o próximo presidente da República poderá assumir o cargo em janeiro de 2027 ainda sob os efeitos do mesmo El Niño. Mudanças climáticas e adaptação, portanto, não deveriam aparecer como um capítulo protocolar ou decorativo dos programas de governo; elas deveriam atravessar propostas para habitação, agricultura, saúde pública, energia, infraestrutura urbana, transportes, proteção social, planejamento territorial e Defesa Civil.

A ciência já realizou uma parte importante do trabalho ao demonstrar que o El Niño existe, está se fortalecendo e poderá alcançar intensidade excepcional; os cientistas também indicam as regiões mais vulneráveis, identificam os tipos de eventos que apresentam maior probabilidade de ocorrência e oferecem uma janela preciosa de alguns meses para que governos e sociedade se preparem. Se desperdiçarmos essa janela e depois assistirmos autoridades declarando surpresa diante de cidades inundadas, plantações destruídas, rios secos ou florestas queimando, não estaremos diante de uma simples falha de previsão; estaremos diante da transformação consciente de conhecimento disponível em oportunidade perdida.

É justamente aqui que Mike Davis e Rob Nixon têm algo importante a nos ensinar. O evento climático pode ter origem natural; a catástrofe social resulta da maneira como organizamos nossas sociedades, distribuímos recursos, produzimos vulnerabilidades e decidimos quem merece proteção. Não podemos impedir o El Niño, assim como não podemos evitar todos os eventos extremos associados a uma atmosfera profundamente alterada pelo aquecimento global; podemos, contudo, reduzir drasticamente a quantidade de pessoas expostas, diminuir perdas materiais, proteger sistemas alimentares, preparar hospitais, fortalecer Defesas Civis, criar estoques, apoiar agricultores e proteger comunidades vulneráveis.

O Brasil precisa, portanto, abandonar sua conhecida cultura política de agir depois da catástrofe e transformar previsão científica em prevenção material. Governos precisam limpar canais, revisar barragens, preparar abrigos, fortalecer a Defesa Civil, proteger sistemas de abastecimento, organizar brigadas contra incêndios, preparar o SUS, apoiar agricultores e mapear populações vulneráveis agora; quando a água estiver subindo, os reservatórios estiverem secando ou o fogo estiver atravessando florestas e campos, será tarde demais para transformar boletins meteorológicos em políticas públicas.

Mike Davis mostrou como eventos climáticos contribuíram para algumas das maiores tragédias humanas do século XIX quando encontraram sociedades organizadas para proteger mercados e impérios, mas não necessariamente pessoas; Rob Nixon nos ajuda a compreender que as condições que permitem uma catástrofe não surgem no instante em que começa a chover ou deixa de chover, mas resultam de processos de violência lenta que acumulam vulnerabilidades durante anos ou décadas.

O Brasil de 2026 possui uma vantagem extraordinária sobre as sociedades estudadas por Davis: sabemos que o fenômeno está chegando, conhecemos razoavelmente seus possíveis efeitos e dispomos de instrumentos científicos capazes de acompanhar sua evolução quase em tempo real. Ainda existe tempo para escolher outro caminho, mas a ciência já fez o alerta e agora cabe ao poder público transformar informação em prevenção concreta; o conhecimento acumulado também retira de governantes e candidatos qualquer possibilidade legítima de fingir surpresa caso a falta de preparação amplifique as consequências de um El Niño superforte. Se isso ocorrer, ninguém poderá dizer que não sabia o que estava por vir; a questão já não é falta de informação, mas o que aqueles que governam ou pretendem governar o Brasil decidirão fazer com ela.

Monitorar a água, liberar o veneno: o paradoxo dos agrotóxicos no governo Lula

O governo lança ferramentas de monitoramento hídrico ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como o líder mundial de consumo de agrotóxicos

O anúncio do governo Lula sobre a criação de um painel de monitoramento de agrotóxicos nas bacias hidrográficas brasileiras expõe uma contradição política difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que o Ministério do Meio Ambiente apresenta a iniciativa como um avanço em transparência e prevenção de riscos ambientais, o próprio governo Lula vem acumulando recordes na liberação de novos agrotóxicos, incluindo princípios ativos proibidos na União Europeia devido aos seus comprovados riscos à saúde humana e ao meio ambiente. O resultado é um cenário paradoxal: monitora-se cada vez mais a contaminação da água enquanto se amplia simultaneamente a autorização para o uso das substâncias responsáveis por essa mesma contaminação. 

O discurso oficial procura associar o monitoramento à ideia de responsabilidade ambiental e sustentabilidade agrícola. Contudo, essa narrativa entra em choque com a política concreta de expansão do mercado de agrotóxicos no Brasil. Desde o início do atual governo, centenas de novos registros comerciais de agrotóxicos foram autorizados, muitos deles contendo substâncias que países europeus já decidiram retirar de circulação por seu potencial cancerígeno, neurotóxico, desregulador endócrino ou persistente no ambiente. Assim, o monitoramento anunciado corre o risco de funcionar mais como instrumento de gestão da contaminação do que como política efetiva de prevenção.

A contradição se torna ainda mais evidente quando autoridades federais afirmam que “competitividade e sustentabilidade não podem caminhar separadas”, enquanto a estrutura regulatória brasileira continua profundamente orientada para atender às demandas do agronegócio exportador dependente de agrotóxicos. Na prática, o país permanece consolidando sua posição como um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos do planeta, inclusive de princípios ativos rejeitados em outras partes do mundo.

Há ainda uma questão estrutural que fragiliza o alcance real dessa iniciativa. Após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno”, o poder decisório sobre a liberação de novos agrotóxicos foi significativamente concentrado no Ministério da Agricultura, historicamente mais permeável às pressões das corporações multinacionais que monopolizam a produção de venenos agrícolas e das grandes entidades do agronegócio. Isso significa que, mesmo que o monitoramento identifique níveis preocupantes de contaminação em rios, aquíferos e bacias hidrográficas, não existe garantia de que essas informações resultarão em restrições efetivas ou na proibição das substâncias detectadas.

O problema é que monitorar não equivale automaticamente a proteger. Um painel pode produzir mapas sofisticados, estatísticas detalhadas e relatórios públicos, mas continuará sendo insuficiente se não houver disposição política para enfrentar as causas da contaminação. E essas causas estão diretamente ligadas ao modelo agrícola dominante e à contínua flexibilização regulatória promovida pelo próprio Estado brasileiro.

Os dados apresentados no lançamento do painel já revelam um quadro preocupante. Mais de 10 mil análises foram realizadas, com detecção de agrotóxicos em 7,2% das amostras, sendo o S-Metolacloro o composto mais frequentemente encontrado. O fato de substâncias químicas aparecerem de maneira recorrente nos recursos hídricos brasileiros deveria acender um alerta sanitário nacional, sobretudo em um país onde milhões de pessoas dependem diretamente dessas águas para abastecimento, pesca, agricultura familiar e consumo cotidiano.

Nesse contexto, a iniciativa do governo parece caminhar sobre uma linha ambígua: de um lado, reconhece oficialmente os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos; de outro, mantém e amplia a política de liberação dessas substâncias. Sem enfrentar essa contradição central, o risco é que o monitoramento se transforme apenas em um grande inventário da contaminação progressiva das águas brasileiras — um mecanismo de observação da crise, mas não de sua contenção.

Relatório internacional pede mais precisão no monitoramento do aumento da temperatura global, limitado a 1,5ºC

Desmatamento da floresta amazônica e outros ecossistemas e produção de petróleo afastam Brasil de metas climáticas, segundo CCAG

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As medições de temperatura global de longo prazo estão falhando em capturar a taxa crescente de aquecimento do planeta. É o que aponta relatório lançado nesta segunda (23), pelo Grupo Consultivo para a Crise Climática (CCAG). Segundo os especialistas, isso mascara a verdadeira extensão e riscos de aumentos ininterruptos da temperatura, que já causam efeitos em comunidades vulneráveis e países, incluindo o Brasil.

O documento vem à tona na Semana do Clima de Nova Iorque (EUA), maior evento global anual sobre mudanças climáticas. Ele faz parte de uma série de análises feitas de forma independente pelo CCAG e divulgadas à imprensa brasileira em primeira mão pela Bori. O grupo reúne 16 especialistas do clima de dez países diferentes, entre eles o Brasil, com a missão de impactar na tomada de decisão sobre a crise climática.

O trabalho pede uma maior precisão nos esforços de monitoramento para limitar o aumento das temperaturas globais em até 1,5ºC. Ele recomenda a ampliação das metas climáticas para incluir os níveis atmosféricos de gases de efeito estufa, que são indicadores críticos em “tempo real” das mudanças climáticas.

Essa avaliação é baseada na análise dos desafios únicos enfrentados pelo Brasil, Gana, Estados Unidos e Índia no contexto da transição energética e crise climática.

No caso brasileiro, o relatório aponta que o país está fora do caminho para a redução de emissões de gases de efeito estufa até 2030, por causa do desmatamento contínuo da floresta amazônica e de outros ecossistemas e do investimento na produção de petróleo. Sem uma ação rápida, segundo os especialistas, o mundo corre o risco de perder um escudo vital contra a crise climática.

Desde a eleição do presidente Lula para o terceiro mandato (2023-2026), o desmatamento na Amazônia foi parcialmente reduzido, mas as taxas aumentaram em outros biomas, como o Cerrado – o que, de acordo com o documento, é um lembrete de que danos continuam a ser causados. A floresta é um importante depósito natural que captura e absorve o carbono.

A produção de petróleo brasileira atinge 3 milhões de barris por dia, colocando o Brasil entre os dez maiores produtores mundiais. Assim, o petróleo acaba representando 44% do consumo total de energia do país – o que impõe desafios para a transição energética, em direção a fontes de energia sustentáveis.

“O Brasil está enfrentando o desafio de apoiar a sua economia e reduzir a pobreza”, avalia a pesquisadora Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), membro do CCAG. “Forças políticas relevantes estão defendendo o uso de mais receita de exploração de petróleo para fazer isso, ao mesmo tempo que financiam investimentos em energia renovável – mas isso é claramente insustentável”, pontua.

Bustamante comenta que, assim como outros países, o Brasil enfrenta uma crise de custo de vida e deve equilibrar as pressões econômicas e políticas de curto prazo com metas climáticas de longo prazo. “Dada a importância crítica das vastas florestas tropicais do Brasil para a estabilidade climática, é imperativo que o Norte Global forneça suporte eficaz para suavizar o caminho para um futuro sustentável”.

“A trajetória atual de aumento da temperatura global está jogando a humanidade em direção ao desastre”, destaca David King, líder do CCAG. Esse relatório, no entanto, mostra que ainda há o que ser feito para que isso seja evitado.

Nesta linha, o relatório do CCAG traz quatro recomendações para reverter a trajetória climática atual: promover a equidade global por meio de finanças, liderança e colaboração; desvincular o bem-estar do consumo de combustíveis fósseis; acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis; e proteger a biodiversidade e as comunidades indígenas, parte crítica da resposta climática global para limitar os aumentos de temperatura. “Um futuro seguro para a humanidade ainda está ao nosso alcance, mas somente se todas as nações tomarem medidas urgentes”, finaliza King.


Fonte: Agência Bori

Produção de soja no país tem impactos socioambientais monitorados pelas próprias empresas e pouca ação do Estado

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Organismos internacionais pedem mais transparência sobre a origem e produção da soja no Brasil, segundo relatório

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Grandes empresas produtoras de soja são as responsáveis por determinar as normas do seu setor produtivo e por definir se a cadeia produtiva do grão cumpre com critérios de responsabilidade socioambiental, em relatórios anuais — papel de fiscalização que deveria ser executado pelo Estado. As conclusões são de um relatório divulgado nesta semana por pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Sociologia das Práticas Alimentares (SOPAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O documento mostra a ausência do Estado no processo de monitoramento e divulgação de dados sobre a produção de soja no país e a falta de uma definição sobre um processo produtivo sustentável nos relatórios das empresas, o que gera lacunas no rastreamento desta produção. As pesquisadoras analisaram dados de documentos públicos do setor de sustentabilidade das empresas da cadeia da soja, de relatórios de desempenho dos programas e certificações. Elas também realizaram entrevistas entre abril e junho de 2023 com representantes do setor e entidades ambientalistas ativas no debate sobre sojicultura.

O objetivo foi entender a governança na cadeia produtiva da soja no Brasil, diante da demanda por transparência e responsabilidade socioambiental. O relatório aponta que a partir do momento em que as empresas determinam suas metas, sem que exista uma padronização sobre quais aspectos são relevantes e como tais informações devem ser divulgadas, se torna difícil obter dados sobre desmatamento, trabalho escravo, uso de agrotóxicos e invasões de terras indígenas.

Marília Luz David, professora adjunta do departamento de Sociologia da UFRGS e autora do estudo, destaca a importância do setor da soja e do Estado brasileiro se articularem para entrar no debate internacional sobre regras mais rígidas para a compra de produtos de origem agropecuária. Hoje, a expansão agropecuária da soja é responsável por índices altos de desmatamento no Cerrado, o que poderia trazer perdas de fatias de mercado em países com normas de governança mais rígidas como a China e alguns países da União Europeia.

“Estes resultados nos permitem sugerir que uma maior participação do Estado é bem-vinda na regulação e padronização dos modos de rastrear a soja e reportar resultados, assim como na articulação de compromissos internacionais com os maiores compradores da soja brasileira – notadamente, a China”, afirma David.

O trabalho das pesquisadoras chama a atenção para a emergência de modelos corporativos de governança ambiental. “Um olhar a partir dos estudos sociais, das ciências e das tecnologias pode oferecer novas perspectivas para questões do agronegócio no país, em particular, quais visões de vida em sociedade – o que queremos para biomas como Amazônia e Cerrado? – estão incorporadas em tecnologias, formas de mensuração e avaliação de práticas produtivas que prometem tornar a cadeia da soja mais sustentável e responsável “, diz a pesquisadora.

Para dar continuidade a essa pesquisa, David e Ângela Camana, doutora em Sociologia pela UFRGS e coautora do artigo, pretendem seguir explorando os acordos corporativos de governança ambiental na cadeia da soja, principalmente como são definidas a “soja livre de desmatamento e de conversão de vegetação nativa”. “O termo aparece em diversos documentos de empresas do setor e, por isso, precisa ser estudado”, explicam as autoras.

Fonte: Agência Bori

Cemaden realiza webinário sobre monitoramento e alertas de desastres

Evento nesta quarta-feira (01) abordará conceitos e informações geradas sobre riscos de desastres geo-hidro-meteorológicos

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O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), promove nesta quarta-feira (01) um webinário com foco no risco de desastres geo-hidro-meteorológicos, ou seja, evento deflagrados por extremos de chuvas. A transmissão será ao vivo no canal reuniaodeimpactos, das 14h às 16h.

A proposta do evento é detalhar produtos gerados pelo Cemaden na área de monitoramento e de alertas, diferenciando-os das previsões meteorológicas e de outras informações que podem eventualmente circular, gerando desinformação.

O conhecimento sobre as informações geradas e disseminadas pelo Cemaden são relevantes para defesas civis, tomadores de decisão, profissionais de imprensa e mídias, comunidade acadêmica e científica, entre outros interessados na área de riscos e de desastres.

“A informação de meteorologia é um dos insumos para a avaliação e difusão dos alertas de desastres. Nem toda chuva é risco de desastre. Há diferença entre mapa de risco e alerta de desastre”, explica a diretora do Cemaden, Regina Alvalá.

Como exemplos de informações geradas e disseminadas pelo Cemaden estão os alertas dirigidos às Defesas Civis Nacional e Estaduais sobre riscos de deslizamento e enxurradas, e também as previsões de riscos geo-hidrológicos publicados diariamente no site da instituição com antecipação de 24 horas.

A programação envolve vários profissionais da equipe do Cemaden, como pesquisadores e especialistas. Serão abordados os conceitos associados ao monitoramento ininterrupto (24horas/7dias), extremos de chuvas, riscos geodinâmicos e hidrológicos, entre outros.

“Temos também o papel social de contribuir para o entendimento das informações”, complementa Alvalá.

Confira a programação

1) Abertura

2) Monitoramento e Alertas – definições, avisos, alertas, previsões, cenários

3) Extremos de chuvas – dados meteorológicos

4) Monitoramento, alerta e previsão de risco geodinâmico

5) Monitoramento, alerta e previsão de risco hidrológico

6) Registro de ocorrências de desastres

7) Perguntas

Os participantes terão oportunidade de fazer questões e elucidar dúvidas. O webinário será transmitido pelo canal digital neste link. As palestras ficarão gravadas e poderão ser consultadas a qualquer momento. O segundo webinário, previsto para novembro, vai abordar o monitoramento de secas. Ainda não há data definida.

Serviço

Evento: 1o Webinário – Produtos e Serviços Relativos a Riscos de Desastres: Geo-hidro-meteorológicos

Data: Quarta-feira (01/11)

Horário: 14h –16h

MCTI anuncia expansão do monitoramento do Cemaden para 2.120 municípios brasileiros

Número representa mais que o dobro das cidades monitoradas pela unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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Sala de Situação do Cemaden – Cachoeira Paulista/SP

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, anunciou, nesta quinta-feira (2), a expansão do sistema de monitoramento do Cemaden, que alcançará 2.120 municípios do país. O número representa mais que o dobro das cidades hoje monitoradas pelo instituto de pesquisa do MCTI. O anúncio foi feito durante o 10º Seminário Técnico-Científico de Análise de Dados do Desmatamento na Amazônia Legal, promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

“Com esse esforço, dobramos a cobertura monitorada, atingindo 70% da população brasileira”, disse a ministra.

A expansão significa que o Cemaden passará a monitorar, 24 horas por dia, sete dias por semana, mais municípios localizados em Regiões Metropolitanas, emitindo alertas sobre alagamentos, inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.

“Após quatro anos de um governo negacionista, que desacreditou a ciência e promoveu desmonte das políticas ambientais, o MCTI trabalha na construção de uma arrojada agenda de mitigação dos impactos causados pelas mudanças climáticas”, afirmou a ministra.

Ela também antecipou que, em colaboração com outros Ministérios e a comunidade científica, o MCTI trabalha na construção de um novo arcabouço que contemple a produção de dados meteorológicos, o monitoramento climático, a emissão de alertas de risco e as ações de prevenção e redução dos impactos provocados por eventos extremos.

“Não há saída para os esforços de mitigação e adaptação das mudanças climáticas, para o combate ao desmatamento ilegal e o enfrentamento das desigualdades sem ciência”, ressaltou a ministra Luciana Santos. “A pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico são ferramentas fundamentais na busca de soluções para estes desafios. Por isso, vamos ampliar os nossos investimentos para que os resultados da melhor ciência sejam revertidos em benefícios para a população”, concluiu.

Seminário

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, lembrou que o desmatamento na Amazônia é um dos maiores problemas do mundo e destacou a importância da soma de esforços para enfrentar este desafio. “O sucesso do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, lançado em 2004, se deve a um esforço coletivo. Não se faz política pública sem ouvir o que a ciência e a sociedade civil têm a dizer.”

Coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o pesquisador Cláudio Almeida alertou para a necessidade de ação urgente e para a importância de produção de dados confiáveis. “É fundamental a produção de um dado público, transparente e confiável”, destacou. “O país tem que ter capacidade tecnológica para manter esse monitoramento, desde a produção da imagem até a operação do sistema, e entregar informação para a sociedade”, defendeu.

Coalizão Brasil adverte que desmonte do monitoramento do Cerrado atenta contra biodiversidade e produção agrícola

Desmatamento-no-CerradoFalta de verba ameaça monitoramento contra desmatamento no Cerrado

Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial composto por mais de 300 empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia, vê com preocupação o anúncio da descontinuidade do monitoramento do Cerrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O bioma, que ocupa aproximadamente 24% do território do país, abrange nascentes da maior parte das bacias hidrográficas cruciais para o abastecimento de água e energia do Brasil. É, também, o celeiro da produção agropecuária, abrigando o cultivo de commodities, como soja, milho e algodão.

Além de sua importância econômica, cabe destacar que o Cerrado é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade e encontra-se em franco processo de degradação. No último dia 31 de dezembro, o Inpe divulgou que o bioma perdeu 8.531,4 km² de vegetação nativa em um ano, entre agosto de 2020 e julho de 2021. Trata-se de um aumento de 7,9% em relação ao índice constatado nos 12 meses anteriores.

É, portanto, momento de investir em monitoramento e pesquisa, e não desmobilizar equipes e recursos. O possível “apagão de dados” sobre o desmatamento do Cerrado é um reflexo do sucateamento do Inpe, cujo orçamento em 2021 foi de R$ 75,8 milhões, uma redução de 85% ante o recebido em 2010 (R$ 487,6 milhões).

Há verbas para manutenção do monitoramento do Cerrado somente até abril. O país, portanto, entra em contagem regressiva para garantir a sobrevivência do trabalho do Inpe, cujos dados são necessários para a vitalidade da fiscalização ambiental, do agronegócio e de estudos científicos.

Vale destacar que o gasto com o sustento do projeto ameaçado é irrisório. O monitoramento do Cerrado custa apenas R$ 2,5 milhões por ano. Para se ter uma noção, a multa por desmate ilegal de 1 hectare vale R$ 1.500. Ou seja, as infrações relacionadas à devastação de 1.700 hectares já pagam todo o sistema.

Ao assinar um acordo florestal durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), há exatos 70 dias, ao lado de 140 países, o Brasil assumiu o compromisso, perante sua população e a comunidade internacional, de proteger ecossistemas críticos como o Cerrado. Diversos países, como os Estados Unidos, além da União Europeia, já indicaram que o cuidado socioambiental é um tema central para a agenda diplomática e as transações comerciais. O Brasil, ao não cumprir os seus deveres, opta pelo isolacionismo e pelo atraso. Tampouco conseguirá controlar a narrativa. Outras iniciativas, envolvendo governos e a sociedade civil, podem assumir por conta própria o monitoramento de biomas.

As ações serão sempre mais fortes que as palavras. Portanto, mais uma vez a reputação do país está em jogo, ao demonstrar incoerência e desalinhamento entre os compromissos que assumiu — tanto para o enfrentamento da crise climática quanto para a perda de biodiversidade — e as ações que implementa — sejam elas ligadas a pesquisa, monitoramento e inteligência, que deveriam promover boas políticas públicas.

Coalizão Brasil solicita que o governo federal assegure os recursos necessários para a continuidade do programa de monitoramento do Cerrado e de todos os biomas brasileiros. É uma questão de legalidade, transparência e credibilidade.

Amazônia-1: um satélite totalmente nacional

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*Por Vivaldo José Breternitz

Um satélite projetado e desenvolvido no Brasil pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Amazônia-1, já está em fase final de testes e deve ser lançado no início de 2021, marcando mais uma etapa de um processo que teve início há 12 anos.

Sua missão principal será observar a Amazônia, mas poderá também coletar dados sobre a costa do país, cursos e reservatórios de água e desastres ambientais – principalmente inundações e queimadas.

O Amazônia-1 é um marco para o país. Nunca um satélite desse porte foi totalmente concebido e desenvolvido no Brasil – anteriormente, houve casos de aquisição de tecnologia ou parcerias. Seu desenvolvimento é mais um passo dado pelo país na busca da autonomia na área, gerando conhecimento para profissionais brasileiros, fomentando a indústria nacional e permitindo que os dados coletados pelo satélite permaneçam sob controle de brasileiros.

O Amazonas-1 foi desenvolvido a partir dos parâmetros estabelecidos pela Plataforma Multimissão, uma estrutura para construção de satélites, permitindo que partes comuns sejam utilizadas por engenhos que tem outros objetivos, como por exemplo, a observação do espaço. Esse conceito ajuda a diminuir o custo e o tempo de produção de novos satélites.

O Amazonia-1 tem 2,5 metros de altura, pesa 640 quilos e tem entre outros componentes, 6 quilômetros de cabos e 16 mil conexões elétricas – é uma máquina complexa. Será levado ao espaço por um foguete lançador que partirá de uma base situada na Índia, para um voo que durará 18 minutos, após o que o satélite será liberado, a cerca de 750 quilômetros de altitude; a seguir, os técnicos do INPE assumirão o comando da missão a partir de São José dos Campos.

Seria muito significativo se o veículo lançador pudesse ter sido um foguete brasileiro partindo da base de Alcântara, no Maranhão, mas, infelizmente a tragédia que ali ocorreu em 2003, quando um incêndio e explosões destruíram o foguete brasileiro VLS-1 e sua plataforma de lançamento, matando 21 técnicos, trouxe um grande atraso ao programa espacial brasileiro, e, por isso o Amazonia-1 terá que partir de outro país, transportado por um foguete estrangeiro.

*Vivaldo José Breternitz é Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Fiocruz lança sistema de monitoramento e previsão para o coronavírus

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A Fiocruz está lançando um sistema de monitoramento e previsão da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) no Brasil.  O sistema foi desenvolvido pelo Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (LIS/ICICT/Fiocruz) em cooperação com o IBGE. Esta ferramenta permite monitorar a pandemia e sua tendência por UF e município. O sistema mostra as tendências e permite comparar com países que estão em graus mais avançados da epidemia.

monitor covid

Por meio deste sistema (MonitoraCovid),  os pesquisadores da Fiocruz já puderam verificar que:

  • A curva de aceleração de casos do Brasil, por enquanto, está seguindo os padrões da Itália e outros países no início das suas epidemias, o que é preocupante. Nas próximas semanas, o Brasil pode mudar de tendência devido a medidas específicas que estão sendo tomadas nos estado e municípios.
  • O sistema permite acompanhar estas tendências em cada UF e município e a sua comparação com países que estão em graus mais avançados da epidemia. A avaliação do impacto de medidas de restrição de mobilidade vai ser de extrema importância nas próximas semanas.
  • Neste momento da pandemia, a difusão está ocorrendo entre grandes cidades e dentro delas. Nos próximos dias, deve alcançar cidades de menor porte, o que levanta a questão da organização do sistema de saúde e o fluxo de pacientes e insumos para suprir as necessidades destas cidades que, em geral, possuem capacidades limitadas dos serviços de saúde.
  • Há um espalhamento de casos em direção ao sul, principalmente no litoral e pode se interiorizar nas próximas semanas. A aproximação do inverno traz preocupações principalmente na região sul. O clima frio e seco pode favorecer a transmissão do vírus.

Quem desejar a “MONITORA COVID”,  basta clicar [Aqui!].

Folha da Manhã notícia invasão do mar na Praia do Açu e descreve susto da população

Após invasão do mar, população assustada

Por Patrícia Barreto

Foto: Héllen Souza

Enquanto o rio Paraíba do Sul atinge a maior seca da história, o mar avança na praia do Açu, em São João da Barra. De acordo com a Defesa Civil do município, na quarta-feira (24) à tarde havia ainda a possibilidade da água invadir casas e comércios da rua Principal, como aconteceu na terça-feira (23), o que não aconteceu, para alívio da população local. Os cerca de 2 mil moradores da comunidade que dá nome ao Porto do Açu está cada vez mais preocupada. O fenômeno que vem se tornando constante nunca ocorreu antes. A água invadiu a rua da localidade por volta das 15h. Após uma hora de cheia, no momento de maré mais baixa, o mar deixou de jogar água na via. Até a manhã de quarta, a rua estava com muita lama. Especialistas apresentam diferentes análises sobre as possíveis causas para o problema. Uma delas seria consequência da construção dos terminais do Porto do Açu. Os moradores da localidade cobram a mobilização das autoridades para que os técnicos ajam sobre o problema e ao mesmo tempo identifiquem as causas. Quarta à tarde, após receber denúncias de moradores e saber da situação pela imprensa, uma equipe do Ministério Público Federal foi enviada pelo procurador Eduardo Santos Oliveira ao Açu para fazer se inteirar da situação, para definir se o órgão vai intervir.

A Câmara de Vereadores de São João da Barra arguiu a empresa Prumo Logística Global S.A., a partir da aprovação de um requerimento do vereador Frankis Arêas de Freitas. Assim, a Prumo confirmou a presença de representante numa reunião pública na sede do Legislativo Sanjoanense para dar informações sobre o tema. Inicialmente marcada para o dia 3 de setembro, a reunião acabou suspensa e depois adiada para a próxima quarta-feira, dia 1º de outubro. Neste intervalo a empresa Prumo entregou à Câmara um relatório elaborado pelo professor Paulo Cesar Colonna Rosman, do Programa de Engenharia Oceânica da Coppe/UFRJ, através da Fundação Coopetec. A pedido do Ministério Público Federal, através de ofício do procurador da República, Eduardo Santos Oliveira, o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) elaborou outro relatório sobre o assunto.

O Relatório do professor Pedlowski indica que em 2011 a área em questão estava em relativo equilíbrio sedimentar, entretanto, após a conclusão da abertura do canal de navegação em 2012, ocorreu uma forte perda de sedimentos, provocando a diminuição da faixa central da praia do Açu, indicando que um processo erosivo está em curso.

Defesa Civil diz que invasão era esperada

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de SJB, Adriano Assis, o que está ocorrendo na praia do Açu era esperado, mas atípico. “O fenômeno pode ser passageiro, mas pode não ser. Não dispomos de uma série histórica de ressacas que possam nos ajudar, mas as empresas do Complexo Logístico Industrial Portuário (CLIPA) não podem simplesmente se omitir de participação maior no problema, como, por exemplo, implantar o prometido programa permanente de controle de alterações costeiras”.

Até a manhã de quarta-feira (24), nenhuma família precisou ser retirada de suas residências, assim como não houve registro de imóvel alagado. Ainda segundo o coordenador, os agentes da Defesa Civil do município estão em alerta para qualquer chamado ou solicitação, enquanto existir a previsão de novas cheias.

Morador comenta sobre situação da praia

Nem todos os moradores do Açu atribuem o avanço do mar às obras de construção do Porto. “Se isto fosse verdade era para Atafona e especialmente Grussaí estarem mais atingidas que o Açu. Além disso, também os terminais do próprio Porto do Açu estariam sofrendo tanto quanto a própria localidade”, argumentou o aposentado Durval da Silva, de 66 anos. Ele ainda ressaltou que, observando tudo que está sendo comentado, inclusive após a invasão da água na avenida Principal, na terça-feira (23), não há como a comunidade não ter o direito de participar ativamente do acompanhamento científico da movimentação e das alterações da linha da costa, a partir da construção dos terminais 1 e 2 do Porto do Açu. “Defendo o planejamento de medidas de prevenção e contenção dos problemas que já estão atingindo o balneário. Com certeza, estarei presente à reunião”, afirmou o aposentado.

FONTE: http://www.fmanha.com.br/geral/apos-invasao-do-mar-populacao-assustada