Carta denuncia “farsa das doações” das corporações que controlam plantio de árvores, commodities agrícolas, petróleo e mineração no Brasil

wp-1595857134949.png

Uma rede de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais lança a carta “A farsa das doações no combate à COVID-19 nos setores de plantações de monoculturas de árvores, agronegócio, petróleo e mineração no Brasil”, em que denuncia a falsa solidariedade das empresas no contexto de crise sanitária em que o país está imerso. 

A carta expõe ações das empresas que aproveitam o momento de crise com a pandemia de Coronavírus para fortalecer a imagem de suas marcas com doações a populações em situação de vulnerabilidade, ao passo que seguem operando em meio a pandemia expondo os próprios trabalhadores ao risco de contaminação, como ocorre em vários municípios ladeados pelas empresas onde se verificou explosão de casos. A análise feita pelo grupo denuncia que o contexto de crise sanitária e, principalmente, as ações do Governo Federal levam a um fortalecimento das grandes empresas sobre os territórios.

As organizações e os movimentos sociais questionam a campanha de marketing empresarial beneficente veiculada pela rede Globo no jornal Nacional, a chamada “Solidariedade S.A.”, em que cita o caso da CMPC, empresa de produção de celulose no estado do Rio Grande do Sul, que doou R$ 70 milhões, o que representa meros 7% do faturamento de 2019. Denuncia, ainda, ação do Governo Federal que permitiu que as empresas de celulose renegociassem suas dívidas e lhes fosse concedido novos empréstimos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que representa um ganho financeiro para as empresas que não aparece para a opinião pública. Verbas que, por outro lado, não foram empregadas para auxílio da população em um momento crucial.

A carta ressalta, ainda, o papel desempenhado pelos movimentos sociais e ONGs que — sem receber o mesmo papel de destaque na imprensa — prestam solidariedade a populações carentes das zonas urbana e rural doando alimentos, produtos de consumo não duráveis e material de limpeza com diversos casos em uma rede de apoio construída de Norte a Sul no país.

Quem desejar ler a carta em Português basta clicar [Aqui!], Espanhol [Aqui!], e Inglês [Aqui!].

Alimento para o pensamento no Dia da Terra: fundos de desenvolvimento se dissolvendo em celulose

Puma-II-1

Por Luisa Colasimone , Responsible Virgin Fibre, Social Responsibility

Hoje é o 50º aniversário do Dia da Terra, uma data simbólica comemorada em todo o mundo para mostrar apoio à ação ambiental. Mas este ano é diferente.

O ano de 2020 trouxe grandes expectativas na luta contra as mudanças climáticas, mas as pessoas foram pegas de surpresa pela pandemia do COVID-19. Nossos modos de vida são interrompidos, milhões de pessoas estão trancadas, muitos perderam parentes e amigos devido à doença, outros estão sacrificando suas vidas familiares para ajudar a combater o vírus, outros estão simplesmente tentando se adaptar e encontrar maneiras de sobreviver a isso.

Embora a emergência de saúde do COVID-19 assuma corretamente os holofotes neste momento da história, também devemos ver o que é: um lembrete de que natureza, ação humana e saúde estão intimamente entrelaçadas. À medida que os países se preparam para preparar seus pacotes de recuperação econômica pós-COVID-19, deve ficar claro que não pode haver recuperação adequada sem a ação ambiental e a proteção da natureza. Não podemos simplesmente voltar aos negócios como de costume.

Para contribuir com a conversa que está refletindo sobre o status quo e visualizando o caminho para um futuro mais saudável e resiliente, publicamos um novo documento de discussão intitulado “Development Funds Dissolving in Pulp” que fornece idéias para reflexão sobre como nós, como sociedade, queremos crescer. Através de um estudo de caso atual, ele mostra que precisamos repensar a maneira como produzimos e investimos, e que o que foi empacotado como “desenvolvimento” ou “verde” não é necessariamente responsável ou melhora a resiliência local.

A Klabin, maior produtora de papel do Brasil, conseguiu garantir fundos de bancos e agências internacionais de desenvolvimento para um grande projeto de expansão no Paraná, conhecido como projeto Puma II. Os empréstimos obtidos representam cerca de 80% do custo total estimado do projeto (US $ 2,2 bilhões).

A grande parte das finanças de bancos e agências de desenvolvimento levanta uma série de perguntas que são abordadas no novo documento de discussão. É realmente o papel dessas instituições financiar esta ou qualquer fábrica de celulose? O setor tem uma importância nacional tão estratégica? Está enfrentando dificuldades econômicas e, portanto, precisa de apoio, ou é muito importante para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e combater as mudanças climáticas?

A produção de celulose e papel têm impactos sociais e ambientais significativos. No entanto, o papel também oferece muitos benefícios à sociedade, e o acesso a produtos de higiene e segurança é algo que está na mente de todos atualmente. O desafio é produzir apenas o suficiente para atender às necessidades de todos e garantir que todos tenham acesso à sua parte justa de papel.

Para combater o colapso da biodiversidade e a crise climática que o mundo está enfrentando, e para aumentar a resiliência de nossa sociedade, é urgente que bancos e agências de desenvolvimento, assim como governos, financiem projetos que protejam e restaurem florestas naturais e protejam a segurança alimentar,  em vez de investir em projetos que exijam expansão de plantações de árvores exóticas em larga escala.

As decisões tomadas nos próximos meses para superar a crise do COVID-19 serão um ponto de virada, não apenas para a economia, mas também para as mudanças climáticas e o planeta. Não podemos nos dar ao luxo de escolher o caminho errado, não teremos uma segunda chance.

_______________________________

Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela “Environmental Paper Network” [Aqui!].