O que os agrotóxicos têm a ver com o câncer infantojuvenil no Brasil

cancer infanto juvenil

Crianças e jovens que vivem em regiões com maior produção agrícola são mais propensos a desenvolver câncer, revela estudo. Alerta sobre riscos ligados à exposição já havia sido feito pelo Instituto Nacional do Câncer

Por Schirlei Alves, especial para o Joio e O Trigo e De Olho nos Ruralistas

O câncer infantojuvenil tem aumentado no Brasil e hoje já representa a primeira causa de morte por doença entre crianças, adolescentes e jovens entre 1 e 19 anos, correspondendo a 8% do total de óbitos nessa faixa etária. O dado é do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), ligado ao Ministério da Saúde.

Ao menos 12 estudos publicados nos últimos seis anos no Brasil buscam avaliar o efeito da exposição aos agrotóxicos nas células, como mostramos em uma das reportagens da série Brasil Sem Veneno. Os resultados indicaram que os agentes químicos podem provocar dano ao DNA e, por consequência, levar ao desenvolvimento de câncer. Um dos estudos revelou ainda que crianças e jovens que vivem em regiões com maior produção agrícola são mais propensas a desenvolver a doença.

Além do crescimento dos casos de câncer infantil, as malformações congênitas e imunodeficiências também têm aumentado, alerta a médica pediatra e pesquisadora Silvia Brandalise. Ela é fundadora do Centro Infantil Boldrini, em Campinas (SP), referência no combate ao câncer no Brasil.

De acordo com a especialista, tanto a exposição ambiental, como a inalação de agentes químicos, o consumo de alimentos ou água contaminados, a dedetização da casa ou o uso de produtos na pele que contenham derivados de benzeno ou glifosato, por exemplo, são lesivos a toda célula viva. As substâncias, segundo Brandalise, têm capacidade de agredir o DNA do material genético, o que pode alterar a proliferação ou a multiplicação da célula. A leucemia em crianças de até dois anos, por exemplo, pode ocorrer pela exposição materna ou paterna no ambiente de trabalho.

“Outra coisa que se vê é um aumento dos danos neurológicos, inclusive de autismo, que [as pesquisas] associam tanto a metais pesados contaminantes de alimento e água, como a presença de glifosato [um dos ingredientes usados em agrotóxicos], que possa estar neste material. São doenças crônicas que se expressam na criança e que, essas que eu mencionei, aparecem numa linha discretamente ascendente através das décadas, há publicações sobre isso em vários estudos internacionais”.

É importante ressaltar que o aparecimento ou não da doença, no entanto, depende de outros fatores externos e também genéticos, incluindo a capacidade do indivíduo em reparar esses danos. Todas essas variáveis são levadas em conta nos estudos. Pesquisas publicadas em anos anteriores e estudos internacionais já fizeram associação da exposição aos agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer por meio de estudos epidemiológicos.

Polos do agronegócio lideram taxas de câncer infanto juvenil

Um dos estudos mais recentes, chamado “Câncer infantojuvenil: nas regiões mais produtoras e que mais usam agrotóxicos, maior é a morbidade e mortalidade no Mato Grosso”, foi publicado no ano passado, no livro Desastres Sócio-Sanitário-Ambientais do Agronegócio e Resistências Agroecológicas no Brasil, por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/ISC/UFMT).

Como o próprio título revela, o estudo epidemiológico, do tipo ecológico, investiga a distribuição dos casos de câncer infantojuvenil (0 a 19 anos) pelo estado de Mato Grosso e a associação com o uso de agrotóxicos no território. O estudo cruza dados públicos, como internações e mortes por câncer infantojuvenil, do Sistema de Internações Hospitalares do Datasus e do Sistema de Informação sobre Mortalidade, com informações coletadas por macrorregião de economia agropecuária (IMEA) e sobre a área plantada, extraídas da Produção Agrícola Municipal do IBGE/Sidra. Os números são de 2008 a 2017.

Mato Grosso lidera taxas de câncer infantojuvenil. (Foto: Divulgação/NIH)

Ao longo dos oito anos analisados, Mato Grosso registrou mais de 10,9 mil internações por câncer infantojuvenil, sendo que 30% são crianças de 0 a 4 anos. Além disso, 406 pessoas de 0 a 19 anos morreram por câncer, dos quais 30,7%  foram adolescentes e jovens de 15 a 19 anos. As leucemias foram os tipos de câncer mais presentes entre os pacientes internados, correspondendo a 50,2% dos casos. A leucemia linfóide (quando surge um linfócito imaturo e danificado na medula óssea) causou 37,2% das mortes.

O estudo observou correlação positiva entre o uso médio de agrotóxicos em litros e a média de mortes e internações por câncer infantojuvenil. É importante deixar claro que a análise leva em conta os 138 municípios onde há produção agrícola. Cuiabá, Rondonópolis e Várzea Grande, por serem polos industriais, comerciais e conglomerados urbanos, foram excluídos da análise.

De acordo com o especialista em saúde pública e pesquisador que participou da elaboração do estudo, Wanderlei Pignati, os resultados dessa e de outras pesquisas evidenciam o aumento de casos de câncer infantojuvenil no Brasil, principalmente a leucemia – câncer relacionado à produção de glóbulos brancos, de defesa do organismo, que se reproduzem muito rapidamente no nosso corpo. E um dos fatores para o desenvolvimento dessa doença, na avaliação dele, é o agrotóxico.

“Tem agrotóxicos que inibem a produção de hormônio e vários deles [provocam] mutação genética, que altera o DNA. E isso vai [resultar] na produção de células com malformação. Uma parte [das malformações] é rapidamente descartada pelo fígado, mas a outra vai se reproduzir muito, porque tem agrotóxicos que também baixam a imunidade. Então, somam-se vários fatores: mutação, desequilíbrio hormonal, baixa imunidade. Você tem as células cancerígenas se reproduzindo e não tem um sistema de imunidade para ir lá retirar aquela célula com malformação”, explicou Pignati.

Segundo a pesquisa da UFMT, mais de 1 trilhão de litros de agrotóxicos foram aplicados em 117 milhões de hectares de área plantada, entre 2008 e 2017, em Mato Grosso. Um fato curioso apontado na análise é que o número de casos de internação e mortes acompanha a migração das áreas destinadas às culturas agrícolas. Em 2008, quando as extensões de terras plantadas encontravam-se em maior parte nas regiões Oeste, Médio-norte e Sudeste do estado, os casos de internações e mortes também concentravam-se nessas regiões. Já em 2017, o maior uso de agrotóxicos e número de casos ocorreu na região Nordeste do estado, que até então não havia registrado casos de câncer infantojuvenil. O que ocorreu, segundo os pesquisadores, é que houve migração da atividade do agronegócio para essa região, num processo de expansão da fronteira agrícola em direção ao Tocantins.

Desafios da pesquisa científica 

A sanitarista Mariana Soares, autora principal dessa pesquisa, acredita que é possível avaliar a influência do território no processo de adoecimento dos indivíduos por conta das exposições ambientais, ocupacionais e fatores genéticos e hereditários. Ainda assim, ela ressalta, esse tipo de estudo tem limitações, devido à subnotificação dos registros públicos e à impossibilidade de estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

“O que a gente tem divulgado no âmbito do Neast/UFMT, são estudos epidemiológicos de cunho ecológico. Nesse caso, a gente encontrou a associação de que nos municípios onde têm maior produção agrícola é onde ocorreu maior aumento de casos de câncer infantojuvenil”, explicou. “O estudo de cunho ecológico, no entanto, não permite uma avaliação individual. Por isso, a gente vem avançando nas nossas pesquisas. Inclusive, a minha tese de doutorado é avaliar a exposição dos pais e a exposição individual da criança ou do adolescente e o adoecimento por câncer”, completou.

Efeitos de exposição a agrotóxicos são tema de pesquisa (Foto: Divulgação)

A médica e pesquisadora Silvia Brandalise explica que a associação do câncer com a exposição aos agrotóxicos só é possível de ser feita por meios estatísticos, como ocorreu com a pesquisa da UFMT, uma vez que não é possível colocar humanos em laboratórios para fazer testes. Além disso, vários outros fatores podem influenciar o desenvolvimento da doença, como os hábitos alimentares e o consumo de cigarro, álcool e outras drogas.

“Não existe um teste que você possa fazer para mostrar essa associação. A associação é epidemiológica, porque o indivíduo não vive sozinho exposto àquele produto, ele está exposto a uma série de outros produtos. Então, a única evidência é através de estudos epidemiológicos, nos quais você pega uma pessoa doente para dois ou quatro controles [não doentes], variados por sexo, idade e ano, na mesma região [e faz a comparação]”, completa Brandalise.

Outro estudo, desenvolvido na Costa Rica e publicado na Revista Científica National Library of Medicine, sugeriu que a exposição precoce a pesticidas dentro de casa, antes e depois da gestação, pode estar associada à leucemia infantil. Os pesquisadores costa-riquenhos também identificaram risco aumentado para as gestantes que moram perto de fazendas.

Um estudo ainda mais ousado, que começou em 2005 e está em andamento, propõe acompanhar os filhos de 1 milhão de gestantes ao longo de 18 anos para examinar as associações entre exposições ambientais e a incidência de câncer infantil. A pesquisa colaborativa, chamada International Childhood Cancer Cohort Consortium (Consórcio Internacional de Coorte de Câncer Infantil, na tradução livre), envolve equipes de pesquisa de 15 países em quatro continentes, inclusive a equipe da médica e pesquisadora Silvia Brandalise, em Campinas.

Sem dar entrevistas, INCA se posiciona contra os agrotóxicos 

A reportagem procurou o Instituto Nacional do Câncer para comentar a associação entre exposição aos agrotóxicos e incidência de câncer, especialmente em crianças, uma vez que o órgão já abordou essa questão em suas publicações, mas não conseguimos nenhuma entrevista. A primeira tentativa ocorreu em março e a segunda, em junho. A justificativa na primeira vez foi falta de tempo. Na segunda, a pessoa responsável nos disse que não poderia dar entrevista em decorrência do período eleitoral. Alguns documentos também foram retirados do ar por conta das eleições. A mensagem deixada no site é a seguinte: “até o encerramento das eleições, diversos materiais do Instituto, como livros, folhetos e cartilhas ficarão indisponíveis”.

De qualquer forma, a assessoria de imprensa compartilhou alguns desses documentos que ainda estão públicos, entre eles o posicionamento do Inca em relação aos agrotóxicos. Na carta de cinco páginas, publicada em 2020, o Inca demarca a sua posição contrária às práticas de uso de agrotóxicos e ressalta os riscos à saúde. O órgão critica o atual modelo de cultivo, com intensa aplicação de agrotóxicos, e a liberação de sementes transgênicas. De acordo com a carta, essa liberação teria sido responsável por colocar o país “no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos”, já que o cultivo das sementes geneticamente modificadas permite o uso de grandes quantidades desses venenos.

A instituição menciona as intoxicações agudas, que geralmente ocorrem pela exposição ocupacional, e causam irritação da pele e dos olhos, coceira, vômitos e diarréias. E também aborda as intoxicações crônicas, que ocorrem pela presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos e no meio ambiente. Mesmo que as doses de agrotóxicos sejam baixas, o Inca afirma que os efeitos podem aparecer muito tempo após a exposição, o que dificulta a correlação com o agente. “Dentre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos podem ser citados infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imunológico e câncer”, afirma o documento.

Na carta, o Inca faz ainda um alerta sobre os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA), da Anvisa, que revelaram amostras de alimentos com resíduos de agrotóxicos em quantidades acima do permitido e com presença de substâncias não autorizadas.

Em 2019, o instituto publicou uma nota se posicionando contrária ao Projeto de Lei 6.299/2002, mais conhecido como o “Pacote do Veneno”, que propõe flexibilizar a autorização e o registro de agrotóxicos no país.

Defesa da Agroecologia

O Inca não só criticou o uso de agrotóxicos como defendeu a substituição do modelo de agronegócio pela produção agroecológica, prevista na Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Segundo a instituição, a agroecologia otimiza a integração entre capacidade produtiva e conservação da biodiversidade, além de funcionar como uma alternativa aos agrotóxicos.

O engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo explica que o modelo atual de produção em larga escala não é possível sem o uso de veneno. É inviável para o produtor identificar uma praga que surgiu em um cantinho de uma plantação cuja área equivale a milhares de campos de futebol. O veneno, portanto, é aplicado preventivamente sobre toda a lavoura. “Ele aplica o veneno por via das dúvidas, porque ele não pode permitir que a infestação se transforme em um dano econômico relevante”. Só que, ao aplicar o veneno, muitas vezes por pulverização aérea, ele contamina não só os alimentos, mas a água, o solo, os mananciais e até a produção orgânica do vizinho.



Retomada de políticas para produção agroecológica e camponesa é prioridade de movimentos sociais. (Foto: Reprodução)

Para implementar um sistema agroecológico, segundo Melgarejo, seria necessário estabelecer um tamanho máximo da propriedade, condicionado à capacidade de gerenciamento dos trabalhadores, o que, afirma ele, levaria a uma reforma agrária.

“O que nós consumimos de um pé de café, por exemplo, corresponde a 0,2%. Todo o resto é lixo para o agronegócio do café. Na lavoura de arroz, aquelas montanhas de palha viram lixo, é coisa para ser queimada. Para o pequeno produtor, tudo o que a natureza produz é matéria orgânica e insumo para controlar a velocidade de escorrimento da água e o teor de matéria orgânica no solo. Tem que ser reincorporado. E a agroecologia tem diversas maneiras de trabalhar isso”, completa.

A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, citada na carta do Inca, foi instituída em 2012, durante o governo de Dilma Rousseff, com o apoio de organizações da sociedade civil, para estimular a oferta de alimentos saudáveis e o uso sustentável dos recursos naturais. A Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo), criada para articular essas políticas, foi extinta no governo de Jair Bolsonaro. No Painel do Orçamento Federal, é possível encontrar ao menos 14 políticas públicas relacionadas à agroecologia, produção orgânica ou agrobiodiversidade. Apenas uma delas ainda persiste. Mesmo quando em vigor, no entanto, as demais políticas encontradas no painel não contavam com orçamentos expressivos.

Procurado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) afirmou que instituiu por meio de portaria, em 2 de dezembro de 2021, o Grupo de Trabalho do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) e novas instâncias de gestão para voltar a avançar no tema. “Neste momento, os documentos produzidos no GT estão em análise para posterior publicação”, informou via assessoria de imprensa. Sobre as políticas públicas, o Mapa alega que há três programas, sendo que um deles conta com quatro ações orçamentárias distintas, voltados para a Política de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo). São eles: Defesa Agropecuária, Agropecuária Sustentável e Pesquisa e Inovação Agropecuária.

Imagem em destaque (Denise Matsumoto): projeto Brasil Sem Veneno mapeia impactos dos agrotóxicos em todo o país

| Schirlei Alves é repórter de O Joio e o Trigo. |


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!  ].

Observatório dos Agrotóxicos: apesar das evidências de impactos graves sobre a saúde humana, governo Bolsonaro autoriza mais 26 agrotóxicos

bancada do cancerA aprovação do “Pacote do Veneno” pela Câmara de Deputados abriu ainda mais espaço para que o governo Bolsonaro continue liberando venenos agrícolas altamente perigosos para uso nas áreas cultivadas com monoculturas de exportação

Enquanto crescem evidências da associação entre o uso abusivo de agrotóxicos em áreas de monocultura e a incidência de vários tipos de cânceres, o governo Bolsonaro continua sua marcha desenfreada de aprovações de venenos agrícolas.  Essa constatação fica evidente com a publicação nesta 6a. feira (04/03) do Ato No 11 de 25 de fevereiro de 2021 pelo qual ficam liberados mais 24 agrotóxicos, o que faz com que o total de produtos liberados desde janeiro de 2019 chegue 1.635.

Há que se notar que na lista dos agrotóxicos liberados pelo Ato No 11 se encontram “velhos conhecidos” da lista de substâncias proibidas pela União Europeia, incluindo os herbicidas Glufosinato, Imazetepir, o inseticida neonicotinóide Imidacloprido (um “assassino de abelhas”) e o fungicida Clorotalonil. Todas essas substâncias foram banidas pela União Europeia por causarem danos não apenas ao ambiente, mas também à saúde humana.

Se levarmos em conta apenas a pesquisa mencionada acima, que foi liderada pela pesquisadora da Fiocruz Lidiane Silva Dutra sobre a relação espacial entre o uso de agrotóxico e a incidência de três tipos de câncer, fica fácil entender os efeitos de médio e longo prazo que essa tsunami de agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro implicará em termos de adoecimento e, consequentemente, pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). O pior é que, como foi explicitado na pesquisa em questão, o padrão de distribuição espacial da incidência de doenças têm implicações profundas para o direcionamento de políticas públicas.

A importância de se impedir a aprovação do PL do Veneno no Senado Federal

A documentação científica da epidemia de doenças que resultam da exposição ocupacional ou pela ingestão de alimentos e água contaminada por resíduos de agrotóxicos torna ainda mais central o acompanhamento da tramitação do chamado “Pacote do Veneno” no Senado Federal. É que mesmo sem a profunda liberalização que o novo regime de aprovação trará, o Brasil já foi transformado em uma espécie de latrina de venenos agrícolas altamente perigosos que não podem ser mais utilizados nos países que os fabricam.

Por outro lado, há que se continuar denunciando o padrão duplo que as fabricantes europeias de venenos agrícolas praticam, pois enquanto defendem metas de sustentabilidade para suas operações no continente europeu, continuam lucrando bilhões com a venda de agrotóxicos que a União Europeia já proibiu por causa de sua alta periculosidade ambiental e humana.

Recorde tóxico: venda de agrotóxicos alcançou R$ 75,81 bilhões em 2021 no Brasil

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Por Leonardo Gottems, repórter da AgroPages, para a Agnews

 A receita líquida do mercado de defensivos agrícolas (i.e., venenos agrícolas, grifo meu) no Brasil deve chegar a US $ 13,3 bilhões (R$ 75,81 bilhões) em 2021, segundo o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Defesa Vegetal).

A projeção foi apresentada em relatório da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), ao qual a AgroPages teve acesso em primeira mão.

Se confirmada, essa receita líquida das empresas de agrotóxicos aumentaria 7,3% em relação a 2020. No total, US $ 6,2 bilhões (R$ 35,34 bilhões) em produtos foram importados neste ano, uma queda de 10,1% em relação às compras do ano anterior.

Segundo o Sindiveg, que reúne as principais empresas agroquímicas formuladas com patentes no Brasil, estima-se o consumo de 536 mil toneladas de agrotóxicos “efetivamente aplicados” nas lavouras (conceito PAT = “produto por área tratada”). Se a projeção se confirmasse, também haveria uma queda de 10,1% em relação a 2020.

Segundo Ciro Marino, presidente-executivo da Abiquim, “o faturamento cresceu, mas os custos também. Com um bom equilíbrio, a única preocupação com a falta de competitividade é claramente expressa pela crescente participação das importações na carteira de atendimento às necessidades brasileiras. As estimativas já apontam para um déficit recorde do setor – em torno de US $ 45 bilhões ”, alertou.

Terceiro Trimestre

A área tratada com agrotóxicos cresceu 8,7% no terceiro trimestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano anterior, afirmou o Sindiveg. No total, foram tratados 209,3 milhões de hectares, um acréscimo de 16,8 milhões de hectares. A soja foi o produto com maior área tratada (32% do total), seguida por pastagem (20%), trigo (12%), milho (10%), cana-de-açúcar (7%) e outras culturas.

“Esse resultado se deve a uma série de fatores, com destaque para o início do plantio de verão e a expectativa de alta na safra 2021-2022, além da expectativa de preços firmes para as principais commodities”, explicou Julio Borges, presidente do Sindiveg. Em volume, os defensivos agrícolas aplicados no 3º trimestre alcançaram 154,6 mil toneladas, aumento de 6,6% em relação ao mesmo período de 2020.

Entre os principais segmentos de produtos, houve crescimento de 14% no uso de fungicidas (de 12.800 t para 14.500 t), e de 12% no uso de inseticidas (de 14.800 t para 16.500 t). 7% no uso de tratamento de sementes (1.700 t a 1.800 t) e 4% no uso de herbicidas (de 104.800 t a 109.300 t). O Sindiveg encomendou esses dados à Spark Consultoria Estratégica.

O valor de mercado dos defensivos agrícolas (i.e., venenos agrícolas, grifo meu) aplicados atingiu US $ 1,7 bilhão no terceiro trimestre, aumentando 21,7% em comparação com julho-setembro de 2020 (US $ 1,4 bilhão). “A expectativa de crescimento da próxima safra é uma ótima notícia para todos os elos da cadeia produtiva. Porém, é importante destacar que o crescimento da área exige mais atenção dos produtores aos desafios fitossanitários, que não são poucos e estão sempre se renovando”, afirmou. Borges acrescentou.

O presidente do Sindiveg avaliou o crescimento da área tratada no terceiro trimestre, mas expressou preocupação com o cenário global, “que é instável e preocupa muito, devido à escassez de matérias-primas importadas, aumento de custos e, principalmente, falta de garantia de entrega de insumos pela China, nosso principal fornecedor. ”

“O Sindiveg está atento aos crescentes custos das matérias-primas importadas e aos problemas logísticos. Principalmente nas últimas semanas, temos enfrentado dificuldades no recebimento de insumos importantes. A organização e todas as indústrias associadas estão trabalhando incansavelmente para resolver a situação o mais rápido possível, para evitar uma possível falta de insumos (i.e., agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, grifo meu), mas o cenário é extremamente preocupante ”, concluiu Borges.

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Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo AgNews [Aqui!].

Em livro de “acesso aberto”, Markus Kröger expande conhecimento sobre os impactos das monoculturas e da mineração na Amazônia e no Cerrado

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A editora Routledge acaba de lançar o livro “Extractivisms, Existences, and Extinctions: Monoculture Plantations and Amazon Deforestation “, do pesquisador finlandês Markus Kröger, da Universidade Helsinki,  explora as redistribuições existenciais que as fronteiras extrativistas criam, indo além dos estudos existentes, trazendo para a discussão em inglês muito da sabedoria do entendimento das comunidades rurais e florestais latino-americanas sobre os fenômenos extrativistas e a destruição e mudanças em vidas e ambientes vividos que eles criam.

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Markus Kröger explora os diversos tipos de extrativismo, desde monoculturas agroextrativistas até a extração mineral, e analisa as diferenças entre eles. As transformações existenciais da Amazônia e do Cerrado no Brasil, antes habitadas por indígenas, mas agora desmatadas por grandes proprietários rurais que expandem as plantações de soja, são analisadas em detalhes. Kröger também compara os extrativismos com as mudanças existenciais locais e mais amplas por meio das redes globais de produção e seus deslocamentos, produzidos por operações extrativistas baseadas em monoculturas. Ancorados nos próprios dados etnográficos produzidos por ele mesmo, Kröger faz yna comparação de lições através de múltiplas fronteiras extrativistas. Desta forma, os capítulos do livro servem para integrar os muitos relatos de violência e mudanças  epistêmicas e morais em enclaves extrativistas, olhando para eles com a ajuda da ontologia política.  Desta forma, o livro oferece detalhes sobre como caracterizar e comparar diferentes tipos e graus de extrativismos e anti-extrativismos.

Este livro, de natureza transdisciplinar, fornece novos conceitos de organização e estruturas teóricas para começar a analisar a política de recursos naturais em desenvolvimento da era pós-coronavírus, bem como o avanço da emergência climática em um mundo multipolar cada vez mais caótico.

Esta obra certamente será será de interesse para estudantes e acadêmicos nas áreas de desenvolvimento internacional, cadeias de valor globais, economia política, estudos latino-americanos, ecologia política e comércio internacional, bem como qualquer pessoa envolvida com questões práticas e políticas relacionadas à globalização.

Finalmente, quem tiver interesse em baixar este livro na íntegra, e de forma gratuita, pode fazê-lo clicando [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: em mais 3 atos, governo Bolsonaro confirma opção por produtos banidos, supremacia chinesa e uso preferencial em monoculturas

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Dando continuidade a um trabalho de acompanhamento iniciado em janeiro, o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski divulga hoje a lista completa dos 1.507 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019. A presente divulgação inclui ainda as planilhas relativas aos atos de No. 42, 47 e 49 publicados em setembro e novembro de 2021.

A disponibilização dos conteúdos específicos desses 3 atos e da lista completa dos 1.507 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro visa dotar pesquisadores e ativistas sociais de uma ferramenta que lhes permita aprofundar esforços em curso para entender o grau de dependência do modelo agro-exportador de venenos agrícolas altamente perigosos para o ambiente e para a saúde humana. 

Como venho acompanhando o processo de liberação “fast track” de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, sob a batuta firme da ministra Tereza Cristina (DEM/MS), considero que já seja possível verificar a presença de algumas características marcantes nessa verdadeira “tsunami” de venenos agrícolas, as quais procurarei dar indicações gerais logo abaixo.  

A presença marcante de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa - CicloVivo

Um dos elementos que considero fundamental para se entender a atual dinâmica de aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro é a presença de uma quantidade significativa de agrotóxicos cujos princípios ativos já foram identificados como causadores de graves impactos sobre a saúde humana e sobre fauna, biota, solos e recursos hídricos. Alguns deles já foram banidos há algum tempo na União Europeia e em outros mercados importantes para agrotóxicos, como os EUA e a China. Alguns exemplos desses agrotóxicos banidos são: Ametrina, Atrazina, Acefato, Fipronil e Paraquate. Além disso, produtos, como por exemplo o Glifosato) que estão sendo banidos paulatinamente em outras partes do mundo, continua sendo liberados e classificados como sendo de baixo risco para a saúde humana, em que pese o conhecimento científico existente que aponta o contrário. Colocados juntos, os agrotóxicos banidos representam em torno de 30% dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro, sendo que o banimento paulatino de novos produtos tenderá a aumentar esse valor nos próximos anos.

A forte dependência da indústria chinesa de agrotóxicos

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Um elemento particularmente significativo é o fato de que o Brasil criou uma relação de duas mãos com a República Popular da China, com uma vantagem comparativo para o maior parceiro comercial brasileiro que compra soja e vende agrotóxicos e outros insumos agrícolas, realiza praticamente uma captura da agricultura brasileira. Essa captura fica evidente quando se vê que sem a China a produção agrícola brasileira não teria como ser escoada e que, ao mesmo tempo, o Brasil hoje não teria como substituir os insumos chineses, seja por causa de preços ou pelo fato de que a indústria chinesa está oferecendo produtos que já não estão sendo produzidos nos países centrais que originalmente produziam os agrotóxicos banidos que estão sendo liberados por aqui.

O peso das monoculturas de exportação no uso de agrotóxicos no Brasil

No Brasil, um continente de monoculturas banhado em agrotóxicos

Ao se verificar a lista de agrotóxicos liberados a partir de janeiro de 2019 é possível observar que a imensa maioria deles está sendo autorizada para culturas dominadas por monoculturas, tais como soja, algodão, milho e cana de açúcar.  Essa predominância de liberações tem relação direta com o nível de consumo, visto que essas quatro monoculturas são responsáveis por mais de 80% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Essa característica além de desnudar todo o discurso de que precisamos do uso intensivo de agrotóxicos para garantir a produção de alimentos, também evidencia que a população brasileira está arcando com um alto custo em termos de poluição ambiental e ocupacional para garantir a acumulação de riqueza por grandes latifundiários e o setor financeiro que são os principais beneficiários de um modelo agrícola fortemente dependente do uso intensivo de substâncias altamente perigosas.

O resultado final deste modelo é a transformação do Brasil em uma zona de sacrifício ambiental e sanitário

tereza bolsonaro

A análise dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro também desmonta o discurso de que a aprovação “fast track” de agrotóxicos visaria um processo de modernização do portfólio de venenos agrícolas usados na agricultura brasileira. A maioria dos produtos liberados contém princípios ativos que estão presentes há algum tempo no mercado, sendo que muitos deles foram descontinuados no norte global por serem altamente perigosos.  Assim, a liberação e venda desses produtos no Brasil, para uso principalmente na agricultura de exportação, não tem nada de modernizador, e atende apenas os interesses dos grandes latifundiários e as corporações transnacionais (com forte participação chinesa) que controlam o mercado global de agroquímicos.

O resultado disso tudo ainda não é possível de se determinar, até porque estamos em meio a um processo em desenvolvimento. Mas a professora Larissa Bombardi, que afirmou recentemente que o Brasil vivencia hoje um grande desastre industrial por causa dessa opção preferencial por venenos agrícolas altamente perigosos.

O acesso às bases de dados do Observatório dos Agrotóxicos

Como sempre ocorre quando são feitas as liberações de agrotóxicos, o Observatório dos Agrotóxicos está liberando a planilha total dos 1.507 agrotóxicos (Aqui!), e dos atos individuais  42 (Aqui!) 47 (Aqui!) e 49 (Aqui!).

 

Hoje é dia de Festival Cultural pela vida e contra os agrotóxicos; veja a programação completa da Jornada  

Ação terá transmissão online e com intervenções ao vivo. Os artistas Gregório Duvivier, Projeto Estado de Emergência, grupo Mandicuera de fandango caiçara estão entre as participações confirmadas

festival cultural

Por Comunicação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida 

Está chegando o Festival Cultural Pela Vida e Contra os Agrotóxicos, neste 3 de dezembro, Dia Internacional de Luta Contra os Agrotóxicos. Será um encontro para denunciar os malefícios trazidos pelo veneno, e também  anunciar a agroecologia como saída para garantir alimentos saudáveis e vida no planeta. 

A atividade começa às 18h, de forma virtual, com apresentações artísticas, receitas agroecológicas, e depoimentos, além de intervenções presenciais de rua. A ação integra a Jornada de Lutas Contra os Agrotóxicos, que ocorre em todo o Brasil entre os dias 27 de novembro e 11 de dezembro. >> Confira a programação completa da Jornada logo abaixo. 

Entre as participações confirmadas então do ator e humorista Gregório Duvivier; do Projeto Estado de Emergência, de Mato Grosso; do grupo Mandicuera de fandango caiçara; do litoral paranaense; e Ana Chã, integrante do Setor de Cultura do MST e do grupo musical As Cantadeiras. 

Convidamos todas, todos e todes e se somarem com a gente! Divulgue e participe! 

Origem da data

No dia 3 de dezembro de 1984, a cidade de Bhopal, na Índia, viveu uma tragédia que marcou para sempre a história. Mais de 27 toneladas do gás isocianato de metila vazaram de uma fábrica de agrotóxicos, matando 2,2 mil pessoas na hora e atingindo cerca de 600 mil ao longo dos anos seguintes. Os agrotóxicos seguem matando e adoecendo pessoas, animais e a biodiversidade em todo o mundo. E no Brasil, o problema é ainda mais grave no governo Bolsonaro. 

Confira a programação completa do Festival e da Jornada: 

FESTIVAL NACIONAL CONTRA OS AGROTÓXICOS

03/12 – Apresentações artísticas, intervenções, receitas, depoimentos.
Confira as participações já confirmadas:

– Gregório Duvivier, ator, humorista, roteirista e escritor. 

– Kleber Mendonça, diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema.

– Ana Chã, integrante do Setor de Cultura do MST e do grupo musical “As Cantadeiras”. 

– Projeto Estado de Emergência, do Mato Grosso, formado por Ahgave, Pacha Ana e DJ Taba. 

– Grupo Mandicuera, fandango caiçara do litoral paranaense.  

– Gilson Saraiva, Físico, Matemático, Músico, Cantor e Compositor.

– Eugênio Leandro, compositor e escritor, nasceu em Fortaleza, mas criado em Limoeiro do Norte, onde vivenciou a arte popular do Vale do Jaguaribe.

– Receitas agroecológicas da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (Copavi), de Paranacity (PR) @copavioficial e a da baixada pantaneira.

Nesta sexta-feira, 03 de dezembro, às 18h no horário de Brasília.

Transmissão ao vivo pelos canais da Campanha:

Facebookhttps://www.facebook.com/contraosagrotoxicos 

Youtube: https://www.youtube.com/contraosagrotoxicos  

SEMINÁRIOS REGIONAIS 

29/11 – Seminário Centro-oeste (via zoom)

Tema: “O uso de Agrotóxicos contra os povos tradicionais, contaminação da água e racismo ambiental na região centro-oeste”

Horário: das 15h às 17h 

01/12 – Seminário Região Sul (via zoom)

Tema: O Impacto do uso de Agrotóxico na Saúde e no Meio Ambiente

Horário: das 9h às 12h 

Link para inscrição: https://forms.gle/G4VkPbS8y6EAEZHN9 

06/12 – Seminário Região Nordeste (via zoom)

Tema: Agrotóxicos e Transgênicos: outros caminhos são possíveis

Horário: 9h30 a 12h (horário de Brasília) 

Link para inscrição: https://forms.gle/uCAxVVCMQkrBe5U47 

10/12 – Seminário Região Amazônica (via zoom)

Tema: a confirmar

Horário: 17h (horário de Brasília)

LANÇAMENTOS DE DOSSIÊS CONTRA O PACOTE DO VENENO

27/11 – Belo Horizonte 

Horário: 19h 

Local: Armazém do Campo Belo Horizonte. Av. Augusto de Lima, 2136, Barro Preto. 

04/12 – São Luís (MA)

Local: Salão Cultural da Terra,  Maria Firmina dos Reis, Rua Rio Brando 420, Centro. 

Horário: 8h  

04/12 – Piraquara (PR) 

Local: Feira Agroecológica de Piraquara, na Praça Afonso Marcos Favretto, Rua Wagner Luiz Boscardin, n. 08, bairro Laranjeiras.

Horário: 13h 

10/12 – Cascavel (PR) 

Local: Câmara de Vereadores de Cascavel, Rua Pernambuco, 1843, Centro. 

Horário: 19h 

11/12 – Brasília (DF)

Local: Feira da Ponta Norte, CLN 216, Asa Norte, Brasília

Horário: 9h 

Esqueça o pop, pois o agro é só pó

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A combinação de uma seca aguda com episódios meteorológicos intensos característicos das mudanças climáticas está servindo para enterrar de vez a imagem cuidadosamente construída de que o agro (melhor dizendo, o latifúndio agro-exportador) é algo que poderia ser considerado pop (ou seja, moderno).

A verdade é que as cenas que mais parecem saídas do primeiro filme do “Mad Max” vem revelando que que o agro é o artífice de uma destruição ambiental em escala ampliada, e que é capaz de gerar cenas apocalípticas no estado com a principal economia do Brasil, a partir da implantação de diferentes monoculturas de exportação que removeram a cobertura de Mata Atlântica que, além de sua extrema biodiversidade, fornecia importantes serviços ambientais, a começar pelo fornecimento de água doce.

Agora o que os habitantes de muitos municípios paulistas estão vivenciando é a chegada de gigantescas nuvens de poeira oriundas das áreas de monocultura, e que se espalham para outros estados como é o caso de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Exagero meu? Vejam então a sequência abaixo de vídeos  vindos dos municípios de Ilha Solteira, Pereira Barreto, Dracena no estado de São Paulo, e de Coxim no Mato Grosso do Sul, respectivamente

E não se enganem, o que está causando este fenômeno é a busca desenfreada e descontrolada de lucros pelo latifúndio agro-exportador. Pense nisso na próxima que as entidades do agronegócio lançarem alguma campanha publicitária para vender uma cara de sustentabilidade ambiental com imagens de artistas famosos e lendas do futebol brasileira.  Quando isso acontecer, pois vai acontecer, lembre que o agro não é pop, o agro é pó.

O agro é pó, e não pop… e tome “haboob caipira” para provar isso

haboob

A mídia corporativa até agora deu uma cobertura do tipo “passar o pano” para um intenso processo de invasão de nuvens de poeira que vem ocorrendo em Ribeirão Preto (SP) e outros municípios como Franca (que ficam a cerca de 80 km de distância  um da outro). Segundo informou de forma bem prosaica o jornalista Wanderley Preite Sobrinho para o site UOL, o fenômeno que está ocorrendo no coração do latifúndio agro-exportador brasileiro, que transformou a paisagem dos municípios atingidos em uma espécie de Dubai caipira, se chama “haboob” e resulta da ocorrência de fortes temporais de chuva com ventos fortes que, ao entrarem em contato com o solo seco, encontram resquícios de queimada, poeira e vegetação, os quais acabam criando um “rolo compressor” de sujeira que pode chegar a até 10 quilômetros de altura (ver vídeos abaixo).

O problema é que a matéria escrito Wanderley Preite Sobrinho “esqueceu” de mencionar que Ribeirão Preto e os municípios mais próximos têm a maioria das suas terras agrícolas destinadas principalmente ao plantio da monocultura da cana-de-açúcar, o que facilitou a ocorrência deste “haboob”, provavelmente porque os temporais encontraram muita terra nua após a colheita anual de grandes extensões desta lavoura. Assim, ainda que a situação do uso da terra seja ligeiramente diferente, a proximidade espacial fez o município, mais conhecido pelo plantio da monocultura do café, também sofresse os impactos deste fenômeno climático. Em comum, a remoção praticamente total da cobertura florestal.

E a questão aqui é simples: a persistência das grandes monoculturas (independente de qual seja a lavoura dominante) está no cerne da geração deste tipo de fenômeno que antes parecia destinado a ocorrer em regiões desérticas, mas que agora estão ocorrendo aqui mesmo no Brasil, em regiões que outrora eram ocupadas por grandes extensões de florestas, como era o estado de São Paulo até metade do século XX.

Esse “haboob caipira” é mais uma prova de que as mudanças climáticas estão ocorrendo em uma velocidade até maior do que a comunidade científica tem previsto. E quanto antes acordarmos para essa realidade, mais cedo iremos pensar seriamente em nos ajustarmos a um clima em ritmo de mudança acelerada.

Voltando à matéria de Wanderley Preite Sobrinho, uma parte hilária da mesma é sobre um pedido da Sabesp para que as pessoas não lavem a calçada para tirar a poeira trazida pelo haboob. O problema é aqui, lavar com qual água se a região passa por uma gravíssima crise hídrica? 

Agricultura afogada em veneno: Atlas do Espaço Rural mostra avanço do uso de agrotóxicos em todas as regiões brasileiras

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A 2a. edição do “Atlas do Espaço Rural” que acaba de ser publicado pelo IBGE mostra o avanço do uso de agrotóxicos em todas as regiões brasileiras. Segundo os dados levantados pelas equipes de pesquisa que produziram o Atlas, a proporção de estabelecimentos que admitiram usar agrotóxicos aumentou 22,9% nos últimos 11 anos, passando de 27,0% em 2006 para 33,1% em 2017. A publicação informa ainda que o aumento ocorreu em todas as grandes regiões, com o Centro-Oeste apresentando a maior elevação em pontos percentuais (13,3) em comparação a 2006 (ver figura abaixo).

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Há que se salientar que, apesar do avanço no Centro-Oeste, a região Sul continua sendo aquela com maior uso proporcional de agrotóxicos, muito em parte pela forte presença de diversas monoculturas, especialmente as de soja e de plantio de árvores para exploração industrial (ver figura abaixo).

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As principais consequências desse avanço no uso de agrotóxicos é a contaminação de ecossistemas e dos usuários e consumidores dos alimentos que são obtidos a partir de um modelo fortemente dependente do uso de venenos agrícolas cada vez mais perigosos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Combinação de agrotóxicos encurta a vida e modifica comportamento de abelhas

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Peter Moon  |  Agência FAPESP – Um novo estudo realizado por biólogos brasileiros sugere que o efeito dos agrotóxicos sobre as abelhas pode ser maior do que se imagina. Mesmo quando usado em doses consideradas não letais, um inseticida encurtou o tempo de vida dos insetos em até 50%. Além disso, os pesquisadores observaram que uma substância fungicida considerada inofensiva para abelhas alterou o comportamento das operárias, tornando-as letárgicas – fato que pode comprometer o funcionamento de toda a colônia.

Resultados da pesquisa foram publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature. O trabalho foi coordenado por Elaine Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. Também participaram pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

A FAPESP apoiou a investigação por meio do Projeto Temático “Interações abelha-agricultura: perspectivas para a utilização sustentável“, coordenado pelo professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro. Também houve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis).

É um fato conhecido que diversas espécies de abelhas estão desaparecendo em todo o mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, o fenômeno tem sido observado desde o ano 2000. No Brasil, desde pelo menos 2005.

No Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, foi registrada a perda de aproximadamente 5 mil colmeias – algo equivalente a 400 milhões de abelhas.

E não estão desaparecendo apenas os indivíduos da espécie Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal responsável pela produção comercial de mel. Nas matas brasileiras, há centenas de espécies selvagens possivelmente afetadas. O impacto econômico previsto é imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado por esses insetos. É o caso, por exemplo, de todas as frutas comestíveis.

A causa do sumiço repentino em massa também já é conhecida: a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. Compostos químicos como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas contaminam as abelhas que saem da colônia em busca de pólen e acabam atingindo toda a colmeia. Uma vez dentro da colônia, tais compostos são ingeridos pelas larvas, comprometendo sua longevidade e o funcionamento da colônia como um todo.

“No Brasil, as monoculturas de soja, milho e cana dependem do uso intensivo de inseticidas. A contaminação das colônias de abelhas ocorre quando, por exemplo, os agricultores não respeitam uma margem de segurança mínima (são recomendados 250 metros) na aplicação de defensivos agrícolas entre as lavouras e as áreas florestais que as margeiam. Tem gente que aplica produtos químicos até o limite da floresta”, disse Malaspina.

“Na Europa e nos Estados Unidos, as colônias de abelhas morrem aos poucos. Desde a constatação inicial da morte das primeiras abelhas até a morte da colônia pode levar um mês ou até cinco meses. No Brasil não é assim. Aqui, as colmeias desaparecem em apenas 24 ou 48 horas. Não existe nenhuma doença capaz de matar uma colmeia inteira em 24 horas. Só inseticidas podem provocar isso”, disse.

Malaspina destaca que há mais de 600 tipos de ingredientes ativos em inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas usados no Brasil.

“É impossível testar em laboratório a ação de cada um deles. Não há dinheiro para isso”, disse.

No Projeto Colmeia Viva, entre os anos de 2014 e 2017, foi realizado um estudo para identificar, dentre os 44 ingredientes ativos mais usados na agricultura paulista, quais poderiam estar relacionados à mortalidade das abelhas. Foram detectados oito ingredientes com ação comprovadamente letal para os apiários.

A equipe do projeto coletou material em 78 municípios paulistas. Trabalhando com os apicultores, os agricultores e a indústria de defensivos, os pesquisadores recomendaram uma série de ações para proteger apiários, como a observação de margens de mínima segurança na aplicação de agrotóxicos e de boas práticas agrícolas.

Uso associado de defensivos

Segundo os cientistas, os efeitos benéficos do Projeto Colmeia Viva podem estar começando a surgir. No mesmo período em que sumiram as 5 mil colônias de abelhas no Rio Grandes do Sul, as perdas foram menores nos estados de Santa Catarina e Paraná – entre os apicultores paulistas o impacto foi ainda mais reduzido.

“Mas isso não quer dizer que as abelhas de São Paulo estão a salvo dos defensivos agrícolas. Longe disso. Estamos começando a testar quais são os efeitos sobre as abelhas melíferas do uso associado de inseticidas com fungicidas. E já descobrimos que um determinado tipo de fungicida, que quando aplicado de modo isolado no campo é inofensivo às colmeias, ao ser associado a um determinado inseticida se torna nocivo. Não chega a matar as abelhas como os inseticidas, mas altera o comportamento dos insetos, comprometendo a colônia”, disse Zacarin.

Os ingredientes ativos investigados foram a clotianidina, inseticida usado para controle de pragas nas culturas de algodão, feijão, milho e soja, e o fungicida piraclostrobina, aplicado nas folhas da maioria das culturas de grãos, frutas, legumes e vegetais.

“Realizamos ensaios de toxicidade de agrotóxicos em larvas de abelhas e em concentrações ambientais relevantes, ou seja, concentrações realistas, como as encontradas residualmente no pólen das flores”, disse Zacarin.

A observação é importante. Qualquer agrotóxico em grandes concentrações dizima colmeias quase imediatamente. Mas o que os pesquisadores estudam são os efeitos sutis e de médio a longo prazo sobre as colmeias. “O que nos interessa é descobrir a ação residual dos agrotóxicos, mesmo em concentrações baixíssimas, sobre esses insetos”, disse Zacarin.

Mudança de comportamento

Os testes foram todos feitos in vitro, com insetos confinados dentro de laboratórios para não ocorrer contaminação ambiental. Nessas condições, larvas de Apis mellifera foram separadas em grupos diferentes e alimentadas entre o terceiro e o sexto dia de vida com uma dieta composta de açúcar e geleia real. O que variou foi o tipo de ingrediente tóxico presente no alimento, sempre em concentrações diminutas, na faixa de nanogramas (bilionésimos de grama).

A dieta do grupo controle não continha agrotóxico. No segundo grupo, a dieta foi contaminada com o inseticida clotianidina. No terceiro grupo, a contaminação foi por fungicida (piraclostrobina). E, no quarto grupo, havia uma associação do inseticida com o fungicida.

“Depois do sexto dia de vida, as larvas se tornam pupas e entram em metamorfose, de onde emergem como operárias adultas. No campo, uma abelha operária vive em média 45 dias. Em laboratório, confinada, vive menos. Mas os insetos alimentados com a dieta contaminada pelo inseticida clotianidina em baixíssima concentração apresentaram tempo de vida drasticamente menor, de até 50%”, disse Zacarin.

Já entre as larvas alimentadas com a dieta contaminada apenas pelo fungicida piraclostrobina não se observou nenhum efeito sobre o tempo de vida das operárias.

“Com base apenas nesse resultado, poderíamos imaginar que o fungicida em baixa concentração é inofensivo às abelhas. Infelizmente, não é o que ocorre”, disse a pesquisadora.

Nenhuma abelha morreu na fase de larva e de pupa. Porém, verificou-se que, na fase adulta, as operárias sofreram modificação em seu comportamento. Elas se tornaram mais lentas do que os insetos do grupo controle.

“As operárias jovens fazem inspeções diárias na colmeia, o que as leva a percorrer certa distância. Elas se movimentam bastante dentro da colônia. Verificamos que, no caso das abelhas contaminadas tanto pelo fungicida sozinho ou associado ao inseticida, a distância percorrida e a velocidade foram muito menores”, disse Zacarin.

Caso o mesmo ocorra no meio ambiente com parte considerável das operárias de uma colmeia, tal alteração de comportamento acabaria por prejudicar o funcionamento de toda a colônia. Essa pode ser uma das razões da extinção em massa de abelhas.

Ainda não se sabe de que forma o fungicida age para comprometer o comportamento das abelhas. “Nossa hipótese é que a piraclostrobina, quando associada a um inseticida, diminuiria o metabolismo energético das abelhas. Novos estudos em andamento podem vir a elucidar esse mecanismo”, disse Zacarin.

O artigo Late effect of larval co-exposure to the insecticide clothianidin and fungicide pyraclostrobin in Africanized Apis mellifera (doi: https://doi.org/10.1038/s41598-019-39383-z), de Rafaela Tadei, Caio E. C. Domingues, José Bruno Malaquias, Erasnilson Vieira Camilo, Osmar Malaspina e Elaine C. M. Silva-Zacarin, está publicado em: www.nature.com/articles/s41598-019-39383-z.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.