Neil Young lança álbum de protesto contra Monsanto

Desde 2014 o músico trava em um embate com a maior fabricante de agrotóxicos do mundo

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Da Página do MST

Chega às lojas no dia 16 de junho, o novo disco do cantor canadense Neil Young. Às vésperas de completar 70 anos, Young, que desde os anos 60 se tornou um ativista político, lança o álbum “Monsanto Years”, um disco de músicas contra a gigante do agrotóxico.

O álbum é uma parceria entre o músico e o grupo Promise Of The Real, do qual fazem parte Lukas e Micah Nelson, filhos de Willie Nelson.

A luta entre Young e a empresa se arrasta por anos. Em 2014, o músico propôs um boicote aos cafés da rede Starbucks devido a relação entre a companhia e a Monsanto em um processo legal envolvendo o estatuto de utilização de ingredientes geneticamente modificados no estado norte-americano de Vermont.

Young não é o único artista internacional a se manifestar contra a Monsanto. Recentemente o ator Chuck Norris escreveu um artigo contra a empresa alertando a população e governo sobre os danos que o uso dos herbicidas, em especial o glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, fabricado pela Monsanto e mais vendido no mundo, podem causar ​​à saúde global.

FONTE: http://www.mst.org.br/2015/04/30/neil-young-lanca-album-de-protesto-contra-monsanto.html

Neil Young e os filhos de Willie Nelson vão lançar um  álbum de protesto possivelmente chamado de “Os Anos da Monsanto”

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“Eu estou trabalhando em um novo álbum agora e que eu vou fazer com os filhos de Willie Nelson”, disse ele, em tom de brincadeira, sugerindo que ele daria o título ” Os anos da Monsanto”  para abordar a empresa agrícola contra a qual ele vem protestando durante anos. “É uma avaliação otimista da situação.”

Mas não é, necessariamente, uma piada?

Na quinta-feira  (16/04) à noite cerca de 400 fãs sortudos no SLO Brewing Co. testemunharam a nova banda de Young misturando a estréia do novo material com clássicos em San Luis Obispo. O quinteto tocou um total de dez novas canções, muitas das quais se uniram contra empresas como a Monsanto e Starbucks de acordo com relatos de fãs.

Aqui está a lista de canções que foram tocadas no SLO Brewing Co:

 1. Country Home
2. New Song 1 – People Want To Hear About Love ??*
3. New Song 2 – New Day For The Planet ??*
4. Down By The River
5. New Song 3 – Too Big To Fail ??*
6. New Song 4 – GMO-Starbucks ??*

7. Walk On
8. New Song 5 – Monsanto ??*
9. New Song 6 – I Don’t Know You ??*
10. New Song 7 – Seeds ??*
11. Everybody Knows This Is Nowhere
12. Wolf Moon*
13. Love And Only Love
14. New Song 9*
15. New Song 10*
16. Country Home

FONTE: https://www.minds.com/blog/view/436555171724529664/neil-young-and-willie-nelson039s-sons-releasing-protest-album-possibly-called-the-monsanto-years

Glifosato na mira

Herbicida mais vendido no Brasil e no mundo é classificado como provavelmente cancerígeno para humanos pela Organização Mundial da Saúde. O tema é destaque da coluna de Jean Remy Guimarães, que critica a falta de divulgação da notícia na imprensa nacional.

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Glifosato na mira

O glifosato, presente em cerca de 750 herbicidas, foi classificado como provavelmente cancerígeno, com base em estudos que mostram aumento da taxa de câncer entre agricultores e jardineiros expostos. (foto: Austin Valley/ Flickr – CC BY 2.0)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece recomendações e sugere normas para a exposição a milhares de substâncias diferentes. Esse é um processo contínuo, uma vez que novos compostos continuam chegando ao mercado, assim como são publicados novos dados ecotoxicológicos sobre compostos já em uso. O processo é longo, caro e complexo e, entre outros resultados, fornece classificações de risco.

Conforme a quantidade e contundência das evidências científicas, temperadas pela ‘insistência técnica’ de eventuais lobbies corporativos interessados em influir no resultado, um composto ou produto pode ser classificado como cancerígeno para humanos ou provavelmente cancerígeno para humanos. Há também a categoria ‘possivelmente’, e a ‘não sei’. É comum que um composto passe da segunda (provável) para a primeira categoria, mas não se tem conhecimento de exemplo na direção contrária.

O tempo entre o surgimento das evidências de um risco e a emissão de uma norma para domá-lo costuma ser dolorosamente longo, especialmente para os que têm o privilégio duvidoso de terem sido suas primeiras vítimas documentadas.

O tempo entre o surgimento das evidências de um risco e a emissão de uma norma para domá-lo costuma ser dolorosamente longo

As sugestões da OMS têm autoridade moral, mas não legal, e podem ser adotadas pelos seus países-membros, ou não.

Para facilitar a navegação pelo mar revolto de estudos in vitro, in vivo, com bactérias, animais e plantas, somados aos poucos estudos epidemiológicos em humanos, a OMS adotou há cerca de 40 anos a saudável prática de convocar regularmente grupos de especialistas para avaliar e reavaliar a toxicidade e o potencial carcinogênico de determinados compostos. O critério para a escolha dos especialistas é rigoroso: devem aliar alta credibilidade científica com total ausência de conflito de interesse na matéria.

Os especialistas não chegam para as reuniões de jaleco e pipetador na mão, pois não vão fazer nenhum novo estudo. A missão é compilar, avaliar e discutir os estudos existentes na literatura até aquele momento e confirmar ou alterar as classificações de risco existentes. Observadores da indústria e/ou de outras agências de classificação de risco sanitário ou ambiental podem assistir aos debates. Só assistir.

Glifosato, OGMs e câncer

Um dos mais importantes grupos avaliadores da OMS é a Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês). E, em 20 de março de 2015, a IARC publicou on-line na prestigiosa The Lancet Oncology os resultados de uma avaliação que seria rotineira se não se referisse, entre outros pesticidas, ao carro-chefe da linha de produtos da Monsanto (companhia multinacional de agricultura e biotecnologia): o glifosato, princípio ativo do herbicida Roundup e de muitas outras formulações de mesma finalidade.

Roundup
O glifosato é o princípio ativo do herbicida Roundup, carro-chefe da linha de produtos da multinacional Monsanto, e de muitas outras formulações com a mesma finalidade. (foto: London Permaculture/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Campeão mundial de vendas, o glifosato está presente em cerca de 750 produtos diferentes usados como herbicidas na agricultura, silvicultura, jardinagem doméstica e urbana.

O pulo do gato da estratégia comercial da Monsanto é o desenvolvimento de cultivares geneticamente modificados para resistir ao Roundup, enquanto as demais plantas definham sob o mesmo. São os chamados OGMs ‘Roundup-ready’. Previsivelmente, o consumo de Roundup aumenta com a ampliação da superfície plantada com transgênicos. Também aumenta com a crescente resistência das ervas daninhas ao herbicida, mas isso é outra história.

No momento, a questão é que a IARC decidiu classificar o glifosato como provavelmente cancerígeno (categoria 2A). Fez o mesmo com outros pesticidas como diazinon e malathion, mas isso foi marola em comparação com o tsunami da inclusão do glifosato.

Os estudos envolviam casos-controle de exposição ocupacional de agricultores e jardineiros na Suécia, Estados Unidos e Canadá e mostram aumento da taxa de câncer em indivíduos expostos

Os estudos que convenceram os 17 membros da IARC a tomar a decisão tão corajosa não envolviam a população em geral, mas sim casos-controle de exposição ocupacional de agricultores e jardineiros na Suécia, Estados Unidos e Canadá. Os estudos mostram aumento da taxa de câncer – particularmente linfoma não-Hodges – em indivíduos expostos. Em animais, os estudos evidenciaram danos cromossômicos, maior risco de câncer de pele, de rim e de adenomas no pâncreas. Nada mau para um composto apresentado em folhetos coloridos como tão inócuo quanto o sal de cozinha.

No entanto, os dados dos estudos selecionados pela IARC (usando os mesmos critérios que a OMS utiliza para selecionar os próprios membros da IARC) não foram considerados suficientes para estabelecer de forma inequívoca o caráter carcinogênico do glifosato para humanos.

Ainda bem, pois um estudo de 2014 do Serviço Geológico Americano (USGS) publicado na Environmental Toxicology and Chemistry mostrou que, em muitas regiões dos Estados Unidos, o glifosato é detectável em cerca de 75% das amostras de ar e água de chuva analisadas. Ué, esquisito, pois a Wikipedia diz que ele é fortemente fixado nos solos e não deve migrar para os corpos d’agua. Que danadinho desobediente!

Pulverização de herbicida
Estudo realizado em 2014 mostrou que, em muitas regiões dos Estados Unidos, o glifosato é detectável em cerca de 75% das amostras de ar e água de chuva analisadas, embora diga-se que ele se fixa fortemente aos solos e não migra para corpos d’água. (foto: Will Fuller/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Reação instantânea

Como de costume, a Monsanto reagiu rápido à decisão da IARC e, em comunicado de 23/03, desanca a agência, que, segundo a empresa, teria se baseado em “ciência-lixo”. No mesmo dia em que foi divulgado o estudo da The Lancet Oncology, a empresa intimou Margaret Chan, diretora da OMS, em carta que vazou para a imprensa, a retificar a opinião da IARC, aparentemente sem sucesso, até aqui.

Enquanto isso, o glifosato está sob reavaliação pela Comunidade Europeia. Inquirida sobre sua opinião a respeito das conclusões da IARC, a Agência Europeia de Segurança Alimentar (Aesa) esclareceu que a Alemanha é o país-relator dessa matéria e que seu homólogo alemão, o Bundesinstitut für Risikobewertung (BfR), algo como Instituto de Avaliação de Riscos, é o encarregado de fazer a avaliação do glifosato em nome da Europa. Seu veredicto, a ser ainda submetido à Aesa nas próximas semanas, talvez não apoie as conclusões da IARC, pela singela razão de que um terço dos membros do grupo de experts em pesticidas do BfR alemão é composto por assalariados diretos dos gigantes da indústria agroquímica e de biotecnologia.

O herbicida preferido por nove entre 10 estrelas do agronegócio pode causar sérios danos renais, inibir a reprodução normal (cruzes!), promover congestão pulmonar e aumentar a taxa respiratória, tudo isso em humanos

E nos Estados Unidos? Bem, foi em seu país-sede que a Monsanto treinou seu eficiente método de infiltração e cooptação de agências reguladoras, a começar pela Agência de Proteção Ambiental (EPA). O mesmo foi simplesmente replicado depois em escala global. A EPA mantém sua posição de que as evidências de potencial carcinogênico do glifosato em humanos são inadequadas (sic), mas tem planos de considerar (sic) os achados da IARC e talvez tomar alguma atitude no futuro. Enquanto isso, condescende em admitir que o herbicida preferido por nove entre 10 estrelas do agronegócio pode causar sérios danos renais, inibir a reprodução normal (cruzes!), promover congestão pulmonar e aumentar a taxa respiratória, tudo isso em humanos.

Mas, falando em globos e planetas, você viu alguma notinha sobre o palpitante tema na grande imprensa brasileira? Eu também não, e olha que procurei: está só na blogosfera, e em sites de notícias internacionais, como o do Le Monde, entre outros. Intrigado, visitei o site americano da Monsanto e achei o comunicado furibundo já comentado aqui, em inglês, claro. No site brasileiro da empresa, nadica de nada, nem em javanês. E olha que eu descasquei os 104 resultados da busca pelo termo glifosato no site. Já boladão, em desespero de causa, fui aos sites da Associação Nacional de Biossegurança (ANBio) e da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio): mesmo estrondoso silêncio.

Alô, câmbio? Não somos o maior consumidor de pesticidas do planeta desde 2008? O glifosato, em suas muitas formulações, não é o item principal dessa cesta química? Oops, esqueci de checar os sites da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Ministério da Agricultura. Mas não o farei. O texto já está longo. Deixo esse cuidado aos meus leitores.

Afinal, vocês também têm que fazer alguma coisa, não é?

Jean Remy Davée Guimarães é professor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/glifosato-na-mira

Estudo publicado por revista da American Society for Microbiology aponta que o Round Up (glifosato) também diminui a eficiência de antibióticos

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Não bastasse ter sido recentemente ligado à ocorrência de câncer, alterações nas estruturas do DNA e dos cromossomas num estudo publicado pela Organização Mundial da Saúde, a exposição ao agrotóxico Round Up (glifosato), fabricado pela Monsanto, acaba de ser apontada como sendo também capaz de reduzir a ação de antibióticos. O artigo foi publicado ontem (24/03) pela Revista MBio que é editada pela “American Society for Microbiology”. Segundo, o que mostram os autores do trabalho, a exposição ao glifosato  e outros dois herbicidas (2,4-D e Dicamba) pode reduzir a eficiência de antibióticos como tetracicilina, ampicilina e ciprofloxacina, os quais são amplamente utilizados no mundo para combater infecções.

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Essa junção entre toxicidade e interferência na efetividade dos antibióticos tornam a questão da contaminação por agrotóxicos um dos mais graves problemas de saúde coletiva no mundo. Como o Brasil se tornou já em 2008 o maior consumidor mundial deste tipo de substância química, o que podemos estar tendo é uma simbiose extremamente letal e que até agora recebeu pouca ou quase nenhuma atenção das autoridades sanitárias brasileiras.

Aliás, há que se frisar que a atual ministra da Agricultura, Kátia Abreu, é uma ardorosa defensora de mais uso e menos regulação no tocante aos agrotóxicos. Nesse sentido, qualquer tentativa de aumentar o consumo desses produtos e ampliar a facilidade de certificação terá que ser cotejada com os impactos à saúde humana que esses diferentes estudos estão apontando.

Quem quiser ter acesso ao estudo assinado pelos pesquisadores Brigitta Kurenbach, Delphine Marjoshi, Carlos F. Amábile-Cuevas, Gayle C. Ferguson, William Godsoe, Paddy Gibson e Jack A. Heinemanna basta clicar (Aqui!).

Relatório da OMS aponta o glifosato fabricado pela Monsanto como potencial causado de câncer

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A notícia saiu nos principais jornais do mundo, mas passou despercebida no Brasil, que é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos, inclusive os que já foram proibidos em diversas partes do mundo.   O fato é que a Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (AIPC), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde publicou e circulou um relatório onde o agrotóxico Round Up (também conhecido como glifosato), produto fabricado pela multinacional Monsanto, é um agente potencialmente causador de câncer, mais precisamente o linfoma Non-Hodgkin. Além disso, o relatório aponta o glifosato como potencial causador de alterações na estrutura do DNA e das estruturas cromossômicas .

A coisa mais importante a se destacar neste caso é não apenas que o glifosato é abundantemente utilizado no Brasil, mas como também sua classificação pela ANVISA em termos de toxicidade humana é de nível IV, o que é o coloca apenas como ligeiramente tóxico. Esta classificação agora se choca diretamente com o relatório da AIPC, e levanta dúvidas sobre quais outros agrotóxicos estão classificados de forma equivocada e para baixo em termos de seu potencial de causar danos à saúde humana.

Quem quiser acessar o relatório completo da AIPC, basta clicar no link abaixo

MonographVolume112

Plantações Geneticamente Modificadas: ficção corporativa

Por Vandana Shiva

Como o ano novo começa, sinto-me compelida a refletir sobre como ficções e construções abstratas estão governando-nos; a natureza de ser e de existência está sendo redefinida em tais aspectos fundamentais que a própria vida está ameaçada. Quando as corporações que foram projetadas como construções jurídicas afirmam “pessoalidade”, então, pessoas reais — que ficam na fila para votar, mantém os meios de subsistência e cria famílias — perder os seus direitos.

Isto aconteceu recentemente em Vermont e Maui. Os residentes do Condado de Maui, Havaí votaram em 4 de novembro para proibir o cultivo de culturas geneticamente modificadas na ilha de Maui, Lanai e Molokai atéque estudos científicos sejam realizados para a sua segurança e benefícios.

A Unidade da Monsanto e Dow Chemical Mycogen Seeds processaram o condado no tribunal federal para parar a lei aprovada pelo povo. E Vermont, que votaram uma Lei para rotulagem de OGM através de um processo legal, democrático, está sendo processado por um conglomerado de empresas na premissa falsa de personalidade corporativa e a influência do dinheiro como “liberdade de expressão”corporativa.

Este é o cerne de novos tratados de livre comércio com base em “direitos dos investidores”. Negar aos cidadãos o direito de saber viola os princípios fundamentais da democracia alimentar. Dow e Monsanto processaram Maui, subvertendo, assim, o processo democrático que repousa sobre a vontade do povo, não sobre o poder das corporações.

Esta jurisprudência corporativa precisa ser revertida se os direitos humanos e os direitos da mãe terra são para ser protegidos. Ficções corporativas que já tiveram impacto desastroso sobre a biodiversidade do planeta, as nações e sobre os agricultores — cujos direitos de tempos imemoriais para guardar e trocar sementes — estão sendo criminalizados sob a lei de patentes e novas leis de sementes.

Quando as empresas de biotecnologia afirmam ter “inventado” a semente e os tribunais e os governos defendem esta ficção, milhões de anos de evolução e milhares de anos de história agrícola ficam apagados. As sementes não são automóveis ou placas de circuito; vida não pode ser criada artificialmente.

Não é uma invenção. Não é projetado, peça por peça, por um trabalhador na linha de montagem. Organismos vivos são complexidade auto organizada. Cientistas chilenos Maturana e Varela diferenciaram entre os dois tipos de sistemas —autopoiético e alopoiético. Sistemas Autopoiéticos são auto organizados e fazem a si mesmos.

Sistemas Autopoiéticos são colocados juntos externamente. Uma semente é um sistema autopoiético— constantemente auto organizados, evoluindo e adaptando-se às mudanças de contextos. Afirmar que, pela adição de um gene, uma corporação cria a semente — e todas as futuras gerações daquela semente —é uma falha ontológica, um ultraje científico e uma violação daética.

Leis da Índia têm uma clara articulação de que sistemas biológicos e os sistemas vivos não são invenções. Artigo 3, alínea d, da lei de patentes da Índia afirma claramente que a descoberta de uma nova propriedade ou uma nova utilização de uma substância conhecida não é uma invenção.

Quando as corporações reivindicam a posse de uma semente que contém um gene de uma bactéria Bt, é, na verdade, uma nova utilização de uma substância conhecida. Quando introduzem o gene em uma planta, “atirando” o gene através de umapistola de gene para a célula de uma planta, a reprodução das células e o ciclo de vida da planta são um processo biológico. A indústria de biotecnologia não está montando o organismo, nem eles estão montando as futuras gerações de sementes.

A seção J da lei de patentes da Índiaé uma interpretação jurídica do princípio científico da auto-organização da vida. Por causa disto o Conselho de Apelação do Escritório de Patentes indiano legislou no caso de pedido de patente resiliência ao clima da Monsanto: “o método reivindicado é considerado como uma série de etapas genéricas modificado pela célula de planta… No caso como o presente que não envolve um simples salto da arte prévia à invenção mas implica melhor uma viagem com muitas etapas de um método genérico tomadas em sequência que são essencialmente biológicas, e consideramos que a invenção não está envolvendo etapa inventiva, o simples fato da intervenção humana não mudaria a posição que tivemos ao contrário consideramos não patenteáveis, tendo em conta a obviedade e nova utilização da substância conhecida. “

Enquanto a lei indiana reconhece que as sementes fazem a si mesmas, incluindo as gerações futuras de sementes transgênicas, que têm um gene introduzido a partir de um organismo diferente, as leis americanas tratam as sementes transgênicas como uma “máquina”, inventada por corporações. Esta posição de sementes como máquinas e corporações como inventores foi elaborada no caso da Suprema Corte de Bowmanvs Monsanto. Bowman tinha comprado de um elevador de grãos as sementes de soja misturada e as plantou. }

A Monsanto alegou que a semente plantada para obter uma colheita não foi a reprodução natural de uma germinação de sementes em uma planta, que então produziu a próxima geração de sementes. A Suprema Corte deferiu pedido da Monsanto, que a reprodução das plantas nos campos do Bowman foi uma “replicação de uma máquina”, inventada e patenteada pela Monsanto.

Desde o início, a pressão da Monsanto para as sementes OGM tem sido de reivindicação de criaçãoe propriedade da semente. A lei de 2001 da Índia, de Proteção de Variedades de Plantas e Direitos dos Agricultores, tem uma cláusula sobre os direitos dos agricultores que afirma, “um agricultor se considera que tem direito para armazenar, usar, semear, ressemear, trocar, compartilhar ou vender seus produtos agrícolas, incluindo sementes de uma variedade protegida ao abrigo desta lei da mesma forma como ele tinha direito antes da entrada em vigor da presente lei.”

Os EUA querem forçar a Índia a adotar uma falsa ciência e falsas leis que determinam que as sementes foram criadas pela Monsanto e, portanto, são de propriedade da Monsanto. O presidente dos E.U.A., Barack Obama, será o principal convidado nas nossas celebrações do dia da República. É hora de começar um diálogo planetário e um intercâmbio civilizacional baseado em todo nós sermos parte da família de Terra; e com base no nosso direito inalienável àSwaraj (Democracia), incluindo “bijaswaraj” (democracia de semente).

Esperamos que a visita do Senhor Obama irá melhorar e aprofundar as liberdades comuns do povo da Índia e dos EUA e não apenas as liberdades de corporações, que estão a minar as liberdades dos cidadãos em ambos os países e em todo o mundo.

FONTE: http://www.mst.org.br/node/16924

Neil Young lidera boicote à Starbucks por causa de ataque à rotulagem de transgênicos. E no Brasil, cadê a classe “artística”

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Um dos muitos detalhes que poucos conhecem sobre a minha vida pessoal é que sou um fã declarado do roqueiro canadense Neil Young desde que eu descobri o seu primeiro disco em 1978. De lá para cá, Neil Young a carreira de Young andou em altos e baixos, e a minha vida também. Mais razão ainda para eu me dedicar a ouvir a música que ele produz, pois junta um quê de crítica social, momentos depressivos, e até eventos de morte violenta.

Mas um detalhe que não é muito divulgado é que Neil Young não faz propaganda para grandes corporações como a Coca-Cola e a Pepsi Cola. Além disso, Neil Young vem desenvolvendo desde 1985 junto com Willy Nelson, John Mellencamp e outros artistas um projeto chamado “Farm Aid” cujo mote principal é levantar recursos para ajudar agricultores familiares a manterem suas propriedades (Aqui!).

Além dessa presença no campo do apoio à agricultura familiar, Neil Young também na luta contra os transgênicos e seu uso na alimentação humana. A última “vítima” dessa ação ativa de Neil Young é a rede Starbucks que se juntou à corporação dos venenos Monsanto para impedir a rotulagem de alimentos no estado norte-americano de Vermont (Aqui!). Segundo o que declarou à Revista Rolling Stone, ele vai parar de tomar seu “latte” na Starbucks pelo fato da empresa estar unida à Monsanto num processo que visa impedir o público de saber se há transgênico ou não na comida ou bebida que estão sendo ingeridas. 

Passando para nosso lado do Equador, não deixa de ser curioso de notar que artistas como Roberto Carlos, Toni Ramos tem se empenhando em justamente em nos empurrar a carne que a JBS Friboi reserva para o mercado interno, enquanto abastece o resto do mundo com suas melhores carnes. E, sim, não custa lembrar o que anda fazendo o roqueiro decadente Lobão em suas marchas “pela democracia”.

Assim, já que não dá para esperar muito dos artistas, que tal pararmos de gastar fortunas num copo de café na Starbucks até que eles façam a rotulagem dos transgênicos que estão servindo no Brasil? Ou será que vai ser preciso trazer o Neil Young para boicotar a Starbucks também por aqui? 

O mais novo fantasma da Monsanto

POR JEFF RITTERMAN, M.D.

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Estudo sugere: doença ainda inexplicada, que destrói rins e já matou milhares de agricultores, pode estar relacionada ao glifosato, herbicida-líder da transnacional

Por Jeff Ritterman, no Truthout | Tradução Maria Cristina Itokazu

O herbicida Roundup, da Monsanto, foi vinculado à epidemia de uma misteriosa doença renal fatal que apareceu na América Central, no Sri Lanka e na Índia.

Há anos, os cientistas vêm tentando desvendar o mistério de uma epidemia de doença renal crônica que atingiu a América Central, a Índia e o Sri Lanka. A doença ocorre em agricultores pobres que realizam trabalho braçal pesado em climas quentes. Em todas as ocasiões, os trabalhadores tinham sido expostos a herbicidas e metais pesados. A doença é conhecida como CKDu (Doença Renal Crônica de etiologia desconhecida). O “u” (de “unknown”, desconhecido) diferencia essa enfermidade de outras doenças renais crônicas cuja causa é conhecida. Poucos profissionais médicos estão cientes da CKDu, apesar das terríveis perdas impostas à saúde dos agricultores pobres, de El Salvador até o sul da Ásia.

Catharina Wesseling, diretora regional do Programa Saúde, Trabalho e Ambiente (Saltra) na América Central, pioneiro nos estudos iniciais sobre o surto ainda não esclarecido na região, diz o seguinte: “Os nefrologistas e os profissionais da saúde pública dos países ricos não estão familiarizados com o problema ou duvidam inclusive que ele exista”.Wesseling está sendo diplomática. Na cúpula da saúde de 2011, na cidade do México, os EUA rechaçaram uma proposta dos países da América Central que teria listado a CKDu como uma das prioridades para as Américas.

David McQueen, um delegado norte-americano do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, que posteriormente se desligou dessa agência, explicou a posição de seu país. “A ideia era manter o foco nos fatores de risco chave que poderíamos controlar e nas grandes causas de morte: doença cardíaca, câncer e diabetes. E sentíamos que a posição que assumimos incluía a CKD”.

Os norte-americanos estavam errados. Os delegados da América Central estavam certos. A CKDu é um novo tipo de doença. Essa afecção dos rins não resulta da diabetes, da hipertensão ou de outros fatores de risco relacionados com a dieta. Diferentemente do que acontece na doença renal ligada à diabetes ou à hipertensão, muitos dos danos da CKDu ocorrem nos túbulos renais, o que sugere uma etiologia tóxica.

Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Agricultor salvadorenho voltando dos campos. Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Hoje, a CKDu é a segunda maior causa demortalidade entre os homens em El Salvador. Esse pequeno e densamente povoado país da América Central tem atualmente a maior taxa de mortalidadepor doença renal no mundo. Os vizinhos Honduras e Nicarágua também têm taxas extremamente altas de mortalidade por doença renal. Em El Salvador e Nicarágua, mais homens estão morrendo por CKDu do que por HIV/Aids, diabetes e leucemia juntas. Numa região rural da Nicarágua, tantos homens morreram que a comunidade é chamada “A Ilha das Viúvas“.

Além da América Central, a Índia e o Sri Lanka foram duramente atingidos pela epidemia. No Sri Lanka, mais de 20 mil pessoas morreram por CKDu nas últimas duas décadas. No estado indiano de Andhra Pradesh, mais de 1.500 pessoas receberam tratamento para a doença desde 2007. Como a diálise e o transplante de rim são raros nessas regiões, a maioria dos que sofrem de CKDu irão morrer da doença renal.

Numa investigação digna do grande Sherlock Holmes, um cientista-detetive do Sri Lanka, dr. Channa Jayasumana, e seus dois colegas, dr. Sarath Gunatilake e dr. Priyantha Senanayake, lançaram uma hipótese unificadora que poderia explicar a origem da doença. Eles argumentaram que o agente agressor deve ter sido introduzido no Sri Lanka nos últimos trinta anos, uma vez que os primeiros casos apareceram em meados da década de 1990. Essa substância química também devia ser capaz de, em água dura, formar complexos estáveis com os metais e agir como um escudo, impedindo que esses metais sejam metabolizados no fígado. O composto também precisaria agir como um mensageiro, levando os metais até o rim.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Mural celebrando a vida agrária tradicional. Juayua, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Sabemos que as mudanças políticas no Sri Lanka no final dos anos 1970 levaram à introdução dos agroquímicos, principalmente no cultivo do arroz. Os pesquisadores procuraram os prováveis suspeitos. Tudo apontava para o glifosato, um herbicida amplamente utilizado no Sri Lanka. Estudos anteriores tinham mostrado que o glifosato liga-se aos metais e o complexo glifosato-metal pode durar por décadas no solo.

O glifosato não foi originalmente criado para ser usado como herbicida. Patenteado pela Stauffer Chemical Company em 1964, foi introduzido como um agente quelante, porque se liga aos metais com avidez. O glifosato foi usado primeiramente na remoção de depósitos minerais da tubulação das caldeiras e de outros sistemas de água quente.

É essa propriedade quelante que permite que o glifosato forme complexos com o arsênio, o cádmio e outros metais pesados encontrados nas águas subterrâneas e no solo na América Central, na Índia e no Sri Lanka. O complexo glifosato-metal pesado pode entrar no corpo humano de diversas maneiras: pode ser ingerido, inalado ou absorvido através da pele. O glifosato age como um cavalo de Troia, permitindo que o metal pesado a ele ligado evite a detecção pelo fígado, uma vez que ele ocupa os locais de ligação que o fígado normalmente obteria. O complexo glifosato-metal pesado chega aos túbulos renais, onde a alta acidez permite que o metal se separe do glifosato. O cádmio ou o arsênio causam então danos aos túbulos renais e a outras partes dos rins, o que ao final resulta em falência renal e, com frequência, em morte.

Por enquanto, a elegante teoria proposta pelo dr. Jayasumana e seus colegas pode apenas ser considerada geradora de hipóteses. Outros estudos científicos serão necessários para confirmar a hipótese de que a CKDu realmente se deve à toxicidade do glifosato-metal pesado para os túbulos renais. Até agora, esta parece ser a melhor explicação para a epidemia.

Outra explicação é a de que o estresse por calor pode ser a causa, ou a combinaçãoentre estresse por calor e toxicidade química. A Monsanto, claro, tem defendido o glifosato e contestado a afirmação de que ele tenha qualquer coisa a ver com a origem da CKDu.

Ainda que não exista uma prova conclusiva a respeito da causa exata da CKDu, tanto o Sri Lanka quanto El Salvador invocaram o princípio da precaução. El Salvador baniu o glifosato em setembro de 2013 e atualmente está procurando alternativas mais seguras. O Sri Lanka baniu o glifosato em março deste ano por causa de preocupações a respeito da CKDu.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

O glifosato tem uma história interessante. Depois de seu uso inicial como agente descamador pela Stauffer Chemical, os cientistas da Monsanto descobriram suas qualidades herbicidas. A Monsanto patenteou o glifosato como herbicida na década de 1970 e tem usado a marca “Roundup” desde 1974. A empresa manteve os direitos exclusivos até o ano 2000, quando a patente expirou. Em 2005, os produtos com glifosato da Monsanto estavam registrados em mais de 130 países para uso em mais de cem tipos de cultivo. Em 2013, o glifosato era o herbicida com maior volume de vendas no mundo.

A popularidade o glifosato se deve, em parte, à percepção de que é extremamente seguro. O site da Monsanto afirma:

O glifosato se liga fortemente à maioria dos tipos de solo e por isso não permanece disponível para absorção pelas raízes das plantas próximas. Funciona pela perturbação de uma enzima vegetal envolvida na produção de aminoácidos que são essenciais para o crescimento da planta. A enzima, EPSP sintase, não está presente em pessoas ou animais, representando baixo risco para a saúde humana nos casos em que o glifosato é usado de acordo com as instruções do rótulo.

Por causa da reputação do glifosato em termos de segurança e de efetividade, John Franz, que descobriu a sua utilidade como um herbicida, recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia em 1987. Franz também recebeu o Prêmio Carothers da Sociedade Americana de Química em 1989, e a Medalha Perkins da Seção Americana da Sociedade da Indústria Química em 1990. Em 2007, foi aceito no Hall da Fama dos Inventores dos EUA pelo seu trabalho com o herbicida. O Roundup foi nomeado um dos “Dez Produtos que Mudaram a Cara da Agricultura“ pela revista Farm Chemicals, em 1994.

Nem todo mundo concorda com essa percepção a respeito da segurança do glifosato. A primeira cultura de Organismo Geneticamente Modificado (OGM) resistente ao Roundup (soja) foi lançada pela Monsanto em 1996. Nesse mesmo ano, começaram a aparecer as primeiras ervas daninhas resistentes ao glifosato. Os fazendeiros responderam usando herbicidas cada vez mais tóxicos para lidar com as novas superpragas que haviam desenvolvido resistência ao glifosato.

Além da preocupação a respeito da emergência das superpragas, um estudo com ratos demonstrou que baixos níveis de glifosato induzem perturbações hormonal-dependentes graves nas mamas, no fígado e nos rins. Recentemente, dois grupos de ativistas, Moms Across America (Mães em toda a América) e Thinking Moms Revolution(Revolução das Mães Pensantes), pediram à Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) para pedir um recall do Roundup, citando um grande número de impactos adversos sobre a saúde das crianças, incluindo déficit de crescimento, síndrome do intestino solto, autismo e alergias alimentares.

O glifosato não é um produto comum. Além de ser um dos herbicidas mais usados no mundo, é também o pilar central do templo da Monsanto. A maior parte das sementes da empresa, incluindo soja, milho, canola, alfafa, algodão, beterraba e sorgo, são resistentes ao glifosato. Em 2009, os produtos da linha Roundup (glifosato), incluindo as sementes geneticamente modificadas, representavam cerca de metade da receita anual da Monsanto. Essa dependência em relação aos produtos com glifosato torna a Monsanto extremamente vulnerável à pesquisa que questiona a segurança do herbicida.

As sementes resistentes ao glifosato são desenhadas para permitir que o agricultor sature os seus campos com o herbicida para matar todas as ervas daninhas. A safra resistente ao glifosato pode então ser colhida. Mas se a combinação do glifosato com os metais pesados encontrados na água subterrânea ou no solo destroi os rins do agricultor no processo, o castelo de cartas desmorona. É isso que pode estar acontecendo agora.

Um confronto sério está tomando corpo em El Salvador. O governo norte-americano tempressionado El Salvador para que compre sementes geneticamente modificadas da Monsanto ao invés de sementes nativas dos seus próprios produtores. Os EUA têmameaçado não liberar quase US$ 300 milhões em empréstimos caso El Salvador não compre as sementes da Monsanto. As sementes geneticamente modificadas são mais caras e não foram adaptadas para o clima ou para o solo salvadorenho.

A única “vantagem” das sementes OGM da Monsanto é a sua resistência ao glifosato. Agora que ele se mostrou uma possível, e talvez provável, causa de CKDu, essa “vantagem” já não existe.

Mural, Concepción de Ataco, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Mural celebrando a vida camponesa tradicional, Palo Grande, El Salvador. Foto: cortesia de Vivien Feyer.

Qual a mensagem dos EUA para El Salvador, exatamente? Talvez a hipótese mais favorável seja a de que os EUA não têm ciência de que o glifosato pode ser a causa da epidemia de doença renal fatal em El Salvador e que o governo sinceramente acredita que as sementes OGM vão proporcionar um rendimento melhor. Se for assim, uma mistura de ignorância e arrogância está no coração desse tropeço na política externa norte-americana. Uma explicação menos amigável poderia sugerir que o governo coloca os lucros da Monsanto acima das preocupações acerca da economia, do meio ambiente e da saúde dos salvadorenhos. Essa visão poderia sugerir que uma mistura trágica de ganância, descaso e insensibilidade para com os salvadorenhos está por trás da política americana.

Infelizmente, existem evidências que corroboram a segunda visão. Os EUA parecem apoiar incondicionalmente a Monsanto, ignorando qualquer questionamento a respeito da segurança dos seus produtos. Telegramas divulgados pelo WikiLeaks mostram que diplomatas norte-americanos ao redor do mundo estão promovendo as culturas OGM como um impertativo estratégico governamental e comercial. Os telegramas também revelam instruções no sentido de punir quaisquer países estrangeiros que tentem banir as culturas OGM.

Qualquer que seja a explicação, pressionar El Salvador, ou qualquer país, para que compre sementes OGM da Monsanto é um erro trágico. Não é uma política externa digna dos EUA. Vamos mudar isso. Vamos basear nossa política externa, assim como a doméstica, nos direitos humanos, na vanguarda ambiental, na saúde e na equidade.

Pós-escrito: Depois que vários artigos a respeito da questão das sementes apareceram na mídia, o The New York Times informou que os EUA reverteram sua posição e devem parar de pressionar El Salvador para que compre as sementes da Monsanto. Até agora, os empréstimos ainda não foram liberados.

FONTE: http://outraspalavras.net/capa/o-mais-novo-fantasma-da-monsanto/

As entrelinhas das guerras por alimentos

Vandana Shiva(*)

La Jornada

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A Monsanto e seus amigos na indústria biotecnológica, seus lobistas e seus representantes pagos nos meios de comunicação continuam incentivando o controle monopólico dos alimentos no mundo mediante sua oferta de sementes.

Esse império é construído sobre argumentos falsos: que a Monsanto é a criadora/inventora da vida, e portanto pode ser a proprietária das sementes através de patentes, e que a vida pode ser produzida com engenharia e máquinas, como um iPhone.

Pela ecologia e pela nova biologia sabemos  que a vida é uma complexidade organizada por si mesma: ela se constrói sozinha, e não é possível manufatura-la. Isso se aplica também à produção de alimentos mediante a nova ciência da agroecologia, a qual nos brinda com um conhecimento científico mais profundo sobre os processos ecológicos a nível do solo, as sementes vivas. As promessas da indústria biotecnológica – maiores rendimentos, redução do uso de agrotóxicos e controle de ervas daninhas e pragas – não se cumpriram.  No mês passado, um fundo de investimentos processou a DuPont em um bilhão de dólares por promover cultivos resistentes a herbicidas sabendo que não poderiam controlar as ervas daninhas, que por sua vez  contribuíram para o surgimento de “super-ervas-daninhas”.

Ao criar a propriedade das sementes  mediante patentes e direitos de propriedade intelectual, e impô-la ao planeta através da Organização Mundial do Comércio, a indústria biotecnológica estabeleceu um império monopólico sobre as sementes e os alimentos. Além de reclamar a propriedade das sementes que vende e cobrar royalities, em matérias de controles e equilíbrios sobre a segurança a indústria biotecnológica destrói sistematicamente leis nacionais e internacionais relativas à biosegurança, afirmando que “seus produtos são como a natureza os criou”. É esquizofrenia ontológica!

A biosegurança é a avaliação multidisciplinar do impacto da engenharia genética sobre o ambiente, a saúde pública e as condições sócioeconômicas. No âmbito internacional, a biosegurança é direito internacional consagrado pelo Protocolo de Cartagena sobre Biosegurança. Eu fui designada por um grupo de especialistas para elaborar a base do programa ambiental das Nações Unidas, com a finalidade de por em vigor o artigo 19.3 da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB).

A Monsanto e seus amigos têm tentado negar aos cidadãos o direito à alimentação saudável opondo-se ao artigo 19.3 desde a Cume da Terra no Riod e Janeiro, em 1992. Nestes dias, eles tentam desmantelar as leis nacionais sobre biosegurança na Índia, Paquistão, União Européia e em toda a África e América Latina.  Nos Estados Unidos, distorcem a Constituição ao entrar com demandas contra governos estaduais  que tem promulgado leis para etiquetar os alimentos geneticamente modificados, alegando que o direito dos cidadãos de saber o que consomem está abaixo do direito da indústria biotecnológica de impor alimentos perigosos para os consumidores desinformados, o que manejam como liberdade de expressão da empresa, como se esta fosse pessoa física.  Deslocam sua maquinaria de propaganda para atacar com argumentos não científicos os pesquisadores que trabalham com biosegurança, como Árpad Pusztai, Ignácio Chapela, Irina Ermakova, Eric Séralini e eu.

Muitos jornalistas sem conhecimentos científicos se alinharam como soldados nesse assalto propagandístico. Homens brancos privilegiados, como Mark Lynas, Jon Entine e Michael Specter, sem experiência prática em agricultura, munidos somente com graus de bacharelado e vinculados a meios controlados pelos consórcios são usados para solapar as verdadeiras descobertas científicas sobre os impactos dos OGM em nossa saúde e ecossistemas.

A indústria biotecnológica usa seus títeres propagandistas para sustentar a falácia de que os OGM são a solução para a fome no mundo. Essa negativa a um autêntico debate científico sobre como os sistemas vivos evoluem é respaldada por um assalto intensivo e maciço de propaganda, que incluem a utilização de agências de inteligência como a Blackwater.

Em 2010, a Forbes  citou-me como uma das sete mulheres mais poderosas do planeta, “por colocar as mulheres à frente e no centro da solução do assunto da segurança alimentar no mundo em desenvolvimento”. Em 2014, o jornalista Jon Entine escreveu um artigo de opinião, no qual sustentava que eu não tinha estudado física. Além de ter feito um pós-graduação em física e realizado meu doutorado sobre os fundamentos da teoria quântica, passei 40 anos estudando ecologia em granjas e florestas da Índia, onde a natureza e os sábios camponeses foram meus mestres.  Essa é a base da minha experiência e agroecologia e segurança alimentar.

A boa ciência e as tecnologias aprovadas não necessitam propaganda, agências de inteligência e governos corruptos para demonstrar fatos. Se os ataques infundados de um não cientista a uma cientista de um país em desenvolvimento são um de seus instrumentos de dar forma ao futuro, erraram completamente.  Eles não se dão conta da crescente indignação cidadã contra o monopólio da Monsanto.

Em nações soberanas, onde o poder da Monsanto e de seus amigos é limitado, o povo e os governos rechaçam seu monopólio e sua tecnologia fracassada, mas a máquina de propaganda suprime essa notícia.

A Rússia proibiu completamente os OGM; o primeiro ministro Dmitry Medvedev  advertiu: “se os norte-americanos gostam dos produtos OGM, que os comam. Nós não precisamos deles; temos espaço e oportunidades suficientes para produzir comida orgânica”. A China proibiu os OGM em produtos alimentícios militares. A Itália acaba de promulgar uma lei, a Campo Livre, que castiga com prisão de um a três anos e multa de 10 mil a 30 mil euros a semeadura de cultivos OGM. A ministra italiana da Agricultura, Nunzia de Girolamo,  assinalou em um comunicado: “Nossa agricultura se baseia na biodiversidade e na qualidade, e devemos continuar a elas sem aventuras que, sob o ponto de vista econômico, não nos tornariam mais competitivos”. 

As peças de propaganda na Forbes e no New Yorker não podem deter o despertar de milhões de agricultores e consumidores sobre os verdadeiros perigos dos organismos geneticamente modificados em nossa comida, e as desvantagens e defeitos do sistema de alimentos industriais que destrói o planeta e nossa saúde.

 (*)  Diretora executiva do Fundo Navdanya

 Fonte: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=187575

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti

O fracasso do milho transgênico se comprova

Por Frei Sérgio Antônio Görgen*     


“Meu gado repugna o milho  transgênico”. Ouvi esta fase de um pequeno agricultor que me contava que suas vacas se recusavam a comer silagem feita com milho transgênico.

Os supostos cientistas à soldo ou não das transnacionais dirão que é bobagem, que  a rejeição, se houve, foi por outros fatores, etc, etc. Que é alarmismo anticientífico e atraso tecnológico evidente.

“A buva tá tomando conta das lavouras de soja transgênica”. Ouço esta frase diariamente pelo interior do Rio Grande do Sul. Uma planta, a buva, que tornou-se super-resistente ao herbicida à base de glifosato, com domínio de sua produção comercial através da Monsanto, desafia a tecnologia que dizia resolver tudo, com baixo custo e diminuição do uso de venenos. Outras virão. A buva é só o começo. Quem viver verá.

“O câncer tá tomando conta do nosso interior”. O câncer está transformado numa epidemia nas regiões tradicionais de uso de venenos agrícolas, pelo menos no Rio Grande do Sul. Em minha infância havia surpresa quando alguém morria de câncer. Hoje a surpresa é quando alguém não morre de câncer. Muitas mortes prematuras…

Não são os “defensivos agrícolas”. Devem ser outras causas, dirão os supostos cientistas à soldo ou não (há, embora poucos, inocentes úteis nestas searas) das transnacionais dos venenos agrícolas.

Em minha modesta opinião, a não relação de causa e efeito entre o uso intensivo de venenos agrícolas e a epidemia de câncer é que deve ser provada cientificamente e não o contrário.

As evidências constatadas pela observação direta e percebidas pelo senso comum são o ponto de partida para a verdadeira ciência. E não defesas cegas, em nome de doutorados sem cheiro de chão, de opiniões que favorecem os lucros de empresas veneneiras.

Mas agora não sou eu que saio por aí falando do que ouço e vejo pelos grotões do país. É a confederação dos grandes produtores, a CNA (quem diria, os apaixonados da primeira hora) que estão denunciando e cobrando os prejuízos provocados pela ineficácia do milho transgênico no controle das lagartas.

E publicado pelo jornal Valor Econômico (quem diria, de novo, e com espanto) um dos jornais que cravava a pecha de neo-ludistas a nós, que fazíamos críticas sérias e coerentes ao entusiasmo infantil na adesão cega à moda transgênica.

Leiam a reportagem e tirem suas conclusões. Não deixem de rir, por favor, quando sugerem que o agricultor faça “áreas de refúgio”, isto é, plante uma parte para colher e outras para as lagartas comerem. É sério, eles propõe isto, “em nome da ciência”.

  “CNA teme ataque de lagartas ao milho transgênico do país”

Por Mariana Caetano  do Valor Econômico Publicado em 17/05/2014.

“SÃO PAULO  –  A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) está preocupada com o ataque de lagartas às lavouras de milho transgênico, que deveriam resistir à praga. Segundo a entidade, os agricultores do país se queixam da ineficácia do milho Bt, que incorpora por meio de engenharia genética uma toxina da bactéria Bacillus thuringiensis com ação inseticida.

O tema foi discutido nesta quinta-feira durante reunião da Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas da CNA. “O milho Bt não trouxe os resultados esperados. Ainda não dá para quantificar o prejuízo, mas esperávamos um milho mais resistente às pragas”, afirmou o presidente do colegiado e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Mato Grosso (Famato), Rui Prado.

Segundo Prado, a comissão irá ouvir relatos de mais produtores para reivindicar medidas que minimizem os danos ao setor, como a regulamentação do uso desta variedade BT. Uma das ações em estudo pela CNA diz respeito ao refúgio, que é o uso de uma parte da lavoura de milho híbrido sem a tecnologia Bt, que poderia ajudar a diminuir a proliferação de insetos resistentes à variedade.”       

*Frei Sergio é parte da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores e do Instituto cultural Padre Josimo

FONTE: http://www.mst.org.br/node/16144