No Brasil, inundações devastadoras se tornaram duas vezes mais prováveis por causa do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis

Cientistas dizem que calamidades na mesma escala do desastre que matou 169 pessoas se tornarão mais comuns se as emissões não forem reduzidas

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Inundações em Canoas, Rio Grande do Sul, em 5 de maio de 2024. Imagem de Ricardo Stuckert/PR

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As inundações extraordinariamente intensas, prolongadas e extensas que devastaram o sul do Brasil foram pelo menos duas vezes mais prováveis ​​devido à queima humana de combustíveis fósseis e árvores, mostrou um estudo realizado pelos cientistas da World Weather Attribution.

O desastre recorde provocou 169 mortes, destruiu casas e destruiu colheitas, e foi agravado pela desflorestação, cortes de investimento e incompetência humana.

A equipe de cientistas internacionais por detrás do estudo previu que calamidades desta escala – as piores a atingir a região – tornar-se-iam mais comuns no futuro se não houvesse uma redução acentuada nas emissões de gases com efeito de estufa que aquecem o planeta.

Centenas de milhares de pessoas no estado do Rio Grande do Sul e no vizinho Uruguai ainda tentam reconstruir as suas vidas depois de um mês de chuvas persistentes que deslocaram 80 mil pessoas e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais, como eletricidade e água potável.

Durante o pico das chuvas no dia 1º de maio, a cidade de Santa Maria estabeleceu um recorde de precipitação em 24 horas de 213,6 mm. Em apenas três dias, a capital do estado, Porto Alegre, foi inundada por chuvas equivalentes a dois meses, transformando estradas em rios, estádios de futebol em lagos e danificando tanto o aeroporto internacional da cidade que permanece fechado.

O custo económico deverá exceder 5,25 bilhões de reais e o terrível impacto na agricultura deverá aumentar os preços do arroz – o Rio Grande do Sul normalmente produz 90% da colheita do Brasil – e dos produtos lácteos em todo o país. 

A ponte para abruptamente na margem do rio, onde uma parte dela foi destruída, levando a uma queda acentuada
Ponte destruída sobre o Rio Forqueta, no Rio Grande do Sul. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

O foco da região na agricultura teve um custo elevado. Os autores do estudo afirmaram que nas últimas décadas, as defesas naturais contra inundações, como florestas ribeirinhas e pântanos, foram desmatadas para campos, muitas vezes em violação de regulamentos ambientais mal aplicados.

A catástrofe em Porto Alegre foi agravada pelas fracas defesas contra inundações, que deveriam suportar 6 metros de água, mas que alegadamente começaram a falhar a 4,5 metros.

Nos últimos anos, os governos municipais reduziram o investimento nestas protecções, apesar dos avisos de que esta região baixa e desflorestada, na intersecção de cinco grandes rios, seria cada vez mais vulnerável a inundações como resultado de perturbações climáticas provocadas pelo homem. Além de serem incapazes de deter a subida das águas, as barreiras contra inundações da capital do estado retiveram as águas das cheias, retardando o processo de secagem e recuperação.

Cientistas do World Weather Attribution confirmaram a poderosa influência humana no desastre das enchentes, a quarta a atingir o estado mais ao sul do Brasil no último ano e meio.

Eles analisaram um período de quatro dias e um período de 10 dias de inundações, combinando observações meteorológicas com resultados de modelos climáticos computacionais. Os pesquisadores descobriram que as mudanças climáticas provocadas pelo homem tornaram as chuvas extremas duas a três vezes mais prováveis ​​e cerca de 6% a 9% mais intensas. Esta influência foi semelhante ao efeito natural do fenômeno El Niño.

Além de aumentar a frequência e a intensidade das fortes chuvas, o aquecimento global empurrou a cintura tropical mais para sul, que funciona como um muro no centro do Brasil que bloqueia as frentes frias vindas da Antártica. Como resultado, inundações que antes eram mais comuns no norte de Santa Catarina, agora são mais prováveis ​​no Rio Grande do Sul. Mais de 90% do estado, que cobre uma área do tamanho do Reino Unido, foi afetado.

Os autores afirmaram que o aquecimento global também está aumentando a frequência dos eventos El Niño e La Niña, que estão associados a condições meteorológicas extremas. Não houve um ano neutro sem nenhum deles na última década.

Olhando para o futuro, para um mundo que ficará mais quente como resultado das emissões dos carros, das fábricas e do desmatamento, eles descobriram que tal desastre se tornaria 1,3 a 2,7 vezes mais provável no Rio Grande do Sul se o aquecimento global subisse do nível atual de 1,2. C a 2C, o que é cada vez mais provável. “Esses eventos se tornarão mais frequentes e graves”, conclui o artigo.

Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, disse que o clima no Brasil já havia mudado: “Este estudo de atribuição confirma que as atividades humanas contribuíram para eventos extremos mais intensos e frequentes, destacando a vulnerabilidade do país às mudanças climáticas. É essencial que os tomadores de decisão e a sociedade reconheçam esta nova normalidade.”

Para minimizar o impacto potencial de desastres futuros, os autores sugerem um planejamento urbano mais abrangente, maior investimento em defesas contra inundações e maior atenção ao desenvolvimento social equitativo, porque as inundações podem criar uma “armadilha da pobreza” em que as comunidades de baixos rendimentos estão nas áreas mais vulneráveis. .

A prioridade deveria ser proteger e reforçar as barreiras naturais, como florestas e pântanos, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina. “As mudanças no uso da terra contribuíram diretamente para as inundações generalizadas, eliminando a proteção natural e podem exacerbar as alterações climáticas, aumentando as emissões.”

Contudo, como sempre, a medida mais importante é reduzir rapidamente a queima de árvores e de combustíveis fósseis que está a causar cada vez mais carnificina em todo o mundo.


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Fonte: The Guardian

Não há necessidade de os países emitirem novas licenças de petróleo, gás ou carvão, conclui estudo

Pesquisadores dizem que o mundo tem projetos de combustíveis fósseis suficientes planejados para atender às previsões de demanda até 2050 se o carbono zero for alcançado

oil rigEspera-se que o artigo reacenda as críticas ao governo conservador do Reino Unido, que prometeu centenas de licenças de exploração de petróleo e gás para impulsionar a indústria do Mar do Norte. Fotografia: Russ Bishop/Alamy 

Por Jillian Ambrose para o “The Guardian”

O mundo tem projetos de combustíveis fósseis suficientes planejados para satisfazer as previsões da procura global de energia até 2050 e os governos devem parar de emitir novas licenças de petróleo, gás e carvão, de acordo com um grande estudo dirigido a líderes políticos.

Se os governos concretizarem as mudanças prometidas, a fim de impedir que o mundo infrinja as suas metas climáticas, não serão necessários novos projetos de combustíveis fósseis, afirmaram na quinta-feira investigadores da University College London e do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD).

Os dados ofereceram o que disseram ser “uma base científica rigorosa” para os governos globais proibirem novos projectos de combustíveis fósseis e iniciarem um declínio controlado da indústria de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que encorajavam o investimento em alternativas de energia limpa.

Ao estabelecer uma “demanda clara e imediata”, os líderes políticos seriam capazes de estabelecer uma nova norma em torno do futuro dos combustíveis fósseis, contra a qual a indústria poderia ser responsabilizada “imediatamente”, disseram os pesquisadores.

Publicado na revista Science, o artigo analisou as previsões da procura global de energia para o petróleo e o gás, bem como para a electricidade proveniente do carvão e do gás, utilizando uma vasta gama de cenários compilados para o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que limitaram o aquecimento global a dentro de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

O estudo concluiu que, além de não necessitar de nova extração de combustíveis fósseis, não seria necessária nova geração de energia a carvão e gás num futuro líquido zero.

Espera-se que o jornal reacenda as críticas ao governo conservador do Reino Unido, que prometeu oferecer centenas de licenças de exploração de petróleo e gás para impulsionara indústria do Mar do Norte , uma política que emergiu como uma importante linha divisória com o Partido Trabalhista, da oposição, antes do 4º ano. Eleições gerais de julho.

Os trabalhistas prometeram pôr fim às novas licenças do Mar do Norte se chegarem ao poder, e também planeiam aumentar os impostos sobre os lucros obtidos pelos campos de petróleo e gás existentes para ajudar a financiar investimentos em projectos de energia verde através de uma nova empresa estatal, Grande Energia Britânica.

Dr. Steve Pye, coautor do relatório do UCL Energy Institute, disse: “É importante ressaltar que nossa pesquisa estabelece que existe uma base científica rigorosa para a norma proposta, mostrando que não há necessidade de novos projetos de combustíveis fósseis”.

“A clareza que esta norma traz deve ajudar a concentrar a política na ambiciosa expansão necessária do investimento em energias renováveis ​​e limpas, ao mesmo tempo que se gere o declínio da infra-estrutura de combustíveis fósseis de uma forma equitativa e justa”, disse Pye.

O relatório expandiu o trabalho da Agência Internacional de Energia (AIE), que alertou nos últimos anos que nenhum novo projeto de combustíveis fósseis era compatívelcom o objectivo global de construir um sistema energético líquido zero.

A AIE descartou qualquer novo investimento em projectos de combustíveis fósseis de longo prazo, mas reconheceu que seria necessário investimento contínuo em activos de petróleo e gás existentes e em projectos já aprovados.

Dr Fergus Green, do departamento de ciência política da UCL, disse: “Nossa pesquisa tira lições de mudanças passadas nas normas éticas globais, como a escravidão e os testes de armas nucleares. Estes casos mostram que as normas têm ressonância quando contêm exigências simples pelas quais os actores poderosos podem ser imediatamente responsabilizados.

“Objetivos complexos e de longo prazo, como ‘emissões líquidas zero até 2050’, não possuem essas características, mas ‘nenhum novo projeto de combustíveis fósseis’ é uma demanda clara e imediata, contra a qual todos os governos atuais e a indústria de combustíveis fósseis podem ser corretamente avaliados. .”

O chefe cessante do Comité das Alterações Climáticas do Reino Unido, Chris Stark, disse no mês passado que o conceito de emissões líquidas zero setornou um slogan político usado para iniciar uma guerra cultural “perigosa” sobre o clima, e que pode ser melhor abandoná-lo.

“Se for apenas um slogan, se for visto como uma espécie de caneta para uma série de questões culturais, então estou extremamente tranquilo quanto a abandoná-lo”, disse Stark. “Mantemos isso como uma meta científica, mas não precisamos usá-lo como um distintivo que mantemos em todos os programas.”

Green disse que uma posição política sobre o apoio a novos projetos de combustíveis fósseis deveria “servir como um teste decisivo” para saber se um governo estava a levar a sério o combate à crise climática. “Se estão a permitir novos projetos de combustíveis fósseis, então não são sérios”, acrescentou.


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Fonte: The Guardian

Campos dos Goytacazes está incluída entre Brasil cidades brasileiras com risco de desastre ambiental

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Por Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil – Brasília

Com a intensificação das mudanças climáticas provocadas pela ação humana no meio ambiente, têm aumentado os desastres ambientais e climáticos em todo o mundo, a exemplo do que ocorre no Rio Grande do Sul.

No Brasil, o governo federal mapeou 1.942 municípios suscetíveis a desastres associados a deslizamentos de terras, alagamentos, enxurradas e inundações, o que representa quase 35% do total dos municípios brasileiros. 

“O aumento na frequência e na intensidade dos eventos extremos de chuvas vêm criando um cenário desafiador para todos os países, em especial para aqueles em desenvolvimento e de grande extensão territorial, como o Brasil”, diz o estudo do governo federal.

As áreas dentro dessas 1,9 mil cidades consideradas em risco concentram mais de 8,9 milhões de brasileiros, o que representa 6% da população nacional.

O levantamento publicado em abril deste ano refez a metodologia até então adotada, adicionando mais critérios e novas bases de dados, o que ampliou em 136% o número dos municípios considerados suscetíveis a desastres. Em 2012, o governo havia mapeado 821 cidades em risco desse tipo.

Com os novos dados, sistematizados até 2022, os estados com a maior proporção da população em áreas de risco são Bahia (17,3%), Espírito Santo (13,8%), Pernambuco (11,6%), Minas Gerais (10,6%) e Acre (9,7%). Já as unidades da federação com a população mais protegida contra desastres são Distrito Federal (0,1%); Goiás (0,2%), Mato Grosso (0,3%) e Paraná (1%).

O estudo foi coordenado pela Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento, ligada à Casa Civil da Presidência da República. O levantamento foi solicitado pelo governo em razão das obras previstas para o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que prevê investimentos em infraestrutura em todo o país. 

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Municípios em risco de desastre ambiental  (2012 e 2022) – Arte/Agência Brasil

Populações pobres

As populações pobres são as mais prováveis de sofrerem com os desastres ambientais no Brasil, de acordo com a nota técnica do estudo.

“A urbanização rápida e muitas vezes desordenada, assim como a segregação sócio-territorial, têm levado as populações mais carentes a ocuparem locais inadequados, sujeitos a inundações, deslizamentos de terra e outras ameaças correlatas. Essas áreas são habitadas, de forma geral, por comunidades de baixa renda e que têm poucos recursos para se adaptarem ou se recuperarem dos impactos desses eventos, tornando-as mais vulneráveis a tais processos”, aponta o documento.

O levantamento ainda identificou os desastres ambientais no Brasil entre 1991 e 2022, quando foram registrados 23.611 eventos, 3.890 óbitos e 8,2 milhões de desalojados ou desabrigados decorrentes de inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.

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Recomendações

A nota técnica do estudo faz uma série de recomendações ao Poder Público para minimizar os danos dos desastres futuros, como a ampliação do monitoramento e sistemas de alertas para risco relativos a inundações, a atualização anual desses dados e a divulgação dessas informações para todas as instituições e órgãos que podem lidar com o tema.  

“É fundamental promover ações governamentais coordenadas voltadas à gestão de riscos e prevenção de desastres”, diz o estudo, acrescentando que o Novo PAC pode ser uma oportunidade para melhorar a gestão de riscos e desastres no Brasil.

“[A nota técnica deve] subsidiar as listas dos municípios elegíveis para as seleções do Novo PAC em prevenção de risco: contenção de encostas, macrodrenagem, barragens de regularização de vazões e controle de cheias, e intervenções em cursos d’água”.

Confira se seu município está na lista, a partir da página 12 da nota técnica.

Edição Fernando Braga


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Fonte: Agência Brasil

Belo Monte: renovação de licença sem mudanças na sua governança é assinar catástrofe, alertam especialistas

BM Bori

O desvio de água do rio Xingu pela usina de Belo Monte (PA) deixou a região de Volta Grande com menos de 30% de sua vazão natural anual

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Optar pela renovação da licença da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, vencida em 2021, sem mudanças expressivas na governança e operação das barragens seria o semelhante a assinar pela continuidade de uma catástrofe ambiental e humana na região. O alerta, publicado em artigo de perspectiva na revista científica “Perspectives in Ecology and Conservation” na sexta (24), é de pesquisadores de dez instituições, entre elas, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Ministério Público Federal (MPF) de Altamira, no Pará.

Além de sugerir mudanças na governança de Belo Monte, os especialistas defendem que hidrelétricas com 10 MW ou mais de capacidade instalada não devem mais ser construídas na região amazônica.

O trabalho contextualiza os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fica próxima ao município de Altamira (PA), com dados da literatura científica e de ações do MPF. Desde a inauguração da última das 18 turbinas, em 2019, a hidrelétrica desvia água do rio Xingu através de um canal que deixou um trecho de 130 quilômetros de uma região do rio, conhecida como Volta Grande, com menos de 30% de sua vazão natural anual. Isso, segundo a análise, evita a inundação em determinada época do ano de 86% da área total originalmente coberta por igapós, um tipo de vegetação sazonalmente inundada.

Dentre as consequências desse desvio, relatadas pelos especialistas, está o declínio da reprodução dos peixes e quelônios da região, diminuindo rendimentos pesqueiros, perda de vegetação adaptada às cheias e aumento do risco de extinção de espécies endêmicas, além de mudanças nos padrões de sedimentação do rio que afetam a qualidade da água. Estima-se, também, que esse processo causou impactos sociais, com o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas para assentamentos urbanos na periferia da cidade de Altamira, segundo dados do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O biólogo Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA e coautor do texto, comenta que outro problema urgente é a ameaça à segurança alimentar de três grupos indígenas e diversas populações ribeirinhas que habitam a Volta Grande. “Essas comunidades dependem dos peixes e quelônios para sua alimentação, além de serem grupos evoluídos culturalmente para viver com o ritmo do rio. A água é o recurso-rei desses povos e isso está sendo perdido”, enfatiza.

Segundo explicam os especialistas, o desvio de Volta Grande é mantido para priorizar a plena capacidade de geração da casa de força principal de Belo Monte e faz parte do plano de engenharia original, elaborado pela Norte Energia, empresa que administra o complexo. A legalidade do processo de licenciamento da hidrelétrica, no entanto, é contestada em 22 ações movidas pelo Ministério Público Federal. Em uma delas, de setembro de 2022, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a construção de Belo Monte violou a lei brasileira ao não realizar consultas com os povos indígenas e tradicionais da Volta Grande para a instalação das barragens.

A preocupação é se o governo atual seguirá com a renovação da licença de Belo Monte, e se alguma mudança na operação da barragem será exigida. “As administrações dos últimos anos têm passado por cima, forçando a continuidade da hidrelétrica, e sem que muitas das condicionantes que a empresa prometeu fazer tenham sido cumpridas. E sem nenhuma penalidade”, diz Fearnside.

Para mitigar os impactos de Belo Monte, segundos os especialistas, seria preciso mudanças na operação que garantam que uma quantidade adequada de água volte a fluir pela Volta Grande, de forma que seu trajeto se aproxime do ciclo e duração natural das cheias do rio. Além disso, uma mudança na governança da hidrelétrica também seria necessária, de modo a envolver povos indígenas e ribeirinhos locais no monitoramento das operações e no processo de licenciamento da hidrelétrica. “É evidente que a barragem não será destruída, mas se quisermos preservar os ecossistemas e povos existentes na região, as comunidades locais e a sociedade civil devem ter maior participação”, finaliza Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

Conservação de vegetação nativa é fundamental para combate às mudanças climáticas, advertem cientistas

amazonia-5406522Mudanças climáticas podem levar à perda de biodiversidade: imagem mostra vista panorâmica de floresta nativa

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A mitigação do impacto das mudanças climáticas na perda de biodiversidade passa por adotar medidas que preservem a vegetação e o solo nativos, já que eles são responsáveis por estocar carbono. Seria preciso evitar a fragmentação desses ambientes e realizar a correta recuperação de áreas degradadas. É o que dizem pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, em parceria com colegas de instituições estrangeiras, em reflexão publicada na revista científica “BioScience” nesta quinta (23).

Dentre as principais recomendações dos especialistas, estão a coibição do plantio de florestas baseadas em espécies exóticas, como pinus ou eucalipto, e a promoção de um uso mais consciente da terra para atividades agrícolas, o que evitaria a expansão de áreas de cultivo.

Com uso da literatura científica recente, os pesquisadores elencam seis pontos-chave para mitigar as mudanças climáticas: a conservação de estoques e sumidouros de carbono, a restauração adequada de áreas degradadas, a conservação integrada de fauna e flora locais, o investimento em mais produtividade agrícola em vez da devastação de novas áreas naturais para cultivo, a incorporação de medidas práticas para sustentabilidade por empresas e instituições financeiras e a colaboração entre especialistas para alinhar políticas e ações necessárias aos desafios ambientais. Esse último ponto poderia ser feito por meio da união das Conferências  das Nações Unidas (COPs) sobre Biodiversidade e Clima, que atualmente têm calendários distintos de realização.

A substituição de ecossistemas originais por florestas plantadas, por exemplo, pode aumentar as emissões de gases causadores do efeito estufa. Isso acontece porque o processo de tirar a vegetação original deixa o solo exposto, o que faz com que ele libere mais carbono. Por consequência, isso pode ampliar o impacto dos eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. Os autores alertam: “ao introduzirmos um número limitado de espécies não nativas em uma determinada região, podemos, inadvertidamente, destruir a funcionalidade ecológica do ambiente, o que pode refletir na capacidade de fornecer nascentes de água, manter polinizadores para agricultura, controlar a umidade e o clima e influenciar o regime de chuvas”.

Em áreas como a Amazônia, os cientistas enfatizam a prioridade absoluta de parar o desmatamentoe a degradação da floresta remanescente – e avaliam que a restauração só se tornará prioridade depois destes objetivos serem alcançados. “Para o Brasil, a mensagem seria a necessidade de elevar muito a prioridade de áreas desmatadas. Apesar de discurso do governo, elas ainda não são tão prioritárias quanto áreas com grandes impactos ambientais de mineração ou energia, agricultura e infraestrutura de transportes”, avalia o pesquisador do Inpa Philip Fearnside, um dos autores do artigo.

Os pesquisadores também recomendam aos formuladores de políticas públicas que não aprovem projetos de lei que descaracterizem as áreas de proteção e promovam a expansão de áreas agrícolas. “O Brasil precisa largar de planos de extrair petróleo até a foz do rio Amazonas, de abrir vastas áreas de floresta com rodovias como a BR-319 e AM 366, de legalizar reivindicações de posses em terras públicas, de subsidiar pastagem e soja e de construir mais barragens amazônicas”, conclui Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

Metade dos manguezais do mundo em risco devido ao comportamento humano – mostra estudo

A perda dos ecossistemas, que são vastas reservas de carbono, seria “desastrosa para a natureza e para as pessoas em todo o mundo”, diz a UICN

Duas pessoas com macacões e máscaras de proteção azuis usam absorventes para limpar o óleo de um pequeno mangue na praia

Filipinos limpam óleo de manguezais em Mindoro após vazamento. A poluição, as condições meteorológicas extremas, a subida do nível do mar, a agricultura, o desenvolvimento e as barragens ameaçam os mangais. Fotografia: FR Malasig/EPA 

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

Metade de todas as florestas de manguezais do mundo estão em risco de colapso, de acordo com a primeira avaliação especializada destes ecossistemas cruciais e reservas de carbono.

O comportamento humano é a principal causa do seu declínio, de acordo com a análise da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), com os mangais no sul da Índia, no Sri Lanka e nas Maldivas em maior risco.

Os sistemas no Mar da China Meridional, no Pacífico central e no Triângulo de Coral oriental em torno da Malásia, Papua Nova Guiné e Filipinas foram classificados como ameaçados.

The global mangrove areas are depicted above

Angela Andrade, presidente da comissão da UICN sobre gestão de ecossistemas, afirmou: “Os ecossistemas de manguezais são excepcionais na sua capacidade de fornecer serviços essenciais às pessoas, incluindo a redução do risco de catástrofes costeiras, o armazenamento e sequestro de carbono e o apoio à pesca. A sua perda será desastrosa para a natureza e para as pessoas em todo o mundo.”

Encontrados em todo o planeta, os manguezais incluem dezenas de espécies diferentes de árvores e arbustos ao longo das costas tropicais, que abrigam uma vasta gama de biodiversidade. Eles funcionam como viveiros de peixes e sustentam mamíferos tão variados quanto tigres, cães selvagens africanos e preguiças. 

 
Um tigre de Bengala à beira de uma floresta de mangue
Um tigre de Bengala nos Sunderbans indianos, a maior extensão de manguezal do mundo. Os manguezais abrigam uma enorme variedade de espécies. Fotografia: Arindam Bhattacharya/Alamy

Os ecossistemas armazenam uma quantidade desproporcional de carbono para o seu tamanho, absorvendo quase três vezes o carbono armazenado pelas florestas tropicais do mesmo tamanho.

Cerca de 15% das costas do mundo são cobertas por manguezais, mas o estudo concluiu que estes estão cada vez mais ameaçados pela subida do nível do mar, pela agricultura, pelo desenvolvimento ao longo das costas, pela poluição, como os derrames de petróleo , e pelas consequências da construção de barragens.

As fazendas de camarão, o desenvolvimento costeiro e as barragens nos rios, que alteram o fluxo de sedimentos, foram todas estabelecidas como causas anteriores de perda pelos pesquisadores. Mas as ameaças crescentes decorrentes da subida do nível do mar e da crise climática ameaçam a sua sobrevivência devido ao aumento da frequência e da gravidade das tempestades intensas .

Os investigadores utilizaram as ferramentas da UICN para avaliar o risco para os ecossistemas – semelhantes à sua lista vermelha , utilizada para calcular o risco de extinção de espécies – para realizar a investigação, que envolveu mais de 250 especialistas em todo o mundo.

“A lista vermelha de ecossistemas fornece caminhos claros sobre como podemos reverter a perda de manguezais e proteger estes delicados ecossistemas para o futuro, ajudando, por sua vez, a salvaguardar a biodiversidade, a enfrentar os efeitos das alterações climáticas e a apoiar a concretização do Quadro Global de Biodiversidade”, disse Andrade. disse.

Os manguezais no Havai e no sudeste da Polinésia não foram incluídos na avaliação porque não fazem naturalmente parte dos ecossistemas.


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Fonte: The Guardian

Desculpe Caramelo, eles “não” sabem o que fazem!

CARAMELO

Por João Anschau

Quando o “principal” assunto que domina parte das conversas virtuais se dá em torno do salvamento ou não de um cavalo ilhado em cima de um telhado, é sinal que continuamos dando errado enquanto sociedade. Nem na dor aprendemos.

Caramelo não é responsável por nada que seus olhos assustados enxergam. Não foi consultado. Tiraram seu chão e seu habitat e agora discutem se devem ou não garantir sua permanência por aqui. Esse comportamento tem nome, sobrenome e vários filhos parasitas.

E não é hora de achar culpados, lembram os mais apressados. Para não magoar ninguém, eu vou usar outra palavra. Representantes. O que acontece no Rio Grande do Sul tem representação com CNPJ e muitos vendedores que agora apelam para o pix alheio. Nada de mexer no bolso dos donos do negócio. Filho feio não tem pai.  . 

E a natureza nos oferta mais um momento – não confundir com o discurso asqueroso e escroto de coachings que convenceram muitos, durante a pandemia de COVID-19, a desafiar a lógica com a surrada “são nas dificuldades que surgem as oportunidades” -, para refletir, debater e cobrar mudanças. Elementos e eventos sobram para que paremos de brincar de Highlander e tratemos pelo nome o que acontece em nosso entorno. Se os muristas encontram “dificuldades” para pensar, eu, humildemente, sugiro ‘Os miseráveis’, de Victor Hugo, para início da prosa.  .

E como zelador do memorial da destruição, eis que o governador Eduardo Leite nos apresenta o plano Marshall bagual cheiroso. Resumindo, a proposta, além de incoerências que pipocam de direita a direita, traz um amontoado do mesmo, feito pelos mesmos de sempre, cuja sensibilidade humana opera como de costume abaixo de menos 50 graus Celsius. São péssimos escritores, porém, têm as costas quentes e contam com o apoio de seus financiadores e a sempre azeitada máquina do capital a lhe assoprar e sugerir Estado mínimo, para os outros.

A reconstrução deve – ou deveria – passar obrigatoriamente pelo discutir modelos produtivos. Desenvolvimento econômico com água tomando conta das casas não é o mesmo que desenvolvimento econômico numa cama quentinha e nove refeições por dia. Ninguém come PIB enquanto a riqueza estiver concentrada.  Na roleta russa do plantar que tudo dá a banca nunca perde. Têm-se estiagem ou excesso de chuvas, ela ganha nas duas pontas. Governador Eduardo Leite, em seus cálculos liberais, bancos e indústria vão contribuir com quantos zeros depois do primeiro ponto? Não creio que depois do senhor usar aquele colete laranja sempre limpo e bem passado que, outra vez, eu e o Caramelo seremos convocados a dar mais um passinho à frente no busão lotado.  

Quem vai produzir comida de verdade, saudável e sem agrotóxicos, é uma pergunta recorrente que faço para os meus mais chegados há muito. Vale para o governador e para o/a prefeito/a. É um assunto que envolve a nossa e a saúde do planeta, e não brotou na catástrofe mais recente. Mais do que nunca se trata de um tema de casa obrigatório para a/os gestora/es públicos. Pros que desaprenderam por falta de uso e para os que desconhecem, é hora de praticar literalmente a definição de prioridade. Temos um case de insucesso de como não agir. Deu muito ruim, senhores e senhoras. Portanto, liberem os consultores de receitas prontas para achacarem os rentistas da Faria Lima e se concentrem na base da pirâmide.  .

É cristalino que os generosos incentivos públicos não podem ser direcionados apenas e tão somente às chamadas cadeias agroalimentares. O bolo delfiniano cresceu muito e tá na hora de cortá-lo e dividi-lo com sabedoria entre os terceirizados. A natureza é generosa e, sábia, já deixou claro que ela, mesmo esgualepada, fica e se recria. Já nós… Mais com menos dá negativo para a maioria. 

Meu companheiro de jornada, Caramelo, temos uma distopia em curso e sem prazo para finalizar. Alterações no roteiro, meu amigo, dependerão em parte de nós humanos. Os coadjuvantes terão que se mobilizar e demonstrar insatisfação com os rumos da História. Mas esse levante não pode ficar na responsa de um ou dois. Eu sei, eu sei. Muitos dirão que minha sugestão é utópica. Concordo. Mas a outra opção é aprender a dormir com os olhos abertos e enriquecer ainda mais a indústria farmacêutica. Escolham.

Grande Caramelo, por falta de tempo, não percebemos que aos poucos nos tornamos ‘o Rio 40 graus purgatório da beleza e do caos’. Que daqui a pouco surgirá um “Moisés” que conduzirá famílias inteiras expulsas pelo êxodo para algum lugar seguro. Ficarão para trás histórias e memórias e voltaremos ao século XIX com cobertura em tempo real. Esse novo normal já nasce doente. Caramelo, eu poderia sugerir o Pampa sulriograndense como um local seguro para a sua vivência.

Mas hoje, apesar de bravas e bravos pelejarem para manter a casa em ordem e com sua arquitetura o mais próximo do natural, eu temo que você corra o risco de ser expulso pelo “progresso econômico” que está transformando o Bioma em uma grande lavoura. E mais Caramelo. Lá, como cá, “investimentos” são comemorados e estampam as manchetes dos jornais como se finalmente Karl Marx fosse atendido e entendido e a riqueza dividida entre todos. Não há contraponto vivo e tampouco a vida entra na pauta dos patrocinadores da extinção da biodiversidade. Finalmente nos aproximamos da civilização, gritam alguns. E outros, do mesmo grupo, comemoram a saída dos “bárbaros” preservacionistas. 

Caramelo, o plano Marshall original surgiu após uma guerra. O que o Rio Grande do Sul enfrenta atualmente não deixa de ser uma batalha. Ambas, resultado da estupidez humana. A nossa luta é por (sobre)vivência. Nas duas frentes, sabe-se quem são os inimigos da razão, mas por estas bandas, os algozes são tratados com pompa e circunstância, idolatrados e tidos como indispensáveis para a nossa continuidade. E o senso comum, adubado sem descanso, aceita e reproduz o discurso Chicó, “não sei, só sei que foi assim”.

 Força Caramelo!


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.

Associação dos Geógrafos Brasileiros-seção Porto Alegre emite nota que é uma “crônica de uma tragédia anunciada”

Crônica de uma tragédia anunciada: a política econômica neoliberal, os eventos climáticos e a destruição das condições essenciais da vida Rio Grande do Sul

Rio-Guiaba

Maio de 2024. Camponeses, quilombolas, indígenas, trabalhadoras, trabalhadores urbanos do Estado do Rio Grande do Sul vivem uma das experiências mais dolorosas da sua história. Seja no campo seja na cidade, uma destruição imediata das condições básicas da vida promovida historicamente pela ação política e social que privilegia os interesses econômicos em detrimento da vida. Foram atingidas quase um milhão de pessoas que vivem na área mais populosa do Estado do Rio Grande do Sul, especialmente nos Vales dos Rios Taquari, Caí, Pardo, Jacuí, Sinos, Gravataí, Guaíba e avança para o sistema da Laguna dos Patos, ao que tudo indica em todas as bacias foi superado o nível de água da cheia histórica de 1941.

O nível do rio Guaíba chegou a 5,35 metros superando os 4,76 metros da cheia histórica de 1941, com uma diferença de 59 centímetros de extensão em Porto Alegre. As fotos, os mapas e os relatos são avassaladores no Estado do Rio Grande do Sul, promove-se na mídia um debate que oscila entre o entendimento naturalizante e um entendimento político sobre o processo histórico de ocupação e a formação territorial do Rio grande do Sul, o evento climático e seus desdobramentos.

IPH amplia informações em mapa de inundação de Porto Alegre — UFRGS |  Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Não podemos aceitar a leitura simplista e midiática de que a cidade de Porto Alegre por ter sido construída na beira do Rio Guaíba e produzida a partir de um engenhoso sistema de aterro urbano, certamente será sempre afetada pelas cheias, portanto “é a natureza apenas procurando o que é seu”, basta apenas melhorar o sistema de contenção do Rio Guaíba.

Há uma outra leitura possível, a de que ainda que haja a contraditória ocupação urbana nas áreas planas da planície de inundação do Guaíba e um sistema de contenção do avanço das águas na cidade, é evidente as falhas do sistema de contenção; avolumam-se os regimes de chuvas; identificam-se alterações significativas que apontam para a mudança global do clima e intensificam-se processos de ocupação no urbano e no rural que aprofundam a destruição ambiental, a impermeabilização do solo e por fim, que a ausência de uma estrutura técnica e política do Estado para combater os eventos climáticos e a opção pela o desenvolvimento do capitalismo e consolidação das políticas neoliberais deve ser responsabilizada pela magnitude da tragédia.

É preciso enunciar, de modo sucinto, como chegamos até esse momento: uma formação territorial do Estado do Rio Grande do Sul promovida pelo Estado Nação desde o período Imperial fundamentada na exploração madereira, expropriação e genocídio dos povos indígenas, migração subsidiada para a exploração do trabalho camponês, grilagem e apossamento das terras públicas; instituição do poder político oligárquico; estruturação dos órgãos estatais aliançados aos interesses do capital nacional e internacional; desestruturação dos órgãos e instituições do Estado fortemente realizada nos anos 2000 e o aprofundamento do projeto neolioberal de Estado. Nenhuma novidade sobre a história do Brasil, pois esse é o processo compartilhado na escala nacional.

Durante os anos 1990 e começos dos anos 2000 o Estado do Rio Grande do Sul e a Cidade de Porto Alegre viveram períodos importantes no processo democrático estabelecendo estruturalmente políticas sociais, gestão participativa do Estado e fortalecimento de instituições de planejamento e pesquisa no Rio Grande do Sul, estas experiências e estruturas alteraram a vida social no Estado, mas não foram o suficiente para uma mudança estrutural das políticas de Estado aliançadas ao poder econômico e pereceram pelo desmonte neoliberal.

A formação de colegiados, conselhos e comitês estruturam uma política de Estado interessante com muito trabalho realizado e acumulado ao longo de pelo menos 30 anos no Rio Grande do Sul. Lemos nesta última semana entrevistas, reportagens, posts nas redes sociais, lives e manifestações de gestores públicos técnicos, pesquisadores, professores universitários, políticos do campo progressista e da esquerda evidenciado todo esse trabalho e as possibilidades produzidas por este trabalho, todas elas negligenciadas.

Historicamente a pesquisa e a extensão universitária pelas diferentes universidades gaúchas desenvolveram inúmeros relatórios técnicos sobre as condições climáticas, as previsões de alagamentos e enchentes, o alcance dos desdobramentos desses eventos, é um trabalho acumulado, disponível ao poder público e à ação social.

O acúmulo do trabalho científico tem sido largamente evidenciado e publicizado no que diz respeito às informações e leituras básicas para que a gestão pública elabore sua ação antes mesmo dessa tragédia.

Há mapas e pesquisas que mostram há muito tempo a evolução do alcance das cheias na cidade de Porto Alegre; há inúmeros recursos que permitem o acompanhamento da evolução dos níveis de água; inúmeros relatórios técnicos e científicos que evidenciam a alterações do clima, planos e projetos junto à defesa civil que ainda não saíram dos estágios iniciais por falta de recursos; trabalhos de pesquisa que apontam para a emergência de realização da política nacional da assistência social que se tornou explícito com o advento da Pandemia da COVID-19; a geografia tem produzido trabalhos sobre a desestruturação ambiental, desmatamento, os processos de grilagem de terras, especulação imobiliária, a luta pela terra, a luta pelo território, a luta pela moradia, uma gama imensa de questões ambientais e sociais articuladas e aprofundadas. Em síntese, múltiplas ações sociais e trabalhos de pesquisa, teses, dissertações de mestrado e trabalhos de graduação têm sido desenvolvido pelo menos há mais de vinte anos com a participação social ampliada pelo acesso à universidade e aos projetos de extensão universitária.

O processo de transformação de florestas em áreas agrícolas da monocultura, a implantação de grandes projetos de exploração dos recursos naturais; a impermeabilização do solo; o desmatamento estrutural; a ampliação do uso de agrotóxicos e a ocupação promovida pela expropriação e valorização do espaço são a base material da alteração ambiental. Há uma diminuição temporal e uma intensificação nos eventos climáticos, discutido amplamente pela comunidade científica em articulação com o aquecimento global e a alteração climática na escala mundial. Tais eventos no Estado do Rio Grande do Sul sucedem de modo cada vez mais acelerado especialmente na última década, aliado ao aumento do desmatamento e as taxas de construção, seja de prédios, seja de barragens, seja dos plantios intensivos.

Pampa desmatamentoPampa é o bioma que mais perde vegetação nativa no Brasil, alerta MapBiomas

Todo esse volume de trabalhos indicam que a opção política materializa no poder legislativo que legisla a favor da burguesia nacional e internacional legalizando práticas criminosas inconstitucionais em lei; aloca (e desvia) recursos públicos para projetos econômicos voltados ao desenvolvimento do grande Capital no Brasil e toma decisões políticas de Estado que privilegiam os interesses econômicos.

Assim, para ficar apenas nos últimos dez anos, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul tem trabalhado fortemente para a consolidação do neoliberalismo no Brasil: flexibilizou em mais de 500 pontos o código ambiental e regulamentou essa flexibilização por meio de inúmeros decretos; autorizou a construção de grande edificações em áreas de proteção permanente; desestruturou e ignorou todas as estruturas democráticas de gestão participativa (comitês de bacias hidrográficas, conselhos de cidades, entre outros) que permitiu a aprovação e consolidação de planos de ordenamento territorial que subsidiaram a especulação imobiliária e o avanço da grilagem e apossamento de terras públicas e territórios de povos e comunidades tradicionais; permitiu a construção de barragens, aprovou projetos de exploração de energia eólica, instalação de linhas de transmissão e muitos empreendimentos que atingem povos e comunidades tradicionais sem a realização de audiências públicas e processos de consulta previstos pelos acordos internacionais e normalizados pelo Estado Brasileiro; susbisidou a ampliação do plantio de soja que avança a passos largos sobre os campos de cima da serra e o litoral; tem promovido o arrendamento me terras indígenas e o avanço do plantio de soja sobre elas alimentando conflitos internos e a violência no campo gaúcho; negligenciou a política agrícola para o campesinato gaúcho que sofre desde 2015, ano a ano os impactos das fortes chuvas e da movimentação de ciclones na região. Sem falar na ausência de qualquer debate sobre Reforma Agrária, a obstrução dos processos de demarcação de terras indígenas e quilombolas a partir do aparato dos poderes municipais articulado às oligarquias locais no campo e aos especuladores da cidade, culminando inclusive na perseguição política aos diversos sujeitos sociais envolvidos nos processos e todas as formas de violência que se desdobram em mortes e destruição das ocupações, assentamentos e retomadas.

Abril Vermelho: MST no RS realiza vigília no pátio do Incra, em Porto  Alegre - MSTOcupação do INCRA no Rio Grande do Sul. Foto: Maiara Rauber

O trabalho político do Estado é carimbado pelo aumento dos conflitos no campo gaúcho, e, enfim, pela tragédia que acomete as bacias com o maior contingente populacional do Estado. As veias do Rio Grande Sul estouraram, e já há muito tempo que os diagnósticos são precisos e unânimes em dizer que é preciso uma mudança estrutural. Essa é a explicação concreta para compreender que essa tragédia que não só é anunciada, mas se repetirá se não houver uma ação incisiva do poder público e da pressão social, é preciso com urgência fortalecer os movimentos sociais.

É preciso dizer que nas inúmeras ações de resgate, de acolhimento nos abrigos, nas avaliações das condições das escolas e buscas ativas dos alunos (desta vez para saber se estão vivos e com moradia), na organização da mobilidade das pessoas resgatadas para rumos diversos, foi a força das comunidades, o trabalho coletivo que comandou a ação política. A necessidade tem produzido um conhecimento técnico e social impressionante, com base no conhecimento das pessoas que vivem e estão sendo mais uma vez expropriadas de seus lugares.

Para nós, geógrafes, geógrafas e geógrafos ficou evidente a centralidade da geografia, dos conteúdos do território, da apropriação do espaço, da compreensão das estratégias da produção do espaço, da relevância da cartografia e de todo o instrumental técnico científico produzido pelo conhecimento geográfico. É seminal nosso trabalho científico e sobretudo político, não há conhecimento que se enraíze na realidade se não estiver comprometido politicamente e assuma sua postura social.

Cozinhas solidárias de movimentos populares distribuem marmitas aos atingidos pelas enchentes no RS; veja como colaborar 

A força das comunidades e da solidariedade é presente, vieram de muitos cantos do Rio Grande do Sul pescadoras(es), remadoras (es), professoras(es), assistentes sociais, médicas (os), enfermeiras (os), psicólogas (os), enfim diferentes profissionais que tem realizado o trabalho de ação e coordenação das ações emergenciais e sabemos que também seremos convocados pela realidade para seguir trabalhando para superar essa tragédia anunciada. A solidariedade é fundamental, mas não é suficiente, o poder público precisa urgentemente fazer seu trabalho e instituir condições estruturais e estruturantes de superação dessa condição de destruição.

O que está acontecendo no Rio Grande do Sul (e se agrava em outras regiões do Estado) e no mês de março no Estado do Acre, que foi atingido praticamente em sua totalidade, é a tragédia anunciada e já vivida em diferentes pontos do Brasil. Não são desastres pontuais ligados de modo circunstancial ao aumento esporádico do regime de chuvas, ao estouro de uma barragem, de uma enchente, de um deslizamento, a destruição das condições da vida e da vida de milhares de pessoas no país nestes eventos climáticos é um projeto político e é um projeto criminoso. É fundamental que o Brasil inicie de fato um processo de responsabilização histórica e política de seus criminosos, não podemos ficar à mercê do jogo eleitoral que se intensifica em 2024.

Ao poder público cabe de modo evidente e já anunciado barrar as sucessivas reformas no campo legislativo, no estabelecimento de uma política ambiental e social nas diferentes escalas: recuperação de áreas degradadas, demarcação de territórios indígenas e quilombolas, estabelecimento de uma política fundiária fundamentada na Reforma Agrária.

A nós, a força crítica que pulsa pela vida cabe fortalecer as lutas sociais para além das ações imediatas de solidariedade, é tarefa nossa estruturar uma política de enfrentamento e proposição radical de um processo não de reconstrução do estado das coisas, mas de produção de um outro modo de morar, de estabelecer as bases legais que estabeleça a relação entre o ambiente, o trabalho e a vida.

Recebemos nos últimos dias o apoio de associados de diferentes seções locais da AGB e de Seções Locais da AGB pelo Brasil, agradecemos imensamente a Diretoria Executiva Nacional e a AGB São Paulo junto a toda a organização do VIII Congresso Brasileiro de Geografia por prorrogar os prazos de envio de trabalhos.

Para trilhar esse caminho, a AGB Porto Alegre promoverá uma mobilização de arrecadação emergencial e convida a comunidade geográfica para avaliar e discutir as ações para enfrentamento desse momento histórico que vive o Rio Grande do Sul, mas também o Brasil. Em breve anunciaremos estas ações.

Nossa força coletiva é o que seguirá nos colocando em movimento!

 Porto Alegre, 08 de Maio de um Outono chuvoso que desastrosamente lavou a produção capitalista do espaço carregando consigo vidas inteiras. Viveremos por muito tempo o luto e a luta. Vamos precisar de todo mundo! Que possamos juntos semear a esperança, e produzir coletivamente um campo e a cidade solidária e comunal

Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção Porto Alegre

Eventos extremos serão cada vez mais comuns e exigem medidas urgentes

Em coletiva na Câmara dos Deputados, diretora adjunta de Políticas Públicas do IPAM diz que adaptação aos efeitos das mudanças climáticas passa pela implementação estratégica de leis e reorganização territorial e urbana.  

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Eventos climáticos extremos como as chuvas catastróficas que paralisaram o Rio Grande do Sul serão cada vez mais frequentes e exigem uma atuação enfática para seu enfrentamento, alertou Gabriela Savian, diretora adjunta de Políticas Públicas do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), durante coletiva convocada pela Frente Parlamentar Mista Ambientalista. O evento foi convocado em vista da das chuvas intensas no Rio Grande do Sul, que já deixam 95 mortos, mais de 207 mil desabrigados e afeta 80% das cidades do Estado. 

“Infelizmente, eventos extremos como estes serão cada vez mais recorrentes e exigem medidas urgentes de combate ao aquecimento global. As chuvas já afetaram rios de todo o estado, impactando milhares de pessoas. O desmatamento deve ser controlado e a ciência deve ser levada em consideração para a tomada de decisão nos planos de ação emergenciais decorrentes da urgência no atendimento da catástrofe do Rio Grande do Sul e demais estados, como o que vimos recentemente nos estados da Amazônia”, destacou.

Durante o encontro, foram apresentados documentos com medidas para avançar o pacote de legislações consideradas fundamentais para o combate às mudanças climáticas. Entre as propostas destacadas estão a implementação estratégica do Código Florestal, a destinação de florestas públicas na Amazônia, a recuperação de áreas degradadas e a proteção de áreas não-florestais, como o Pampa e Cerrado.

“Temos hoje mais de 16 milhões de hectares de passivos de Reserva Legal no Brasil que precisam ser recuperados e um montante muito maior de quase 200 milhões de hectares de excedente de florestas em áreas privadas que precisam ser preservadas. Estas áreas cumprem papel importante nos serviços ecossistêmicos imprescindíveis para a resiliência dos ecossistemas”, alertou Gabriela.

Código Florestal 

Ambientalistas e membros da sociedade civil presentes na coletiva também destacaram a importância de um acompanhamento da implementação do Código Florestal e a mobilização contra a flexibilização de leis ambientais.

“O que a gente tem acompanhado na Câmara e no Senado nos últimos meses é um movimento para flexibilizar a legislação ambiental, quando sabemos que o foco deve ser no fortalecimento da lei. O Rio Grande do Sul, por exemplo, não possui um Programa de Regularização Ambiental regulamentado. Isso significa que o Estado está atrasado na recuperação de seus passivos ambientais, na conservação da sua biodiversidade e seus recursos naturais”, destaca Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM.

O Rio Grande do Sul possui atualmente cerca de 255 mil hectares que deveriam estar preservados em áreas de Reserva Legal, mas que se encontram desprotegidos. Os dados são do Termômetro do Código Florestal, iniciativa do OCF (Observatório do Código Florestal), desenvolvida pelo IPAM e parceiros.

Impacto econômico 

Além dos crescentes impactos sociais e ambientais, ambientalistas também destacam o prejuízo econômico causado por eventos climáticos extremos. No Brasil, grande produtor agrícola, o aumento das temperaturas está diretamente ligado à quebra de safras, morte de gado e queda na produtividade agropecuária. Atualmente, 30% das fazendas na fronteira agrícola Amazônia-Cerrado, no Mato Grosso, Goiás e Matopiba, já estão fora do ideal climático para a agricultura por conta das alterações no clima.

“Uma coisa extremamente importante é que a Câmara dos Deputados possa levar para todos os rincões do Brasil o debate da adaptação às mudanças climáticas. Teremos eleições municipais no meio do ano e isso precisa ser debatido porque vivemos em um país em que 56% dos municípios não têm nenhum tipo de ação climática e apenas 1,8% monitoram a efetividade de suas leis ambientais. Essa crise afeta os mais pobres e vulneráveis primeiro, mas já afeta também as elites, afeta a nossa produção industrial e agropecuária”, alerta Marcos Woortmann, coordenador de políticas ambientais do IDS (Instituto de Desenvolvimento Socioambiental), que compõe a Virada Parlamentar Sustentável.

Os principais cientistas climáticos do mundo esperam que o aquecimento global ultrapasse a meta de 1,5°C

O planeta caminha para pelo menos 2,5°C de aquecimento com resultados desastrosos para a humanidade, descobriu uma pesquisa com centenas de cientistas

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A crise climática já está  causando danos profundos a vidas e meios de subsistência em todo o mundo. Ilustração: Guardian Design/Halil Kahraman

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

Centenas dos principais cientistas climáticos do mundo esperam que as temperaturas globais subam para pelo menos 2,5°C neste século, ultrapassando as metas acordadas internacionalmente e causando consequências catastróficas para a humanidade e para o planeta, revelou uma pesquisa exclusiva do The Guardian.

Quase 80% dos inquiridos, todos do conceituado Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), prevêem pelo menos 2,5°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, enquanto quase metade prevê pelo menos 3°C. Apenas 6% consideram que o limite de 1,5°C  acordado internacionalmente será cumprido.

Muitos dos cientistas prevêem um futuro “semi-distópico”, com fomes, conflitos e migrações em massa, impulsionados por ondas de calor, incêndios florestais, inundações e tempestades com uma intensidade e frequência muito superiores às que já ocorreram.

Numerosos especialistas afirmaram que se sentiram desesperados, enfurecidos e assustados com o fracasso dos governos em agir, apesar das claras evidências científicas fornecidas.

“Penso que estamos caminhando para uma grande perturbação social nos próximos cinco anos”, disse Gretta Pecl, da Universidade da Tasmânia. “[As autoridades] ficarão sobrecarregadas com evento extremo após evento extremo, a produção de alimentos será interrompida. Eu não poderia sentir maior desespero em relação ao futuro.”

Quão alto irá o aquecimento global? Quão acima dos níveis pré-industriais você acha que a temperatura média global aumentará entre agora e 2100? Contagem de respostas dadas por especialistas em clima do IPCC

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Mas muitos disseram que a luta climática deve continuar, por mais elevada que seja a temperatura global, porque cada fração de grau evitada reduziria o sofrimento humano.

Peter Cox, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, afirmou: “As alterações climáticas não se tornarão repentinamente perigosas a 1,5ºC – já o são. E não será um ‘fim de jogo’ se passarmos de 2ºC, o que podemos muito bem fazer.”

O The Guardian abordou todos os principais autores ou editores de revisão contatáveis ​​dos relatórios do IPCC desde 2018. Quase metade respondeu, 380 de 843. Os relatórios do IPCC são as avaliações padrão-ouro das alterações climáticas, aprovadas por todos os governos e produzidas por especialistas em ciências físicas e sociais. Os resultados mostram que muitas das pessoas mais bem informadas do planeta esperam que a destruição climática se desenvolva nas próximas décadas.

A crise climática já está causando danos profundos a vidas e meios de subsistência em todo o mundo, com apenas 1,2ºC  de aquecimento global, em média, nos últimos quatro anos. Jesse Keenan, da Universidade de Tulane, nos EUA, disse: “Este é apenas o começo: apertem os cintos”.

Nathalie Hilmi, do Centro Científico de Mônaco, que espera um aumento de 3ºC, concordou: “Não podemos ficar abaixo de 1,5ºC”.

Os especialistas afirmaram que os preparativos massivos para proteger as pessoas dos piores desastres climáticos que se avizinham são agora críticos. Letícia Cotrim da Cunha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, disse: “Estou extremamente preocupada com os custos em vidas humanas”.

A meta de 1,5ºC foi escolhida para prevenir o pior da crise climática e tem sido vista como uma importante estrela orientadora para as negociações internacionais. As actuais políticas climáticas significam que o mundo está no caminho certo para cerca de 2,7ºC , e o inquérito do The Guardian mostra que poucos especialistas do IPCC esperam que o mundo tome as medidas necessárias para reduzir esse valor.

Os cientistas mais jovens foram mais pessimistas, com 52% dos entrevistados com menos de 50 anos esperando um aumento de pelo menos 3°C, em comparação com 38% daqueles com mais de 50 anos. As mulheres cientistas também foram mais pessimistas do que os homens, com 49% pensando que a temperatura global aumentaria pelo menos 3°C, em comparação com 38%. Houve pouca diferença entre cientistas de diferentes continentes.

Dipak Dasgupta, do Instituto de Energia e Recursos de Nova Deli, afirmou: “Se o mundo, inacreditavelmente rico como é, ficar parado e fizer pouco para resolver a situação dos pobres, acabaremos todos por perder.”

Os especialistas foram claros sobre a razão pela qual o mundo não está conseguindo enfrentar a crise climática. A falta de vontade política foi citada por quase três quartos dos inquiridos, enquanto 60% também culparam interesses empresariais instalados, como a indústria dos combustíveis fósseis.

Muitos também mencionaram a desigualdade e o fracasso do mundo rico em ajudar os pobres, que sofrem mais com os impactos climáticos. “Espero um futuro semi-distópico com dor e sofrimento substanciais para as pessoas do Sul global”, disse um cientista sul-africano, que optou por não ser identificado. “A resposta do mundo até à data é repreensível – vivemos numa época de tolos.”

Cerca de um quarto dos especialistas do IPCC que responderam pensam que o aumento da temperatura global seria mantido em 2ºC ou menos, mas mesmo eles moderaram as suas esperanças.

“Estou convencido de que temos todas as soluções necessárias para um caminho de 1,5°C e que as implementaremos nos próximos 20 anos”, disse Henry Neufeldt, do Centro Climático de Copenhaga da ONU. “Mas temo que as nossas ações possam chegar tarde demais e cruzarmos um ou vários pontos de inflexão .”

Lisa Schipper, da Universidade de Bonn, na Alemanha, disse: “A minha única fonte de esperança é o fato de, como educadora, poder ver a próxima geração a ser tão inteligente e a compreender a política.”


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Fonte: The Guardian