Luciana Gatti: ‘A Amazônia não está mais compensando o estrago humano’

A cientista, que apontou a perda da capacidade da floresta de absorver o gás carbônico emitido por ação humana, mostra em novo estudo que os efeitos do desmatamento sob Bolsonaro foram equivalentes, para o clima, aos do pior El Niño já registrado

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Por Cláudia Antunes, do Rio de Janeiro para o “Sumaúma”

Luciana Vanni Gatti é uma cientista indignada com a destruição da Amazônia e com os que se negam a enxergar as consequências da derrubada da floresta para o Brasil e o mundo. “Meu motor número 1 é tentar abrir a cabeça das pessoas para isso”, diz a coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Gatti lidera um grupo de pesquisadores que foram os primeiros a demonstrar que a maior floresta tropical do planeta já não consegue mais remover da atmosfera todo o gás carbônico – o principal causador do efeito estufa – lançado no ar da Amazônia por atividades humanas como o desmatamento e as queimadas. Agora, ela acaba de publicar na revista Nature o resultado do estudo mais recente que dirigiu e que mapeia o “efeito Bolsonaro” sobre a destruição da mata na região. Apesar dos dados desanimadores que encontrou, a cientista afirma que ainda há tempo de reverter esse processo. “Se hoje fizermos queimada zero, desmatamento zero, a Amazônia passará a ser um sumidouro de carbono”, afirma, em referência à capacidade da floresta de voltar a absorver mais gás do efeito estufa do que é emitido.

Uma primeira versão do artigo já havia sido divulgada em setembro do ano passado em preprint – um texto que ainda não passou pela avaliação de outros cientistas. Agora, ganha o endosso de uma das publicações científicas de maior prestígio no mundo. O estudo analisa as emissões de gases causadores do efeito estufa na Amazônia em 2019 e 2020, os dois primeiros anos do governo do extremista de direita Jair Bolsonaro. Nesse período, as emissões chegaram muito perto das registradas durante o pior El Niño de que se tem notícia, entre 2015 e 2016. Esse fenômeno de aquecimento das águas do oceano Pacífico causa seca e redução das chuvas no norte do Brasil, favorecendo a propagação dos incêndios na mata. E a queima das árvores libera carbono na atmosfera. “Bolsonaro e Ricardo Salles merecem o apelido de ‘El Niño brasileiro’”, diz Gatti, referindo-se também ao ministro do Meio Ambiente de janeiro de 2019 a junho de 2021.

Os dados colhidos pelo Laboratório de Gases de Efeito Estufa mostraram que as emissões de gás carbônico (CO2) e de monóxido de carbono (CO) – gases causadores do efeito estufa que possuem o carbono em sua composição – aumentaram 89% em 2019, em relação à média registrada entre 2010 e 2018, e 122% em 2020, na comparação com os mesmos nove anos. De maneira geral, isso significa que durante os dois primeiros anos do governo Bolsonaro a floresta teve mais dificuldade de absorver o carbono lançado no ar pelas ações dos humanos, como o desmatamento e a degradação da mata – quando apenas parte das árvores é cortada para a venda ou quando o fogo atinge a floresta em pé, queimando apenas parte dela.

As plantas da floresta estocam carbono na fotossíntese, processo pelo qual se alimentam. Elas absorvem o gás carbônico e o armazenam em suas folhas, troncos e raízes. Quando elas são arrancadas, queimadas ou morrem, esse carbono volta para a atmosfera. “A floresta não está compensando o estrago humano”, afirma a cientista.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

Na ausência de uma seca extrema que pudesse explicar o aumento das queimadas e, em consequência, das emissões em 2019 e 2020, Gatti buscou no estudo relacionar esse incremento às políticas bolsonaristas. Para isso, contou com a colaboração de colegas do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) e do Programa Queimadas (BDQueimadas), ambos do Inpe; do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden); e da equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que acompanha políticas públicas de controle do desmatamento. No total, 30 pesquisadores assinam o estudo, intitulado Aumento das Emissões de Carbono na Amazônia Devido Principalmente ao Declínio da Aplicação da Lei.

A pesquisa destaca a queda na aplicação e cobrança de multas aos desmatadores pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Sob Bolsonaro, um decreto presidencial – o 9.760, de abril de 2019 – e vários despachos do Ibama dificultaram a autuação por crimes ambientais e facilitaram a prescrição de penalidades. O resultado é que as multas aplicadas na Amazônia diminuíram 30% em 2019 e 54% em 2020, na comparação com a média dos anos de 2010 a 2018. A redução das multas pagas foi de 74% em 2019 e 89% em 2020. Em contrapartida, nos mesmos dois anos o desmatamento aumentou 82% e 77%, respectivamente, e as áreas queimadas cresceram 14% e 42%.

Um marco simbólico da destruição foi o chamado “Dia do Fogo”, em 2019. Entre 10 e 11 de agosto daquele ano, o Inpe constatou 1.457 focos de calor no Pará, com epicentro na cidade de Novo Progresso, no sudoeste do estado. Isso representou um aumento de 1.923% em comparação com os mesmos dias do ano anterior, segundo levantamento do Greenpeace. Somente no dia 10, houve 715 focos de incêndio, 707% mais do que no dia anterior, 9 de agosto, quando ocorreram 101 focos. Investigações da polícia mostraram que fazendeiros de Novo Progresso tinham feito uma vaquinha para comprar combustível e incendiar a mata. O levantamento do Greenpeace, porém, revela que só 5% das 207 propriedades em que houve queimadas foram multadas.

 Imagem aérea de queimadas na região de altamira, município no estado do pará, em 2019, durante o mandato de jair bolsonaro. Foto: victor moriyama/greenpeace imagem aérea de queimadas na região de Altamira, município no estado do Pará, em 2019, durante o mandato de Jair Bolsonaro. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Quando ocorreu o Dia do Fogo, Bolsonaro enfrentava críticas internacionais por causa do aumento do desmatamento. Ele havia travado uma discussão pública com o presidente da França, Emmanuel Macron, e a Alemanha suspendera doações para o setor ambiental brasileiro. As queimadas seriam uma manifestação dos ruralistas de apoio ao presidente. Em janeiro de 2022, num evento de lançamento de crédito agrícola do Banco do Brasil, Bolsonaro comemorou a queda na autuação durante seu governo. “Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental, especialmente no tocante à multa. Tem que existir? Tem. Mas conversamos e nós reduzimos em mais de 80% as multagens [sic] no campo”, disse. Sete meses depois do discurso de Bolsonaro, em 22 de agosto, os focos de queimadas superaram os do Dia do Fogo: foram 3.358 em toda a Amazônia, dos quais 1.126 no Pará.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

O estudo publicado na Nature constatou que, em 2019 e 2020, a maior parte do aumento das emissões se deveu à queima de florestas ainda em pé, que tem um efeito prolongado de degradação da vegetação – o mais comum é que as árvores primeiro sejam derrubadas e em seguida incendiadas. “A degradação em 2019 e 2020 foi gigantesca”, comenta Gatti. “[Os criminosos] entraram em terras protegidas, em terras indígenas, para pegar terra pública e queimaram floresta viva”, diz. “Como o fogo entra por baixo da mata, o satélite não pega bem. Quando o fogo apaga, continua havendo emissão de carbono porque a árvore está morrendo, está se decompondo. As emissões de decomposição superaram as emissões de queimadas”, explica ela. A dificuldade de captar em tempo real esse tipo de destruição ajuda a entender por que o crescimento dos focos de incêndio detectados nos dois primeiros anos de Bolsonaro foi menor que o das áreas queimadas: 3% em 2019 e 22% em 2020.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

O artigo traz ainda dados que indicam para que foram usadas as áreas de floresta destruídas naqueles dois anos. O número de cabeças de boi na Amazônia aumentou 13% no biênio, enquanto diminuiu 4% no resto do país. A área plantada de soja cresceu 68%, e a de milho, 58%. A exportação de madeira bruta explodiu, aumentando 683%. Em fevereiro de 2020, um despacho do então presidente do Ibama, Eduardo Bim, acabou com a exigência de que essa exportação fosse autorizada pelo órgão, com exceção de espécies de árvore sob risco de extinção. Para as demais, bastava uma autodeclaração de que a madeira tinha origem legal.

Em 2021, Bim e Ricardo Salles passaram a ser investigados pela Polícia Federal por suposto envolvimento na exportação ilegal de madeira para os Estados Unidos e a Europa. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente do Ibama foi afastado do cargo por 90 dias. Salles acabou caindo do ministério, mas no ano passado foi eleito deputado federal por São Paulo, pelo PL, com 640 mil votos, a quarta maior votação para a Câmara no estado. O inquérito ainda não foi concluído.

O dominó da destruição

É a terceira vez que Luciana Gatti aparece como primeira autora em um artigo na Nature – os outros foram publicados em 2014 e 2021. Todos estão relacionados a suas pesquisas sobre os impactos da floresta amazônica no clima regional e global e vice-versa, porque, assim como a destruição da Amazônia influencia o clima do planeta, as mudanças climáticatambém prejudicam a floresta brasileira. Essa investigação começou nos anos 1990, quando o cientista Carlos Nobre buscou recursos e parcerias no exterior para criar, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, conhecido pela sigla em inglês LBA. O LBA ajudou a formar uma geração de cientistas brasileiros especializados em mudanças climáticas e ambientais, entre os quais Luciana Gatti. Química de formação, especialista na medição de gases do efeito estufa, ela foi estudar outras áreas, como meteorologia, para entender os resultados que obtinha.

Luciana Gatti confere equipamento usado para coletar amostras de ar na amazônia. as análises são feitas no laboratório do INPE, em São José dos Campos, estado de São Paulo. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma

Na época, as primeiras medições do balanço de carbono na Amazônia – isto é, se a região mais emite ou absorve – foram feitas com o uso de torres de 80 metros para a coleta de amostras de ar. Logo se descobriu, porém, que os dados obtidos dessa forma eram insuficientes para representar toda a região, pois só mediam a quantidade de carbono naquele local específico.

Foi então que veio o projeto de usar aviões para recolher amostras de ar da Amazônia a diferentes distâncias do solo, em altitudes que vão de 300 metros a 4,4 quilômetros, inspirado no que já era feito em outros lugares pela Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA, na sigla em inglês). Isso permite a representação de áreas mais amplas. O projeto foi concretizado com a criação do Laboratório de Gases de Efeito Estufa, que fez suas primeiras medições em 2010 e hoje recolhe amostras em quatro áreas, que representam as regiões nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste da Amazônia. “Se você vai descendo e a concentração de CO2 vai diminuindo, significa que a superfície está removendo CO2 da atmosfera. Se ela vai aumentando, significa que a superfície é uma fonte, está emitindo CO2”, explica Gatti. “Isso consegue te contar se a Amazônia é uma fonte ou um sumidouro de carbono [absorve mais gás do que é emitido].”

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

No artigo publicado na Nature em 2021, com base nos dados de 2010 a 2018, a cientista já afirmava que a capacidade da floresta amazônica de absorver todo o carbono lançado na atmosfera da região estava em declínio. Naquele texto, ela mostrava que as emissões eram maiores do que a absorção no entorno de Santarém, no Pará, e de Alta Floresta, em Mato Grosso, que ficam no lado leste da Amazônia, historicamente mais desmatado. Na época, as regiões no entorno de Tefé, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre, ambas no oeste amazônico, ainda absorviam mais carbono do que emitiam. Em 2019, porém, a área nas proximidades de Tefé já virou emissora. Em 2020, isso ficou patente também nas medições feitas próximo a Rio Branco. “O desmatamento aumentou absurdamente em Mato Grosso, Rondônia, Roraima, sul do Amazonas e Acre”, diz Gatti.

De acordo com as informações do Laboratório de Gases de Efeito Estufa, em apenas três dos 11 anos entre 2010 e 2020 – 2011, 2017 e 2018 – o balanço das emissões de carbono na região amazônica como um todo foi neutro ou negativo, isto é, houve, em média, mais absorção do que emissões. Em 2010, as emissões aumentaram, apesar de o desmatamento ter caído em relação ao ano anterior, mas houve outro El Niño. Em 2011 e 2018, ocorreu o fenômeno La Niña, que tem efeito oposto – as águas do Pacífico ficam mais frias, e isso provoca mais chuvas na Amazônia.

Luciana Gatti, porém, não estava plenamente satisfeita com as explicações de que dispunha para o balanço das emissões na Amazônia. Embora o desmatamento seja uma causa direta do aumento das emissões de carbono, ela ficou intrigada com o fato de não haver uma relação proporcional entre o desmate acumulado e essas emissões. Por exemplo, uma região que já tinha perdido 27% da mata nativa emitia oito vezes mais do que outra que estava 11% desmatada – e não quase três vezes mais, como uma conta matemática simples permitiria deduzir. Aí veio a pesquisa que lhe proporcionou seu “maior aprendizado”, no sentido de entender que a floresta que resta está sendo modificada pelo desmatamento.

Analisando os dados mensais de chuvas e temperaturas durante 40 anos para cada uma das quatro regiões cobertas pelas coletas do laboratório, ela verificou que nas áreas mais desmatadas tinha havido maior redução de chuvas e aumento da temperatura, especialmente na estação seca. Na Amazônia, essa estação ocorre quando a floresta recebe menos vapor de água do oceano e a formação de chuva depende mais do processo de transpiração das árvores ou da evaporação dos rios. Nas áreas mais desmatadas, existem menos árvores para compensar essa perda de chuva.

Uma estação seca mais quente e com menos precipitação “estressa” a floresta, define Gatti. Numa floresta estressada, mais árvores morrem e as que continuam de pé são mais inflamáveis. “A floresta amazônica é como um jogo de dominó, em que tudo está correlacionado”, afirma a cientista. “Quando você desmata, você não emite só carbono, você reduz a chuva e aumenta a temperatura, o que vai fazer a floresta ficar mais seca. Quando o ser humano desmatar e tacar fogo [em uma área que será usada para pasto ou plantação], a floresta que não foi desmatada vai estar seca, e o fogo vai entrar muito mais”, exemplifica ela. “É esse conjunto de cenários que explica as emissões na Amazônia.”

O estudo recém-publicado na Nature mediu o impacto do desmatamento nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro na temperatura e nas chuvas. Em 2019, não houve alteração significativa em relação à média registrada nos anos entre 2010 e 2018. Em 2020, porém, foi constatada queda de 12% na precipitação anual. Diferentemente do verificado nas medições anteriores, essa queda se concentrou na estação chuvosa – janeiro, fevereiro e março tiveram 26% menos chuva. Nos mesmos três meses, a temperatura subiu 0,6 ºC. Uma menor precipitação na estação chuvosa, por sua vez, tem impacto na estação seca, porque se traduz em menos umidade disponível e a floresta pega fogo mais facilmente. “Na pandemia, eu fiquei sozinha, estudando sem parar, e foi isso que foi vindo à tona, essa visão integrada da destruição de uma floresta pelos brasileiros estúpidos, involuídos, que só conhecem o modelo econômico de 50 anos atrás”, desabafa Gatti.

Os jalecos e os livros usados em estudos sobre mudanças climáticas, no escritório de luciana gatti, no inpe. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma

A floresta e o mundo

A cientista ressalta que os dados desanimadores constatados em suas pesquisas precisam ser vistos num quadro mais amplo. Embora esteja sob uma pressão cada vez maior, a vegetação amazônica, que representa cerca de 50% das florestas tropicais do mundo, ainda atua como reguladora do clima. Ela faz isso tanto por absorver carbono, na fotossíntese, quanto pela chamada “evapotranspiração”, que lança água no ar em forma de vapor. Esse vapor é responsável por 50% da recirculação de água na própria Amazônia e ainda produz chuvas no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, para onde é levado pelos ventos, fenômeno que ficou conhecido como “rios voadores”.

Se a atmosfera do planeta não tivesse sido alterada pelas atividades humanas, o balanço de carbono da floresta amazônica seria neutro, explica Luciana Gatti. “Ela é uma floresta madura, e numa floresta madura há um equilíbrio entre emissões e absorções”, diz, lembrando que a vegetação também emite CO2 por meio da respiração e quando está em decomposição. “Mas, como a atmosfera está superenriquecida de gás carbônico, a natureza está sendo estimulada a fazer mais fotossíntese. Essa absorção de carbono não é natural, ela é um desequilíbrio provocado por nós mesmos.”

Gatti cita os números do Projeto Global de Carbono, uma iniciativa científica internacional que calcula o Orçamento Global de Carbono. Segundo esse cálculo, a concentração de gás carbônico na atmosfera passou de 277 partes por milhão em meados do século 18, na era pré-industrial, para 417 partes por milhão em 2022. É isso que está provocando o aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos que esse aumento acarreta, como secas prolongadas e tempestades atípicas. Nessas circunstâncias, a floresta amazônica e outros ecossistemas brasileiros, como o Pantanal, atuam como um “tampão climático” para o país, diz Gatti. Quando evaporam água, resfriam a atmosfera.

Na última década, foram emitidos no mundo por ano, em média, 35 bilhões de toneladas de carbono pelo uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) e 5 bilhões de toneladas por causa de mudanças no uso da terra, como o desmatamento. Do total de 40 bilhões, segundo o Orçamento Global de Carbono, 19 bilhões ficaram na atmosfera, outros 11 bilhões foram absorvidos pelas florestas e 10 bilhões pelos oceanos, por meio do fitoplâncton, formado por organismos como as algas, por exemplo, que também fazem fotossíntese. “Se a própria natureza não estivesse se alterando para compensar o estrago que a gente está fazendo, a nossa situação seria muito pior”, afirma a cientista. “Mas até quando a natureza vai conseguir fazer esse trabalho de limpar nossa sujeira?”

O estudo publicado na Nature busca uma conclusão que não seja pessimista sobre o futuro da floresta amazônica. Enumera políticas que levaram à redução contínua do desmate entre 2004 e 2012, como o primeiro Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDam), lançado em 2004, e a implementação no mesmo ano do Deter, sistema de monitoramento por satélite que permite detectar o desmatamento quase em tempo real. Lista também as iniciativas que foram minando a vigilância, como o Código Florestal de 2012, que anistiou 58% do desmatamento ilegal ocorrido até 2008 e deu 20 anos de prazo aos proprietários de terras para regularizarem sua situação. Ainda em 2018, no governo de Michel Temer, o Ibama retirou a autonomia dos agentes em campo para destruírem equipamentos usados para destruir a floresta.

Comparando os períodos de 2010 a 2014 e de 2016 a 2020, o estudo mostra que, no último deles, quando o ritmo do desmatamento voltou a aumentar, as emissões na Amazônia cresceram 50% e as emissões especificamente por queimadas subiram 16%. Já a absorção de carbono diminuiu 31%. Isso indica, afirma o artigo, que políticas públicas são importantes para prevenir o desmate, a degradação florestal e o fogo. Pelas contas de Luciana Gatti, o fim das queimadas e do desmatamento deixaria a floresta em condições de compensar, de novo, o gás carbônico jogado na atmosfera pelas atividades dos humanos.

A cientista já se dedica a uma nova pesquisa, que tem entre os parceiros o Carnegie Science, dos Estados Unidos. Joseph Berry, cientista veterano do instituto americano, descobriu que o composto conhecido como COS, o sulfeto de carbonila, formado por 1 átomo de carbono, 1 de oxigênio e 1 de enxofre, funciona como um “traçador de fotossíntese”. A planta não vê diferença entre o COS, que ocorre naturalmente na atmosfera, e o dióxido de carbono (CO2). Assim absorve os dois quando se alimenta. Quando ela respira, porém, produz apenas CO2 e, portanto, não devolve o COS à atmosfera. “A redução do COS nas amostras de ar é proporcional à fotossíntese”, explica Gatti. Dito de outra forma, a redução da presença de COS no ar pode dar uma medida mais exata da quantidade de CO2 que a vegetação absorveu ao se alimentar. “A gente vai finalmente poder dizer se a floresta estressada pelo desmatamento, pelo aumento da temperatura, está absorvendo menos carbono do que a floresta mais preservada”, antecipa-se, animada.


Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Montagem da página: Érica Saboya

A cientista em seu local de trabalho: ‘a gente vai finalmente poder dizer se a floresta está estressada pelo desmatamento’. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal Sumaúma [Aqui!].

O lado negro da digitalização: a Internet destruidora do clima

A indústria, a investigação e o entretenimento exigem cada vez mais recursos na sociedade digitalizada. Isto também leva a um rápido aumento nas emissões de gases de efeito estufa

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Dado que as capacidades de computação e armazenamento ainda são extremamente baratas, existem poucos incentivos para utilizar estes recursos com moderação. Foto: Adobe Stock / »nd« [M]

Por Joel Schmidt para o “Neues Deutschland”

Quer estejamos ocupados no escritório, stressados ​​na estrada ou em casa, no sofá – quase nenhuma conquista técnica das últimas décadas mudou tanto a nossa vida quotidiana como a Internet. Na viragem do milénio, apenas 360 milhões de pessoas estavam online em todo o mundo. No ano passado, o número subiu para mais de cinco mil milhões. Da comunicação e navegação à transferência de conhecimento, a Internet permite que inúmeras pessoas participem de formas até então desconhecidas. Mas por mais vantagens que a interconectividade do mundo traga consigo, ela também tem as suas desvantagens. Porque a digitalização de quase todas as áreas da vida e com ela a disponibilidade constante de todos os serviços não pode ser separada do consumo de recursos necessários à mera disponibilização da infraestrutura correspondente. O que isso significa? Se a Internet fosse um país, em 2020 teria 2,8% do CO2 do mundo2 ocupa o sexto lugar entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Para efeito de comparação: a Alemanha ficou em oitavo lugar no mesmo ano, com um consumo de cerca de 730 milhões de toneladas de CO2 .

Este aumento no consumo de energia também se reflete no aumento da quantidade de dados em todo o mundo. De acordo com estimativas do Escritório Federal de Assuntos Econômicos e Proteção Climática (BMWK), isso totalizou mais de 50 zetabytes em 2020. São 50 trilhões de gigabytes, um número com 21 zeros. O BMWK coloca isso de forma um pouco menos abstrata: “Se você salvasse essa quantidade de dados em DVDs, a pilha teria 2,6 milhões de quilômetros de altura – o que corresponde a 63 vezes a circunferência da nossa Terra”. a pesquisa é para o ano de 2025 e a empresa de consultoria International Data Corporation (IDC) previu um aumento de 25,5x no volume global de dados, para 175 zetabytes. Estima-se que a quantidade de dados produzidos pela humanidade dobra a cada três anos.

Estes não só devem ser armazenados em algum lugar, mas também processados ​​​​e encaminhados, caso contrário, permanecerão inúteis. Grosso modo, a infraestrutura digital necessária para isso pode ser dividida em duas áreas. Os dados são disponibilizados e armazenados em data centers e depois encaminhados aos respectivos clientes por meio de redes de dados. Embora no caso de dispositivos finais móveis, como laptops ou smartphones, cerca de 80% do consumo de energia na forma de emissões de gases de efeito estufa sejam atribuíveis à produção e o restante à operação contínua, na área de infraestrutura digital. Isso se deve principalmente ao fato de que os servidores e storages (soluções de armazenamento no ambiente de TI) nos data centers estão em constante operação – e, portanto, consomem energia constantemente. Já que cada consulta, por menor que seja, com um mecanismo de pesquisa,

As empresas não têm uma visão geral de seus dados

Os data centers vêm em todos os formatos e tamanhos. O espectro varia de pequenas empresas que o utilizam para processar suas comunicações por e-mail, a centros de informática universitários que o utilizam para realizar suas pesquisas, até grupos automotivos que o utilizam para operar suas linhas de produção. E há também os chamados data centers em hiperescala, que ocupam salas de logística inteiras e são usados ​​para oferecer serviços de computação em nuvem, hospedagem ou streaming. Simon Hinterholzer é pesquisador do Instituto Borderstep para Inovação e Sustentabilidade, que estuda o consumo de energia de data centers na Alemanha há 15 anos. “Em termos de escalas de impacto ambiental, estas são comparáveis ​​desde uma residência privada até uma cidade pequena ou média”, afirma ao “nd”. Até agora, os data centers não são legalmente obrigados a declarar o seu consumo. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado.

Hinterholzer refere-se aos relatórios de sustentabilidade das grandes empresas tecnológicas Amazon, Alphabet e Meta, que mostram que os seus data centers já funcionam em grande parte com energias renováveis. No entanto, uma vez que a energia eólica e os sistemas fotovoltaicos não produzem electricidade a todo o momento ou esta não pode ser armazenada, e a infra-estrutura ainda tem de ser fornecida 24 horas por dia, “nenhum dos centros de dados neste país é capaz de provar que a sua electricidade é disponível a qualquer hora a partir de fontes verdes vem«. É uma questão completamente diferente que os grandes data centers de hiperescala, em particular , consumam enormes quantidades de água para resfriar seus servidores, além de eletricidade para operá-los.

É difícil responder quanto espaço de armazenamento e capacidade do data center é usado por cada empresa. No entanto, é generalizada a ideia de que os recursos correspondentes estão disponíveis quase infinitamente. Isto se aplica especialmente à área de computação em nuvem. O resultado: “Se a capacidade computacional estiver disponível de forma extremamente barata, há poucos incentivos para usar esses recursos com moderação”, diz Hinterholzer. De acordo com a empresa tecnológica californiana Veritas, as empresas alemãs, em particular, destacam-se no que diz respeito ao tratamento inflacionário de dados. Segundo estimativas, 66 por cento de todos os dados armazenados por empresas sediadas neste país são casos de “dados obscuros”. O que se entende por isto são conjuntos de dados que a empresa desconhece, porque ou são inutilizáveis,

Enorme consumo de energia devido a rastreamento e cookies

Anne Mollen, da organização sem fins lucrativos Algorithm Watch, conhece esses exemplos no campo da IA. Nas universidades, nas médias empresas, mas também nas grandes empresas, ainda não foi estabelecido manter os sistemas de IA enxutos. “Simplesmente compram-se novos servidores em vez de sensibilizar para a programação para poupar recursos”, diz ela ao “nd”. Em particular, modelos de linguagem como o ChatGPT requerem uma enorme quantidade de energia, “especialmente tendo em conta que as grandes empresas tecnológicas utilizam centros de dados com emissões muito baixas”. Até agora, a fase de desenvolvimento e formação dos modelos correspondentes tem sido considerada muito intensiva em recursos. Por outro lado, os fabricantes descrevem o consumo na chamada fase de inferência, ou seja, a aplicação concreta, como extremamente baixo. Pode ser verdade, diz Mollen, que o consumo de energia da inferência individual é extremamente pequeno. Este baixo consumo por processo só é relativizado se “isto for feito milhares de milhões de vezes por dia”. Suas declarações são apoiadas pela própria indústria. Já em 2019, Jen-Hsun Huang, CEO do fabricante de processadores Nvidia, e Jeff Barr, do provedor de computação em nuvem Amazon Web Services (AWS), disseram que o aprendizado de máquina na verdade é responsável por cerca de 90 por cento. do consumo de energia cai apenas para essa fase de inferência.

A situação é semelhante com outras aplicações digitais que se tornaram indispensáveis ​​no dia a dia. De acordo com o think tank francês The Shift Project, uma única pesquisa no Google emite uma quantidade insignificante de 0,2 gramas de CO 2 . Só que existem mais de 3,5 mil milhões de pesquisas deste tipo em todo o mundo – por dia. O streaming requer ainda mais energia. Apenas meia hora de transmissão de vídeo na Netflix causa 1,6 quilograma de emissões. Isso é aproximadamente comparável a dirigir um carro de seis quilômetros. Com 1,5 gramas de CO 2por hora, o streaming via conexão por cabo de fibra ótica é o mais econômico, pela rede móvel sem fio 5G já são cinco gramas. A qualidade também faz diferença: se um vídeo HD de uma hora requer 700 megabytes de espaço de armazenamento, os dados o volume aumenta dez vezes com a resolução em ultra HD para sete gigabytes.

Permanece a questão de saber quem será responsável pelos crescentes custos ambientais da digitalização no futuro. Poderíamos ter calma e apelar ao moral do consumidor para usar menos Netflix, ChatGPT e motores de busca em geral; contente-se com o streaming em uma resolução mais baixa e aproveite o thriller de domingo à noite em qualidade Ultra HD. Mas também se poderia procurar soluções políticas e, por exemplo, pedir às grandes empresas tecnológicas que fizessem a sua parte. Por exemplo, adaptando os seus modelos de negócio e abstendo-se de armazenar cookies que são utilizados para monitorizar o comportamento do utilizador para fins publicitários. De acordo com estimativas do instituto de investigação holandês CE Delft, só as atividades de monitorização e publicidade de aplicações móveis geram entre 29,6 e 50,4 mil milhões de gigabytes de dados anualmente na União Europeia. Isso corresponde a CO2 emissões de cinco a 14 milhões de toneladas: cerca de 950.000 pessoas produzem num ano.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Emissões de carbono na Amazônia cresceram 122% em 2020 em relação à média de 2010 a 2018

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As emissões de gás carbônico (CO2) pela Amazônia aumentou em 122% e 89% nos anos de 2020 e 2019, respectivamente, em comparação com o período de 2010 a 2018. O crescimento representa a soma dos números do desmatamento e das queimadas na região, e está relacionado principalmente ao declínio na aplicação de leis ambientais. É o que aponta artigo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições nacionais e estrangeiras publicado na quarta (23) na revista “Nature”.

A equipe comparou dados sobre o cumprimento das regulamentações ambientais aos eventos ocorridos na Amazônia durante o período de 2010 a 2018, já analisados em produções anteriores, e nos anos subsequentes, 2019 e 2020. Os pesquisadores coletaram amostras de CO2 em 742 voos realizados com uma pequena aeronave em quatro localidades da Amazônia e analisaram as amostras em laboratório do INPE.

O resultado das pesquisas foi compartilhado com técnicos do PRODES/DETER (INPE), que produziram mapas comparando a diferença do desmatamento em 2019 e 2020 com a média 2010-2018. Verificou-se que o aumento de desmatamento em 2019 foi de 82% e de 77% em 2020. Também houve aumento na área queimada de 14% em 2019 e de 42% em 2020. Já as multas reduziram 30% e 54%, e os pagamentos das multas reduziram em 74% e 89% em 2019 e 2020, respectivamente.  “O modelo econômico na Amazônia está por trás disso”, comenta Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e principal autora do artigo.

Os dados apontam ainda que o nível das emissões registradas entre 2019 e 2020 são comparáveis ao observado em 2015 e 2016, quando um evento climático extremo de grande escala atingiu a região – o El Niño. “Quando o El Niño aconteceu, as emissões de CO2 cresceram porque foi um período de extrema seca, com muitas queimadas e perda de parte da floresta”, explica a pesquisadora. Gatti reforça que 2019 e 2020 não contaram com razões climáticas que justifiquem o crescimento das emissões, o que aponta para a ação humana como explicação.

A pesquisa salienta que as ações de monitoramento e controle podem ser ainda mais importantes nos próximos anos, quando a previsão é de que a região amazônica enfrente desafios maiores, pois as previsões indicam que o próximo evento climático promete ser mais intenso que o último El Niño. “Os dados mostram claramente a importância de políticas de controle e combate ao desmatamento eficazes”, frisa Gatti.

O financiamento do governo é essencial para que as análises possam continuar sendo feitas. “O recurso financeiro usado para as pesquisas é cedido por agências de financiamento de ciência, mas, para que os dados possam estar disponíveis independentemente de publicações científicas, precisamos de financiamento por parte do Governo Federal”, explica a pesquisadora.

A pesquisa observa que a exportação de madeira na Amazônia aumentou quase 700% no período, assim como também cresceram a área plantada de soja (68%) e de milho (58%), além do rebanho bovino (14%) dentro da Amazônia. Daí a importância de políticas públicas apontando um modelo de economia com a floresta em pé, e mais eficazes para a preservação da floresta e a conservação da diversidade amazônica. “Estamos na batalha para o governo assumir a tarefa de zerar o desmatamento antes de 2030 e reflorestar uma parte nas regiões críticas para salvar a Amazônia do ponto de não retorno”, conclui Gatti.

Impactos climáticos: as lutas e conflitos para se adaptar

Lidar com os efeitos da mudança climática está se tornando uma questão cada vez mais central – e abriga um potencial infinito de conflito

267851Deslizamento de terra na Noruega após fortes tempestades. Foto: AP/Cornelius Poppe

Por Deixe Thiele para o “Neues Deutschland”

Na diplomacia climática internacional, as questões de adaptação à crise climática têm sido uma vertente central das negociações. O semáforo acaba de submeter uma lei de adaptação climática ao Bundestag. Sem surpresa, concentra-se em aspectos técnicos, por exemplo, prescrevendo a consideração de impactos climáticos na construção pública e no planejamento de infraestrutura – sem critérios rígidos. No entanto, metas mensuráveis ​​devem seguir.

Lidar com a crise climática, sem dúvida, requer genialidade da engenharia. E, de fato, a adaptação há muito é planejada silenciosamente, onde quer que as consequências das mudanças climáticas possam ser reconhecidas com sobriedade, longe de debates públicos e armadilhas políticas – em empresas, empresas de infraestrutura e administrações municipais, na agricultura, nas forças armadas.

Mas os canteiros de obras muito mais profundos serão sociais. É preciso adequar o modo de vida e de produção – para maior resiliência, diferentes ritmos de trabalho, gerenciamento de desastres como tarefa permanente . Mas como? Todo ajuste concebível significa conflito: sobre a distribuição de recursos, condições de trabalho, co-determinação, privilégios. Mas quando se trata das condições em que ocorrem os ajustes, o modo dominante continua sendo o da repressão e da destematização. Cada vez mais agressivo, como no campo liberal-conservador, ou gentil e meio envergonhado, como no espectro de centro-esquerda.

Discutidas abertamente ou não, as lutas para se conformar estão se tornando os conflitos políticos centrais deste século. Eles intervirão em todas as áreas da vida, sobreporão todas as linhas políticas de conflito, serão negociados em todos os lugares. Um abastecimento de água cada vez mais escasso é distribuído de forma justa ou apropriado pelas corporações? A sesta do meio-dia é travada para proteger a saúde nos países cada vez mais quentes da Europa Central , contra toda a tradição protestante? Como o regime europeu de fronteiras reage aos chamados refugiados climáticos? Quem paga pela proteção civil, quem paga pela reconstrução após o próximo desastre? Quem arca com os custos nos países dramaticamente afetados do Sul Global, que quase nada contribuem para a crise climática?

Graças ao desenvolvimento dinâmico da crise climática, as lutas de adaptação estão se tornando um fenômeno permanente. Se o estado da luta contra o aquecimento global pode ser lido de forma bastante objetiva a partir dos valores de CO2 e temperatura, as complexas lutas de adaptação tornam-se mais confusas e menos “perdidas” ou “ganhas” em sua totalidade.

Há muito tempo estamos no meio disso: em todas as lutas culturais contemporâneas e tendências de fascização, as questões de assimilação desempenham um papel importante – às vezes mais, às vezes menos explicitamente. Isso talvez seja mais vívido nas fronteiras externas da UE. O acordo sobre uma restrição drástica do direito de asilo também deve ser entendido como uma preparação para um mundo em que cada vez mais pessoas fugirão. A narrativa dos “refugiados climáticos” é muito simplista, ignorando os conflitos locais e as relações econômicas globais desiguais, mas: As catástrofes climáticas sem dúvida aumentam a dinâmica do deslocamento. Aqueles que agora declaram que não há alternativa à execução duma hipoteca também sabem disso.

Para a justiça climática, as lutas de adaptação são, em última análise, mais decisivas do que as de redução de emissões: um clima instável significa um caos duradouro, mas no final depende de como a sociedade lida com isso. Um mundo de dois graus pode significar realidades de vida coletiva completamente diferentes. Existe o modelo autoritário “Fortaleza Europa” – e existe um modelo solidário de segurança local de abastecimento e forte infraestrutura pública com fronteiras abertas. O drama do século 21 acontecerá entre esses pólos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].

Decepção na Amazônia

Cúpula dos países amazônicos termina com declaração final frouxa e recebe críticas de povos indígenas e organizações ambientais

cupula 1Presidente Lula da Silva (2º da direita) com participantes da cúpula (Belém, 9 de agosto de 2023)

Por Norbert Suchanek para o JungenWelt”

A Cúpula da Amazon de dois dias acabou e a decepção é grande. Em vez de decisões importantes que salvariam a Amazônia, houve principalmente palavras vazias na cúpula de Belém, Brasil. Além disso, embora os chefes de governo dos países amazônicos e de outros estados da floresta tropical na África e na Ásia tenham sido convidados para a conferência de 8 e 9 de agosto, os chefes dos povos indígenas da Amazônia não foram.

A ciência concorda. Devido ao contínuo desmatamento em larga escala e ao aquecimento global, a região amazônica está à beira do colapso, o que, por sua vez, pode ter consequências catastróficas para outros continentes e para o clima global. Todo o desmatamento e a produção de petróleo e gás na região devem, portanto, ser interrompidos o mais rápido possível – de preferência imediatamente. Essa também é uma reivindicação dos mais de 500 povos indígenas da Amazônia que integram a organização COICA.

Diante desse cenário, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, convidou todos os estados participantes do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) pela primeira vez em 14 anos. Também foram convidados para o encontro na capital do estado do Pará o presidente francês Emmanuel Macron e representantes de países africanos e asiáticos com grandes áreas de floresta tropical. Mas apenas alguns dos chefes de estado aceitaram o convite. Apenas os presidentes da Bolívia, Colômbia, Guiana e Peru voaram para Belém. Venezuela, Suriname e Equador enviaram seus vices ou ministros das Relações Exteriores e do Meio Ambiente à cúpula, a França apenas seu embaixador em Brasília.

Também foi uma surpresa que o documento final da cúpula, elaborado pelo governo brasileiro, tenha sido apresentado no primeiro dia e recebido pelos representantes dos Estados sul-americanos e dos países tropicais convidados, a República Democrática do Congo, República do Congo, Indonésia e São Vicente e Granadinas foi assinado.

O presidente Lula saudou a declaração como uma vitória para “uma Amazônia com cidades mais verdes, ar mais limpo, rios livres de mercúrio e florestas protegidas”. Uma Amazônia com comida na mesa, trabalho decente e serviços públicos para todos, com crianças mais saudáveis, migrantes acolhidos, indígenas respeitados e jovens mais esperançosos”. Segundo Lula, a cúpula de oito países ficará para a história como um marco no desenvolvimento sustentável.

Por mais extensa que seja a chamada Declaração de Belém, com um total de 113 artigos, ela é pouco mais que conversa fiada. Na declaração de 20 páginas, a frase “sustentável” aparece mais de 80 vezes, mas não há medidas específicas ou prazos, por exemplo para acabar com o desmatamento ou a exploração de petróleo.

Portanto, choveram críticas de muitas organizações não-governamentais, povos indígenas e cientistas. Para Marcio Astrini, da rede brasileira de informações climáticas Observatório do Clima, a “Declaração de Belém” não é uma resposta concreta ao mundo em que vivemos. Astrini:  O planeta está derretendo, estamos quebrando recordes de temperatura todos os dias. Em um cenário como esse, não é possível que oito países amazônicos não afirmem claramente que o desmatamento deve chegar a zero e que a exploração de petróleo na floresta tropical não é uma boa ideia.

Em entrevista à agência de notícias independente Amazônia Real, cinco lideranças do estado do Amapá não estranharam que uma das maiores preocupações dos indígenas, o fim da exploração de petróleo na Amazônia, não tenha sido considerada no documento final do cume de Belém. Eles não esperavam outra coisa, como o presidente Lula havia falado antes da conferência sobre a exploração de petróleo em curso na Amazônia. Ao contrário do chefe de estado da Colômbia, Gustavo Petro, que antes de sua chegada fez campanha publicamente pela paralisação total da produção de petróleo e gás na Amazônia.

Embora os estados amazônicos não se comprometam com praticamente nada na declaração, eles estão exigindo dinheiro dos países industrializados – ou seja, 100 bilhões de dólares americanos por ano para a proteção do clima. Não se trata de Brasil, Colômbia ou Venezuela precisando de dinheiro, disse Lula ao final de sua cúpula na Amazônia: “A Mãe Natureza precisa de dinheiro porque o desenvolvimento industrial a destruiu nos últimos 200 anos”. não aceitará o neocolonialismo verde que introduz barreiras comerciais sob o pretexto de proteção ambiental.”


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungenWelt” [Aqui!].

Como está a performance de Lula na questão do clima? Especialistas avaliam seu desempenho para a Nature

O desmatamento caiu, mas os pesquisadores que conversaram com a Nature dizem que ele precisa tomar uma posição mais forte em relação aos combustíveis fósseis

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu acabar com o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. Crédito: Andressa Anholete/Getty

Por Meghie Rodrigues para a Nature

Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo de presidente do Brasil em janeiro, havia grandes esperanças de que ele restauraria as políticas de proteção ambiental enfraquecidas por seu antecessor, Jair Bolsonaro. Entre as promessas de campanha de Lula estavam os votos de acabar com o desmatamento, atividades de mineração ilegal e incêndios florestais – especialmente na floresta amazônica.

Sete meses depois, a Nature consultou pesquisadores e outros especialistas para ver como avaliam o desempenho de Lula até agora. Em uma escala de 1 a 5 – sendo 1 ruim e 5 excelente – as avaliações são positivas, mas mistas. Os entrevistados dizem que há conquistas a comemorar, mas que o governo Lula precisa negociar mais tanto com seus aliados quanto com seus adversários no Congresso para avançar.

Em maio, o Congresso brasileiro, que é controlado por uma maioria conservadora que favorece a indústria, votou para retirar parte do poder tanto do Ministério do Meio Ambiente quanto do Ministério dos Povos Indígenas. Essas agências ajudam a proteger a terra – incluindo a Amazônia – que é rica em biodiversidade e capaz de armazenar grandes quantidades de carbono. Alguns sentiram que o governo não fez um esforço suficiente para evitar a ação. “O governo errou ao não se opor à medida”, diz Carlos Rittl, consultor de política ambiental e de mudança climática baseado em Potsdam, na Alemanha.

No entanto, o governo Lula retomou o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) — programa que ajudou a reduzir a perda de árvores na Amazônia em mais de 80% entre 2004 e 2012, durante os dois primeiros mandatos de Lula como Presidente. O PPCDAm, que apoia a fiscalização remota do desmatamento e o cumprimento das leis de crimes ambientais, foi interrompido pelo governo Bolsonaro, mas agora foi renovado e vai até o final do mandato de Lula até 2027.

Vista aérea de um garimpo ilegal durante uma operação contra o desmatamento da Amazônia no estado de Roraima, Brasil.

Acampamentos ilegais de mineração de ouro, como este que corta a floresta amazônica, liberam mercúrio na água. Crédito: Alan Chaves/AFP via Getty

Existem alguns sinais iniciais de sucesso. No ano passado – de agosto de 2022 a julho de 2023 – o desmatamento caiu 7% em comparação com o mesmo período do ano anterior, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, que usa satélites para rastrear a cobertura arbórea. Nesta semana, Lula está entre os líderes dos países que compartilham a bacia amazônica que se reuniram em Belém, Brasil, para discutir como proteger e desenvolver de forma sustentável a região – a primeira cúpula do gênero desde 2009.

Alguns temem, no entanto, que muita atenção tenha sido dada à Amazônia, em detrimento de outros biomas no Brasil. O desmatamento no Cerrado, uma savana rica em biodiversidade no centro do país, aumentou 16,5% no ano passado – de agosto de 2022 a julho de 2023 – em comparação com o mesmo período do ano anterior. “Há uma postura forte em relação à Amazônia, mas não tanto para o Cerrado”, diz Paulo Moutinho, ecólogo do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia, em Brasília.

A seguir, detalhamos as pontuações dadas pelos especialistas, incluindo suas opiniões sobre o que o governo precisaria fazer para elevar sua pontuação para 5.

Luiz Marques: Esclarecer a posição do Brasil sobre os combustíveis fósseis

Historiador do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais em Campinas, Brasil

Pontuação: 2,5

Pesquisadores que conversaram com a Nature , entre eles Marques, criticaram a falta de clareza do governo Lula sobre as políticas energéticas – principalmente se elas estão alinhadas com a proteção ambiental. Por exemplo, a empresa estatal de energia Petrobras, com sede no Rio de Janeiro, propôs a perfuração de poços exploratórios de petróleo perto da foz do rio Amazonas . Isso despertou preocupação com um sistema de recifes próximo e fez com que alguns se perguntassem por que Lula consideraria explorar novas reservas de combustível fóssil. Marques diz que o governo deveria priorizar a conversão da Petrobras em uma empresa de energia de baixo carbono. “É importante saber até que ponto o governo Lula vai inibir e reverter projetos de extração onshore e offshore já implantados”, acrescenta.

Carlos Rittl: Lutar contra esforços internos para retardar o progresso ambiental

Consultor em políticas de meio ambiente e mudanças climáticas baseado em Potsdam, Alemanha

Pontuação: 3,5

Rittl diz que, para Lula melhorar sua pontuação, ele precisa “dar uma mensagem clara a seus aliados no Congresso de que proteção ambiental e direitos indígenas não são negociáveis”. Para Rittl, Lula deve dar o exemplo. “Só assim o mundo verá que o Brasil está de volta à discussão [da liderança ambiental] – e poderá pressionar outros países a serem mais ambiciosos em suas metas.”

Fabiano Toni: Reforçar pessoal na linha de frente do ministério do meio ambiente

Diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília

Pontuação: 3,5

Toni ficou feliz em ver o governo Lula responder rapidamente a uma crise de saúde entre o povo Yanomami no início deste ano. Declarou emergência de saúde pública no território Yanomami – o maior território indígena do país – em janeiro, após um aumento nas mortes infantis. A mineração ilegal de ouro na região estava afugentando a caça, levando à desnutrição; envenenamento da água com mercúrio; e abrindo caminho para a violência. O governo liderou uma campanha para expulsar milhares de garimpeiros do território.

Para tirar nota 5, diz Toni, o governo deveria contratar mais funcionários em órgãos do ministério do meio ambiente, como o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama), que tem papel de proteção ao meio ambiente; a Fundação Nacional do Índio (Funai), que protege os direitos dos povos indígenas; e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), instituição gestora de unidades de conservação. “Atualmente, as carreiras nessas agências não são atraentes e os funcionários estão desprotegidos”, diz Toni. “Eles precisam ser bem remunerados, porque as funções nessas agências exigem expertise específica e têm importância estratégica.”

Paulo Moutinho: Dar ‘estatuto legal’ a terras sem título

Pesquisador sênior de desmatamento no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia em Brasília

Pontuação: 4,0

Moutinho diz que, para tirar nota 5, o governo Lula precisa fazer uma fiscalização e um controle mais efetivos do desmatamento em todos os biomas. O governo também deve agir rapidamente para dar um ‘status legal’ às terras públicas sem título, especialmente na Amazônia e no Cerrado, diz ele. “Devem ser listadas como áreas protegidas, propriedade indígena ou áreas de uso sustentável. São 56 milhões de hectares de terra atualmente no limbo, sem status definido, tornando-os vulneráveis ​​ao desmatamento.”

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-023-02511-x


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Este texto inicialmente escrito em inglês foi publicado pela “Nature” [Aqui!].

Entrevista com Philip Fearnside sobre a responsabilidade do Brasil na Amazônia e no aquecimento global

Sobre a responsabilidade do Brasil na Amazônia e no aquecimento global. Uma conversa com o pesquisador climático Philip Martin Fearnside

183970Indígenas em área desmatada da Bacia Amazônica (perto de Humaitá, 20/08/2019)

Pesquisadores da Amazônia e do clima concordam: a maior região de floresta tropical do mundo está à beira do colapso. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, convidou, portanto, os chefes de governo de todos os países da bacia amazônica para a cúpula amazônica nos dias 8 e 9 de agosto em Belém, capital do estado do Pará, que já foi fortemente desmatado. O objetivo é uma posição comum para a próxima conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP 28), em novembro. “Queremos dizer ao mundo o que faremos com nossa floresta e o que ela precisa fazer para nos ajudar, porque US$ 100 bilhões foram prometidos em 2009 e não foram pagos até agora”, disse Lula antes da cúpula. . 14 perguntas para a Amazônia e o pesquisador do clima Philip Martin Fearnside sobre a cúpula da Amazônia, a política de proteção florestal do governo brasileiro, barragens, construção de estradas, petróleo e desmatamento zero.

Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Quão perto estamos do ponto sem volta do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso em um futuro próximo?

As áreas fortemente desmatadas no sul do Pará e norte do Mato Grosso podem já ter passado desse ponto, mas isso não significa jogar a toalha. Arce é outra região que está próxima ou além de um ponto crítico. O que será decisivo é o que acontece ao norte de Arce, na região do Trans-Purus, no Amazonas. Perder a floresta seria catastrófico, pois essa área é vital para a reciclagem da água. Existe o risco de que essa região do “Trans-Purus” seja aberta à exploração madeireira por estradas vicinais da BR-319.

De acordo com seu atual Programa de Conservação da Amazônia (PPCDAm), Lula quer acabar com a extração ilegal de madeira até 2030. Isso significa que o registro legal continuará?

A reafirmação da promessa de Lula em seu famoso discurso na COP 27 no Egito, sem dúvida, reflete os planos reais melhor do que o que ele disse, onde a palavra crítica “ilegal” não foi mencionada. Sim, a extração legal não apenas continuaria, mas aumentaria significativamente, pois Lula também promete regularizar as reivindicações fundiárias. Este é um eufemismo para o reconhecimento legal de reivindicações ilegais. A maior parte das terras está agora legalizada por meio de inscrições no Cadastro Ambiental Rural (CAR), criado em 2012 sob a atual Lei Florestal, que permite o registro on-line de propriedades sem uma inspeção no local. Na prática, o CAR tornou-se a principal ferramenta para grileiros se apropriarem de terras públicas sem destino. Uma vez que uma área é de propriedade legal, a exploração madeireira é permitida. Claro, esse reconhecimento alimenta novas reivindicações e invasões. O ciclo contínuo de “anistias” de invasões de terras anteriores só termina quando a última árvore é cortada.

A atual “meta de desmatamento zero” do Brasil até 2030 é suficiente para salvar a Amazônia?

Se o desmatamento parasse até 2030, incluindo o desmatamento “legal”, isso seria um progresso. No entanto, existem outras ameaças. Os incêndios florestais são favorecidos pelas mudanças climáticas, exploração madeireira e queima de pastagens em áreas já desmatadas.

O PPCDAm do Brasil também planeja expandir a exploração madeireira sustentável em florestas públicas para até cinco milhões de hectares. Isso está no espírito de uma estratégia de desmatamento zero?

O uso sustentável da madeira é uma ficção. Essencialmente, toda a exploração madeireira na Amazônia é insustentável, incluindo a madeira extraída de planos de manejo florestal sustentável legalmente aprovados. Nenhum desses planos leva em conta que a exploração torna a floresta muito mais vulnerável a incêndios florestais. Quando uma área explorada queima, a intensidade do fogo e a perda de biomassa são maiores. Isso cria um ciclo vicioso de incêndios repetidos. Além disso, o manejo florestal é insustentável devido a contradições na lógica econômica e brechas na lei.

Grande parte da Amazônia brasileira é propriedade do Estado, chamada de “terras públicas sem propósito”, bem mais de 50 milhões de hectares. O que o governo deve fazer com esta terra?

Essas áreas devem ser todas convertidas em reservas naturais, ou seja, áreas protegidas para a diversidade biológica ou territórios indígenas demarcados. Isso também deve incluir reservas de coleta para uso sustentável e tradicional da floresta. Nenhuma dessas terras deve ser legalizada como propriedade privada.

No passado, Lula foi responsável por grandes projetos hidrelétricos, como as hidrelétricas do Rio Madeira e do Rio Xingu. Você teme que outros grandes projetos hidrelétricos sejam decididos agora?

Esse é um grande temor, não só pelo passado de Lula, mas também por suas declarações de campanha defendendo as decisões tomadas na época. Adicione a isso o Plano de Desenvolvimento Energético 2050. Muitas outras barragens serão construídas na Amazônia depois se o projeto de lei PL191/2000 for aprovado, abrindo terras indígenas para construção de barragens – bem como mineração, agronegócio e exploração madeireira. Os grupos de interesse por trás dela têm votos suficientes para aprovar a lei, mesmo contra um veto presidencial.

Como você avalia as usinas hidrelétricas na Amazônia? Que contribuição eles fazem para a proteção do clima? Ou eles preferem aquecer o clima global?

As barragens existentes contribuem para o aquecimento global de várias maneiras. Eles emitem CO2 e metano. Essas emissões são muito maiores nos primeiros anos após o enchimento de um reservatório, tornando-as particularmente prejudiciais ao clima global. Ao contrário do CO2, o metano é um gás com forte efeito de aquecimento nos primeiros anos, o impacto do CO2 é relativamente pequeno, mas se estende por mais de um século. O que será decisivo é o que acontecerá nos próximos 20 anos. O último relatório do IPCC calculou que uma tonelada de metano produz 80,5 vezes mais que uma tonelada de CO2 nos primeiros 20 anos. Isso quadruplica o impacto das barragens na Amazônia em comparação com o valor relatado no Protocolo de Kyoto e na literatura atual sobre emissões de barragens (incluindo a minha).

Eles consideram a pavimentação da rodovia federal BR-319, na Amazônia central, uma das maiores ameaças à região. O senhor vê algum sinal de que o governo Lula vai concluir o projeto ou abandoná-lo?

Em entrevista a uma rádio em Manaus durante sua campanha eleitoral, Lula explicou que não entendia por que a reforma da BR-319 não deveria ser aprovada enquanto os governos estaduais e municipais se comprometessem com “salvaguardas”. Infelizmente, mesmo que tal promessa fosse feita, isso não reduziria os danos causados ​​pela Autobahn. Com impactos que se estendem muito além das áreas ao longo da BR-319, não há sinal de que os governos locais estejam dispostos a pagar o custo astronômico de interromper o desmatamento em toda a área.

Como você avalia os projetos de produção de petróleo e gás existentes e planejados nos estados amazônicos? A produção de petróleo nas áreas de floresta tropical não deveria ser interrompida apenas por razões de proteção do clima?

Para conter a mudança climática, o mundo deve abandonar o petróleo e o gás rapidamente. Até a Agência Internacional de Energia (IEA) emitiu um relatório afirmando que nenhum novo campo de petróleo e gás deve ser perfurado e os existentes devem ser reduzidos a zero, com zero emissões líquidas no mundo até 2050. O Brasil deve seguir esse caminho. Na região amazônica, a eliminação também deve ser mais rápida do que em outros lugares, pois, além das mudanças climáticas, os danos ambientais também são causados ​​pela poluição por óleo ou pela construção de estradas e desmatamento na floresta amazônica.

No projeto de óleo e gás na Bacia do Solimões. A Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, tem direitos de perfuração nesta área de floresta tropical intacta. Quando vai começar o financiamento? Ou o governo vai parar o projeto?

Nenhum cronograma ou decisão foi anunciado. Dados os laços estreitos de Putin com a Rosneft, a atitude de Lula em relação a Putin na guerra na Ucrânia é preocupante. O asfaltamento da BR-319 e a construção da rodovia estadual associada AM-366 são muito importantes para o projeto da Rosneft.

Quais seriam as consequências da implantação do projeto de óleo e gás para a floresta tropical da região?

O AM-366 passaria por três dos primeiros blocos de petróleo, bem como por uma grande área de potenciais blocos futuros. Se essa estrada for construída, grileiros e posseiros invadiriam as terras públicas ainda não designadas. Toda a metade leste da malha rodoviária proposta já é reivindicada por proprietários de terras no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O projeto de petróleo e gás pode acelerar a construção dessas estradas, já que o dinheiro da Rosneft e a influência de Putin o tornam uma prioridade para os governos federal e estadual.

Como o senhor vê o risco de produzir biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar ou do dendê na Amazônia?

Isso é motivo de preocupação, principalmente no caso dos dendezeiros na área da Trans Purus. Esta área é climaticamente mais adequada para os dendezeiros. As empresas malaias de óleo de palma tentaram comprar terras lá já em 2008.

O que você gostaria de ver como resultado da conferência de Belém?

É de se esperar que o Brasil e os demais países se comprometam a abandonar projetos de infraestrutura como a BR-319. Os países amazônicos devem fazer mais do que pressionar o resto do mundo para contribuir financeiramente para deter o desmatamento. O Brasil, em particular, deve se conscientizar da importância da floresta amazônica.

Philip Martin Fearnside é um biólogo americano que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus desde 1978. Com mais de 700 publicações, foi o segundo cientista mais citado no mundo sobre aquecimento global em 2006 e o ​​cientista mais “influente” sobre mudanças climáticas no Brasil em 2021. Fearnside é membro do Amazon Science Panel (SPA).


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Amazônia: “Melhor zerar o desmatamento ontem”

Pesquisador da Amazônia Carlos A. Nobre fala sobre desmatamento, degradação e possível restauração

267712Mina de minério de ferro na floresta amazônica brasileira. Foto: AFP/MAURO PIMENTEL

Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Os países amazônicos querem discutir a preservação da floresta tropical em sua cúpula em Belém. Quão dramática é a situação?

Em toda a região amazônica, que originalmente compreendia cerca de 6,5 milhões de quilômetros quadrados de floresta, pouco mais de 1 milhão de quilômetros quadrados já foram desmatados, cerca de 18%. Outros 17% são áreas degradadas em vários estágios. A maior parte dessas áreas desmatadas e danificadas está localizada no sul da Amazônia, nos estados brasileiros do Pará, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Amazonas, e no sudeste da Bolívia. Um segundo arco de desmatamento se estende ao longo dos Andes entre 400 e 1300 metros de altitude no Peru, Equador e Colômbia.

Quão longe ou quão perto estamos do “ponto sem volta” do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso?

Na verdade, a Amazônia não está longe de um ponto sem volta. Devemos parar o desmatamento, a degradação e os incêndios florestais definido para zero imediatamente e de preferência ontem. Precisamos de uma moratória nesse tipo de mudança de uso da terra, especialmente no sul da Amazônia porque está à beira do colapso. A estação seca nesta região de dois milhões de quilômetros quadrados já dura quatro a cinco semanas a mais do que nos últimos 40 anos. E é 2,5 graus mais quente e 25% mais seco. Esta região é agora uma fonte de emissões – liberando mais carbono do que retira da atmosfera. Portanto, se continuarmos com o aquecimento global e a destruição das florestas, passaremos desse ponto sem retorno em no máximo 20 a 30 anos. Portanto, é fundamental começar imediatamente a restauração de grande parte desses dois milhões de quilômetros quadrados que foram desmatados e degradados.

Entrevista

Carlos A. Nobre é um dos mais renomados pesquisadores da Amazônia. O cientista do sistema terrestre do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo investiga em particular as interações entre a biosfera e a atmosfera e as consequências do desmatamento para o clima. Nobre é um dos co-presidentes do Amazon International Science Panel de mais de 240 pesquisadores.

De acordo com suas declarações e seu programa de proteção da Amazônia apresentado em junho, o presidente brasileiro Lula da Silva quer acabar com o desmatamento “ilegal” na Amazônia até 2030. Isso é suficiente para evitar o colapso?

O Brasil e quase todos os países amazônicos assinaram um acordo durante a cúpula do clima COP 26 em Glasgow em 2021, que 134 países assinaram até o momento e que visa zerar o desmatamento no mundo até 2030. Esse deve ser o nosso principal objetivo. Embora o marco legal brasileiro permita o desmatamento de 20% e em alguns lugares até 50% na Amazônia, não podemos mais distinguir entre legal e ilegal para proteger a área. Os governos de alguns países amazônicos, como a Colômbia, estão trabalhando para interromper todo o desmatamento e essa deveria ser a política do Brasil também. Para salvar o planeta, combater a emergência climática e proteger a biodiversidade, o desmatamento não deve mais ser permitido.

O programa de proteção do Brasil também permite a expansão da extração “sustentável” nas florestas do estado para até cinco milhões de hectares. Isso faz sentido?

​​​​​Como eu disse, desmatamos quase a mesma área que degradamos na Amazônia. Infelizmente, a exploração madeireira praticada bem como o corte “seletivo” levam a uma enorme degradação das florestas. Este não é o caminho para a Amazônia. Para salvar a Amazônia, é necessário acabar com o desmatamento e a degradação florestal e embarcar em grandes projetos de restauração. Na COP 27 do ano passado, nós, o Painel de Ciência da Amazônia, lançamos um projeto para restaurar grandes áreas de floresta, principalmente nas regiões dos dois arcos de desmatamento. Chamamos-lhe »Arcos da Restauração Florestal«.

Grande parte da Amazônia brasileira é considerada terra federal ou estadual “ sem designação ” . O que o governo deve fazer com esta terra?

As “terras devolutas” na Amazônia cobrem uma enorme área de 560.000 quilômetros quadrados. É muito importante que as florestas dessas áreas sejam preservadas e que a restauração florestal em larga escala ocorra em terras públicas já desmatadas. Um total de mais de 20 milhões de hectares de floresta tropical já foram derrubados em reservas naturais, reservas indígenas e nas »terras devolutas«. Então um megaprojeto de restauração florestal como o que lançamos na COP 27, abrangendo pelo menos 50 milhões de hectares, é muito importante. Todas essas terras federais e estaduais que permanecem sem designação devem ser demarcadas como territórios indígenas e usadas para criar um grande número de santuários de vida selvagem.

O que você gostaria de ver como resultado da cúpula dos países amazônicos em Belém?

Claro, temos grandes expectativas com o acordo alcançado na Cúpula de Belém com todos os presidentes dos países amazônicos, possivelmente também com o presidente da França, Emmanuel Macron. Seria desejável que os oito países amazônicos e a Guiana Francesa chegassem a um acordo e, a exemplo da UE, formassem uma União de países amazônicos para combater conjuntamente o desmatamento, a degradação florestal e os crimes ambientais que estão explodindo na região, como o grilagem, garimpo ilegal, tráfico de drogas e combate à pesca predatória.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Em Belém, ministra Luciana Santos anuncia criação do IPCC da Amazônia

Iniciativa é inspirada no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e deverá reunir dados científicos sobre a Amazônia

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Foto: Luara Baggi

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, anunciou a criação do IPCC da Amazônia, que reunirá informações científicas sobre clima e biodiversidade. Inspirada no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a iniciativa terá a participação de especialistas e pesquisadores para a consolidação das evidências científicas relacionadas à Amazônia. O anúncio foi feito neste domingo (6) durante seminário científico promovido pela Secretaria de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI nos Diálogos Amazônicos, em Belém (PA).

No evento, a ministra recebeu duas cartas com propostas da comunidade científica para políticas públicas voltadas à pesquisa e desenvolvimento da Amazônia. A presidente da Academia Brasileira de Ciências, Helena Nader, leu o documento em que as entidades cientificas que compõem a Rede Interamericana de Academias de Ciência (IANAS) defendem os esforços de todas as nações para a construção de uma estratégia abrangente para a preservação, conservação, restauração e remediação dos ecossistemas e da biodiversidade da Amazônia.

“Isso inclui uma bioeconomia sustentável baseada em florestas e rios saudáveis, maiores investimentos em pesquisa e educação, e o reforço da governança regional para aprimorar uma gestão justa e sustentável dos recursos naturais, direitos humanos e integridade territorial”, diz o documento.

Outra carta, entregue pelo Painel Científico da Amazônia, reúne sete propostas para a região, entre elas, a criação do IPCC da Amazônia, o programa Pro-Amazônia e o Sistema Cooperativo de Monitoramento do Bioma Amazônia.

“O MCTI quer contribuir ainda mais para que a implementação de políticas públicas em prol da Amazônia gere resultados para as populações que aqui vivem. É por isso que o MCTI vai liderar a iniciativa IPCC Amazônia, já aprovada pelo Presidente Lula. Será um painel que reunirá informações científicas climáticas e também da biodiversidade para gerar relatórios que auxiliem na tomada de decisões políticas e, sobretudo, na mitigação de ações deletérias ao clima e à biodiversidade amazônica”, disse a ministra Luciana Santos.

Segundo ela, a construção de uma agenda científica para a Amazônia é um importante passo em direção à Cúpula da Amazônia, “que será capaz de redesenhar o futuro da região amazônica, dos povos que a habitam e dos países que abrigam essa imensa selva, impactando, positivamente, a vida de todos os habitantes do planeta.”

“Aqui lançamos uma nova dinâmica de colaboração entre os países da OTCA. Este é um marco para que uma nova etapa se inicia”, avaliou o embaixador Antônio Ricarte, representante do Ministério das Relações Exteriores. “A Cúpula da Amazônia é a linha de partida para uma nova Amazônia. Os seminários realizados são contribuições importantes para o desenvolvimento científico com fundamentações políticas para o crescimento e enriquecimento da Amazônia”, acrescentou.
 

Acesse os links e confira as cartas na íntegra.

Carta Ianas

Carta Belém

A ligação entre agrotóxicos e alterações climáticas é parte de um ciclo vicioso, revela relatório da PAN/UK

Agrotóxicos derivados de combustíveis fósseis são uma fonte significativa, mas negligenciada, de gases de efeito estufa, alertam os ativistas. O uso de agrotóxicos, que inclui inseticidas, herbicidas e fungicidas, aumentou 16,7% em todo o mundo entre 2005 e 2020, de acordo com a Pesticide Action Network UK (PAN UK).climate-change-710x401

Por Danny Halpin, pa.media

O grupo publicou um relatório no qual aponta para um “círculo vicioso” entre o uso de agrotóxicos e as mudanças climáticas, cada um causando mais do outro. Cerca de 99% de todos os produtos químicos sintéticos, incluindo agrotóxicos, são derivados de combustíveis fósseis, com várias empresas petrolíferas como Exxon, Shell e Chevron envolvidas em sua produção, apontou.

Degradação

Fabricação, embalagem, transporte e aplicação de produtos químicos produzem emissões de gases de efeito estufa e agravam as mudanças climáticas, assim como a degradação ambiental que causam, disse a PAN UK.

Ao mesmo tempo, temperaturas mais altas incentivam o uso de mais agrotóxicos, permitindo a disseminação de insetos e doenças de plantas, criando um “ciclo vicioso”, afirma o relatório.

A PAN UK disse que o maior uso de agrotóxicos afetará desproporcionalmente as populações de animais selvagens já sob estresse devido aos efeitos climáticos, como temperaturas mais altas no verão e invernos mais amenos e úmidos. Assim estes organismos se tornarão mais resistentes aos produtos químicos, aumentando ainda mais as aplicações de agrotóxicos.

Os ativistas querem que o governo incorpore a redução de agrotóxicos nos planos climáticos, introduza metas de redução ambiciosas, apoie os agricultores no uso de métodos alternativos para proteger as plantações e proíba o uso deste tipo de substância em áreas urbanas.

Redução 

Josie Cohen, chefe de políticas e campanhas da PAN UK, disse: “O governo precisa urgentemente adotar uma abordagem conjunta para enfrentar a crise climática e da natureza, pois elas andam de mãos dadas. As soluções para essas emergências não devem prejudicar umas às outras.

“A meta de zero líquido do Reino Unido não pode ser alcançada sem transformar a agricultura, incluindo uma grande redução no uso de agrotóxicos, o que também trará enormes benefícios para a natureza e a biodiversidade”, disse ela.

A União Nacional dos Agricultores (NFU) disse que os agricultores só usam agrotóxicos quando precisam, e que sem eles os rendimentos cairiam, os preços para os consumidores aumentariam e que seria necessário usar o dobro da terra para cultivar o mesmo quantidade de comida.

Mas a PAN UK argumentou que a ideia de usar agrotóxicos para garantir a segurança alimentar era um “mito”, tendo em conta que contribuem para as alterações climáticas, que fragilizam a segurança alimentar.

Glifosato

Ele citou o herbicida glifosato – que esteve envolvido em vários casos legais nos EUA por causa de seu suposto impacto na saúde humana – como tendo uma pegada de carbono de 31,29 kg de CO2e para cada quilo fabricado.

Globalmente, a quantidade de glifosato usada em 2014 foi igual a abastecer 6,25 milhões de carros por um ano, afirmou o grupo.

No Reino Unido, o uso de glifosato aumentou 16% nos quatro anos até 2020, segundo  dados do governo . Isso gerou 81.410 toneladas de CO2 e – equivalente a mais de 75.000 voos de Londres a Sydney, disse a PAN UK.

Outros agrotóxicos são gases de efeito estufa, como o fluoreto de enxofre, que é quase 5.000 vezes mais potente que o dióxido de carbono, disse o grupo.

Doug Parr, cientista-chefe e diretor de políticas do Greenpeace do Reino Unido, disse: “A compreensão pública do papel que as empresas de combustíveis fósseis têm desempenhado na condução da emergência climática aumentou enormemente nos últimos anos e agora sabemos que precisamos adicionar a indústria de pesticidas à lista de poluidores climáticos.

“Reduzir o uso de agrotóxicos seria uma vitória dupla na abordagem do declínio da natureza e da crise climática”, acrescentou.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Sustainable Pulse” [Aqui!].