Os países amazônicos são privilegiados ambientalmente e devem utilizar esta vantagem para desenvolverem-se de forma sustentável e contribuírem com a transição global para uma sociedade em que os componentes ambientais, sociais e econômicos sejam equilibrados
Colniza, MT, Brasil: Área degradada no município de Colniza, noroeste do Mato Grosso. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Por Luciana V. Gatti, Luiz Aragão e Marcos H. Costa
A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, estende-se por oito países e um território da América do Sul. Esta floresta não é apenas um conjunto de árvores, é sobretudo um enorme reservatório de carbono (150 a 200 bilhões de toneladas) e de biodiversidade. Cerca de 50% do peso de cada árvore desta imensa floresta, incluindo as raízes, troncos, galhos e folhas, é composto de carbono. Devido a sua enorme extensão, cobrindo cerca de 7 milhões de km2 e metade da área de florestas tropicais no planeta, o funcionamento da Floresta Amazônica está intimamente interligado ao clima.
A perda de 18% da Floresta Amazônica, cerca do total desmatado até o presente, além de 17% de florestas degradadas, não significa apenas perder uma grande quantidade do total de carbono estocado na floresta, mas também significa perder em torno de 1/3 da sua contribuição na produção das chuvas, devido a evapotranspiração das árvores, além de também perder biodiversidade e serviços ambientais essenciais para a sociedade.
Enquanto as raízes retiram água do solo, e as folhas lançam vapor d’água na atmosfera, a superfície terrestre é resfriada, pois a água necessita de energia para evaporar. Uma árvore de médio porte, com uma copa de 5 m de diâmetro, produz um resfriamento da ordem de 2200 W, o mesmo que um aparelho de ar-condicionado de 7500 Btu/h. Por isto, a floresta ao mesmo tempo produz chuva e reduz a temperatura regional. Nossa gigantesca Floresta Amazônica, ao produzir chuva exerce um importante papel de regular o clima, tanto em nosso continente como no globo. Podemos, portanto, comparar a Amazônia a uma fábrica de chuva, que produz cerca de três milhões de litros de água por dia por km2, e cerca de 21 trilhões de litros de água considerando toda sua extensão, funcionando como um climatizador natural, protegendo o planeta contra as mudanças climáticas, ajudando a produzir chuva, reduzindo a temperatura e ainda absorvendo carbono enquanto as árvores estão crescendo.
O desmatamento que atinge a Amazônia concentra-se em regiões com infraestrutura para escoar a produção agropecuária e mineral, como estradas, portos e energia elétrica. Nos últimos 40 anos, a região leste da Amazônia perdeu entre 30-40% de sua floresta, e foi observada uma redução de chuvas (30-40%) e um aumento de temperatura de 2 a 2,5˚C durante a estação seca, nos meses de agosto, setembro e outubro. Estas mudanças afetam negativamente as árvores reduzindo a fotossíntese – processo pelo qual as plantas absorvem o CO2 (dióxido de carbono) da atmosfera – podendo até mesmo resultar na mortalidade dessas árvores. Um estudo utilizando 9 anos (2010-2018)de medidas de CO2 com aeronaves, concluiu que, na média, a Floresta Amazônica consegue absorver apenas 1/3 do total emitido pelas atividades humanas na região, em especial, devido ao desmatamento seguido de queimadas. No sudeste da Amazônia, região que apresenta a maior mudança no clima, com grande redução de chuva e aumento de temperatura, a própria floresta se transformou em uma fonte de carbono para a atmosfera. Nesta região, os processos florestais naturais representam 1/3 das emissões totais, e as emissões humanas são responsáveis pelos 2/3 restantes. E assim, nesta região, a Floresta Amazônica, de protetora das mudanças climáticas, passa a ser um acelerador das mudanças climáticas emitindo 1,06 bilhões de toneladas de CO2 ao ano, contribuindo com o aquecimento do planeta, alterando os padrões das chuvas e ajudando a aumentar a temperatura.
Considerando que a agricultura no Brasil movimenta 500 bilhões de reais em exportações, manter as condições climáticas ideais é essencial para essa atividade. Para tal, precisamos valorizar nossas florestas e entender que já desmatamos a Amazônia mais do que deveríamos. Nos últimos três anos o desmatamento foi muito intenso e acelerado e os eventos extremos de chuvas e secas intensas também se aceleraram. Os lucros do desmatamento beneficiam poucas pessoas com retorno questionável para a nação e trazendo prejuízos ecológicos, sociais e financeiros para a sociedade em geral, que estão cada vez mais bem caracterizados pela ciência. Manter a floresta protegida produz para a economia até US$ 737 (R$ 3 mil) por hectare por ano. A conversão de floresta para pecuária, gera em média apenas US$ 40 (R$ 167) por hectare por ano.
Os países Amazônicos são privilegiados ambientalmente e devem utilizar esta vantagem para desenvolverem-se de forma sustentável e contribuírem com a transição global para uma sociedade em que os componentes ambientais, sociais e econômicos sejam equilibrados. A preservação dos estoques de carbono, ao zerar o desmatamento e a degradação florestal, e a restauração florestal podem gerar recursos por meio de iniciativas globais de proteção do clima em associação com planos nacionais de pagamentos por serviços ambientais e implementação de uma nova bioeconomia baseada na floresta em pé. Por meio do uso dos recursos locais e incentivos econômicos adequados pode-se criar um mercado sustentável inovador para os países Amazônicos.
Precisamos valorizar a Floresta Amazônica, pois este tesouro da Terra é um grande trunfo para colocar o planeta rumo a um futuro sustentável.
Sobre os Autores
Luciana V. Gatti é química, pesquisadora titular e coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos. Investiga as emissões/absorções de CO2, CH4, N2O e CO da Amazônia e quais são os fatores que interferem nestes processos. Luciana é autora dos capítulos5, 6, 6.1 e 7 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021 produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.
Luiz Aragão é biólogo, Chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos. Sua pesquisa busca entender as causas e consequências das mudanças ambientais em ecossistemas tropicais, especificamente utilizando satélites e pesquisas de campo na Amazônia. Aragão é autor dos capítulos 6, 6.1 e 19 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.
Marcos H. Costa é engenheiro, professor titular da Universidade Federal de Viçosa. Sua pesquisa foca no uso de vários tipos de modelos ambientais, sensoriamento remoto e dados de campo para estudar as relações entre mudanças climáticas, mudança de uso da terra e o clima, recursos hídricos, agricultura e ecossistemas naturais. Marcos é autor dos capítulos 5, 6, 7e 23 do Relatório de Avaliação da Amazônia 2021produzido pelo Painel Científico para a Amazônia.
Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].
Os eventos climáticos atípicos têm sido cada vez mais frequentes no Brasil. Estamos acompanhando com tristeza a devastação que fortes chuvas causaram em Pernambuco nesses últimos dias. Estudos sobre as mudanças climáticas já revelaram que eventos extremos, como ondas de frio e de calor, chuvas em grandes volumes ou extensos períodos de estiagem, serão cada vez mais frequentes no planeta. Mas, o Brasil está preparado?
A tragédia que se abateu em Pernambuco, o ciclone extratropical Yakecan, que derrubou as temperaturas em boa parte do país e causou frio histórico no mês de maio, o desastre de Petrópolis neste ano e as enchentes que atingiram cidades de Minas Gerais e da Bahia no fim de 2021 e início de 2022 são apenas alguns exemplos recentes de eventos climáticos atípicos.
De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado neste ano, a “crise do clima” é causada pela ação humana, com efeitos irreversíveis, e vai vitimizar a parcela mais pobre e mais vulnerável da população mundial. O relatório, que alerta para secas e ondas de calor, incêndios, inundações, insegurança alimentar, escassez de água, aumento do nível de corpos hídricos, doenças e outros impactos, aponta as Américas Central e do Sul (onde está o Brasil) como regiões altamente expostas a esses efeitos cada vez mais catastróficos. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, classificou o relatório como “um atlas do sofrimento humano”.
Na região hidrográfica da Baía de Guanabara, a situação não é diferente. Já enfrentamos verões menos chuvosos e com temperaturas mais elevadas, confluência de fatores que causam diversos problemas para uma população de cerca de 10 milhões de pessoas, que representa 80% da população do estado do Rio de Janeiro.
A fim de mapear o cenário atual e identificar perspectivas futuras, o Comitê da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara está elaborando o Plano de Recursos Hídricos da Região V (PRH-RV), que já aponta alguns indicativos preocupantes. Segundo estudos contidos no documento, até 2045, o prognóstico é de aumento da temperatura e diminuição das chuvas. Isso significa que a carga hídrica da região, que apresenta alta densidade demográfica, está em risco.
O que vemos na Região Hidrográfica da Baía de Guanabara é um aumento da carga poluidora que chega nos rios e córregos e acabam desaguando na baía e no mar. A ocupação irregular é um dos fatores que agravam significativamente o problema e o número de imóveis construídos em áreas impróprias e sem infraestrutura básica, como rede de água e esgoto, só cresce.
Sem uma coleta adequada de lixo e esgoto, como podemos pensar em qualquer ação ambiental? A defesa do meio ambiente é construída de forma integrada e precisa contar com instrumentos e políticas públicas. O cidadão atendido em suas necessidades básicas é um vetor de ações ambientais com muito mais condições do que o que não está inserido nestse sistema mínimo de sobrevivência.
O Comitê da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara é uma entidade que cria um ambiente de construção coletiva e discussão entre três pilares da sociedade – Poder Público, Usuários (pessoas jurídicas como concessionárias e empresas) e a Sociedade Civil – para que, como todos “sentados à mesa”, possamos encontrar meios de garantir o atendimento da população, propor melhores usos de recursos naturais, principalmente dos recursos hídricos, e incentivar as boas práticas de recuperação e preservação do meio ambiente.
O discurso ambiental e de prevenção aos eventos climáticos atípicos não pode, e não deve, ser uma pauta descolada da realidade das pessoas. Ele deve estar nas decisões de compra e de consumo de recursos, mesmo as menores e mais corriqueiras. E é só garantindo a cidadania que a preservação ambiental será efetiva.
*Christianne Bernardo tem mestrado em Ciência Ambiental pela UFF e é presidente do Comitê da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara
Três ex-chefes climáticos da ONU dizem que a lacuna entre as promessas do governo e as ações mudará o meio ambiente de forma irreversível
Ativistas vestidos como líderes mundiais protestam ao lado do canal Forth and Clyde, em Glasgow, contra o aumento do nível da água durante a cúpula da Cop26. Fotografia: Dylan Martinez/Reuters
Por Fiona Harvey, correspondente de Meio Ambiente, para o “The Guardian”
As políticas atualmente em vigor para enfrentar a crise climática em todo o mundo levarão a um colapso climático “catastrófico”, já que os governos não tomaram as ações necessárias para cumprir suas promessas, alertaram três ex-líderes climáticos da ONU.
Mas as políticas e medidas aprovadas e implementadas pelos governos levariam a aumentos de temperatura muito maiores, de pelo menos 2,7°C, muito além do limite de segurança relativa, e potencialmente até 3,6°C. Isso teria impactos “catastróficos”, na forma de clima extremo, elevação do nível do mar e mudanças irreversíveis no clima global.
Os três ex-diretores vivos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas escreveram juntos no Guardian de quarta-feira – a primeira vez que escreveram juntos em um jornal – sobre as consequências desastrosas de não combinar as promessas nacionais sobre o clima com ações e políticas concretas para segui-los.
Eles escrevem: “No acordo de Paris de 2015, todos os governos concordaram em ‘seguir esforços’ para limitar o aquecimento global a 1,5°C (34,7°F). Temos agora o direito de perguntar onde chegaram seus esforços, para onde estão indo e quão genuínos são. A ciência mostra que a ação nesta década para reduzir todos os gases de efeito estufa é crítica”.
“Os inúmeros relatos de clima extremo que testemunhamos em 2022 sugerem que não há tempo a perder”, escrevem eles. “Quanto mais as mudanças climáticas progridem, mais bloqueamos um futuro com colheitas mais arruinadas e mais insegurança alimentar, juntamente com uma série de outros problemas, incluindo aumento do nível do mar, ameaças à segurança da água, seca e desertificação. Os governos devem agir contra as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, lidar com outras crises urgentes”.
As ações dos países desenvolvidos até agora têm sido “decepcionantes”, por não terem conseguido reduzir as emissões com rapidez suficiente e por não disponibilizarem financiamento aos países mais pobres para ajudá-los a lidar com os impactos do colapso climático, acrescentam.
Os ex-altos funcionários da ONU – Michael Zammit Cutajar, Yvo de Boer e Christiana Figueres– ocuparam sucessivamente o cargo de secretário executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, tratado pai do acordo de Paris, que foi assinado há 30 anos nesta semana em a histórica Cúpula da Terra do Rio.
Este mês também marca o 50º aniversário da conferência de Estocolmo , quando representantes de todo o mundo resolveram pela primeira vez que o estado global do meio ambiente era motivo de preocupação, e uma ação internacional concertada era necessária para resolver problemas como poluição, perda de espécies, degradação e esgotamento de recursos.
O aniversário deve levar os governos a renovar sua determinação, apesar da geopolítica “gelada”, antes que seja tarde demais, escrevem os ex-funcionários da ONU. “A economia em rápida mudança significa que um futuro seguro para o clima também é mais próspero. A vontade do público – especialmente entre os jovens – de ver as mudanças climáticas restringidas é clara. Ao recordarmos a conferência de Estocolmo, precisamos que os líderes nacionais lembrem o que ela demonstrou sobre o potencial da ação cooperativa mesmo em tempos conturbados. Precisamos ver os líderes cumprindo suas promessas de mudança climática, no interesse das pessoas, da prosperidade e do planeta”.
À medida que os governos lidam com os altos preços da energia e o aumento dos preços dos alimentos, os ex-chefes climáticos da ONU defendem uma mudança rápida para a energia limpa, que agora é economicamente competitiva com os combustíveis fósseis. “A menos que se invista em combustíveis fósseis, agora não há razão para não seguir o caminho da energia limpa. Muitos atores corporativos entendem a necessidade de ação antecipada nessa frente. Mas os governos ainda precisam incentivar a transição”, escrevem.
Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui! ].
Um interessante artigo escrito pelas jornalistas Anne Bennand, Corey Kilgannon, Jazmine Hughes e Emma Goldberg para o “The New York Times” sob o título de “It is going to be a hot summer. It will be hotter if you´re not rich” (em português “Vai ser um verão quente, que será mais quente se você for pobre”) são apontados vários elementos do que seria “injustiça climática”. É que no frigir dos ovos, as mudanças climáticas e suas diversas manifestações irão atingir os segmentos mais pobres da população nova iorquina, na medida em que até mesmos os espaços públicos destinados aos ricos irão protegê-los melhor das altas temperaturas que deverão ocorrer no próximo verão.
Diferente do que está posto no artigo das jornalistas do New York Time, injustiça climática no Brasil não é mais só um prognóstico, mas um fato que está se tornando corriqueiro, só que na forma de chuvas extremas que chegam rapidamente e atingem mais duramente as áreas que restaram para os mais pobres morarem.
Apenas em 2022 já tivemos os exemplos de Petrópolis, da Baixada Fluminense, de Angra dos Reis e Paraty, de inúmeras cidades de Minas Gerais, e agora no Recife. Em todos esses lugares as chuvas chegaram rápidas e intensas, e causaram enormes perdas de vidas humanas e colocaram abaixo milhares de habitações localizadas em regiões geologicamente instáveis que foram ocupadas depois que o filé mignon imobiliário foi ocupado e submetido a um processo de valorização que expulsou para longe quem não tinha como pagar.
No caso brasileiro, a injustiça climática continuará se agravando até que se faça uma radical reforma da terra urbana, que inclua ainda a tomada pelo Estado de um grande estoque de imóveis que os proprietários deixam vazios até que possam adentrar a próxima bolha imobiliária ou algum processo de gentrificação que é normalmente é financiado com dinheiro público.
A verdade é que qualquer medida paliativa para esconder o acúmulo de cadáveres causados pela injustiça climática servirá apenas para causar a chegada de outro desastre social de base climática. É que, queiramos ou não, as mudanças climáticas chegaram para ficar, servindo ainda para expor as dramáticas diferenças sociais existentes nas cidades brasileiras.
Ex-pesquisador do Ipea aponta: ciclo de alta das commodities em breve se esgotará. Para sair da crise, país terá que enfrentar os privilégios dos ruralistas – e apostar na transição energética e na agroecologia, a partir de nova estrutura fundiária
Por O Joio e o Trigo
A hegemonia do agronegócio no Brasil, nos últimos 20 anos, criou uma “arapuca macroeconômica” com consequências desastrosas e de longo prazo sobre a economia brasileira. E é o que está por trás da inflação descontrolada dos alimentos e do agravamento da crise, na avaliação do economista Guilherme Delgado.
Doutor em Economia pela Unicamp, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por mais de 30 anos e autor de diversas publicações sobre o tema, Delgado é um crítico feroz do processo que, novamente, fez o Brasil voltar ao destino histórico de país exportador de commodities e minérios às custas da atrofia de outros setores da economia, como indústria e serviços, e a privatização de setores-chave da infraestrutura do país.
Em entrevista ao Joio, o pesquisador alerta: o ciclo de alta das commodities está próximo de se esgotar não apenas sob o ponto de vista econômico, mas principalmente ambiental. Delgado defende que o Brasil não sairá do buraco sem mexer nos privilégios do agronegócio, um tema que considera “interditado” na grande mídia e também entre os presidenciáveis nas eleições deste ano.
Atual diretor da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), o economista defende que o país adote uma transição ecológica a partir de uma nova estrutura fundiária no campo que incentive atividades de menor impacto ambiental não apenas na produção de alimentos, mas de energia limpa também. Uma discussão que avança no mundo e deve pressionar o atual sistema de produção do agronegócio brasileiro, “hoje responsável por 73% das emissões de gases do efeito estufa no país”. Leia a seguir a entrevista com Guilherme Delgado na íntegra.
O que está acontecendo com a inflação dos alimentos no Brasil?
São dois problemas conexos, mas distintos. Existe um problema conjuntural externo e um problema estrutural brasileiro na própria relação do Brasil com o mundo.
Do ponto de vista conjuntural, a chamada volatilidade dos preços agrícolas não é nenhuma novidade, isso sempre houve. Dessa forma, às vezes ocorrem conjunturas ou ciclos de ascensão dos preços externos e, depois, ciclos descencionais. O problema brasileiro é que, há pouco mais de duas décadas, o país ingressou em um chamado movimento de primarização do seu comércio exterior. Esse é o nó da questão. O conjunto do sistema econômico passa a depender de um setor peculiar. É como se toda a economia industrial, toda a economia de serviços, toda a infraestrutura passasse a depender exclusivamente dos saldos comerciais do setor primário.
Nenhum desses setores que mencionei é excedentário do ponto de vista de exportações. Eles são estruturalmente deficitários. E esse déficit aumenta à medida que você vai internacionalizando setores de infraestrutura que não são produtores de commodities. Quando você internacionaliza o sistema elétrico, ele não exporta 1 kw de energia. Mas o país paga royalties, juros, etc. Sistema telefônico, a mesma coisa. Quando você internacionaliza o mercado de terras, os compradores de terras em mercados organizados querem a monetização em moeda estrangeira, e não em real.
Esse movimento de internacionalização, aparentemente gracioso e apresentado como a solução da pátria, é parte do problema.Isso porque você estressa o sistema econômico para que ele gere a qualquer custo, pelo setor primário via exportação de commodities, saldos comerciais que não vão servir ao país, mas vão dar liquidez ao movimento de pagamentos de renda de capital ao capital internacional aqui instalado.
Como esse quadro agrava a inflação dos alimentos?
O sistema econômico está sendo planejado para crescer a ritmos desiguais.Uma parte do sistema que produz commodities tem um estímulo macroeconômico exacerbado. E setores que não produzem commodities ficam atrofiados. Essa dupla balança – uma catapultada, outra atrofiada – leva a que quanto mais eficiente for esse processo de ajuste, entre aspas, das contas externas, maior será a defasagem de crescimento entre o setor produtor de commodities e de não commodities e, portanto, dos produtos para abastecimento interno.
Há um desequilíbrio inerente a esse sistema que, em determinados momentos, aparece com maior força. Não é que essa força se deva à conjuntura, ela reflete um movimento estrutural.
Nos anos de 2020 e 2021 – e tudo indica que 2022 também –, tivemos um crescimento dos preços dos produtos da cesta básica alimentar, que é uma parte importante da chamada cesta básica salarial geral. Foi mais que o dobro da inflação geral, que já foi alta, o que provavelmente se repetirá este ano. Isso não é uma novidade brasileira. Em geral, o sistema submetido a esse estresse macroeconômico contém essas implicações do ponto vista dos produtos da alimentação.
Só para citar um exemplo histórico, entre 1960 e 1964 o índice de preços de produtos agrícolas cresceu muito acima do índice geral de preços. Portanto, ele é pró-inflacionário. Todo o sistema era movido pela valorização cafeeira, a exportação do café a qualquer custo. E tudo mais que não fosse café não era prioridade. Hoje não é mais café, é meia dúzia de commodities, mas as implicações são parecidas.
Como reduzir pressão inflacionária sobre os alimentos?
Há um desequilíbrio estrutural, e nas fases de aumento dos preços externos de commodities essa situação se agrava. Porém, quando os preços externos caem, isso não resolve o problema. Planejada a gerar saldo a qualquer custo, a política macroeconômica é realinhada através, por exemplo, da desvalorização cambial para tornar competitiva a exportação de commodities. Portanto, do ponto de vista interno, também não tem alívio.
Temos uma arapuca macroeconômica vendida em prosa e verso como a salvação da pátria. Não tem pátria nenhuma, à exceção da pátria financeira. Esse sistema está planejado para prover liquidez, ou seja, ter divisas para pagar os serviços deficitários já que não há excedentes comerciais em outros setores. Temos um desequilíbrio maior que se reflete no abastecimento alimentar, mas em outros setores muito mais gravemente, por exemplo, no setor industrial. A indústria não exporta mais, ela vira importadora. Agora, inventaram de internacionalizar o mercado de terras, que nunca foi uma parte do problema macroeconômico – mas passa a ser também. Esse é o quadro que nós estamos, se não enfrentar o problema estrutural, não resolve.
Muita gente discute a questão do abastecimento, das políticas emergenciais para resolver a pressão inflacionária, mas não quer mexer na equação externa do agro. E essa é a parte essencial do problema. Não podemos resolver pela via primária exportadora não só esse problema dos alimentos, mas também o da competitividade externa da indústria, o problema das relações menos dependentes da economia como um todo e, principalmente, o problema ecológico. Esse sistema é produtor líquido de gases de efeito estufa em escala gigantesca. Hoje não é mais a indústria, nem o comércio, nem os serviços: é o setor rural produtor de commodities, seja na forma legal ou ilegal, que representa 73% das emissões totais de gases do efeito estufa do conjunto da economia e da sociedade brasileira.
O senhor poderia explicar as origens desse processo?
Nos anos 2000, desde a crise cambial do primeiro governo FHC [Fernando Henrique Cardoso] até a crise externa de 2008, o país realizou um ajuste das contas externas pelo lado de exportações de commodities. Um ajuste conjunturalmente exitoso, entre aspas. Houve uma pressão relativamente pequena sobre os preços macroeconômicos e uma relativa folga no superávit comercial, de forma que o superávit do setor primário fosse suficiente para suprir o déficit dos demais setores e ainda sobrar recursos. Então, aparentemente se havia alcançado o nirvana macroeconômico com o agronegócio. Esse é o grande engano que a própria história econômica recente acabou de demonstrar.
Uma coisa é promover ajustes conjunturais pelo setor primário, isso sempre foi feito. Outra é especializar a economia externa no setor primário. A aparente sensação de sucesso nos primeiros anos levou o sistema a se especializar e a gerar conjunto de incentivos macroeconômicos de caráter cambial, tecnológico, financeiro, fundiário, etc.
Dessa forma, vem a crise de 2008 e há um movimento exacerbado (e isso ninguém comenta) de pressão sobre a balança de serviços – que era deficitária na faixa dos 20 bilhões de dólares/ano, um pouco mais do que isso até aquele momento, passa a ser uma balança deficitária de 50, 60, 80 bilhões de dólares ao ano. Por quê? O movimento de capital e as necessidades de pagamentos pelos seus serviços se exacerba e passa a exigir mais do setor primário. A solução brasileira é continuar o mesmo movimento, ou seja, exportar commodities a qualquer custo.
São vários componentes de política macroeconômica que protegem a margem de lucro do setor de commodities, mas não os outros setores. Neste momento, você tem uma maior dependência do setor industrial em relação às importações e expulsa o setor industrial da pauta de exportações. Esse movimento estrutural de 2008 para frente é equivocado, passado pela grande mídia como um movimento de salvação da pátria. E essa eficiência do setor primário está se dando pela atrofia dos demais setores e pela superestimulação da política macroeconômica, e não pela eficiência privada como eles tentam vender.
A partir de um certo ponto, as vantagens comparativas naturais são erodidas. Precisaria recalibrar o sistema econômico para que dependesse menos da vantagem comparativa natural, que é um argumento muito primário para sustentar um país deste tamanho. Esse debate não foi feito e continua não sendo feito. O assunto está interditado. Falar com a grande mídia sobre uma reforma estrutural que mexa com privilégios do agronegócio é impensável e, portanto, impublicável. É como se os bandidos fossem salvar os mocinhos.
Guilherme Delgado. Foto: acervo pessoal.
Exportar alimentos é necessariamente ruim?
O agronegócio tem que exportar, e não há nada contra. Mas o que ele não tem é que ser o setor especializado em exportação numa economia deste tamanho, com 220 milhões de brasileiros que precisam comer todo dia. E que tem um conjunto de atividades econômicas que não são apenas primárias e precisam comparecer também no setor externo.
O ciclo de valorização externa das commodities e da aparente eficiência do manejo interno das exportações primárias se extinguiu lá atrás. Só que não nos demos conta, continuamos correndo atrás do esforço de Sísifo. Sobe a montanha com o balde cheio d’água e chega lá não tem água nenhuma, porque o cesto está todo furado.
A partir da crise cambial de 1999, o ciclo de ajuste na balança comercial via exportação de agro e minérios passa a ser o único recurso para o enfrentamento da situação externa. São forçados a mudar a política macroeconômica, o Brasil fica sem recursos, e a crise cambial sem reservas é uma coisa dinamitadora. É na passagem de 1999 para 2000, que é a transição do primeiro para o segundo governo FHC, que começa a se desenhar o pacto do agronegócio da forma como é hoje. Inicialmente era um pacto conjuntural, era explorar os setores com maior capacidade competitiva para tirar a economia do buraco. E isso foi feito com programas de crédito, frota, investimento em infraestrutura portuária, enfim, tudo calibrado no sentido de melhorar a competitividade externa dos serviços. A Embrapa foi cacifada para isso.
Esse era um movimento relativamente repetitivo do nosso sistema econômico. Já tinha acontecido antes, nos anos 1980, período do Delfim Netto. Mesmo o regime militar, quando praticava políticas de incentivo à exportação de commodities, não tirava o pé dos programas estratégicos de substituição de importações. Quando se passa a confiar cegamente no movimento do capital internacional, que é um pouco a tese do primeiro governo FHC, cria-se uma ilusão idolátrica. É como se o capital tivesse preocupação com o ponto de vista de um estado nacional e suas necessidades. A resultante é uma situação deficitária externa em todos os setores.
O segundo governo FHC foi diferente do primeiro, porque teve que fazer um ajuste forçado. Do ajuste macroeconômico forçado à primarização do sistema comercial externo há um certo movimento de regressão da indústria brasileira. E um embarque na tese das privatizações de infraestrutura, privatizar elétrica, telefônica, transporte, etc. Isso passou a ser a salvação da pátria. Esses setores não são commodities, não são exportadores, mas são gerados de pagamentos de dívidas ao exterior.
Uma coisa e outra vão se combinando. Isso leva o governo do PT a acreditar nessa solução mágica como salvação da pátria. De forma que o governo mais pró-agronegócio desse período todo foi o do PT.
A economia do agro e da mineração foram as duas apostas como um boom de exportação externa que resolveria o problema. Não resolveu e nem pode resolver. Mas quem olha o ciclo de 2000 a 2008 acha que não resolveu.
E é aquela história, não vamos mexer num assunto que vai tirar voto. Se falo que vou mexer com o agro, vem a Rede Globo, a revista Veja, vem toda aquela banda de música, “ah, estão querendo acabar com o agro”. Cumpriu uma função conjuntural, mas na medida em que foi transformada em situação estrutural, abriu outras frentes de sérios problemas, inclusive o desabastecimento, além da superexploração dos recursos naturais, gerando um problema ecológico insustentável.
A transição ecológica é uma opção ou uma necessidade?
Essa discussão da política agrícola de transição ecológica é presente na política agrícola da União Europeia há vários anos e depois da pandemia foi muito cacifada. Inclusive nos EUA, que o agro brasileiro tanto imita, já há programas dessa natureza em alguns estados. E nós estamos tateando. O Brasil é um país de luminosidade solar altamente favorável à transição ecológica, o dobro ou mais que os países escandinavos ou da América do Norte, que a adotam há muito tempo. E Portugal está muito mais avançado em transição ecológica do que o Brasil.
A questão ecológica é fundamental. Na produção rural é essencial. Ora, se o agro é autônomo e autossuficiente, gerido a mercado, etc., deixa ele funcionar sozinho, apenas colocando restrições onde há criminalidade ambiental. Que se concedam os incentivos macroeconômicos, que hoje vão todos para o agro, para outras atividades. Pode até ser a transição do agro para uma atividade exportadora, mas que tenha relativa contribuição à economia ecológica.
Sugiro o uso de três indicadores: não está produzindo exacerbadamente gases do efeito estufa, não está dissipando exageradamente a água – um bem que o agro exporta gratuitamente e que faz falta na situação de escassez hídrica que nós vivemos – e as contaminações pelos agrotóxicos.
Seriam critérios mesorregionais para conceder incentivos que teriam ranking de A até E, sendo que A, B e C teriam incentivos; o D, ou seja, no limite, não teria incentivo nenhum. E para os que estão passando desse limite, aplica-se a regra constitucional de desapropriação. Esse seria um modelo de zoneamento agro-hidro ecológico que prepararia as bases de uma transição de uma economia primária exportadora para economia de transição ecológica. Não somente agroecológica, porque no agro se pode produzir energia também.
Vamos olhar para o mundo e não ficar apenas olhando para commodities. É como se só houvesse soja, milho e ração para se explorar, e essa é uma vantagem comparativa, entre outras. Esse padrão de consumo global também está em fase de mudança. E mesmo que não estivesse, temos que ver o conjunto da economia e da sociedade, e não um setor peculiar que, por um determinado momento, foi exitoso.
É como aquele mito “decifra-me ou te devoro”. Ou muda o padrão, ou vai ser devorado. As evidências de contaminação dos gases de efeito estufa e seus efeitos não são de longo prazo, são quase imediatos. E forçarão o sistema econômico global a pressionar cada vez mais o sistema brasileiro. Isso está evidente.
Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Outras Palavras” [Aqui!].
O estudo de modelagem é o primeiro a projetar como o aquecimento global aumentará a troca de vírus entre as espécies
Os morcegos terão uma grande contribuição para a transmissão de vírus entre espécies no futuro, segundo um estudo de modelagem. Crédito: Pratik Chorge/Hindustan Times via Getty
Por Natasha Gilbert para a Nature
Nos próximos 50 anos, as mudanças climáticas podem gerar mais de 15.000 novos casos de mamíferos transmitindo vírus para outros mamíferos, de acordo com um estudo publicado na Nature 1 . É um dos primeiros a prever como o aquecimento global mudará os habitats da vida selvagem e aumentará os encontros entre espécies capazes de trocar patógenos e quantificar quantas vezes os vírus devem saltar entre as espécies.
Muitos pesquisadores dizem que a pandemia de COVID-19 provavelmente começou quando um coronavírus anteriormente desconhecido passou de um animal selvagem para um humano: um processo chamado transmissão zoonótica. Um aumento previsto de vírus saltando entre espécies pode desencadear mais surtos, representando uma séria ameaça à saúde humana e animal, alerta o estudo – fornecendo ainda mais motivos para governos e organizações de saúde investirem na vigilância de patógenos e melhorarem a infraestrutura de saúde .
O estudo é “um primeiro passo crítico para entender o risco futuro das mudanças climáticas e do uso da terra na próxima pandemia”, diz Kate Jones, que modela as interações entre ecossistemas e saúde humana na University College London.
A pesquisa prevê que grande parte da transmissão do novo vírus acontecerá quando as espécies se encontrarem pela primeira vez à medida que se deslocam para locais mais frios devido ao aumento das temperaturas. E projeta que isso ocorrerá com mais frequência em ecossistemas ricos em espécies em altas altitudes, particularmente áreas da África e Ásia, e em áreas densamente povoadas por humanos, incluindo a região africana do Sahel, Índia e Indonésia. Supondo que o planeta não aqueça mais de 2°C acima das temperaturas pré-industriais neste século – um futuro previsto por algumas análises climáticas – o número de encontros pela primeira vez entre as espécies dobrará até 2070, criando pontos de transmissão de vírus, o estudo diz.
“Este trabalho nos fornece evidências mais incontestáveis de que as próximas décadas não serão apenas mais quentes, mas mais doentes”, diz Gregory Albery, ecologista de doenças da Universidade de Georgetown em Washington DC e coautor do estudo.
Os desafios da modelagem
Para fazer suas previsões, Albery e seus colegas desenvolveram e testaram modelos e realizaram simulações durante um período de cinco anos. Eles combinaram modelos de transmissão de vírus e distribuição de espécies em vários cenários de mudanças climáticas, com foco em mamíferos devido à sua relevância para a saúde humana.
A equipe construiu o modelo de distribuição de espécies para prever para onde os mamíferos se moveriam para encontrar habitats mais habitáveis à medida que o planeta aquece. O modelo de transmissão de vírus prevê a probabilidade de um vírus saltar entre espécies pela primeira vez, levando em consideração onde as espécies podem se encontrar à medida que seus habitats mudam e quão próximos eles estão evolutivamente (os vírus são mais propensos a transmitir entre espécies relacionadas).
A modelagem parece “tecnicamente impecável”, diz Ignacio Morales-Castilla, ecologista de mudanças globais da Universidade de Alcalá, na Espanha, embora ele aponte que exercícios de previsão como esse às vezes precisam incluir suposições irreais. Mas ele acrescenta que a amplitude e o escopo da pesquisa e sua capacidade de identificar quais partes do mundo podem estar em maior risco “se destacam claramente”.
Uma suposição que os pesquisadores tiveram que fazer foi sobre até onde as espécies se espalhariam à medida que o clima mudasse. Mas fatores como se os mamíferos podem se adaptar às condições locais ou atravessar fisicamente as barreiras nas paisagens são difíceis de prever.
Projeta-se que os morcegos estejam envolvidos na transmissão viral, independentemente desses fatores, segundo o estudo. Acredita-se que seja parte das origens do COVID-19, os morcegos são reservatórios conhecidos de vírus e representam cerca de 20% dos mamíferos. A equipe diz que – em parte porque os morcegos podem voar – eles são menos propensos a enfrentar barreiras para mudar seus habitats.
Repercussões para os humanos?
Embora Jones aplauda o estudo, ela pede cautela ao discutir suas implicações para a saúde humana. “Prever o risco de saltos virais de mamíferos para humanos é mais complicado, pois esses transbordamentos ocorrem em um ambiente socioeconômico complexo ecológico e humano”, diz ela.
Muitos fatores podem reduzir o risco para a saúde humana, incluindo o aumento do investimento em saúde ou um vírus incapaz de infectar humanos por algum motivo, acrescenta ela.
Mas os pesquisadores insistem que não há tempo a perder. A Terra já aqueceu mais de 1°C acima das temperaturas pré-industriais, e isso está impulsionando a migração de espécies e a troca de doenças. “Está acontecendo e não é evitável, mesmo nos melhores cenários de mudança climática”, diz Albery.
Albery e um de seus coautores, Colin Carlson, biólogo de mudanças globais também na Universidade de Georgetown, dizem que, embora seja inevitável algum aumento na transmissão de doenças, isso não é desculpa para inação. Os pesquisadores pedem aos governos e à comunidade internacional que melhorem o monitoramento e a vigilância de animais selvagens e doenças zoonóticas, particularmente em futuros pontos críticos como o sudeste da Ásia. Melhorar a infraestrutura de saúde também é essencial, dizem eles.
À medida que as pessoas começam a se preparar e se adaptar ao aquecimento global, a maioria dos esforços se concentra em atividades como deter o desmatamento ou reforçar os muros marítimos. Mas Carlson diz que a preparação para pandemias e a vigilância de doenças também são adaptação às mudanças climáticas.
Um barco em alta velocidade no rio Jurura, no coração da Floresta Amazônica brasileira, em 15 de março de 2020. A maior porção floresta tropical perdida em 2021 passado foi no Brasil
Por Angela Dewan para a CNN
(CNN)A área de floresta tropical destruída em 2021 foi suficiente para cobrir toda a ilha de Cuba e enviou mais dióxido de carbono para a atmosfera do que a Índiafaz em um ano inteiro com a queima de combustíveis fósseis, segundo uma análise publicada quinta-feira.
Cerca de 11,1 milhões de hectares (cerca de 43.000 milhas quadradas) de floresta foram destruídos, predominantemente por extração de madeira e incêndios, segundo a análise do Global Forest Watch do World Resources Institute e da Universidade de Maryland. Parte desses incêndios foram deliberadamente iniciados para limpar a terra e muitos foram exacerbados pelas mudanças climáticas.
Perda de floresta primária tropical
A perda foi menos severa do que em 2020, mas o desmatamento ainda está ocorrendo em um ritmo alarmante nos trópicos. Da área perdida, 3,75 milhões de hectares eram de floresta tropical primária – às vezes chamada de floresta virgem – o equivalente a 10 campos de futebol por minuto, informou o WRI.
As florestas tropicais primárias, em particular, são cruciais para o equilíbrio ecológico do planeta, fornecendo oxigênio que sustenta a vida e como hotspots de biodiversidade.
Eles também são ricos em carbono armazenado e, quando essas florestas são derrubadas ou queimadas, liberam dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, contribuindo para o aquecimento global. A destruição da perda de floresta tropical primária por si só emitiu 2,5 gigatoneladas de CO2 no ano passado, comparável às emissões da queima de combustível fóssil na Índia, que é o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.
“O que é importante entender é que as florestas, especialmente as tropicais, fazem parte do sistema climático global”, disse Frances Seymour, membro sênior do WRI, à CNN. “Então, eles não são dispositivos mecânicos de armazenamento de carbono, eles realmente influenciam a transferência de energia e o teor de umidade da atmosfera de maneiras que afetam as chuvas, que afetam os padrões de circulação global”.
Os incêndios também estão desempenhando um papel cada vez maior na perda de florestas tropicais. Seymour disse que há um efeito composto entre o desmatamento e as mudanças climáticas.
“Quando o desmatamento acontece, quando as florestas são perdidas, ele não apenas contribui com carbono para a atmosfera, mas também interrompe os padrões de chuva e aumenta as temperaturas locais de maneira que, por exemplo, tornam as florestas remanescentes mais vulneráveis ao fogo e às condições mais quentes e secas que vêm com a mudança climática”, disse Seymour.
A análise olhou principalmente para as florestas tropicais – que podem ser encontradas em países do Brasil à Indonésia e República Democrática do Congo (RDC) – porque mais de 96% do desmatamento, ou remoção de cobertura florestal causada pelo homem, ocorre lá.
As descobertas foram baseadas em imagens de satélite que avaliaram como a cobertura de árvores mudou ao longo do tempo. A perda de cobertura de árvores, ou dossel, nos trópicos, muitas vezes significa que a floresta foi destruída. Em outros países, onde a extração de madeira é menos comum, pode significar que as copas das árvores são destruídas, como no caso de um incêndio, mas a floresta permanece intacta.
No entanto, as florestas boreais – que são encontradas em climas particularmente frios, inclusive na Rússia, Canadá e Alasca – sofreram sua maior perda de cobertura de árvores registrada no ano passado. Mais de 8 milhões de hectares foram perdidos, um aumento de quase um terço em relação a 2020.
Isso se deve em grande parte porque a Rússia experimentou incêndios particularmente graves, perdendo 6,5 milhões de hectares de cobertura de árvores.
Esses incêndios podem causar o que os cientistas chamam de ciclos de feedback, “nos quais incêndios crescentes levam a mais emissões de carbono, o que leva a um clima mais quente e seco, o que leva a mais incêndios e assim por diante”, diz a análise.
Nos trópicos, mais de 40% da perda florestal no ano passado ocorreu no Brasil. Cerca de 1,5 milhão de hectares de floresta no país foram varridos do mapa, principalmente da Amazônia. Isso é mais de três vezes a RDC, que perdeu a segunda maior quantidade de floresta.
Se a Amazônia atingir o ponto de inflexão, as metas climáticas ‘explodirão da água’
No Brasil, um dos principais impulsionadores do desmatamento é a expansão agrícola, que aumentou 9% entre 2020 e 2021.
A análise do WRI alerta que a perda de floresta está empurrando a Amazônia para um ponto de inflexão, onde não poderá mais servir como um dos sumidouros de carbono mais importantes do mundo e pode até se tornar um emissor líquido de CO2. A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e desempenha um papel crucial na biodiversidade, regulando o clima e fornecendo serviços ecossistêmicos para milhões de pessoas que vivem lá.
Se esse ponto de inflexão for ultrapassado, as tentativas do mundo de conter o aquecimento global a 1,5-2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais – conforme estabelecido no Acordo de Paris de 2015 – seriam “explodidas pela água”, disse Seymour.
Pontos críticos de perda de floresta primária no Brasil
Em meio a suas descobertas preocupantes, a análise deu alguns motivos para otimismo. Indonésia e Malásia, que por décadas lutaram contra o desmatamento desenfreado, viram uma redução na quantidade de cobertura florestal que perde anualmente por cinco anos consecutivos. Na Indonésia, a quantidade de floresta perdida caiu 25% no ano passado.
Este é um sinal de que os compromissos corporativos e as ações governamentais estão funcionando, de acordo com Hidayah Hamzah, Gerente Sênior de Monitoramento de Florestas e Turfas do WRI na Indonésia.
“Isso indica que os compromissos corporativos e as ações do governo estão claramente funcionando”, disse ela a jornalistas em um briefing. “A Indonésia está indo na direção certa para cumprir alguns de seus compromissos climáticos.”
A Malásia, no entanto, já perdeu um quinto de sua floresta tropical primária desde 2001 e até um terço desde a década de 1970.
Hamzah acrescentou que o sucesso da Indonésia se deve em parte à moratória do governo nas licenças de extração de madeira para florestas primárias e turfeiras, bem como ao melhor monitoramento de incêndios. Uma política chamada NDPE — No Deforestation, No Peatland, No Exploitation — cobre agora mais de 80% da capacidade de refino de óleo de palma na Indonésia e Malásia, que são os maiores exportadores mundiais de óleo, e mais de 80% da celulose e indústria de papel na Indonésia.
Mas o WRI também adverte que, à medida que os preços do óleo de palma atingirem a máxima de 40 anos, as florestas desses países poderão ficar sob pressão crescente. A Indonésia também suspendeu o congelamento temporário de novas licenças para plantações de óleo de palma.
Embora tenha havido uma redução geral na perda de cobertura de árvores no ano passado, a melhoria anual não é consistente o suficiente para cumprir os compromissos globais, incluindo uma declaração assinada por mais de 140 países nas negociações climáticas em Glasgow no ano passado para “deter e reverter a perda de florestas até 2030 .”
Seymour também alertou contra confiar demais nas florestas para compensar as emissões de gases de efeito estufa, dizendo que empresas e países deveriam usá-las para ir além dos esforços de descarbonização – reduzindo drasticamente o uso de combustíveis fósseis – ou para compensar emissões impossíveis de cortar com tecnologia atual.
O setor aéreo é um exemplo, pois a tecnologia para voar sem carbono ainda não existe em escala.
“Então, sim, queremos que eles reduzam essas emissões o mais rápido possível e invistam em novas tecnologias que permitirão voos sem carbono, mas, enquanto isso, são emissões ‘ininterruptas’”, disse ela. “E compensar aqueles com a compra de créditos de carbono pode fornecer uma fonte de financiamento que precisamos desesperadamente para incentivar a proteção das florestas do mundo”.
Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela “CNN” [Aqui!].
Um estudo publicado na “Nature” avalia o impacto dos anúncios feitos durante a COP26 sobre o clima. Pela primeira vez, respeitar o acordo de Paris parece possível, mas apenas se os compromissos forem cumpridos, o que é muito incerto
Uma planta de processamento de carvão em Hejin, província chinesa de Shanxi, 28 de novembro de 2019. SAM MCNEIL / AP
Por Audrey Garric para o “Le Monde”
É um estudo que traz um raio de esperança no túnel escuro das mudanças climáticas. Pela primeira vez, compromissos estatais podem permitir limitar o aquecimento global a pouco menos de 2°C até o final do século, de acordo com um artigo cientifico publicado na Nature na quarta-feira, 13 de abril . No entanto, devemos ter cuidado para não sermos muito otimistas: esse resultado implica que as promessas dos países sejam cumpridas na íntegra e no prazo, o que é muito incerto. E esses planos continuam em grande parte insuficientes, pois quase certamente levam a uma ultrapassagem do limite de 1,5°C, o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e aquele que evitará os piores efeitos da crise climática.
“É um marco histórico, mas ainda não temos que comemorar porque ainda estamos longe do limite de 1,5°C “, disse Malte Meinshausen, professor da Universidade de Melbourne (Austrália) e primeiro autor do estudo. A única maneira de se aproximar é tomar medidas mais drásticas nos próximos dez anos, ou será tarde demais. “ Há uma emergência, lembra ele, quando os riscos de derretimento irreversível da Groenlândia “se desencadeiam em algum lugar entre 1,5°C e 2°C” e que secas, incêndios, inundações e extremos de calor aumentam a cada fração de grau.
O mundo ainda está longe dos objetivos do Acordo de Paris, que pretende limitar o aquecimento global “bem abaixo de 2°C e continuar os esforços até 1,5°C” . As atuais políticas estaduais estão levando o planeta a um aquecimento médio de 2,6°C em 2100. Na 26ª Conferência do Clima ( COP26 ), realizada em Glasgow em novembro de 2021, 153 países apresentaram os novos compromissos climáticos para 2030 e 75 Estados (representando três quartos das emissões globais) forneceu estratégias de longo prazo; eles visam essencialmente alcançar a neutralidade de carbono até 2050, ou mesmo 2060 para a China. A Índia, que fez anúncios sem enviá-los formalmente, tem como meta zero emissões líquidas até 2070.
Este texto foi escrito inicialmente em francês e publicado pelo jornal “Le Monde” [Aqui!].
Estudo detalha como uma extensa campanha de relações públicas nos Estados Unidos atrasou a ação climática em nível mundial
Um artigo publicado hoje (11/4) na Environmental Politics revela novos detalhes sobre os primeiros esforços organizados para tentar enfraquecer a ação climática em nível mundial. Segundo a análise, a organização Global Climate Coalition (GCC) mudou o curso da política climática dos EUA no final do século 20, influenciando todo o contexto internacional, com táticas que servem de guia para a desinformação climática até hoje.
A Global Climate Coalition, criada em 1989 e encerrada em 2001, foi a primeira e maior organização dos Estados Unidos desenhada para se opor à ação climática. O artigo publicado hoje adiciona documentos previamente ocultos. Entre eles, estão arquivos da Associação Nacional de Fabricantes dos EUA de 1990-1998 e da agência de comunicação E. Bruce Harrison Inc., que revelam a estratégia inicial da GCC: lançar dúvidas sobre a ciência do clima e advertir sobre os danos econômicos que o combate às mudanças climáticas trariam.
Os documentos também detalham esforços para pressionar os regulamentos da EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, e como a GCC se vangloriou muitas vezes por ter conseguido influenciar negociações ambientais importantes, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática.
“As ações empreendidas pela Global Climate Coalition nos primeiros dias da política climática provaram ser incrivelmente eficazes em atrasar as ações climáticas por décadas”, disse Robert Brulle, autor da análise e professor visitante da Brown University. “Estes documentos revelam um livro de jogadas para o enorme e eficaz esforço de relações públicas que a indústria ainda emprega hoje.”
A revisão feita por Brulle hierarquiza da seguinte forma as táticas da GCC: 1) monitorar e contestar a ciência climática; 2) encomendar estudos econômicos sob medida para ampliar e legitimar seus argumentos; 3) mudar a compreensão cultural da mudança climática com campanhas publicitárias; e 4) conduzir um lobby agressivo sobre os legisladores e outros membros das elites políticas.
A análise inclui um documento da GCC de 1995 que resume os extensos esforços de relações públicas aplicados àquela altura para mudar a política climática internacional. Este material também detalha os principais doadores industriais da coalizão e seu orçamento.
Em sua formação original, a GCC era composta principalmente por empresas de serviços públicos, como água e eletricidade, representantes do setor de carvão e uma empresa petrolífera. Em 1991, o grupo tinha 79 membros.
O artigo foi publicado sob o título “Advocating Inaction: A Historical Analysis of the Global Climate Coalition” e está disponível aqui.Os novos documentos analisados na pesquisapodem ser consultados aqui.
De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ter atingido o pico dentro de três anos, o mais tardar
Devido às mudanças climáticas, a seca da primavera está se tornando uma tendência na Europa Central. Como resultado, a temporada de incêndios florestais começa mais cedo. Em meados de março houve um incêndio perto do Castelo de Neuschwanstein. Foto: dpa/Daniel Liebl
Por Christopher Mueller para o Neues Deutschland
As negociações sobre o “resumo para tomadores de decisão” de um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) nunca duraram tanto. Não foi até a noite de domingo que os representantes dos 195 estados membros do IPCC finalmente concordaram; a apresentação foi adiada para o final da tarde de segunda-feira. No entanto, ainda não foi possível saber quais países e temas foram responsáveis pelo atraso de dois dias.
O capítulo do relatório, publicado na segunda-feira, descreve o que a humanidade deve fazer para deter as mudanças climáticas. Resumindo: trata-se de reduzir as emissões, o que provavelmente é parcialmente responsável pelas polêmicas negociações. O relatório é a terceira parte do que é hoje o sexto relatório de status do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e apresenta as descobertas científicas desde que o quinto relatório foi publicado em 2014. Desta vez, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas está se concentrando mais sobre o papel de atores não governamentais, como empresas e instituições financeiras. Pela primeira vez há passagens sobre a demanda por energia e bens intensivos em energia. Os aspectos sociais da reestruturação de nossas sociedades também são examinados com muito mais detalhes do que antes.
O ponto de partida é o desenvolvimento das emissões de gases com efeito de estufa, que continuam a aumentar apesar de todos os compromissos políticos, e das medidas de proteção do clima existentes. De acordo com descobertas científicas, estes estão longe de ser suficientes para parar o aquecimento em dois graus, muito menos 1,5 graus. O relatório calcula que as emissões globais teriam que atingir o pico nos próximos três anos, ser reduzidas pela metade até 2030 e cair para zero líquido em 2050. No entanto, ele deixa claro que isso ainda é possível – e a um custo razoável. Todos os cenários calculados pressupõem que a economia continuará a crescer. “Se tomarmos as medidas necessárias para limitar o aquecimento a dois graus ou menos, o produto interno bruto global seria apenas alguns pontos percentuais menor em 2050”, disse Priyadarshi Shukla, um dos copresidentes do grupo de trabalho que produziu o relatório. E isso “sem levar em conta os benefícios econômicos que resultam de menores custos de adaptação ou impactos climáticos evitados”.
No entanto, de acordo com o IPCC, medidas individuais e isoladas não são suficientes para parar o aquecimento em 1,5 graus. A reestruturação da economia e da sociedade só pode ser bem sucedida com uma abordagem holística que também tenha em conta as condições do quadro institucional e económico. Os mercados financeiros também são importantes aqui, porque os fluxos financeiros para a conversão ainda são três a seis vezes menores do que seriam necessários até 2030. “Trata-se de usar os enormes fluxos financeiros deste mundo para ajudar a garantir nosso futuro em vez de colocá-lo em perigo”, disse Kerstin Lopatta, economista da Universidade de Hamburgo. Para isso, as empresas teriam que reportar de forma padronizada suas emissões e os riscos climáticos a que estão expostas. Vários comitês estão atualmente trabalhando em padrões para tais relatórios.
Mas mesmo com uma política de proteção climática muito mais efetiva , a humanidade também terá que retirar o CO2 da atmosfera, segundo o IPCC. Por um lado, isso se deve à natureza das “metas net-zero”, onde ainda há emissões residuais, mas que são compensadas de outras formas. Além disso, o aquecimento global pode exceder temporariamente 1,5 graus. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, existem várias opções disponíveis para remover o CO2, mas todas têm capacidade limitada e às vezes são controversas. As menos controversas são a arborização de áreas adequadas e a re-humedecimento das turfeiras. Feito corretamente, os benefícios para a biodiversidade também podem ser alcançados. BECCS é mais difícil. Aqui, biomassa como a madeira é queimada para gerar energia,o CO2 é então separado e injetado no subsolo (CCS). Se o BECCS fosse usado em grande escala, seriam necessárias enormes plantações de biomassa, que não estariam disponíveis para a produção de alimentos. O armazenamento seguro do dióxido de carbono do gás de efeito estufa também não está à vista. Outra opção mencionada é filtrar o CO2 do ar e depois descartá-lo novamente usando CCS. O espaço necessário para isso é relativamente pequeno, o que exigiria enormes quantidades de eletricidade verde.
Por outro lado, as mensagens do IPCC aos estados são mais claras: a segunda parte do relatório de status do IPCC, publicado em fevereiro, já mostrava a urgência de reduzir pela metade as emissões até 2030 e reduzi-las a zero líquido até 2050: o O atual aquecimento global de 1,1 grau acima dos níveis pré-industriais tem consequências mais sérias do que o esperado anteriormente. E: “Os efeitos a médio e longo prazo são muitas vezes maiores do que os observados atualmente.” Espera-se, portanto, que os “tomadores de decisão” mundiais realmente usem a terceira parte do relatório do IPCC como um “mapa ” e a humanidade sai da crise climática.
O IPCC não realiza nenhum estudo por conta própria. Como instituição intergovernamental, tem a tarefa de resumir o estado da pesquisa científica sobre mudanças climáticas para governos com o objetivo de fornecer uma base para decisões baseadas na ciência. O processo tem duas etapas: primeiro os cientistas escrevem um relatório de mais de 1.000 páginas, depois os diplomatas negociam o resumo de 60 páginas desta vez. Mesmo que isso às vezes seja tedioso, de acordo com Ottmar Edenhofer, isso tem duas vantagens: todos os 195 países do IPCC precisam analisar o relatório em detalhes e reconhecer oficialmente seu conteúdo ao adotá-lo.
Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].