Impacto da urbanização no litoral paulista requer ações urgentes, aponta estudo

Mapeamento conduzido na Unifesp revela a expressiva extensão de estruturas artificiais construídas na linha de costa e a ocupação de áreas vulneráveis a eventos climáticos

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Molhe feito de rochas para proteção costeira (foto: Aline Martinez)

Por Agência FAPESP 

 Pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), em Santos, mapearam a linha costeira do Estado de São Paulo, revelando dados inéditos sobre a urbanização das zonas costeiras do Brasil.

O estudo foi conduzido durante o pós-doutorado de Aline Martinez, com apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os resultados foram divulgados na revista Anthropocene Coasts e destacam a necessidade urgente de ações para uma gestão costeira sustentável e resiliente.

O grupo mapeou toda a linha da costa de São Paulo para quantificar a extensão de estruturas artificiais, como quebra-mares, espigões, cais de porto e píeres, bem como ocupações em zonas costeiras de baixa elevação próximas a praias e margens estuarinas. Essas áreas são altamente vulneráveis a eventos climáticos, sofrendo com o avanço do nível do mar, inundações e erosão.

Os pesquisadores da Unifesp revelaram que o litoral paulista tem 245 quilômetros (km) de estruturas artificiais na linha de costa, o que equivale a três vezes a distância entre as cidades de São Paulo e Santos. Infraestruturas de proteção costeira, como muros de contenção, muretas, quebra-mares e estruturas de atracamento de embarcações, representam 80% de todas as estruturas mapeadas, sendo que 63% delas estão na Baixada Santista, a região mais urbanizada.

“Embora essas estruturas sejam úteis para nossas atividades diárias, elas causam grandes impactos ambientais, como a perda de hábitats naturais e de biodiversidade, além de serviços ecossistêmicos essenciais,” explicou Martinez à Assessoria de Imprensa do IMar-Unifesp. “Essas infraestruturas também facilitam a bioinvasão, quando espécies de uma região se estabelecem em novas localidades, causando problemas ambientais e prejuízos econômicos”, completou.

Riscos das ocupações

O estudo também revelou que mais de 300 km da costa paulista têm ocupações humanas em áreas vulneráveis: 235 km perto de praias e 67 km próximos a manguezais e margens estuarinas. Isso significa que mais de 25% da linha costeira “mole” do Estado possui populações humanas e infraestrutura urbana em áreas altamente suscetíveis a riscos climáticos.

A pesquisa ainda mostra que 55% da extensão de praias do litoral de São Paulo possui áreas urbanizadas dentro de apenas 100 metros de distância da faixa de areia. Na Baixada Santista e no Litoral Norte, esta cifra sobe, respectivamente, para 81% e 74% das praias.

“Manguezais e vegetações como as restingas são nossa primeira linha de defesa contra o impacto das ondas e o avanço do mar. Com as mudanças climáticas, preservar essas vegetações é crucial para proteger cidades costeiras, pessoas e atividades econômicas”, afirmou o pós-doutorando André Pardal, coautor da pesquisa.

“Projeções indicam que praias podem recuar em torno de 100 metros até o fim do século devido ao aumento do nível do mar e à erosão. O intenso processo erosivo já observado em Ilha Comprida [Litoral Sul], por exemplo, pode se tornar comum em todo o litoral paulista nas próximas décadas”, acrescenta Pardal.

Segundo o orientador de Martinez, o professor da Unifesp Ronaldo Adriano Christofoletti, é necessário realizar planos e ações eficazes para preservar os manguezais e restingas remanescentes e restaurar áreas alteradas. “No contexto dos debates sobre a PEC [Proposta de Emenda à Constituição] das Praias, nosso estudo enfatiza a necessidade de fortalecer a preservação dos Terrenos de Marinha e seus acrescidos, em vez de facilitar suas ocupações,” disse Christofoletti.

Os resultados mostram que a urbanização costeira é uma fonte significativa de impacto ambiental e riscos costeiros em São Paulo e no Brasil. A pesquisa ressalta a importância de ações eficazes para mitigar esses impactos e promover um desenvolvimento costeiro sustentável. Em particular, o estudo alerta para as ameaças de alterações em leis que facilitem a ocupação de áreas costeiras altamente vulneráveis às mudanças climáticas.

O artigo Urbanisation on the coastline of the most populous and developed state of Brazil: the extent of coastal hardening and occupations in low-elevation zones pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s44218-024-00048-8.


Fonte: Agência Fapesp

Número de queimadas em agosto está muito acima da média em diversas áreas da América do Sul com muita fumaça

Número de queimadas neste mês de agosto está muito acima da média em diversas áreas da América do Sul com muita fumaça

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Por Metsul.com

O mês de agosto comumente é de muitas queimadas na América do Sul, mas neste ano o período de fogo chegou mais cedo e o número de incêndios em vegetação está muito acima do normal. Com correntes de vento, a fumaça das queimadas se espalha por muitas áreas do continente.

A animação acima mostra a projeção para a América do Sul de aerossóis com dispersão da fumaça gerada pelas queimadas a partir de dados do modelo europeu CAMS do Sistema Copernicus entre os dias 6 e 10 de agosto.

Como se observa, há uma grande quantidade de fumaça sendo liberada na atmosfera nestes dias por queimadas que ocorrem em grande número no Chaco, Bolívia, Pantanal e principalmente a região da Amazônia.

Uma corrente de jato (vento) em baixos níveis da atmosfera, entre 1000 e 2000 metros de altitude, que avança de Norte para Sul pelo interior do continente, acabou por levar a fumaça vinda de lugares tão distantes quanto o estado do Amazonas para o Rio Grande do Sul.

Foi possível ver da superfície a fumaça ontem na Metade Norte do Rio Grande do Sul, onde o tempo estava mais aberto. No final da tarde, sob a presença do material particulado na atmosfera, o entardecer chamou a atenção pela coloração do sol sob a presença de fumaça.

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Agora, com o avanço de uma frente fria e o ingresso de ar frio e limpo de Sul durante a segunda metade desta semana, a atmosfera passará a ficar livre de fumaça no Sul do Brasil que será deslocada para o Centro-Oeste e o Sudeste do Brasil.

Somente ontem, terça-feira, o monitoramento de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais identificou 1244 focos de calor na Amazônia. Nos primeiros seis dias do mês, o bioma anotou mais de cinco mil focos de calor. No Pantanal, o número de queimadas já supera a média histórica do mês todo. A Bolívia já tem mais de 4 mil focos de calor nos primeiro seis dias do mês, mais da metade da média histórica mensal.


Fonte: Metsul.com

Segunda-feira quebrou recorde de dia mais quente da Terra

sunsetO sol poente ilumina as nuvens sobre as Montanhas Rochosas após um terceiro dia consecutivo de calor recorde no domingo, 14 de julho de 2024, em Denver. (Foto AP/David Zalubowski)

Por Sibi Arasu e Seth Borenstein para a Associated Press 

Segunda-feira foi registrada como o dia mais quente do mundo, batendo o recorde estabelecido no dia anterior , enquanto países ao redor do mundo, do Japão à Bolívia e aos Estados Unidos, continuam sentindo o calor, de acordo com o serviço europeu de mudanças climáticas.

Dados provisórios de satélite publicados pela Copernicus na quarta-feira mostraram que segunda-feira quebrou o recorde do dia anterior em 0,06 graus Celsius.

Cientistas do clima dizem que o mundo está agora tão quente quanto era há 125.000 anos por causa da mudança climática causada pelo homem. Embora os cientistas não possam ter certeza de que segunda-feira foi o dia mais quente durante todo esse período, as temperaturas médias não eram tão altas desde muito antes de os humanos desenvolverem a agricultura.

O aumento da temperatura nas últimas décadas está de acordo com o que os cientistas do clima projetaram que aconteceria se os humanos continuassem queimando combustíveis fósseis em um ritmo crescente.

“Estamos em uma época em que os registros climáticos e meteorológicos são frequentemente esticados além dos nossos níveis de tolerância, resultando em perdas intransponíveis de vidas e meios de subsistência”, disse Roxy Mathew Koll, cientista climática do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical.

Os dados preliminares do Copernicus mostram que a temperatura média global na segunda-feira foi de 17,15 graus Celsius, ou 62,87 graus Fahrenheit. O recorde anterior antes desta semana foi estabelecido há apenas um ano. Antes do ano passado, o dia mais quente registrado anteriormente foi em 2016, quando as temperaturas médias estavam em 16,8 graus Celsius, ou 62,24 graus Fahrenheit.

Embora 2024 tenha sido extremamente quente, o que deu o pontapé inicial nesta semana para um novo território foi um inverno antártico mais quente do que o normal, de acordo com Copernicus. A mesma coisa aconteceu no continente sul no ano passado, quando o recorde foi estabelecido no início de julho.

Os registros de Copérnico remontam a 1940, mas outras medições globais feitas pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido remontam a ainda mais, a 1880. Muitos cientistas, levando-os em consideração, juntamente com anéis de árvores e núcleos de gelo, dizem que os recordes de alta do ano passado foram os mais quentes que o planeta já esteve em cerca de 120.000 anos . Agora, os primeiros seis meses de 2024 empataram esses.

Sem as mudanças climáticas causadas pelo homem , os cientistas dizem que os recordes de temperaturas extremas não seriam quebrados com tanta frequência quanto está acontecendo nos últimos anos.

A ex-chefe de negociações climáticas da ONU, Christiana Figueres, disse que “todos nós seremos queimados e fritos” se o mundo não mudar imediatamente de rumo, “mas políticas nacionais direcionadas precisam permitir essa transformação”.

Cientistas disseram que era “extraordinário” que dias tão quentes tenham ocorrido em dois anos consecutivos, especialmente quando o aquecimento natural do El Niño no Oceano Pacífico central terminou no início deste ano . “Esta é mais uma ilustração de quanto o clima da Terra aqueceu”, disse Daniel Swain, um cientista climático da Universidade da Califórnia, Los Angeles.


Fonte: Associated Press

Uma excelente notícia para o clima: a China está reduzindo suas emissões de CO2

Revolução solar, aço “verde”, mobilidade elétrica, energia eólica e hidrelétrica: a República Popular pode ter atingido um ponto de viragem nas emissões

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Por Wolfgang Pomrehn para o “JungeWelt”

Na China, há sinais crescentes de que o país pode ter atingido o pico das suas emissões de gases com efeito de estufa. Isso aconteceria seis anos antes da data em que a República Popular se comprometeu nas negociações internacionais sobre o clima. Parece que a brilhante revolução solar da China está começando a dar frutos. Em Maio passado, a percentagem de centrais eléctricas alimentadas a carvão no fornecimento de electricidade do país caiu para um mínimo histórico de 53%. Isto emerge de uma análise publicada na quinta-feira pelo Centro Finlandês de Investigação sobre Energia e Ar Limpo (CREA) e é ainda mais notável porque a procura de energia elétrica continuou a aumentar. Em maio de 2024, situava-se 7,4% acima do nível do ano anterior. Dado que a produção de eletricidade em centrais elétricas centrais e grandes parques solares e eólicos só aumentou 2,4% durante este período, a maior parte do crescimento deve ter sido coberta por sistemas solares novos, pequenos e descentralizados.

A produção de eletricidade nas centrais a gás também caiu em maio face ao ano anterior, conforme noticiou o serviço de análise Carbon Brief. No geral, as emissões de CO2 do sector das centrais eléctricas caíram 3,4 por cento em comparação com Maio de 2023. Os dados do Gabinete Nacional de Estatísticas de Pequim também mostram que a produção nacional de carvão diminuiu desde o início do ano, enquanto as importações de carvão aumentaram ligeiramente. Dado que a China tem sido até agora largamente auto-suficiente e afirmou que está fundamentalmente tentando tornar-se tão independente quanto possível das importações de energia, este desenvolvimento pode ser mais uma indicação do início de uma mudança estrutural no fornecimento de electricidade.

Conforme relatado anteriormente em jW , a República Popular conectou novos sistemas solares à rede com uma produção total de 216 gigawatts no ano passado. De acordo com o CREA, foram adicionados mais 60 gigawatts nos primeiros quatro meses de 2024, o que representou outro aumento de 25% em comparação com o mesmo período do ano passado. Para efeito de comparação: dependendo da localização, os sistemas solares com uma produção de seis a sete gigawatts podem gerar tanta eletricidade em um ano como uma central nuclear moderna. Ao contrário de uma central nuclear, os sistemas solares não alimentam a rede de forma uniforme, mas apenas durante o dia e geralmente significativamente mais no verão do que no inverno.

Portanto, devem ser combinados com outros geradores e instalações de armazenamento. As turbinas eólicas, que também estão sendo construídas em um ritmo acelerado na China, fornecem mais eletricidade no inverno do que no verão e são, portanto, um bom complemento à geração de energia solar. Finalmente, as centrais hidrelétricas, que a China também possui, são mais fáceis de controlar do que a solar e a eólica. Elas podem ser usadas ​​para compensar lacunas de abastecimento, desde que chova o suficiente. Em 2022 e 2023, a produção de energia nas hidrelétricas ficou aquém das expectativas devido à insuficiência de chuvas. Este ano, dadas as cheias recorde, isso não pode ser questionado. Em Maio de 2024, as centrais hidrelétricas da China forneceram 38% mais electricidade do que em Maio de 2023.

A notícia é consistente com o fato de que nenhuma nova siderúrgica que utiliza coque foi aprovada em 2024, como também informa o CREA. A indústria é a segunda maior fonte de CO2 da China, depois das usinas de energia. Foram aprovadas apenas novas aciarias elétricas que produzam aço a partir de energia elétrica a partir de sucata. O ferro-gusa também pode ser produzido a partir de minério sem emissões de CO2. No entanto, a tecnologia baseada no hidrogénio ainda não está muito difundida.

Entretanto, algo notável também está acontecendo nas estradas da China: em Maio, 40% de todos os veículos produzidos na China eram carros elétricos ou autocarros. Agora existem bônus de sucateamento se as pessoas desistirem de seus carros antigos e comprarem um veículo elétrico. Assim, o processamento de petróleo bruto nas refinarias do país caiu em Abril e Maio pela primeira vez em muito tempo, o que provavelmente indica uma diminuição no consumo de combustíveis. Os veículos a gasolina e diesel estão claramente sendo eliminados no maior mercado de automóveis do mundo.


Fonte: JungeWelt

O agronegócio quer fazer um “rebranding” para tudo continuar como está

Setor se esforça para mudar a percepção do público; só não admite o que está errado dentro e fora das quatro porteiras

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Por Giovana Girardi para a “Agência Pública”

Quem passa frequentemente pelo entorno do estádio do Palmeiras, na zona oeste de São Paulo, já se acostumou com os avisos de interdição de trânsito na avenida Palestra Itália, antiga Turiaçu, em dias de jogos ou de grandes shows. Já tocaram ali de Paul McCartney a Titãs; de Taylor Swift a bandas de K-pop. Os sertanejos todos também estão sempre por lá, e foi um show de um deles que eu imaginei que iria acontecer no estádio na semana passada quando vi o aviso de um tal de Gaffff (assim, cheio de Fs mesmo). Não captei de imediato o que significava a sigla, mas vi que tinha agro e tinha festival.

Na verdade, era um negócio muito maior, o Global Agribusiness Festival, com a proposta nada modesta de ser “o maior festival de cultura agro do mundo”. Sim, tinha shows de sertanejos, mas também, como apresentado no prospecto: food (comida), fun (diversão), fair (feira de negócios) e forum (fórum de discussões). Daí os 4 Fs, em inglês, afinal, o evento era “global”. Afff.

Apesar de ter nascido no berço dessa cultura agro, em Barretos, e de saber cantar de cor e salteado não apenas Evidências, fujo da Festa do Peão, e sertanejos não passam pela minha playlist. Mas fiquei interessada na parte “forum” do evento – e a promessa de acessar “conteúdos que transformam o agro e o planeta”. 

(Sobre os outros Fs, aliás, recomendo a leitura da ótima análise feita pela colega Mariana Grilli para o UOL.)

A descrição das palestras, restritas a convidados, era tentadora: “Além de reforçar a importância do agro no cenário econômico brasileiro e internacional, nossos painéis irão debater os rumos do setor e seus principais desafios, principalmente em relação às mudanças climáticas, preservação de recursos naturais e soluções sustentáveis para uma população em crescimento”.

Anti-greenwashing Efforts Could Be the Opportunity Your Brand Is Looking For

O leitor mais desconfiado sentiu um cheirinho de greenwashing? Eu também. Mas vamos lá. Não é todo dia que a gente vê o agro se dispondo a colocar mudanças climáticas e preservação de recursos naturais como prioridade no debate. Veja que tem um “principalmente” ali no resuminho. Achei que merecia uma colher de chá.

De 19 painéis, quatro traziam a palavra “sustentabilidade” no título e só dois falavam explicitamente em “mudanças climáticas”. Fui conferir um deles, sobre “como mitigar e evitar os riscos dos eventos extremos”. É de imaginar que essa deve ser a preocupação número 1 do setor, que vem sofrendo sucessivas perdas por causa de secas e chuvas muito intensas. Só no Rio Grande do Sul estima-se que os temporais entre o fim de abril e o começo de maio tenham levado a um prejuízo de R$ 3 bilhões à agricultura gaúcha.

Logo na abertura da mesa, porém, ficou evidente que, apesar de se identificar como vítima do aquecimento global, o setor não quer discutir suas próprias contribuições para o problema. Luiz Roberto Barcelos, presidente da Agrícola Formosa, do Ceará, que moderava a discussão, foi rápido em explicar: “A mudança ocorre, mas não vamos discutir o motivo, não vamos entrar em polêmica. Se é o homem do campo ou o homem da indústria que polui, não vamos debater”.

Na sequência, Caio Souza, head de agronegócios da Climatempo, entrou no jogo: “Precisamos olhar o problema, não precisamos buscar o ator principal da mudança climática. A mudança climática é o ator principal. Somos coadjuvantes e precisamos criar oportunidades”.

Tudo bem, eu entendo que existe uma estratégia aí de não apontar dedos para não afugentar ninguém, superar resistências e, principalmente, o negacionismo. Para lidar com o problema, todo mundo precisa estar junto, então bora trabalhar, deixa essa história de responsabilidades para lá.

]Mas… quando estamos tratando das mudanças climáticas, se, por um lado, sim, é preciso falar em adaptação, em criar formas de se proteger e, obviamente, de sobreviver ao novo cenário que já está posto; por outro, não tem como não considerar o que está causando o problema para começo de conversa – que é o fato de a humanidade estar emitindo loucamente gases de efeito estufa, que se acumulam na atmosfera como não ocorria há mais de 3 milhões de anos.

Adaptar-se ao aquecimento global é tão fundamental quanto mitigá-lo: fazer todos os esforços possíveis para diminuir a quantidade de gases que aquecem o planeta.

Se em todo o mundo a maior parte desses gases é proveniente da queima de combustíveis fósseis, no Brasil as fontes principais são o desmatamento e a agropecuária (por causa, principalmente, da digestão do rebanho – o proverbial arroto do boi). Considerando que a maior parte das áreas desmatadas no Brasil acaba sendo convertida, posteriormente, em pastagem e agricultura, pesquisadores do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) calculam que o setor, indiretamente, é quem mais colabora com as emissões brasileiras. 

Sinto muito, pessoal. Não discutir isso é não lidar com o elefante na sala.

Desenvolver técnicas para proteger as safras e os rebanhos, mas não trabalhar para zerar o desmatamento entre produtores que ainda o praticam só vai aumentar os riscos para o setor. Nunca é demais repetir: menos floresta = mais calor e menos chuva. Também é preciso trabalhar para que todo o crédito agrícola no Brasil seja vinculado a boas práticas que reduzam as emissões. Coisa que especialistas pedem todo ano, mas ainda não virou realidade no Plano Safra.

Infelizmente, não parece que o evento estava muito interessado em identificar os próprios problemas. O sentimento foi reforçado em outro painel a que assisti: “O rebranding no agronegócio: transformando a percepção sobre o setor”.

Rebranding é um conceito que vem da publicidade e que visa fazer um reposicionamento de marca, de imagem. A ideia é “fazer com que as pessoas mudem a percepção de alguma coisa”, como explicou o publicitário Marcelo Rizerio, da agência Euphoria, que se apresentou no painel. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, que moderou a mesa, disse que o agro precisa mostrar que é supertecnológico e, também, “como é difícil manter comida na mesa dos brasileiros”.

Eduardo Monteiro, diretor comercial e de marketing do Canal Rural, disse que histórias estão sendo contadas sem que o setor assuma o protagonismo delas. “Estão chegando na sociedade sem que a gente conte as nossas histórias”. Ainda defendeu: “Senão, um fica apontando o dedo para um, para outro. [Mas] o agro tem de ser o agro da paz. A discussão é saudável, mas o conflito e o confronto levam à rejeição”.

Fiquei esperando a hora em que alguém ia explicar qual história está chegando na sociedade, qual é a imagem que eles querem mudar. Mas assim como na mesa da mudança climática, ninguém quer tratar de problema. Um único slide trazia muito rapidamente palavras como desmatamento e agrotóxicos.

O agro quer mudar, mas não quer assumir o que está fazendo de problemático, seja da portaria para dentro ou para fora.

Achei simbólica uma frase que Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP, que promoveu o evento, disse repetidas vezes em sua apresentação: “Quando você fala uma coisa diversas vezes para uma pessoa e ela não entende, o problema não é a pessoa, o problema é você, que não explicou direito”.

Agora pensa comigo. Esse é o mesmo agro que conta com uma propaganda na maior rede de televisão vendendo à exaustão que é isso, é aquilo, é pop, é tudo e tal. Se esse setor diz que sente a necessidade de fazer um rebranding, fico pensando se o problema é que ele realmente não está explicando direito ou se os fatos, na realidade, é que não são tão brilhantes assim.


Fonte: Agência Pública

E o Pantanal arde em chamas impulsionadas pelo agronegócio depredador

Imagens de satélite mostram focos de incêndio na região do Pantanal, em cidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O bioma bateu recorde no primeiro semestre deste ano com a maior quantidade de focos de incêndio desde 1998, início da série história de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre focos de queimadas no país.

Os focos de incêndios no Pantanal foram registrados por imagens de satélites entre os dias 24 e 25 de junho.  Os municípios onde as queimadas ocorreram foram Cáceres, Poconé (ambas no Mato Grosso) e Corumbá (no Mato Grosso do Sul, onde o governo decretou situação de emergência).

No Pantanal, foram 3.262 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 23 de junho. O número é 22 vezes o registrado no mesmo período de 2023, segundo dados do INPE. Corumbá concentra a maior parte dos incêndios, com 1.291 focos.  Como era de se esperar, a população tem sofrido com a fumaça que se espalha.

A causa desse aumento explosivo de focos de incêndio é uma combinação de fatores climáticos com a expansão da pecuária industrial e das áreas utilizadas para expansão de monoculturas, especialmente os de soja e cana de açúcar.

Se não realmente sério for feito para impedir o avanço do desmatamento no Pantanal, a perspectiva é de que um dos maiores alagados da Terra seque de forma irreversível.

Abaixo algumas imagens das torres de fumaça que hoje sobem no Pantanal. E lembrem: Agro é fogo!

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A produção de alimentos se tornou uma fonte de problemas climáticos

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Os fertilizantes são uma das principais fontes de emissões de óxido nitroso, um gás de efeito estufa que aquece o planeta. pixdeluxe/E+ via Getty Images
Por Hanqin Tian, Eric Davidson, Pep Canadell e Rona Louise Thompson para o “The Conversation”

O papel dos alimentos nas alterações climáticas emergiu como um dos desafios definidores do nosso tempo. A viagem de um bife, fruta ou salada desde as vastas extensões de terras agrícolas até aos pratos nas nossas mesas deixa uma pegada significativa no ambiente.

Como cientistas da Terra , do clima e da atmosfera , rastreamos as emissões globais de gases de efeito estufa e acabamos de publicar a avaliação mais abrangente até agora de um poderoso gás de efeito estufa proveniente da produção de alimentos: o óxido nitroso, ou N₂O.

Depois do dióxido de carbono e do metano, o N₂O é o gás de efeito estufa mais importante que os humanos estão liberando na atmosfera. Embora haja menos N₂O do que dióxido de carbono na atmosfera, este é 300 vezes mais poderoso no aquecimento do planeta e permanece na atmosfera, retendo o calor, durante mais de um século. Hoje, os níveis atmosféricos de N₂O são cerca de 25% mais elevados do que antes da Revolução Industrial e continuam a aumentar a um ritmo acelerado.

Um gráfico com uma linha de pontos de dados que remonta a quase 200 anos mostra que os níveis atmosféricos de N2O permaneceram bastante estáveis ​​até 1800, quando começaram a subir rapidamente e continuam a subir
A concentração atmosférica de N₂O permaneceu bastante estável até 1800, quando começou a aumentar rapidamente. Medido em núcleos de gelo da Antártida (verde) e através de medições modernas (vermelho). BoM/CSIRO/AAD

Descobrimos que, globalmente, os fertilizantes e a gestão do estrume animal estão a liderar o aumento das emissões de N₂O e a sua rápida acumulação na atmosfera. Isto é mais do que um problema climático. O N₂O também destrói a camada de ozônio , que protege os humanos da radiação solar prejudicial. E o escoamento de nitrogênio dos campos polui os cursos de água , aumentando a proliferação de algas nocivas e criando zonas mortas com falta de oxigênio.

O crescimento das emissões de N₂O é alarmante, mas hoje as pessoas têm o conhecimento e muitas das tecnologias necessárias para inverter a tendência.

De onde vêm as emissões de N₂O?

Antes da Revolução Industrial, as fontes naturais de N₂O provenientes de micróbios que viviam nos solos florestais e nos oceanos eram aproximadamente iguais aos sumidouros naturais que consumiam N₂O no ar, pelo que as concentrações atmosféricas de N₂O eram relativamente constantes.

No entanto, a população humana e a sua procura de alimentos cresceram rapidamente, desequilibrando esse equilíbrio natural.

Descobrimos que as atividades humanas por si só aumentaram as emissões de N₂O em 40% nas últimas quatro décadas, com a agricultura contribuindo com aproximadamente 74% do total das emissões antropogênicas de N₂O.

As maiores fontes humanas de N₂O são a agricultura, a indústria e a queima de florestas ou resíduos agrícolas.

Ilustração do orçamento global de N2O mostra fontes de emissões
Fontes anuais de emissões de N₂O e mudanças ao longo da década de 2010-2019. Medido em milhões de toneladas métricas. Projeto Global de Carbono , CC BY

Os fertilizantes nitrogenados, amplamente utilizados na agricultura, são um dos maiores contribuintes. Os fertilizantes são responsáveis ​​por 70% do total das emissões agrícolas de N₂O em todo o mundo. O esterco animal proveniente da pecuária intensiva contribui com cerca de 30%. Uma fonte menor, mas que está em rápido crescimento, é a aquicultura, como a piscicultura , particularmente na China, onde aumentou vinte e cinco vezes nos últimos 40 anos.

Além da agricultura, os processos industriais como a produção de náilon , explosivos e fertilizantes, e a combustão de combustíveis fósseis também contribuem para as emissões de N₂O, mas em menor grau do que a agricultura.

Emissões de N₂O por país

As emissões variam muito de país para país por uma série de razões sociais, económicas, agrícolas e políticas.

As economias emergentes, como a China e a Índia, registaram fortes tendências de aumento de N₂O nas últimas quatro décadas, à medida que aumentavam a produtividade agrícola para satisfazer a crescente procura alimentar das suas populações .

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A China é o maior produtor e usuário de fertilizantes químicos. O seu Plano de Acção para o Crescimento Zero na Utilização de Fertilizantes até 2020, publicado em 2015, ajudou a reduzir essas emissões de N₂O . No entanto, as suas emissões industriais de N₂O continuaram a aumentar .

No Brasil e na Indonésia, o corte e a queima de florestas para dar lugar às culturas e à pecuária, juntamente com práticas agrícolas cada vez mais intensivas, exacerbaram as perdas de nitrogênio provenientes de fontes naturais e ampliaram as emissões de gases com efeito de estufa.

África tem oportunidades para aumentar a produção alimentar sem aumentar a fertilização com azoto. No entanto, os países do Norte de África mais do que triplicaram o crescimento das suas emissões nas últimas duas décadas, principalmente devido a um crescimento substancial da população pecuária em África.

Algumas regiões, no entanto, conseguiram reduzir algumas das suas emissões de N₂O com práticas mais sustentáveis.

fontes de emissão

A União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul reduziram com sucesso as emissões antropogênicas de N₂O nos últimos 40 anos, embora continuem a ser grandes emissores à escala global; as reduções vieram em grande parte da indústria química na década de 1990. A sua utilização de azoto na agricultura também se tornou mais eficiente; no entanto, eles ainda têm trabalho a fazer. As suas emissões provenientes da aplicação direta de fertilizantes e de estrume diminuíram apenas ligeiramente e estabilizaram recentemente.

Nos EUA, as emissões agrícolas continuam a aumentar, enquanto as emissões industriais diminuíram ligeiramente, deixando as emissões globais bastante estáveis .

Como reduzir as emissões de N₂O

Enfrentar o desafio de reduzir as emissões de N₂O requer uma combinação de intervenções políticas, inovação tecnológica e ações individuais. Por exemplo:

A traseira de um trator jogando fora pequenas bolinhas de fertilizante, do tamanho de ervilhas.
Um trator espalha fertilizante em um campo. As técnicas de agricultura de precisão podem reduzir o uso de fertilizantes e o potencial de escoamento para os cursos de água. fotokostic/iStock/Getty Images Plus
  • Da mesma forma, as inovações na gestão pecuária , tais como suplementos dietéticos e melhores práticas de gestão de resíduos, podem reduzir a quantidade de N₂O do gado.
  • As indústrias, especialmente a produção de náilon e de fertilizantes, podem instalar tecnologias existentes e acessíveis para reduzir quase todas as suas emissões de N₂O. Essa é uma vitória fácil para a implementação e para o clima. A maior parte do mundo já o fez, deixando a China e os EUA responsáveis ​​pela maior parte das restantes emissões industriais de N₂O.
  • Os consumidores também podem tornar os alimentos vegetais uma fração maior de suas dietas. Você não precisa se tornar vegano a menos que queira, mas reduzir a frequência e o tamanho das porções de consumo de carne e laticínios pode ser saudável para você e para o meio ambiente. Práticas ecológicas, como a compostagem de resíduos alimentares e a redução do uso de fertilizantes nos gramados, também ajudam.

Globalmente, é necessária uma abordagem holística que combine políticas, tecnologia e ações individuais para abordar as emissões de N₂O e combater as alterações climáticas. Com governos, indústrias e cidadãos a trabalhar em prol de um futuro sustentável, estas estratégias podem ajudar a garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental para as gerações futuras.


Fonte: The Conversation

“Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar milhões de brasileiros”

Em entrevista, o agrônomo e membro do Movimento Ciência Cidadã, Leonardo Melgarejo, explica como as enchentes no RS resultam de um modelo predatório de agricultura e incentivos fiscais à destruição ambiental

eldorado do sul

Vista aérea de Eldorado do Sul, cidade foi destruída pela enchente. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Por Solange Engelmann, da Página do MST

As mudanças climáticas já se tornaram um problema ambiental e social no Brasil, que necessita de medidas urgentes por parte dos Estados brasileiros e do governo federal para amenizar o sofrimento de milhares de pessoas que vem perdendo a vida, a moradia, lavouras e destruindo sonhos e perspectivas de vida, construídos em décadas. A exemplo temos a tragédia com temporais e enchentes que atravessa o Rio Grande do Sul, desde o mês de maio.

Até o momento o número de pessoas mortas devidos às enchentes no estado já chega a 177, além de 37 pessoas que estão desaparecidas. Ao todo, mais 2 milhões de pessoas foram afetadas pela inundações no RS. Conforme o balanço da Defesa Civil, o estado ainda conta com 478 municípios afetados pelas fortes chuvas e cerca de 10 mil pessoas continuam em abrigos. Porém, no último fim de semana, pelo menos 19 municípios gaúchos sofreram novos danos em razão de mais enchentes, e nesta segunda (17), a Defesa Civil emitiu novo alerta de chuvas intensas e rajadas de vento no estado.

Entre os dez assentamentos do MST no estado, dois tiveram todas as casas destruídas e perderam as plantações e animais, sendo obrigados a se deslocarem para outros assentamentos. E e outros dois assentamentos tiveram metade de suas casas destruídas, além de outros dois assentamentos com perdas devidos as inundações. Entre as várias perdas das famílias assentadas estão casas, a produção de alimentos plantados e estocados, animais e ferramentas, além de estruturas coletivas, maquinários, matéria prima, produtos para venda das cooperativas e agroindústrias localizadas nesses assentamentos, como por exemplo, toda a produção de Arroz Agroecológico e a área plantada.

Engenheiro agrônomo, doutor em Engenharia de Produção, membro do Movimento Ciência Cidadã e colunista do Brasil de Fato RS, Leonardo Melgarejo explica que as enchentes no RS não surgem do nada, mas são fruto do modelo predatório do agronegócio e da desregulamentação das políticas de fiscalização e de preservação ambiental, entre outros fatores.

“Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo. Os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, que estão nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais.”

Confira mais na primeira parte da entrevista exclusiva para a Página do MST

Quais os principais prejuízos e dificuldades que as mudanças climáticas tem causado na vida das famílias assentadas e do campo, atingidas pelas enchentes no RS?

O primeiro elemento que chama a atenção é a desestruturação da base física em que se apoiam essas famílias para viver. Na quase totalidade dos assentamentos, as áreas ocupadas pelas famílias eram áreas exploradas por um modelo predatório, e isso leva à degradação dos solos, à degradação das formas de vida estabelecidas naquele território. E a vida das famílias é iniciada no assentamento pautada por uma espécie de recolonização, com vida, com a incorporação de muito trabalho pra agregar matéria orgânica, pra devolver a cobertura vegetal, devolver aquilo que nós não enxergamos que é a micro vida do solo. E, ao mesmo tempo, essas famílias têm que realizar um enorme investimento de tempo e de trabalho para estruturação de mercados, para destinar sua produção, para a construção de relações de confiança com os consumidores nesses mercados.

Nesse sentido, a destruição das bases produtivas, o rompimento das cadeias de mercado afetam a vida daquelas famílias de uma maneira muito concreta. Isso tem uma enorme repercussão sobre o psicológico, sobre o que sentem as famílias e como elas veem o mundo. Felizmente, os assentados da Reforma Agrária fazem parte de uma articulação que é comprometida com uma espécie de visão de família ampliada, que não permite que as pessoas se sintam abandonadas. E o Rio Grande do Sul passa pela destruição objetiva de estruturas físicas que carregam histórias e possibilidades de vida, e que jogam as pessoas numa ideia de isolamento, porque essa família estendida não é uma realidade pra todos os grupos. As destruições físicas crescem pela pressão psicológica, pelo desânimo, pela ameaça iminente de miséria, de fome, de doenças, e até por isso, o desastre nos assentamentos ganha um vulto maior, porque é dali, dos assentamentos que estão vindo esforços muito evidentes para o acolhimento não só dos assentados, mas principalmente dos não assentados.

Que esforços são esses?

A produção e a distribuição de alimentos é uma evidência de exemplo concreto de solidariedade que deixa claro que juntos podemos fazer milagres. E por isso, o MST e outros movimentos, o MTST, o Levante Popular, as cozinhas solidárias, hoje se colocam no Rio Grande do Sul como principal elemento de ligação entre os flagelados dos campos e das cidades, entre o presente dramático do Estado e o futuro que vai emergir depois dessa coisa. E essa conexão estabelecida pelo MST tem que ser reconhecida e fortalecida, porque isso é do interesse de todos. Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar de uma maneira cada vez mais brutal, milhões de brasileiros em todos os territórios, nos campos, nas matas e nas cidades.

Cozinha Solidária do MST, em Viamão. Foto: Tiago Giannichini

Quais os verdadeiros responsáveis pelas tragédias e crimes ambientais e sociais, como do RS e como responsabiliza-los e cobrar soluções?

Existem fundamentações dessa crise e podem ser diluídas em função da estrutura geográfica do Rio Grande do Sul, que dá as condições de base pra que ocorra o que tenha ocorrido. Existem as implicações do capitalismo, da ideia de crescimento infinito sobre a depredação de recursos e serviços e das implicações dessa degradação de recursos e serviços ambientais sobre o aquecimento global, em função do modelo de desenvolvimento capitalista, onde tudo é mercadoria. E as implicações, agora bem objetivas, de dimensão destrutiva de eventos ambientais que vão se suceder com maior frequência e com maior dimensão catastrófica. Chuvas cada vez mais intensas, secas cada vez mais prolongadas. E isso decorre do metabolismo planetário, que tem ciclos bem definidos.

Nós estamos num período de El Niño com essa chuvarada, mas antes dele houve um La Niña com secas que afetaram muito a economia do estado do Rio Grande do Sul, e a partir desse período de enxurradas, nós esperamos já a partir do próximo ano a volta do La Niña com secas. E no Rio Grande do Sul, essa sequência se agrava por conta da posição do Estado em relação ao globo terrestre. No caso das enchentes, elas são extremamente graves, porque sobre o Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina se chocam umas frentes frias que sobem lá da Antártida com umas frentes quentes que descem do norte e que descem do litoral. Nesse choque, as massas de vapor de água se condensam e despencam. E como o aquecimento global está fazendo com que exista menos água retida de forma congelada nos pólos, e a maior parte dos rios estão sendo assoreado pelo mau uso dos solos, estão secando, então, o volume da água na forma de vapor e na forma de chuva é muito maior. Isso vem num crescente.

E o que fazer diante disso?

Nós temos que pensar no que que nós fazemos como população, como sociedade, gerenciando o território onde essa água vai despencar. Como no Rio Grande do Sul, nós temos um desnível de até 800 metros entre as áreas altas da Serra do Planalto e as áreas baixas para onde escorrem as chuvas que caem lá em cima. Essas várzeas são invadidas por volumes de água com grande força, pela diferença de altitude, pela força da gravidade, empurrando essas águas e grande poder de destruição. E tudo chega no rio Guaíba, que está praticamente ao nível do mar, está colado na Lagoa dos Patos e se espalha em torno da lagoa e em torno das várzeas desses rios. Porque o canal de ligação da lagoa com o mar é muito estreito para um volume de água tão gigante. Como os rios estão assoreado essa água chega com maior volume naquela boca de saída e com maré alta essa água é represada com os ventos vindos do sul. E as inundações que eram previstas e que, em condições normais, seriam também inevitáveis, elas só adquirem essa dimensão causando esses danos, assim do tipo nunca visto, porque, o nunca visto é algo sequencial. O próximo nunca visto vai ser pior do que este.

Então as enchentes no RS poderiam ter causado danos menores?

Com certeza. Com solos protegidos, rios não assoreados, com medidas de proteção, via a legislação protetiva ao ambiente e fiscalização dos crimes ambientais, as coisas seriam diferentes e, principalmente, se nós tivéssemos orientações políticas e de mecanismos de educação que se encaminhasse para conscientização social numa linha não negacionista. Poderíamos ter evitado esse drama na dimensão que esteve. Porto Alegre, por exemplo, estava preparada para conter a elevação do rio Guaíba até seis metros e o rio Guaíba não subiu seis metros, a água não passou dos 5,5. E ela não teria entrado na cidade, não teria provocado o que vimos se a sucessão de administrações que estiveram na Prefeitura de Porto Alegre, que controlaram a cidade nos últimos 20 anos, não tivessem desmontado o sistema de proteção criado por administrações anteriores, não tivessem descuidado de fazer o básico.

E como fica a responsabilidade dos culpados pela tragédia?

A responsabilização é parte do serviço de educação que nós precisamos, de desalienação, que nós precisamos. Nós precisamos que os erros sejam identificados para que eles não se repitam. Precisamos que os promotores dos erros sejam desmascarados. Isso é necessário para que os grupos políticos de que fazem parte os promotores dos erros, não sejam protegidos pela cumplicidade do silêncio. E nós temos muitos exemplos negativos já na nossa história, relacionados a perdões, anistias, esquecimentos, que se repetirem nesse caso vão alimentar a crise e os dramas futuros que estão por vir. É inegável a volta dessa roda.

Como o modelo do agronegócio, através do uso intensivo de agrotóxicos e o desmatamento vem contribuindo para agravar os efeitos das mudanças climáticas para os povos do campo?

O solo, com diferentes níveis de cobertura é o maior reservatório de água. Os volumes de água que os diferentes tipos de solo vão conseguir segurar dependem da composição do solo, da profundidade e das plantas que estão sobre o solo. Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e, portanto, dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo, talvez mais facilmente pela invisibilidade, os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas. Os mecanismos de descompactação do solo que são realizados por insetos e pelas raízes, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e vem estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais. E também não dá para esquecer, que uma ocultação da realidade que ilude a sociedade. Há uma publicidade, campanhas de marketing que promovem a destruição dos ecossistemas e que são veiculadas nas grandes redes.

Então, como o desmatamento contribui para o encharcamento do solo e o aumento das enchentes?

Quando eliminamos as árvores, não estamos descartando apenas os serviços que as árvores realizam, quando impedem a força do choque das gotas de chuva sobre o solo que desagregam o solo ou o serviço que as árvores realizam, absorvendo e devolvendo pela respiração para o ambiente, parte da água que chega até elas. É muito grave e pouco comentado o fato de que nós, cortando os canais profundos que são abertos pelas raízes, reduzimos de uma maneira muito significativa a capacidade de absorção e de retenção das águas da chuva pelo solo. E o que não é retido, escorre.

Em resumo, nós precisamos reflorestar, e não basta ser iludido por plantio de eucalipto. Nós precisamos reflorestar com diversidade, a diversidade da cobertura viva do solo e da vida subterrânea dos solos, é que define esse serviço de retenção de água que o agronegócio desfaz. A substituição daquelas composições bio diversas por um único tipo de planta, por exemplo, a soja, semeada ano após ano nos mesmos locais acaba retirando a capacidade de absorção e retenção da água do solo e, além disso, isso também gera uma camada impermeabilizada na linha de corte dos discos dos arados, e faz com que mais água escorra. E aquela camada superficial do solo pulverizada, acaba sendo carregada, vai parar nos rios, nos lagos e reduz a capacidade dos rios de escoamento das águas. E isso aumenta o volume da inundação, a velocidade e a violência das enchentes. E tudo isso aconteceu no Rio Grande do Sul, que enganado pela mídia, vinha se orgulhando de um modelo de produção ecocídio. Consolidado esse modelo dependente de isenções fiscais, que estimula o uso de veneno. Tudo que foi destruído pela força das águas escorreu em direção às áreas baixas, carregando os problemas.

E como essas enchentes geram mais problemas para os agricultores agroecológicos e assentados da Reforma Agrária no estado?

Lavoura de arroz alagada. Foto: MST-RS

Os agricultores ecológicos que, com as suas áreas de cultivo, onde produziam alimentos orgânicos, também foram inundadas pelo escorrimento das áreas degradadas pelo agronegócio. Isso estabeleceu um paradoxo, por que esses agricultores de áreas orgânicas vão precisar recuperar a fertilidade e retirar o veneno dos seus solos. E essa é uma dificuldade que tende a se estender no tempo e com o período de seca que está por vir.

E os lagos associados por essa última enchente, com a seca vão ter níveis mais baixos, maior concentração proporcional de resíduos dos venenos, que ali foram depositados. Os animais que buscarem matar a sede nesses locais vão ser contaminados. E nos próximos períodos, mais chuva e o drama vai se repetir.

O corolário é que se não mudarmos o modelo de produção, se a gente continuar jogando veneno no Rio acima, nós vamos continuar reduzindo a capacidade de retenção de água pelos solos. E a diferença, ano após ano, só vai se observar na dimensão dos estragos. É esse o drama está posto.

*Editado por Fernanda Alcântara


Fonte: MST

Desastres no RS: adaptação a mudanças climáticas precisa entrar na pauta das eleições municipais

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas

Por André Luiz Cotting e Victor Marchezini

O ano de 2024 é ano de eleições municipais no Brasil. E os desastres são um problema que tem afetado os municípios e suas populações em todas as regiões do país. Desde as últimas eleições, presenciamos inundações nos estados da Bahia em 2021 e no Rio Grande do Sul em 2024, deslizamentos de terra nas cidades de Petrópolis (RJ) em 2022 e de São Sebastião (SP) em 2023, além da seca nos municípios do Amazonas no ano passado.

As perdas de vidas e econômicas em desastres só aumentam, mas menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. No Rio Grande do Sul, essa porcentagem cai para menos de 5% dos municípios. As enchentes que estão atingindo as cidades gaúchas de forma desproporcional agora em maio mostram a necessidade de incluir a gestão de riscos de desastres nos programas de governo para prefeito(a) e nos planos de legislatura para vereador(a) nos municípios brasileiros.

O governo municipal tem uma série de responsabilidades nesse tema, conforme a Lei 12.608/2012, como garantir o pleno funcionamento das defesas civis municipais, que devem atuar em contextos de desastre, fazer o mapeamento das áreas de risco de inundação e deslizamentos para implantar medidas estruturais, como muros de contenção de encostas, e não estruturais, como sistemas de alerta e realizar o zoneamento municipal, que prevê melhorias na infraestrutura urbanas para as áreas de risco, como a drenagem da água das chuvas. Também cabe ao poder público municipal definir onde podem ser construídas moradias para pessoas desabrigadas por desastres.

Essas iniciativas são importantes para a adaptação às mudanças do clima, pois eventos extremos como chuvas intensas e ondas de calor serão cada vez mais frequentes e intensos. Mas outra frente de ação tão importante quanto a adaptação é a mitigação das mudanças do clima. A diminuição das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, pode reduzir o aumento da temperatura média da Terra a níveis mais seguros para a adaptação.

Municípios podem ter soluções para essa agenda. Algumas sugestões: incentivar o uso do transporte público coletivo por meio de tarifas mais baixas (ou mesmo da gratuidade), criar condições seguras para pedestres e ciclistas para incentivar esse tipo de deslocamento e aproximar áreas de produção de alimentos aos locais de consumo, o que tem potencial de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no transporte. O governo municipal também pode investir na ampliação de áreas verdes, como parques, para aumentar a absorção dos gases pela vegetação, o que ajuda também a reduzir os efeitos das ondas de calor, e na promoção da coleta seletiva de resíduos sólidos, diminuindo o volume destinado a aterros sanitários e lixões, que emitem gases de efeito estufa.

A conscientização de eleitores sobre a necessidade e a possibilidade de medidas como essas pode mobilizar candidatas e candidatos às prefeituras e às câmaras municipais a apresentarem propostas para o problema. Afinal, apesar de as mudanças do clima serem um fenômeno global, seus efeitos se manifestam localmente. Portanto, o enfrentamento também deve partir do nível local.

Sobre os autores

André Luiz Cotting é planejador territorial e pós-graduando em Desastres pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com bolsa de apoio da Fapesp.

Victor Marchezini é sociólogo e pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/ MCTI).


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Fonte: Agência Bori

Turbinado pelo desmatamento, vírus Oropouche está em ascensão na América do Sul e pode sobrecarregar sistemas de saúde

O desmatamento e as mudanças climáticas podem ajudar os mosquitos a espalhar o vírus Oropouche para muito além da Bacia Amazônica

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Casos de febre Oropouche em Manaus, na Amazônia brasileira, têm sido associados ao desmatamento. Michael Dantas/ AFP via Getty Images

Por Sofia Moutinho para a Science

Um patógeno pouco conhecido chamado vírus Oropouche está em movimento na América do Sul, alarmando cientistas e especialistas em saúde pública. O Brasil notificou 5.530 casos até agora este ano, em comparação com 836 em todo o ano de 2023. Bolívia, Colômbia e Peru também registraram aumentos. Embora o vírus tenha sido tradicionalmente endêmico na Bacia Amazônica, agora está adoecendo pessoas distantes da floresta tropical. Em maio, Cuba relatou seus primeiros casos.

O aumento deixou os cientistas preocupados com o fato de que o vírus, transmitido principalmente por mosquitos que picam, possa ser o próximo a causar um grande surto na América Latina, que lutou contra grandes epidemias de Zika e Chikungunya na última década e agora está no meio de uma das maiores epidemias de zika e chikungunya. as piores epidemias de dengue de todos os tempos. A maioria dos casos de febre Oropouche são leves, com sintomas como dor de cabeça, dores no corpo, náuseas e erupções cutâneas – mas o vírus também pode causar inflamação cerebral e problemas neurológicos, incluindo vertigens e letargia. E mesmo uma epidemia ligeira poderia sobrecarregar os sistemas de saúde do continente.

 “O que mais nos preocupa é a expansão de uma doença que estava praticamente restrita à Amazônia, que tem baixíssima densidade populacional, para áreas com maior densidade populacional”, diz Marcus Lacerda, pesquisador de infectologia da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz).

A estirpe que provocou o surto teve origem numa alteração genética há uma década, mas o vírus Oropouche foi identificado pela primeira vez em 1955, na aldeia de Oropouche, em Trinidad e Tobago. Em 1960, apareceu em amostra de sangue de uma preguiça doente durante a construção da rodovia Belém-Brasília. Um ano depois, muitas pessoas em Belém adoeceram com o que se acreditava ser a febre Oropouche. A maioria dos cerca de 30 surtos na América Latina desde então também ocorreu na Bacia Amazônica. Na floresta, o vírus circula entre primatas, preguiças e aves; não está claro qual inseto o espalha lá. Em ambientes urbanos, o mosquito Culicoides paraensis, do tamanho de uma cabeça de alfinete , transmite a doença entre humanos.

Os primeiros casos do surto atual foram detectados em Roraima, estado do norte do Brasil, no final de 2022. Desde então, a doença surgiu ao longo da populosa Costa Leste do Brasil, incluindo os estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia, e Minas Gerais. Alguns pacientes viajaram pela região amazônica, mas outros não, o que significa que o vírus agora circula localmente. Os números provavelmente estão subestimados: os sintomas do Oropouche se assemelham aos da dengue, do zika e de várias outras doenças, e uma infecção só pode ser confirmada por meio da reação em cadeia da polimerase ou testes de anticorpos.

Para os poucos cientistas que estudam a febre Oropouche, nada disto foi uma grande surpresa. Desde 2000, o vírus tem se aventurado cada vez mais fora de sua região endêmica, diz a virologista Socorro Azevedo, do Instituto Evandro Chagas, centro de pesquisa de doenças tropicais na Amazônia brasileira. “O que estamos vendo é a crônica de uma tragédia anunciada”, diz ela.

O aumento da circulação de pessoas em todo o continente e entre áreas florestais e urbanas poderá estar a contribuir para a propagação. Os cientistas também veem uma ligação clara com o desmatamento , que poderia deslocar os animais hospedeiros do vírus e fazer com que os mosquitos se alimentassem de pessoas em vez de animais. Em Manaus, capital do estado do Amazonas, os primeiros casos do atual surto foram detectados perto de áreas recentemente desmatadas. Estudos utilizando imagens de satélite confirmaram a ligação. “Em vários locais onde o vírus foi detectado na América do Sul, detectamos consistentemente padrões de desmatamento”, diz Daniel Romero-Álvarez, epidemiologista da Universidade Internacional SEK em Quito, Equador.

As alterações climáticas provavelmente também desempenharam um papel. As temperaturas mais altas aceleram a maturação dos mosquitos, e o aumento das chuvas e das inundações criam mais água parada onde os insetos podem se reproduzir.

O Brasil agora está intensificando a vigilância. No passado, apenas laboratórios da região amazônica faziam testes para a doença, mas em janeiro o país decidiu testar 10% das amostras de pacientes em todo o país cujos sintomas correspondem à febre Oropouche, mas apresentam resultado negativo para zika, chikungunya e dengue. A Organização Pan-Americana da Saúde instou outros Estados-membros a intensificarem também a vigilância e organizou um workshop para formar investigadores e médicos de todo o continente sobre como diagnosticar a doença e realizar análises genómicas do vírus.

Não se sabe se a febre Oropouche matou alguém, mas algumas suspeitas de morte estão sob investigação, afirma o virologista da Fiocruz, Felipe Naveca. “À medida que aumenta o número de pessoas infectadas, aumenta também a chance de descobrirmos impactos inesperados”, diz Naveca, que observa que o Zika, uma doença que inicialmente parecia relativamente inócua, levou a uma onda de bebês nascidos com cérebro subdesenvolvido de mulheres infectadas com o vírus. O vírus Oropouche também pode infectar o cérebro, ressalta.

Controlar Oropouche é um desafio. C. paraensis é “um vetor negligenciado de uma doença negligenciada”, diz Joaquim Pinto Nunes Neto, entomologista do Evandro Chagas. “Ninguém se importou em estudar como controlá-lo.” Os minúsculos mosquitos passam facilmente pela malha dos mosquiteiros e os repelentes comuns de insetos podem não funcionar, diz Nunes Neto. O que pode ajudar é eliminar o desperdício de alimentos e as folhas mortas que atraem os insetos e drenar os reservatórios de água onde as fêmeas depositam os ovos.

Até onde a doença pode se espalhar não está claro. C. paraensis foi encontrado desde os Estados Unidos até o norte da Argentina, mas nem todos os lugares apresentam as condições adequadas para a propagação do Oropouche. Um modelo publicado em 2023 por Romero-Álvarez que levou em consideração o clima atual e a perda de vegetação sugeriu que até 5 milhões de pessoas nas Américas estão em risco . Mas o número é provavelmente subestimado, uma vez que o modelo não previu a atual expansão da doença para grandes cidades como o Rio de Janeiro e não teve em conta a desflorestação e as alterações climáticas futuras. Também não levou em conta a possibilidade de que o mosquito doméstico comum ( Culex quinquefasciatus ) – e talvez outros insetos – possam transmitir o Oropouche, como sugerem alguns estudos.

Os cientistas temem que, à medida que o vírus se espalha, possa sofrer alterações genéticas que o tornem mais perigoso. Os genomas da maioria dos vírus transmitidos por insetos consistem em apenas um segmento de RNA, mas o vírus Oropouche possui três. Quando duas cepas diferentes infectam a mesma célula, elas podem trocar segmentos, resultando em uma combinação nova e diferente de genes. Naveca, que lidera um grupo que rastreia mutações de Oropouche, atribuiu o atual surto a uma variante que surgiu no Brasil em 2015 a partir de um rearranjo entre linhagens de vírus do Peru e da Colômbia. Não está claro se essa troca tornou o vírus mais transmissível, diz Naveca.

Com tantas perguntas a responder, é urgente que os testes sejam alargados e que mais investigadores estudem o vírus Oropouche e rastreiem as alterações no seu genoma, Naveca diz: “Precisamos tirar este vírus das sombras”.

Sofia Moutinho é jornalista científica no Rio de Janeiro


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Fonte: Science