O cercado invisível: masculinidade, poder e violência contra mulheres no Brasil

Por Ismael Machado*

Esse final de semana vi o filme iraniano Fora do Jogo (Offside, de 2006) e tive a sensação desconfortável de estar diante de algo que, para muitos brasileiros, pareceria distante demais para provocar identificação. No Irã, mulheres são (ou eram, não tenho certeza) proibidas por lei de entrar em estádios de futebol. O filme acompanha algumas delas tentando assistir a uma partida decisiva das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, contra o Bahrein. Disfarçadas de homens, tentam atravessar o controle do estádio. As que são descobertas não são presas no sentido convencional; são colocadas num cercado improvisado atrás das arquibancadas. Ali ficam. Não veem o jogo. Apenas ouvem o barulho da torcida e os ecos de um espetáculo do qual estão oficialmente excluídas.

A justificativa para a proibição é reveladora. As mulheres não deveriam ser expostas aos palavrões dos homens, nem frequentar ambientes predominantemente masculinos. O argumento parece protetor, quase paternalista. O problema é que esse tipo de “proteção” sempre funciona como uma tecnologia de confinamento. A mulher é protegida afastando-se dela o mundo público. O espaço que lhe resta é o doméstico, a família, a esfera privada.

O cineasta iraniano Jafar Panahi é o mesmo de ‘Foi Apenas um Acidente’, que está entre as produções oscarizáveis esse ano. Ele construiu uma das trajetórias mais singulares do cinema contemporâneo. Formado na tradição do novo cinema iraniano que ganhou projeção internacional a partir dos anos 1990, Panahi desenvolveu uma obra profundamente marcada pela observação do cotidiano e por um olhar atento às contradições sociais de seu país. Me informa a pesquisa feita no Google e no Wikipedia que seus filmes frequentemente colocam no centro personagens marginalizados — crianças, mulheres, trabalhadores — revelando, por meio de histórias simples, a complexidade de um sistema político e cultural que regula a vida privada e o espaço público. Eu o conheci agora, vendo esses dois filmes. Há outros dele no Mubi. Vou conferir.

Ao assistir ao filme, pensei muitas vezes em como certos discursos conservadores no Brasil flertam com essa lógica de violência e exclusão social. Há quem se diga defensor da liberdade, da tradição, da família. Mas raramente se discute o que acontece quando essas palavras deixam de ser abstrações morais e se transformam em estruturas concretas de poder. O que significa, de fato, uma sociedade organizada em torno da ideia de que o lugar “natural” da mulher é determinado por valores morais fixos? O Irã (e outras sociedades similares) mostra uma versão extrema dessa pergunta. O Brasil começa a tatear respostas inquietantes.

Nos últimos anos, o país viu crescer uma combinação explosiva de fatores culturais e políticos que reorganizam a forma como parte dos homens compreende o papel das mulheres. Esse processo passa por uma radicalização política associada ao empoderamento tóxico trazido pelo bolsonarismo, pela popularização de subculturas digitais como a dos red pills e dos incels e a proliferação de influenciadoras e influenciadores que defendem modelos rígidos de submissão feminina em nome da família tradicional.

Os dados sociais mostram o custo dessa atmosfera.

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios de sua história: 1.470 mulheres assassinadas por razões de gênero. Isso equivale a cerca de quatro mortes por dia. O país já havia batido outro recorde trágico. Em 2024 foram registrados 87.545 estupros, o maior número da série histórica. Uma mulher estuprada a cada seis minutos. Mais de três quartos desses casos foram classificados como estupro de vulnerável. A maioria ocorreu dentro de casa.

O lugar que o discurso conservador insiste em descrever como espaço seguro — o lar — aparece repetidamente como o principal cenário da violência.

Outro dado perturbador surge quando se observa a relação entre violência e religiosidade. Pesquisas recentes mostram que 42,7% das mulheres evangélicas afirmam ter sofrido algum tipo de violência de parceiros íntimos ao longo da vida, um índice superior ao observado entre mulheres católicas (que também não é desprezível). O dado não significa que a fé produza violência. Revela algo diferente. O de que ambientes fortemente estruturados por hierarquias morais e familiares nem sempre oferecem instrumentos eficazes para romper ciclos de agressão. Geralmente é o contrário.

Há ainda um dado alarmante que ajuda a dimensionar a profundidade dessa violência estrutural. Em 2025, segundo o Repórter Brasil, 395 mulheres foram resgatadas de situações de trabalho análogo à escravidão no Brasil, o maior número já registrado desde que o país passou a coletar dados demográficos detalhados sobre os resgates, em 2003. Elas representaram 14% das 2.772 pessoas libertadas, uma proporção muito superior à média histórica, já que ao longo de mais de duas décadas as mulheres apareciam em apenas cerca de 6% dos resgates. Durante muito tempo, a exploração feminina permaneceu invisível nas estatísticas e nas fiscalizações, porque muitas dessas atividades ocorrem em setores considerados informais ou domésticos — venda ambulante, trabalho em cozinhas improvisadas, serviços de cuidado, atividades ligadas ao comércio de rua.

Quando olhamos mais de perto quem são essas mulheres, o quadro se torna ainda mais revelador, já que 87% das trabalhadoras resgatadas eram negras, o que evidencia como o trabalho escravo contemporâneo reproduz linhas históricas de desigualdade racial no Brasil. Quase metade tinha entre 30 e 49 anos, muitas delas responsáveis pelo sustento de famílias inteiras, e cerca de um terço não havia concluído o ensino fundamental, o que amplia a vulnerabilidade diante de redes de exploração. Esses números mostram que a violência econômica e social contra mulheres no país não ocorre de maneira aleatória. Ela recai com maior intensidade sobre aquelas que ocupam as posições mais precarizadas da estrutura social brasileira, ou seja, mulheres negras, pobres e com menor acesso à educação. Ao revelar esse padrão, os dados desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como exceção ou desvio isolado. Trata-se de uma engrenagem que liga gênero, raça e desigualdade econômica em uma mesma lógica de dominação.

Esses números não surgem do nada. Eles se organizam dentro de uma cultura.

Nos últimos anos, o bolsonarismo ajudou a legitimar uma linguagem pública baseada na hostilidade às agendas feministas e à igualdade de gênero. Não se trata apenas de declarações agressivas ou de episódios de misoginia explícita. O efeito mais profundo foi a criação de um ambiente simbólico onde a masculinidade ressentida encontrou validação política. Curioso é ler num comentário de uma reportagem sobre o tema da violência, uma pessoa (ou bot, vai-se saber), afirmando ironicamente para fazermos o L, que as coisas só iriam piorar. Só não rio porque é trágico.

Pois foi nesse terreno bolsonarista que floresceram no Brasil comunidades digitais inspiradas na chamada cultura red pill. A metáfora vem do filme Matrix: tomar a pílula vermelha significaria despertar para uma suposta verdade escondida sobre as relações entre homens e mulheres. Na prática, esse discurso constrói uma narrativa paranoica na qual os homens seriam vítimas de um sistema dominado por feministas. As mulheres, nessa visão, aparecem como manipuladoras, interesseiras ou biologicamente inclinadas a explorar os homens.

Os incels — “celibatários involuntários” — representam a face mais radical desse universo. Muitos deles desenvolvem comunidades online marcadas por ressentimento profundo contra mulheres, vistas como responsáveis por sua frustração afetiva e sexual. Em vários países, ataques violentos foram cometidos por homens ligados a essa ideologia. A premiada e impactante série Adolescência (Netflix) é onde podemos ter uma noção absurdamente real de até onde isso nos leva enquanto sociedade.

Um episódio recente no Rio de Janeiro ajuda a compreender como essa cultura de violência atravessa diferentes camadas sociais. Em janeiro, uma adolescente de 17 anos foi atraída por um colega para um apartamento no bairro e acabou vítima de um estupro coletivo praticado por cinco jovens, com idades entre 17 e 19 anos. Segundo as investigações da polícia, ela havia sido convidada para um encontro, mas ao chegar ao local foi trancada em um quarto e violentada após deixar claro que não consentiria em manter relações com os outros rapazes presentes. O caso chocou o país não apenas pela brutalidade do crime, mas também pelo perfil dos envolvidos, jovens de classe média da zona sul do Rio de Janeiro, desmontando mais uma vez a ideia confortável de que a violência sexual seria um fenômeno restrito a determinados territórios ou grupos sociais.

Isso indica que estamos diante de um problema cultural mais profundo, ligado à forma como muitos de nós homens aprendem desde cedo a interpretar desejo, frustração e poder sobre o corpo feminino. Quando a recusa de uma mulher deixa de ser compreendida como limite absoluto e quando o “não” se transforma, para alguns, em desafio ou provocação. No Brasil, essa cultura encontrou eco em redes sociais onde jovens são bombardeados por conteúdos que transformam misoginia em entretenimento. Influenciadores masculinos vendem cursos sobre como “dominar” mulheres. Ao mesmo tempo, cresce o número de influenciadoras que defendem a submissão feminina como virtude moral.

A estética dessas influenciadoras costuma ser suave. São vestidos claros, cozinha organizada, voz calma. O discurso, entretanto, é duro. A mulher ideal deve obedecer ao marido, aceitar sua liderança, priorizar a família acima de qualquer projeto pessoal. Em muitos desses vídeos, o feminismo aparece como uma ameaça que teria destruído os relacionamentos e enfraquecido os homens.

Essa narrativa dialoga diretamente com setores religiosos e políticos que insistem em restaurar um modelo familiar hierárquico. O homem como autoridade. A mulher como suporte. A violência prospera com facilidade dentro desse tipo de estrutura porque ela naturaliza a desigualdade. Quando o poder é distribuído de forma assimétrica dentro da família, a linha entre autoridade e controle torna-se perigosamente tênue. Qualquer semelhança com Handmaid’s tale não é mera coincidência.

Voltamos então àquela imagem do filme iraniano. As mulheres atrás da arquibancada, separadas do jogo por uma cerca improvisada. O argumento que as mantém ali é o mesmo que atravessa diferentes sociedades com variações de intensidade, a de ‘proteger’ a mulher de um mundo que pertence a nós, os homens.

No Brasil, esse cercado raramente assume forma legal explícita. Ele aparece como cultura, como moralidade, como discurso cotidiano. Aparece quando uma mulher é aconselhada a suportar um casamento violento para preservar a família. Ou quando homens jovens aprendem online que mulheres devem ser controladas. Aparece quando líderes políticos tratam igualdade de gênero como ameaça ideológica.

Durante muito tempo, parte da sociedade tratou a violência contra mulheres como um problema feminino. Uma pauta do feminismo, das organizações de direitos humanos, das políticas públicas. Isso criou um erro de perspectiva. A violência de gênero é produzida majoritariamente por homens. Ela nasce dentro de culturas masculinas. Ignorá-la é uma forma de cumplicidade estrutural. Nós, a parcela masculina dessa sociedade, precisamos olhar para esse fenômeno de maneira mais profunda. Isso exige reconhecer como certas ideias aparentemente inofensivas, como autoridade masculina, submissão feminina, nostalgia de uma família idealizada, podem se transformar em justificativas silenciosas para desigualdades muito concretas.

Também exige questionar os ambientes onde jovens estão sendo formados hoje. Fóruns digitais, influenciadores, discursos políticos que transformam frustração em identidade masculina.

O cercado do filme iraniano é visível. Ele está ali, feito de grades e soldados.

O cercado brasileiro é mais difuso. Ele se constrói em narrativas culturais que insistem em reduzir o horizonte das mulheres. Cada vez que essas narrativas ganham força, ampliam-se as condições para que a violência continue acontecendo em silêncio.

Talvez seja justamente por isso que Fora do Jogo possa levar a reflexões mais profundas e inquietantes. O filme não mostra um país distante, de ideias exóticas. Ele revela o mecanismo de uma ideia antiga, a de que a liberdade das mulheres precisa ser administrada por nós, homens. É uma ideia que a muitos podem soar como tentadoras (é só ouvirmos o eco do barulho provocado por pastores e pela maioria de nossos parlamentares), mas que é, na verdade, um ovo de serpente sendo gestado de forma considerada ‘ideal’, pois defende a família brasileira da ‘degeneração comunista’.

Talvez a questão mais incômoda seja reconhecer que grande parte dessa estrutura é sustentada não apenas pelos que cometem violência direta, mas também quando naturalizamos discursos, ou quando influenciadores e ideologias tratam a autonomia feminina como ameaça. Se há algo que precisa mudar, começa justamente por uma revisão profunda de como a maioria dos homens se educam entre si, de como interpretam poder, desejo, frustração e autoridade. Enfrentar esse problema significa desmontar narrativas que durante muito tempo pareceram inofensivas, mas que ajudam a manter, no cotidiano, as mesmas hierarquias que tantos insistem em chamar de tradição. Mesmo que, à primeira vista, elas nos beneficiem. E é aí que está a sutil regra do jogo.


*Ismael Machado é jornalista

A violência como déjà vu: a epidemia de violência contra mulheres é sinal de que há algo de muito podre na sociedade brasileira

Elevador é quase um templo': mais um caso de violência contra mulher  reflete machismo da sociedade - Brasil de Fato

Não sou ingênuo a ponto de desconhecer que a violência masculina contra mulheres é uma das marcas da sociedade brasileira desde os seus primórdios coloniais. Aliás, o passado colonial combinado com o longo período de escravidão negra nos tornou uma sociedade que é intrinsicamente mantida por relações de poder que, invariavelmente, desembocam em atos de violência contra os mais fracos.

Mas o último ano, especialmente as últimas semanas, me deixa a impressão clareza que determinadas estruturas de contenção foram rompidas e que agora há uma espécie de epidemia de violência masculina contra as mulheres. É que todo dia temos visto cenas de extrema violência sendo mostradas pela TV nas quais, em sua maioria, homens brancos e de físicos avantajados praticam verdadeiras barbaridades contra suas esposas , noivas e namoradas, mesmo sabendo que estão sendo filmados, até mesmo dentro dos elevadores que existem em seus locais de moradia. 

Os casos de violência são tão extremos e tão parecidos que ficamos com a impressão que se está assistindo a uma repetição quando, na verdade, é um novo incidente.  Uma hora é um empresário, outra hora é um ex-atleta ou um fisiculturista. Do outro lado, estão mulheres com menor porte físico e sem a menor chance de se defender. O resultado são faces destroçadas e cirurgias reconstitutivas sendo realizadas, quando o ato de violência não termina em morte.

A minha suspeita é que vivemos os efeitos de termos permitido a liberação de forças políticas que desprezam o respeito à vida e ao direito de se escolher livremente. Não é à toa que quando se olha o perfil dos agressores nas redes sociais há sempre a forte chance de ser alguém que idolatra a pátria, a família e Deus, não necessariamente nesta ordem.

Assim, em vez de se tratar esses casos como sendo isolados, temos que considerar que todos esses atos de violência fazem parte de um processo político concatenado para os quais precisamos estabelecer respostas coletivas. Do contrário, continuaremos assistindo mais casos deste tipo que estarão alimentando uma ordem social em que agredir e ferir se tornará cada vez mais naturalizado.

Protagonistas na pesca artesanal, mulheres relatam invisibilidade e vulnerabilidade às mudanças climáticas

Além de alimentação e renda, a cultura e o legado familiar estão entre as motivações das pescadoras artesanais para seguir na atividadeAlém de alimentação e renda, a cultura e o legado familiar estão entre as motivações das mulheres para seguir na pesca. Foto: Tuấn Vũ / Unsplash

Responsáveis por quase metade da força de trabalho na pesca artesanal, mulheres enfrentam desafios agravados pela desigualdade de gênero, falta de representação política e pela crise climática. É o que revela estudo publicado na quinta (7) na revista Marine Policy, conduzido por pesquisadores das universidades federais de São Paulo (UNIFESP) e do Sul da Bahia (UFSB), em parceria com instituições nacionais e internacionais. O trabalho aponta que o conhecimento ecológico das pescadoras brasileiras – que percebem os impactos diretos das mudanças ambientais na atividade – pode apoiar a formulação de políticas públicas mais justas e também mais eficazes.

Para entender como as mudanças climáticas e o viés de gênero afetam as pescadoras artesanais brasileiras e identificar possíveis falhas nas políticas existentes, o grupo de cientistas entrevistou nove mulheres que atuam em sete estados de quatro regiões da costa brasileira. Elas falaram sobre suas motivações, perspectivas para o futuro e os impactos do clima em suas atividades. As entrevistas aconteceram em 2022.

O artigo aponta que as normas de gênero, moldadas por expectativas culturais e sociais, fazem com que a contribuição das mulheres no setor seja frequentemente vista como uma extensão das tarefas domésticas – inclusive por elas mesmas. “Mesmo as pescadoras sendo protagonistas na pesca artesanal e enfrentando diretamente os impactos das mudanças climáticas, elas permanecem invisíveis nas estatísticas e nas políticas públicas”, observa Caroline Fassina, primeira autora do estudo. “Além disso, o estudo revelou a força do conhecimento ecológico local dessas mulheres como uma fonte valiosa de dados e percepções sobre as transformações ambientais”, completa.

Entre as motivações citadas para a pesca, estão alimentação e renda, mas também o bem-estar e a cultura, expressa em vínculos afetivos com o território, o mar e a comunidade. O legado familiar tem papel de destaque: oito das nove entrevistadas mencionaram o pai como influência na introdução à pesca. Leandra Gonçalves, coautora do estudo, avalia que esse aspecto pode ser incorporado a programas intergeracionais que estimulem o envolvimento de jovens na pesca artesanal. “Políticas públicas podem apoiar projetos de formação baseados em ‘educadores do mar’ – pessoas das comunidades que compartilham saberes tradicionais e vivências para fortalecer o sentimento de pertencimento e continuidade”, diz a pesquisadora, professora do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Gestão e Governança do Oceano.

Embora a televisão tenha sido apontada como uma das principais fontes de informação sobre mudanças climáticas, o estudo revelou que as experiências cotidianas das pescadoras são fontes de dados sobre o tema. Entre os efeitos mais preocupantes relatados estão perda de biodiversidade, calor excessivo e aumento das tempestades. Também foram citadas mudanças nas temporadas de pesca, períodos de seca e até impactos na saúde. Com isso em mente, Caroline Fassina defende que “é fundamental promover espaços de escuta e inclusão formal das mulheres nos conselhos de gestão e políticas públicas, além de registrar seus conhecimentos em plataformas acessíveis”.

Leandra Gonçalves destaca a importância de incentivar e abrir mais espaço para as lideranças femininas na pesca, investir em programas com foco em gênero, tendo em vista as desigualdades estruturais que invisibilizam a contribuição feminina na atividade. Estimular esse tipo de ação está entre os objetivos da equipe, que também ressalta o desejo de ampliar o alcance da pesquisa. Segundo as autoras, os próximos passos incluem a intenção de aplicar a estrutura metodológica em outras regiões do Atlântico Sul, inclusive na costa da África, incentivando as parcerias Sul-Sul, além de investigar como juventudes e identidades diversas, como mulheres trans e pessoas não-binárias, estão inseridas na pesca artesanal e pensam o futuro dessa profissão e do seu local de trabalho, o mar.


Fonte: Agência Bori

No Dia Mundial do Oceano, mulheres cientistas ainda estão longe da equidade

Arraias e peixes nadando em ambiente marinho azul, representando a biodiversidade do oceano

A vida marinha é tema central da ciência oceânica, mas as mulheres seguem sub-representadas na produção científica 

Por Germana Barata e Washington Segundo para a Agência Bori

Neste Dia Mundial do Oceano (8), ainda não há o que comemorar quando se trata da equidade de mulheres cientistas. A Década do Oceano chega à metade em 2025, e a primeira avaliação sobre a contribuição de mulheres na produção científica sobre o oceano no Brasil não é nada animadora.

Por meio da rede Ressoa Oceano em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação de Ciência e Tecnologia (Ibict) avaliamos 1,3 milhão de artigos, de 2018 a 2024, com ao menos uma autoria brasileira, disponíveis no banco de dados OpenAlex, um dos mais representativos bancos de publicações científicas do mundo. Desse total, 4,6% estão relacionados ao oceano.

A partir desse vasto universo de publicações, selecionamos 31 tópicos categorizados no OpenAlex relacionados ao oceano e identificamos a autoria de especialistas homens e mulheres, a partir do primeiro nome, além de sua posição de liderança na autoria e o tipo de acesso do artigo.

O levantamento mostra que as mulheres estão próximas de atingir a equidade na produção científica quando consideramos todas as áreas do conhecimento, com 46% de participação contra 48% de homens. Porém, quando se trata do oceano, elas ainda são minoria: 38% contra 57%. O percentual residual corresponde a artigos em que não foi possível definir o gênero pelo primeiro nome.

E as perspectivas futuras não são animadoras, já que os valores têm se mantido estáveis desde 2018, sem perspectivas de mudanças para as mulheres que investigam o oceano. O mais impressionante é que os dados do Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), realizado entre 2009 e 2022, informam que mais de 56% de estudantes de graduação em oceanografia são mulheres – 60,9% no mestrado e 52,2% no doutorado. Portanto, elas são maioria na área mais diretamente ligada ao oceano, a oceanografia.

Além disso, identifica-se no estudo realizado que há um claro crescimento do número de coautores por publicação.  O que isso quer dizer? Que, apesar da produção científica ter diminuído mundialmente, principalmente com a pandemia da Covid-19, como algumas análises reforçam (vide a realizada em 2023 pela Agência Bori com a editora científica Elsevier), a colaboração de cientistas do Brasil cresceu, saindo da média de 4 autores por artigo em 2018 para chegar ao valor médio de 6 coautores por artigo em 2024.

A colaboração pode ser uma alternativa aos impactos negativos provocados pela diminuição de recursos para a ciência combinada ao aumento nos custos de publicação, que podem variar de US$ 2.000 a US$ 3.400, e chegar a chocantes US$ 12.000! Esses efeitos, se não mitigados, poderão seguir impactando as mulheres cientistas, e suas representações de liderança na pesquisa.

Esse é o primeiro levantamento de uma série anual que visa monitorar a produção científica sobre o oceano ao longo da década do Oceano, uma iniciativa da Unesco para melhorar as condições de degradação da saúde do oceano até 2030.

Até aqui, os dados mostram que será preciso grandes investimentos das agências de fomento e instituições de pesquisa voltadas para o oceano. Apesar de ocupar pouco mais de 70% da superfície do planeta, o oceano recebe apenas 1,7% dos recursos para a ciência. E, neste dia,  lembramos que o oceano é absolutamente essencial para a vida neste planeta azul, como pede a comunidade científica. Acrescenta-se o fato de que hoje se inaugura o Congresso do Oceano das Nações Unidas, na cidade litorânea francesa de Nice, quando negociações serão acordadas pelos países membros, incluindo o Brasil.

Políticas científicas precisam ser desenhadas e executadas para que as mulheres cientistas que se dedicam a desvendar o oceano possam comemorar, em 2030, a equidade de gênero.

Sobre os autores

Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e coordena a rede de comunicação sobre o oceano Ressoa Oceano, que produz e compartilha conteúdos sobre oceano, além de analisar dados relacionados à produção científica e a cobertura jornalística sobre o oceano.

Washington Segundo é coordenador-geral de informação científica e técnica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e lidera projetos voltados à Ciência Aberta, repositórios digitais, interoperabilidade de sistemas e gestão de dados científicos.


Fonte: Agência Bori

Mulher é mais vulnerável a efeitos de agrotóxicos, dizem pesquisadores

agrotóxicos mulheres

Por Priscilla Mazenotti para Rádio Nacional

As mulheres e as meninas são a parcela da população mais vulnerável aos efeitos de substâncias tóxicas que vêm da indústria, da produção extrativista e da agricultura. E esses efeitos podem durar várias gerações.

São questões como aborto espontâneo, câncer, problemas no sistema endócrino, puberdade precoce. O alerta é do relator especial da ONU sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana.

São diversos os produtos químicos que podem trazer essas desordens. Quando se fala de Brasil, a preocupação de especialistas é, também, com os agrotóxicos. Segundo o advogado Emiliano Maldonado, somos um dos países que mais usam essas substâncias no mundo.

“Infelizmente, o Brasil é campeão mundial de agrotóxicos. Dados apontam que consumimos mais de 720 mil toneladas dessas substâncias”.

Dentre os alimentos, alguns campeões: morango, arroz, pimentão e cenoura, por exemplo. Carolina Panis, pesquisadora na área de micropoluentes, agrotóxicos fala sobre os efeitos que essas substâncias podem ter no nosso organismo.

“Quando o agrotóxico consegue entrar no nosso corpo e simular o hormônio que produzimos naturalmente, ele tá causando um super estímulo desses receptores, no momento em que eles não deveriam estar trabalhando. Então isso vai ter, sim um impacto na criança. E na mulher adulta, isso tem uma consequência muito séria, que é a ligação direta com o desenvolvimento de câncer”.

E não são só os consumidores que estão submetidos a riscos. Carolina Panis chama a atenção para outra parte da população: as mulheres que trabalham na agricultura.

“A partir do momento em que elas são agricultoras ou manipulam EPI, utensílio ou roupa contaminada com agrotóxico, ele entra pela pele, porque elas não usam nenhum tipo de proteção. E a gente estima que essas mulheres têm risco aumentando de ter câncer de mama de mais de 50%, se comparar com mulheres ocupadas com atividades urbanas”.

E qual a solução? O caminho quem aponta é o advogado Emiliano Maldonado. Um deles é o uso de bioinsumos, um processo feito a partir de microrganismos.

“São possibilidades que o conhecimento científico e o uso de outros mecanismos têm apontado no sentido que a gente não perderia a nossa produtividade agrícola, e estaria protegendo a saúde dos consumidores e consumidoras brasileiras”.

O assunto foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). No próximo dia 5, uma audiência pública vai debater a questão econômica dos agrotóxicos, da desoneração de IPI e ICMS para essas substâncias. Mas o relator, ministro Edson Fachin, entende que o assunto ultrapassa os limites jurídicos e envolve política agrícola, meio ambiente e saúde.

*Com produção de Beatriz Evaristo


Fonte: Agência Brasil

Mulheres têm maior risco de recorrência de AVC associado à Doença de Chagas

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Mulheres têm mais chance de AVC, principalmente se desenvolvem doença de Chagas; contraceptivos podem aumentar riscos

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O gênero pode ser um dos fatores de risco para a recorrência de Acidente Vascular Cerebral (AVC) em pacientes com Doença de Chagas. Além dele, idade, uso de anticoagulantes e cardiopatias estão entre os fatores que podem influenciar a relação entre as duas condições médicas. As informações refletem análises feitas ao longo de oito anos por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e instituições parceiras, publicadas na última semana na revista científica “Cerebrovascular Diseases”, da editora Karger.

O grupo analisou exames e históricos médicos de 499 pacientes com mais de 18 anos de janeiro de 2009 a dezembro de 2016 para entender e descrever a ligação entre a infecção pelo parasita Trypanosoma cruzi, causador da Doença de Chagas, e o AVC isquêmico com causa cardioembólica. Esse tipo de AVC acontece quando um coágulo de sangue parte do coração e bloqueia uma artéria cerebral. Os pacientes observados tinham as duas condições.

A presença de fatores de risco vascular tradicionais é um forte indício para a ocorrência de AVC em pacientes com Doença de Chagas. A hipertensão foi diagnosticada em 81% dos pacientes com ambas as doenças. Metade dos pacientes (56%) tinha altos níveis de gordura no sangue e 25%, diabetes. “A Doença de Chagas causa um acometimento cardíaco que pode levar à formação de trombos ou arritmias que, por sua vez, geram o AVC por um mecanismo conhecido como cardioembolia. Essa é uma das principais consequências da doença”, explica Vinicius Vian Abreu Montanaro, autor do estudo e pesquisador da UFF.

Ao analisar o histórico clínico dos pacientes, os pesquisadores verificaram que as mulheres tiveram 83% mais chance de ter recorrência do AVC, ou seja, mais de um acidente do tipo. “Essa associação pode ser devido ao maior risco cardiovascular que as mulheres têm em comparação com os homens”, destaca o pesquisador, que também acrescenta a possibilidade de que reposições hormonais e contraceptivos possam aumentar o risco de eventos isquêmicos.

A idade dos pacientes também está entre os motivos do AVC. Durante o estudo, pessoas mais jovens com a doença de Chagas tiveram chances reduzidas de eventos de AVC relacionados aos problemas no coração, mostrando que o envelhecimento favorece acidentes cardíacos por embolismo. O uso de anticoagulantes – medicamentos que evitam entupimentos das veias – também é uma fonte de proteção contra o AVC. Neste sentido, o trabalho incentiva a discussão clínica sobre o uso desses medicamentos em pacientes acometidos por ambas as doenças como estratégia para evitar um novo AVC.

Para Montanaro, o próximo passo é fazer uma comparação entre diferentes anticoagulantes em pacientes com Chagas e AVC isquêmico embólico sem fonte definida. “Pretendemos ajudar a sanar duas dúvidas: primeiro, se devemos aplicar anticoagulante nos pacientes que não têm causa determinada, mas que o AVC parece ser embólico. Segundo, se podemos usar os novos anticoagulantes para prevenção ainda maior em pacientes com Doença de Chagas e AVC isquêmico”, encerra o autor.


Fonte: Agência Bori

90% dos empregos globais na agricultura são informais

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Por Ana Fleck para o Statista

O emprego informal responde por mais de 90% dos empregos agrícolas em todo o mundo, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho. De acordo com o relatório de 2023 ‘Mulheres e homens na economia informal’, agricultura, trabalho doméstico e construção são os setores com a maior parcela de empregos informais.

As médias globais, no entanto, escondem as disparidades regionais. Por exemplo, embora a agricultura tenha a maior parcela de trabalhadores informais em todo o mundo, não é o caso da Ásia e Pacífico ou da Europa e Ásia Central, onde fica em segundo lugar, atrás do trabalho doméstico e do setor de produção para uso próprio.

Em todas as regiões, há uma parcela maior de mulheres em empregos informais no setor manufatureiro, enquanto os homens estão super-representados no trabalho de construção.

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo site Statista [Aqui!].

“Quanto mais subimos na carreira científica menos mulheres cientistas encontramos” | Camila Silveira da Silva

Pesquisadora fala da violência e discriminação que as mulheres ainda enfrentam nos meios científicos e sobre as ações de projeto que busca dar maior visibilidade às mulheres cientistas e estimular meninas a seguir carreira acadêmica

Premio-Estrategia-ODS9O projeto Meninas e Mulheres nas Ciências foi finalista do prêmio Estratégia ODS que destaca projetos que contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Foto: Divulgação Estratégia ODS

Por Ciência UFPR

A Ciência UFPR conversou com a professora do Departamento de Química da UFPR, Camila Silveira da Silva. A pesquisadora falou sobre os obstáculos que as mulheres ainda encontram no ambiente da produção científica e sobre o trabalho do projeto Meninas e Mulheres nas Ciências (MMC), que coordena.

A professora, que é licenciada em Química pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) onde também cursou mestrado e doutorado em Educação para Ciência, vem estudando as trajetórias das mulheres cientistas, especialmente nas ciências exatas, buscando destacar suas contribuições e estudando as dificuldades que a discriminação de gênero impõe para mulheres nas carreiras científicas, tendo trabalhos também com a temática de museus de ciência e desenvolvimento de materiais didáticos.

Os materiais e atividades desenvolvidas no projeto de extensão já foram adotados em escolas por todo o Brasil. A iniciativa dá visibilidade às trajetórias de mulheres que marcaram a história da ciência, oferecendo formação para professores e atuando na criação de material didático com foco em pesquisadoras de destaque, além de atividades aplicadas diretamente a estudantes tanto de forma presencial quanto online.

A ideia é oferecer uma perspectiva que rompa com o viés masculino que normalmente é dado para o ambiente científico nesse tipo de material, oferecendo uma alternativa que estimule meninas a se interessar pelo campo científico, rompendo com o estereótipo machista prevalecente. A iniciativa também apoia a pesquisa em torno do tema orientando trabalhos de pesquisa na graduação e pós-graduação

Trechos

“O que mais me chamava a atenção, era o apagamento das mulheres nos materiais didáticos, a dificuldade de elaborar práticas educativas pela falta de referências pedagógicas nas Ciências Exatas, os obstáculos para localizar dados biográficos das cientistas”

“O que eu passei a notar foi a naturalização que elas tinham incorporado em suas práticas profissionais dos processos de exclusão de mulheres, da violência e discriminação de gênero ao partilharem suas trajetórias de vida e acadêmica”

“Os trabalhos liderados por mulheres, em diversas ocasiões, são menos valorizados que aqueles que contam com liderança masculina. São em menor número: as citações de mulheres em artigos, teses, dissertações; as aprovações de projetos com financiamento; as conferências principais nos congressos; a composição nas bancas de concursos; as bolsas de produtividade em pesquisa; a presidência de sociedades científicas; etc. Há, ainda, laboratórios, grupos de pesquisa, orientadoras(es) que não aceitam trabalhar com mulheres, ou se aceitam, as discriminam por seu gênero”

“Outra experiência que gosto de compartilhar é de várias alunas negras, de uma escola pública periférica do Distrito Federal, querendo tirar fotografias com os desenhos de cientistas negras que elas estavam colorindo e dizendo o quanto elas se pareciam com elas, com suas mães e irmãs”

“É fundamental que as meninas sejam motivadas com exemplos positivos de mulheres cientistas, encorajadas em seus sonhos pela escola e familiares, e tenham as condições para que possam seguir seus estudos”

“Como inspirar jovens para as Ciências se o campo científico continuar sendo sexista, racista, elitista, excludente? Como despertar o interesse de crianças e jovens se não temos boas condições de trabalho nas escolas? Essas reflexões precisam gerar ações e políticas públicas que tornem a carreira científica atrativa para as(os) jovens”

Veja a entrevista no site da revista Ciência UFPRhttps://ciencia.ufpr.br/portal/?p=23008

O combate ao feminicídio e às formas de dominação masculina

feminicidio

Por Luciane Soares da Silva

Para todas as mulheres, o Estado deve ser laico. E devemos refletir sobre esta frase a considerar o que esta sentença significa na conjuntura brasileira nestes últimos quatro anos. Principalmente para as mulheres que vivem sob regras religiosas restritivas. Não é mais possível negar os abusos que ocorreram (e ocorrem) em nome de Deus. Não só contra mulheres, mas contra crianças. Observando o sagrado de cada um, combater estes abusos deveria ser também um caminho concreto para avançarmos nas pautas feministas.

Frequentemente por uma distorção lamentável de fundamentalistas religiosos, cria-se um fosso entre religião e a luta pela vida das mulheres. E a partir desta distorção, inaugura-se o reino do obscurantismo quando falamos destes temas. Projetos como “Escola sem Partido” e o combate ao que chamam “ideologia de gênero” são apenas alguns exemplos de nossa regressão nos últimos quatro anos. A ausência de educação sexual integral nas escolas perpetua o desconhecimento de crianças e adolescentes sobre seu corpo e coopera para naturalização do abuso. Quando não há informação, como reconhecer quando um tio, padrasto, padre, pastor, irmão ou “amigo” da família, o praticou?

Mulheres vivem sob regimes de dominação. E esta sentença não pode ser relativizada. E por que? Pelos inúmeros casos de feminicídio, pela crueldade envolvendo estes crimes (filhos mortos como vingança após uma separação, mortes que desfiguram o corpo, processos judiciais que retiram os direitos das mulheres e comprometem um sustento digno de sua família ), pelo regime de trabalho no qual o assédio é uma constante, pelas diversas formas de violência cotidiana contra mulheres.

O aborto, cuja discussão ainda é um tabu em nossa sociedade, constitui uma destas violências. Não preciso repetir o trauma vivido por uma mulher que, por qualquer razão privada (se trata exatamente de seu corpo), precisa interromper uma gravidez. Mas seria preciso dizer que não são as mulheres que abortam seus filhos. Pois uma vida não é concebida apenas pela mulher. Qualquer pesquisadora sabe que ao entrar em áreas de periferia ou da classe trabalhadora irá encontrar famílias chefiadas por mulheres. Nossa luta é para alterar uma percepção estranhamente comum sobre aborto como uma “solução fácil”. Nada está mais longe da verdade a considerar a morte de mulheres ao realizarem um aborto inseguro. E neste caso, são as mulheres negras, pobres e com pouca escolaridade que padecem em um ambiente clandestino e insalubre.

A culpabilização de uma mulher que sofre violência doméstica (as vezes ainda é julgada depois de morta), constitui parte desta dominação masculina. Costumamos aplicar uma régua moral que justifica o comportamento masculino. Basta procurar os comentários à época do assassinato de Eliza Samúdio. Entre as conversas que ouvi no Rio de Janeiro, “não ser feito de otário” era parte das justificativas para o ato indefensável cometido pelo goleiro Bruno. Um dos milhares de crimes praticados contra o corpo de namoradas, esposas, ex companheiras.

Dúvidas são mais constantes que a proteção do Estado. A atualização da frase “com que roupa você estava” segue entre nós. Em fevereiro deste ano, lia sobre o desaparecimento de uma jovem em uma pacata cidade dos Estados Unidos. Um crime sem solução, ocorrido 20 anos atrás. Em uma terça feira, início do mês, enquanto eu postava uma frase sobre a banalização da morte de mulheres, recebi a notícia da morte de Yasminny Ribeiro, farmacêutica de 28 anos. Ela voltava para casa em Sumidouro, na região serrana do Rio de Janeiro, quando foi morta com quatro tiros no rosto. Em uma cidade com menos de 20 mil habitantes, uma notícia desta causa um trauma coletivo. O ex-namorado confessou o crime. Ele tem 32 anos. E segundo as investigações, premeditou o ato. E tentou fugir.

Este fato teve dois impactos imediatos sobre minha psique: estar escrevendo sobre casos de feminicídio, tentando mostrar esta teia que nos amarra sem que tenhamos exatidão sobre quantas de nós são mortas diariamente naquele instante, foi o primeiro. O segundo foi o abalo por conhecer e nutrir grande admiração pelo padrasto de Yasminny, valoroso lutador público da justiça do Rio de Janeiro com o qual convivo desde 2020. Foi como um soco intenso no estômago. Foram dias com o pensamento na família, lendo dez vezes a mesma matéria. O quão perto sempre estamos de um ato como aquele?

Quando saímos da letra fria da lei, da manchete de mais um caso de violência, quando saímos das estatísticas, tudo dói.  Dói saber que Yasminny estava vivendo a plenitude de sua vida, que ela tinha uma mãe, que sonhava ser mãe ou uma grande profissional de sua área. Que estudara, que enfrentara toda a violência dos olhares de cobiça sobre sua juventude para formar-se e ter sua própria farmácia. Víamos mais uma família destroçada. Por motivo fútil, infinitamente fútil. Um homem ferido em seu ego. Quando não é esse o caso?

Estas mulheres têm uma história, têm uma família, alguém que as ama e a quem amam. Então, longe de soar algo sentimental ou do terreno do privado, estou reivindicando duas percepções: o feminicídio tem características muito específicas. Não é fruto de maldade intrínseca ou doença mental. Em segundo lugar, e mais importante, uma das formas mais potentes de combater a morte de mulheres, é combater a desigualdade a que foram submetidas historicamente. E combater as formas de dominação familiar, jurídica, religiosa.

Não haverá mudança real se seguirmos evitando tocar em assuntos como aborto, namoros abusivos, divórcios violentos, mortes cruéis e outros temas no almoço de domingo. Este fantasma da paz familiar tem nos custado um preço mais alto do que podemos pagar.

Será preciso ouvir mais, acolher mais, politizar mais. E estruturar de forma eficiente as políticas de suporte às mulheres. Que, a considerar a cidade de Campos, estão aquém do aceitável.


Luciane Soares da Silva é Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Cidade Cultura e Conflito NUC UENF e também chefia o Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado  LESCE/UENF

Dissertação na UFRJ aborda narrativas das mulheres do MST e suas contribuições para enfermagem em saúde coletiva

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Recebi e divulgo a realização da banca examinadora da dissertação de mestrado escrita por Denise Consuello A. dos Santos no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação da professora Elisabete Pimenta Araújo Paz.

O trabalho intitulado “Narrativa de mulheres do Movimento dos Trabalhadores  Rurais Sem-Terra (MST): contribuições para enfermagem de saúde coletiva” será defendido na próxima 4a. feira a partir das 0930 h, e os interessados poderão assistir via um canal online (ver cartaz abaixo).

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A partir de uma pesquisa realizado em três assentamentos de reforma agrária, o estudo evidenciou que as mulheres do MST usam plantas medicinais, remédios caseiros e valorizam a alimentação saudável, apoio mútuo, medidas preventivas para cuidar da saúde dentro dos assentamentos. Por outro lado, a pesquisa apurou que “na rede formal de saúde, a Atenção Primária à Saúde se mostrou efetiva para alguns cuidados. Entretanto, observou-se a necessidade de compra de medicamentos prescritos e, devido à demora para se receber atendimentos especializados, as entrevistadas relataram uso de consultas particulares.” Além disso, os dados relativos à “assistência na Atenção Terciária também foram positivos quanto aos atendimentos, mas as unidades de saúde, segundo as narrativas, são muito distantes dos locais de suas residências, impondo dificuldades no deslocamento.”

Considero que essa pesquisa não é apenas essencial do ponto de vista de fortalecer políticas sociais destinadas a atender segmentos politicamente marginalizados como o dos beneficiários da reforma agrária, mas também traz um importante aporte das mulheres que, objetivamente, passam muitas vezes por processos adicionais de marginalização.