Dissertação na UFRJ aborda narrativas das mulheres do MST e suas contribuições para enfermagem em saúde coletiva

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Recebi e divulgo a realização da banca examinadora da dissertação de mestrado escrita por Denise Consuello A. dos Santos no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação da professora Elisabete Pimenta Araújo Paz.

O trabalho intitulado “Narrativa de mulheres do Movimento dos Trabalhadores  Rurais Sem-Terra (MST): contribuições para enfermagem de saúde coletiva” será defendido na próxima 4a. feira a partir das 0930 h, e os interessados poderão assistir via um canal online (ver cartaz abaixo).

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A partir de uma pesquisa realizado em três assentamentos de reforma agrária, o estudo evidenciou que as mulheres do MST usam plantas medicinais, remédios caseiros e valorizam a alimentação saudável, apoio mútuo, medidas preventivas para cuidar da saúde dentro dos assentamentos. Por outro lado, a pesquisa apurou que “na rede formal de saúde, a Atenção Primária à Saúde se mostrou efetiva para alguns cuidados. Entretanto, observou-se a necessidade de compra de medicamentos prescritos e, devido à demora para se receber atendimentos especializados, as entrevistadas relataram uso de consultas particulares.” Além disso, os dados relativos à “assistência na Atenção Terciária também foram positivos quanto aos atendimentos, mas as unidades de saúde, segundo as narrativas, são muito distantes dos locais de suas residências, impondo dificuldades no deslocamento.”

Considero que essa pesquisa não é apenas essencial do ponto de vista de fortalecer políticas sociais destinadas a atender segmentos politicamente marginalizados como o dos beneficiários da reforma agrária, mas também traz um importante aporte das mulheres que, objetivamente, passam muitas vezes por processos adicionais de marginalização.

O US$ 2,6 trilhões gastos pelos EUA na guerra do Afeganistão e a hipocrisia do “Day After”

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De volta ao poder, os Talibãs venceram uma guerra que custou US$ 2,6 trilhões aos EUA

Muitos analistas internacionais, incluindo aqueles operando em veículos da mídia corporativa brasileira, passaram os últimos dias soltando lágrimas de jacaré pelas mulheres e meninas afegãs que agora passarão a conviver com uma versão especialmente dura da lei islâmica, a sharia.  Essa postura é acima de tudo muito hipócrita, pois nada se fala das violências cometidas contra essas mesmas mulheres e crianças pelos soldados das forças de ocupação lideradas pelos EUA. É como se os últimos 20 anos no Afeganistão tenham sido um mar de rosas que agora é interrompido pela volta relâmpago dos talibãs, o qual foi permitido em grande parte pela retirada das forças estadunidenses.

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Mulheres e meninas afegãs deverão sofrer grande repressão sob a versão da sharia adotada pelos Talibãs

Um detalhe que passa batido por muitos analistas é a disparidade dos recursos gastos pelos EUA na sua máquina de guerra com a economia do Afeganistão. Segundo valores estimados, a guerra no Afeganistão teria custado incríveis US$ 2,6 trilhões aos cofres estadunidenses. Para quem não se deu ao trabalho dever o PIB do Afeganistão em 2020, eu informo que o valor foi de US$ 19,94 bilhões. Ou seja, o Afeganistão levaria cerca de 131 anos para gerar o mesmo valor com a riqueza gerada em sua economia para chegar ao valor gasto em 20 anos pelos EUA na sua malograda guerra contra o Talibãs. Ainda dentro desse raciocíonio, o valor gasto pelos EUA anualmente, que foi de US$ 130 bilhões, foi o equivalente a 6,5 o PIB  anual do Afeganistão.

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Guerrilheiro talibã em sala de ginástica abandonada pelas tropas dos EUA

Imaginemos agora que todo o dinheiro gasto em matar e destruir a infraestrutura do Afeganistão tivesse sido investido em efetivamente reconstruir a infraestrutura que já havia sido duramente atacada na guerra contra as tropas sovietáticas que, como as forças internacionais, tinham invadido um pequeno país montanhoso e que era e continua sendo habitado por uma população de camponeses e pastores.  É muito provável que isso tivesse fortalecido as noções de vida moderna que os talibãs são tidos como a antítese. 

A verdade crua e nua é que os EUA apoiaram os Talibãs (para não dizer que criaram) e armaram o grupo na guerra contra a extinta URSS. Agora, após gastar  2,6 trilhões de dólares em uma guerra inútil, se retiram de forma desastrada e entregam o poder praticamente sem luta para os mesmos Talibãs.  Assim, não venham me dizer que o maior problema do povo afegão são os Talibãs, pois me parece evidente que eles são apenas a expressão de uma opção das forças dominantes da economia global pela produção de riqueza via gastos gigantescos na manutenção de sua indústria de guerra.  E no meio disso que se explodam as mulheres e crianças do Afeganistão, como já se explodiram as mulheres e crianças do Vietnã.

Gênero e questão agrária são temas de primeiro debate da Série Brasil Rural

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Na semana em que se celebra o Dia do Trabalhador Rural e da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), em parceria com a Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil (FES Brasil), convidam todos a participarem do debate “Gênero e questão agrária: desafio das mulheres no Brasil rural”. A live será dia 22 de julho (quinta-feira) às 19h, com transmissão pelo canal do Youtube da FES Brasil.
 
📑 O debate faz parte da Série Brasil Rural, uma iniciativa entre a ABRA e a FES que reúne uma série de artigos que serão lançados a partir desse mês que analisam alguns dos principais desafios e contradições da questão agrária no Brasil. O texto inaugural, que subsidia o debate, chama-se “As Mulheres no Censo Agropecuário 2017”, de autoria de Karla Hora, Miriam Nobre e Andrea Butto.
 
💻 A live contará com a participação das três autoras e mediação de Yamila Goldfarb, da ABRA. Contamos com sua presença! Até lá!
 
🔗 Veja o texto completo: http://www.fes.de/cgi-bin/gbv.cgi?id=17954&ty=pdf

O impacto da reforma administrativa nas mulheres

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Por Gabriela LottaErika Caracho RibeiroIsabela Pedroso Troyo, Muriel Akkerman Aronis,  Luciana Jordão da Motta Armiliato de CarvalhoMichelle Fernandez e Renata de Paiva Puzzilli Comin

A nova proposta de reforma administrativa (PEC 32/2020) tem sido amplamente debatida na sociedade brasileira.  Além de ter o potencial de afetar negativamente a qualidade do serviço público prestado ao cidadão, ela pode aumentar as desigualdades dentro do funcionalismo público, principalmente relativas a gênero.

O setor público reproduz tradicionalmente as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho e na sociedade. Por exemplo, quanto mais próximo dos cargos de poder, menor a representatividade feminina. Essas assimetrias também se refletem nas diferenças salariais. Segundo o Atlas do Estado Brasileiro de 2017, as mulheres recebem salários menores que os homens em todos os poderes: no Executivo, recebem 24,7% menos que homens, no Legislativo, 12%, e no Judiciário, 6,2% . E mesmo com salários proporcionalmente inferiores nos três Poderes, as mulheres eram maioria nos quadros de servidores públicos no Poder Legislativo (61,1%) e Judiciário (53,15%) em 2019.

A presença feminina também é maioria nos quadros de servidores estaduais (55,95%) e municipais (65,60%). Ao mesmo tempo, elas ocupam poucas posições de poder no serviço público. Nos últimos 35 anos a diferença de salários entre mulheres e homens ficou 50% maior no executivo. Já no judiciário ela ficou cerca de 50% menor, apesar de ainda os homens ganharem maiores salários. No Judiciário, somente duas ministras entre os 11 membros ocupam cargos no mais importante Tribunal do país, padrão que se repete nos cargos eletivos. As mulheres ocupam apenas 15% das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, para ficar apenas no nível federal. Ao considerar que as mulheres são a maior parte na população (51,8%), percebe-se que há uma sub-representação de gênero nos cargos de poder e uma discrepância salarial no funcionalismo público.

Essas desigualdades, no entanto, não só não estão na pauta da PEC 32 como algumas de suas medidas podem, inclusive, aumentá-las. A proposta atual da PEC afeta diretamente a maior parte dos servidores públicos que ocupam os cargos operacionais e de atendimento ao público, enquanto deixa de fora aqueles que recebem salários mais altos e regalias – como os membros dos poderes legislativo e judiciário. A questão é que estes cargos de menor nível hierárquico mais afetados pela reforma são majoritariamente femininos – como profissionais da educação, saúde e assistência -, enquanto os quadros que ficam fora da reforma são majoritariamente masculinos – como a magistratura.

Além disso, outras medidas da PEC 32 também tendem a aumentar desigualdades, como o fato de colocar em xeque a estabilidade das carreiras. Em uma futura disputa sobre quais delas se manterão estáveis, está claro que aquelas de maior poder terão maior chance de barganha, enquanto as carreiras menos valorizadas terão menor espaço. Inclui-se aí carreiras nas áreas de saúde, assistência e educação, ocupadas por mulheres, que saem em desvantagem em relação a carreiras como as do judiciário, de auditoria, de controle e fazendárias, majoritariamente ocupadas por homens).

Por fim, a proposta de criação dos “cargos de liderança”, que politizam a máquina ao acabarem com as funções gratificadas exclusivas a concursados, também dificultarão ainda mais o acesso de mulheres a cargos de poder.

A esta altura do debate, está claro que as medidas propostas pela PEC 32 não terão impacto imediato nos gastos e podem comprometer a eficiência e o funcionamento do Estado. Ainda assim, é essencial evidenciar seus efeitos também nas desigualdades de gênero.

Enquanto a sociedade reconhece a necessidade de diminuir o fosso entre homens e mulheres, nas mais diferentes esferas, o poder público brasileiro atua no caminho inverso. Nesse sentido, é inadmissível que tenhamos uma reforma administrativa capaz de aprofundar as desigualdades de gênero no serviço público.

Sobre as autoras

Gabriela Lotta, Erika Caracho Ribeiro, Isabela Pedroso Troyo, Muriel Akkerman Aronis,  Luciana Jordão da Motta Armiliato de Carvalho, Michelle Fernandez e Renata de Paiva Puzzilli Comin são pesquisadoras de diversas instituições e fazem parte da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Análise inédita identifica as lacunas entre gêneros nas políticas climáticas

Realizado pelo Imaflora em Piracicaba, estudo aponta barreiras para a participação feminina nas discussões climáticas a nível local

respirar-1Manifestante, em Paris, protesta contra o aquecimento global: “Feminismo e ecologia, um mesmo combate”. Foto Valentin Belleville / Hans Lucas

São Paulo, 17 de dezembro de 2020 – Uma análise inédita no Brasil investigou as formas de abordagem da questão de gênero nos planos climáticos municipais, tendo como estudo de caso uma iniciativa em Piracicaba, cidade do estado de São Paulo. Por meio do desenvolvimento do Plano Participativo de Adaptação e Mitigação do Clima, organizado pelo projeto do Imaflora “Pira no Clima“, o estudo encontrou, como principal resultado, que os diagnósticos e o mapeamento das zonas climáticas convencionais ainda não incorporam as percepções e necessidades diferenciadas das mulheres. Além disso, problemas estruturais afetam a maneira como mulheres e outros grupos marginalizados, como pessoas transexuais e negras, acessam os espaços de discussão.

A partir de uma revisão dos métodos utilizados para estimular a participação de mulheres no conteúdo do Plano e da observação de reuniões e interações específicas desse tema, o estudo apurou que existe uma dificuldade em mapear e inserir ações de planejamento que contemplem as diferentes necessidades de acordo com gênero e sua amplitude. Um dos motivos identificados pelo estudo é que o tempo de palavra dado às mulheres ainda é pequeno e prevalecem as visões do problema climático do ponto de vista dos homens. Além disso, apesar da presença de mulheres em espaços participativos ser de mais de 75%, há um monopólio predominantemente masculino das falas.

Foi observado, ainda, que é comum haver uma falta de homens para a discussão de temas relacionados à população vulnerável à mudança climática, como “gênero” ou “desigualdades sociais”, o que demonstra uma segregação de pautas e dificulta a queda de obstáculos que afetam ambos os gêneros, mas de forma diferenciada nos dois campos.

A Coordenadora de Projetos em Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora e uma das autoras do estudo, Isabel Garcia-Drigo, explica que o comportamento e expectativas em relação aos diferentes papéis que homens e mulheres exercem na sociedade influenciam na forma como ambos os grupos lidam com as questões ambientais. “Cada gênero é afetado pelas consequências das mudanças climáticas de uma maneira diferente. O grupo feminino seria o mais afetado por já ter de lidar com atribulações decorrentes de padrões preestabelecidos para mulheres. Mesmo sofrendo mais o impacto das mudanças climáticas, as mulheres ainda são vistas como ‘incapazes’ e alcançam menos papéis de liderança em ações de mitigação das mudanças climáticas”, afirma.

Como mudar esse cenário

Uma das principais lições que pode ser tirada da experiência em Piracicaba é a necessidade da ampliação de processos que permitam a disseminação de metodologias e a criação de ambientes seguros que trabalhem com participação e equidade na elaboração de Planos Climáticos nos municípios brasileiros. Segundo o estudo, a escuta da perspectiva feminina e de outros grupos vulneráveis em geral ainda é defasada em relação ao protagonismo que deveriam ter na agenda climática do Brasil.

Além disso, é essencial criar um ambiente onde haja a identificação de vulnerabilidades e ameaças relacionadas a gêneros e, para isso, é preciso valorizar conhecimentos específicos que estejam preparados para captar essas particularidades. Como exemplo, um risco socioclimático importante relacionado às mulheres é o desenvolvimento de doenças na gravidez, geralmente potencializadas em altas temperaturas, como a pré-eclâmpsia. Também existem as casas chefiadas por mulheres em áreas de ameaça climática, como enchentes, que podem indicar múltiplas jornadas de trabalho e, portanto, e impactos amplificados na família. Esses conhecimentos estão atrelados à importância de ter um mapeamento de riscos socioclimáticos por meio de uma coleta de dados in loco para entender riscos, considerando as diferenças de gênero.

Isabel faz uma análise sobre quais deveriam ser os próximos passos. “É preciso aumentar e ampliar a pesquisa sobre os processos de construção dos planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas no nível local e, dessa maneira, formar um corpo de conhecimento empírico que seja útil para informar melhores políticas públicas de clima. O Pira no Clima se propõe a fazer esse processo e reflexão, mas isso precisa ser ainda mais estimulado tanto nos meios acadêmicos quanto no âmbito das organizações não governamentais que lidam com o tema”, finaliza.

Para ler a análise na íntegra, acesse aqui.

Sobre “Pira no Clima”

O projeto “Pira no Clima” é uma iniciativa do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Atua para que Piracicaba construa e implemente um Plano Municipal Participativo de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas, através de princípios metodológicos e objetivos finais que buscam ampliar a participação e combater as desigualdades de gênero, ao mesmo tempo em que geram e difundem dados sobre o município. Para mais informações: https://www.imaflora.org/o-que-fazemos/politicas-interesse-publico/pira-no-clima

Sobre o Imaflora
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) é uma associação civil sem fins lucrativos, criada em 1995 sob a premissa de que a melhor forma de conservar as florestas tropicais é dar a elas uma destinação econômica, associada a boas práticas de manejo e à gestão responsável dos recursos naturais. O Imaflora busca influenciar as cadeias produtivas dos produtos de origem florestal e agrícola, colaborar para a elaboração e implementação de políticas de interesse público e, finalmente, fazer a diferença nas regiões em que atua, criando modelos de uso da terra e de desenvolvimento sustentável que possam ser reproduzidos em diferentes municípios, regiões e biomas do país. Mais informações: www.imaflora.org

Informações à Imprensa
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Metade das mulheres passou a cuidar de alguém na pandemia, revela pesquisa

mulheres pandemia

Por  bori

As condições de trabalho se transformaram radicalmente durante a pandemia de Covid-19, sobrecarregando, principalmente, as mulheres. Metade das brasileiras passou a cuidar de alguém durante esse período, e 41% das mulheres com emprego afirmam estar trabalhando mais do que antes. Os dados são de pesquisa realizada pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a SOF Sempreviva Organização Feminista. O estudo indica que a realidade não é a mesma para todas. Nos ambientes rurais, 62% das respondentes afirmaram que passaram a exercer tarefas de cuidado.

Para identificar os efeitos da pandemia sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira da casa, os pesquisadores aplicaram um questionário online com mais de 2.600 mulheres brasileiras entre abril e maio. A perspectiva era de que as tarefas de cuidado e trabalho passaram a se sobrepor de forma mais intensa durante os meses de isolamento social. A análise das respostas levou em conta variáveis como raça e área de residência das respondentes, se moram em zonas rurais ou urbanas. A amostra é representativa da população brasileira.

Os dados mostram que as mulheres residentes em áreas rurais e negras assumiram mais responsabilidades com relação ao cuidado do outro. Além disso, as mulheres negras parecem ter menos suporte nestas tarefas.

A maior parcela das mulheres que seguiu trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários é de mulheres brancas. Elas relataram estar trabalhando mais no período da quarentena, evidenciando que a ausência de funcionárias no domicílio ou de espaços como a creche/escola pesou mais para esse grupo. As mulheres que estão em casa sem renda ou com prejuízo de renda são 39%.

A pesquisa também coletou depoimentos, que mostram como é complexa a leitura da condição de vida e de trabalho neste momento. Mesmo as que seguem trabalhando, com renda, podem estar sob condições diferentes, mais precarizadas, em relação ao período anterior ao da quarentena. Para Tica Moreno, socióloga da SOF Sempreviva Organização Feminista envolvida no estudo, os dados mostram que as dinâmicas de vida e trabalho das mulheres se contrapõem ao discurso de que o trabalho e a economia pararam durante o período de isolamento social. “Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam – não podem parar. Pelo contrário, foram intensificados na pandemia. A economia só funciona porque o trabalho das mulheres, quase sempre invisibilizado e precarizado, não pode parar”, comenta.

Para os pesquisadores, entender a situação do cuidado durante a pandemia é fundamental para o desenho de ações que sejam capazes de transformar essas dinâmicas de desigualdade que imbricam gênero, raça e classe. Os resultados do estudo, segundo Guilliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, dão visibilidade para a crise do cuidado. “O cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. Não há possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente no momento de crise global”.

Os impactos da COVID-19 na desigualdade de gênero dentro de lares

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Por Giuliana Schunck e Tricia Oliveira, advogadas do escritório Trench Rossi Watanabe

Nos últimos anos, o mundo vem celebrando a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres. São muitas as reportagens e notícias exaltando mulheres em cargos de liderança em grandes multinacionais ou posições políticas importantes. Tais conquistas são de extrema relevância e devem, sim, ser festejadas e propagadas, no entanto, há muito ainda pela frente a ser conquistado no âmbito da igualdade profissional e, mais ainda, no âmbito doméstico.

Em reunião com o grupo de gêneros, parte do Comitê de D&I de nosso Escritório, surgiu a discussão de como o isolamento social decorrente da pandemia da COVID-19 colocou em evidência a sempre existente desigualdade na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados com as crianças e idosos. Antes do isolamento, apesar de a desigualdade já ocorrer, ela de certo modo era mascarada pelo fato de as crianças irem para a escola, algumas até em período integral e por vezes haver uma “participação” maior do homem que auxiliava no transporte ou em tarefas de casa, sem contar com a possibilidade de maior ajuda com profissionais que realizam tarefas domésticas (isso, claro, para uma parcela de privilegiados), muitos dos quais tiveram que ser afastados para também cumprirem o distanciamento.

Nesse momento, com todos em casa, lições remotas, sem auxilio externo, mais do que nunca se mostra absolutamente acertado o ditado que diz que “é necessária uma vila para cuidar de uma criança”, pois de fato é preciso toda a comunidade para participar dos cuidados com as crianças. Mesmo antes do isolamento, como padrão em uma sociedade patriarcal, as mulheres já tinham a maior carga de conciliar o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos ou parentes idosos. Com o home office, esse cenário se intensificou.

Não há dúvida de que o cenário que temos hoje em termos de divisões de tarefas aparenta ser melhor do que tínhamos há 50, 20 ou até mesmo 10 anos atrás. Mas ainda assim, a situação, talvez na maioria dos lares, é de alguma (ou até mesmo grande) desigualdade.

Na prática, o que se vê são as mães muito mais preocupadas (a chamada carga mental de pensar em tudo) e ocupadas com as questões da casa (comida, limpeza etc.), com as tarefas da escola, e com o entretenimento das crianças em tempos de pandemia.

Essa situação acaba, de forma perversa, refletindo no desempenho profissional das mulheres, que já tanto lutam para poder ocupar espaços de maior destaque, sem contar seus reflexos em sua saúde mental e física.

Uma reportagem do portal The Lily (do The Washington Post) aponta que as mulheres acadêmicas estão produzindo menos artigos científicos durante a pandemia por conta, justamente, do aumento dos cuidados domésticos. Por outro lado, homens da academia estão submetendo 50% a mais de artigos, porque supostamente têm mais tempo de dedicação ao trabalho. E essa realidade, medida no meio acadêmico, certamente pode ser transposta para diversos outros setores profissionais. Isso sem contar outras camadas da população mais vulneráveis, como as trabalhadoras informais.

A ONU Mulheres emitiu relatório sobre os impactos da COVID-19 sobre as mulheres, em diferentes aspectos, desde profissionais e de remuneração, saúde, trabalhos domésticos e não-remunerados, até questões de violência doméstica, demonstrando como esse recorte de gênero é importante e necessário durante a pandemia.  A ONU Mulheres também sugere algumas ações, tais como compartilhar os trabalhos de casa, ler, assistir e compartilhar histórias sobre mulheres, conversar sobre a desigualdade com a família, continuar o ativismo de forma online, entre outros. Mas a verdade é que a eliminação da desigualdade passa por diferentes espectros sociais.

Sem dúvida, é importante fomentar a igualdade dentro de casa, dividindo as tarefas entre parceiros, educando meninos e meninas da mesma forma, mostrando à comunidade que todos ganham em uma sociedade mais igualitária. Porém, os esforços são também importantes em outras searas, como empresas, organizações, escolas, universidades entre outras entidades. É preciso educar a sociedade, de forma geral, que pais e mães devem dividir as responsabilidades com a casa e com os cuidados dos filhos e idosos. Não há nenhuma razão – a não ser aquelas de machismo e patriarcado, – que efetivamente justifique que as mulheres sejam as cuidadoras de todos na sociedade.

Em tempos de pandemia, há de se aproveitar o momento e fomentar mudanças sociais, que inclusive já estavam ocorrendo gradualmente. Já se viu que o home office funciona e as organizações estão se tornando mais empáticas com as necessidades de seus empregados, com a flexibilidade de tempo, entre outras iniciativas que ajudam na questão da igualdade. Outras mudanças também podem acontecer na sociedade: companheiros e pais mais participativos, organizações mais atuantes e engajadas na mudança, uma sociedade mais atenta, mais aberta ao debate e à efetiva necessidade de mudança de comportamento. Esperamos que seja possível aproveitar a experiência do isolamento para que esses novos olhares e atitudes se incorporem na rotina das pessoas e empresas. Não há como voltar ao “normal” depois de tudo isso, justamente porque o “normal” não estava funcionando, impunha um peso muito maior às mulheres e outras minorias, mostrava que nossa sociedade não estava em equilíbrio.

Que possamos refletir, agir e criar uma nova maré para ser seguida por todos, modificando e melhorando a nossa sociedade.

OXFAM mostra que desigualdade entre ricos e pobres explodiu em nível global

Bilionários acumulam mais riqueza do 4,6 bilhões de pessoas

relatório oxfamOs 22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres na África

A organização não-governamental OXFAM com sede na Inglaterra lançou hoje o seu relatório anual que mostra que a desigualdade global entre ricos e pobres está “fora de controle” por causa de sistemas econômicos tendenciosos que excluem muitas mulheres e permitem que bilionários acumulem enormes fortunas que pouco fazem para a sociedade, segundo a Oxfam International.

A liberação do relatório anual da Oxfam ocorre antes da abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que a cada ano reúne  as pessoas mais ricas e influentes do mundo. As principais conclusões do relatório da OXFAM são:

  • Os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas.
  • Os 22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres na África. 
  • O 1% mais rico do mundo possui mais do que o dobro da riqueza de 6,9 ​​bilhões de pessoas.
  • O valor do trabalho não remunerado realizado por mulheres com 15 anos ou mais é de  cerca de R$ 40 trilhões por ano.
  • O número de bilionários dobrou na última década.

O relatório de 63 páginas argumenta que os líderes mundiais não estão fazendo o suficiente para resolver o crescente fosso entre os pobres e os ricos. O foco deste ano são as políticas que permitem que os homens dominem as principais fileiras de empresas e governo.  O relatório argumenta que a desigualdade econômica é construída sobre a desigualdade de gênero.

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Alguns números da profunda desigualdade entre ricos e pobres

Além disso, O relatório mostra que os governos estão sobrecarregando maciçamente os indivíduos e as empresas mais ricas e não conseguem arrecadar receitas que poderiam ajudar a elevar a responsabilidade do cuidado das mulheres e combater a pobreza e a desigualdade.
 
Ao mesmo tempo, o relatório aponta que os governos estão subfinanciando serviços públicos e infraestrutura vitais que poderiam ajudar a reduzir a carga de trabalho de mulheres e meninas.  Um exemplo dessa situação seria a falta de investimentos em água e saneamento, eletricidade, assistência infantil, assistência médica que poderiam liberar o tempo das mulheres e melhorar sua qualidade de vida.  

Quem desejar baixar o relatório da OXFAM, basta clicar [Aqui!].

Science publica alerta sobre o futuro incerto para mulheres cientistas no Brasil de Jair Bolsonaro

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Se a ciência brasileira já se encontra sobre um profundo ataque que é deixado ainda mais claro com a ameaça da realização de uma “Operação Lava Jato da Educação”, as mulheres cientistas brasileiras se defrontam com um futuro ainda mais incerto nas mãos do governo Bolsonaro que possui a menor taxa de ministras na história do Brasil (apenas 2 num total de 22 ministérios), e cujo presidente é conhecido sua indisfarçada misoginia.

É preciso reconhecer que as coisas já não eram nenhum paraíso neste governo com as mulheres recebendo menos crédito ou papéis de liderança, em que pese a sua crescente contribuição na produção científica brasileira, o que fez do Brasil um líderes globais na participação feminina na ciência.

Por isso, considero que o alerta publicado pela respeitada revista Science, que é assinado pelo professor da UFSCar/Sorocaba, Ronildo Alves Benício, deve ser levado com a devida seriedade para que o necessário processo de resistência seja organizado dentro e fora da comunidade científica.

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Futuro incerto para mulheres cientistas no Brasil

Por Ronildo Alves Benício*

As mulheres cientistas do Brasil enfrentam um futuro incerto sob o governo do declarado misógino Jair Bolsonaro. Elas estão preocupadas, por exemplo, que as mulheres não serão mais apontadas como reitoras em universidades federais sob os mais recentes planos do governo (veja go.nature.com/2xthw4s). Atualmente, as mulheres ocupam cerca de 30% dessas posições, o que compara favoravelmente com 17% das 200 melhores universidades do mundo (veja go.nature.com/2xsevrr). 

Quando comparamos países que têm um produto interno bruto per capita semelhante ao do Brasil e que gastam uma proporção comparável com a ciência, os países da América do Sul e do Leste Europeu têm uma das maiores proporções de mulher para homem em autoria de artigos científicos (V. Larivière et al., Nature 504, 211-213, 2013). Entretanto, as mulheres aqui, como em outros lugares, continuam sub-representadas na ciência (ver, por exemplo, R. A. Benício e M. G. Fonseca Braz. J. Biol. Http://doi.org/c24v; 2019).

*Ronildo Alves Benício é professor da Universidade Regional do Cariri, Laboratório de Herpetologia, Crato (CE)


Este artigo foi originalmente publicado em inglês na seção de cartas da revista Science [Aqui!]

Anúncio do 1 º Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas


1 º Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas de 20 a 24 de Março de 2014 em Brasília.

Com 19 anos de existência a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas – CONAQ, na luta pela demarcação dos Territórios Quilombolas, soberania do povo quilombola, enfrentamento ao racismo institucional, ambiental, social, cultural na aplicação das Leis e cumprimento das mesmas. Neste sentido, nós mulheres quilombolas do Brasil, vamos nos reunir com o objetivo de consolidar a luta pela terra, avaliar as políticas públicas e as condições que as mesma ‘atendem’ as mulheres quilombolas, no enfrentamento ao machismo, em quebrar o silêncio denunciando a violência doméstica nas suas mais variadas formas, gestos e manifestações, enfrentar a desigualdade geracional, social.

A luta quilombola é liderada por homens e mulheres e em muitos cantos deste país a luta é construída, liderada por mulheres que acumulam ao longo ou no início da vida as funções de mãe ou não, responsável pelo lar, cuida da roça, dos animais, quebra coco, faz carvão, na labuta diária dos afazeres, cuida dos filhos (as), dos mais velhos da família, trabalha no comércio, na saúde, na educação, estuda, acumula funções na tarefa diária que é ser mulher.

Em nome de tantas mulheres quilombolas que tombaram na estrada da luta, que tiveram seu sangue derramado pelo conflito agrário e pela violência doméstica, em nome de cada menina que nasce, em nome de cada mulher que assume seu papel transformadora nessa sociedade racista, machista, patriarcal, é que construímos esse momento para trocarmos experiências, histórias, recarregar as energias e continuar a transformar a história.

Comissão Organizadora do Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas – CONAQ

OUTRAS INFORMAÇÕES:

Inscrições, endereço completo de onde vai acontecer o evento, vamos socializando por Aqui! na página da CONAQ.
OUVINTES em geral arcaram com suas próprias despesas de passagem, alimentação e hospedagem, com inscrição prévia solicitada a organização do evento.

Qualquer dúvida por gentileza mande mensagem (in box) nesta página mesmo que vamos respondendo.

Socialize, divulgue, curta e compartilhe ficamos gratas por sua colaboração.