Flávio Bolsonaro e o negacionismo climático tosco em versão eleitoral

Ao tratar o aquecimento global como resultado de supostos ciclos naturais, candidato ignora uma das conclusões mais sólidas da ciência contemporânea

A resposta dada por Flávio Bolsonaro na sua entrevista ao Jornal Nacional sobre o aquecimento global merece atenção não apenas porque revela o que o candidato pensa sobre a crise climática, mas principalmente porque mostra como uma velha estratégia do negacionismo climático continua sendo utilizada no debate político brasileiro. Questionado diretamente sobre o tema, Flávio afirmou que existem eventos climáticos extremos e que há épocas cíclicas em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, acrescentando que não acredita que o aquecimento global tenha relação direta apenas com a influência humana. O problema é que, apresentada dessa maneira, a afirmação mistura uma verdade elementar com uma conclusão cientificamente equivocada.

É evidente que o clima da Terra possui variabilidade natural e que ao longo da história do planeta ocorreram períodos mais quentes e mais frios. A ciência climática nunca negou isso. Existem oscilações relacionadas à atividade solar, erupções vulcânicas, circulação oceânica e atmosférica e, em escalas muito mais longas, alterações orbitais. O que Flávio Bolsonaro deixa de explicar é justamente o ponto decisivo: esses mecanismos naturais não explicam o rápido aquecimento observado desde a Revolução Industrial, especialmente aquele ocorrido nas últimas décadas.

Sobre isso, o IPCC utiliza uma linguagem incomumente categórica para documentos científicos: é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e os continentes. A melhor estimativa do aquecimento provocado pelas atividades humanas entre 1850–1900 e 2010–2019 é de aproximadamente 1,07 °C, enquanto a contribuição estimada dos fatores naturais, como variações solares e vulcanismo, ficou próxima de ±0,1 °C. Em outras palavras, reconhecer que existem ciclos naturais não constitui argumento contra a origem antropogênica do aquecimento atual. Os cientistas conhecem esses ciclos, medem seus efeitos e justamente por isso conseguem demonstrar que eles são insuficientes para explicar o que está acontecendo.

Há ainda outro problema na resposta do candidato. Flávio Bolsonaro reconhece a existência de eventos extremos — calor, chuva e seca —, mas procura separá-los do processo de aquecimento global. Essa separação também não encontra respaldo na literatura científica. O IPCC conclui que a mudança climática provocada pelas atividades humanas já está afetando eventos meteorológicos e climáticos extremos em todas as regiões do planeta. Ondas de calor tornaram-se mais frequentes e intensas na maior parte das áreas continentais desde a década de 1950, enquanto há evidências crescentes da influência humana sobre chuvas extremas e determinados tipos de seca. Isso não significa, evidentemente, que cada enchente, seca ou onda de calor tenha como causa exclusiva o aquecimento global, mas significa que estamos alterando as condições de fundo sobre as quais esses fenômenos acontecem, modificando sua probabilidade e, em muitos casos, sua intensidade.

Esse detalhe é particularmente importante quando quem oferece esse tipo de resposta pretende ocupar a Presidência da República de um país como o Brasil. Estamos falando de uma nação altamente vulnerável a secas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, ao mesmo tempo em que possui cidades pouco preparadas para enfrentar esses fenômenos. Um presidente que parte de um diagnóstico errado sobre as causas da crise climática dificilmente terá condições de formular políticas adequadas de mitigação e adaptação.

Por isso, a resposta de Flávio Bolsonaro não deveria ser tratada simplesmente como uma opinião pessoal sobre um assunto em que cientistas ainda estariam divididos. Essa divisão praticamente não existe sobre a questão fundamental. Podemos e devemos discutir quais políticas adotar, quem deve pagar pela transição energética, como proteger populações vulneráveis, qual deve ser o papel dos combustíveis fósseis e como compatibilizar desenvolvimento econômico e redução das emissões. Mas continuar discutindo em 2026 se a humanidade é ou não responsável pelo atual aquecimento global equivale a deslocar o debate político para uma questão que a ciência já respondeu.

E talvez aí esteja o aspecto mais preocupante da declaração. Diante de uma crise que exigirá do próximo governo brasileiro investimentos pesados em adaptação climática, prevenção de desastres, infraestrutura urbana, proteção das florestas e transformação da matriz energética, um candidato à Presidência da República oferece como diagnóstico a velha explicação de que o clima sempre mudou. Sim, sempre mudou. A diferença é que agora sabemos muito bem por que ele está mudando tão rapidamente — e também sabemos quem está colocando mais gases de efeito estufa na atmosfera.

Para quem quiser entender melhor sobre o assunto que o candidato Flávio Bolsonaro preferiu negar de forma tosca, sugiro assistir a live que foi realizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física com os pesquisadores Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Roberto Verdum e que está disponível no canal do Youtube do GENAT/UFPB (Aqui!)

 

Charlatães do clima e o preço do silêncio científico

Diante de uma crise climática fartamente documentada, combater a fabricação interessada da dúvida deixou de ser apenas uma disputa científica: tornou-se uma obrigação ética e social da comunidade científica

A crise climática, que hoje nos aproxima perigosamente de situações de colapso, está fartamente documentada pela ciência, que se ampara tanto em dados empíricos — isto é, em medidas verificáveis — quanto em modelagens e outras formas de simulação teórica. Além disso, o próprio senso comum nos mostra que algo dramático está acontecendo com o comportamento do clima em diferentes pontos do planeta. Entretanto, apesar do consenso amplamente majoritário sobre as causas e as consequências do aquecimento da atmosfera terrestre, ainda há espaço para que negacionistas climáticos operem livremente e encontrem audiência, apesar de negarem, basicamente, aquilo que as evidências tornam cada vez mais óbvio.

Recentemente assisti a um vídeo produzido com a participação de um dos mais conhecidos negacionistas climáticos brasileiros, um professor aposentado com uma carreira científica relativamente medíocre e que só alcançou alguma notoriedade em determinados meios porque nega, com argumentos  questionáveis, o consenso científico sobre as mudanças climáticas. Há que se dizer que esse charlatanismo encontra terreno especialmente fértil em círculos que precisam negar o óbvio para continuar praticando atividades econômicas que contribuem para a aceleração do aquecimento global, particularmente naquele setor que se convencionou chamar de agronegócio.

Podemos concluir, portanto, que o charlatão a quem me refiro opera em um meio de cultura previamente preparado para acreditar em suas asneiras e que, muito provavelmente, ainda paga regiamente para que ele continue negando aquilo que a ciência demonstra. Em outras palavras, o charlatão prega para os convertidos, oferecendo uma aparência de legitimidade científica a interesses econômicos que precisam transformar evidências incômodas em supostas controvérsias.

Mas penso que existe outra explicação para que esse e outros charlatães climáticos ainda encontrem público e sejam pagos para disseminar suas mentiras sinistras. Ela decorre, paradoxalmente, de uma característica fundamental do próprio método científico: a ciência trabalha com incertezas, probabilidades e margens de erro. Isso não representa uma fraqueza, mas uma de suas maiores forças, pois significa reconhecer explicitamente os limites do conhecimento disponível. O problema é que os negacionistas exploram justamente essa honestidade epistemológica para fabricar dúvidas onde o conjunto das evidências já permite conclusões extremamente robustas. Transformam margem de erro em ignorância, incerteza quantitativa em controvérsia e debate sobre magnitude em dúvida sobre a própria existência do fenômeno.

Há ainda o problema de que praticamente inexistem mecanismos institucionais eficazes para expor publicamente esse tipo de charlatanismo, especialmente em um país como o Brasil, onde o confronto sistemático de ideias científicas ainda ocorre de maneira bastante periférica. Com isso, conhecimentos sustentados por décadas de pesquisa podem acabar recebendo o mesmo espaço — ou até menos — do que falsificações apresentadas sob uma aparência científica. Desperdiça-se, então, uma quantidade enorme de tempo tentando demonstrar repetidamente aquilo que já se encontra solidamente estabelecido pela ciência. Para os charlatães e seus financiadores, pouco importa quantas evidências sejam apresentadas, pois seu objetivo não é participar de uma controvérsia científica genuína, mas impedir que o conhecimento científico produza consequências políticas, econômicas e sociais.

O problema é que, enquanto o conhecimento charlatanesco não for enfrentado, ocorrerá uma erosão da confiança coletiva naquilo que a ciência efetivamente consegue demonstrar. E isso terá consequências nefastas para nossa capacidade de preparação diante das profundas transformações que a sociedade humana terá de enfrentar nos próximos anos e décadas para continuar vivendo em um planeta cada vez mais quente. O negacionismo, portanto, não constitui apenas uma disputa abstrata no campo das ideias. Ele desarma sociedades diante de riscos concretos, atrasa decisões, protege interesses responsáveis pelo agravamento da crise e aumenta o preço humano, social e ambiental que será cobrado pela continuidade da inação.

Por isso, a comunidade científica não pode adotar uma atitude blasé diante dos negacionistas da ciência. O papel que eles cumprem é profundamente nefasto, pois a difusão sistemática de mentiras travestidas de argumentos científicos ainda causará muito sofrimento, destruição, degradação dos sistemas naturais e perda de vidas humanas. Enfrentar e derrotar o negacionismo científico, nos estudos climáticos e para além deles, deve ser entendido como parte das próprias obrigações da comunidade científica, sob pena de uma perigosa cumplicidade pelo silêncio. Produzir conhecimento rigoroso não basta se permitirmos que ele seja soterrado por falsificações produzidas e financiadas precisamente para neutralizá-lo. A ciência possui a obrigação de investigar, testar, duvidar, corrigir seus próprios erros e reconhecer seus limites, mas possui também a responsabilidade de defender publicamente aquilo que suas melhores evidências permitem afirmar.

Em uma época histórica na qual decisões tomadas hoje determinarão as condições de existência de gerações inteiras, defender o conhecimento científico contra sua falsificação deliberada deixa de ser apenas uma questão acadêmica. Torna-se uma responsabilidade ética e social. Afinal, se a ciência se cala diante daqueles que transformam a mentira em mercadoria e a dúvida fabricada em instrumento de poder, ela corre o risco de abandonar justamente a sociedade que tornou possível a sua existência. E poucas traições à própria razão de ser da ciência poderiam ser maiores do que produzir conhecimento capaz de advertir a humanidade sobre uma catástrofe e, diante daqueles que trabalham para desacreditá-lo, permanecer confortavelmente em silêncio.

O negacionismo climático que une a política brasileira

Enquanto a ciência e a meteorologia alertam para a intensificação dos eventos extremos, o sistema político permanece preso à disputa eleitoral e ao consenso em torno da austeridade fiscal

Nesta quarta-feira, o portal UOL repercute uma matéria publicada pelo Estadão informando que, a partir de amanhã, o Brasil — especialmente a Região Sul — deverá ser atingido por um “ciclone bomba“, capaz de provocar tempestades severas, queda de granizo e ventos de alta intensidade. Caso as previsões se confirmem, o episódio poderá reproduzir, em escala ainda maior, os impactos recentemente observados nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde eventos extremos provocaram destruição material e perdas de vidas humanas. 

Entretanto, basta observar as manchetes dos principais veículos da mídia corporativa para perceber que esse alerta meteorológico recebe muito menos atenção do que a cobertura das pesquisas eleitorais e das convenções partidárias, que alimentam mais um ciclo de polarização política. Enquanto isso, permanece praticamente ausente qualquer discussão consistente sobre as diferenças programáticas entre os candidatos diante da emergência climática que o país já enfrenta.

Minha impressão é que essa dissintonia revela algo mais profundo: uma crescente desconexão entre as prioridades do sistema político e a realidade vivida pela população. A disputa eleitoral transcorre como se a sucessão de eventos climáticos extremos fosse um tema secundário, quando, na verdade, deveria ocupar posição central na agenda pública. Pouco ou nada se discute sobre as medidas necessárias para reduzir os impactos dos fenômenos previstos para os próximos meses — inclusive durante o próprio período eleitoral — e evitar novas perdas materiais e humanas, que, como de costume, tendem a atingir de forma mais intensa as periferias urbanas e os segmentos socialmente mais vulneráveis.

Há ainda um aspecto que merece destaque. Os sinais são cada vez mais claros de que, quando o assunto é adaptação às mudanças climáticas, os principais agrupamentos políticos nacionais compartilham uma forma de negacionismo, ainda que manifestada com diferentes intensidades. Em vez de priorizar investimentos capazes de preparar o país para enfrentar uma realidade climática em rápida transformação, prevalece o consenso de que a principal prioridade do Estado continua sendo assegurar o funcionamento do sistema de pagamentos da já impagável dívida pública. Nesse ponto, as divergências que dominam o debate político desaparecem: a manutenção da asfixia financeira do Estado em benefício do sistema financeiro parece reunir um consenso muito maior do que a proteção da população diante da intensificação dos riscos climáticos.

A consequência dessa escolha política é preocupante. Enquanto a ciência acumula evidências sobre a intensificação dos eventos extremos e os serviços meteorológicos conseguem antecipar com razoável precisão muitos desses fenômenos, a resposta institucional permanece marcada pela inércia. Em vez de investir de forma sistemática em prevenção, infraestrutura resiliente, fortalecimento da Defesa Civil e planejamento territorial, o país continua reagindo às tragédias apenas depois que elas ocorrem, multiplicando custos econômicos, sociais e humanos que poderiam ser significativamente reduzidos.

Romper esse negacionismo climático tácito dependerá, cada vez mais, da capacidade de mobilização da sociedade. Será necessário que universidades, organizações científicas, movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias e entidades ambientalistas construam uma agenda comum de pressão sobre os diferentes níveis de governo para exigir políticas permanentes de adaptação climática, acompanhadas de recursos orçamentários compatíveis com a dimensão do desafio. Sem essa pressão coletiva, o Brasil continuará tratando a crise climática como um problema do futuro, quando ela já se manifesta diariamente em enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e tempestades que atingem milhões de brasileiros. A adaptação precisa deixar de ser um tema periférico e tornar-se uma prioridade de Estado, sob pena de perpetuarmos uma ruptura cada vez mais perigosa entre a realidade climática e as escolhas políticas que moldam o país.

Ano da Ciência 2025: O sol nasce em outro lugar

O Ano da Ciência de 2025 foi marcado por cortes financeiros e censura por parte da nova administração dos EUA

Painéis solares destruídos pelo furacão Ian em 2022.

Painéis solares destruídos pelo furacão Ian em 2022. Foto: imago/Pond5 Images 
Por Jutta Blume para o “Neues Deutschland”

“Here Comes the Sun” – esse é o título da edição deste ano da renomada revista “Science”, que destaca as descobertas científicas do ano. Mas, apesar do tom otimista, a matéria gira em torno da ascensão de uma nova política anticientífica nos EUA e de uma indiferença sem precedentes à saúde de milhões de pessoas em todo o mundo.

A revista publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) celebra o fato de que as energias renováveis, principalmente a eólica e a solar, geraram mais eletricidade do que o carvão pela primeira vez em 2025. No entanto, isso ainda não significa que os combustíveis fósseis como um todo tenham sido ultrapassados. “A situação chegou muito perto do ‘pico do carbono’, o ponto em que as emissões de combustíveis fósseis em todo o mundo atingem seu pico e então começam a declinar”, escreve o editor-chefe da Science, H. Holden Thorp, em seu editorial. Para atingir as metas climáticas do Acordo de Paris , porém, esse pico teria que ter sido atingido há muito tempo, e não apenas estar ao alcance – de uma perspectiva de proteção climática, o otimismo da Science não é totalmente compreensível.

A tão celebrada “ascensão das energias renováveis” pouco tem a ver com o conhecimento científico atual. Como escreve Thorp, as bases foram lançadas décadas atrás, incluindo as células solares desenvolvidas em 1954 nos Laboratórios Bell, nos EUA, e as baterias de lítio desenvolvidas por empresas como a corporação americana Exxon. Atualmente, os principais beneficiários da ascensão das energias renováveis ​​são as empresas chinesas , que produzem 80% das células solares do mundo, 70% das turbinas eólicas e 70% das baterias de lítio. Portanto, reconhecer as energias renováveis ​​agora é, principalmente, uma declaração política contra a redução do uso de combustíveis fósseis promovida pelo governo dos EUA.

Contra a pesquisa climática e a diversidade

A revista “Science” posicionou-se desde o início contra as políticas retrógradas e anticientíficas do governo Trump. Com razão, pois, desde o princípio, o governo Trump confrontou as instituições científicas do país com cortes orçamentários e censura sempre que a diversidade, a igualdade e a inclusão (DEI) surgiam nos programas de pesquisa. Isso foi agravado pelo fato de Donald Trump negar as mudanças climáticas causadas pelo homem. Assim, uma das primeiras vítimas do recém-criado e agora extinto Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) foi a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), que demitiu mais de 800 funcionários em março.

Pouco antes do Natal, Russell Vought, chefe do Escritório de Orçamento da Casa Branca, anunciou em uma publicação no serviço online X que o Centro Nacional de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas (NCAR, na sigla em inglês) também seria fechado, o qual Vought chamou de “uma das maiores fontes de alarmismo climático no país”. Tarefas essenciais seriam transferidas para outras instituições. Vought e Trump operam sob a falsa premissa de que previsões meteorológicas podem ser feitas sem pesquisas sobre mudanças climáticas de longo prazo. No entanto, o fechamento do NCAR não afetaria apenas pesquisadores nos EUA, mas também representaria uma grande perda para a pesquisa climática internacional, que também utiliza conjuntos de dados e modelos climáticos desenvolvidos no NCAR.

Os ataques da administração Trump à pesquisa climática ocorrem em paralelo aos ataques aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, responsáveis ​​pela pesquisa em saúde. Conforme relatado na revista médica “The Lancet”, um em cada 30 estudos médicos do NIH foi descontinuado em 2025, e cortes orçamentários de até 40% são esperados em 2026. O CDC teria reduzido seu monitoramento da segurança alimentar e de doenças.

A renomada revista “Nature” destaca Susan Monarez, diretora do CDC por um curto período , entre as dez pessoas que moldaram a ciência no ano passado. Isso porque ela se recusou a deixar que a direção científica — ou melhor, não científica — da agência fosse ditada de cima para baixo. No entanto, a microbiologista e imunologista Monarez foi forçada a deixar o cargo após apenas um mês. “Fui demitida porque defendi a integridade científica”, disse Monarez em uma audiência no Congresso em setembro.

Céticos em relação às vacinas na comissão de vacinação

O Secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., nomeou céticos em relação às vacinas para a comissão de vacinação, que já retirou recomendações de vacinação — por exemplo, contra hepatite B para recém-nascidos. O site do CDC afirma falsamente: “A alegação de que ‘vacinas não causam autismo’ não é baseada em evidências”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) rejeita a afirmação do CDC. Enquanto isso, os EUA enfrentam a pior epidemia de sarampo em 30 anos. A revista The Lancet acredita que os EUA podem perder novamente seu status de país livre de sarampo em 2026.

Mais significativos do que o “avanço” do ano são provavelmente os eventos descritos pela revista “Science” como “colapsos”. Estes incluem os ataques do DOGE à pesquisa, os ataques do governo às universidades e a revogação de vistos para estudantes e pesquisadores estrangeiros. O risco de perder repentinamente as autorizações de residência leva a uma maior incerteza no cenário da educação e da pesquisa, resultando em perdas de receita para as universidades. Assim como no campo das energias renováveis, a China pode emergir como a vencedora nesse cenário — suas universidades estão atraindo um número crescente de estudantes internacionais.

Mas 2025 não foi apenas um ano de graves contratempos para a comunidade científica; foi também um ano de retrocessos significativos para a saúde pública global, em grande parte atribuíveis aos Estados Unidos. De acordo com a revista “Science”, dez bilhões de dólares americanos desapareceram depois que o governo dos EUA congelou a ajuda ao desenvolvimento em janeiro e, posteriormente, dissolveu a agência de desenvolvimento USAID .

Mas, no geral, as doações para a saúde global diminuíram em cerca de 21%. Tudo isso tem consequências para a luta contra doenças disseminadas e potencialmente mortais como o HIV/AIDS e a malária, mesmo que, teoricamente, medidas preventivas estivessem disponíveis. No ano passado, a revista Science celebrou uma nova forma de profilaxia pré-exposição (PrEP) para proteção contra a infecção pelo HIV como a descoberta de 2024. Mas, se faltar financiamento para o uso generalizado, mesmo o desenvolvimento dos melhores medicamentos será inútil.

Um novo medicamento contra a gonorreia está na lista de descobertas científicas da revista Science para 2025. O desenvolvimento de novos medicamentos tornou-se urgentemente necessário após o último antibiótico eficaz contra a infecção sexualmente transmissível ter apresentado crescente ineficácia. Esta é uma boa notícia para os 80 milhões de pessoas que contraem gonorreia anualmente, especialmente porque a doença também aumenta o risco de infecção pelo HIV. No entanto, como acontece com muitas outras, essa boa notícia só será verdadeiramente benéfica se todos os afetados tiverem acesso ao tratamento.

A edição genômica amplia os limites

Outros dois avanços médicos que a revista “Science” destaca como revolucionários ainda não são acessíveis ao público em geral: a primeira edição genômica bem-sucedida em um bebê e o aumento do transplante de órgãos de porcos geneticamente modificados em pacientes humanos.

Um bebê nascido na Filadélfia com uma doença rara foi tratado pela primeira vez com edição genética personalizada. O bebê, que de outra forma poderia ter precisado de um transplante de fígado ou não ter sobrevivido por muito tempo, recebeu alta do hospital após pouco mais de 300 dias. O tratamento teve como alvo um defeito genético que impede a produção de uma enzima hepática específica, o que, por sua vez, leva ao envenenamento por amônia no organismo.

Para pessoas com doenças raras causadas por um defeito em um único gene, a história do bebê KJ Muldoon oferece esperança – no entanto, o tratamento personalizado custa milhões. Mesmo que se espere que essas terapias se tornem mais baratas com o uso mais frequente, a questão ética no futuro será quem terá que pagar por elas e quem não terá.

“Fui demitido porque defendi a integridade científica.”

Susan Monarez, 
ex-diretora do CDC

Embora ainda longe de ser um padrão médico, os chamados xenotransplantes, nos quais órgãos de animais – geralmente porcos geneticamente modificados – são transplantados para humanos, estão se mostrando cada vez mais promissores. Os porcos são geneticamente modificados para tornar menos provável a rejeição de seus órgãos pelo corpo humano. A esperança é que os órgãos de porco possam um dia suprir a escassez de órgãos humanos para transplante.

Este ano, dois pacientes, um nos EUA e outro na China, sobreviveram graças a um rim de um porco geneticamente modificado. Este é um novo recorde para “órgãos doados” desta espécie em humanos. Em comparação, após um transplante renal em humanos, 90% dos pacientes sobrevivem ao primeiro ano. Mas o progresso na área de xenotransplantes é enorme.

Diversas empresas estão trabalhando para alcançar o objetivo de, um dia, produzir comercialmente órgãos geneticamente modificados para transplante em humanos. Duas dessas empresas receberam aprovação da Food and Drug Administration (FDA) em 2025 para realizar ensaios clínicos com tais órgãos. Assim como ocorre com os órgãos humanos, espera-se que as taxas de sobrevida aumentem no futuro. No entanto, permanece a questão de saber se a criação e o manejo de porcos como doadores de órgãos humanos são eticamente justificáveis. Os animais provavelmente teriam que ser mantidos em condições estéreis – ou seja, em isolamento, o que está longe de ser apropriado para a espécie.

A ciência, e especificamente a edição genômica nos casos mencionados, está ultrapassando limites, e as consequências continuarão sendo debatidas publicamente; regulamentações eticamente aceitáveis ​​precisam ser encontradas.

O escândalo do Ano da Ciência 2025 é e continua sendo a campanha contra descobertas já consolidadas, como as da pesquisa climática, bem como a falha na assistência médica e na prevenção de doenças para os mais pobres.


Fonte:  Neues Deustchland

Ativistas contra as mudanças climáticas temem estar perdendo a guerra da informação para as petroleiras

As mudanças políticas, o intenso lobby e a crescente desinformação online têm prejudicado os esforços internacionais para responder à ameaça

Dois manifestantes encapuzados, com os capuzes sobre a cabeça, levantam os punhos sob um globo gigante suspenso na conferência COP30.

Países ricos em petróleo, incluindo os EUA, estão minimizando o consenso científico de que a queima de combustíveis fósseis está aquecendo o planeta de forma perigosa.Crédito: André Penner/Associated Press

Por Lisa Friedman e  Steven Lee Myers para “The New York Times” 

Quando quase 200 nações assinaram o Acordo de Paris de 2015, reconhecendo a ameaça do aumento das temperaturas globais e prometendo agir, muitos esperavam que a era da negação das mudanças climáticas finalmente tivesse chegado ao fim.

Dez anos depois, ela retornou com força total, possivelmente mais forte do que nunca.

Ao encerrarem as negociações climáticas anuais das Nações Unidas no último sábado, os delegados que têm feito campanha para reduzir o uso de combustíveis fósseis expressaram crescente alarme com o fato de que as forças contrárias a eles estão ganhando terreno na guerra da informação.

As indústrias de petróleo, gás e carvão continuam a minimizar o consenso científico de que a queima de combustíveis fósseis está aquecendo o planeta de forma perigosa. Essa estratégia tem sido adotada por países ricos em petróleo, como a Rússia, a Arábia Saudita e — durante o governo Trump — os Estados Unidos.

O presidente Trump ridiculariza o aquecimento global, chamando-o de farsa, com o apoio de um coro de influenciadores online que regularmente promovem desinformação em plataformas de mídia social que antes tentavam combatê-la. Embora essas opiniões já tenham sido descartadas como teorias da conspiração, sua influência nos debates sobre políticas globais cresceu consideravelmente.

A declaração final das negociações da ONU , realizadas em Belém, no Brasil, sequer mencionou a expressão “combustíveis fósseis”.

“Pensávamos que boas ideias levariam as pessoas a agir”, lamentou J. Timmons Roberts, pesquisador da Universidade Brown e diretor executivo de sua Rede de Ciências Sociais sobre o Clima, em uma coletiva de imprensa na véspera das negociações.

“Na verdade, houve uma campanha bastante sistemática, sofisticada e extremamente bem financiada”, disse ele. “Eles conseguiram minar a ação climática globalmente.”

A cúpula climática deste ano ocorreu em um contexto de aumento da perfuração e da mineração — no Brasil, o governo anfitrião concedeu recentemente uma licença à estatal petrolífera para explorar novas fontes de petróleo perto da foz do rio Amazonas.

Chaminés e vários edifícios industriais, incluindo um com o nome da Petrobras na fachada.

Apenas algumas semanas antes da cúpula, veio a notícia de que a Petrobras, estatal petrolífera brasileira, receberia permissão para perfurar perto da foz do Rio Amazonas pela primeira vez. Crédito: Andre Penner/Associated Press

Ainda assim, o líder do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, abriu as negociações denunciando os obstrucionistas que “rejeitam as evidências científicas e atacam as instituições”.

O problema tornou-se tão grave que a cúpula, pela primeira vez, colocou o assunto na agenda. Uma coalizão de países e agências internacionais emitiu uma “Declaração sobre Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas”, que insta os governos a combater a desinformação climática, promover a transparência e proteger jornalistas, cientistas e ambientalistas.

A iniciativa, no entanto, carece de detalhes sobre como os governos devem proceder. Até sexta-feira, apenas 21 dos quase 200 países que assinaram o Acordo de Paris também haviam assinado a declaração sobre desinformação.

O senador Sheldon Whitehouse, democrata de Rhode Island, que esteve em Belém e participou de várias cúpulas sobre o clima, disse que a adesão global ao Acordo de Paris pela maioria dos governos e grandes corporações obscureceu, por um tempo, a ainda forte oposição ao fim dos combustíveis fósseis.

“Acho que havia certa confiança na época de que, quando os governos se reunissem e todos apresentassem seus compromissos nacionais, todos sentiriam que iríamos superar isso facilmente”, disse o Sr. Whitehouse. “Agora, acho que há uma melhor compreensão da verdadeira natureza da campanha de desinformação e corrupção em torno dos combustíveis fósseis.”

O Sr. Lula afirmou que a cúpula deste ano “representaria mais uma derrota para o negacionismo”. Em vez disso, houve dificuldades em se chegar a um consenso.

A declaração final da conferência endossou o apelo para promover a “integridade da informação” e destinou mais verbas para os países vulneráveis ​​atingidos por catástrofes climáticas. No entanto, incluiu apenas um acordo voluntário entre as nações para iniciar discussões sobre um “roteiro” para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. Esse resultado modesto só foi alcançado após um impasse acirrado com os países produtores de petróleo do Golfo Pérsico.

Os críticos atribuíram os resultados modestos aos interesses do petróleo, gás e carvão, que têm marcado presença crescente nas cúpulas da ONU nos últimos anos. Uma análise dos delegados realizada por um grupo chamado coalizão “Expulse os Grandes Poluidores” constatou a participação de 1.600 representantes de combustíveis fósseis nas negociações de Belém, número que inclui diplomatas de países com empresas petrolíferas estatais.

“Mais uma vez, os lobistas dos combustíveis fósseis superaram em número muitas delegações dos países mais afetados pela crise climática”, disse Brice Böhmer, diretor de clima e meio ambiente da Transparência Internacional, uma organização sem fins lucrativos com sede em Berlim, em um comunicado.

Na imagem, um trem de carga é visto próximo a uma estrada.

Segundo uma análise da coalizão Kick Big Polluters Out, 1.600 representantes de combustíveis fósseis, incluindo diplomatas de países com empresas petrolíferas estatais, participaram da COP30. Crédito: Jared Hamilton para o The New York Times

Para os críticos do movimento ambientalista, a mudança de sentimento demonstrada no Brasil representou uma vitória após anos de pressão sobre as indústrias de energia.

“A realidade nos atingiu em cheio”, disse Steven J. Milloy, fundador do JunkScience.com, um site que contesta o consenso científico sobre as mudanças climáticas. “As pessoas estão percebendo agora que precisamos de combustíveis fósseis. Os combustíveis fósseis vieram para ficar.”

As pesquisas mostram consistentemente que a maioria dos adultos em todo o mundo e nos Estados Unidos considera as mudanças climáticas uma séria ameaça.

Ao mesmo tempo, um número crescente de pesquisas alerta que a desinformação climática — desde afirmações enganosas do Sr. Trump de que as turbinas eólicas “matam todos os pássaros” até hashtags virais que proclamam que a energia limpa é uma farsa — está aumentando constantemente, amplificada pelas redes sociais.

Um estudo recente revelou que a estratégia não é sutil . Os céticos climáticos apresentam sua posição como “projetando racionalidade, autoridade e autocontrole masculino”, enquanto aqueles que reconhecem o aquecimento global “são retratados por meio de imagens emocionalmente carregadas, feminizadas e irracionais”, e rotulados de “alarmistas” que propõem soluções radicais.

As campanhas políticas seguem a mesma estratégia. Os republicanos frequentemente alegavam que o governo Biden estava tentando “emascular” os motoristas americanos, forçando-os a usar veículos elétricos. Lee Zeldin, administrador da Agência de Proteção Ambiental (EPA) do governo Trump, classificou as mudanças climáticas como uma “religião”, em vez de reconhecê-las como o que realmente são: uma questão de física.

Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, afirmou que o Sr. Trump estava buscando “aumento da produção de energia, não transição energética”.

“O presidente deu um forte exemplo para o resto do mundo ao reverter o curso do escândalo da energia verde e liberar nossos recursos naturais, como o belo e limpo carvão e o gás natural, para fortalecer a estabilidade de nossa rede elétrica e reduzir os custos de energia”, disse ela, citando argumentos que muitos economistas contestam.

Ainda assim, as políticas do Sr. Trump ameaçam mais de 500 projetos de energia solar e armazenamento de energia nos EUA, que deveriam fornecer 116 gigawatts de capacidade. Sua administração também cancelou uma garantia de empréstimo de US$ 4,9 bilhões para uma linha de transmissão de 1.287 quilômetros (800 milhas) que transportaria principalmente energia eólica das Grandes Planícies para algumas das partes mais sobrecarregadas da rede elétrica do país.

As plataformas de redes sociais, podcasts e outras formas de mídia amplificam regularmente a desinformação climática.

Um exemplo recente: quando os delegados foram evacuados após um incêndio em um pavilhão durante a COP30, um blog que promove a negação das mudanças climáticas sugeriu — sem qualquer evidência — que uma bateria “proclamada tecnologia limpa” foi a causa. A publicação foi compartilhada dezenas de vezes, inclusive por opositores proeminentes da ciência climática, embora o ministro do Turismo do Brasil tenha afirmado que o incêndio provavelmente foi causado por um curto-circuito na fiação elétrica.

Operários apontam um extintor de incêndio para um grande foco de incêndio no centro de conferências da COP30.
Um incêndio ocorrendo no Pavilhão dos Países na COP30. Crédito: Douglas Pingituro/Reuters

Embora os críticos tenham pedido que as plataformas de mídia social façam mais, elas, em vez disso, recuaram nos esforços para combater a desinformação climática. “Agora é mais fácil para os céticos climáticos divulgarem sua mensagem”, disse o Sr. Milloy, que anteriormente atuou como conselheiro da equipe de transição do Sr. Trump para a Agência de Proteção Ambiental.

Na véspera da posse de Trump, em janeiro, Mark Zuckerberg, diretor executivo da Meta, empresa controladora do Facebook, anunciou menos restrições a tópicos políticos, encerrando um programa de verificação de fatos nos Estados Unidos que rotineiramente denunciava aqueles que contestavam a ciência climática.

O YouTube proíbe que promotores de desinformação climática monetizem suas contas ou comprem anúncios, mas diversos estudos argumentam que a plataforma não aplica suas regras com rigor.

“Muita gente está ganhando muito dinheiro com essas manchetes sensacionalistas”, disse Rachel Cleetus, diretora sênior de políticas climáticas e energéticas da União de Cientistas Preocupados (Union of Concerned Scientists), que assessorou a elaboração da declaração de integridade da informação. “Este não é apenas um espaço neutro onde a informação flui.”

O Sr. Whitehouse afirmou que o lucro será sempre o objetivo principal da indústria de combustíveis fósseis e de outros que se opõem a esforços significativos para combater as mudanças climáticas.

“Em certo sentido, temos perdido a guerra contra a desinformação climática desde o início”, disse o Sr. Whitehouse. “Estamos onde estamos porque fomos completamente ineficazes em repelir décadas de bombardeio de desinformação.”

Lisa Friedman é repórter do The New York Times e escreve sobre como os governos estão lidando com as mudanças climáticas e os efeitos dessas políticas nas comunidades.

Steven Lee Myers cobre desinformação e notícias falsas em São Francisco. Desde que ingressou no The Times em 1989, ele já fez reportagens em todo o mundo, incluindo Moscou, Bagdá, Pequim e Seul.


Fonte: The New York Times

Mostra agrícola da COP30 é patrocinada pelo agronegócio ligado ao desmatamento e ao lobby anti-conservacionismo

O pavilhão “Agrizone” será patrocinado por gigantes multinacionais de agrotóxicos e lobistas do agronegócio brasileiro, aos quais foram oferecidos “visibilidade” e “ganho de imagem”

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, na Plenária Geral de Líderes da COP30 em Belém, Brasil, em 6 de novembro de 2025. A agência governamental brasileira de agricultura está sediando a Agrizone. Foto: Pablo Porciuncula / AFP via Getty Images

Por Naira Hofmeister e Lucy Jordan para o “Unearthed” 

Entre os patrocinadores do pavilhão da agricultura sustentável na COP30, a cúpula climática deste ano no Brasil, estará a gigante de pesticidas e sementes Bayer , que, segundo ativistas sul-americanos, promove um modelo de agricultura industrial que está impulsionando o “desmatamento em massa ” no continente . 

A Bayer pagará pelo menos R$ 1 milhão (£ 142.000) pelo patrocínio “diamante ” do pavilhão “Agrizone”. Organizada pela Embrapa, a Agrizone sinaliza a influência do agronegócio no Brasil e sua determinação em se apresentar como sustentável, apesar das altas emissões do setor e de seus comprovados vínculos com o desmatamento .   

A Bayer enfrenta uma denúncia em andamento na OCDE por parte de grupos do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, que a acusam de promover um modelo agrícola na América do Sul que impulsiona o desmatamento , a perda de biodiversidade e conflitos com comunidades indígenas . 

A multinacional alemã é uma das principais empresas do mercado sul-americano de sementes geneticamente modificadas e pesticidas relacionados, utilizados no cultivo de soja.

“Essa monocultura exige o desmatamento de grandes áreas de terra em países que enfrentam enormes conflitos de posse de terras. A Bayer está realmente promovendo um modelo de agronegócio e uma fronteira da soja que impacta negativamente os direitos humanos e ambientais”, disse Cristina Hernandez Hurtado, Assessora Jurídica Sênior do Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), uma das organizações que apresentaram a queixa à OCDE . 

A placa da Embrapa pode ser vista na Agrizone, um pavilhão dedicado à agricultura sustentável, na COP30 em Belém, em 7 de novembro de 2025. © Hyury Potter / Unearthed

“A Bayer tem tentado se posicionar como sustentável, e vemos sua participação na COP em uma escala tão grande como um grande esforço para apresentar essa imagem ao mundo todo”, acrescentou ela. “Somos céticos em relação a essa mensagem.” 

Qualquer pessoa pode apresentar uma queixa aos Pontos de Contato Nacionais da OCDE sobre supostas violações de direitos humanos por parte de empresas. A OCDE não tem o poder de impor sanções, mas pode iniciar um processo de mediação entre os reclamantes e a empresa .

Outros patrocinadores do pavilhão Agrizone incluem a Senar , braço da principal associação do agronegócio brasileiro, a CNA , e a UPL , fabricante indiana de agrotóxicos que fornece ao Brasil produtos contendo substâncias químicas proibidas na União Europeia. Essas substâncias químicas ainda podem ser legalmente vendidas por empresas europeias ao Brasil. 

Juntos, esses patrocinadores pagaram pelo menos R$ 4,4 milhões (£ 625.000) por exposição da marca, salas de negociação privadas, direito de sediar eventos e espaços para discursos em debates sobre o clima .

Um rascunho de contrato obtido pela Unearthed por meio de um pedido de acesso à informação promete aos patrocinadores “visibilidade” e “ganho de imagem” por sua “associação com empresas comprometidas com as mudanças necessárias para enfrentar… as mudanças climáticas” .

O presidente Lula faz sinal de positivo ao lado de chefes de Estado e representantes na Cúpula de Líderes, antes da COP30, a conferência climática da ONU, em Belém, Pará, Brasil. Foto: Mauro Pimentel /AFP via Getty Images

Brice Böhmer, do grupo de campanha Transparência Internacional, alertou que os anfitriões da COP30 deveriam ser “cautelosos com o acesso privilegiado que às vezes é concedido às empresas”, já que, por vezes, existe “uma discrepância entre a forma como as empresas se apresentam” e o trabalho que realizam para “promover soluções que sejam do seu próprio interesse… a portas fechadas”.

O ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Favaro, deverá trabalhar na Agrizone durante a cúpula . O ministério não respondeu ao pedido de comentário . 

Böhmer defendeu uma política de conflito de interesses para regular a visibilidade e o acesso concedidos às empresas nas cúpulas da COP.

“As cúpulas climáticas da ONU estão se tornando plataformas para ações climáticas genuínas ou para desinformação e influência indevida da indústria?”, questionou. “Para que as COPs impulsionem ações climáticas reais, não deve haver espaço para aqueles que fazem lobby contra seus objetivos .”   

Um porta-voz da Bayer afirmou que “Combater as mudanças climáticas exige esforços coletivos em toda a cadeia produtiva… Na COP, portanto, participaremos de discussões sobre soluções baseadas na ciência para o combate às mudanças climáticas.” 

Agrotóxicos são pulverizados em uma plantação de soja recém-semeada no Mato Grosso, principal estado produtor de soja do Brasil. A Bayer é atualmente alvo de uma denúncia à OCDE devido aos impactos de suas atividades com soja e agrotóxicos. Foto: Lucas Ninno / Getty Images

Em julho de 2024, a Bayer respondeu formalmente à queixa da OCDE, detalhando a situação e afirmando que a empresa levava “muito a sério todas as informações sobre potenciais impactos adversos aos direitos humanos e ao meio ambiente”, mas que, com base em sua própria pesquisa e nas informações fornecidas pelos reclamantes, “não foi possível identificar qualquer ligação entre os impactos adversos e os negócios da Bayer”.

Em comunicado, a Embrapa afirmou que, como instituição pública de pesquisa e inovação, “baseia suas ações e todos os seus relacionamentos na ética, na transparência e em um compromisso inabalável com a legislação ambiental e de direitos humanos no Brasil e no mundo”.

Acrescentou ainda que rejeita práticas que tenham sido “comprovadamente” constituídas de desflorestação ilegal, utilização indevida de pesticidas ou violação dos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

A Embrapa tem feito campanha recentemente para que o Brasil adote o GWP* , uma nova métrica para medir o impacto climático do metano, um gás de efeito estufa, que visa levar em consideração o fato de o metano se decompor rapidamente na atmosfera. Os críticos argumentam que a adoção desse padrão permitiria que grandes emissores, como a pecuária, mascarassem sua contribuição para o aquecimento global.

A expansão das fazendas de gado é a principal causa do desmatamento na Amazônia brasileira, e a pecuária é uma fonte significativa de metano. A Embrapa, anfitriã do Agrizone, recentemente fez campanha para que o Brasil adote o GWP* (Potencial de Aquecimento Global) para medir o impacto climático do metano. © Getty Images

Hannah Daly, professora de Energia Sustentável na University College Cork, afirmou que se o Brasil, o maior exportador de carne bovina do mundo, adotasse o GWP*, isso criaria um “precedente desastroso”.  

Ela acrescentou que a Embrapa estava promovendo “uma métrica que permitiria ao enorme setor pecuário brasileiro reivindicar a “neutralidade climática”, mantendo, ao mesmo tempo, altas emissões de metano”.

A Embrapa afirmou que “as discussões sobre os SLCPs [poluentes climáticos de vida curta] devem continuar sendo tema de encontros científicos antes de serem adotadas ou abandonadas. A Embrapa considera que a divergência e o debate são partes fundamentais do desenvolvimento científico e devem ser baseados em argumentos fundamentados em evidências científicas.”

Desmatamento e conflitos fundiários

A Bayer é uma força dominante no mercado sul-americano de sementes de soja geneticamente modificadas e dos herbicidas utilizados nelas. 

O desenvolvimento de sementes resistentes a herbicidas transformou a indústria da soja no Brasil, onde, segundo relatos, até 98% da safra é geneticamente modificada. A expansão do cultivo da soja consumiu vastas extensões de terra , impulsionando o desmatamento e conflitos fundiários nas fronteiras da Amazônia e do Cerrado. 

“Essa remoção muitas vezes está ligada a despejos forçados ou à invasão de comunidades indígenas e camponesas ” , disse Cristina Hernandez Hurtado à Unearthed . 

As terras indígenas Guasu Guavirá, no oeste do Paraná, estão em disputa – lar de aldeias indígenas, mas reivindicadas por agricultores cujos campos de soja as cercam . 

A soja é irrigada no Mato Grosso, onde a cultura é cultivada em vastas extensões de terra que antes eram florestadas. © Matt Mawson / Getty Images

“Não temos liberdade. E muitas comunidades fazem fronteira com terras agrícolas. Então, os agrotóxicos são pulverizados a 5 metros, a 10 metros das casas dos Guarani”, disse Ilson Soares, líder da aldeia Yvy Okaju da terra Guasu Guavirá. 

Ele acrescentou que os agricultores, por vezes, usaram pesticidas contra os povos indígenas como uma “arma química”. 

“Os agrotóxicos também causam ansiedade, tristeza”, disse uma líder indígena da região de Guasu Guavira, que pediu anonimato para evitar ameaças.   Ela acrescentou: “Quando se trata de pesticidas e de plantações de soja, nada é sustentável”.

O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de soja, com uma produção estimada em 169,5 milhões de toneladas em 2024-25. O Reino Unido importou £243 milhões em soja do Brasil em 2024 , mais do que de qualquer outro país , principalmente para alimentação animal . 

A denúncia da OCDE contra a Bayer também cita impactos na Bolívia, onde, segundo ela, a soja geneticamente modificada agora utiliza cerca de 50% das terras cultivadas e cerca de 436.000 hectares de floresta foram desmatados para o cultivo de soja entre 2011 e 2022 . 

A Bayer não respondeu diretamente às perguntas da Unearthed relacionadas às alegações da denúncia da OCDE, mas afirmou que “a Bayer historicamente fez da sustentabilidade um de seus principais pilares estratégicos e contribui globalmente com soluções e iniciativas inovadoras relacionadas à agricultura, saúde, transição energética e sistemas alimentares sustentáveis”.

Hurtado, do ECCHR, disse que o escritório nacional da OCDE na Alemanha deve decidir em breve se irá mediar a queixa.  

A UPL, fabricante indiana de agrotóxicos, também patrocinará a Agrizone. A UPL pagou R$ 900.000 (£ 125.000), garantindo diversos espaços de marca e um estande de 300 m² . A partir de 2023, a UPL foi autorizada a vender 136  agrotóxicos no Brasil contendo substâncias proibidas na União Europeia devido a preocupações com a saúde humana ou o meio ambiente .

A UPL não respondeu ao pedido de comentário. 

Lobistas anti-conservacionistas

A Senar, patrocinadora da Agrizone, é o braço educacional da CNA, a maior associação de agronegócio do Brasil. A Senar pagou R$ 2,5 milhões (cerca de £ 360 mil) pelo “patrocínio master”, o nível mais alto . Recentemente,a CNA apoiou o chamado “projeto de lei da devastação” do Brasil, um pacote de reformas legais condenado por grupos ambientalistas por supostamente afrouxar o licenciamento ambiental. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o projeto, em sua versão original, prejudicaria a promessa do país de eliminar o desmatamento até 2030. Em contrapartida, a CNA apoiou publicamente o projeto, argumentando que ele reduziria a burocracia. 

Gado é visto perto de uma área recentemente desmatada na Amazônia. A CNA tem feito lobby contra a legislação da UE destinada a impedir a importação de carne bovina, soja e outras commodities provenientes de terras desmatadas. © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas

A CNA também liderou os esforços para revogar a Moratória da Soja na Amazônia, um acordo histórico para bloquear a venda de soja ligada ao desmatamento . Em fevereiro, a CNA apresentou uma denúncia ao Departamento de Execução de Armas de Defesa Econômica (CADE), alegando que a moratória era “ilegal”. 

O CADE deu um passo preliminar para suspender a ASM , mas um tribunal federal reverteu essa decisão; uma decisão final está pendente. Estudos demonstraram que a moratória reduziu significativamente o desmatamento na Amazônia. 

A CNA também fez lobby contra a legislação EUDR, que proíbe a importação pela UE de produtos provenientes de terras desmatadas, classificando-a como uma “ restrição comercial significativa ”. 

A CNA não respondeu ao pedido de comentário. A Embrapa afirmou que, embora a Senar seja uma entidade privada, possui “fortes laços e objetivos públicos, já que atua principalmente em formação profissional, assistência social e promoção da qualidade de vida dos trabalhadores. Portanto, são atores relevantes no ecossistema de inovação da agricultura e da agricultura familiar, visto que desempenham uma importante função social que complementa a da Embrapa”.

Negação e desinformação sobre as mudanças climáticas 

Em julho, os organizadores da COP30 prometeram combater a desinformação. Mas dois dos patrocinadores da Agrizone foram recentemente associados à negação das mudanças climáticas.

A Bayer patrocina o Agro Bar, um podcast focado no agronegócio, que em 2023 entrevistou o notório negacionista brasileiro das mudanças climáticas, Luiz Carlos Molion . No episódio, Molion afirmou que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é responsável por “terrorismo climático ” . Ele descarta o CO2 como um fator climático significativo, chamando-o de um “gás da vida ” vital, com um efeito atmosférico tão pequeno que é imperceptível . 

Membros da Academia Brasileira de Ciências refutaram publicamente as teorias de Molion .

Um porta-voz do podcast Agro Bar afirmou que o objetivo era “ampliar o debate e trazer diferentes vozes e pontos de vista sobre questões que impactam o agronegócio e a sociedade” e que “a Bayer não teve qualquer envolvimento na pauta, na escolha do entrevistado ou na produção do episódio em questão”. 

Durante o episódio, os apresentadores não contestaram nenhuma das opiniões de Molion. 

“A ausência de questionamentos imediatos aos convidados, ou de reações humorísticas em momentos específicos, são características do formato de debate livre e não implicam a promoção de falsidades ou desinformação”, disse o porta-voz.

Molion também tem ministrado palestras regularmente em eventos organizados pela Senar, patrocinadora do Agrizone, onde é apresentado como “o maior especialista em clima do Brasil”. Em uma palestra da Senar em 2023, Molion afirmou que a chuva na Amazônia “não tem absolutamente nenhuma influência sobre o resto do país” e que o desmatamento não tem impacto no clima global. 

Molion não respondeu ao pedido de comentário.

A Bayer não comentou a participação de Molion no Agrobar e continua patrocinando o podcast. 

Outro convidado frequente das conferências da CNA/Senar , o ex-cientista da Embrapa Evaristo de Miranda , foi acusado de liderar um grupo de pesquisadores que intencionalmente produziu “ controvérsias falsas que impactaram seriamente a conservação ambiental, particularmente em questões relacionadas ao desmatamento e às mudanças climáticas”.  

As afirmações de Miranda, feitas por meio de relatórios, apresentações e artigos de jornal, incluíam a de que as proteções ambientais do Brasil são as mais fortes do mundo, que as leis de conservação dificultam o desenvolvimento e que a preocupação com o desmatamento da Amazônia é infundada.

Miranda não respondeu ao pedido de comentário. 

O professor Klaus Jensen , da Universidade de Copenhague, co-liderou uma revisão sistemática de 300 artigos científicos sobre desinformação climática. Ele disse à Unearthed que a iniciativa do governo brasileiro de combater a desinformação era importante, mas que: “a inclusão de patrocinadores que anteriormente e continuamente apoiaram vozes negacionistas e contrárias em relação às mudanças climáticas coloca em questão o valor deste componente da COP30”.


Fonte: Unearthed

Um balanço amargo dos resultados do segundo turno das eleições municipais: a negação da política colocou o chicote nas mãos dos açoitadores

Flooding due to heavy rains in Rio Grande do Sul

Experiência devastadora das chuvas teve pouco ou nenhum impacto nas eleições municipais em Porto Alegre. Diego Vara/Reuters

Por João Anschau

Findado o segundo turno das eleições municipais é possível cravar sem medo de errar que os grandes perdedores destas eleições somos eu e você. Sim, nós dois ganhamos mais uma derrota. A novidade é que não tem nada de novo nesse resultado. Um trabalho árduo da criminalização da Política, aliado à miopia institucional de líderes estrategistas de ar condicionado no 19, pariu frutos nada saborosos e que terão que ser degustados por mais alguns anos.

A começar! Barrou-se toda e qualquer iniciativa que ousasse discutir, por exemplo, os impactos das mudanças climáticas nas nossas vidas nada românticas, e a consequente necessidade de colocar na agenda, colada na porta da geladeira, a preservação do que ainda resta de biodiversidade. Os poucos que se atreveram foram carimbados de apocalípticos. É mais fácil, cômodo e covarde fazer cara de paisagem, cordial e pacificador. Estes, confundem a fumaça branca do Vaticano com as queimadas produzidas e reproduzidas como de costume, achando que ambos sinalizam o mesmo. 

“Aos vencedores as batatas”

 A abstenção é uma vitória retumbante da chamada “grande” imprensa. Ela, que costuma usar seu o poder persuasão e chantagem, dá as cartas e joga de mão. Tem uma sorte danada e não perde nunca. Como estratégia prefere brigar com os fatos, jamais com os anunciantes. A informação é tratada como mercadoria e as narrativas são moldadas ao gosto do freguês. Umas quantas no cravo e, para vender imparcialidade gourmet, outra na ferradura lá de vez em quando. O Estado deve ser mínimo, minguado, para mim e para você que lê esse escrito agora. Tudo que envolve a política é tratada como uma doença incurável, capaz contaminar o bem bolado bolado pelos liberais que não conseguem viver sem as benesses do poder público. Não é incoerência. É um projeto. A indignação seletiva é alimentada e fortalecida diariamente e o alvo é sempre o mesmo. Os “liberais” não dormem. 

E o ganhador é…?

O acontecido no segundo turno em Porto Alegre já apresentou múltiplas análises. Não é tarefa simples processar o resultado final que reconduz um gestor incapaz de fazer o básico, e que tem como sua maior marca o  negacionismo. Mesmo tendo um currículo de não serviços prestados para o grosso da população, ele logrou êxito. No frigir dos ovos temos algo bem próximo a síndrome de Estocolmo “mas bah”. Ganhou o discurso do “nós por eles”, capturado e patrocinado pelos causadores do desastre. O homem do chapéu de palha deu um chapéu no sofrimento alheio, juntou-se ao grupo das vítimas e recebeu como prêmio um novo mandato. Uma distopia escrita em tempo real que centrou todo o enredo na frase “não é hora de achar culpados”. Não é necessário fazer nenhum exercício de futurologia para trás e saber qual teria sido o comportamento da mídia hegemônica se o paço municipal tivesse na cadeira de prefeito/a alguém do time da esquerda durante as chuvas de maio.  

Sirvam nossas façanhas, outra vez, de como não fazer e evitem seguir o nosso exemplo. Quem um dia se arvorou o carimbo de estado mais “politizado” do Bra(z)sil, hoje está na série D e correndo sério risco de ser rebaixado para divisões amadoras. Giovani Cherini, um deputado federal eleito democraticamente pelo RS, com o uso das urnas eletrônicas, mesmo que seu partido questione a lisura eleitoral há anos, é o chorume não aproveitável e que contamina toxicamente toda e qualquer tentativa de fazer uma conversa minimamente racional. Esse “nobre” parlamentar, a bem da verdade, não está sozinho nesta empreitada muito bem organizada e que não tem nada de estúpida, faz parte da chamada bancado do agro e como tal atende os interesses de seus patronos. Cherini, com o meu e o seu dinheiro, quer ir até a COP-30 e demonstrar – chupem cientistas, pesquisadores e afins – que o aquecimento global é uma grande mentira.

Contará, provavelmente, com a consultoria muito bem remunerada de Luiz Carlos Molion, o mesmo pesquisador que disse em 2023, no senado, que meteorologistas exageravam quanto à possibilidade de muita chuva no Rio Grande do Sul. Um dia depois da sua eloquente afirmação, parte do estado amanheceu debaixo d’água. Molion não foi folclórico ao contestar a ciência e o trabalho de seus pares. O adjetivo é outro.

O sucesso dos ganhadores do mesmo lado seguiu um roteiro muito parecido. Apostaram no medo e em temas que mexem com o imaginário dos eleitores. Continuarão a multiplicar o receituário de que o fim não está tão no fim assim, e que os extremos – chuvaradas, ciclones… – são parte do pacote da “felicidade” – e do Deus deles que quis assim -, mesmo que não os tenhamos contratado, portanto, seu cancelamento é impossível. E como não temos tempo para o óbvio, preocupados e pautados por trivialidades, interdita-se, em todos os sentidos, qualquer iniciativa que promova o contestar. Portanto, o SERASA não colocará em suas listas o nome dos dos delinquentes responsáveis pelo caos. 

Um levantamento feito pela EMATER/RS, após o dilúvio de maio, mostra um cenário nada paradisíaco quando o assunto é perdas, danos e consequências em se tratando de comida no nosso prato para logo ali adiante. Como vivemos cercados pelo improviso nada genial dos gestores públicos municipais, existe uma grande chance de termos gôndolas quase vazias de comida. E não é preciso ser um gênio para saber que segurança alimentar (para a galera que gosta de armas, vamos acabar com a chaga da fome?) foi mandada às favas mais uma vez em nome do “progresso” e das prioridades da turma do 1%.

As indústrias de processados e de remédios agradecem com generosas doações eleitorais. Sejamos honestos, o senhor e a senhora viu/ouviu durante alguns minguados segundos, dedicados por candidato/a ao legislativo ou a executivo municipal, independente de mídia, alertas – alertas – que o tempo não é – nem será tão cedo – de colheita farta, e que o mundo alimentar não se resume à soja? Ou que tomamos agrotóxicos de copinho, fazendo com que sejamos os top one no campeonato da insanidade produtiva e reprodutiva no uso de venenos? Cartas para a ouvidoria do blog. 

E por que chegamos nesse estágio quase terminal? Diferente do outro Deus, os “nossos” gurus acreditam no poder da magia e da osmose. A imortalidade de sua melhor referência política está na lista depositada no pratinho que fica ao lado da vela de 7 dias. No mundo real, aquele em que a desigualdade ainda reina, o modo no qual a relação é recíproca foi abandonada há muito. Ações simples, mas eficazes, foram deixadas de lado, tornando-se obsoletas. O diálogo contínuo foi deletado das práticas mais elementares. Ao invés de habilidosos camisas 10, o que se apresenta atualmente são caneludos que costeiam o alambrado do lado esquerdo e que comprometem o resultado final. Perdeu-se a mão e a forma fraterna de interação. A disputa para estes não é mais Política, mas, apenas, e tão somente, eleitoral. Alguém, com um mínimo de sensibilidade, precisa alertar essa galera que a balança da conciliação pende toda para o lado dos bem nutridos.

Não existe almoço grátis

“Não existe almoço grátis” ou “é a economia estúpido” deixaram de ser apenas mantras que dão as tintas para parte da sociedade que abandonou o caminho da coletividade e optou pelo pragmatismo do despachante ouvidor, bancado por quem já se deu conta de que no final da contas, problemas têm família grande, como já sentenciou o saudoso Paulo Leminski. Não é tão somente a conquista de corações e mentes, mas, voltar a conhecer e conviver com essa galera que têm corações, mentes, sonhos e muito medo represado. Dá pra ser radical, e manter as origens, sem perder a empatia pelos irmãos de jornada. É importante reforçar que mutações fazem parte de outra gaveta. A apatia e o descontentamento interessa apenas ao adversário que joga no ataque a todo o momento de forma sincronizada. 

Peço desculpas mais uma vez aos seres não racionais pela nossa total e irrestrita incapacidade. De fazer o beabá mais simples. De amar ao próximo como se não houvesse amanhã – nos tempos atuais, o amanhã é tão certo como 2+2 são 3. O breve futuro é uma incógnita, mas mesmo assim os advogados do capitalismo predatório, homens brancos, “héteros” e detentores dos meios, querem nos fazer crer que tudo está sob controle e a falta de freio é psicológico. Ao cabo de tudo o que temos é uma luta de equação básica: mais e mais estupidez resulta em cada vez menos tempo por estas paragens. E as opções, para eu que escrevo e você que acompanhou o texto até aqui, de encontrar outro lar, lamento informar, é zero. E morar em Marte, tô fora. A vizinhança é estranha. Portanto, o último apaga a luz. Espera, depois das privatizações, nem isso mais está garantido.

Relatório mostra que Youtube ganha milhões com novas formas de disseminação do negacionismo climático

A Nova Negação Climática: novo relatório importante no YouTube revela a evolução das táticas dos negacionistas do clima – já que quase um terço dos adolescentes acredita que o aquecimento global é “inofensivo”

YouTube

WASHINGTON, DC, 16 de Janeiro de 2024 – A negação climática no YouTube evoluiu radicalmente nos últimos anos, concluiu um novo estudo, representando um novo desafio para aqueles que procuram apoio público para a acção climática – especialmente entre os jovens.

Pesquisadores do Centro de Combate ao Ódio Digital (CCDH) reuniram um conjunto de dados de transcrições de texto de 12.058 vídeos do YouTube relacionados ao clima postados por 96 canais ao longo de quase seis anos – entre 1º de janeiro de 2018 e 30 de setembro de 2023.

Ao utilizar um modelo de IA para analisar as transcrições do YouTube, a CCDH descobriu uma mudança radical na produção dos negacionistas do clima, das narrativas da “Velha Negação” para o que chamamos de “Nova Negação”.

Nova negação climática: gráfico mostra a evolução da negação climática no YouTube entre 2018 e 2023

“Old Denial” centrou-se em duas narrativas falsas principais, que declinaram:

  • “O aquecimento global não está a acontecer” – o que caiu de 48% de todas as alegações de negação em 2018 para 14% em 2023
  • “Os seres humanos não estão a causar o aquecimento global e as alterações climáticas” – queda de 17% para 16%

“Nova Negação” evoluiu para se concentrar em três narrativas cada vez mais prevalentes:

  • “Soluções climáticas não funcionarão” – aumento de 9% para 30%
  • “A ciência climática e o movimento climático não são confiáveis” – aumento de 23% para 35%
  • “Os impactos do aquecimento global são benéficos ou inofensivos” – aumento de 4% para 6%

As narrativas de “Nova Negação” – que constituíram 35% de toda a negação climática no YouTube em 2018 – representam agora a grande maioria (70%). No mesmo período, a percentagem de “Velha Negação” caiu de 65% para apenas 30% do total de reclamações.

As narrativas da “Nova Negação” foram popularizadas por figuras online como Jordan Peterson ( 7,62 milhões de assinantes ) e foram defendidas em canais como BlazeTV ( 1,92 milhões de assinantes ) e PragerU ( 3,21 milhões de assinantes ).

Os investigadores também descobriram que o YouTube publicou anúncios de marcas conhecidas, como Hilton Hotels e Nike, em vídeos que continham negação climática, bem como anúncios pagos por organizações sem fins lucrativos, como o International Rescue Committee e a Save the Children.

As conclusões do relatório assinalam um grande desafio para aqueles que procuram obter apoio público para a acção climática, afirmou a CCDH.

Uma pesquisa do Pew Research Center , publicada em dezembro de 2023, descobriu que o YouTube é a plataforma de mídia social mais usada entre jovens de 13 a 17 anos. 71% dos adolescentes afirmam usar a plataforma de compartilhamento de vídeos diariamente, incluindo 16% que relatam estar no site quase constantemente.

E uma nova pesquisa conduzida pela Survation para o CCDH este mês (janeiro de 2024) descobriu:

  • 31% dos jovens dos EUA entre os 13 e os 17 anos concordaram que “os impactos do aquecimento global são benéficos ou inofensivos”, incluindo 39% dos rapazes adolescentes
  • 33% de todos os adolescentes disseram que “as políticas climáticas causam mais danos do que benefícios”, incluindo 40% dos rapazes adolescentes
  • 30% disseram que a ciência climática e o movimento climático “não são confiáveis”, incluindo 37% dos adolescentes
  • 31% disseram que as mudanças climáticas são “uma farsa para controlar e oprimir as pessoas”, incluindo 41% dos adolescentes
  • 45% dos rapazes adolescentes disseram que “os políticos estão a exagerar a urgência das políticas climáticas” e 44% acreditam que os cientistas do clima estão a “manipular dados”
  • 34% de todos os adolescentes disseram “A Terra está realmente entrando em uma nova era glacial”, em comparação com apenas 23% dos adultos (18+)
Nova Negação Climática: tabela mostra narrativas de negação climática encontradas pela CCDH

“Os negacionistas do clima têm agora acesso a vastos públicos globais através de plataformas digitais. Permitir que eles reduzam constantemente o apoio público à ação climática – especialmente entre os telespectadores mais jovens – poderia ter consequências devastadoras para o futuro do nosso planeta”, disse Charlie Cray, estrategista sênior do Greenpeace EUA.

“Essas plataformas devem se apropriar das falsidades e das travessuras que propagam. Os riscos são demasiado elevados para – mesmo a esta hora tardia – ajudar e encorajar as narrativas “novas e melhoradas” de desinformação climática dos poluidores”, afirmou o senador norte-americano Sheldon Whitehouse.

A atual política de monetização do Google sobre alegações não confiáveis ​​e prejudiciais afirma que conteúdo que “contradiga o consenso científico oficial sobre as mudanças climáticas” não será monetizado em suas plataformas.

Mas dada a evolução substantiva na negação climática em direcção a narrativas de “Nova Negação” ao longo dos últimos seis anos, a CCDH apela à Google para expandir a sua política para também desmonetizar conteúdos que contradizem o consenso científico oficial sobre as “causas, impactos e soluções” para das Alterações Climáticas.

Sem atualizar esta política, os fornecedores da “Nova Negação” continuarão a lucrar com a negação climática fora dos parâmetros restritos da política atual do Google, disse o Centro.

Imran Ahmed, CEO e fundador do Centro de Combate ao Ódio Digital (CCDH), disse:

“Os cientistas venceram a batalha para informar o público sobre as alterações climáticas e as suas causas, razão pela qual aqueles que se opõem à acção climática cinicamente mudaram o foco para minar a confiança nas soluções e na própria ciência.

“Os jovens passam muito tempo em plataformas de compartilhamento de vídeos como o YouTube. Estas novas formas de negação do clima, que proliferaram rapidamente ao longo dos últimos seis anos, destinam-se a confundir e enfraquecer o apoio público à acção climática nas próximas décadas.

“É hipócrita que as empresas de redes sociais afirmem ser verdes, mas depois monetizem e amplifiquem mentiras sobre o clima.

“É hora das plataformas digitais colocarem o dinheiro onde estão. Deveriam recusar-se a amplificar ou a monetizar conteúdos cínicos de negação climática que mina a fé na nossa capacidade colectiva para resolver o desafio mais premente da humanidade.”

O senador dos EUA Sheldon Whitehouse disse: 

“Em 2023, o ano mais quente da humanidade, as plataformas de redes sociais facilitaram a propaganda de negação climática da indústria dos combustíveis fósseis – e fizeram-no por dinheiro. Estas plataformas devem assumir a responsabilidade pelas falsidades e travessuras que propagam. Os riscos são demasiado elevados para – mesmo a esta hora tardia – ajudar e encorajar as narrativas “novas e melhoradas” de desinformação climática dos poluidores. Poluir a atmosfera da informação para ajudar os poluidores da atmosfera física é uma escolha errada.”

Charlie Cray, estrategista sênior do Greenpeace EUA, disse:

“O Google/YouTube precisa parar de permitir e lucrar com as novas formas de negação do clima. Os negacionistas do clima têm agora acesso a vastos públicos globais através de plataformas digitais. Permitir que reduzam progressivamente o apoio público à acção climática – especialmente entre os telespectadores mais jovens – poderia ter consequências devastadoras para o futuro do nosso planeta.

“A negação total do clima tornou-se tão insustentável quanto fumar nas urgências de um hospital. Mas a investigação da CCDH expõe as novas tácticas que se transformaram em metástases nos últimos anos: atrasos, desvios e ataques falsos a soluções como a energia eólica offshore. O Google/YouTube e outras plataformas devem atualizar e aplicar as suas políticas para reduzir o discurso doentio que continua a envenenar o consenso público e a obstruir o tipo de transição para energia limpa que o nosso planeta e as nossas comunidades tanto necessitam”.

Michael Khoo, Diretor do Programa de Desinformação Climática, Amigos da Terra, disse:

“As Big Tech e as Big Oil espalham conteúdos que estão a impedir a ação climática. Pressionámos a Google para deixar de apoiar a negação do clima no passado, mas eles fizeram pouco. O relatório New Climate Denial mostra uma mudança perturbadora nas tácticas utilizadas para inviabilizar as acções necessárias para evitar mais desastres.

“Plataformas como o YouTube têm bilhões de usuários e monopolizam a atenção dos jovens. Este poder não deve ser usado para promover a negação do clima e, ao mesmo tempo, encher os bolsos de extremistas de direita e de empresas de combustíveis fósseis. As empresas de redes sociais devem parar de amplificar e lucrar com a negação climática que ameaça a ação na crise mais premente da história da humanidade.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi originalmente publicado pelo Center for Countering Digital Hate [Aqui!].

Agronegócio e extrema direita impulsionam máquina de fake news sobre aquecimento global

Associações rurais, mídia e canais digitais operam como palco para cientistas que promovem desinformação ambiental

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Dark Stream/Agência Pública

Por Giovana Girardi, Cristina Amorim, Álvaro Justen, Rafael Oliveira para a Agência Pública

O ano era 2016. O mais quente do registro histórico. Preocupado com os impactos do aquecimento global sobre o cultivo de soja, o então ministro da Agricultura Blairo Maggi, um dos maiores exportadores do grão, convidou o cientista Carlos Nobre para conversar com o conselho do grupo Amaggi. O ministro queria que o pesquisador fizesse uma palestra sobre o que a ciência já sabe sobre os potenciais danos das mudanças climáticas na produção agrícola, principalmente na Amazônia.

Nobre, um dos mais reconhecidos climatologistas do país e um dos maiores especialistas em Amazônia, se preparou para a missão. Conversou com outros pesquisadores, se debruçou sobre dezenas de trabalhos que traziam informações sobre a situação, elaborou a palestra e foi para Cuiabá (MT).

“Os representantes do conselho eram produtores de soja e estavam todos lá. E eu apresentei tudo, todos os riscos. Mostrei que as mudanças climáticas podem tornar toda aquela região sul da Amazônia e norte do Cerrado praticamente impossível para a manutenção de uma agricultura produtiva por causa do excesso de calor”, conta.

Nobre disse aos conselheiros da Amaggi que máximas acima de 40 ºC podem se tornar comuns naquela região, principalmente no inverno, e também na transição para o verão, que é quando se planta a soja. “Nessa temperatura, a soja tem baixíssima produtividade”, disse. E frisou: as mudanças climáticas aceleram muito a frequência de eventos extremos como secas. Já estamos vendo isso acontecer e tende a piorar.

Quando ele encerrou a apresentação e abriu para as perguntas, veio a surpresa. “Porque várias pessoas levantaram as mãos e todas falaram que não havia problema nenhum, que a soja aumenta a sua produção com o calor – o que é completamente falso – e que as mudanças climáticas não estão ocorrendo”, relata.

Meio chocado, Nobre se lembra de ter olhado para Maggi e vê-lo sem graça com a situação. Só um tempo depois ele descobriu o motivo da descrença da audiência. “Todos aqueles produtores de soja tinham recebido antes a visita dos negacionistas Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício.”

Os nomes citados por Nobre são de dois expoentes no Brasil de um grupo pequeno, mas estridente, de pessoas ligadas à academia que negam que o planeta esteja aquecendo ou que atividades humanas seriam capazes de provocar isso. Questionam, ainda, o papel da  Amazônia na distribuição de chuvas no país, a dimensão das queimadas e dizem que o desmatamento não afeta o clima. Não é de hoje que eles se contrapõem ao consenso científico, mas por décadas tiveram poucas aparições com mais destaque. Seu alcance mudou de patamar, porém, nos últimos anos.

Além de fazerem palestras pelo país a convite de associações do setor espalhando o mito de que o aquecimento global não existe – como no evento bancado pela Aprosoja-MT que antecedeu a fala de Nobre em 2016 –, eles foram alçados à categoria de especialistas por congressistas da bancada ruralista no Congresso. Conquistaram espaço em canais não só do agronegócio, como Canal Rural, Notícias Agrícolas, Terraviva e AgroMais, ambos da Band, mas também da extrema direita, como Brasil Paralelo e Revista Oeste.

O negacionismo climático foi incorporado na máquina de desinformação da extrema direita e se expandiu no meio rural. A percepção de cientistas e pesquisadores ouvidos pela reportagem é que uma parte do agronegócio – notadamente quem está na ponta: os produtores e suas associações – se tornou refratária à discussão séria sobre o clima. Virou terreno fértil para o negacionismo e a desinformação ambiental.

Em condição de anonimato, uma liderança do agronegócio afirmou à Agência Pública que o discurso negacionista “impregnou igual mantra” no setor, principalmente entre produtores rurais. “Produtores e lideranças de produtores. A Aprosoja não consome ciência, por exemplo. Já a indústria está mais alinhada com tendências globais”, disse.

Ele aponta que isso tem reflexo direto na representação política do setor, especificamente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Na opinião dessa liderança, a FPA atua hoje sem embasamento técnico. “Como a gente ganha tudo [na arena do Congresso], não precisa de embasamento técnico. Como tem muita força política, o setor está encostado. Ninguém está de fato fazendo política pública. A representação ficou só para o lobby. A única ‘ciência’ que eles usam é a que serve para o lobby. Já quem quer fazer política pública e se baseia em ciência é visto de modo negativo, como ‘ambientalista’. E, enquanto o setor não acredita, ele não muda, não se adapta e ignora outras possibilidades.”

Rastreando a desinformação

Por dois meses, a Pública, com o apoio do Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) , analisou anúncios na Meta (Facebook e Instagram), vídeos no YouTube e outros conteúdos publicados em redes sociais e em sites noticiosos ou não, com o objetivo de rastrear quem está por trás da disseminação do negacionismo climático e da desinformação ambiental no país.

As fontes primárias da desinformação são basicamente um trio formado pelas duas figuras citadas por Nobre – Ricardo Felício, professor de geografia da Universidade de São Paulo (USP), e Luiz Carlos Molion, meteorologista e professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) – e pelo agrônomo Evaristo de Miranda, recém-aposentado da Embrapa, que se tornou guru ambiental do agronegócio e de Jair Bolsonaro.

O palco deles, além das associações do agronegócio que os convidam para palestras, são os canais digitais ligados ao setor e à extrema direita. Miranda e Felício, por exemplo, são colunistas fixos e fontes frequentes de reportagens da Revista Oeste, publicação lançada em março de 2020 que se define como “a primeira plataforma de conteúdo cem por cento comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado”.

Molion é colaborador frequente do Notícias Agrícolas, que se descreve como “um dos mais importantes meios de comunicação do agronegócio brasileiro”, com “comunicação direta com os produtores rurais”. O site diz criar “um espaço com ampla diversidade de opiniões e informações”, mas, conforme pesquisa da Pública na busca avançada do Google, enquanto um negacionista como Molion tem de fato amplo espaço – foram encontradas 250 menções ao nome dele –, além de outras reportagens com questionamentos ao aquecimento global, há pouco espaço para pesquisadores que levam o problema a sério. São só 29 menções a Nobre, por exemplo, apesar de no campo científico a situação ser inversa: Molion tem 46 artigos publicados em periódicos, segundo seu currículo Lattes, enquanto Nobre contabiliza 190.

Foi no Notícias Agrícolas que foi publicada, em 2019, logo no início do governo Bolsonaro, uma carta que Molion, Felício e outros negacionistas – alguns sem nenhum vínculo com ciência – enviaram para o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com cópia para vários outros membros do governo. Conforme o resumo feito pelo site, trata-se de um documento “contestando a posição de ambientalistas que defendem restrições na economia no sentido de minimizar os efeitos de ‘mudanças climáticas’”.

Molion e Miranda aparecem com frequência no Canal Rural. Em maio, o agrônomo foi o entrevistado, por cerca de uma hora, do PodPlantar, um programa de videocasts da empresa Sementes Jotabasso em parceria com o Rural, durante a Agrishow, a maior feira do agronegócio que ocorre todos os anos em Ribeirão Preto. Este ano, o evento foi símbolo do entrevero entre o setor e o governo Lula.

Miranda também é colunista de canais especializados da Band para o setor – o Terraviva e o AgroMais –, além de ser frequentemente entrevistado pela Band News TV. Já Felício é figurinha constante em programas de direita no YouTube. Uma entrevista que deu para o programa Conversa Paralela, da produtora Brasil Paralelo, em agosto do ano passado, para dizer que o “aquecimento global é uma farsa”, já alcançou mais de 1,1 milhão de visualizações.

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Ricardo Felício em entrevista ao Brasil Paralelo. Reprodução

Produtora de documentários e programas conservadores, a Brasil Paralelo se tornou um dos principais veículos de desinformação do país, na opinião de especialistas que investigam o assunto. No campo socioambiental, um dos vídeos considerados mais danosos é o “Cortina de Fumaça”, de 2021, que nega o desmatamento da Amazônia, fala que há “muito alarde” sobre queimadas e que “não existe uma floresta sendo destruída, mas uma floresta sendo preservada”.

“Infodemia socioambiental”

Somente no período entre 31 de março e 27 de junho deste ano, a reportagem contabilizou 31 aparições dos três cientistas negacionistas na mídia – em colunas semanais e entrevistas – e em eventos presenciais. Mas a disseminação desse conteúdo vai muito além deles e foi incorporada por deputados e senadores da FPA, além de influenciadores ligados ao agro e à extrema direita.

É um comportamento que foi apelidado pela equipe do NetLab, liderada pela pesquisadora Marie Santini, de “infodemia socioambiental”, em que a desinformação ambiental se tornou “uma das pautas centrais na propaganda política da extrema direita brasileira, servindo de argumento para o desmonte da proteção do meio ambiente e o avanço sistemático de atividades extrativistas no Brasil”. Essa explicação está em um relatório lançado pelo grupo no começo do ano, após análise do debate socioambiental entre janeiro de 2021 e novembro de 2022, os dois últimos anos da gestão Bolsonaro.

Em geral, os pesquisadores captaram políticos e influenciadores endossando teorias negacionistas e defendendo ações do governo nas questões ambientais. No período eleitoral, disputas sobre os números do desmatamento da Amazônia e propaganda positiva sobre a atuação do agronegócio brasileiro foram predominantes.

A pedido da Pública, o NetLab complementou o levantamento, incluindo postagens dos primeiros meses deste ano. Sob o governo Lula, o conteúdo dos anúncios na Meta mudou um pouco. Passaram a focar, por exemplo, em fatos políticos em debate, como a CPI do MST, ou a discussão sobre o marco temporal para terras indígenas. Foram detectados vários anúncios da FPA, pagos pelo Instituto Pensar Agro, com desinformações sobre o agro, por exemplo, além de críticas à política ambiental do novo governo.

Santini e os colegas Débora Gomes Salles e Carlos Eduardo Barros deram atenção especial à desinformação veiculada em anúncios pagos, que alcançam “de forma sistemática e segmentada, os públicos mais vulneráveis nessas plataformas”.

Por conta da falta de regulamentação jurídica, a transparência desse tipo de negócio ainda é baixa no país. Somente Google e Meta possuem acervos públicos que indicam os anúncios veiculados no Brasil, mas “ainda com graves lacunas na transparência de dados que permitam responsabilizar quem publica conteúdos falsos e, muitas vezes, criminosos”, aponta o grupo. O YouTube, por exemplo, apesar de ter uma política que visa conter a divulgação de negacionismo climático, continua ganhando dinheiro com isso.

Nas duas plataformas, os pesquisadores do NetLab identificaram anúncios de entidades que se relacionam de alguma maneira com o agro com “informações distorcidas e falaciosas sobre o impacto da ação humana no clima e no meio ambiente”. O material foi dividido em dois principais tipos de conteúdos com potencial de produzir falsas crenças sobre esses temas: anúncios promovendo teorias da conspiração que apresentam todo tipo de pauta ambientalista como alarmismo ou exagero de “fanáticos do clima”; e anúncios que buscam apresentar uma “ciência alternativa” àquela que aponta graves níveis de desmatamento e mudança climática.

No primeiro caso, eles destacam como exemplo anúncios da produtora Brasil Paralelo promovendo o “Cortina de Fumaça” e da Revista Oeste sobre reportagem das “ameaças da governança global”. “Eles não questionam diretamente evidências científicas, mas retratam a emergência climática como se fosse mera politicagem ou narrativa manipulada para mascarar interesses ‘globalistas’ de ONGs, veículos da imprensa e governos estrangeiros”, explica o trio de pesquisadores do NetLab.

“Ou seja, para desqualificar uma pauta baseada no conhecimento científico, esses anúncios tentam arrastar a disputa da opinião pública para fora do campo da ciência, como se o que estivesse em jogo não fossem evidências, mas sim narrativas”, complementam.

Reprodução da página de anúncio da Revista Oeste no Facebook. O veículo patrocinou uma publicação com desinformação sobre o aquecimento global

Revista Oeste financiou anúncio no Facebook sobre o aquecimento global. Reprodução

No segundo caso, o NetLab destaca a ocorrência de anúncios que “afirmam não haver nenhuma relação entre o agronegócio brasileiro e a destruição do bioma amazônico ou qualquer outro”. Eles citam como exemplo uma postagem que o deputado federal Rafael Pezenti (MDB-SC) impulsionou na qual afirma que “quem acredita nisso [que o agronegócio desmata] é retardado ou mal (sic) caráter”.

O então candidato pagou à Meta entre R$ 500 e R$ 599 para impulsionar esse conteúdo e alcançou entre 150 mil e 175 mil impressões. O anúncio também convoca o público a “combater as mentiras divulgadas sobre o agro” e diz que os agricultores e pecuaristas brasileiros preservariam uma área de floresta equivalente a 16 países. O mesmo discurso aparece na publicidade da Brasil Paralelo, veiculada na Meta.

É um dado que deriva de um estudo de Evaristo de Miranda, de quando ele ainda estava na Embrapa. A pesquisa virou uma espécie de “bíblia” do agro, mas é bastante criticada por outros cientistas da área, que o acusam de distorcer cálculos e gerar falsas controvérsias. Em meados deste mês, o próprio Miranda afirmou que “o agronegócio não desmata”, em um anúncio pago do Canal Rural e veiculado no Google para promover a entrevista concedida ao PodPlantar, da Jotabasso.

Nessa entrevista, ele lança mão de mais um dado não corroborado por outros pesquisadores: de que R$ 3 trilhões estariam imobilizados em propriedades rurais no Brasil por causa da área que precisa ser mantida preservada em cumprimento do Código Florestal. Ele apresentou esse cálculo pela primeira vez em 2018, em palestra do Foro de Agricultura da América Latina, considerada um marco da desinformação ambiental iniciada antes mesmo de Bolsonaro ser eleito. O vídeo principal soma mais de 440 mil visualizações no YouTube, mas há diversos cortes dele espalhados pela rede que aumentaram seu alcance.

Em vídeo curto publicado no Dia Mundial do Meio Ambiente deste ano no canal Terraviva, ele voltou a citar o dado. “Hoje, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Deveria ser também aqui no Brasil, um dia para se homenagear o mundo rural, em particular os produtores rurais. Porque não existe neste país ninguém que dedique tanto tempo, tantos recursos à preservação do meio ambiente quanto o produtor rural e mesmo assim muito maltratado nesse tema”, enaltece.

Reprodução de vídeo publicado no YouTube do Canal Terraviva, com Evaristo Miranda falando sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente

Evaristo Miranda, pesquisador da Embrapa, em vídeo sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente. Reprodução

Pouco mais de duas semanas depois, o dado foi repetido pelo presidente da Aprosoja, Antonio Galvan, em artigo no Notícias Agrícolas. A reportagem encontrou várias outras menções a esse dado, que não tem respaldo da academia, na voz de influencers do setor em entrevistas à Brasil Paralelo, por exemplo.

No começo de maio, foi a vez de outro político, o senador Marcio Bittar (União Brasil-AC), impulsionar anúncio na Meta citando outro número difundido por Miranda – de que 66% do país se mantém preservado. Esse é um dos dados mais alardeados tanto por representantes da bancada ruralista quanto por apoiadores do setor. “O Brasil, que tem 66% do seu território intacto, enquanto a Inglaterra tem apenas 10% de floresta nativa”, disse Bittar ao criticar cobranças que o rei Charles III, da Inglaterra, fez a Lula.

Nesse caso, trata-se de promover uma interpretação distorcida a partir de um dado real. De fato, o país tem cerca de 66% do território com vegetação remanescente, mas ela está bem longe de estar intacta ou “tal qual Pedro Álvares Cabral encontrou quando chegou ao Brasil” ou como era “no tempo de Adão e Eva”, como dizem entrevistados do “Cortina de Fumaça”.

Estudos com análise de imagem de satélite mostram que boa parte desses remanescentes já sofreu algum tipo de degradação. Pesquisa liderada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicada no início deste ano na revista científica Science, uma das mais importantes do mundo, mostrou que só na Amazônia cerca de 40% do que sobra da floresta já sofreu algum tipo de degradação, o que reduz sua capacidade de prover todos os serviços ambientais e fica muito mais sujeita à destruição pelo fogo, por exemplo.

Bittar chamou atenção nos últimos anos por alçar Molion e Felício à categoria de referências em clima. Ele convidou os dois para participar de um evento promovido pelas comissões de Relações Exteriores (CRE) e de Meio Ambiente (CMA) do Senado em maio de 2019. O vídeo da TV Senado disponível no YouTube com as três horas do evento já teve mais de 44 mil visualizações. O canal próprio do senador publicou um vídeo menor de uma conversa dele com os dois no mesmo dia que teve mais quase 8 mil visualizações.

Reprodução de vídeo publicado no YouTube de Marcio Bittar, Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício durante conversa sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas

Marcio Bittar, Luiz Carlos Molion e Ricardo Felício durante conversa. Reprodução

Agora relator da CPI das ONGs, Bittar convidou Molion e Miranda para prestarem depoimento na comissão.

Objetivo é atacar a ciência que ampara leis ambientais

O sociólogo Jean Miguel, professor associado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, publicou um artigo no começo do ano passado analisando a relação entre o negacionismo climático e o que ele chamou de “impedimento da governamentalização ambiental no Brasil”.

Para ele, não é possível cravar que o principal bastião do negacionismo no Brasil é o agronegócio. Estudando o fenômeno por uma perspectiva histórica, ele vê relação com outros elementos caros à extrema direita, como patriotismo, armamentismo, soberania, religiosidade (a ideia de que o ser humano ganhou de Deus a natureza para usufruir dela).

O pesquisador aponta, no entanto, que há um elemento muito pragmático na forma como uma parcela do agronegócio incorporou o negacionismo não só do aquecimento global como também da ciência que revela os impactos da devastação ambiental, em especial pelo desmatamento.

“É uma forma de produção da ignorância planejada para atingir leis ambientais específicas. Não é toda a ciência que é atacada por negacionistas, mas aquela ciência que faz parte do processo regulatório das leis ambientais e dos acordos internacionais. Aquela ciência que cria um certo processo de regulamentação ambiental, que dá fundamento objetivo para o aconselhamento político nas decisões ambientais”, disse à Pública.

Ele afirma que a meteorologia, por exemplo, é importante para o agro, por isso Molion encontra tanto espaço para falar com esse público. Suas palestras – em entrevista à BBC, ele disse serem 50 por ano – em geral começam com as estimativas de curto prazo sobre como estará o clima para a lavoura na próxima estação, mas depois descambam para o negacionismo. Molion diz que vai ocorrer um resfriamento do planeta nas próximas décadas – contrariando todas as estimativas que apontam para o oposto disso.

Trecho de reportagem publicada no site Canal Rural cita a hipótese de Luiz Carlos Molion sobre o aquecimento global
Reportagem publicada no site Canal Rural cita a hipótese de Luiz Carlos Molion sobre o aquecimento global. ReproduçãoReprodução

“Mudança climática não interessa para o setor quando ela reforça a necessidade de ação contra o desmatamento ou reforça as regras para proteção ambiental dentro da propriedade”, continua Miguel. O pesquisador defende que essa negação não ocorreu de modo contínuo na história recente, mas foi particularmente atuante em momentos em que algo importante na esfera ambiental estava acontecendo, como, por exemplo, a conferência Rio+20, em 2012, que marcava os 20 anos da Rio-92 e trazia a expectativa de acordos internacionais mais robustos de proteção ao ambiente.

Naquele ano, nos meses que antecederam a cúpula, diversos veículos de imprensa deram espaço para quem negava o aquecimento, em uma tentativa controversa de trazer “equilíbrio” para o debate, tratando os dois lados com pesos iguais, quando essa não é a realidade da ciência do clima. Há um consenso científico em torno do tema. Quem nega o aquecimento global ou que ele seja causado pelas atividades humanas e emissões em excesso dos gases de efeito estufa é uma minoria de 1% da comunidade científica mundial.

Foi assim que Ricardo Felício, que nunca publicou um artigo científico sequer sobre a questão climática em toda a sua carreira, foi parar no programa do Jô Soares – evento que alimentou toda uma geração de conspiracionistas. Ele disse que “não tem prova científica do aquecimento global”, que “não há elevação do nível do mar” e que “a Floresta Amazônica se reconstituiria em 20 anos após ser desmatada”.

Foi também em 2012 que foi aprovada no Congresso a reformulação do Código Florestal, a mais importante lei ambiental do país, que define as regras para a proteção da vegetação dentro das propriedades privadas. Nessa mudança, quem teve protagonismo foi Evaristo de Miranda, que convenceu todo mundo de que sobrava pouca terra para a produção no Brasil diante de tanta área que era protegida de alguma maneira. Isso é contestado pela maioria dos pesquisadores da área no país, mas foi encampado pela bancada ruralista.

Para Miguel, esses discursos ganharam tração em momentos-chave da história recente, mas foi com o bolsonarismo que os negacionistas encontraram “solo fértil”. “É uma visão de mundo coerente, um modo de vida completo, e o negacionismo vai estar lá também”, diz.

Nesse contexto, a disseminação desses discursos em canais do agro e da extrema direita serve para legitimá-los. “O negacionismo passa a ser legitimado como narrativa científica. Dentro da ciência eles não têm legitimidade, mas na interface com o agronegócio eles adquirem essa legitimidade”, completa,

Críticas sob anonimato

O anonimato na hora de falar contra os argumentos do negacionismo climático brasileiro é uma condição quase unânime para quem lida diretamente com atores do mundo agro – mesmo quando a intenção é ampliar a produtividade no campo. O receio é que apoiar a boa ciência – e, por consequência, expor a relação direta entre práticas predatórias como o desmatamento com as mudanças climáticas – feche portas.

É o caso de um profissional com passagem por empresas do setor que pediu à reportagem que não fosse identificado. “Se falo sobre sustentabilidade e clima, a pessoa já olha de volta com desconfiança, como se fosse uma nova forma de colonialismo. Ela reproduz o que é inventado, e o que se repete vira verdade”, afirma. “É uma barreira muito grande a vencer antes de debater como transformar a agricultura para melh

Outra pessoa entrevistada que atua junto ao agro e que também pediu anonimato descreve a disseminação de desinformação no setor como regra. “Quando falo de mudanças climáticas, a primeira coisa que respondem é: ‘Você pode me explicar, mas não vai mudar minha opinião’.”

A posição tem um efeito prático negativo para o próprio agronegócio. Como Nobre tentou alertar na reunião com o conselho da Amaggi, as mudanças climáticas já afetam a produtividade agrícola. A cientista Ludmila Rattis, ligada ao Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, e ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), publicou em 2021 um estudo na revista Nature Climate Change demonstrando que 30% das áreas produtoras de soja e milho do Centro-Oeste saíram do ideal climático para a produção. Segundo suas projeções, se as alterações continuarem, até 70% das propriedades dessa região estarão em áreas impróprias para o cultivo nos próximos 20 anos.

“Muitos agricultores que poderiam se adaptar acham que essas instabilidades que estamos assistindo nos últimos 20 anos vão passar”, conta Ludmila. “Se você não usa a palavra clima e pergunta ‘A temperatura está diferente? A chuva mudou um pouquinho?’, eles dizem que sim. Mas, na hora que usa a palavra clima, eles falam que não tem mudança. E aí atrapalha muito a adoção de práticas mais adaptadas à nova realidade climática.”

A cientista tem buscado caminhos para convencer sobre os riscos que as mudanças climáticas colocam sobre a produção brasileira. “O que reverte essa situação são os ganhos financeiros que práticas agrícolas mais sustentáveis têm, e quando planilhas e gráficos são mostrados. Não é só bom para o ambiente, é bom para o seu bolso também. Essa é a maior arma que a gente tem hoje contra o negacionismo climático.”

Assim como Ludmila, o pesquisador Phillipe Käfer, responsável pelo programa do Brasil do laboratório de inovações financeiras do Climate Policy Initiative, vê como o negacionismo atrapalha a adoção de sistemas mais sustentáveis de produção rural. “Sabemos, que a agropecuária não somente afeta o clima em razão de suas emissões, como também é afetada pelas alterações nos regimes naturais de chuvas e temperatura. A resistência em reconhecer a relação impede que o setor seja protagonista na mudança e ainda ser remunerado por isso.”

Por outro lado, conta, tem crescido o interesse sobre agricultura regenerativa, com insumos biológicos, rotação de culturas e outras práticas que trazem mais fertilidade para o solo e ajudam o produtor a lidar com as questões climáticas.

Ou seja, para adaptar a agricultura brasileira às mudanças climáticas e evitar perdas graves para os produtores, parece que a chave é não falar sobre mudanças climáticas.

Um curso para trazer o clima para dentro do debate

O engenheiro agrônomo Marcos Jank, que foi executivo de associações de classe, como a  União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), e de empresas do setor, como BRF, e hoje coordena o Insper Agro Global, está apostando numa estratégia oposta, que é justamente criar esse diálogo. Ele está coordenando a elaboração de um novo curso chamado Agro e Meio Ambiente, que tem como objetivo trazer o agronegócio para entender as mudanças climáticas e se preparar para lidar com elas.

Questionado pela Pública sobre como pretende fazer essa abordagem considerando o negacionismo que prevalece em parte do setor, Jank reconheceu que há uma dificuldade enorme de concertação. Mas afirmou acreditar que, em termos práticos, o negacionismo vai acabar sendo sobreposto pela necessidade de mudanças impostas pelas pressões que estão sendo colocadas mundialmente sobre as cadeias produtivas.

Ele admite, porém, que hoje o produtor rural vê a questão climática como um passivo. “Quando na verdade deveria ser um ativo. O produtor deveria ser o primeiro a defender o fim do desmatamento ilegal. Por causa da lei, não porque o [presidente da França, Emmanuel] Macron quer, ou porque o [presidente dos Estados Unidos, Joe] Biden quer, mas porque é fora da lei. Tem de ser combatido. E o agro deveria ser vocal sobre isso. Mas não é”, diz.

Com esse comportamento, argumenta Jank, o produtor não está enxergando as oportunidades que lidar com o problema podem trazer. “Na minha visão, a única coisa que é ameaça é o lado vilão do Brasil com desmatamento ilegal. É uma ameaça que, se não for resolvida, nada vai dar certo. A gente vai continuar sendo visto pelo lado vilão. Agora, se a gente reduzir o desmatamento e se a gente incorporar – seja através de incentivo, seja com política pública, seja com mercados de carbono – modelos produtivos de baixo carbono, a gente tem chance de ir muito mais longe do que os nossos concorrentes. Mas ainda existe uma dificuldade imensa do produtor enxergar isso.”

Outros lados

Todas as pessoas, veículos e instituições citados nesta reportagem foram procurados pela reportagem. Somente quatro deram retorno até a publicação.

Aleksander Horta, chefe de redação do Notícias Agrícolas, afirmou: “O jornalismo do Notícias Agrícolas é pautado pela premissa de ouvir especialistas que sejam experientes o bastante para tratarem dos temas propostos, como é o caso do Dr. Luiz Carlos Molion e a climatologia. Nosso papel, enquanto repórteres, é apenas o de promover debates, ouvir contraposições e garantir que nossa audiência tenha sempre, e constantemente, informações responsavelmente apuradas.”

Também disse que as reportagens apontam “a existência de uma linha de pesquisa contrária e intensamente divulgada sobre o chamado ‘aquecimento global’ (termo que mais tarde, por conta de contestações, viria a ser substituído por ‘Mudanças Climáticas’)  e promover o debate sobre o tema que – gostem ou não, certo ou errado – tem embasamento técnico e científico minuciosamente elaborado pelo Dr. Molion que, diga-se de passagem, não está sozinho nesta discussão.” Leia a resposta na íntegra.

Molion apenas fez referência à resposta que o Notícias Agrícolas nos enviou e disse que não teria tempo para atender à reportagem porque daria uma palestra presencial nesta quinta-feira, 29, em Goiás. “Quem sabe em uma outra oportunidade em que eu tenha tempo disponível. Acho que você deveria ver esses assuntos com um olhar mais crítico e não aceitar tudo que você ouve. Sucesso!”, acrescentou.

Em nota, o Grupo Bandeirantes de Comunicação afirmou que os veículos do conglomerado (como Terraviva e AgroMais) “estão sempre abertos a ouvir as mais diversas opiniões em todos os setores, proporcionando constantemente uma cobertura ampla e diversificada. Evaristo de Miranda é colaborador dos canais por assinatura, assim como tantos outros profissionais que expõem seus mais diferentes pontos de vista”.

A Brasil Paralelo chegou a procurar a Pública pedindo mais explicações sobre o conteúdo, mas disse que preferia não se manifestar.

* Esta reportagem foi produzida com o apoio do programa Disarming Disinformation, do International Center for Journalists (ICFJ), e financiada pelo Instituto Serrapilheira. O Disarming Disinformation é um esforço global de três anos com financiamento principal do Scripps Howard Fund.

* Uma reportagem da Deutsche Welle, feita em colaboração com a Pública, detalha como esses negacionistas, ligados a instituições respeitadas, se apoiaram numa ciência bastante questionada e se tornaram porta-vozes da desinformação ambiental no país.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Novo PL do licenciamento ambiental incentiva o crime e a degradação

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 Por Paola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA
Com o pretexto de modernizar as regras do licenciamento ambiental no Brasil, o Projeto de Lei (PL) 3.729/2004, caso aprovado, vai estimular a insegurança jurídica e destruir o que foi construído ao longo dos últimos anos pela Política Nacional de Meio Ambiente.

 

O texto-base do substitutivo apresentado pelo deputado Neri Geller (PP-MT), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), foi aprovado por 300 votos contra 122 e encaminhado ao Senado em tempo recorde – apresentado no dia 10 de maio e aprovado já no dia 13 – sem a realização de audiências públicas.

 

Ao transferir a estados e municípios o poder de definir o processo de concessão de licenças, introduzir exceções à obrigatoriedade do licenciamento ou mesmo facilitar a sua obtenção, são muitas as chances de multiplicar os danos ambientais. Atividades industriais que desmatam e poluem, por exemplo, ficarão livres de interferência e regulação estatais.

 

Este é mais um indício de que o caminho escolhido pelo Governo Federal vai na contramão de países desenvolvidos, em que a preocupação em limitar os impactos das mudanças climáticas tem gerado medidas concretas e de forte teor regulatório em prol dos interesses coletivos e do compromisso com o meio ambiente e a humanidade.

 

Vale lembrar que se a proposta de legislação passar pelo Senado, acabará com o licenciamento em áreas indígenas ou territórios quilombolas, que ainda não tenham sido demarcados ou titulados. O problema aqui é que parte significativa das terras ocupadas por essas populações tradicionais ainda não passou por esse processo. Isso significa também que grandes projetos de infraestrutura terão aval para desmatar, poluir e exterminar comunidades que estejam nas suas rotas.

 

Aprovado na Câmara, o PL 3.729 representa o desmonte de um histórico de construção do arcabouço legal de proteção ambiental no Brasil e uma afronta à Constituição. Um dos itens mais contraditórios, para citar um exemplo, é a chamada Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), por meio do qual os responsáveis por empreendimentos de “baixo ou médio risco ambiental” declaram que cumprirão as leis ambientais. Essa modalidade autodeclarada, em que o poder público deixa de regular o impacto ambiental das atividades econômicas, notadamente, do agronegócio, responsável por 25% do total de emissão de gases de efeito estufa, impedirão que os gestores públicos organizem a ocupação do território sem riscos ambientais.

 

Outra ameaça é a desvalorização do papel dos órgãos responsáveis por Unidades de Conservação, como o ICMBio. Na nova lei rural, a manifestação desses órgãos passa a ser apenas consultiva, podendo ser ignorada pelo órgão licenciador.

 

Diante de tantos desastres ambientais vividos recentemente no país, como a quebra das barragens de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, a aprovação desse projeto irá representar novos episódios de acidentes socioambientais ao enfraquecer a segurança jurídica desse relevante instrumento de proteção ambiental.

 

Ao contrário do argumento de que o PL vai desburocratizar o processo e destravar a economia ao abrir mão desses controles, na realidade, vai prejudicar a atração de investimentos e deteriorar, ainda mais, a imagem do Brasil como pária ambiental.

 

Neste sentido, é preciso atentar para a falácia do negacionismo climático, que usa o argumento de que a preservação ambiental é inimiga do desenvolvimento econômico, ou mesmo a culpada pela escassez de empregos e alimentos, a fim de justificar que o licenciamento é uma burocracia desnecessária.

 

Será inevitável, e até esperada, a perda de postos de trabalho pela superação da indústria dos combustíveis fósseis. Mas ela pode ser compensada com a abertura de novos empregos ligados às fontes de energia limpa. E a transição para um modelo agrícola baseado na produção ecológica e orgânica, somada a medidas consistentes para evitar o desperdício de alimentos, podem minimizar os problemas decorrentes da insegurança alimentar no planeta.

 

Por fim, uma lei que não concilia os interesses de diferentes setores da sociedade e não atende ao primeiro objetivo da Lei da Política Nacional de Meio Ambiente, de 1981, que defende compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com a preservação do meio ambiente e do equilíbrio ecológico, é inconstitucional e ultrajante.