Querosene para a proteção climática

COP 30 no Brasil: Via expressa, terminal de cruzeiros e duplicação da capacidade do aeroporto de Belém

As negociações sobre a proteção do clima global estão programadas para começar na segunda-feira, com vista para a floresta amazônica. Foto: Anderson Coelho/REUTERS 

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Em poucos dias, na próxima segunda-feira, começa em Belém do Pará, no Brasil, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – conhecida como COP 30. O governo brasileiro escapou por pouco de uma crise causada pela falta de quartos de hotel e pelos preços exorbitantes na capital, o Pará, localizada na Foz do Amazonas. De 10 a 21 de novembro, pelo menos 143 delegações governamentais dos 198 estados signatários se reunirão na cidade do norte do Brasil para debater medidas futuras para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e conter o aquecimento global.

Dois beneficiários da COP 30 já estão claros: a indústria da construção civil brasileira e o turismo de massa. O país investiu cerca de 800 milhões de euros em obras para “deixar a cidade apta” para a cúpula climática, como diz o discurso oficial. O aeroporto internacional de Belém foi modernizado, quase dobrando sua capacidade de aproximadamente 7,7 milhões para cerca de 13 milhões de passageiros por ano. Além disso, uma nova rodovia de quatro faixas com 13,4 quilômetros de extensão, construída em meio à floresta tropical e com a participação de comunidades locais, e com ciclovias iluminadas por energia solar, garante o transporte conveniente dos cerca de 50 mil participantes da COP 30. Mais de 71 hectares de floresta tropical, o equivalente a 100 campos de futebol, foram sacrificados para a construção da “Avenida Liberdade”. O governo também ampliou o porto de Outeiro com um novo terminal projetado especificamente para navios de cruzeiro gigantes.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de inaugurar pessoalmente, no último sábado, as obras de grande porte, concluídas em cima da hora. “O Aeroporto Internacional de Belém e o novo terminal portuário de Outeiro são símbolos de uma Amazônia moderna, pronta para receber o mundo. Esses projetos impulsionarão o turismo, criarão empregos e renda, e deixarão um legado de infraestrutura que vai muito além da COP 30 e traz benefícios tangíveis para o povo do Pará”, afirmou o ministro do Turismo, Celso Sabino, na cerimônia de inauguração.

A insistência do governo brasileiro em expandir a produção de petróleo, particularmente na região do estuário do Amazonas, é motivo de preocupação para as negociações climáticas em Belém. Há poucos dias, a Petrobras recebeu autorização para realizar perfurações exploratórias nessa região ecologicamente rica, porém frágil. Tribos indígenas locais, portanto, estão soando o alarme, temendo por seus meios de subsistência, principalmente a pesca.

“Embora se fale muito que a COP 30 esteja fadada ao fracasso em termos de um acordo para conter o aquecimento global, ainda não temos outra escolha senão chegar a um acordo”, disse ao jW o pesquisador de clima e floresta tropical Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus . “O tempo está se esgotando e as consequências de novos atrasos seriam simplesmente muito graves.” Ele espera, portanto, “que os países, incluindo o Brasil, concordem em interromper rapidamente o uso de combustíveis fósseis e restringir sua extração, inclusive abstendo-se de desenvolver novos campos de petróleo e gás”.

No entanto, Fearnside argumentou que os esforços dos países para reduzir as emissões de CO2 devem ir além. Esse trabalho exige “não apenas o combate aos sintomas, como o Brasil está fazendo atualmente com controles e multas, mas também, e mais importante, o enfrentamento das causas subjacentes do desmatamento, o que o Brasil claramente ainda não está fazendo”.


Fonte: JungeWelt

A corrida do ouro na Amazônia alimenta o comércio ilegal de mercúrio

Uma mina de ouro ilegal no departamento de Madre de Dios, no sudeste do Peru, fotografada em maio de 2024.

Uma mina de ouro ilegal no departamento de Madre de Dios, no sudeste do Peru, fotografada em maio de 2024. Foto: AFP/Ernesto Benavides
Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Em junho passado, autoridades aduaneiras peruanas descobriram quatro toneladas de mercúrio contrabandeado do México em um navio cargueiro com destino à Bolívia. Foi o maior carregamento do metal líquido prateado, altamente tóxico, já apreendido em uma região amazônica. E, no entanto, foi apenas uma gota no oceano. Desencadeada pelos altos preços dos metais preciosos, a região amazônica vem vivenciando uma corrida do ouro transfronteiriça há duas décadas, o que também multiplicou o comércio e o contrabando de mercúrio. Garimpeiros legais e ilegais usam o metal pesado para reter partículas finas de ouro dos sedimentos dos rios. Grandes quantidades do metal pesado, considerado uma neurotoxina, são liberadas no meio ambiente durante esse tipo de extração de ouro e poluem o ar, o solo e os cursos d’água.

Um estudo realizado por uma equipe internacional de cientistas, publicado em julho passado na revista médica Annals of Global Health, mostra concentrações alarmantemente altas de mercúrio tanto em peixes quanto na população local, com graves consequências para a saúde nas regiões amazônicas do Brasil, Colômbia e Peru afetadas pela mineração de ouro.

Os pesquisadores descrevem a contaminação por mercúrio como “cada vez mais preocupante”, especialmente para os povos indígenas. Eles encontraram os maiores níveis de exposição associados a efeitos na saúde entre os indígenas do Parque Nacional Yaigojé Apaporis, na Colômbia, na fronteira com o Brasil. Esses indígenas apresentaram níveis médios de mercúrio no cabelo de 23 µg/g, bem acima do limite de apenas 1 µg/g estabelecido pelo Conselho Nacional de Pesquisa Científica dos Estados Unidos.

Há “uma ação política urgente necessária, especialmente porque a poluição por mercúrio é impulsionada pela demanda global por ouro — um metal com uso prático limitado, cuja função principal é acumular riqueza em bancos e cofres. Ecossistemas inteiros e populações indígenas estão sendo sacrificados por uma mercadoria que não traz nenhum benefício significativo à humanidade.”

De acordo com um relatório recente da organização não governamental Agência de Investigação Ambiental (EIA), mais de 200 toneladas de mercúrio foram contrabandeadas de minas mexicanas para a Bolívia, Colômbia e Peru entre abril de 2019 e junho de 2025. A EIA estima que essa quantidade de mercúrio foi usada para extrair ouro “ilegal” no valor de pelo menos US$ 8 bilhões na Amazônia. Devido ao aumento contínuo do preço do ouro, o preço do mercúrio atingiu um novo recorde de US$ 330 por quilo este ano, desencadeando uma nova “febre do mercúrio” no México.

Grandes quantidades da neurotoxina entram no ambiente.

Segundo dados oficiais do México, entre 2009 e 2021, o país exportou um total de 740 toneladas de mercúrio, principalmente para mineração de ouro, para a Bolívia, 429 toneladas para o Peru e 466 toneladas para a Colômbia. Contrabandistas também transportam mercúrio desses países para garimpos legais e ilegais no Brasil.

O Instituto Escolas, em São Paulo, também atesta um crescente contrabando de mercúrio na região amazônica, principalmente da Bolívia para o Brasil. Segundo um estudo publicado pelo instituto em 2024, somente as minas de ouro legalizadas, ou seja, com permissão do Estado, produziram cerca de 127 toneladas do metal precioso entre 2018 e 2022. Os garimpeiros consumiram entre 165 e 254 toneladas de mercúrio. No entanto, o Brasil importou oficialmente apenas 68,7 toneladas nesse período. Isso mostra que entre 96 e 185 toneladas de mercúrio podem ter sido de origem ilegal.

A mudança para o mercúrio contrabandeado pode ser explicada pelo fato de ele custar apenas metade do preço do mercúrio comercializado legalmente. Além disso, não exige a aprovação trabalhosa do órgão ambiental.

Outro sinal claro do aumento do contrabando de mercúrio é o aumento drástico das exportações de ouro e da área de mineração no Brasil nas últimas duas décadas, aliado a um declínio simultâneo nas importações oficiais de mercúrio. Entre 2002 e 2022, as exportações “legais” de ouro brasileiro aumentaram de 35 toneladas para 96 ​​toneladas por ano, e a área total de minas de ouro legais na Amazônia aumentou de 68.000 hectares para 224.000 hectares.

Além disso, a mineração ilegal de ouro em áreas protegidas e reservas indígenas na Amazônia brasileira aumentou drasticamente. Segundo dados da rede científica MapBiomas, a área total de mineração ilegal de ouro aumentou de aproximadamente 4.000 hectares para 36.000 hectares entre 2000 e 2022. As importações oficiais de mercúrio, no entanto, caíram de 67 toneladas para 15 toneladas por ano.

Durante esse período, a Bolívia se tornou o maior importador de mercúrio da América do Sul. Entre 2018 e 2022, o vizinho do Brasil importou 723 toneladas de mercúrio, principalmente do México, Rússia e Tajiquistão, enquanto exportou apenas 196 toneladas de ouro. “A Bolívia importou cerca de dez vezes mais mercúrio do que o Brasil, mas produziu apenas 1,5 vez mais ouro”, segundo o estudo de Escolas. Portanto, é altamente provável que a maior parte do mercúrio “boliviano” tenha entrado ilegalmente no Brasil.

Convenção Internacional de Minamata de 2013 sobre a Redução do Uso de Mercúrio e Emissões Perigosas permite a produção do metal até 2032.

Em seu relatório, no entanto, a EIA pede o fechamento imediato das minas no México: “O mercúrio deve ser tratado como o que é: um catalisador altamente tóxico para crimes relacionados, como violações de direitos humanos, tráfico de armas, tráfico de drogas e mineração ilegal de ouro”. A produção contínua de mercúrio no México até 2032 terá consequências mortais a longo prazo por gerações.

Mas mesmo a proibição do mercúrio mexicano provavelmente só mudará as rotas de contrabando. O maior produtor mundial de mercúrio é a China, seguida pelo Tajiquistão, que ainda não assinou a Convenção de Minamata.


Fonte: Neues Deutschland

Superexploração no Brasil: o PL da Devastação e o veto simbólico de Lula

Presidente veta trechos da “lei da devastação”. Congresso ainda pode derrubar os vetos e manter a lei em sua integralidade devastadora 

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Protesto pela proteção do clima e pelos direitos das mulheres e dos povos indígenas em Brasília (7 de agosto de 2025)

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Na sexta-feira passada, o presidente brasileiro tomou uma decisão de última hora sobre uma reforma apelidada de “Lei da Devastação” por ativistas das florestas tropicais e do clima. Contrariando as demandas de organizações não governamentais, povos indígenas e cientistas, Luiz Inácio Lula da Silva não rejeitou totalmente a lei aprovada pelo Parlamento e pelo Senado. Ele apenas vetou 63 dos 398 artigos da “Lei da Devastação”, que visa facilitar a concessão de licenças ambientais.

Ao mesmo tempo, ele deu sinal verde para isenções imediatas para fins de avaliações aceleradas de impacto ambiental, ou seja, para a aprovação de projetos de infraestrutura, desenvolvimento e mineração classificados como estratégicos pelo conselho de governo. Isso permitiria que projetos prejudiciais ao clima fossem declarados e implementados mais rapidamente no futuro, seja a exploração de depósitos de petróleo no estuário da Amazônia, a mineração de minérios e minerais estratégicos como nióbio ou urânio, a pavimentação da rodovia federal BR-319 na Amazônia Central ou a construção da ferrovia “Ferrogrão”, que também é contestada por conservacionistas da floresta tropical.

Apesar disso, algumas organizações ambientalistas elogiaram o presidente. “Os vetos de Lula a trechos da Lei da Devastação são fundamentais para corrigir aspectos graves do projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional – e demonstram seu compromisso com a proteção socioambiental”, comentou o Greenpeace Brasil. “Os vetos são a prova do compromisso do governo federal com a sociedade como um todo e com o combate às mudanças climáticas”, disse Alice Dandara de Assis Correia, do Instituto Socioambiental (ISA), avaliando a decisão de Lula. A organização ambientalista SOS Mata Atlântica descreveu seu veto a dispositivos que revogariam a proteção especial da Mata Atlântica como um “marco importante” para a legislação ambiental brasileira e a preservação da Mata Atlântica.

Outros críticos do projeto de lei não veem motivos para comemorar. “O presidente Lula sancionou a chamada Lei da Devastação praticamente sem alterações”, afirma o geógrafo Marcos Pędłowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), no estado do Rio de Janeiro. Dos 63 artigos vetados pelo presidente, ele rejeitou apenas 26 integralmente, enquanto 37 foram rejeitados apenas parcialmente. No entanto, com a assinatura do presidente, o enfraquecimento do processo de licenciamento ambiental no Brasil tornou-se realidade. Pedlowski está convencido de que a nova legislação causará sérios danos ambientais e terá consequências negativas para a população local. O ecólogo Rodolfo Salm, da Universidade Federal do Pará, em Altamira, tem opinião semelhante. Quem comemora os 63 vetos do presidente Lula não entendeu nada, escreve ele na plataforma online X.

Na verdade, os vetos do presidente brasileiro têm pouco mais do que valor simbólico. O projeto agora retorna ao Congresso, dominado pelo lobby do agronegócio e da mineração, que pode derrubar os vetos do líder do Partido dos Trabalhadores e promulgar a “lei da devastação” sem alterações. Deputados do estado do Amazonas já se mobilizam no Congresso Nacional contra os vetos de Lula e exigem a rápida pavimentação da BR-319 sem aprovação ambiental prévia.

Além disso, não se pode deixar de mencionar que mesmo a legislação ambiental existente para a Amazônia não conseguiu impedir projetos de infraestrutura catastróficos. Desde a década de 1990, monoculturas ecológica e socialmente prejudiciais se espalharam por todo o Brasil. A superexploração legal e ilegal nas montanhas brasileiras está aumentando constantemente. Mesmo durante o último mandato de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff, as megahidrelétricas de Belo Monte, no rio Xingu, e Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, foram planejadas ou construídas, cujas consequências desastrosas para o meio ambiente natural circundante eram previsíveis.


Fonte: JungeWelt

Dados de desmatamento branqueados: relatos de redução da perda de floresta tropical no Brasil são enganosos

.A degradação florestal explodiu na Amazônia em 2024 

Serraria clandestina na região de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 6 de fevereiro

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

A história de sucesso “Menos Desmatamento no Brasil!” recebeu ampla cobertura da mídia em maio passado, inclusive na Alemanha. Tanto o governo brasileiro quanto a Mapbiomas, rede de pesquisa que monitora os ecossistemas do país, confirmaram uma queda significativa no desmatamento na Amazônia no ano passado. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 30,6% menos floresta tropical foi destruída em 2024 do que em 2023, enquanto a Mapbiomas calculou uma redução de 16,8% em seu relatório anual de desmatamento (RAD). No entanto, dados sobre perda florestal do renomado World Resources Institute (WRI), também publicados em maio, indicam exatamente o oposto: a floresta amazônica brasileira registrou sua maior perda florestal em 2024 desde o recorde de 2016. Cerca de 110% a mais de desmatamento do que em 2023. A região amazônica perdeu 2,82 milhões de hectares de floresta tropical primária no ano passado, em comparação com “apenas” 1,14 milhão de hectares perdidos em 2023, de acordo com o WRI.

O INPE, por outro lado, estima 628.800 hectares de destruição da floresta tropical em 2024, em comparação com 906.400 hectares no ano anterior. Os menores números de desmatamento foram calculados pelo Mapbiomas, uma rede não governamental de universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia. Segundo o relatório, a área desmatada na Amazônia caiu de 454.230 hectares em 2023 para 377.708 hectares no ano passado.

Então, quem está certo? Os números do WRI são do Laboratório Global de Análise e Descoberta de Terras da Universidade de Maryland (UMD). Tanto o INPE quanto o Mapbiomas, assim como a UMD, coletaram os dados de desmatamento usando imagens de satélite, mas com diferentes métodos de análise e limitações do sistema.

A base de dados varia

O INPE avalia os dados usando seu sistema de monitoramento florestal Prodes. Este sistema registra cortes rasos maiores que 6,25 hectares. Os pesquisadores da UMD, por outro lado, consideram o desmatamento tão pequeno quanto 0,09 hectares e também registram perdas devido ao fogo , que o Prodes não inclui. No ano passado, de acordo com o WRI, 60% da destruição florestal foi causada pelo fogo. Devido a uma seca intensa e prolongada na Amazônia, os incêndios, que geralmente são iniciados por humanos, destruíram mais área florestal do que em outros anos. E quando mais área queima, menos floresta tem que ser desmatada com motosserras para expandir pastagens de gado ou campos de soja.

Outra diferença importante é o período de avaliação. Enquanto o Prodes considera os doze meses entre agosto e julho, os dados da UMD referem-se ao ano civil, ou seja, de janeiro a dezembro de 2024.

Por fim, o Mapbiomas combina dados de desmatamento de sistemas independentes de monitoramento, como o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento) do Instituto Amazonas para a Humanidade e o Meio Ambiente (Imazon), com dados de sistemas do INPE, como o Prodes, e se concentra exclusivamente no corte raso e na remoção completa da vegetação natural. O Mapbiomas não inclui perdas devido a incêndios florestais ou exploração madeireira seletiva em suas estatísticas de desmatamento, razão pela qual os números são significativamente menores. “Como o Mapbiomas não contabiliza a crescente perda florestal devido a incêndios no Brasil, uma proporção crescente da mudança florestal geral não é adequadamente representada”, resume a plataforma online do WRI, Global Forest Watch (GFW).

Os danos florestais são maiores

Para avaliar se a proteção florestal na região amazônica está de fato melhorando ou piorando, precisamos de dados sobre degradação florestal, além de estatísticas de desmatamento. Florestas danificadas, por exemplo, devido à exploração madeireira seletiva e estradas florestais, têm uma cobertura vegetal mais rala, são mais suscetíveis à seca e pegam fogo com mais facilidade. Por outro lado, iniciar incêndios em florestas tropicais intactas e úmidas não é uma tarefa fácil.

De acordo com o instituto de pesquisa Imazon em Belém do Pará, houve um aumento explosivo na degradação florestal na região amazônica em 2024. Segundo o relatório, 3,64 milhões de hectares de floresta tropical foram degradados, cerca de seis vezes mais do que em 2023. De acordo com o Imazon, os danos florestais registrados no ano passado pelo sistema de monitoramento do SAD foram os maiores desde que o instituto começou a monitorar florestas em 2009, superando em muito o recorde anterior estabelecido em 2017, quando 1,15 milhão de hectares de floresta amazônica foram degradados.

Segundo o Imazon, o aumento da degradação florestal na região amazônica está diretamente ligado ao aumento dos incêndios florestais no ano passado. A seca e a exploração madeireira também contribuíram para esse processo de degradação.


Fonte: JungeWelt

Congresso brasileiro assassina a proteção climática

Parlamento brasileiro aprova projeto de lei que acelera destruição de biomas elementares. Presidente Lula é instado a vetar medida

A nova lei abre caminho para mais desmatamento no Brasil (Porto Velho, 6 de fevereiro de 2025)

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt” 

Poucas semanas antes da primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas na Amazônia (a COP 30), o Congresso brasileiro ignora a proteção do clima e das florestas tropicais. Após o Senado Federal, em Brasília, aprovar o projeto de lei conhecido como “PL 2159/2021” em junho, 267 parlamentares federais votaram a favor da “Lei da Devastação”, que foi fortemente contestada por cientistas e ambientalistas, na noite de quarta para quinta-feira. Apenas 116 parlamentares votaram contra, o que efetivamente enfraquece as normas nacionais de proteção ambiental.

Agora, não é só a Amazônia que está ameaçada de colapso. As leis que protegem a Mata Atlântica, de extrema biodiversidade, e todos os outros biomas brasileiros também estão sendo enfraquecidas. Toda a esperança agora está no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Só ele pode impedir a lei com seu veto.

O projeto de lei prevê um processo de autoaprovação para projetos de estradas e mineração que possam causar desastres ambientais graves, alertou Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, antes da votação. Sob o argumento da desburocratização, todos os procedimentos de aprovação ambiental para projetos com impactos “baixos ou médios” seriam abolidos. A exploração de depósitos de petróleo no estuário amazônico, planejada pela Petrobras e apoiada pelo presidente Lula da Silva, por exemplo, se enquadra nessa categoria. “Este projeto apresenta o risco de poluição incontrolável por óleo devido à profundidade da água e às complexas correntes oceânicas na área”, disse Fearnside. Além disso, investimentos em projetos petrolíferos são geralmente incompatíveis com a proteção climática pretendida.

O PL 2159/2021 também abre caminho para a restauração e pavimentação da rodovia BR-319, de Manaus a Porto Velho, também defendida pelo governo Lula da Silva. Pesquisadores de clima e ecossistemas como Fearnside temem que este projeto de construção de estrada, juntamente com outras estradas secundárias planejadas, exponha vastas áreas de floresta tropical ainda intacta no coração da Amazônia ao desmatamento, podendo levar ao colapso da maior região de floresta tropical do planeta.

O mesmo sentimento é compartilhado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada em Recife. “O projeto de lei ignora descaradamente a emergência climática que a humanidade enfrenta e o fato de que quatro biomas brasileiros — a Floresta Amazônica, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga — estão muito próximos do chamado ponto sem retorno”, afirmou a SBPC. Esses biomas estão agora ameaçados de colapso ecológico.

Diante dessas potenciais consequências, a Academia de Ciências do Rio de Janeiro também solicitou, sem sucesso, ao Senado Federal em Brasília a suspensão da votação. “A aprovação precipitada de um projeto de lei com implicações tão significativas, sem debate adequado com a sociedade e a comunidade científica, coloca em risco o futuro do país”, disse sua presidente, Helena Bonciani Nader. Isso enfraquece “instrumentos essenciais de proteção ambiental sob a falsa promessa de eficiência, ignorando evidências dos riscos da degradação ambiental para os biomas, a segurança pública e o desenvolvimento sustentável”. É “inaceitável que sejam apresentadas propostas que desvalorizem compromissos ambientais internacionalmente reconhecidos e enfraqueçam marcos legais fundamentais”, criticou Nader, visando a COP 30.

Já em 1º de junho, grupos ambientalistas e movimentos sociais em todo o Brasil convocaram manifestações contra o projeto de lei, mas essas manifestações receberam pouca atenção da mídia e do público em geral. “É profundamente lamentável que o Congresso tenha ignorado os alertas da ciência e as demandas da sociedade civil. Agora cabe ao Presidente Lula assumir sua responsabilidade, demonstrar seu compromisso com o clima, as pessoas e o meio ambiente e bloquear todo o texto”, comentou a organização internacional de conservação WWF sobre a votação. “Ainda é possível evitar uma tragédia de proporções sem precedentes.”


Fonte: JungeWelt

Monocultura devastadora: as consequências ecológicas do boom da soja na América Latina

197887Soja a perder de vista (colheita em plantação no Rio Grande do Sul, abril de 2024).

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Dificilmente qualquer outra cultura mudou tanto o sul da América Latina nos últimos 40 anos como a soja. O seu cultivo em grande escala para exportação transformou paisagens ricas em espécies em estepes agrícolas desertas, salpicadas de silos de armazenamento de aço que se elevavam ao céu, as novas catedrais do norte do Brasil ao norte da Argentina.

Na década de 1950, os campos de soja ainda eram uma raridade na América do Sul. Hoje eles se espalham por 1,2 milhão de hectares no Uruguai e 1,6 milhão de hectares na Bolívia. No Paraguai são 3,6 milhões de hectares, na Argentina 15,5 milhões e no Brasil gigantescos 46 milhões de hectares. Nem mesmo a Amazônia foi poupada do boom da soja. O feijão asiático cobre hoje uma área de mais de quatro milhões de hectares na Amazônia brasileira e boliviana.

Desmatamento e agrotóxicos

O impacto ambiental mais visível do cultivo da soja é a perda de biodiversidade através do desmatamento direto e da conversão de terras. Isto afeta os ecossistemas florestais da América do Sul: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Chaco, Chiquitânia, Pantanal, Caatinga e Pampas. De acordo com um estudo da Universidade de Maryland publicado em 2021, a perda florestal devido à conversão direta de terras para soja totalizou 3,4 milhões de hectares entre 2001 e 2016.

Ainda maior, mas mais difícil de quantificar, é a desflorestação indireta desencadeada pelo boom da soja. Apenas alguns produtores de soja limpam eles próprios a floresta. Em vez disso, compram ou assumem terras que já foram desmatadas a pequenos agricultores ou criadores de gado, que depois se deslocam e desmatam novas áreas. Grandes áreas do Cerrado eram anteriormente utilizadas para a pecuária extensiva, o que traz consequências menos danosas ao ecossistema do que o cultivo da soja, que é realizado com maquinário pesado e alto uso de agrotóxicos e fertilizantes.

O desmatamento também ocorre para a necessária expansão da infraestrutura. “A soja é ainda mais prejudicial do que outras monoculturas porque justifica projetos massivos de infraestrutura de transporte que desencadeiam uma cadeia de eventos que levam à destruição da natureza em vastas áreas, além das terras diretamente dedicadas ao cultivo da soja”, escreve o cientista Philip M. Fearnside. do Instituto de Pesquisas Amazônicos (INPA) em um estudo publicado em 2001 sobre as consequências da expansão da soja. O agronegócio necessita desta infra-estrutura para processar e transportar a colheita, bem como para fornecer pesticidas e fertilizantes artificiais. “Outros usos da terra, como a pecuária extensiva, também ocupam grandes áreas”, explica o pesquisador amazônico, “mas não têm peso político para incentivar o governo a construir hidrovias, linhas ferroviárias e uma ampla rede de estradas terrestres financiadas com recursos públicos. trazer dinheiro.”

Outras consequências ambientais incluem a erosão do solo, alterações no equilíbrio natural da água e uma redução de insectos, organismos que vivem no solo, peixes e crustáceos devido aos pesticidas utilizados, que são frequentemente prejudiciais para a fauna terrestre e para os seres humanos.

Os produtores de soja no Brasil aplicam em média 6,5 ​​quilogramas de  agrotóxicos por hectare, geralmente de avião: 69% deles são herbicidas, 16% inseticidas e 15% fungicidas. No entanto, o impacto ambiental desta carga tóxica ainda é em grande parte desconhecido, de acordo com o estudo de 2020 “A Pegada Tóxica da soja brasileira” da Universidade Chalmers da Suécia.

A soja não-OGM, que representa cerca de 10% da área plantada, recebeu tratamentos com vários herbicidas tóxicos diferentes, enquanto os campos de feijão geneticamente modificado receberam o controverso herbicida total glifosato. Quase todos os inseticidas pulverizados são tóxicos para as abelhas e organismos aquáticos. De acordo com o estudo sueco, a utilização de malatião, que é particularmente prejudicial para os organismos de água doce, aumentou significativamente durante o período de estudo de 2009 a 2018. Os fungicidas também são tóxicos para a fauna aquática. Além disso, podem resultar em mutações genéticas e danos aos fetos. Os pesquisadores já encontraram altas concentrações de toxinas agrícolas, especialmente glifosato, no sangue de animais selvagens e de pessoas na principal área de cultivo de soja, o Cerrado, no planalto central do Brasil.

Escassez aguda de água

Como esta região é a fonte mais importante do Brasil, os sistemas fluviais que ela alimenta, e em particular o Pantanal, também são afetados. Com as chuvas sazonais, a carga de  agrotóxicos e sedimentos provenientes das monoculturas atinge a maior planície aluvial tropical do mundo, cujas consequências ainda não foram estudadas.

Desde o início deste ano, o Pantanal está em chamas como nunca antes. Estes são os piores incêndios da história desta zona húmida rica em espécies. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contou mais de 4.000 focos de incêndio de janeiro até o final de julho deste ano. A maioria dos incêndios são iniciados por seres humanos para obter pastagens ou terras agrícolas ou simplesmente para queimar lixo. Mas no Pantanal há uma escassez crescente de água a cada ano, razão pela qual os incêndios estão se espalhando mais amplamente e ficando fora de controle com mais frequência. O “mar da soja” também é parcialmente responsável por isto – e não apenas pelas alterações climáticas.

A erosão do solo causada pelas monoculturas assoreia os afluentes e o Pantanal. Os rios ficam mais rasos e mudam o ciclo da água, o nível da água cai. Segundo dados da rede científica Mapbiomas, em 1985 o Pantanal registrava uma superfície hídrica de 1,9 milhão de hectares há pelo menos seis meses. Em 2023 eram apenas 382 mil hectares. Um declínio de mais de 80 por cento. Durante um período semelhante, o estado do Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação natural, enquanto o cultivo de soja aumentou de 1,3 milhão de hectares para 6,3 milhões durante este período.


Fonte: JungeWelt 

A política ambiental do governo Lula para a Amazônia: uma agenda com pontos cegos

Ao construir estradas na Amazônia, o governo brasileiro está contribuindo para a destruição da floresta

Aerial drone view of BR 319 road in Amazon rainforest landscape in the border of Amazonas and Rondônia state, Brazil. Concept of  ecology, conservation, deforestation, environment, global warming.

A rodovia BR-319 entre os estados do Amazonas e Rondônia. Foto: iStock/Paralaxis/Fernando Martinho

Por Norman Suchanek para o “Neues Deutschland”

Pouco antes do Carnaval, o governo Lula apresentou sua “agenda ambiental abrangente”, que será aplicada até 2027 inclusive. Mas isto não é suficiente para evitar uma maior destruição da floresta tropical e impedir  aumento dos danos climáticos resultantes.

“O âmbito da agenda ambiental abrangente reflete a urgência e a complexidade dos problemas ambientais e climáticos”, diz o documento do governo. Para conter em tempo hábil danos irreversíveis aos ecossistemas e às pessoas, não só é necessário que os mais diversos setores integrem de fato a sustentabilidade ecológica em seus processos e políticas públicas, mas também que os esforços sejam coordenados e integrados.

Apesar destas palavras introdutórias que soam bem e das suas 123 páginas, a agenda não aborda as principais causas da destruição das florestas tropicais. Acima de tudo, cientistas como o pesquisador do clima e da Amazônia, Philip Martin Fearnside, criticam a intenção contínua de construir barragens para gerar electricidade e construir estradas na Amazónia. A agenda perde a oportunidade de garantir que medidas eficazes de prevenção de desastres ambientais sejam implementadas pelos estados , escreve o cientista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) no portal Amazônia Real. “O documento carece completamente de planos para abordar as causas profundas do desmatamento, como a construção de estradas na Amazônia que abrirão vastas novas áreas de floresta tropical para madeireiros invasores”, disse Fearnside.

Porta de entrada para madeireiros

A rodovia federal BR-319 e as estradas secundárias associadas, controversas há anos, são o melhor exemplo disso. No início da década de 1970, a ditadura militar brasileira já havia construído a BR-319 através da floresta tropical paralela aos rios Purus e Madeira, mas desistiu novamente em 1988 por falta de viabilidade econômica. Desde 2015, graças a um “programa de manutenção” do governo, voltou a estar parcialmente acessível durante a estação seca. Se for totalmente restaurada e pavimentada conforme exigido pelo atual Departamento de Transportes e pelos governadores dos estados da Amazônia, a BR-319 e suas estradas secundárias propostas conectariam o infame “arco de desmatamento” do já fortemente desmatado sul da Amazônia com Manaus, no coração da maior região de floresta tropiucal do mundo. Os atores da destruição florestal, como os especuladores de terras, as empresas madeireiras, os criadores de gado e a agricultura industrial, poderiam avançar ao longo da rota asfaltada.

Isto ameaçaria a preservação do último grande bloco intacto de floresta na bacia amazônica brasileira. Além disso, a rodovia federal com seu ramal planejado, a rodovia estadual AM-366, permitirá a realização da exploração de gás e petróleo na bacia do Solimões, a oeste de Manaus.

Mas a floresta tropical intacta na área chamada região Trans-Purus é crucial para manter o abastecimento de água da maior cidade do Brasil, São Paulo, e a agricultura no estado de mesmo nome. O sul do Brasil depende das imensas massas de água que são transportadas pelo vento ao longo de milhares de quilômetros desde as árvores da região central da Amazônia e por meio dos chamados rios voadores. Sem florestas intactas na Amazônia central, no entanto, grandes partes do Brasil ficariam mais quentes e secas.

O Brasil se prejudicaria

O desmatamento na região Trans-Purus também libertaria vastas reservas de carbono da biomassa e dos solos da região, alimentando ainda mais o aquecimento global e neutralizando fatalmente qualquer acção climática governamental bem-intencionada. Conclusão de Fearnside: o próprio Brasil seria uma das maiores vítimas de uma BR-319 asfaltada.

No ano passado, porém, 15 deputados dos estados do Amazonas e Rondônia, em Brasília, lançaram um projeto legislativo (PL 4994/2023) que tornaria a BR-319 de Manaus a Porto Velho, em Rondônia, “indispensável” para a infraestrutura e a segurança nacional de o país país, classificando o projeto prioritário em quaisquer planos nacionais de desenvolvimento ou aceleração económica. E mesmo o fundo Amazônia, que na verdade foi fundado para proteger a floresta tropical e é equipado com dinheiro da Alemanha, entre outras coisas, deveria ajudar a financiar o asfaltamento.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

O “novo” PAC de Lula já nasce velho

Brasil coloca em prática programa econômico abrangente: bilhões também vão para áreas que prejudicam o clima, enquanto o agronegócio continua poderoso

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Assim deve ser no futuro: Cultivo industrial de soja em Morro Azul (4 de abril de 2022)

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

A tinta da “Declaração de Belém” ainda não havia secado quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou seu novo programa de investimentos do PAC no Rio de Janeiro na sexta-feira. Na declaração, o Brasil e seus estados vizinhos na região amazônica assumiram um compromisso não vinculante com a proteção e sustentabilidade do clima e das florestas tropicais. O PAC para impulsionar o crescimento econômico, por outro lado, inclui metas concretas e prevê investimentos de nada menos que 1,4 trilhão de reais (quase 300 bilhões de euros) até 2026 e outros 300 bilhões de reais a partir de então.

Grande parte desses investimentos, que envolvem todos os ministérios, é destinada à conversão ecológica, disse o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na apresentação do projeto. O novo PAC será “mais verde” do que o primeiro programa lançado por Lula há 15 anos. Os protecionistas das florestas tropicais e do clima ainda esfregam os olhos. Despesas com saúde, treinamento, assuntos sociais, desenvolvimento urbano, expansão da internet, melhoria da eliminação de resíduos e esgoto, bem como abastecimento de água potável também estão planejadas, mas uma grande parte do dinheiro realmente vai para projetos que dificilmente são ecologicamente corretos ou climáticos. .

Assim, o setor de defesa recebe 53 bilhões de reais. Grande parte disso vai para a compra de 34 caças suecos »Gripen« e a construção do primeiro submarino nuclear brasileiro, que foi decidido em 2008, e o porto submarino associado às portas do Rio de Janeiro. “Um futuro promissor para as Forças Armadas brasileiras”, comentou o jornal militar Defesa em Foco . Diz-se oficialmente que o Brasil precisa do submarino movido a energia nuclear para defender sua “Amazônia Azul”, sua “Amazônia Azul” – o espaço marítimo acima da plataforma continental rica em recursos e sua zona econômica marinha.

A empresa semi-pública de petróleo e gás Petrobras receberá investimentos de 300 bilhões de reais. O programa de expansão da infraestrutura de transportes no novo PAC também é pouco favorável ao clima. Aqui estão destinados 349 bilhões de reais para a construção e ampliação de rodovias estaduais e federais, rodovias, hidrovias, portos, ferrovias e aeroportos, especialmente na região amazônica e no nordeste. O foco da planejada reforma e extensão das estradas vicinais com mais de 11.000 quilômetros de extensão são as regiões produtoras de soja, a fim de levar a colheita aos portos de exportação de forma mais rápida e barata. Isso também inclui a “linha férrea da soja”, a chamada Ferrogrão, que tem sido duramente criticada por protetores da floresta tropical e povos indígenas.

A linha férrea de 933 quilômetros, planejada para ser paralela à atual rodovia BR-163 no sul da Amazônia, conectará a região produtora de soja e milho de Sinop, no Mato Grosso, com o novo porto de exportação de Miritituba, no rio Tapajós, no estado do Pará e reduzir os custos de transporte para as empresas agrícolas. Segundo estudo da Universidade Federal de Minas Gerais, o Ferrogrão atravessará diversas áreas indígenas na bacia do rio Xingu e levará ao desmatamento de mais de 230 mil hectares de floresta tropical até 2035. A Associação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa) comemorou a decisão do novo governo de implantar o Ferrogrão, que já havia sido planejado em 2012, no segundo mandato de Lula, segundo informou ao Oliberal.com um porta-voz da associação.

“Aparentemente, em seu terceiro mandato, Lula mantém suas velhas ideias de desenvolvimento econômico que continua beneficiando latifundiários, mineradoras e multinacionais brasileiras”, comentou Marcos Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Os graves problemas da maioria pobre da população não só ficarão sem solução, como também se agravarão


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [   ].

Entrevista com Philip Fearnside sobre a responsabilidade do Brasil na Amazônia e no aquecimento global

Sobre a responsabilidade do Brasil na Amazônia e no aquecimento global. Uma conversa com o pesquisador climático Philip Martin Fearnside

183970Indígenas em área desmatada da Bacia Amazônica (perto de Humaitá, 20/08/2019)

Pesquisadores da Amazônia e do clima concordam: a maior região de floresta tropical do mundo está à beira do colapso. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, convidou, portanto, os chefes de governo de todos os países da bacia amazônica para a cúpula amazônica nos dias 8 e 9 de agosto em Belém, capital do estado do Pará, que já foi fortemente desmatado. O objetivo é uma posição comum para a próxima conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP 28), em novembro. “Queremos dizer ao mundo o que faremos com nossa floresta e o que ela precisa fazer para nos ajudar, porque US$ 100 bilhões foram prometidos em 2009 e não foram pagos até agora”, disse Lula antes da cúpula. . 14 perguntas para a Amazônia e o pesquisador do clima Philip Martin Fearnside sobre a cúpula da Amazônia, a política de proteção florestal do governo brasileiro, barragens, construção de estradas, petróleo e desmatamento zero.

Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Quão perto estamos do ponto sem volta do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso em um futuro próximo?

As áreas fortemente desmatadas no sul do Pará e norte do Mato Grosso podem já ter passado desse ponto, mas isso não significa jogar a toalha. Arce é outra região que está próxima ou além de um ponto crítico. O que será decisivo é o que acontece ao norte de Arce, na região do Trans-Purus, no Amazonas. Perder a floresta seria catastrófico, pois essa área é vital para a reciclagem da água. Existe o risco de que essa região do “Trans-Purus” seja aberta à exploração madeireira por estradas vicinais da BR-319.

De acordo com seu atual Programa de Conservação da Amazônia (PPCDAm), Lula quer acabar com a extração ilegal de madeira até 2030. Isso significa que o registro legal continuará?

A reafirmação da promessa de Lula em seu famoso discurso na COP 27 no Egito, sem dúvida, reflete os planos reais melhor do que o que ele disse, onde a palavra crítica “ilegal” não foi mencionada. Sim, a extração legal não apenas continuaria, mas aumentaria significativamente, pois Lula também promete regularizar as reivindicações fundiárias. Este é um eufemismo para o reconhecimento legal de reivindicações ilegais. A maior parte das terras está agora legalizada por meio de inscrições no Cadastro Ambiental Rural (CAR), criado em 2012 sob a atual Lei Florestal, que permite o registro on-line de propriedades sem uma inspeção no local. Na prática, o CAR tornou-se a principal ferramenta para grileiros se apropriarem de terras públicas sem destino. Uma vez que uma área é de propriedade legal, a exploração madeireira é permitida. Claro, esse reconhecimento alimenta novas reivindicações e invasões. O ciclo contínuo de “anistias” de invasões de terras anteriores só termina quando a última árvore é cortada.

A atual “meta de desmatamento zero” do Brasil até 2030 é suficiente para salvar a Amazônia?

Se o desmatamento parasse até 2030, incluindo o desmatamento “legal”, isso seria um progresso. No entanto, existem outras ameaças. Os incêndios florestais são favorecidos pelas mudanças climáticas, exploração madeireira e queima de pastagens em áreas já desmatadas.

O PPCDAm do Brasil também planeja expandir a exploração madeireira sustentável em florestas públicas para até cinco milhões de hectares. Isso está no espírito de uma estratégia de desmatamento zero?

O uso sustentável da madeira é uma ficção. Essencialmente, toda a exploração madeireira na Amazônia é insustentável, incluindo a madeira extraída de planos de manejo florestal sustentável legalmente aprovados. Nenhum desses planos leva em conta que a exploração torna a floresta muito mais vulnerável a incêndios florestais. Quando uma área explorada queima, a intensidade do fogo e a perda de biomassa são maiores. Isso cria um ciclo vicioso de incêndios repetidos. Além disso, o manejo florestal é insustentável devido a contradições na lógica econômica e brechas na lei.

Grande parte da Amazônia brasileira é propriedade do Estado, chamada de “terras públicas sem propósito”, bem mais de 50 milhões de hectares. O que o governo deve fazer com esta terra?

Essas áreas devem ser todas convertidas em reservas naturais, ou seja, áreas protegidas para a diversidade biológica ou territórios indígenas demarcados. Isso também deve incluir reservas de coleta para uso sustentável e tradicional da floresta. Nenhuma dessas terras deve ser legalizada como propriedade privada.

No passado, Lula foi responsável por grandes projetos hidrelétricos, como as hidrelétricas do Rio Madeira e do Rio Xingu. Você teme que outros grandes projetos hidrelétricos sejam decididos agora?

Esse é um grande temor, não só pelo passado de Lula, mas também por suas declarações de campanha defendendo as decisões tomadas na época. Adicione a isso o Plano de Desenvolvimento Energético 2050. Muitas outras barragens serão construídas na Amazônia depois se o projeto de lei PL191/2000 for aprovado, abrindo terras indígenas para construção de barragens – bem como mineração, agronegócio e exploração madeireira. Os grupos de interesse por trás dela têm votos suficientes para aprovar a lei, mesmo contra um veto presidencial.

Como você avalia as usinas hidrelétricas na Amazônia? Que contribuição eles fazem para a proteção do clima? Ou eles preferem aquecer o clima global?

As barragens existentes contribuem para o aquecimento global de várias maneiras. Eles emitem CO2 e metano. Essas emissões são muito maiores nos primeiros anos após o enchimento de um reservatório, tornando-as particularmente prejudiciais ao clima global. Ao contrário do CO2, o metano é um gás com forte efeito de aquecimento nos primeiros anos, o impacto do CO2 é relativamente pequeno, mas se estende por mais de um século. O que será decisivo é o que acontecerá nos próximos 20 anos. O último relatório do IPCC calculou que uma tonelada de metano produz 80,5 vezes mais que uma tonelada de CO2 nos primeiros 20 anos. Isso quadruplica o impacto das barragens na Amazônia em comparação com o valor relatado no Protocolo de Kyoto e na literatura atual sobre emissões de barragens (incluindo a minha).

Eles consideram a pavimentação da rodovia federal BR-319, na Amazônia central, uma das maiores ameaças à região. O senhor vê algum sinal de que o governo Lula vai concluir o projeto ou abandoná-lo?

Em entrevista a uma rádio em Manaus durante sua campanha eleitoral, Lula explicou que não entendia por que a reforma da BR-319 não deveria ser aprovada enquanto os governos estaduais e municipais se comprometessem com “salvaguardas”. Infelizmente, mesmo que tal promessa fosse feita, isso não reduziria os danos causados ​​pela Autobahn. Com impactos que se estendem muito além das áreas ao longo da BR-319, não há sinal de que os governos locais estejam dispostos a pagar o custo astronômico de interromper o desmatamento em toda a área.

Como você avalia os projetos de produção de petróleo e gás existentes e planejados nos estados amazônicos? A produção de petróleo nas áreas de floresta tropical não deveria ser interrompida apenas por razões de proteção do clima?

Para conter a mudança climática, o mundo deve abandonar o petróleo e o gás rapidamente. Até a Agência Internacional de Energia (IEA) emitiu um relatório afirmando que nenhum novo campo de petróleo e gás deve ser perfurado e os existentes devem ser reduzidos a zero, com zero emissões líquidas no mundo até 2050. O Brasil deve seguir esse caminho. Na região amazônica, a eliminação também deve ser mais rápida do que em outros lugares, pois, além das mudanças climáticas, os danos ambientais também são causados ​​pela poluição por óleo ou pela construção de estradas e desmatamento na floresta amazônica.

No projeto de óleo e gás na Bacia do Solimões. A Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, tem direitos de perfuração nesta área de floresta tropical intacta. Quando vai começar o financiamento? Ou o governo vai parar o projeto?

Nenhum cronograma ou decisão foi anunciado. Dados os laços estreitos de Putin com a Rosneft, a atitude de Lula em relação a Putin na guerra na Ucrânia é preocupante. O asfaltamento da BR-319 e a construção da rodovia estadual associada AM-366 são muito importantes para o projeto da Rosneft.

Quais seriam as consequências da implantação do projeto de óleo e gás para a floresta tropical da região?

O AM-366 passaria por três dos primeiros blocos de petróleo, bem como por uma grande área de potenciais blocos futuros. Se essa estrada for construída, grileiros e posseiros invadiriam as terras públicas ainda não designadas. Toda a metade leste da malha rodoviária proposta já é reivindicada por proprietários de terras no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O projeto de petróleo e gás pode acelerar a construção dessas estradas, já que o dinheiro da Rosneft e a influência de Putin o tornam uma prioridade para os governos federal e estadual.

Como o senhor vê o risco de produzir biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar ou do dendê na Amazônia?

Isso é motivo de preocupação, principalmente no caso dos dendezeiros na área da Trans Purus. Esta área é climaticamente mais adequada para os dendezeiros. As empresas malaias de óleo de palma tentaram comprar terras lá já em 2008.

O que você gostaria de ver como resultado da conferência de Belém?

É de se esperar que o Brasil e os demais países se comprometam a abandonar projetos de infraestrutura como a BR-319. Os países amazônicos devem fazer mais do que pressionar o resto do mundo para contribuir financeiramente para deter o desmatamento. O Brasil, em particular, deve se conscientizar da importância da floresta amazônica.

Philip Martin Fearnside é um biólogo americano que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus desde 1978. Com mais de 700 publicações, foi o segundo cientista mais citado no mundo sobre aquecimento global em 2006 e o ​​cientista mais “influente” sobre mudanças climáticas no Brasil em 2021. Fearnside é membro do Amazon Science Panel (SPA).


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Amazônia: “Melhor zerar o desmatamento ontem”

Pesquisador da Amazônia Carlos A. Nobre fala sobre desmatamento, degradação e possível restauração

267712Mina de minério de ferro na floresta amazônica brasileira. Foto: AFP/MAURO PIMENTEL

Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Os países amazônicos querem discutir a preservação da floresta tropical em sua cúpula em Belém. Quão dramática é a situação?

Em toda a região amazônica, que originalmente compreendia cerca de 6,5 milhões de quilômetros quadrados de floresta, pouco mais de 1 milhão de quilômetros quadrados já foram desmatados, cerca de 18%. Outros 17% são áreas degradadas em vários estágios. A maior parte dessas áreas desmatadas e danificadas está localizada no sul da Amazônia, nos estados brasileiros do Pará, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Amazonas, e no sudeste da Bolívia. Um segundo arco de desmatamento se estende ao longo dos Andes entre 400 e 1300 metros de altitude no Peru, Equador e Colômbia.

Quão longe ou quão perto estamos do “ponto sem volta” do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso?

Na verdade, a Amazônia não está longe de um ponto sem volta. Devemos parar o desmatamento, a degradação e os incêndios florestais definido para zero imediatamente e de preferência ontem. Precisamos de uma moratória nesse tipo de mudança de uso da terra, especialmente no sul da Amazônia porque está à beira do colapso. A estação seca nesta região de dois milhões de quilômetros quadrados já dura quatro a cinco semanas a mais do que nos últimos 40 anos. E é 2,5 graus mais quente e 25% mais seco. Esta região é agora uma fonte de emissões – liberando mais carbono do que retira da atmosfera. Portanto, se continuarmos com o aquecimento global e a destruição das florestas, passaremos desse ponto sem retorno em no máximo 20 a 30 anos. Portanto, é fundamental começar imediatamente a restauração de grande parte desses dois milhões de quilômetros quadrados que foram desmatados e degradados.

Entrevista

Carlos A. Nobre é um dos mais renomados pesquisadores da Amazônia. O cientista do sistema terrestre do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo investiga em particular as interações entre a biosfera e a atmosfera e as consequências do desmatamento para o clima. Nobre é um dos co-presidentes do Amazon International Science Panel de mais de 240 pesquisadores.

De acordo com suas declarações e seu programa de proteção da Amazônia apresentado em junho, o presidente brasileiro Lula da Silva quer acabar com o desmatamento “ilegal” na Amazônia até 2030. Isso é suficiente para evitar o colapso?

O Brasil e quase todos os países amazônicos assinaram um acordo durante a cúpula do clima COP 26 em Glasgow em 2021, que 134 países assinaram até o momento e que visa zerar o desmatamento no mundo até 2030. Esse deve ser o nosso principal objetivo. Embora o marco legal brasileiro permita o desmatamento de 20% e em alguns lugares até 50% na Amazônia, não podemos mais distinguir entre legal e ilegal para proteger a área. Os governos de alguns países amazônicos, como a Colômbia, estão trabalhando para interromper todo o desmatamento e essa deveria ser a política do Brasil também. Para salvar o planeta, combater a emergência climática e proteger a biodiversidade, o desmatamento não deve mais ser permitido.

O programa de proteção do Brasil também permite a expansão da extração “sustentável” nas florestas do estado para até cinco milhões de hectares. Isso faz sentido?

​​​​​Como eu disse, desmatamos quase a mesma área que degradamos na Amazônia. Infelizmente, a exploração madeireira praticada bem como o corte “seletivo” levam a uma enorme degradação das florestas. Este não é o caminho para a Amazônia. Para salvar a Amazônia, é necessário acabar com o desmatamento e a degradação florestal e embarcar em grandes projetos de restauração. Na COP 27 do ano passado, nós, o Painel de Ciência da Amazônia, lançamos um projeto para restaurar grandes áreas de floresta, principalmente nas regiões dos dois arcos de desmatamento. Chamamos-lhe »Arcos da Restauração Florestal«.

Grande parte da Amazônia brasileira é considerada terra federal ou estadual “ sem designação ” . O que o governo deve fazer com esta terra?

As “terras devolutas” na Amazônia cobrem uma enorme área de 560.000 quilômetros quadrados. É muito importante que as florestas dessas áreas sejam preservadas e que a restauração florestal em larga escala ocorra em terras públicas já desmatadas. Um total de mais de 20 milhões de hectares de floresta tropical já foram derrubados em reservas naturais, reservas indígenas e nas »terras devolutas«. Então um megaprojeto de restauração florestal como o que lançamos na COP 27, abrangendo pelo menos 50 milhões de hectares, é muito importante. Todas essas terras federais e estaduais que permanecem sem designação devem ser demarcadas como territórios indígenas e usadas para criar um grande número de santuários de vida selvagem.

O que você gostaria de ver como resultado da cúpula dos países amazônicos em Belém?

Claro, temos grandes expectativas com o acordo alcançado na Cúpula de Belém com todos os presidentes dos países amazônicos, possivelmente também com o presidente da França, Emmanuel Macron. Seria desejável que os oito países amazônicos e a Guiana Francesa chegassem a um acordo e, a exemplo da UE, formassem uma União de países amazônicos para combater conjuntamente o desmatamento, a degradação florestal e os crimes ambientais que estão explodindo na região, como o grilagem, garimpo ilegal, tráfico de drogas e combate à pesca predatória.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].