Agrotóxico amplia vendas em até 2.672,8% e escancara farsa dos transgênicos no Brasil

Pulverização de agrotóxicos em lavoura em Mato Grosso: dos produtos mais vendidos no Brasil, metade foi banida na EU devido à alta toxicidade.  Foto extraída de Juruena – Rastros de Veneno

Por Cida de Oliveira*

Não é a toa que o Brasil caminha para consolidar sua posição de maior lixeira química do mundo. O modelo agrícola hegemônico, baseado no monocultivo em grandes extensões de terra banhadas em agrotóxicos, o levou para a liderança mundial do consumo desses produtos. Dianteira essa que pode ser traduzida também pela explosão nas vendas de toneladas e toneladas de herbicidas no período de 2010 a 2020. Nesses onze anos saltaram de 157.512 para 329.697. Em números absolutos, um aumento de 128% na comercialização, conforme levantamento da Embrapa Meio  Ambiente em conjunto com a Universidade de Rio Verde a partir de dados disponibilizados pelo Ibama.

Publicado na revista científica Agriculture, o estudo mostra números astronômicos que compõem o aumento do mercado dos herbicidas, categoria que responde por mais de 60% de todos os agroquímicos. O destaque ficou com o cletodim, que aumentou suas vendas em 2.672,8%. O produto usado na soja e algodão, entre outras culturas, passou de 244,5 toneladas vendidas em 2010 para 6.779,6 em 2020.

Princípio ativo de 46 produtos registrados no país para combater as chamadas plantas invasoras segundo o banco de dados Agrofit, o cletodim enfrenta barreiras na União Europeia (EU). Detém o registro de um único produto, com validade limitada a 15 dos 27 países-membros.

Outro que alavancou seu mercado no Brasil foi o haloxifope-metil, com aumento de 896,9%. Princípio ativo de 27 produtos registrados para soja, cana, citros e algodão, partiu de 111,3 toneladas para 1.109,8 ao longo dos 11 anos. Na EU, porém, enfrenta processo de restrições. Foi banido da canola, com efeitos sobre a produção australiana, grande fornecedor que está tendo de se adequar. Seu uso em cenouras, leguminosas, pastagens, soja e beterraba soja e beterraba poderá ser afetado. A Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) estabeleceu agenda para reduzir os limites máximos de resíduos ao mínimo.

 Preocupação com segurança

Outro princípio ativo que cujos fabricantes faturaram mais é o triclopir. Saltou de 228 toneladas em 2010 para 2.405 toneladas em 2020, aumento de 953,5%. A molécula presente em 40 produtos aprovados no Brasil para soja e outras culturas passou por avaliação recente pela autoridade europeia do setor na Polônia. Os testes fazem parte do processo de renovação do registro pedido pela Corteva. A empresa formada com a fusão da DuPont com a Dow Chemical procura ganhar tempo em uma UE cada vez mais exigente quanto aos agrotóxicos. A revisão se concentrou no uso do herbicida em pastagens e analisou seus limites máximos de resíduos em arroz. Apesar dos parâmetros considerados confiáveis para avaliação de risco para fins de regulação, a falta de informações mais apuradas levantou preocupações sobre sua segurança e eficácia.

Sucesso no Brasil, barrado na União Europeia

O diclosulam é outra molécula que aumentou bem seu mercado. Presente em seis produtos aprovados no Brasil para uso na soja, viu sua comercialização ampliada em 561,3% em onze anos. Sucesso no Brasil, o agente ativo sequer chegou a ser registrado na UE, segundo levantamento dos professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Sônia Hess e Rubens Nodari publicado na revista Ambientes em Movimento e na mais recente edição do Dossiê Abrasco.

A flumioxazina, substância ativa de 48 produtos aprovados no Brasil para soja, cana e eucalipto, entre outros, teve aumento de 531,6% na comercialização. Na avaliação dos autores do estudo na Embrapa e Universidade de Rio Verde, o incremento nas vendas se deu com a ampliação dos produtos, o que permitiu menores preços em comparação a outros herbicidas.

Banido da Europa em 2009, o glufosinato de amônio também foi bem, aumentando as vendas em 290%. Princípio ativo de 65 formulações registradas no Brasil, passou a ganhar espaço a partir de 2017, com a aprovação de mais produtos formulados à base da molécula. E deverá ganhar mais espaço caso vinguem novos transgênicos aprovados, resistentes à substância. É o caso o trigo e uma nova soja.

Glifosato ainda na dianteira

Essa explosão nas vendas desses produtos, no entanto, não os coloca no ranking dos mais vendidos no Brasil. Presente em 31 formulações, o glifosato teve aumento de 106,5% de 2010 a 2020, segundo levantamento da Embrapa. Mesmo assim, vendeu 246.017 toneladas em 2020, mantendo-se na já antiga liderança das vendas no país, como também mostra levantamento dos professores da UFSC.

Do mesmo modo, o 2,4-D mantém a vice liderança. Princípio ativo de 52 produtos com registro no Brasil, viu suas vendas aumentar em 233,8% entre 2010 e 2020, passando de 15.323 toneladas em 2010 para 51.149 toneladas em 2020, segundo a Embrapa. Uma pequena diferença quanto ao apurado pela USFC, que aponta 57.597,6 toneladas. Mesmo assim, segue na vice-liderança, para indignação de setores da sociedade civil e científica que lutam pelo seu banimento no país. Em julho de 2022 a Anvisa desprezou manifestações e decidiu manter o produto no mercado.

Pacote do Veneno

Integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) pela terceira vez, representando agora o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o geneticista e professor da UFSC, Rubens Nodari, não poupa críticas ao modelo agrícola hegemônico no país. E principalmente às políticas em diversos governos que alimentam, sustentam e pioram a situação. É o caso da aprovação do chamado Pacote do Veneno, em janeiro de 2023, que limitou o papel da Anvisa e do Ibama de questões relativas a agrotóxicos e transgênicos. E da liberdade conferida a essas indústrias poderosas por meio da permissividade da Lei de Biossegurança.

Voto vencido nas decisões da CTNBio, que aprova sem muito questionamentos os pedidos para liberação de novos organismos geneticamente modificados, Nodari avalia que a comissão deixa de cumprir seu papel ao ignorar que “evidência de ausência é diferente de ausência de evidência”. “Quando aprovaram lá o primeiro transgênico, alegaram que havia ausência de evidências. Ora, porque não investigaram para achar; quem procura, acha”, disse, ressaltando que não é contrário a novas tecnologias. “Mas quero que tudo seja analisado com rigor”.

Promessa descumprida

“O aumento de vendas desses produtos todos, que choca e muito, tem tudo a ver com o aumento das plantações transgênicas no Brasil. Primeiro vieram com pretexto de resistir a herbicidas e produzir mais. Mas não foi o que aconteceu”, critica. Todo esse crescimento nas vendas de agrotóxicos, aliás, não foi acompanhado pelo aumento na área plantada, conforme mostra o levantamento da Embrapa.

Em entrevista ao Blog, Nodari disse que o modelo de produção transgênica, com monocultura em grandes extensões de terra e uso de venenos não tem mesmo como dar certo. Isso porque o sucesso da produção agrícola depende da diversidade. “Quando a genética é uniforme em grandes áreas, com plantas iguais, a resistência é menor. Já a diversidade de plantas proporciona variedade genética. E cada planta diferente torna-se um obstáculo para inoculação e disseminação de fungos, por exemplo. É assim nos sistemas agroflorestais, que otimizam o uso da terra combinado com produção agrícola e animal”, comparou.

Segundo ele, a agroecologia é uma tecnologia capaz de aumentar a produção de alimentos sem venenos e enfrentar a crise ambiental. “Mas não é a saída escolhida no país. Prova disso é todos os governos colocaram somente gente do agronegócio para comandar seus ministérios da Agricultura”, disse, lembrando que propostas no sentido contrário ao setor de agrotóxicos praticamente são esquecidas.

Oceano de produtos perigosos

Falar sobre aumento nas vendas de agrotóxicos, que faz a alegria apenas dos fabricantes e daqueles que se beneficiam, é também uma oportunidade de reforçar o alerta sobre o oceano de agrotóxicos perigosos no qual o Brasil está mergulhado. Ou seja, se nada for feito para reverter, em questão de tempo os negócios hoje lucrativos passarão a perder mercado externo.

Dos 14 herbicidas que venderam, sozinhos, mais de 3.000 toneladas no Brasil em 2020, a metade (7) já foi banida na União Europeia. Trata-se de atrazina, acefato, dicloreto de paraquate, diurom, dibrometo de diquate, tebutiurom e ametrina. Ou seja, a proibição ocorre devido aos efeitos nocivos aos humanos e ao meio ambiente devido à exposição a componentes químicos que comprovadamente têm efeitos tóxicos.

No Brasil, ao contrário, há concessão de autorizações para novos produtos por prazo indefinido, com base em processos de avaliação questionados pela boa ciência. Seja pelo baixo rigor científico e aprovação de estudos com falhas metodológicas, apresentados somente pela parte interessada na aprovação. E também pela ausência de participação pública na tomada de decisão.

Exemplo é o rebaixamento da classificação toxicológica de 1924 agrotóxicos no início de agosto de 2019. Com a mudança, o glifosato, por exemplo, recebeu a faixa 4, “produto pouco tóxico”. Na prática, deixou de ser reconhecido como produto capaz de causar câncer em humanos, conforme classificação da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). Nesse “passe de mágica”, produtos com explosão nas vendas de 2010 a 2020, como o cletodim, triclopir, 2,4-D, atrazina e ametrina, entre outros, foram transformados em substâncias pouco tóxicas. Suas bulas, porém, mantêm o termo muito perigosos ao meio ambiente.

Essa seletividade do perigo de acordo com a conveniência é um escândalo, segundo avaliação do engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo. “Venenos destinados a matar plantas continuam afetando redes ecossistêmicas, mesmo não matando os ratos de teste. E os inseticidas que afetam o sistema nervoso e reprodutivo de insetos afetam insetos não alvo de maneira bem clara, coisa que nos animais é mais difícil de perceber”, ponderou ao Blog.

Melgarejo, que integra o Movimento da Ciência Cidadã, chamou atenção também para o que chama de obsessão pelas análises de risco envolvendo um novo produto e um alvo no laboratório. E a compara com a complexidade da vida real. “Lembra do Einstein dizendo que se os polinizadores acabarem a humanidade regredirá à idade da luta por comida? Pois então… como um veneno pode ser mortal para polinizadores e inócuo para humanos?”, questiona. “As relações, as conexões, as redes, ficam de fora nestas análises de risco que isolam um agente e um alvo. Estes estudos, que simulam uma condição irreal, são reducionistas demais, de um cientificismo pobre, que ocultam danos reais. Não dão conta da complexidade”.


*Cida de Oliveira é jornalista

 

Contaminação clandestina de arroz transgênico está aumentando no mundo

Por Sustainable Pulse

Embora o arroz geneticamente modificado não esteja atualmente disponível comercialmente, a contaminação por  Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) em arroz não transgênico é bastante comum — respondendo por um terço de todos os eventos desse tipo em todo o mundo. Atualmente, vários países estão experimentando arroz com edição genômica, já que a desregulamentação permite que esses produtos indetectáveis ​​entrem no mercado sem transparência, rastreabilidade ou rotulagem.

O arroz é uma das principais culturas básicas do mundo. Segundo a  Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) , ele fornece até 80% da ingestão calórica diária para quase metade da população global. A maior parte da produção e do consumo de arroz ocorre em economias em desenvolvimento, particularmente na  China e na Índia , que juntas dominam o mercado global de arroz.

Atualmente, os OGMs não estão presentes na produção comercial de arroz, visto que nenhum arroz OGM é cultivado para o mercado comercial em nenhum lugar do mundo. No entanto, essa ausência não impediu a indústria da biotecnologia de se aventurar no arroz. Variedades OGM foram desenvolvidas, embora atualmente não comercializadas, para uma variedade de características do arroz OGM, incluindo as seguintes:
* Resistência a insetos e doenças
* Tolerância a herbicidas
* Resistência a estressores ambientais
* Fortificação de nutrientes
* Propriedades nutracêuticas.

Embora o arroz transgênico não tenha penetrado significativamente no mercado comercial, a presença de arroz transgênico experimental ou não autorizado em produtos não transgênicos é assustadoramente comum — o arroz é responsável por até um terço  de todos os eventos registrados de contaminação por OGM.

Apesar da ausência nos mercados comerciais, vários países estão avançando com o desenvolvimento e os testes de arroz transgênico. Aqui está um panorama global dos projetos emergentes de arroz transgênico.

Índia lidera produção de arroz geneticamente modificado em meio a reações negativas

A Índia ganhou as manchetes recentemente ao se tornar o primeiro país a aprovar duas  variedades de arroz geneticamente editadas  desenvolvidas com a tecnologia CRISPR. O Conselho Indiano de Pesquisa Agrícola (ICAR) foi fundamental no desenvolvimento das duas variedades: o arroz Pusa DST, projetado para alto desempenho em solos salinos e alcalinos, e o arroz DRR 100 (Kamala), projetado para resiliência climática, redução das emissões de gases de efeito estufa, menor consumo de água e maior produtividade.

O histórico contencioso da Índia com OGMs deu origem a um forte movimento anti-OGM. Um ativista e grupo de direitos dos agricultores, a  Coalizão por uma Índia Livre de OGMs , emitiu um  comunicado à imprensa  pedindo a retirada imediata das duas variedades de arroz geneticamente editadas. As objeções do grupo incluem o seguinte:
* A edição genética ainda pode envolver material genético estranho durante o desenvolvimento e claramente produz OGM.
* A desregulamentação de OGM feitos com novas técnicas genômicas ignora salvaguardas contra efeitos não desejados.
* As duas variedades de arroz têm o potencial de prejudicar a saúde humana e o bem-estar ambiental.
* A soberania das sementes e os meios de subsistência dos agricultores estão em risco com as mudanças de políticas impulsionadas pela indústria.

As preocupações do grupo foram parcialmente ecoadas por Venugopal Badaravada, representante dos agricultores no órgão dirigente do ICAR, que criticou as novas culturas de arroz transgênico por priorizarem “ciência para as manchetes” em detrimento de “soluções para a agricultura”. Ele foi posteriormente expulso do cargo.

Enquanto isso, organizações internacionais como a GMWatch  argumentam que a propaganda em torno de melhorias de produtividade ignora o potencial das variedades endógenas de arroz existentes, que já atendem a altos padrões de produtividade.

O papel emergente da China na pesquisa de arroz transgênico

Como maior produtor e consumidor de arroz do mundo, a posição da China em relação aos OGM tem profundas implicações globais, pois outros países podem se recusar a cultivar culturas OGM se não conseguirem acessar o mercado chinês.

A China parece ter dado sinal verde para o arroz transgênico. Em  2023 , pesquisadores relataram a segunda colheita de um arroz transgênico experimental de porte alto. O aumento da altura da cultura pode permitir que as plantas produzam mais grãos, e os desenvolvedores afirmam que ela também é resistente a pragas e inundações.

O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China concedeu um certificado de segurança para uma  variedade diferente de arroz geneticamente editado  em dezembro de 2024 — parte de uma iniciativa mais ampla de OGM para aumentar a produtividade e a segurança alimentar, embora as características específicas e os planos de cultivo não sejam claros.

Além disso, a Universidade Agrícola de Nanquim, na China, firmou parceria com a Universidade do Missouri para desenvolver  arroz geneticamente modificado  com resistência à requeima bacteriana. O OGM foi anunciado na  edição de fevereiro  do The Crop Journal.

Atualmente, esses esforços permanecem na fase de pesquisa ou teste, com cultivo comercial improvável por vários anos.

Japão explora OGM farmacêuticos

Pesquisadores da  Organização Nacional de Pesquisa Agrícola e Alimentar do Japão  estão desenvolvendo uma variedade de arroz geneticamente modificado para aliviar a rinite alérgica. O arroz transgênico foi projetado para produzir alérgenos associados ao pólen do cedro japonês, e um pó feito a partir da cultura pode reduzir a resposta imunológica. A cultura está  em desenvolvimento desde 2000 e os ensaios clínicos estão em andamento.

Itália explora edição genética em uma cultura livre de OGM

O patrimônio cultural e a identidade agrícola da Itália têm sido, há muito tempo, determinantes na oposição pública aos OGM em culturas alimentares. De acordo com a  Coordenação Europeia Via Campesina , 15 das 18 regiões da Itália são orgulhosamente livres de OGM. No entanto, a  desregulamentação da UE  para culturas produzidas com novas técnicas genômicas (NGTs) parece ter criado uma oportunidade para o cultivo de culturas geneticamente modificadas em solo italiano.

Em  maio de 2024 , a Itália iniciou um teste de campo com um arroz arbóreo geneticamente editado, o RIS8imo, desenvolvido para resistência ao patógeno fúngico chamado brusone do arroz. O RIS8imo é a primeira cultura desenvolvida por meio da biotecnologia a ser plantada na Itália em mais de 20 anos. No entanto, nenhum dado foi coletado do experimento porque as plantações foram  destruídas  por vândalos poucos meses após o plantio. Os cientistas conseguiram salvar sementes dos talos cortados e planejam continuar a pesquisa.

O impacto global da contaminação por OGMs

Apesar da escassez de arroz geneticamente modificado cultivado comercialmente, incidentes de contaminação ocorrem com frequência alarmante. O  Registro de Contaminação de OGMs , um banco de dados global que rastreia incidentes de contaminação por OGMs em culturas não transgênicas, alimentos ou parentes silvestres, relata que o arroz representa cerca de um terço de todos os casos registrados de contaminação por OGMs — mais do que qualquer outra cultura. Desde  2006 , arroz transgênico não autorizado tem sido detectado repetidamente na cadeia de suprimentos global. Não está claro se a contaminação decorre de testes de campo ou de possível cultivo ilegal de OGMs.

A contaminação por OGM tem sérias implicações, especialmente para pequenas propriedades rurais em economias em desenvolvimento que dependem da produção de arroz para sua subsistência. A contaminação do arroz não transgênico já cortou o acesso a mercados de exportação cruciais.

A aposta de ouro do arroz transgênico: grandes esperanças, baixo impacto

A história do arroz transgênico apresenta uma contradição gritante: sem cultivo comercial, mas com contaminação generalizada e controvérsia. O arroz dourado é um dos exemplos mais ilustrativos.

O Arroz Dourado foi desenvolvido como uma cultura geneticamente modificada para combater a Deficiência de Vitamina A (DVA) — uma condição grave e, às vezes, fatal, que afeta  milhões  das pessoas mais pobres do mundo. Embora haja amplo consenso sobre a necessidade de prevenir a DVA, o Arroz Dourado gerou profunda discordância sobre sua eficácia e segurança.

Os defensores frequentemente retratam o Arroz Dourado como um bem inequívoco — uma inovação humanitária projetada para salvar vidas. Os céticos, no entanto, argumentam que se trata de uma solução bem-intencionada, mas falha, que falha em condições reais. De fato, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA)  concluiu  que “o Arroz Dourado não atende aos requisitos nutricionais para fazer uma alegação de saúde”, citando a baixa concentração de betacaroteno (um precursor da vitamina A).

O arroz dourado foi aprovado para cultivo nas Filipinas entre 2021 e 2024, mas essa aprovação acabou sendo revogada devido a preocupações com a segurança.

Até que governos e partes interessadas da indústria priorizem a transparência, o rigor científico e os direitos dos agricultores, os riscos do arroz geneticamente modificado podem continuar a superar seus benefícios teóricos. A comunidade global deve exigir inovação responsável que proteja a soberania alimentar, a biodiversidade e a saúde pública.


Fonte: Sustainable Pulse

Milho ancestral versus agronegócio: por que os “guardiões das sementes” da Colômbia estão lutando contra o uso de culturas geneticamente modificadas

As empresas de biotecnologia afirmam que as plantas geneticamente modificadas proporcionam maior produtividade e reduzem o uso de agrotóxicos. Mas, nas comunidades rurais, crescem as dúvidas sobre quem realmente se beneficia – e a ameaça às variedades nativas 

José Castillo, membro de um grupo de guardiões de sementes, exibe uma variedade de sementes nativas que eles preservaram. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

Por Gabriela Barzallo,  em San Lorenzo, Colômbia, para o “The Guardian”

Em uma fazenda na encosta de San Lorenzo , nas montanhas do departamento de Nariño, no sul da Colômbia , Aura Alina Domínguez pressiona sementes de milho no solo úmido. Ao seu redor, os agricultores Alberto Gómez, José Castillo e Javier Castillo chegam com suas sementes selecionadas, armazenadas em shigras – bolsas de ombro tecidas à mão – como vem sendo feito há gerações.

Em San Lorenzo, eles se autodenominam “guardiões das sementes” por seu papel na proteção desse patrimônio vivo e na transmissão de suas gerações. “Cada semente carrega a história dos nossos avós”, diz Domínguez, enquanto arruma as espigas secas penduradas em suas vigas.

Domínguez, Gómez e os Castillos estão entre os agricultores que apoiam o projeto de lei , em análise pela câmara baixa do parlamento colombiano, que proibiria sementes geneticamente modificadas (GM) , que eles alegam ameaçar suas tradições, meios de subsistência e soberania alimentar.

A iniciativa conta com o apoio de organizações indígenas, camponesas e ambientalistas, mas enfrenta oposição do agronegócio e de setores que apoiam os transgênicos como estratégia de desenvolvimento econômico.

Um grupo de pessoas segurando espigas de milho caminha por um campo com montanhas ao longe.

Os guardiões das sementes protegem variedades de sementes tradicionais transmitidas de geração em geração entre agricultores em San Lorenzo, Nariño, Colômbia. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

A introdução de culturas transgênicas na Colômbia tem causado debates acalorados desde a adoção do algodão transgênico em 2002 e do milho transgênico em 2007, quando a política nacional se alinhou às tendências globais da biotecnologia. De acordo com estatísticas do Instituto Colombiano de Agricultura (ICA) , entre 2003 e 2020, 1,07 milhão de hectares foram plantados com algodão e milho transgênicos, resultando em US$ 301,7 milhões em renda adicional devido ao aumento da produtividade e à redução do uso de agrotóxicos.

No entanto, as comunidades rurais têm questionado cada vez mais se essas políticas refletem verdadeiramente seus interesses ou se beneficiam principalmente os grandes produtores. Organizações de base criticam a ACI por priorizar a agricultura comercial em detrimento da soberania local sobre as sementes e por não consultar as comunidades indígenas e camponesas sobre decisões cruciais.

Por mais de uma década, comunidades camponesas fizeram da proteção de sementes uma causa comum na Colômbia . Em San Lorenzo, a rejeição às sementes transgênicas evoluiu para uma oposição política organizada depois que a população detectou o uso dessas sementes em plantações próximas em 2012. A população temeu que as sementes transgênicas pudessem ser polinizadas por cruzamento com suas variedades nativas, alterando suas características e ameaçando sua capacidade de preservá-las.

Três homens e uma mulher sorriem segurando espigas de milho em frente a plantas de milho

Da esquerda para a direita: Alberto Gómez, José Castillo, Aura Alina Domínguez e Javier Castillo segurando milho cultivado a partir de sementes tradicionais. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

O alerta os levou a agir. Eles viajaram de aldeia em aldeia, realizaram workshops, coletaram 1.300 assinaturas e elaboraram uma proposta liderada pelos cidadãos. A iniciativa foi apoiada pela Rede de Guardiões das Sementes da Vida , uma plataforma nacional composta por grupos agrícolas e ambientais, além de coletivos locais e o governo municipal.

Foi formalmente submetido à Câmara Municipal, de acordo com a lei colombiana sobre democracia participativa. Em 2018, San Lorenzo declarou-se um território livre de transgênicos .

Em 2021, um grupo de organizações indígenas entrou com uma ação judicial exigindo que o governo colombiano protegesse as sementes tradicionais da contaminação genética. Dois anos depois, o tribunal constitucional decidiu a favor delas e ordenou salvaguardas legais e técnicas.

Ainda assim, as propostas apresentadas pelo ICA foram consideradas inadequadas pelos líderes comunitários. Em 2024, uma coalizão de organizações rurais, indígenas e ambientais liderada pelo Grupo Semillas , uma organização sem fins lucrativos colombiana que promove a agricultura sustentável, apresentou uma legislação que visa alterar o artigo 81 da Constituição colombiana para proibir o uso, a importação e a venda de sementes transgênicas em todo o país.

A iniciativa obteve apoio do presidente Gustavo Petro e de seu governo, que a enquadraram como parte de uma agenda mais ampla pela soberania alimentar. A senadora Catalina Pérez a chamou de “uma oportunidade para restaurar a autonomia dos produtores”.

Uma variedade de espigas de milho em um carrinho de mão de aço

Os defensores das sementes nativas orgânicas afirmam que elas devem ser reconhecidas como parte de um patrimônio coletivo. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

O Grupo Semillas e a Rede Guardiões das Sementes da Vida também a promoveram. Segundo Germán Vélez, diretor do Grupo Semillas, a reforma visa “reconhecer as sementes nativas como patrimônio coletivo e frear a erosão genética que ameaça a soberania alimentar do país”.

Mas nem todos concordam. Desde a primeira vitória de San Lorenzo contra os transgênicos, o setor agropecuário tem visto a reação às sementes geneticamente modificadas como uma ameaça à regulamentação nacional.

A Associação Colombiana de Sementes e Biotecnologia (Acosemillas) , que representa produtores e empresas de sementes, entrou com uma ação judicial contra o município, alegando que este havia excedido sua autoridade legal. Da perspectiva dos produtores, permitir que os municípios regulem os cultivos transgênicos de forma independente poderia abrir um precedente.

Uma mulher transforma massa de milho em formas planas e redondas dispostas sobre grandes folhas verdes em uma bancada de trabalho

Aura Alina Domínguez modela massa de broa de milho sobre uma esteira de folhas. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

“Como um município pode rejeitar uma tecnologia aprovada pelas autoridades sanitárias do país?”, questiona Leonardo Ariza, gerente geral da Acosemillas.

Ariza diz que as culturas geneticamente modificadas podem “coexistir com variedades tradicionais” e alega que as regulamentações colombianas incluem “protocolos de biossegurança que exigem isolamento do milho nativo e o uso de refúgios” para evitar contaminação.

Ariza não apresentou evidências para sustentar suas alegações. Uma pesquisa da Universidade dos Andes descobriu que o pólen do milho transgênico pode viajar até 700 metros – mais que o dobro da barreira de 300 metros exigida pela ICA.

Em abril , a legislação que proíbe os transgênicos foi debatida em uma audiência pública na Câmara dos Deputados da Colômbia, onde agricultores, cientistas e legisladores apresentaram seus argumentos. O projeto ainda precisa passar por oito debates legislativos antes de se tornar lei .

Em uma declaração recente, Acosemillas pediu que o projeto de lei fosse retirado, argumentando que ele “vai contra os princípios de um estado democrático ao tentar limitar o direito dos agricultores de escolher quais sementes plantar, com base na crença equivocada de que isso ameaça a vida selvagem ou outros sistemas de produção”.

A iniciativa de Acosemillas encontrou apoio entre alguns especialistas. Segundo Moisés Wasserman, bioquímico e professor da Universidade Nacional da Colômbia, a proibição restringiria políticas voltadas à mitigação da crise climática e ao enfrentamento da insegurança alimentar.

 

Quatro mãos se estendem para colher frutas de uma árvore

Colheita de frutas orgânicas. O conhecimento das plantas nativas e das tradições culinárias é mantido vivo pelas comunidades de San Lorenzo. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

“Este é um movimento estranho que luta contra as soluções em vez dos problemas”, diz Wasserman, acrescentando que tais restrições também podem dificultar o desenvolvimento de biotecnologias nas áreas da saúde e do meio ambiente.

Enquanto isso, a agroindústria continua a se expandir. Em 2023, a Colômbia registrou um recorde de 154.677 hectares de culturas transgênicas. O milho geneticamente modificado representou mais de 36% da área plantada do país, um aumento de 20% em relação ao ano anterior.

A Monsanto desenvolveu muitas das sementes transgênicas usadas na Colômbia para resistir ao glifosato, um herbicida classificado pela Organização Mundial da Saúde como “provavelmente cancerígeno” para humanos. Desde que a Bayer adquiriu a Monsanto em 2018 , a empresa enfrentou mais de 150.000 processos judiciais nos EUA relacionados aos efeitos colaterais do produto químico, com indenizações superiores a US$ 11 bilhões.

Um estudo recente, que analisou décadas de dados sobre culturas transgênicas, concluiu que essas sementes geralmente aumentam a produtividade e têm efeitos mistos sobre o uso de agrotóxicos, a vida selvagem e o desmatamento. Outros estudos levantaram preocupações sobre os riscos à saúde associados à exposição prolongada ao glifosato, particularmente entre trabalhadores agrícolas.

Uma mão segurando sementes ao lado de uma bolsa de tecido usada no corpo

Os agricultores carregam sementes em shigras tradicionais – bolsas de ombro tecidas à mão – como fazem há gerações. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

O debate ocorre em meio à crescente concentração de mercado. Segundo ONGs ambientais, a Bayer e a Corteva controlam quase 40% do mercado global de sementes . Para as redes de pequenos produtores, isso levanta alarmes sobre a erosão da autonomia alimentar e a crescente dependência de sementes e insumos controlados por um punhado de empresas.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) , aproximadamente 75% da diversidade genética das culturas foi perdida globalmente no último século – uma tendência que também afetou a América Latina, lar de uma das mais ricas biodiversidades agrícolas do planeta.

Relatórios da FAO mostram que componentes essenciais da biodiversidade para alimentação e agricultura continuam a diminuir na região, inclusive nos níveis genético, de espécies e de ecossistema.

Duas figuras em uma encosta ondulada, com árvores e um céu azul nublado

Domínguez e José Castillo caminham pela paisagem andina ao redor de San Lorenzo. Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

Embora mais da metade das culturas transgênicas sejam plantadas por pequenos agricultores na Colômbia, sua expansão coincidiu com um declínio acentuado no milho nativo. A Colômbia abriga pelo menos 23 variedades nativas de milho, conforme identificadas em estudos agrícolas iniciais, e centenas de variedades locais adaptadas a diferentes regiões e culturas em todo o país.

Para comunidades como San Lorenzo, a perda dessa diversidade não é apenas uma preocupação biológica, mas cultural, ligada ao conhecimento ancestral e aos modos de vida.

Inspirados por San Lorenzo, municípios por toda a Colômbia, bem como territórios indígenas como La Unión, Riosucio e o povo Zenú , aprovaram resoluções locais semelhantes proibindo sementes geneticamente modificadas, com muitos expressando preocupação com a falta de políticas nacionais relevantes.

O antropólogo colombiano Hernán Barón Camacho diz que a defesa das sementes é “uma forma de resistência não violenta, uma reocupação do território baseada no cuidado, na diversidade e na autonomia”.

De acordo com a Rede de Guardiões das Sementes da Vida , a perda de diversidade não é apenas ecológica, mas também política. À medida que as variedades nativas desaparecem, as comunidades rurais perdem a capacidade de decidir o que cultivar e como cultivar.

Mãos seguram sementes sobre um tapete com uma faixa dizendo Red de Guardianes de Semillas de Vida (Rede de Guardiões de Sementes da Vida).

José Castillo arruma cuidadosamente uma mandala colorida feita de sementes. San Lorenzo, Nariño, Colômbia – 18 de abril de 2025 Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian Fotografia: Andrés Cornejo Pinto/The Guardian

Em San Lorenzo, a troca comunitária de sementes continua. Famílias e vizinhos compartilham pratos de sementes feitos com ingredientes cultivados em suas terras. Por meio de um sistema tradicional de empréstimo, eles reproduzem variedades nativas, como o milho morocho .

“Viver em paz é saber que nossas sementes são livres”, diz Alberto Gómez.

Domínguez diz que a luta deles ecoa uma questão global: quem decide o que plantamos e como nos alimentamos? “Não somos contra a tecnologia”, diz ela. “Só estamos pedindo para sermos nós que decidimos o que pertence aos nossos campos e o que não.”


Fonte: The Guardian

Organizações internacionais voltam a pedir proibição do plantio e comercialização do trigo transgênico

Entidades ligadas à agricultura sustentável e o direito à alimentação alertam para os riscos à saúde. Pães, massas e todos os derivados do trigo HB4 terão resíduos de glufosinato de amônio, agrotóxico altamente tóxico

Crédito da Foto: Pixabay

Por Cida de Oliveira 

São Paulo — Organizações da sociedade civil que reúnem países da América Latina, África e Ásia voltaram a reivindicar a suspensão das autorizações do plantio e comercialização do trigo HB4 na Argentina, Brasil e Paraguai. E de importação na África do Sul, Colômbia, Nigéria, Nova Zelândia, Indonésia e China. Desenvolvida e negociada pela companhia argentina Bioceres, a semente promete resistir aos períodos secos do ano e às chamadas plantas invasoras, cada vez mais resistentes a agrotóxicos. Essa segunda característica se deve a uma modificação genética que permite ao trigo resistir a altas doses do herbicida glufosinato de amônio. Segundo as entidades, há estudos que mostram que essa substância chega a ser 15 vezes mais tóxica que o glifosato.

E aí é que está a grande preocupação. As plantas acumulam resíduos dos agrotóxicos nelas aplicados ao longo do cultivo. E em doses tão significativas que vão bem além das permitidas pela legislação, como mostraram diversas pesquisas de órgãos de saúde em amostras de hortaliças, frutas e outros alimentos. No caso do trigo transgênico, além de outros agroquímicos que serão utilizados, haverá concentração do glufosinato de amônio. Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencialmente cancerígeno, o agrotóxico é associado ainda por diversos estudos científicos como causador de alterações genéticas, danos ao fígado e desregulação endócrina.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, um desregulador endócrino pode exercer vários efeitos nocivos, alterando os hormônios e suas funções. Isso é muito grave porque o funcionamento adequado do organismo, portanto, a saúde, depende de ação hormonal. E o mais perverso é que essa desregulação afeta principalmente fetos, crianças com até dois anos e adolescentes, por estarem em fase de desenvolvimento, com grande multiplicação celular. Não é por acaso que em 2009 o glufosinato foi banido na União Europeia.

Para piorar, o trigo transgênico se propõe a dominar a produção de um cereal que compõe a principal fonte de carboidratos, base da alimentação mundial. Ou seja, o pão de cada dia, seja do tipo que for. Além do café da manhã, está em muitas refeições diárias, como suporte para sanduíches e outros pratos. Tem ainda o macarrão, a pizza, bolos, biscoitos, doces e uma infinidade de subprodutos.

Apesar da importância do trigo na alimentação humana, não existe um método público validado para detectar, identificar e quantificar a presença de trigo HB4 em farinhas e outros produtos de trigo”, alertam as entidades em comunicado divulgado nesta quarta-feira (5), na qual reivindicam a suspensão das autorizações já concedidas.

No documento, elas destacam também as circunstâncias nada democráticas em que o cultivo e a venda foram liberados. No caso Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) encerrou o processo em março de 2023. Foram ignorados alertas de cientistas, órgãos de saúde, meio ambiente e defesa dos direitos humanos e do consumidor. A opinião pública tampouco foi levada em consideração. E como tornou-se praxe no órgão criado justamente para assessorar o governo federal quanto à biossegurança, houve dispensa de pesquisas. Foram considerados suficientes os dados incompletos apresentados pela empresa interessada na aprovação.

Pedimos que todas as licenças para o plantio e comercialização do trigo HB4 sejam suspensas e que um processo de reparo abrangente seja iniciado nos espaços já intervencionados”, destacam as organizações. Em junho de 2022 a Embrapa já havia anunciado a criação de campos de testes em Brasília.

O trigo HB4 já é vendido na Argentina desde maio de 2024, segundo anunciou na época a Bioceres. E os negócios avançam nos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (6) a companhia anunciou ter obtido a primeira das quatro patentes solicitadas ao órgão oficial local. Já há também autorização do Departamento de Agricultura (USDA) e do Departamento de Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). O país é o quarto maior produtor mundial do cereal.

No entanto, nem só de notícia boa vive a Bioceres. No início de fevereiro, a própria companhia divulgou queda de 24% na sua receita, o que levantou fortes suspeitas de que a nova tecnologia tenha tudo a ver com isso. Embora a empresa não tenha explicado as causas do tombo financeiro, há desconfiança de fracasso comercial do novo trigo. Ou seja, não estaria oferecendo a resistência ou tolerância à seca prometida na propaganda.

De acordo com dados oficiais, o trigo HB4 rende muito menos do que os trigos convencionais (não transgênicos), mesmo em anos de seca. Na média anual de dados de 2021, os trigos HB4 renderam 17% menos do que os trigos convencionais. Nos anos seguintes, nem o Estado nem a empresa publicaram dados de produção nas diferentes regiões. Talvez seja porque o fracasso produtivo da tecnologia foi confirmado, e a queda nas vendas e receitas da Bioceres fez com que a empresa saísse da venda de sementes”, acreditam as entidades.

Seja como for, ainda segundo essas organizações (veja lista no final da reportagem), o lançamento e posterior aprovação do trigo HB4 levantou expectativas entre os produtores. Apesar da falta de dados oficiais sobre o cultivo de trigo transgênico no Paraguai, circula por lá a informação sobre a adaptação de variedades em diversas regiões do país por corporações do agronegócio. Além disso, o uso de glufosinato de amônio aumentou substancialmente no país.

Acreditamos que, diante do grande fracasso da tecnologia HB4, para a qual a empresa Bioceres está arrastando agricultores, é hora de enterrá-la definitivamente”, pedem as organizações.

Para o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante do Movimento da Ciência Cidadã, que subscreve o comunicado, o trigo transgênico é “mais uma das promessas de uma tecnologia enganosa, patrocinada por interesses opostos às necessidades da população”. “Diante das promessas de redução no uso de agrotóxicos, de geração de plantas mais nutritivas, de benefícios aos pequenos agricultores e aos consumidores, nada mais coerente do que um trigo tolerante à seca, mas que não é tolerante a seca”, disse à reportagem.

Melgarejo foi além: “Penso que as evidências concretas de inconsistência entre os discursos dos técnicos interessados, as propagandas da mídia corporativa e a realidade observada nas lavouras expliquem os pedidos, e as aprovações, de dispensa de monitoramento pós liberação comercial destas tecnologias pela CTNBio”.

Em fevereiro de 2024, essas mesmas entidades enviaram petição aos Relatores Especiais sobre Direitos Humanos da ONU. O objetivo foi alertar para a gravidade do risco a que estão expostas as populações desses países e pedir providências. Isso porque o plantio e a comercialização violarão vários direitos humanos, como o direito à vida e aos estilos de vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar. E também a um meio ambiente equilibrado e livre de poluição, entre outros. Entretanto, ainda não houve resposta alguma das Nações Unidas.

Confira as solicitações aos Relatores Especiais da ONU:

  • Inste os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspender/revogar todas as autorizações para o cultivo comercial do trigo transgênico HB4
  • Recomende ao governo do Paraguai que revogue a Resolução 556/2023 – por meio da qual o trigo transgênico HB4 foi aprovado – e que reforme a estrutura regulatória para organismos geneticamente modificados (OGMs), por meio de um processo aberto, transparente e participativo, com ênfase especial na necessidade de proteger os direitos dos povos indígenas e das comunidades camponesas
  • Recomende que o governo da Argentina revogue a Resolução 27/2022, que se baseia apenas em informações documentais da Bioceres, a empresa que desenvolveu a variedade de trigo transgênico, e institua uma proibição adequada do cultivo de trigo transgênico no país
  • Recomende que o Conselho Nacional de Biossegurança do Brasil proíba o cultivo comercial de trigo transgênico e suspenda a decisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que permite a importação de grãos e farinha de trigo transgênico para o país, e promova uma revisão da legislação de biossegurança por meio de um processo participativo aberto, transparente e democrático
  • Recomende que os governos da Colômbia, África do Sul, Nigéria e Indonésia instruam suas autoridades de biossegurança a revisar as aprovações de importação de trigo GM e iniciar uma moratória em todas as aprovações (autorização de produto, importação e liberação ambiental) de culturas Geneticamente Modificadas.

Confira as entidades que assinam o documento:

Accion Ecologica

Associação Nacional para a Promoção da Agricultura Biológica

Base Investigaciones Sociales

Alianza Biodiversidad

Instituto de Salud Socioambiental (InSSA)

Amigos de La Tierra Uruguay

Rap Al Uruguay

Grain

Movimento Ciência Cidadã

Semillas

ETC Group

Artigo na Science revê promessas revolucionárias em torno dos OGMs e aponta consequências negativas

OGMs

Impactos ambientais de culturas geneticamente modificadas: Adotar culturas com essas características afeta perdas de colheitas, uso de agrotóxicos e outras ações de manejo, incluindo níveis de cultivo e diversidade de culturas. Essas mudanças, por sua vez, afetam a expansão agrícola, o desmatamento, a poluição, a saúde humana, as emissões de gases de efeito estufa e a biodiversidade 

Uma equipe liderada pelo professor Frederick Noak do departamento de  Food and Resource Economics, da University of British Columbia acaba de publicar um interessante artigo de revisão sobre as expectativas em torno da adoção de sementes geneticamente modificadas (OGMs) e das consequências que já detectadas. Dentre as consequências que foram inicialmente desconsideradas, a equipe liderada pelo professor Noak aponta para a expansão de áreas agrícolas com a consequente elevação na derrubada de florestas, a repercussão cheia de nuances em torno do uso de agrotóxicos, e a ampliação das emissões de gases estufa que ocorre em função do aumento de uso de equipamentos agrícolas.

O estudo aponta ainda que apesar de ter tido um início acelerado, a adoção de sementes OGMs tem ficado reduzida a um número pequeno de países, pois a maioria dos governos nacionais acabou impondo legislações bastante restritivas para a adoção deste tipo de semente geneticamente manipulado por causa dos riscos ambientais que ainda não foram claramente respondidos pelos fabricantes dessas semente.

O mapa abaixo mostra bem como o plantio de sementes geneticamente modificadas ainda se encontra concentrado em um pequeno número de países. Interessante é o caso do Brasil onde a adoção de sementes geneticamente modificadas tem sido acompanhada pelo aumento exponencial no uso de agrotóxicos altamente tóxicos e pelo avanço da franja de desmatamento para áreas mais interiores da Amazônia, principalmente em função da ampliação dos plantios de soja.

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O estudo mostra ainda que há uma grande concentração das empresas que controlam a produção e comercialização deste tipo de sementes OGMs. Segundo o artigo, Em 2020, apenas quatro empresas controlavam mais da metade do mercado mundial de sementes, sendo que elas detinham direitos de propriedade intelectual sobre 95% das variedades de algodão e milho e 84% das variedades de soja geneticamente modificadas.  Esse dado é particularmente importante, na medida em que essas empresas cobram royalties por cada semente que é usada em paíoses como Brasil e Argentina. 

Uma coisa é certa: quanto mais sementes OGMs são utilizadas, mais agrotóxicos e mais desmatamento tendem a acontecer.  E lamentavelmente esta é a situação do Brasil neste momento.

Bayer retira contestação legal à proibição do México ao glifosato e aos OGMs

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As subsidiárias da Bayer/Monsanto, Semillas y Agroproductos Monsanto e Monsanto Comercial, ratificaram sua retirada em 25 de junho

Por Sustainable Pulse

No que está sendo chamado de uma vitória significativa para o México, a Monsanto retirou seu desafio legal contra o decreto presidencial de 2020 que visava proibir o glifosato e o milho geneticamente modificado (GM) para consumo humano, informou o Mexico News Daily . O Conselho Nacional de Humanidades, Ciências e Tecnologias (Conahcyt) do governo mexicano anunciou a decisão como um triunfo para a vida, a saúde e a soberania alimentar“.

A Monsanto da Bayer produz o herbicida Roundup, um dos vários produtos à base de glifosato que são usados ​​no cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM), como milho, algodão e soja Roundup Ready. Uma modificação genética comum torna as plantações resistentes ao glifosato, permitindo que os agricultores apliquem grandes quantidades do herbicida em plantações OGM.

A batalha jurídica foi iniciada em resposta ao  decreto de 2020 do presidente Andrés Manuel López Obrador  para proibir o herbicida amplamente utilizado, mas controverso, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou como um “provável cancerígeno”, embora sua segurança continue sendo um assunto de debate.

A batalha incluiu mais de 30  ações de amparo  (ordem de proteção judicial) visando declarar o decreto inconstitucional. Em julho de 2022, por exemplo, a Bayer, que adquiriu a Monsanto há seis anos,  obteve uma ordem judicial contra a aplicação do decreto.

No entanto, a maioria dos casos concluiu com decisões desfavoráveis ​​às corporações envolvidas. Conahcyt forneceu defesas científicas e legais,

A decisão do juiz Francisco Rebolledo Peña de julho de 2022 em favor da Monsanto foi apelada pelo Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat), pela Comissão Federal de Proteção contra Riscos Sanitários (Cofepris) e pela Conahcyt.

Citando preocupações com direitos humanos e segurança ambiental, o recurso eventualmente levou a Quarta Corte Colegiada de Assuntos Administrativos do México a rejeitar os argumentos da Monsanto. No início deste ano, o mesmo órgão  rejeitou um apelo movido pelo Walmart México contra a lei de controle de tabaco atualizada do país,  que adicionou proibições promocionais e de publicidade à proibição nacional contra fumar em áreas públicas.

O recuo da Monsanto não é seu primeiro revés legal. A empresa enfrentou um extenso litígio nos Estados Unidos, pagando bilhões em danos punitivos e acordos ligados aos riscos cancerígenos do glifosato.

Documentos internos revelados durante os testes no México indicaram que a Monsanto estava ciente dos riscos de câncer do glifosato e se envolveu em práticas científicas enganosas e desacreditando pesquisadores independentes.

O decreto de 2020 foi substituído por um decreto de 2023, que reafirmou a proibição inicial e introduziu restrições adicionais ao milho transgênico.

Isso levou o México a também enfrentar a ira dos Estados Unidos, que não ficaram felizes com o plano mexicano de proibir a importação de milho transgênico para uso em massas e tortilhas até 2024 e, então, eliminar gradualmente as importações de milho transgênico para qualquer tipo de consumo humano e, depois, para uso como ração animal.

Em 2023, o governo dos EUA anunciou que havia solicitado a criação de um painel de solução de controvérsias para resolver o problema.

A Monsanto também queria suspender o decreto de 2023 e, alguns meses atrás,  o México parecia estar cedendo um pouco quando adiou a proibição do glifosato, alegando falta de alternativas disponíveis.

Ao rejeitar os últimos desafios legais da Monsanto, a juíza Elizabeth Trejo Galán enfatizou a precedência do interesse público sobre o privado.

A Conahcyt observou em um comunicado à imprensa  que continua apoiando práticas agrícolas alternativas e bioinsumos, destacando sua eficácia em diversas regiões.

Observando que a vitória legal sobre a Monsanto ressalta o comprometimento do México em proteger a saúde pública e a integridade ambiental, a Conahcyt prometeu continuar seus esforços para garantir que o milho transgênico e o glifosato sejam removidos do fornecimento de alimentos mexicano.


Fonte: Sustainable Pulse

Arroz dourado geneticamente modificado é suspenso nas Filipinas: o engano do desenvolvimento e a política do progresso como ferramentas de dominação

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Por Sustainable Pulse

Em 19 de abril de 2024, a Suprema Corte das Filipinas emitiu uma  ordem de cessar e desistir da propagação comercial de arroz dourado geneticamente modificado (GM) e de uma espécie de berinjela geneticamente modificada no país, informou recentemente a Countercurrents .

 Stop Golden Rice Network afirma  que a decisão judicial é uma vitória para agricultores e consumidores em todo o mundo, uma vez que a decisão vai além do Arroz Dourado e da berinjela resistente à inseticida e abrange “qualquer aplicação para uso contido, testes de campo, uso direto como alimento ou ração ou processamento, uso comercial propagação e importação de OGM.”

O tribunal reconheceu que as agências governamentais e outros proponentes do arroz dourado e da berinjela geneticamente modificados “não apresentaram provas de segurança e conformidade com todos os requisitos legais”. A ordem permanece indefinida até que os proponentes dos OGM possam cumprir todas as etapas obrigatórias e fornecer provas concretas de que estes produtos são realmente seguros.

Uma rede de agricultores, consumidores e organizações da sociedade civil, a Stop Golden Rice enfatiza a necessidade de combater a fome e a desnutrição através da garantia do controlo dos pequenos agricultores sobre recursos como sementes, tecnologias apropriadas, água e terra.

O grupo de campanha diz:

“Acreditamos que as culturas geneticamente modificadas são impulsionadas principalmente pelos capitalistas monopolistas globais na alimentação e na agricultura… já existem provas irrevogáveis ​​do fracasso das culturas geneticamente modificadas e de como isso contribuiu para um maior endividamento, falhas nas colheitas, fome e perda de biodiversidade.”

Afirma que a decisão do tribunal mostra que as pessoas comuns podem prevalecer face ao poder corporativo.

A história do Arroz Dourado 

A deficiência de vitamina A é um problema em muitos países pobres do Sul Global e deixa milhões de pessoas em alto risco de infecção, doenças e outras doenças, como a cegueira.

A indústria agrotecnológica há muito que argumenta que o Arroz Dourado é uma forma prática de fornecer aos agricultores pobres em áreas remotas uma cultura de subsistência capaz de adicionar a tão necessária vitamina A às dietas locais. Os lobistas dizem que o Arroz Dourado, desenvolvido com financiamento da Fundação Rockefeller, poderia ajudar a salvar a vida de cerca de 670 mil crianças que morrem todos os anos por deficiência de vitamina A e de outras 350 mil que ficam cegas.

Tais alegações, no entanto, baseiam-se mais em distorções do que na realidade e, ao longo dos anos, os interesses por trás do Arroz Dourado não perderam tempo em atacar quem o questionasse.

Como Secretário do Ambiente da Grã-Bretanha em 2013, o agora desonrado  Owen Paterson afirmou  que os oponentes da GM estavam “lançando uma sombra negra sobre as tentativas de alimentar o mundo”. Ele apelou à rápida implantação do arroz enriquecido com vitamina A para ajudar a prevenir a causa de até um terço das mortes infantis no mundo. Ele alegou:

“É simplesmente nojento que crianças pequenas possam ficar cegas e morrer por causa do bloqueio de um pequeno número de pessoas em relação a esta tecnologia. Eu me sinto muito forte sobre isso. Acho que o que eles fazem é absolutamente perverso.”

No Twitter, Nick Cohen do The Observer concordou com seu apoio twittando:

“Não há maior exemplo de privilégio ocidental ignorante que causa miséria desnecessária do que a campanha contra o arroz dourado geneticamente modificado.”

A retórica dos defensores dos OGMs  adotou a linha de relações públicas bem desgastada e cinicamente concebida  de que os ativistas anti-GM e os ambientalistas são pouco mais do que pessoas privilegiadas e ricas que residem em países ricos e estão a negar aos pobres os supostos benefícios das culturas GM.

Apesar destas difamações e chantagem emocional, num artigo de 2016 na revista  Agriculture & Human Values,  Glenn Stone e Dominic Glover encontraram poucas provas de que os ativistas fossem culpados pelas promessas não cumpridas do Golden Rice.

Os pesquisadores ainda tiveram problemas para desenvolver cepas enriquecidas com beta-caroteno que produzissem tão bem quanto cepas não transgênicas já cultivadas pelos agricultores. Era questionável se o beta-caroteno do Arroz Dourado poderia ser convertido em vitamina A nos corpos de crianças gravemente desnutridas. Também houve pouca investigação sobre a eficácia do beta-caroteno no Arroz Dourado quando armazenado durante longos períodos entre as épocas de colheita ou quando cozinhado utilizando métodos tradicionais comuns em zonas rurais remotas.

Entretanto, Glenn Stone observou que, à medida que o desenvolvimento do Arroz Dourado avançava, as Filipinas conseguiram reduzir a incidência da deficiência de vitamina A através de métodos não-GM.

Então, quais interesses estavam realmente sendo atendidos na campanha pelo Arroz Dourado?

Em 2011, Marcia Ishii-Eiteman, cientista sênior com experiência em ecologia de insetos e manejo de pragas, respondeu a esta pergunta:

“Um chamado Conselho Humanitário de elite onde a Syngenta tem assento – juntamente com os inventores do Arroz Dourado, a Fundação Rockefeller, a USAID e especialistas em relações públicas e marketing, entre um punhado de outros. Nem um único agricultor, indígena ou mesmo ecologista ou sociólogo para avaliar as enormes implicações políticas, sociais e ecológicas desta experiência massiva. E o líder do projeto Golden Rice do IRRI não é outro senão Gerald Barry, ex-Diretor de Pesquisa da Monsanto.”

Sarojeni V Rengam, diretor executivo da Pesticide Action Network Asia and the Pacific, apelou aos doadores e cientistas envolvidos para acordarem e fazerem a coisa certa:

“O Golden Rice é realmente um ‘cavalo de Tróia’; um golpe de relações públicas realizado pelas corporações do agronegócio para obter aceitação de culturas e alimentos geneticamente modificados (GM)… dinheiro e esforços seriam mais bem gastos na restauração da biodiversidade natural e agrícola, em vez de destruí-la através da promoção de plantações de monoculturas e culturas alimentares geneticamente modificadas.”

Para combater as doenças, a subnutrição e a pobreza, é necessário primeiro compreender as causas subjacentes – ou mesmo querer compreendê-las.

O renomado acadêmico  Walden Bello observa  que o complexo de políticas que empurrou as Filipinas para um atoleiro económico ao longo das últimas décadas se deve ao “ajustamento estrutural” que incluiu a reestruturação da agricultura e da produção orientada para a exportação.

E essa reestruturação da economia agrária é algo abordado por Claire Robinson da GMWatch, que observa que os vegetais de folhas verdes costumavam ser cultivados em quintais, bem como em campos de arroz (arrozais) nas margens entre as valas inundadas onde o arroz crescia.

As valas também continham peixes, que comiam pragas. As pessoas tiveram assim acesso a arroz, vegetais de folhas verdes e peixe – uma dieta equilibrada que lhes proporcionou uma mistura saudável de nutrientes, incluindo bastante beta-caroteno.

Mas as culturas e os sistemas agrícolas indígenas foram substituídos por monoculturas dependentes de factores de produção químicos. Vegetais de folhas verdes foram eliminados com pesticidas, fertilizantes artificiais foram introduzidos e os peixes não puderam viver na água quimicamente contaminada resultante. Além disso, a diminuição do acesso à terra significou que muitas pessoas já não tinham quintais contendo vegetais de folhas verdes.

A cegueira nos países em desenvolvimento poderia ter sido erradicada há anos se apenas o dinheiro, a investigação e a publicidade investidos no Arroz Dourado ao longo dos últimos 20 anos tivessem sido canalizados para formas comprovadas de resolver a deficiência de vitamina A. Contudo, em vez de procurar soluções genuínas, o que temos visto é  uma atitude pró-OGM,  numa tentativa de encerrar o debate.

Tecnologia e desenvolvimento

Se a discussão até agora nos diz alguma coisa é que a tecnologia não é neutra. É desenvolvido e promovido por pessoas que pretendem consolidar o seu controlo sobre um sector e obter ganhos financeiros com a sua implementação.

Com demasiada frequência, os políticos, as empresas e os meios de comunicação social equiparam as novas tecnologias ao “progresso”. E aqueles que a questionam, como vemos no caso dos OGM, são chamados de luditas ou anti-ciência, a fim de impedir um debate adequado sobre as preocupações sociais, económicas e éticas da implementação de uma determinada tecnologia.

Veja a Revolução Verde, por exemplo. Não havia nada de progressista, inevitável ou neutro na sua tecnologia de sementes, produtos químicos e infra-estruturas relacionadas.

Apesar de ter sido implementado sob a bandeira do “progresso”, teve um desempenho inferior, foi explorador e teve impactos sociais, ecológicos e ambientais devastadores (ver os escritos de  Glenn Stone ,  Vandana Shiva  e  Bhaskar Save ). Serviu os interesses geopolíticos, financeiros e do agronegócio dos EUA e priorizou a expansão urbano-industrial em detrimento das comunidades rurais e de uma agricultura mais diversificada, saudável e suficiente em nutrientes.

Mas a Revolução Verde tornou-se parte integrante da agenda do “desenvolvimento”.

Em um artigo recente  no site Winter Oak, Paul Cudenec diz que “desenvolvimento”:

“… é a destruição da natureza, agora vista como um mero recurso a ser utilizado para o desenvolvimento ou como um espaço vazio e não desenvolvido no qual o desenvolvimento poderia, deveria e, em última análise, deveria ocorrer. É a destruição das comunidades humanas naturais, cuja auto-suficiência impede o avanço do desenvolvimento, e da cultura humana autêntica e dos valores tradicionais, que são incompatíveis com o dogma e o domínio do desenvolvimento.”

Cudenec argumenta que aqueles que estão por trás do “desenvolvimento” têm destruído tudo o que tem valor real no nosso mundo natural e nas nossas sociedades humanas na busca de riqueza e poder pessoal. Além disso, ocultaram este crime por trás de toda a retórica positiva associada ao desenvolvimento a todos os níveis.

Em nenhum lugar isso é mais aparente do que na Índia.

O Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o agronegócio global e o capital financeiro  estão trabalhando para corporatizar  o setor agrícola da Índia. Esta política e processo de “ajustamento estrutural” envolve a substituição do actual sistema de produção alimentar por uma agricultura contratual e um modelo industrial de agricultura e retalho alimentar que sirva os interesses acima mencionados.

O plano é deslocar o campesinato, criar um mercado fundiário e fundir propriedades fundiárias para formar explorações agrícolas maiores, mais adequadas aos investidores internacionais em terras e à agricultura industrial orientada para a exportação.

A exigência é que a Índia sacrifique os seus agricultores e a sua própria segurança alimentar em benefício de um punhado de multimilionários. Tudo isto é considerado “desenvolvimento”.

Envolve o Estado facilitando o enriquecimento de uma elite rica e privilegiando um certo modelo de desenvolvimento social e económico baseado na expansão urbana, no poder centralizado e na dependência das finanças globais, das empresas, dos mercados e das cadeias de abastecimento. Tudo legitimado sob as bandeiras da inovação, do progresso tecnológico e do “desenvolvimento”.

Existem outros caminhos que a humanidade pode seguir. O antropólogo Felix Padel e a pesquisadora Malvika Gupta  oferecem alguns insights  (com base em seu trabalho com as comunidades Adivasi da Índia) sobre como poderiam ser as soluções ou alternativas para o “desenvolvimento”:

“A democracia como política de consenso, em vez do modelo ocidental de democracia liberal que perpetua a divisão e a corrupção nos bastidores; troca de trabalho em vez da lógica implacável e anti-vida do “mercado”; a lei como reconciliação, em vez de julgamentos que dependem de honorários advocatícios exorbitantes e dividem as pessoas em vencedores e perdedores… e a aprendizagem como algo a ser partilhado, e não disputado.”

No entanto, vemos mais “desenvolvimento” a ser proposto: mais deslocamento da população rural e deslocação humana, mais desenvolvimentos mineiros, portuários e outros grandes desenvolvimentos de infra-estruturas e um maior fortalecimento dos interesses corporativos e dos seus projectos.

Embora muitos tenham uma visão diferente para o futuro, o interesse próprio e o consumismo sustentados pelo dogma económico neoliberal continuam a seduzir as massas a aceitarem a agenda de “desenvolvimento” prevalecente.

A agricultura industrial corporativa é parte integrante dessa agenda. Um modelo que se consolidou há meio século nas nações ocidentais e que resultou em alimentos deficientes em nutrientes, dietas mais restritas, uso massivo de agrotóxicos, alimentos contaminados por hormônios, esteróides, antibióticos e uma ampla gama de aditivos químicos, a erradicação de muitos pequenos agricultores, taxas crescentes de problemas de saúde, solo degradado e fontes de água contaminadas e esgotadas.

Isso é ‘progresso’? Bem, deixando de lado os interesses do agronegócio, talvez o mesmo aconteça com as muitas clínicas de saúde privadas que surgiram na Índia nos últimos anos.

A introdução dos OGM representa um reforço adicional da agenda de “desenvolvimento” prevalecente.

A decisão do Supremo Tribunal das Filipinas acusou as agências governamentais e aqueles que estão por trás da agenda do Arroz Dourado de falhas importantes. Isto é importante para a Índia, cujo Supremo Tribunal está prestes a decidir se deve ou não sancionar o cultivo comercial de mostarda geneticamente modificada. Seria a primeira cultura alimentar geneticamente modificada da Índia (da qual há muitas mais em preparação).

Será que o Supremo Tribunal da Índia ficará do lado da razão e acabará com a mostarda geneticamente modificada com base no facto de  não haver necessidade  de OGMs na agricultura indiana e na bem documentada  fraude e delinquência regulamentar  que tem rodeado esta questão há muitos anos?

Isso ainda está para ser visto.


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Fonte: Sustainable Pulse

Riscos de novos OGMs: a agência francesa de segurança alimentar ANSES recomenda avaliação caso a caso

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Por Claire Robinson para o GM Watch 

Um parecer especializado sobre os riscos das novas plantas geneticamente modificadas da Agência Nacional Francesa para a Segurança Alimentar, Ambiental e de Saúde Ocupacional (ANSES) foi finalmente publicado depois de atrasos que levaram a repetidas acusações de censura (ver abaixo). As suas descobertas devastadoras ameaçam inviabilizar as tentativas de enfraquecer as regulamentações em torno das novas fábricas geneticamente modificadas.

No relatório recentemente publicado, a ANSES apela a que as novas plantas geneticamente modificadas sejam avaliadas quanto aos riscos para a saúde e para o ambiente, caso a caso. Afirma que é “importante” estabelecer um plano de monitorização após cada lançamento no mercado, tanto do impacto ambiental destes novos OGM como dos seus efeitos socioeconómicos.

Os autores do relatório da ANSES realizaram cerca de dez estudos de caso (arroz com altura reduzida, trigo com menor teor de glúten, batata tolerante a herbicidas, videira resistente à podridão cinzenta, tomate com elevado teor de aminoácidos, etc.) e consideraram os possíveis riscos que estes As plantas NGT (plantas produzidas por novas técnicas genómicas, como CRISPR/Cas) representam um perigo para a saúde e o ambiente.

O grupo de cientistas observou que “certos riscos potenciais aparecem repetidamente nestes estudos de caso” e que “estes incluem riscos ligados a alterações inesperadas na composição da planta, que podem dar origem a problemas nutricionais, de alergenicidade ou de toxicidade, ou de médio e riscos ambientais de longo prazo, como o risco de fluxo gênico de plantas editadas para populações selvagens ou cultivadas compatíveis.”

A GMWatch tem o prazer de ver o reconhecimento da ANSES dos riscos para a saúde das novas plantas geneticamente modificadas, que foram virtualmente ignorados, ou simplesmente negados, pelos elementos pró-desregulamentação do Parlamento Europeu e completamente postos de lado no Reino Unido.

Os especialistas chamam a atenção para o fato de que a grande diversidade de plantas que podem ser modificadas com NGTs pode aumentar o risco de transferência de genes modificados para outras espécies. Eles também observam o risco de perturbação das interações entre animais e plantas NGT, particularmente no caso de insetos polinizadores.

Considerando o CRISPR/Cas como a nova técnica GM mais utilizada, a ANSES salienta que a precisão com que estas “tesouras moleculares” operam não é perfeita: Numerosos estudos relatam “efeitos indesejados fora do alvo”, ou seja, modificações não intencionais no genoma da NGT. plantas. A ANSES recomenda prestar especial atenção a estes efeitos, caracterizando toda a área do genoma afetada e justificando a ausência de riscos associados a estas modificações colaterais.

Para a avaliação de risco de plantas geneticamente editadas, a ANSES recomenda:

– o desenvolvimento e adaptação de técnicas proteómicas e metabolómicas para estudos comparativos de composição em condições reais, após cultivo no campo (a GMWatch também recomendou repetidamente estas análises moleculares para novas plantas geneticamente modificadas, a fim de detectar alterações inesperadas na composição resultantes dos processos geneticamente modificados utilizados para desenvolver as plantas);
– a determinação dos principais alergénios conhecidos nas plantas em causa utilizando técnicas quantitativas de LC-MS/MS (cromatografia líquida com espectrometria de massa em tandem);
– dependendo da espécie, medição dos níveis de compostos tóxicos, genotóxicos ou antinutricionais conhecidos por serem expressos;
– melhor consideração, na avaliação dos riscos ambientais, dos efeitos cumulativos a longo prazo e das características agroambientais do cultivo de plantas GTN.

A ANSES também observa que estas recomendações também poderiam ser aplicadas à avaliação de plantas transgênicas geneticamente modificadas. Na opinião da GMWatch, esta é uma sugestão sábia que poderia melhorar significativamente a regulamentação actual.

Ao contrário das autoridades reguladoras de OGM do Reino Unido, os especialistas da ANSES leram e consideraram algumas revisões preventivas da literatura científica revista por pares, que alertam que as plantas NGT podem ter efeitos não intencionais na saúde e no ambiente. Eles resumem as conclusões destas revisões de uma forma imparcial e levam-nas a sério.

Outra excelente sugestão é que o estudo de alimentação animal de 90 dias seja obrigatório para plantas NGT, embora não esteja claro no texto da ANSES se isso se aplica apenas a espécies de plantas conhecidas naturalmente por conterem substâncias tóxicas ou antinutricionais, ou a todas as plantas NGT. Dadas as surpresas desagradáveis ​​que podem surgir com plantas geneticamente modificadas em estudos de alimentação animal e os conhecidos efeitos mutacionais não intencionais de novas técnicas geneticamente modificadas, a GMWatch recomenda que todas as plantas NGT sejam submetidas a estes estudos.

Em suma, a ANSES propõe uma avaliação caso a caso para as plantas NGT, dependendo das modificações feitas, de quaisquer efeitos não intencionais detectados, da natureza das plantas modificadas, e assim por diante. A agência afirma que “compartilha a observação dos especialistas” de que “alguns dos riscos identificados [para plantas NGT] são semelhantes aos já identificados para [os OGM de primeira geração], mas que a exposição a esses riscos pode aumentar à medida que o uso [ de NGTs] se desenvolve e o tamanho do mercado para estas plantas aumenta, especialmente porque está em andamento trabalho em plantas amplamente distribuídas [frutas, vegetais, etc.] que não são atualmente afetadas pela transgênese”.

Outro aspecto importante do relatório diz respeito ao impacto socioeconómico das NGT. Os especialistas sublinham a importância de “adaptar o atual quadro regulamentar dos direitos de propriedade intelectual” nas centrais de NGT. Dependendo da natureza destes direitos (patentes, etc.), a adoção de NGT poderá levar a “desequilíbrios entre os atores económicos em termos de partilha de valor”. Eles afirmam: “O impacto do desenvolvimento de plantas derivadas de NGT na concentração do setor de melhoramento de plantas e sementes é uma questão importante sobre a qual as autoridades públicas devem estar vigilantes”.

Os especialistas observam, no entanto, que cada sector seria afectado de forma diferente pela introdução de novos OGM na Europa, particularmente devido às “dificuldades potenciais” de coexistência entre os sectores geneticamente modificados, convencional e biológico.

Pressão política

Embora o relatório da ANSES só tenha sido publicado em 5 de março, de acordo com um artigo publicado no início do dia no Le Monde por Stéphane Foucart, foi finalizado já em 11 de dezembro de 2023. O parecer formal da ANSES, baseado neste relatório, foi assinado em 22 de janeiro pelo seu diretor-geral Benoît Vallet e imediatamente encaminhado ao governo francês. A ANSES tinha previsto publicar o relatório e o parecer no início de fevereiro, mas fontes próximas do assunto afirmaram que a publicação foi bloqueada devido a “pressões políticas”.

Foucart escreve no Le Monde que a data era importante porque a opinião dos peritos da agência pretendia informar as decisões de voto dos eurodeputados, que votaram em 7 de Fevereiro para enfraquecer os regulamentos da UE em torno dos novos OGM, sujeitos a certas condições. Segundo Foucart, “Apesar desta votação, o plano da Comissão Europeia para flexibilizar os regulamentos está agora paralisado devido à falta de acordo entre os Estados-Membros, e foi adiado para a próxima legislatura [nota: GMWatch entende que o belga A Presidência do Conselho da União Europeia ainda está a tentar fazer avançar a proposta nesta legislatura]. Até terça-feira, 5 de Março, a ANSES ainda não tinha tornado nada público, não dando qualquer explicação para a sua procrastinação, não fazendo comentários e garantindo-nos que tudo será publicado em breve.” O relatório só foi finalmente publicado depois do artigo de Foucart ter deixado clara a natureza do seu conteúdo – com base numa cópia vazada do relatório.

Foucart salienta que a opinião da ANSES está em oposição direta à posição sobre a desregulamentação defendida pela França em Bruxelas e à posição majoritária expressa pelos eurodeputados do Renew (partido do governo francês) no Parlamento Europeu. Essa posição consistia em isentar muitas fábricas de NGT dos requisitos de avaliação de riscos para a saúde e ambientais, de rastreabilidade e de rotulagem.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela GM Watch [Aqui!].

A precaução do México sobre a segurança do milho geneticamente modificado é justificada

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Por Por Lucy Sharratt para o “The New Lede”

Um decreto presidencial proibiu o uso de milho geneticamente modificado (GM) na alimentação no México. Mas os governos dos Estados Unidos e do Canadá estão utilizando o acordo comercial EUA-Canadá-México (USMCA) para desafiar as ações do México.

O objetivo das restrições do México ao milho geneticamente modificado é salvaguardar a integridade do milho nativo da contaminação geneticamente modificada e proteger a saúde humana. O objetivo do desafio dos EUA e do Canadá é defender os interesses da indústria biotecnológica. Os EUA e o Canadá querem forçar o México a abrir o seu mercado a todos os alimentos e sementes geneticamente modificados. O Canadá apoia o desafio dos EUA (como terceiro na disputa), embora o Canadá não exporte milho para o México.

O México tem o direito de restringir o uso de milho geneticamente modificado. Os EUA argumentam que as ações do México não se baseiam em princípios científicos, mas o governo tem ciência suficiente para justificar as suas políticas de precaução.

A nossa organização, a Canadian Biotechnology Action Network, é uma grande rede de agricultores e grupos ambientalistas que monitoa a utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) há mais de 15 anos e apoiamos as restrições do México. Fomos um dos dois grupos canadenses que receberam permissão para enviar comentários de especialistas sobre os riscos do milho geneticamente modificado ao painel de arbitragem nesta disputa, mas em janeiro, os grupos canadenses não foram convidados a pedido do governo dos EUA, apoiado pelo Canadá, com o detalhe técnico de que a disputa é apenas entre os EUA e o México.

De qualquer forma, publicamos a nossa análise para mostrar que a proibição do México é apoiada pela ciência. A pesquisa continua a encontrar indicadores de danos potenciais aos seres humanos decorrentes da ingestão de milho geneticamente modificado resistente a insetos. A ciência também continua a alertar para os impactos na saúde decorrentes da exposição ao herbicida glifosato, utilizado na produção de milho geneticamente modificado.

A maioria das plantas de milho geneticamente modificadas são geneticamente modificadas para matar pragas de insetos. As plantas geneticamente modificadas expressam uma toxina da bactéria do solo  Bacillus thuringiensis  (Bt) que é conhecida por prejudicar o intestino de tipos específicos de insetos, mas não de outros. Os agricultores há muito usam o Bt como spray para matar pragas, mas as  toxinas Bt nas culturas geneticamente modificadas são diferentes  deste Bt natural em estrutura, função e efeitos biológicos. Na verdade, estudos revistos por pares em toda a literatura científica continuam a descobrir que as toxinas Bt em plantas geneticamente modificadas podem prejudicar insectos (aranhas, vespas, joaninhas e crisopídeos, por exemplo) que não são os alvos pretendidos.

Ainda no ano passado, novos estudos revistos por pares encontraram impactos do Bt onde se supunha que não existiam. Por exemplo, um estudo de 2023 conduzido por uma equipe de pesquisadores de universidades do Brasil e da Colômbia, financiado pelo governo brasileiro, descobriu que o Bt teve muitos  impactos significativos na saúde das vespas , afetando até mesmo a próxima geração. Pesquisadores universitários na China e no Paquistão também encontraram menor diversidade de bactérias no  intestino de aranhas-lobo  expostas ao Bt. Isto se soma a  um teste de laboratório publicado em 2023 , financiado pelo governo francês, que descobriu que uma toxina Bt específica perturba o crescimento e o funcionamento normais das células intestinais em moscas da fruta, levantando a possibilidade de que as toxinas Bt possam prejudicar o revestimento intestinal de animais, incluindo humanos. .

Para somar a estes resultados, vários ensaios de alimentação animal também concluíram que as toxinas Bt e as culturas GM Bt podem ter efeitos tóxicos nos mamíferos. Efeitos tóxicos e indicações de toxicidade foram observados de várias maneiras no  sangue , estômago, intestino delgado, fígado, rim, baço e pâncreas, bem como nas respostas imunológicas , embora o mecanismo não esteja claro nesses estudos. Criticamente, os governos dos EUA ou do Canadá não exigem estudos sobre alimentação animal para demonstrar a segurança alimentar dos OGM. Na verdade, existem muito poucos testes de longo prazo e multigeracionais em animais na literatura científica.

Mas a toxicidade do Bt não é a única preocupação de segurança. A produção de milho geneticamente modificado também está ligada ao uso de glifosato e outros herbicidas que estão associados a graves problemas de saúde, incluindo  doenças neurológicas  e  alguns tipos de câncer. A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o glifosato como um provável carcinógeno humano. De forma crítica, as evidências também apontam para o  perigo da exposição a resíduos nos alimentos  , que é a preocupação destacada pelo México em relação ao  milho geneticamente modificado .

Esta preocupação é particularmente premente porque os mexicanos comem mais milho do que qualquer pessoa no mundo, em grande parte através de farinha minimamente processada para fazer tortilhas. Esta é uma maneira totalmente diferente de consumir milho geneticamente modificado da dieta de ingredientes de milho em alimentos altamente processados ​​nos EUA e no Canadá. A exposição alimentar única do México ao milho geneticamente modificado exige que o México estabeleça o seu próprio “nível aceitável de protecção” contra os riscos.

Nas suas observações ao painel de litígios comerciais, o governo dos EUA argumenta que não foram encontrados quaisquer efeitos adversos para a saúde dos consumidores. Contudo, sem monitoramento dos alimentos geneticamente modificados, não há base científica para fazer esta afirmação.  Não houve estudos pós-comercialização em populações humanas para determinar se houve efeitos adversos à saúde e, sem rastreamento ou rotulagem de alimentos geneticamente modificados, tais estudos não são possíveis .

Os EUA e o Canadá argumentam essencialmente que se decidiram que um alimento geneticamente modificado é seguro, então o México deveria concordar.

No início de Março, a defesa formal do México à proibição do milho geneticamente modificado será publicada como parte do processo de disputa comercial. Logo depois ouviremos argumentos de oito grupos não governamentais que têm permissão para enviar comentários. Esses documentos devem deixar claro que as restrições ao milho no México são apoiadas pela ciência e são justificadas para defender o futuro do milho e proteger a segurança alimentar.

 Este artigo apareceu pela primeira vez no Food Tank.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].

A mentira da soja: o principal agente do desmatamento não é cultivado para humanos, mas para a pecuária

“Os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de 1,5°C”, escreve Javier H. Rodríguez, em artigo publicado por El Salto, 03-01-2024. 

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A agricultura comercial em nível industrial foi a causa de pouco mais de 40% do desmatamento das florestas tropicais entre 2000 e 2020 através de três agentes principais: a pecuária, o cultivo deóleo de palma e as plantações de soja, também utilizada principalmente para a pecuária intensiva. Os dados consolidados obtidos graças ao cruzamento de centenas de bases de dados governamentais foram fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) há apenas algumas semanas. A mesma monitorização atualiza a distribuição do território: as florestas são o habitat de 80% das espécies de anfíbios, 75% das aves e 68% dos mamíferos e essas mesmas florestas tropicais dizimadas albergam cerca de 60% de todas as espécies de plantas vasculares. Ou seja, a grande maioria tanto em número de espécies quanto em número de indivíduos, já que apenas musgos e algas ficariam de fora desse guarda-chuva.

Com o agravamento da crise climática e tendo em conta não só o desmatamento como também a produção alimentar representam mais de um quarto (26%) das emissões globais de gases do efeito de estufa, diversas correntes dentro do ambientalismo contemporâneo defendem uma mudança na dieta humana para orientá-la a opções baseado no vegetarianismo e no veganismo. Os impactos das mudanças alimentares nas emissões de gases do efeito de estufa, na utilização dos solos, na utilização da água e na saúde emergiram como centrais para a equação do aquecimento global, apesar da reação do lobby da carne com dezenas de propostas para limitar estes mercados emergentes.

As principais fontes de emissões de gases do efeito de estufa encontram-se nos setores da energia e da produção alimentar. Às vezes é sugerida a ideia de focar exclusivamente em um desses aspectos, mas essa perspectiva é enganosa. Enfrentar as alterações climáticas envolve necessariamente reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis.

Da mesma forma, conforme explicado neste artigo, é crucial abordar a produção global de alimentos para alcançar os objetivos climáticos delineados pelo  Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e mesmo os menos ambiciosos apoiados pela comunidade internacional através dos acordos da Cúpula do Clima. Na verdade, os modelos matemáticos mais recentes mostram como, mesmo que conseguíssemos parar imediatamente as emissões de combustíveis fósseis, as emissões provenientes apenas da produção alimentar excederiam significativamente o limite de carbono de 1,5°C, deixando pouco espaço para atingir a meta de 2°C. Grandes revistas médicas de impacto global, como a britânica The Lancet, também alertam sobre isso há anos, como no mais que citado relatório Dietas saudáveis ​​a partir de sistemas alimentares sustentáveis

Foto: Reprodução El Salto

Nesse trabalho, com a participação de investigadores das principais escolas médicas do Reino Unido, já se propunha uma diminuição de 81% no consumo de carne até 2050, limitando a ingestão a um máximo de 300 gramas de produtos cárneos por pessoa e por semana. Se este ajustamento não for alcançado, o relatório sugere que alcançar o objetivo do Acordo de Paris, de manter as temperaturas abaixo de 1,5ºC, seria “extremamente desafiador ou praticamente impossível”.

Na verdade, segundo um trabalho publicado em 2019 a transição para uma dieta baseada em vegetais apresenta-se como uma condição essencial para alcançar um sistema alimentar sustentável. Mas nos últimos artigos científicos a este respeito as mesmas teses tornam-se cada vez mais palpáveis. Em Environmental Impacts of Food Production, assinado por investigadores da Universidade de Oxford, estimou-se que 50% das terras habitáveis ​​são utilizadas para agricultura e que, dessa percentagem, 77% são utilizadas para produção pecuária, como pastagens que são destinadas à produção de rações, e apenas 23% ao resto das culturas, incluindo alimentação humana direta.

Os dados também são cristalinos em um nível energético. Aproximadamente 36% das calorias provenientes das culturas em todo o mundo vão para a alimentação do gado, enquanto essa percentagem sobe para 55% para a população humana em geral. Esta proporção reflete uma enorme extensão de terras agrícolas dedicadas exclusivamente à produção de ração animal, principalmente a partir da soja, o que resultou na perda de milhares de hectares de florestas, especialmente na região Amazônica.

A maior parte da soja consumida é transgênica

Além de ser produzida principalmente para consumo animal, mais de 90% da produção de soja no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, principais exportadores para Espanha e União Europeia, é de origem transgênica. Em outras palavras, a soja foi geneticamente modificada, incorporando genes de outros organismos através da engenharia genética. Esta abordagem, embora proporcione propriedades como a resistência a herbicidas, também acarreta riscos imprevistos para a saúde, o ambiente e a segurança alimentar, uma vez que a manipulação genética pode desencadear efeitos indesejados, conforme abordado e documentado pela organização Ecologistas en Acción durante a sua campanha Crops that Kill.

A característica distintiva da soja transgênica é fundamentalmente sua resistência a herbicidas, especialmente ao glifosato, amplamente utilizado para eliminar plantas concorrentes por recursos como água e nutrientes. Na última década foram desenvolvidas variedades transgênicas que resistem a herbicidas mais potentes, como o glufosinato e o Agente Laranja, autorizados nos três países mencionados e, indiretamente, também na União Europeia e na Espanha. Num bom número de casos, uma única variedade pode tolerar múltiplos herbicidas.

A aplicação massiva de um único herbicida nas monoculturas de soja transgênica tem levado ao surgimento de plantas daninhas resistentes a esses produtos. A resistência ao glifosato, por exemplo, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1998 e, até o fim de 2020, 53 casos haviam sido confirmados em todo o mundo, sendo 19 deles no Brasil. Em resposta, decidiu-se desenvolver variedades de soja resistentes a diversos herbicidas, incentivando o uso de combinações de herbicidas mais tóxicos.

O modelo de produção da soja transgênica depende em grande parte do uso de agrotóxicos, atingindo cerca de 500 milhões de litros por ano somente na Argentina. O abuso destes produtos químicos é tão pronunciado que, segundo a organização Nature of Rights, pode-se afirmar que na Argentina “está chovendo glifosato”. Tanto o glifosato quanto a atrazina, os herbicidas mais utilizados no cultivo da soja argentina, são detectados em 80% das amostras de água pluvial analisadas no país latino-americano.


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Este texto foi inicialmente publicado em português pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].