A hegemonia política do agronegócio e o desmanche das leis ambientais transformaram o RS no epicentro da crise climática global

havan lajeado

Com a estátua da liverdade como testemunha, loja da rede Havan, construída na área de preservação permanente do Rio Taquari, é tomada pelas águas no município de Lajeado.

Não há quem assista às cenas das inundações causadas pelas intensas chuvas que se abatem no Rio Grande do Sul sem se chocar com a dimensão da catástrofe que se abate sobre centenas de municípios e milhões de gaúchos.  O maior problema é que esse evento climático extremo atual ainda deverá se estender por, pelo menos, mais uma semana com volumes de chuvas esperados na mesma escala do que já se assiste agora.

Para quem duvidava da ocorrência das mudanças climáticas com algum grau de sinceridade, bastará agora olhar para as cenas de devastação causadas pelas chuvas extremas para entender que vivemos um período em que a alteração da dinâmica atmosférica ainda causará muitas perdas de vidas, estruturas materiais e recursos naturais.  O pior é que toda essa situação já vem sendo alertada pela comunidade científica global, especialmente aqueles que estudam o clima. Para quem desejar entender como esses eventos extremos estão sendo criados, recomendo a leitura do livro “Angry Weather” da física e filósofa alemã Friederike Otto cujo grupo de pesquisas criou uma ferramenta para estimar como a clima afeta a ocorrência e a magnitude de eventos meteorológicos.

Mas se já se sabe o que está acontecendo com o clima da Terra e quais são as suas repercussões em termos das alterações das escalas de eventos meteorológicos, como pode ser possível que continuemos a parecer tão despreparados e facilmente surpreendidos quando algo como o que está acontecendo no Rio Grande do Sul neste momento?

As explicações para esse aparente despreparo não são assim tão difíceis de serem encontradas. No caso do Brasil como um todo, o que se vê é a inexistência objetiva de uma plataforma que guie ações governamentais e que estejam distribuídas no tempo e no espaço, abrangendo a participação das 3 esferas de governo (i.e., municipal, estadual e governamental). Até o momento, as análises sobre o grau de preparação para o necessário processo de adaptação climática mostram que o Brasil está muito atrasado na adoção de medidas básicas para ajustar a vida dos brasileiros ao “novo normal climático”.

A crise do RS é aprofundada pela hegemonia do (o)gronegócio bolsonarista

Uma coisa que não pode ser esquecida é que nas últimas décadas houve um avanço da agenda comandada pelo latifúndio agro-exportador no RS, o que foi agravado pela adesão dos grandes fazendeiros ao negacionismo climático, o que foi fortemente aprofundado durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A hegemonia do (o) gronegócio também tem sido fortalecido no plano estadual por governos de natureza neoliberal que trataram de desmontar as estruturas que existiam para garantir a regulação ambiental no RS. Essa hegemonia também ficou ainda mais forte na Assembleia Legislativa gaúcha, onde a legislação ambiental foi enfraquecida em vários aspectos para facilitar ainda mais as atividades dos grandes produtores rurais. 

Um exemplo recente de desmanche da legislação ambiental foi a aprovação e sanção do projeto de lei 151/2023, que alterou o Código Estadual do Meio Ambiente para permitir, entre outras coisas, intervenções em Áreas de Preservação Permanente (APP) para fins de irrigação. Esse projeto foi facilmente aprovado na Assembleia Legislativa e rapidamente assinado pelo governador Eduardo Leite (PSDB), o mesmo que agora aparece para reclamar por mais apoio federal, especialmente em termos de recursos financeiros. E, pasmem, essa alteração foi sancionada no dia 9 de abril de 2024!

Há ainda que se falar que na esteira dessa hegemonia, os latifundiários gaúchos avançaram na destruição do bioma Pampa cujas áreas desmatadas, transformadas em monoculturas ou pastagens, estão agora sendo incapazes de cumprirem suas funções ecológicas, incluindo a capacidade de estocar águas das chuvas.

Assim, não há nada de natural na catástrofe que se abate sobre o RS, havendo responsáveis que podem ser facilmente identificados e responsabilizados. Aliás, quanto mais tempo se levar para que se faça o devido ajuste de contas, maiores continuarão a ser os impactos do tipo de evento climático extremo que se abate neste momento sobre a população gaúcha.

O RS como o epicentro da crise climática global

Oito meses depois, Muçum está embaixo d'água novamente; veja fotos | GZH

Para quem achava que a crise climática global ia dar suas caras em algum lugar bem longe do Brasil, sempre apresentado como “protegido por Deus e bonito por natureza”.  A verdade é que tudo indica, especialmente a partir das contribuições científicas do grupo de pesquisas liderado Friederike Otto, o nosso país será um dos epicentros da crise climática global, muito em função das grandes modificações que estão sendo causadas nos nossos biomas florestais por um latifúndio agro-exportador que não possui qualquer preocupação com a crise climática, cuja maioria de seus membros nega existir.

E dado o que vem acontecendo nos últimos anos, com alternância de secas e chuvas extremas, o RS se tornou o epicentro dentro do epicentro. É que no RS existem todos os elementos de sinergia que irão potencializar as repercussões desastrosas das mudanças climáticas. 

Somente uma mudança radical nas formas de gestão ambiental irão desacelerar a crise socioambiental que engole o RS neste momento.  Porém, antecipo que antes que algo possa começar a ser feito, há que se quebrar a hegemonia política do (o) ogronegócio e a remoção das políticas neoliberais que hoje tornam o meio ambiente uma presa fácil desse setor.

Artigo aborda gênese e persistência do “Agrobolsonarismo” e desvela a agenda política do movimento

agrobolsonarismo

Em um artigo que acaba de ser publicado pelo respeitado “Journal of Peasants Studies”, o antropólogo Caio Pompeu (o mesmo que escreveu o esclarecedor livro sobre “a formação política do agronegócio“) desvela o que seria a formação do movimento que ele denomina de “agrobolsonarismo” e sua influência na dinâmica política brasileira.

Segundo Pompeia a gênese do agrobolsonarismo está relacionada à mudança no equilíbrio das forças politicas dentro do Brasil na década de 2010 quando as elites agrícolas regionais e Jair Bolsonaro formaram um movimento político-econômico para antagonizar com o modelo estabelecido pelos governos do PT.  O artigo analisa como se deu a constituição e consolidação desse movimento, considerando para isto as suas ligações com associações agrícolas nacionais e transnacionais do agronegócio, bem como suas relações com as políticas agrárias e climáticas.

Pompeia aponta que apesar da derrota nas eleições presidenciais, Jair Bolsonaro e as elites agrícolas locais e regionais, que representam a espinha doral do “agrobolsonarismo” continuam a mante relações estreitas.  Um exemplo disso teria sido o Agrishow 2023 quando, em vez de atribuir centralidade na cerimônia de abertura ao ministro da Agricultura de Lula, Carlos Fávaro, os organizadores do evento realizado em maio de 2023 preferiram ter Bolsonaro como a figura principal. Durante o evento, o ex-presidente concentrou seu discurso nos pecuaristas e agricultores, argumentando que precisavam de políticos que não os atrapalhassem e criticando a demarcação de terras indígenas.  Isso teria continuado meses depois, em agosto, no mais importante festival de rodeio do país, em Barretos, estado de São Paulo, Bolsonaro voltou a ter papel de destaque, fazendo mais um discurso político forte e sendo aplaudido calorosamente pelos espectadores. Pompeia destaca no artigo que aproximadamente 900 mil pessoas visitaram o rodeio de Barretos em 2023.

Por outro lado, Pompeia ressalta que o “agrobolsonarismo” não precisa sequer contar com Jair Bolsonaro para continuar aplicando sua agenda regressiva.  Considerando tudo isso, Pompeia argumenta que os líderes do agronegócio estão examinando outros potenciais líderes de direita para serem candidatos presidenciais, e que Jair Bolsonaro também pode ser particularmente influente nessa escolha. Para os que estão do outro lado do espectro político,  o desafio visualizado por Pompeia seria o de lidar com a ideologia que está no cerne da agrobolsonarismo. Esta ideologia é sintetizada por Pompeia  em torno de vários eixos que incluem uma maior dependência operacional relativa na expansão contínua do fronteira agrícola, a extrema oposição aos direitos territoriais indígenas e direitos agráriosmovimentos sociais, a negação das mudanças climáticas, animosidade dirigida às corporações do agronegócio, fortes sentimentos anti-Lula, anti-PT e anti-esquerda, e a abertura para contestar alguns dos os procedimentos básicos das democracias liberais.

Quem desejar ler este interessante artigo de Caio Pompeia, basta clicar [Aqui!].

Agrossuicídio: desmatamento na Amazônia já afeta plantio duplo de soja e milho

Perda da floresta atrasou em 76 dias, ao longo de 20 anos, o início da estação chuvosa, impactando as culturas

desmatamento soja

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Não é de hoje que a ciência alerta que o avanço do desmatamento na Amazônia para a abertura de novas áreas para a agropecuária é um tiro no pé do próprio setor. Por motivos já muito bem conhecidos, como o fato de que a floresta produz a chuva que cai sobre as plantações. Agora uma nova pesquisa deu uma ideia mais clara do calibre desse tiro. 

As áreas mais desmatadas na Amazônia – como o norte do Mato Grosso, Rondônia, sul do Amazonas e também o leste do bioma – já apresentam um atraso no início da estação chuvosa, que é exatamente quando os produtores começam a plantar a soja. O atraso no plantio acaba impactando também o cultivo de milho, que entra na sequência da colheita da soja.

Pesquisadores do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) observaram que em um período de 20 anos, entre 1999 e 2019, as regiões que mais perderam floresta tiveram um atraso acumulado de aproximadamente 76 dias no início da estação chuvosa agrícola. Esses locais tiveram uma redução de 360 ​​mm nas chuvas e um aumento de 2,5 ºC na temperatura máxima. 

O trabalho publicado no International Journal of Climatology, da Royal Meteorological Society, foi o primeiro a conseguir isolar apenas os impactos que o desmatamento tem sobre as alterações observadas. A ideia foi separar a perda da floresta de outras condições que também vêm afetando o comportamento do clima, como o aquecimento global e fenômenos naturais, como o El Niño e a La Niña.

Conversei com o climatologista Argemiro Teixeira, que liderou a pesquisa, e ele explicou que as mudanças climáticas têm um efeito cumulativo, de alterações ao longo de décadas, mas o efeito do desmatamento é quase imediato. “Quando tira a vegetação, tira automaticamente a umidade. As secas e os problemas que a agricultura vem enfrentando não são só por causa das mudanças climáticas e o El Niño, mas também por causa do desmatamento”, disse.

A novidade do estudo foi quantificar esse impacto na dupla safra de soja e milho que domina as paisagens amazônicas, um sistema extremamente dependente do início da estação chuvosa. “Quando começa a chover, os produtores plantam a soja. Eles ficam esperando o momento mais favorável porque, se plantarem antes da chuva, podem perder tudo. O ciclo leva de 120 a 140 dias. Eles, então, colhem a soja e na sequência já plantam o milho, ainda aproveitando o período de chuva”, afirma Teixeira. 

Como é uma agenda apertada, de cerca de seis a sete meses, se as chuvas demoram a começar, essa segunda safra pode ficar inviabilizada. “Alteração no volume de chuva e o aumento de temperatura são importantes, mas essa mudança no calendário pode ser muito mais grave para o produtor”, diz o pesquisador.

“Neste ano, por causa de toda a seca do ano passado, muitos produtores não vão ter a segunda safra. O milho já deveria estar em campo, mas não está”, complementa.

O trabalho aponta ainda que o impacto do desmatamento é regional. “Proprietários em áreas mais preservadas têm um menor risco de atraso. Já os que estão em uma área mais degradada, o risco é maior”, explica Teixeira. 

E aí não adianta muito só fazer a lição de casa dentro da fronteira. Uma propriedade que está de acordo com o Código Florestal, mantendo 80% da vegetação preservada, pode também sofrer com falta de chuva se os vizinhos não estiverem preservando igualmente.

De acordo com o estudo da UFMG, nas regiões onde 80% da floresta já foi perdida, na primeira safra, da soja, há um risco de 58% de ocorrer uma queda no volume de chuva maior ou igual a 100 mm, em relação ao que seria esperado para a época. Já na segunda safra, de milho, essas regiões mais desmatadas têm um risco de 44% de enfrentar uma redução maior ou igual a 200 mm nas chuvas. Onde a cobertura de vegetação é maior que 80%, o risco cai à metade.

Para Teixeira, essa situação vai começar a ter impacto no seguro agrícola. “Uma hora os prêmios vão ter de ser ajustados para levar em conta a variação do nível de conservação para conceder seguro e crédito”, opina. 

As alterações climáticas já estão cobrando a conta do agronegócio não é de hoje, nem só na Amazônia. O site do Globo Rural publicou uma reportagem no último dia 5 informando que no ano passado dispararam no Brasil os pedidos de recuperação judicial feitos por produtores rurais justamente por causa das perdas nas lavouras afetadas por intempéries climáticas.

De acordo com a publicação, citando dados da Serasa Experian, foram 80 pedidos entre janeiro e setembro de 2023, alta de 300% na comparação com 2022. A expectativa é que haja uma nova alta em 2024.

Enquanto isso, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) reduziu suas expectativas para a safra de soja neste ano. Em dezembro, a previsão era colher 160,3 milhões de toneladas. Agora já caiu para 156,1 milhões, conforme informou o InfoMoney.

Não é de hoje que a ciência alerta sobre a importância da floresta para os cultivos agrícolas e para o fato de que o agronegócio seria um dos primeiros a sentir os efeitos da mudança do clima. Mas os avisos não foram levados em conta em decisões políticas do setor, como na alteração do Código Florestal, que flexibilizou a proteção da vegetação nativa no país.

O agronegócio pode até não ser quem aperta a motosserra e acelera o correntão que derrubam a floresta, mas acaba se beneficiando dessa destruição. A maior parte das áreas abertas na Amazônia desde 1985 foi ocupada, posteriormente, justamente pela agropecuária, segundo levantamento feito pelo MapBiomas

Uma outra análise da plataforma mostra que as áreas de pasto na Amazônia saltaram de 13,7 milhões de hectares em 1985 para 57,7 milhões de hectares em 2022. Já o cultivo de soja passou de cerca de 1 milhão de hectares para 7 milhões de hectares no mesmo período.

O setor, porém, não quer nem ouvir falar que está fazendo algo errado e que colaborou para piorar as condições pelas quais é penalizado hoje. Pelo contrário: tem se colocado apenas nesse papel de vítima. 

Nesta semana, no início do ano legislativo, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) se reuniu para definir as prioridades para o ano. Entre elas está trabalhar para aumentar o Seguro Rural, voltado para atender produtores que tiveram perdas de safra.

“As consultorias preveem entre 160 milhões e 130 milhões de toneladas [na safra 2024-2025], enquanto o país está acostumado a colheitas superiores a 200 milhões de toneladas”, afirmou o presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (PP-PR), de acordo com reportagem do site O Eco

O texto cita também uma declaração do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), coordenador nacional de política agrícola da bancada ruralista: “Precisamos reconsiderar esse modelo de seguro, pois a atual quebra de safra mostra que, se não dermos apoio ao produtor diante dos riscos que ele corre, ele vai parar de produzir, o que impactará a economia de forma geral”.

Nenhuma palavra sobre restauração florestal nem sobre atuar para combater quem ainda desmata ilegalmente. Um outro pesquisador do mesmo grupo da UFMG, Raoni Rajão, que hoje atua no Ministério do Meio Ambiente, cunhou há algum tempo um termo para definir esse comportamento de parte do setor de destruir as bases que dão sustentação para o próprio negócio: agrossuicídio. Pois é.


compass black

Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Pública  [Aqui!].

No primeiro sinal de crise, entidades do “ogronegócio” correm atrás de favores do Estado

agronegócio

Após anos de ganhos fabulosos às custas de graves danos ambientais em todos os biomas brasileiros (especial atenção para a Amazônia e o Cerrado) e de contínuas violações dos direitos dos seus trabalhadores, os representantes do “ogronegócio” estão batendo às portas do Estado brasileiro com o pires nas mãos atrás de ainda mais recursos públicos para seguirem tocando a sua boiada. A desculpa é que o setor agropecuário brasileiro teria sido fortemente penalizado pelas alterações causadas pelo “El Niño” e agora precisa de uma “ajudinha” para não quebrarem. 

Medidas de Emergência: Redução de 15% no Consumo Urbano e Turismo, e 25% na  Agricultura devido à Seca – Agro Verde Notícias

O curioso é que quando suas commodities estão bombando nos mercados globais, ninguém ouve dos representantes do “ogronegócio” qualquer alusão à necessária distribuição da riqueza que é obtida com altos custos sociais e ambientais.  Muito pelo contrário, o que se tem é a utilização dos lucros para demonstrar sinais inequívocos de que estão enriquecendo às custas da contaminação ambiental por agrotóxicos e pela destruição das florestas.

Mas é importante lembrar que o fenômeno “El Niño” não é o único responsável pelas oscilações no funcionamento do clima que estão em curso, mas, pelo contrário, as mudanças na sua frequência e intensidade decorrem do processo de mudanças climáticas do qual o “ogronegócio” é uma das principais causas. Claramente, o esforço aqui é ocultar a conexão entre os sistemas agrícolas e as mudanças climáticas para continuar a condição de “business as usual” que terá como consequência o agravamento das quebras de safra.  É que posando de vítima de fenômenos supostamente naturais, o latifúndio agro-exportador tentará manter seu modelo destrutivo intacto, com cada vez mais subsídios estatais.

A questão é que como não há objetivamente dentro das entidades ruralistas qualquer compromisso com uma mudança de percurso nas suas práticas anti-ambientais, a tendência é que haja um agravamento de problemas já sérios que decorrem da hegemonia da agricultura industrial, a começar pela escassez hídrica. Como está se avaliando que passaremos diretamente do “El Niño” para o “La Ninã,  existe a possibilidade  de uma grande crise hídrica no centro sul do Brasil. Como o “ogronegócio” consome em torno de 70% de toda a água usada no nosso país,  é muito provável que vejamos situações bem dramáticas por causa da falta de água nos próximos meses, inclusive nas grandes áreas metropolitanas brasileiras.

E aqui é que fica a pergunta: até quando dependeremos de um modelo agrícola que beneficia apenas uma minoria que enriquece destruindo florestas e nos envenenando com agrotóxicos? A hora é de exigir que nem mais um centavo seja colocado nesse setor e que se deixa a tal mão invísivel do mercado cuidar das coisas.

Alerta do Observatório dos Agrotóxicos: com mais um ato, governo Lula atinge 200 liberações em 6 meses

agrotoxicos comida

O Diário Oficial da União traz hoje a publicação do Ato No. 30 de 06 de julho de 2023 que traz a liberação de mais 21 agrotóxicos, na forma de produtos técnicos que são os concentrados que servirão como base para a fabricação dos chamados agrotóxicos formulados.

Com essa nova rodada de liberações, o governo Lula atinge um grande total de 200 agrotóxicos liberados em pouco mais de seis meses de governo, o que indica que apesar de estar ocorrendo em um ritmo mais lento, a onda de aprovações que ocorreu durante o governo de Jair Bolsonaro continua basicamente inabalada. Com isso, o Brasil segue firme na sua senda de se tornar uma espécie de latrina química para onde são dirigidos produtos que já estão banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade ambiental e sobre a saúde humana.

Quem ganha com essa manutenção de múltiplas liberações são as grandes corporações químicas (principalmente Basf, Bayer, Syngenta e a ChemChina) e seus aliados internos, começando pelos membros do latifúndio agro-exportador.

Um dos aspectos cruciais dessa continuidade é que os brasileiros continuarão sendo expostos a venenos altamente tóxicos que estão cada vez mais chegando em suas casas por meio de alimentos contaminados por resíduos dessas substâncias, mas também na água que é servida nas torneiras.

O resultado disso já está aparecendo em múltiplos estudos científicos, inlcuindo aqueles que estão detectando o aumento de doenças graves como o câncer. 

Como já disse várias vezes, a questão dos agrotóxicos e do modelo agrícola dependente da lógica química que eles representam é crucial e deve ser encarada de frente por todos os que querem um futuro minimamente saudável para os brasileiros. E pelo que se vê, se não for pressionado de forma direta, o governo Lula vai continuar servindo aos interesses do ogronegócio.

Informo que ao longo do mês de julho, estarei trabalhando para compilar a lista dos agrotóxicos já liberados pelo governo Lula, mantendo um compromisso que estabeleci ao longo do governo Bolsonaro.

Em nova edição, revista Ambientes traz artigo sobre as conexões entre o “ogronegócio” e a extrema direita bolsonarista

ambientes

A  Ambientes: Revista de Geografia e Ecologia Política, que é uma publicação destinada a  reunir, disseminar e estimular reflexões e pesquisas relacionadas aos enfoques da Geografia Ambiental e da Ecologia Política, acaba de lançar mais um número,. Em que pesem esta edição trazer vários artigos muito interessantes, aproveito para destacar o trabalho intitulado “Agronegócio e a extrema-direita bolsonarista: Simbiose que engendra e amplia a barbárie socioambiental no Brasil” de autoria do professor Warllen Torres Nannini do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais (IFSuldeMinas).

Ressalto este artigo porque considero que o mesmo traz uma interessante análise sobre as conexões entre o “ogronegócio” e a extrema direita bolsonarista. Segundo o professor Nannini, o ogronegócio, apesar de ser um setor econômico complexo devido ao leque de relações estabelecidas entre os diferentes agentes que o compõema, tem suas principais entidades patronais agindo como um partido político monolítico, organizado e bem articulado quando o assunto é a defesa de seus interesses setoriais.  Nesse sentido, é que “ogronegócio” impõe um conjunto de ações para desconstruir as regras e burlar as leis que possam atrapalhar o  seu avanço.  No seu artigo, Nanninin também destaca a hegemonia política do agronegócio, já que  representantes ocupam metade dos assentos da Câmara e do Senado, além de terem tido cargos de destaque no governo de Jair Bolsonaro.

Nannini, argumenta ainda que o ogronegócio foi capaz de transformar o aparelho de Estado em um mecanismo que cria imunidades implícitas, legalizando o desmatamento e a violência no campo, por meio de leis e normas que favoreceram a manutenção e ampliação do quadro histórico trágico que o país vive, seja na esfera social, econômica ou ambiental. Em função de todas essas características, Nannini argumenta que assim se explica a aliança entre o ogronegócio e Jair Bolsonaro, o que transformou esse setor em uma das principais bases de sua sustentação.

A partir da leitura desse artigo, considero que ficará mais claro o porquê de tanta hesitação do atual governo em avançar as bases para o modelo de agricultura que foi defendido pelo presidente Lula em seu discurso da vitória. É que implantar uma agricultura de perfil agroecológico terá de se confrontar diretamente com um ogronegócio que cresce às custas da destruição ambiental e da ação violenta contra populações tradicionais e o campesinato.

As duas grandes mentiras do “Ogronegócio”

A de que o “ogro” não é mais o latifúndio improdutivo de algumas décadas e de que ele alimenta o mundo

desmatamento_na_amazonia_AgroReset-860x382

Foto: reprodução AgroReset

Por Júlio Miragaya para o BSB Capital

Apresentado pela grande mídia como um setor moderno e tecnológico, o “ogronegócio” continua mostrando sua verdadeira face: o Projeto de Lei do Marco Temporal das Terras Indígenas (PL 490/07); o PL do Veneno (nº 1.459/22); o financiamento dos atos golpistas de 8 de janeiro e a tentativa de criminalização do MST com uma CPI espúria. A falsa imagem (Agro Tec, Agro Pop) apresentada pela Globo assenta-se em duas grandes mentiras: a de que o “ogronegócio” não é mais o latifúndio improdutivo de algumas décadas e de que ele alimenta o mundo.

A primeira questão, posse e exploração da terra, é o que tem dado margem ao questionamento dos ruralistas em relação à extensão das terras indígenas no Brasil. Num misto de ganância e ignorância em relação à cultura dos povos originários, alegam que os indígenas têm terras em demasia para uso algum. Ora, o IBGE acabou de apurar que a população indígena é superior a 1,65 milhão, sendo que cerca de 1/3 (550 mil) reside em áreas urbanas e 2/3 (1,1 milhão) em Terras Indígenas. Como as Terras Indígenas demarcadas (nem todas homologadas) somam 107 milhões de hectares, o resultado é 97 hectares/indígena.

O Brasil tem 115 mil grandes propriedades rurais que ocupam 315 milhões de hectares, o que resulta em 2.740 hectares/propriedade. Mesmo se considerar todos os seus familiares (seriam 310 mil pessoas, 2,7 pessoas/família), o resultado seria de 1.016 hectares/pessoa, mais de dez vezes o espaço médio ocupado por indígenas. A título de comparação, as 4,7 milhões de pequenas propriedades rurais (agricultura familiar) ocupam 130 milhões de hectares – 27,6 hectares/propriedade, 100 vezes menos que um latifúndio. 

A réplica dos ruralistas traz a segunda grande mentira, a de que, sustentando o saldo positivo da balança comercial brasileira com suas exportações, alimentam de 1,5 bilhão a 2 bilhões de pessoas do planeta. Mentira desvairada! O Brasil produz 7,7% da produção mundial de grãos (270 milhões em 3,5 bilhões de toneladas) e suas exportações de grãos somam 140 milhões de toneladas, apenas 4% do consumo mundial.

 Tal volume supriria a demanda de 320 milhões de pessoas (4% de 8 bilhões), uma fração dos 1,5 a 2 bilhões. Mas nem isto é verdadeiro, pois a grande maioria dos grãos exportados pelo Brasil não se destina diretamente à alimentação humana, mas a aves e porcos chineses, coreanos e europeus.

 Quanto a sustentar o saldo da balança comercial do país, se é fato, o seu efeito colateral é devastador para os brasileiros, especialmente os mais pobres. Os ruralistas se dedicaram a expandir a produção de produtos que possam faturar em dólar, deixando de lado os produtos tradicionais da mesa do brasileiro. Assim, a área plantada com soja, milho e cana-de-açúcar) avançou de forma implacável (crescimento de 213% de 1980 a 2022, de 22,4 para 70,2 milhões de hectares), ocupando hoje cerca de 85% da área plantada no País.

Já a área plantada para a produção de alimentos que o nosso povo consome (feijão, arroz, mandioca, hortaliças, legumes, banana), cada vez mais restrita aos agricultores familiares e médios produtores rurais, caiu mais de 50%, de 14,4 para 7,1 milhões de hectares (de 1960 a 2020, enquanto a população brasileira cresceu 200%, a produção de arroz cresceu 130%, a de feijão 67%, a de banana ficou estagnada e a de mandioca caiu 19%).

Daí advém dois sacrifícios para o povo nas cidades: de um lado, a redução da área cultivada com alimentos básicos resulta na estagnação da produção e consequente elevação de seus preços; de outro, a cotação em dólar das exportações gera uma forte alta dos preços de óleo de soja, fubá, açúcar e carnes no mercado interno.

Em suma, sempre posando de patriotas, desfilando nos acampamentos golpistas com a “amarelinha” do Neymala, os ruralistas estão se lixando para a alimentação do povo brasileiro.

E o que fica desses “homens de bem”: grilagem de terras públicas; invasão de unidades de conservação e terras indígenas; frequente uso de trabalho escravo; uso excessivo de agrotóxicos contaminando o ar, o solo e o lençol freático; destruição de matas ciliares; promoção de incêndios criminosos e desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e recorrentes calotes de suas dívidas junto ao Banco do Brasil.

O que o Brasil precisa é de uma CPI do “ogronegócio”!


compass black

Este texto foi originalmente publicado pelo BSB Capital [Aqui!].

Enquanto Brasil lidera desmatamento no mundo, governo Lula libera R$ 400 bilhões para o “ogronegócio” continuar sua marcha na Amazônia

Uma área de floresta tropical primária do tamanho da Suíça foi derrubada no ano passado, sugerindo que o compromisso dos líderes mundiais de interromper e reverter o desmatamento até 2030 está falhando

desmatamento fogo

De acordo com dados liberados pelo World Resources Institute no dia de ontem, o Brasil foi o campeão de desmatamento no mundo, com as perdas de florestas nativas representando 43% de tudo o que desmatado no planeta em 2022, com o impressionante desaparecimento de 1,4 milhões de hectares.  Com isso, as emissões de carbono do Brasil em função da mudança da cobertura vegetal  foram de 1,2 Gt C02 sendo emitidas, ou 2,5 vezes as emissões anuais de combustíveis fósseis do nosso país.

total deforestation

Brasil, República Democrática do Congo e Bolívia ficaram entre os três primeiros em perda de floresta tropical primária em 2022

Some-se a esses dados, o fato de que em 2022 (último ano de Jair Bolsonaro no poder), a variação em relação a 2021 aumentou em 20%, o que implica a maior perda de floresta primária sem fogo aumentou  desde 2005  (ver figura abaixo).

desmatamento 2002 2022

E sabemos que no Brasil os responsáveis por essas taxas astronômicas são os membros do chamado “ogronegócio” que avançam a franja de desmatamento na mesma velocidade em que deixam terras abandonadas para trás, visto que não há qualquer compromisso com a adoção de formas minimamente sustentáveis de uso da terra.

Entretanto, nem esse cenário de terra arrasada detém a influência do “ogronegócio” em abocanhar pesadas fatias de dinheiro público para subsidiar suas atividades destruidoras.  Uma prova disso é o fato de que nesta terça-feira, dia 27, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, lançam o Plano Safra 2023/2024.  Segundo fontes ligadas  ao “ogronegócio”, informações de bastidores indicam que será um plano histórico, que deve ultrapassar os R$ 400 bilhões.

O ato de lançamento de mais essa rodada de entrega de dinheiro para destruir os principais biomas florestais deverá ocorrer às 10 horas, em Brasília. E que soem as motosserras em festiva celebração, e junto com elas as bombas costais para despejar agrotóxico!

Desmatamento no Cerrado e crise hídrica no Brasil: mais um dano causado pelo avanço descontrolado do “ogronegócio”

O jornal “Folha de São Paulo” trouxe ontem uma matéria em que são apresentados dados correlacionando o avanço do desmatamento no Cerrado com o ressecamento de rios em bacias hidrográficas importantes, incluindo a do Rio São Francisco.  A questão é que apesar de exercer um papel fundamental na regulação hídrica no Brasil, a vegetação do Cerrado sequer é conisderada uma floresta, permitindo assim que o desmatamento avance quase livremente em todo o bioma, ainda que concentrado atualmente no chamado Matopiba (ver figura abaixo).

desmatamento cerrado

O fato é que apesar de não ser tão valorizado quanto a floresta amazônica, o Cerrado é altamente biodiverso e possui características que propiciam a acumulação de água subterrânea que acaba favorecendo a recarga hídrica em toda a extensão do bioma. 

Mas agora com o avanço da monocultura da soja no Matopiba, inclusive sob a facilitação de governos do PT como é o caso da Bahia, o Brasil corre o risco de ver grandes rios se transformando em leitos secos, o que seria uma crise de proporções apocalípticas, visto que o impacto sobre o abastecimento de água irá alcançar áreas fora do Cerrado.

Aliás, como já informado aqui mesmo, em janeiro deste ano, um artigo do qual sou um dos co-autores foi publicado pela revista científica Sustainability mostrando os graves impactos que o desmatamento do Cerrado está causando no fluxo de água de 81 bacias hidrográficas dentro do bioma.  Ali alertamos para as tendências atuais e os riscos de falta de água que o avanço das monoculturas estão causando. Entretanto, até agora, os dados ali apresentados não parecem ter gerado nenhum senso de urgência, apesar das estimativas críticas que apresentamos (ver figura abaixo).

cerrado fluxo rios

E tudo isso para quê? Aparentemente para alimentar o “ogronegócio” que desmata e polui em troca de um modelo de acumulação de riqueza que só favorece um punhado de latifundiários do “ogronegócio’ brasileiro.

Ogronegócio: Marina Silva usa audiência para tirar a máscara de modernidade do latifúndio agro-exportador

ogronegocio

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, prestou um grande serviço para o Brasil ao usar ao utilizar a expressão “ogronegócio” para explicar as recentes decisões anti-ambientais tomadas pelo congresso nacional sob impulso da chamada bancada ruralista, também conhecida como Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).  Ainda que não tenha não tenha cunhado o termo, ela nos brindou com o uso dessa definição perfeita do latifúndio agro-exportador em uma audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados no último dia 24/5.

Ainda que Marina Silva tenha tentado contemporarizar ao afirmar que só uma parte do latifúndio agro-exportador age como “ogronegócio”, a verdade é que raros são raros os exemplos de grandes produtores rurais que adotam práticas sustentáveis. A imensa maioria gosta mesmo é desmatamento e agrotóxicos em suas propriedades, onde frequentemente ainda se encontra a prática hedionda do trabalho escravo. Por isso, não há nada disso de “agro”, pois o negócio desse pessoal é mesmo o “ogronegócio”.

E ainda há que se enfatizar que o “ogronegócio”  não sobreviveria sem os polpudos subsídios governamentais que chegam todos os anos para alimentar uma pauta de exportação que acaba servindo como ração animal em outras partes do mundo. Produzir alimentos mesmo é com a agricultura familiar que nem uso os mesmos métdos, nem, tampouco, recebe os bilhões de reais em subsídios que são dados anualmente para o “ogronegócio” continuar sua forma desastrosa de agricultura.