Ciência fajuta e propaganda enganosa: entenda tudo o que está errado no Pacote do Veneno

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Por João Filho, para o “The Intercept”

SEMANA PASSADA, um projeto de lei que flexibiliza o uso de agrotóxicos no país foi aprovado em uma comissão especial da Câmara criada para tratar do tema. Após debates intensos, o Projeto de Lei (PL) nº 6.299/2002, conhecido como PL do Veneno, foi aprovado com uma votação avassaladora: 18 a 9. O projeto ainda passará pela apreciação do Plenário da Câmara e, em seguida, voltará para o Senado. Com a bancada ruralista aliada às bancadas da Bíblia e da bala, a expectativa é de que o projeto seja aprovado com tranquilidade.

O projeto é de 2002 e foi proposto pelo então senador Blairo Maggi, que hoje é o ministro da Agricultura. Não é difícil desconfiar de um projeto cujo autor ostenta o título de Barão da Soja e é considerado um dos maiores desmatadores da Amazônia. Maggi e sua turma querem facilitar  a aprovação e venda de agrotóxicos, além de afrouxar a fiscalização.

Usando eufemismos como  “desburocratizar” e “modernizar” processos, o projeto de lei impedirá a continuação do trabalho de entidades fiscalizadoras e excluirá os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente da análise e registro dos agrotóxicos, deixando essa tarefa exclusivamente para o ministério comandado por Maggi. Licenças para o uso de novos venenos poderão ser aprovadas sem passar pelos testes que analisam o impacto no meio ambiente e na saúde da população.

De fato, o registro de agrotóxicos no Brasil é bem mais lento que em outros países. Enquanto aqui leva-se de 3 a 10 anos em média, os EUA e alguns países europeus conseguem aprovar em até 4 anos. Segundo a Anvisa e o Ibama, a demora se deve à falta de estrutura e escassez de recursos para a qualificação dos profissionais. Em vez de cobrar maior investimento do governo nesses órgãos para agilizar os processos de registro, a bancada ruralista se mobiliza para alterar a lei. Segue-se a mesma lógica da privatização de estatais: primeiro sucateia, depois se livra delas usando a justificativa da ineficiência.

Na prática, o PL afrouxa as regras em um país que já é considerado o paraíso desses venenos. A legislação brasileira já é altamente permissiva sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. Um estudo do Laboratório de Geografia Agrária da USP revela um abismo entre os níveis de resíduos permitidos na Europa e no Brasil. Aqui, a contaminação da água pelo herbicida glifosato, por exemplo, tem um limite 5 mil vezes superior ao que é permitido no continente europeu. O país ostenta o título de maior importador e consumidor de agrotóxicos do planeta. Um levantamento da Reuters revelou que grandes fabricantes internacionais vendem para o Brasil agrotóxicos que são proibidos em seus países por oferecer riscos à saúde e ao meio ambiente. Substâncias rotuladas como “altamente tóxicas” por órgãos reguladores dos EUA, por exemplo, já são vendidas normalmente no mercado brasileiro. Das 50 principais fórmulas de agrotóxicos usadas no Brasil, 22 são proibidas na União Europeia.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência divulgou um manifesto, assinado por mais de 20 sociedades científicas, alertando para os “efeitos potencialmente catastróficos” da aprovação da nova lei para a saúde pública. No mês passado, a ONU enviou uma carta ao governo brasileiro mostrando preocupação com o PL e afirmando que ele coloca em risco uma série de direitos humanos.

De um lado do debate estão, além da comunidade científica, os partidos de oposição, ambientalistas, o Ministério Público Federal, a Fiocruz, órgãos do governo como o Inca, o Ibama e a Anvisa e centenas de entidades ligadas à saúde e ao meio ambiente. Do outro, a base aliada do governo, a bancada ruralista, o lobby dos produtores de agrotóxicos e o MBL. Enquanto o primeiro grupo se baseia no consenso da comunidade científica de que o uso indiscriminado de agrotóxicos é prejudicial à sociedade, o segundo, movido por interesses políticos e financeiros, trabalha com a desinformação.

Na comissão especial da Câmara, onde a bancada ruralista domina com ampla maioria, todos os dados científicos apresentados pelos opositores do PL e notas técnicas de órgãos de controle estão sendo ignorados.

O lobby dos agrotóxicos

O documentário “O mercado da dúvida”, baseado em livro de mesmo nome, mostra através de entrevistas com pesquisadores e historiadores científicos como se fabricam as narrativas que colocam em xeque consensos científicos. Elas costumam ser estimuladas e financiadas por quem têm a perder com algumas conclusões da ciência.

Disseminar a dúvida na sociedade em relação às pesquisas que associavam o cigarro ao câncer, por exemplo, fazia parte da estratégia adotada pela indústria do tabaco nos EUA que, durante décadas, confundiu a população por meio de intensas campanhas na mídia. Lobistas contratados por essa indústria se aproveitavam da polarização ideológica na sociedade americana para fabricar teorias conspiratórias, culpando não a ciência pela demonização do cigarro, mas as ideologias de esquerda que pretendiam sabotar o capitalismo. O modus operandi foi bem sucedido e se repetiu em outros temas importantes como o aquecimento global. A indústria do petróleo financia diversas associações de fachada e cientistas mercenários para colocar em dúvida o aquecimento da Terra, um dado que é consenso absoluto entre cientistas da área. O mesmo aconteceu com os agrotóxicos nos EUA e, agora com mais força, no Brasil.

Em depoimento para a série “Viva Sem Veneno”, a advogada da ONG Terra de Direitos, Naiara Bittencourt, afirma que não é à toa que o Brasil se tornou campeão no consumo de agrotóxicos. “Isso deriva de uma ofensiva estruturada do agronegócio, com muito poder e dinheiro envolvidos. O lobby do agronegócio se espraia nos 4 poderes. No Legislativo, através da Frente Parlamentar da Agropecuária, que ocupa 40% do congresso nacional e que, aliada a outras bancadas, consegue aprovar suas propostas com facilidade. No Executivo, através da ocupação de ministérios emblemáticos como Agricultura, Casa Civil e Justiça. No Judiciário, através da captura de juízes por meio de patrocínio de eventos, festas e encontros de magistrados brasileiros. A Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) é um interlocutor prioritário para os magistrados na temática agrária, com forte poder de influência nas decisões. Muitos juízes são proprietários de terra e ruralistas. Há também o lobby na grande mídia.”

O publicitário Nizan Guanaes sempre foi um defensor dos alimentos orgânicos e chegou a escrever para a Folha de S. Paulo frases como “a comida do futuro é orgânica. (…) As pessoas estão cada vez mais preocupadas em comer e em dormir livres de substâncias químicas. (…) A Califórnia não é apenas o centro de tecnologia do mundo. Se você for a San Francisco, verá como a alimentação orgânica está tomando a cidade.”

Mas as coisas mudaram, e o publicitário se converteu ao agronegócio. Recentemente ele foi contratado pela CNA para criar uma nova estratégia de comunicação e dar uma repaginada na imagem dos agrotóxicos. “Só chamar agrotóxico já mostra que o setor se comunica mal. Meu papel é fazer o setor se comunicar melhor, nem canonização nem satanização”, afirmou o publicitário. Uma das propostas da lei é justamente alterar a nomenclatura para “defensivos fitossanitários” e, assim, escamotear a toxicidade dos venenos agrícolas.

Um relatório publicado pela ONU no ano passado trouxe dados confirmando o efeito devastador dos pesticidas na saúde do homem e no meio ambiente. O documento afirma também que as corporações produtoras de agrotóxicos trabalham com a desinformação, já que “negam sistematicamente” os danos causados e suas “estratégias de marketing antiéticas continuam iguais”. O relatório conclui também que é possível alimentar as 9,6 bilhões de pessoas que vão habitar a terra em 2050 sem o uso dos agrotóxicos, derrubando assim um dos principais argumentos do lobby da indústria.

Em colunas em defesa do PL do Veneno, o jornalista Leandro Narloch e o tucano representante do agronegócio Xico Graziano citaram como fonte dois pesquisadores que vão na contramão do que aponta a comunidade científica: Edivaldo Velini e Caio Carbonari, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Ambos defendem o PL e afirmam que a presença de agrotóxicos nos alimentos têm diminuído ao longo do tempo. Grande parte das pesquisas de Velini sobre agrotóxicos foram financiadas por grandes indústrias de agrotóxicos e de sementes transgênicas, como a Arysta Lifescience, a Basf e a Syngenta. Mesmo com tantas conexões com a indústria, o pesquisador não vê conflito de interesses em ser integrante da CTNBio, órgão que regulamenta a política de biossegurança no país e do qual já foi presidente.

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Algumas das pesquisas de Edvaldo Velini que foram financiadas por fabricantes e distribuidoras de agrotóxicos.  (Imagem/Reprodução: CNPq)

 

O outro pesquisador citado, Caio Carbonari, foi orientando de Velini e também participou com ele de algumas pesquisas patrocinadas pela indústria dos agrotóxicos. Os dois são figurinhas carimbadas em congressos e eventos organizados pelo agronegócio.

Professor Edivaldo Velini dando entrevista para uma newsletter da Monsanto em 2011.  (Imagem/Reprodução)

Já o MBL vem cumprindo com louvor o papel de assessoria de comunicação da bancada ruralista. Nas redes sociais, o grupo tem ignorado a posição da comunidade científica e disseminado a ideia de que os agrotóxicos existem para salvar nossas vidas. Eles têm atuado com afinco na criação de vídeos defendendo o PL e memes ridicularizando quem se opõe, sempre tratando a questão fundamentalmente como uma disputa entre a esquerda (representada por eles como hippies e artistas idiotas) e a direita (representada por quem quer trabalhar, produzir e movimentar o PIB do país).

Em vídeo publicado em janeiro, o grupo que nutre ojeriza às agências de checagem de dados apresentou seus próprios dados para defender o uso dos venenos agrícolas. Kim Kataguiri sustentou sua argumentação com uma única fonte: o livro “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas Vital, um jornalista que presta serviços para empresas ligadas ao agronegócio.

O lobby dos venenos agrícolas cresce no país à medida em que o mercado internacional passa a ser cada vez mais regulado e restritivo. Enquanto a tendência mundial é trabalhar para reduzir e proibir uso de alguns agrotóxicos, como na Europa, EUA e até na China, o Brasil acelera fundo na direção do obscurantismo. A nova lei irá impulsionar ainda mais a farra no uso dessas substâncias e reforçará a fama brasileira de paraíso dos agrotóxicos.

FONTE: https://theintercept.com/2018/07/08/ciencia-fajuta-e-propaganda-enganosa-entenda-tudo-o-que-esta-errado-no-pl-do-veneno/

Agrotóxicos: Brasil libera quantidade até 5 mil vezes maior do que Europa

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O debate sobre o uso de agrotóxicos ganhou um novo capítulo, e ele não é bom para o Brasil. Estudo inédito revelou o abismo que existe entre a legislação brasileira e a da União Europeia sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. A contaminação da água é o que mais chama a atenção, com a lei brasileira permitindo limite 5 mil vezes superior ao máximo que é permitido na água potável da Europa. No caso do feijão e da soja, a lei brasileira permite o uso no cultivo de quantidade 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa.

Esses são os resultados do estudo “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de geografia Agrária da Universidade de São Paulo. “Infelizmente, ainda não é possível banir os agrotóxicos. Por isso, é importante questionar por que o governo brasileiro não usa parâmetros observados no exterior”, afirma Bombardi, para quem a permissividade em relação à água “é uma barbárie”. Enquanto a União Europeia limita a quantidade máxima que pode ser encontrada do herbicida glifosato na água potável em 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite até 5 mil vezes mais.

O Brasil tem, segundo o estudo, 504 agrotóxicos de uso permitido. Desses, 30% são proibidos na União Europeia – alguns há mais de uma década. Esses mesmos itens vetados estão no ranking dos mais vendidos. O acetato, tipo de inseticida usado para plantações de cítricos, é o terceiro da lista. Uma nota técnica da Anvisa citada no estudo de Bombardi mostra que o acetato causa a chamada “síndrome intermediária”. Entre os danos à saúde estão fraqueza muscular dos pulmões e do pescoço. Em crianças, o risco é mais acentuado. “A nossa legislação é frouxa no que diz respeito aos resíduos e à quantidade permitidos na União Europeia”, diz Bombardi. Para Brian Garvey, da Universidade de Strathclyde, da Escócia, e orientador de Bombardi na pesquisa, as autoridades brasileiras “lavam as mãos da toxidade”.

Como resultado, o mapa aponta ainda que oito brasileiros são contaminados por dia, se levarmos em conta os números oficiais, que são subnotificados. Uma pesquisa da Fiocruz estima que, para cada caso registrado, 50 não o foram. O que significa que, entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxico – um quinto das vítimas é criança ou adolescente. Para piorar, em 2015, o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos. Desde então, ficou mais difícil estudar os casos de vítimas intoxicadas dentro ou fora do trabalho, como nos casos de pessoas que moram em áreas pulverizadas.

Bombardi se refere aos casos de intoxicação como a “ponta do iceberg”. “A intoxicação representa 2% do total de problemas de saúde que podem acometer a sociedade. As doenças crônicas não são estudadas como deveriam.” Procurado no sábado, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde respondeu que recebeu a demanda na segunda (dia 27) e que até o final do dia mandaria esclarecimentos.

A Anvisa, por e-mail, informou que “realiza a avaliação toxicológica dos agrotóxicos, antes dos mesmos serem registrados pelo Ministério da Agricultura” e que há uma série de restrições para registros de agrotóxicos no país, como nos casos em que não há antídoto ou tratamento eficaz no Brasil. Em relação à quantidade de resíduos presentes, a Anvisa afirmou que uma análise feita entre 2013 e 2015 mostrou que quase 99% das amostras de alimentos analisadas “estão livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde”.

 Consumo de agrotóxicos aumentou

Desde 2008 o Brasil é o país campeão mundial em uso de agrotóxicos. Consumimos 20% do que é comercializado mundialmente. Não bastasse o manuseio não parou de crescer. Entre 2000 e 2014, mostrou o estudo, o Brasil saltou de cerca de 170 mil toneladas para 500 mil, aumento de 194% em quinze anos.

Segundo o estudo, nos estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso o consumo do herbicida glifosato fica entre 9 kg e 19 kg por hectare. Análises feitas com animais mostraram que a exposição ao produto causou câncer de mama, necrose de células e reduziu o tempo de vida dos bichos. Em setembro deste ano, a França anunciou que banirá o glifosato até 2022. “O primeiro-ministro Edouard Philippe decidiu que este produto será proibido na França – assim como todos os que se pareçam com ele e que ameaçam a saúde dos franceses”, disse o porta-voz Christophe Castaner em entrevista a um canal de televisão.

Mesmo em casos em que o agrotóxico é permitido lá e cá, a quantidade usada é menor, como é hoje o caso do glifosato, o líder brasileiro de vendas. Enquanto na Europa é permitido usar até 2 kg de glifosato por hectare, a média brasileira fica entre 5 kg e 9 kg. Entre 2009 e 2014, o consumo subiu 64%, de 118 mil toneladas para 194 mil. Em 2014, o Mato Grosso liderou as compras, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul.

Bombardi aponta ainda que o aumento do uso de agrotóxicos não aumentou a produção de alimentos por hectare no Brasil. O crescimento do consumo do produto aconteceu em paralelo a um outro movimento: o aumento da concentração de terras e da plantação de produtos que usam grandes quantidades de herbicidas. Em 2003 as fazendas declaradas com área superior a 100 mil hectares ocupavam 2% de todo o território destinado a imóveis rurais no país, em 2015, o número saltou para 18%. Em 13 anos, a área cultivada de soja aumentou 79% no Brasil.

O aumento da produção rural também ajuda a entender esse crescimento no consumo de agrotóxicos. Em 2014, os produtos básicos assumiram a liderança das exportações, com 48% do total. Dos dez produtos mais vendidos pelo Brasil no exterior, sete vêm do campo. A pesquisadora aponta ainda a política de incentivos às empresas produtoras de agrotóxicos, que têm 60% de desconto no imposto relativo à circulação de mercadorias no Brasil, dentre outros benefícios.

Lei permissiva, culpa do agricultor

Embora a lei brasileira seja permissiva, as autoridades tendem a jogar no produtor rural a culpa pelos casos de contaminação. Em audiência pública realizada na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados em agosto de 2017, tanto o governo quanto a Anvisa atribuíram a contaminação por agrotóxicos à utilização inadequada.

O mesmo argumento foi usado pela coordenadora do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes do Ministério, Rosana Vasconcelos, em reportagem da Agência Câmara: “Quando se depara com o problema de uma praga, de uma doença na sua cultura, ele [produtor] não quer saber se é permitido para o mamão, ele quer saber se mata aquela praga para ele não perder a produção”, afirmou. Na mesma reportagem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento informa que “o uso de agrotóxicos no Brasil está dentro dos padrões internacionais, mas reconheceu que há uma utilização equivocada que pode levar à contaminação.” Procurados, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sugeriu enviar os questionamentos à Anvisa.

O estudo confirma a informação de que os trabalhadores rurais são as principais vítimas de contaminação, seguidos por quem vive em regiões próximas às plantações, sendo as áreas pulverizadas as mais suscetíveis. No estado de São Paulo, 75% da área é pulverizada. Por fim, o último elo da cadeia revela as consequências da contaminação por quem consome. “O agrotóxico não tem público alvo”, afirma Lombardi.

 

Fonte: http://www.informaluz.com.br/agrotoxico-alem-do-limite-no-brasil

Bancada ruralista: mais veneno e menos orgânico na mesa dos brasileiros

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Não bastando ter aprovado preliminarmente a facilitação da venda de agrotóxicos no Brasil, inclusive os proibidos em outras partes do mundo, a bancada ruralista agora quer impedir o acesso mais fácil à comida produzidas sem esses venenos agrícolas.  É que  regra aprovada na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados vai criar barreiras à comercialização de alimentos orgânicos em supermercados e outros estabelecimentos que comercializam alimentos. De acordo com o Projeto de Lei 4576/16, supermercados, mercearias, varejões e sacolões não poderão mais vender produtos orgânicos diretamente ao consumidor.

Caso o PL volte a ser aprovado, desta vez no plenário da Câmara, só os pequenos produtores da agricultura familiar vinculados a organizações de controle social cadastradas nos órgãos fiscalizadores do governo poderão comercializar os orgânicos.  Pelo projeto, os agricultores familiares poderão vender a produção própria, de outros produtores certificados ou de produtos com a certificação prevista na Lei da Agricultura Orgânica (Lei 10.831/03). A comercialização deverá ocorrer em feiras livres, sejam provisórias ou permanentes, ou em propriedade particular.

O relator desse projeto “barbárie” é o deputado Luiz Nishimori (PR/PR) que, pasmemos todos, também foi o relator do Pacote do Veneno! Em outras palavras, Luiz Nishimori representa  não apenas os interesses dos fabricantes e vendedores de veneno,  mas também dos que vendem comida contendo resíduos de um conjunto de produtos que a literatura científica já determinou serem responsáveis por uma série de doenças graves, começando pelo câncer.

Enquanto isso, países que sediam as empresas que fabricam esses venenos agrícolas estão adotando políticas agrícolas que tornarão obrigatória a produção orgânica de alimentos, a começar pela Dinamarca. Mas mesmo nos EUA,  um dos bastiões do consumo de agrotóxicos, as grandes redes de supermercados estão ampliando a oferta de todo tipo de produtos orgânicos, incluindo laticínios e carnes em geral.

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Comida orgânica sendo vendida num supermercado dinamarquês.  Na Dinamarca, o consumo de comida orgânica aumentou 14% entre 2015 e 2016, fazendo o país um dos líderes mundiais no consumo de produtos cultivados sem o uso de agrotóxicos.

O problema é que aqui o lobby vencedor é o dos vendedores de veneno e de comida envenenada.  Por isso, reagir a esse projeto de lei que restringe o acesso à alimentos orgânicos não é mera quimera, mas uma necessidade urgente.

 

Renúncia fiscal com agrotóxicos é de R$ 9 bilhões no Brasil, segundo o TCU

Valor estimado deixou de ser arrecadado entre 2010 e 2017 com alíquota zero de Cofins e PIS/Pasep, tributos importantes para a seguridade social, que incluem saúde, educação e assistência social

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O cálculo do TCU é a ponta do iceberg. Como são considerados insumos agrícolas, despesas com agrotóxicos são 100% abatidas no imposto de renda pessoa física e jurídica e contribuição social sobre o lucro líquido.

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – O Brasil deixou de arrecadar R$ 9 bilhões no período de 2010 a 2017 somente com a isenção fiscal da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e do PIS/Pasep para o setor de agrotóxicos. Esses tributos têm papel relevante para subsidiar a seguridade social, que inclui as áreas de saúde, educação e assistência social.

O dado consta de auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), para avaliar a preparação do governo brasileiro para implementar e monitorar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – Agenda 2030. Trata-se de compromisso assumido pelo Brasil com a Organização das Nações Unidas (ONU) para erradicar a pobreza e promover vida digna para todos, dentro dos limites do planeta.

Os dados são incompletos. Trata-se de estimativas calculadas a partir das informações disponíveis. Além disso, não contemplam o Imposto de Importação (II) e nem o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), já que as desonerações desses produtos não configuram gasto tributário. E o cálculo não abrange a redução na base de cálculo do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), por ser um tributo estadual.

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Para os auditores, as desonerações não são acompanhadas nem avaliadas pelo governo federal “devido às falhas de governança” e são concedidas independentemente de seu nível de toxicidade à saúde e de periculosidade ambiental.

“O dado é a ponta do iceberg. Só no estado de São Paulo, o governo abriu mão de R$ 1,2 bilhão em 2015. Então, para chegar mais perto da realidade, a estimativa do TCU deveria ser multiplicada pelo menos por três, já que há outros grandes consumidores estaduais, como Mato Grosso, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Além disso, agrotóxicos são considerados insumos agrícolas e, nessa condição, a despesa é abatida integralmente na declaração de rendimentos do imposto de renda pessoa física (IRPF) e pessoa jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL)”, disse o defensor público Marcelo Novaes, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo em Santo André, no ABC paulista, e integrante do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos.

“Importante lembrar que além da carga de tributos federais baixíssima, é enorme a desoneração de ICMS. Uma perda tributária absurda em razão da integral dedutibilidade nos impostos sobre a renda. Uma desoneração sem nenhuma seletividade. Produtos mais perigosos à saúde têm tratamento tributário idêntico ao menos agressivo.”

Os R$ 9 bilhões estimados da renúncia fiscal correspondem à receita que municípios como Macaé (RJ) levam quatro anos para arrecadar. Com 244 mil habitantes, tem em seu território empresas da cadeia do petróleo. O montante é suficiente para adquirir 130 mil unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida em Curitiba.

Pacote do Veneno

A concessão de benefícios tributários à indústria dos agrotóxicos foi um dos principais temas discutidos em seminário realizado ao longo desta sexta-feira (29) no Sindicato dos Químicos de São Paulo. Realizado pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, o encontro integra a agenda de fortalecimento da articulação dos movimentos sociais para a resistência ao avanço de políticas que pretendem ampliar o uso de agrotóxicos no país.

Na segunda-feira (25), o Pacote do Veneno foi aprovado em comissão especial da Câmara. Agora está nas mãos do presidente da casa, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que deverá estudar o momento mais estratégico para colocar em votação.

“Vivemos uma conjuntura difícil, e os trabalhadores são a parte mais frágil, os que vão sofrer mais com mais agrotóxicos. Aqueles que vivem na cidade e, principalmente, os que vivem no meio rural. Vamos fortalecer a nossa rede”, disse a agrônoma Carla Bueno, da coordenação da Campanha Permanente.

O apoio ao Projeto de Lei 6.670/2016, que estabelece a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pnara), é outra frente de combate ao avanço Pacote do Veneno. A comissão especial já está instalada. O presidente é o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) e o relator, Nilto Tatto (PT-SP).  

Participaram ainda da mesa de debates Kelli Mafort, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), a pesquisadora e professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi, autora do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, e Susana Prizendt, coordenadora da campanha contra os agrotóxicos no estado de São Paulo. Na plateia, estiveram agricultores, ativistas, estudantes, cozinheiros, professores e parlamentares.

FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2018/06/renuncia-fiscal-com-agrotoxicos-e-de-r-9-bilhoes-no-brasil-segundo-tcu

Pacote do Veneno é aprovado com portas fechadas e flagrantes de descaso completo

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O dia de ontem ficará marcado como aquele onde os interesses de latifundiários e fabricantes de sementes geneticamente modificadas e agrotóxicos foram colocados acima da saúde de ecossistemas e da população brasileira.  

É que sob a desculpa de modernizar a legislação que controla a liberação e comercialização de agrotóxicos, o Pacote do Veneno irá permitir a aceleração da entrada de novas substâncias e a permanência de outras que já foram banidas em diversas partes do mundo, a começar pelo  herbicida Paraquat que se encontra proibido até na China desde 2016 [1 & 2].

Essa aprovação do Pacote do Veneno não é nenhuma surpresa, já que a bancada ruralista e os fabricantes de sementes e agrotóxicos possuem nela uma maioria folgada. Aliás, foi apenas pela forte pressão exercida por diversos setores da sociedade e da comunidade científica que a aprovação não foi mais rápida.

Entretanto, uma matéria assinada pelo jornalista Bruno Góes e publicada pelo jornal “O GLOBO” com esclarecedor título “Deputados ‘trocam’ debate sobre agrotóxicos por foto de mulher seminua e futebol” deixa claro o nível de descaso com a bancada do veneno tratou esse debate. É que entre escolher a preocupação que o aumento do comércio de agrotóxicos causará no Brasil, os excelentíssimos deputados escolheram visualizar imagens de mulher seminua e de partida de futebol [3].

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Que a atual composição da Câmara de Deputados é bisonha já é sabido, incluindo casos revelados de envolvimento com prostituição, corrupção, comércio ilegal de drogas, e outros “quetais”. Agora, o que se esperaria seria um mínimo de decoro ao tratar do problema tão grave. Mas, convenhamos, dada a ficha pregressa desses parlamentares, até o decoro mínimo é demais.

Mas já que inexiste no parlamento brasileiro uma maioria preocupada com os efeitos do Pacote Veneno, o combate para evitar a sua aplicação não deve esmorecer, muito pelo contrário. É que já existem evidências científicas suficientes para reconhecermos o risco colocado pelos agrotóxicos, e ficar inerte frente a este descalabro não é uma opção para os que sabem o que está efetivamente em jogo.

Finalmente, venho alertando faz algum tempo que todas as medidas regressivas que estão sendo impostas pelo governo “de facto” de Michel Temer ainda vão colocar o Brasil numa posição de pária ambiental, o que causará o banimento da produção agrícola ancorada no uso intensivo de agrotóxicos pelos principais parceiros comerciais do nosso país. É que apesar de fazer lobby para nos empurrar mais venenos para o mercado brasileiro, muitos dos países que sediam os principais fabricantes de agrotóxicos não vão querer consumir comida contaminada. Simples assim!


[1] https://sfagro.uol.com.br/anvisa-herbicida-paraquat/

[2] https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/campo-e-lavoura/noticia/2016/07/paraquat-liberado-no-brasil-e-proibido-na-china-maior-produtor-mundial-6707115.html

[3] https://oglobo.globo.com/sociedade/deputados-trocam-debate-sobre-agrotoxicos-por-foto-de-mulher-seminua-futebol-22820771#ixzz5JXZsuQ1U

Pacote do Veneno: o mito do uso seguro como a maior das fake news

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Na foto  da direita, agricultor asperge agrotóxico sem a proteção de luvas, óculos ou máscara. No detalhe, gotas do produto espraiam-se em direção a sua mão

Ainda refletindo sobre a tentativa da bancada ruralista de vestir um véu de sanidade sobre o chamado “projeto do veneno” a partir de questionamentos sobre os fundamentos científicos já estabelecidos sobre o uso de agrotóxicos, incluindo os proibidos em outras partes do mundo, estou revisitando um artigo científico do qual sou um dos coautores e que foi publicado no já longínquo ano de 2012 pela revista Crop Protection que é um veículo respeitado na comunidade científica.

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Pois bem,um dos aspecto que estudamos foi o nível de entendimento dos agricultores sobre os pictogramas que são colocados para orientar os usuários de um dado agrotóxicos sobre os procedimentos que devem ser adotadas para evitar acidentes graves durante o manuseio e uso destas substâncias. E o que encontramos foi a maioria dos pictogramas não são tem seu significado entendido pelos usuários, desmentindo a premissa publicizada pelos fabricantes que aponta justamente o contrário.

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Até o símbolo da caveira que os defensores do “Pacote do Veneno” querem banir dos rótulos dos agrotóxicos teve apenas 52,5% de identificação correta pelos agricultores. Mas o pior desempenho nos pictogramas usados ficou em níveis ainda piores para o uso de máscaras de proteção e para o do uso da dosagem recomendada de agrotóxicos granulados,  3,3% e 9,8%, respectivamente.

Outro aspecto bastante complicado que identificamos em nosso estudo foi o fato de que os agricultores não usavam os agrotóxicos para atingir as culturas para as quais haviam sido aprovados pelos órgãos reguladores.

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Este tipo de desvio de finalidade estava associado à uma dupla necessidade: evitar o desperdício de produtos em que os agricultores gastam quantias relativamente altas e aproveitar o tempo que eles dedicam ao trabalho com o manuseio e aplicação de agrotóxicos.  

Uma questão que deriva desta descoberta específica do nosso trabalho se refere ao fato de que o uso para culturas agrícolas distintas para os quais um agrotóxico foi autorizado pode ser não apenas ineficientes do ponto de vista da proteção desejada contra pragas, mas também indutora de problemas de contaminação ambiental e da produção agrícola obtida.

Mas uma descoberta específica deste trabalho foi bastante significativa e, coincidentemente, está no cerne no debate em curso no congresso nacional neste momento. É que muitos dos 24 agrotóxicos que eram utilizados corriqueiramente (e, aliás, continuam sendo usados na nossa área de estudo),  16 estavam banidos em outras partes do mundo, incluindo nos Estados Unidos da América e na União Europeia. Em outras palavras, 67% dos agrotóxicos da nossa amostra estavam proibidos em países com padrões de controle melhores ou iguais ao do Brasil.

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Em suma, o que esse estudo mostrou a partida de procedimentos que foram submetidos ao chamado processo de “peer review” por uma revista científica qualificada é que pictogramas não são tão esclarecedores quanto a indústria diz ser, que os agricultores não seguem necessariamente o que determina a bula dos agrotóxicos determina, e que no Brasil são comercializados agrotóxicos que já foram banidos em outras partes do mundo.

Aqui não se trata de disseminar posturas ideológicas ou apelar para “fake news” para disseminar uma visão antagônica em relação aos agrotóxicos. O que fizemos neste trabalho foi documentar as formas reais pelos quais um conjunto de substâncias altamente tóxicas são utilizadas cotidianamente por agricultores brasileiros.

É em função das descobertas deste trabalho que considero irresponsável a tentativa de afrouxar as regras de liberação e comercialização de agrotóxicos, apenas para aumentar a taxa de lucros de vendedores de venenos agrícolas e dos membros do latifúndio agro-exportador brasileiro.

Finalmente, quando alguém vier falar em uso seguro de agrotóxicos, desconfie sempre. É que isto além de ser um mito, também é fake news.

 

Pega na mentira! Os defensores do Pacote do Veneno espalham inverdades para atacar fatos

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Sob pressão para aprovar um projeto de lei que colocará o Brasil como uma espécie do “paraíso dos agrotóxicos banidos no resto do mundo” (também conhecido como projeto do veneno), a bancada ruralista e seus aliados na indústria química resolveram fazer algo que se tornou bastante comum: contrataram um marqueteiro acostumado a dourar a pílula em campanhas eleitorais para nos fazer engolir a ideia de que agrotóxicos não são tóxicos e nem representam grave ameaça à saúde de ecossistemas naturais e à nossa.  

Falo aqui da contratação pela Confederação Nacional da Agricultura (leia-se confederação dos latifundiários brasileiros) do “publicitário” Nizan Guanaes que prontamente colocou em xeque a denominação dos agrotóxicos por, provavelmente, revelar que os produtos sob este rótulo são tóxicos [1]. 

E tudo indica que Nizan Guanaes e seu pessoal já começaram a fazer valer o contrato, pois já circula pela internet uma versão editada de um vídeo produzido com artistas globais e outras personalidades do mundo cultural brasileiro para denunciar o perigo dos agrotóxicos, acusando que o material seria “fake news”, e apresentando contra-argumentos que ou são totalmente falsos ou de autenticidade discutível (ver vídeo abaixo).

Por exemplo, o vídeo apresenta o contra-argumento de que existem países que usam mais agrotóxicos por unidade produtiva que o Brasil, o que pode ser verdade já que os países citados possuem extensões de terras agriculturáveis muito menores do que as do Brasil como é o caso do Japão e da Alemanha. Mas isto está sendo dito para ocultar um dado irrefutável: o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de agrotóxicos desde 2008, superando o volume consumido até pelos EUA que foi o país a tornar o uso deste tipo de substância uma espécie de mantra da agricultura contemporânea.

Também é apresentado o contra-argumento de que é uma mentira que todo cidadão brasileiro está consumindo agrotóxicos derivados da produção agrícola.  A verdade é que hoje o cidadão brasileiro está não apenas comendo, mas também está bebendo agrotóxicos [2]. E este fato já está largamente comprovado por inúmeros estudos científicos que demonstraram a presença de resíduos de agrotóxicos, seja do princípio ativo aprovado para venda ou de subprodutos que são ainda mais tóxicos e perigosos, em alimentos e água consumida pela nossa população. 

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O vídeo ainda traz o contra-argumento de que o projeto do veneno  servirá para acelerar a velocidade de agrotóxicos mais modernos e que resultarão na diminuição do uso dos agrotóxicos.  A primeira coisa a se dizer é que esta suposta aprovação se dará com a retirada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e do IBAMA do processo de análise de agrotóxicos que poderão ser comercializados no Brasil, ficando o processo de avaliação restrito ao Ministério da Agricultura onde, claro, predominam os interesses dos grandes latifundiários e dos fabricantes de agrotóxicos.

A segunda coisa é que atualmente o Brasil já consume uma quantidade significativa de agrotóxicos que já foram banidos nos países membros da União Europeia, EUA e até na China. Com essa suposta aceleração, o que se está querendo não é apenas manter a venda destes agrotóxicos banidos no resto do mundo, mas como também autorizar a venda de outros que também já proibidos fora do Brasil. Um caso muito provável de agrotóxicos que serão autorizados são vários neonicotinóides que acabaram de ser proibidos pela União Europeia por causa da morte de abelhas e pássaros, para os quais os fabricantes vão ter que garantir mercados até que sejam definitivamente proibidos em todo o mundo.

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Mas o que pode ser chamado de o “rei dos contra-argumentos”  que é aquele que indica que sem o uso de agrotóxicos haverá uma queda na produção de alimentos e, consequentemente,  o aumento da fome no Brasil. A verdade é que a maior parte da produção associada ao uso intensivo de agrotóxicos não se destina ao consumo interno ou, tampouco, para matar a fome de habitantes de outros países. O caso da monocultura da soja é apenas o mais emblemático já que parte significativa do montante exportado acaba sendo usado na alimentação de animais. 

A verdade é que a indústria química que produz os agrotóxicos já está realizando uma espécie de sucessão nas substâncias que são utilizadas nos sistemas agrícolas associados aos modelos da Revolução Verde [3], e brevemente teremos uma predominância do chamado controle biológico de pragas [4]. E até por esse fato, o que está ocorrendo é uma espécie de corrida final para vender agrotóxicos nos países da periferia capitalista, de forma a maximizar os lucros com substâncias que saíram do mercado.

Em suma, o conjunto de contra-argumentos apresentado no vídeo para fazer frente às supostas fake news contidas no vídeo produzido para denunciar o projeto de veneno é que traz informações se não falsas são distorcidas. Ao fazer isto, os produtores da versão adulterada do vídeo original nada mais fazem do politizar e partidarizar a discussão sobre o que está contido no pacote do veneno.  Algo mais fake news do que isso, impossível. Mas vindo da bancada ruralista daria para termos algo diferente? Me parece que não. Por isso, que ninguém se deixe enganar: agrotóxicos são perigosos e fazem mal à nossa saúde e vem contribuindo para uma espécie de apocalipse ecológico que poderá nos levar a um mundo onde comer e beber água se tornarão atividades de alto risco.


[1] https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2018/06/20/em-meio-a-polemica-dos-agrotoxicos-ruralistas-contratam-publicitario-nizan-guanaes-para-trabalhar-imagem-do-setor.ghtml

[2] http://www.mst.org.br/2018/03/20/uso-intenso-de-agrotoxicos-contamina-aguas.html

[3] https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/a-revolucao-verde.htm

[4] https://www.embrapa.br/tema-controle-biologico/sobre-o-tema

Pacote do Veneno deve ser votado nesta terça-feira (19)

Após participar de evento com setor de agrotóxicos nessa quinta (14), presidenta da comissão especial, deputada Tereza Cristina (DEM-MS), decide recolocar tema em votação. Se aprovado, vai a plenário

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Mais de 200 entidades e órgãos de saúde e meio ambiente se manifestaram contra a aprovação do ‘Pacote do Veneno’

Por Cida de Oliveira, da Rede Brasil Atual

São Paulo – A presidenta da comissão especial que analisa o Projeto de Lei 6.299/02 e demais projetos apensados, que revogam a atual Lei dos Agrotóxicos, marcou para esta terça-feira (19) reunião deliberativa ordinária. Há expectativa de que deputados da bancada ruralista, ampla maioria dentro do colegiado, sustentem manobras para colocar em votação o substitutivo do também ruralista Luiz Nishimori (PR-PR). O relatório foi retirado de votação em 26 de maio, em meio a forte pressão da sociedade e autoridades de saúde e meio ambiente, entre outras.

O agendamento foi decidido nessa quinta-feira (14), mesmo dia em que a deputada participou de evento realizado pela indústria dos agrotóxicos e de sementes geneticamente modificadas, em São Paulo. Além dela, participou o professor da Unesp de Botucatu e integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Edivaldo Domingues Velini. A CTNBio é o órgão que libera os transgênicos no Brasil – a maioria deles produzidos pelas mesmas empresas que fabricam agrotóxicos, diretamente interessadas no Pacote rejeitado pela sociedade brasileira.

Ainda na quinta-feira, por meio das redes sociais, Tereza Cristina afirmou que, “por acreditar que o PL melhora as condições de produção de alimentos no Brasil, aumentando a segurança para todos, apoiamos o projeto e vamos prosseguir a discussão do tema”.

Segundo postou, “o substitutivo do PL dos defensivos agrícolas foi aprimorado a partir de debates públicos realizados ao longo dos 2 anos em que esteve em discussão na Comissão Especial.” A parlamentar preside também a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA). 

Resistência

A pressão da sociedade, que subscreveu abaixo-assinados e se mobilizou pelas redes por meio da plataforma #ChegaDeAgrotóxicos, foi reverberada por mais de 200 notas técnicas e pareceres de órgãos e entidades, entre eles o Conselho Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Conselho Nacional de Direitos Humanos, Anvisa, Ibama, Fiocruz, Ministério Público Federal e do Trabalho.

Na ocasião, Nishimori anunciou mudanças em seu relatório. O substitutivo que incorpora os principais pontos dos projetos que visam afrouxar as regras para facilitar o registro, fabricação, comercialização, transporte e uso desses produtos, desprezou todas as contribuições de setores ligados à saúde e ao meio ambiente.

FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2018/06/Pacote-do-Veneno-deve-ser-votado-nesta-terca-feira-%2819%29

Usinas, bancos, agrotóxicos, tabaco e armas financiam a ‘bancada do veneno’

Saiba quais são as empresas por trás das campanhas eleitorais dos políticos que querem mudar as regras para facilitar o registro, produção, venda e uso de agrotóxicos. População rejeita mudanças

por Cida de Oliveira, da RBA 

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A sociedade brasileira não quer mais agrotóxicos, mas a comissão especial corre para aprovar o substitutivo que tem como objetivo ampliar as vendas desses produtos

São Paulo – Produtores de cana de açúcar, eucalipto, tabaco, amianto, usinas de todos os tamanhos, indústrias químicas, de alimentos, celulose e de armas, pecuaristas, bancos e seguros de saúde. Esses setores, que dependem dos agrotóxicos em seus sistemas de produção, que os fabricam, que os vendem ou que pretendem ampliar a participação no agronegócio como um todo, estão entre os maiores financiadores de campanha dos deputados que defendem a aprovação do Pacote do Veneno.

A informação, com todos os números e cifras, é do Mapa do Impeachment,  criado por voluntários do movimento político de direita Vem Pra Rua. A ideia era munir o setor conservador da sociedade de informações capazes de facilitar a pressão sobre os parlamentares para votarem pela derrubada da presidenta eleita Dilma Rousseff.

No entanto, a ferramenta online possibilita o acesso a informações geralmente difíceis de ser obtidas; um banco de dados que reúne no mesmo lugar informações detalhadas sobre os políticos, como os assinantes de cheques de suas campanhas, os bens declarados e o resumo do seu histórico no serviço público.

Sem contar que os dados do Mapa colocam em dúvida o simples acaso no fato de que esses políticos sejam maioria na comissão especial formada para analisar o Projeto de Lei 6.299/02 e outros 26 apensados – daí o apelido do “pacote”, que se popularizou. E mesmo de uma possível coincidência de ocuparem a mesa diretora e a relatoria do colegiado, impondo celeridade na tramitação que atropela a sociedade e ignora as advertências de autoridades de saúde, meio ambiente e direitos humanos. Pela agenda, o pacote deverá ser votado no próximo dia 29.

Dos 50 integrantes da comissão, 37 são vinculados ao agronegócio. E quatro deles estão na mesa diretora: a presidenta Tereza Cristina (DEM-MS), o relator Luiz Nishimori (PR-PR) e os dois primeiros vice-presidentes, Valdir Colatto (MDB-SC) e Raimundo Gomes de Matos (PSDB-CE). Coincidência ou não, os três primeiros dirigem também a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Com veemência e sem argumentos sólidos, esses políticos defendem a aprovação de um substitutivo que praticamente revoga a atual Lei dos Agrotóxicos. Em resumo, afrouxa, ainda mais, o registro, fabricação, comercialização e uso desses produtos para aumentar as vendas no país que já é o maior mercado consumidor há anos.

Nome aos bois

Antiga Cosan, a Raízen é a maior produtora individual de açúcar e de etanol do país. Produz o biocombustível distribuído nos postos Shell de todo o Brasil. Apesar da grandeza e importância, a companhia já foi condenada pelo Ministério Público do Trabalho porque seus trabalhadores nos canaviais eram expostos aos agrotóxicos sem a devida proteção. Um trabalho insalubre e inseguro. O MPT chegou a cobrar treinamento e vestimentas adequadas para os trabalhadores desta que é uma das grandes financiadoras da campanha da deputada Teresa Cristina, conforme dados do Vem pra Rua.

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Maior petroquímica da América Latina, a Braskem tem entre seus produtos o chamado plástico verde, obtido da cana. A monocultura é a segunda que maior consumidora de agrotóxicos no Brasil.

A lista de Tereza traz ainda a Fibria. Maior produtora global de celulose de eucalipto, a empresa tem capacidade produtiva de 7,25 milhões de toneladas de celulose por ano em suas unidades de Aracruz (ES), Jacareí (SP), Três Lagoas (MS) e Eunápolis (BA). Ao todo, são 1,056 milhão de hectares de florestas, sendo 633 mil hectares cultivadas com eucalipto.

O “avião amarelo” da pulverização aérea de agrotóxicos da empresa é antigo conhecido de comunidades quilombolas do norte do Espírito Santo, que têm suas pequenas lavouras e casas atingidas pela chuva de veneno. Segundo moradores, morre de tudo: a pimenta-do-reino, a mandioca, as galinhas, as aves e as tilápias criadas em uma represa no Córrego Angelim. 

Doador da maioria dos candidatos, a JBS também contribuiu com a parlamentar. Mas os irmãos Joesley e Wesley Batista têm uma guerra judicial travada por causa de um calote de R$ 4,5 milhões que ela teria dado na J & F Investimentos. De acordo com o blog O Jacaré, os três teriam fechado um negócio quando ela era secretária estadual de Produção do MS. E teria usado a mãe para garantir o faturamento de aproximadamente R$ 1 milhão por ano.

A transação nebulosa, que teria ido parar nos tribunais de Campo Grande envolveria o confinamento de gado montado na Fazenda Santa Eliza, em Terenos, a 23 quilômetros da capital sul-mato-grossense.

E ainda conforme o Mapa do Impeachment, outro destaque nas contas da deputada é a participação do Banco BTG Pactual, que tem entre suas plataformas de investimentos fundos e títulos privados como letras de crédito imobiliário e do agronegócio.

Briga de galo

Primeiro vice-presidente da comissão especial, Valdir Colatto é autor de projetos polêmicos, como o PL 6268/2016, que libera a caça de animais silvestres. Defensor da suspensão da lista de animais ameaçados de extinção, ele quer liberar as brigas de galo, tanto que apresentou o PL 3.786/2015. Outra ideia que causou polêmica foi defender o arrendamento das terras indígenas.

Entusiasta do Pacote do Veneno, Colatto recebeu R$ 619.891,00 para o caixa de campanha. O maior financiador é Claides Lazaretti Masutti, da Agropecuária Masutti, do Mato Grosso. A empresária, que tem ainda cinco empresas no setor, foi prefeita da cidade de Campos de Julio (MT), mas teve o mandato cassado por compra de votos. Ele obteve ainda recursos das exportadoras de tabaco e de madeireira.

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Megaempresário tucano

O segundo vice-presidente, Raimundo Gomes de Matos, tem entre seus maiores doadores o senador e megaempresário Tasso Jereissati (PSDB-CE), que fez a reforma trabalhista passar no Senado. O tucano cearense é proprietário de uma rede de shopping center para a classe A, espalhada pelo país, o Iguatemi. A rede financiou outros ruralistas também.

Chama atenção no Mapa outra fonte de recursos: a Nufarm. Tendo em seu portfólio mais de 20 marcas de agrotóxicos produzidos com 16 princípios ativos, entre eles o 2-4,D, a empresa produz agroquímicos para uso em lavouras de soja, algodão, arroz, cana, eucalipto e diversas frutas e hortaliças. 

Em 2009, o fabricante de agrotóxicos perseguiu pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC). A pedido do Ministério Público estadual e da Procuradoria-geral do estado, fizeram análises do nível de contaminação causado pela empresa em Maracanaú. Professora de Saúde Comunitária, a médica Raquel Rigotto foi ameaçada com medidas judiciais, em uma tentativa evidente de coibir a divulgação dos dados científicos que comprometiam a empresa.

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Raposa no galinheiro

Pela lista do Vem pra Rua, dá até a impressão de que o relator do Pacote do Veneno Luiz Nishimori teve uma campanha até certo ponto modesta. O grosso dos recursos veio do próprio partido. O segundo maior financiador é a empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista, seguido por outra gigante do setor de alimentos. No entanto, Nishimori tem outras relações pouco conhecidas com o empresariado. Especialmente do setor de agrotóxicos japonês com atuação global.

Segundo a Câmara do Comércio e Indústria Brasil Japão do Paraná (CCIBJ), em agosto passado Nishimori participou do 20º Comitê de Cooperação Econômica Brasil-Japão, no qual esteve presente Funio Hoshi, do grupo financeiro Sumitomo Mitsui. As relações parecem antigas. No final de 2009, quando o relator ainda era filiado ao PSDB, esteve no Japão em missão econômica. Na agenda, reunião na empresa Mitsui, com o diretor superintendente Takao Omae – que havia presidido a Mitsui no Brasil.

O grupo tem negócios nas áreas de energia, recursos naturais e meio ambiente e agricultura – leia-se agroquímicos e fertilizantes. Filiada ao sindicato dos fabricantes de agrotóxicos, o Sindiveg, a Mitsui tem forte atuação no agronegócio.

Entre outras coisas, é proprietária da Agrícola Xingu, na Bahia. No mês passado, o Ministério Público baiano multou a empresa em R$ 169 mil por armazenar cerca de mil litros de benzoato de emamectina. Comercializado pela Syngenta, o produto foi liberado recentemente pela Anvisa mas tem seu uso controlado porque há fortes suspeitas de causar malformações e ser tóxico ao sistema nervoso.

A companhia japonesa é parceira da alemã Basf, gigante do setor de agrotóxicos e transgênicos, no desenvolvimento de uma nova molécula, o broflanilide. As empresas, que gastam mais de 500 milhões de euros em pesquisas, pretendem lançar o produto até 2.020. Daí a força no lobby sobre parlamentares.

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Em fevereiro passado, Nishimori foi aceito como réu pelo Supremo Tribunal Federal pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Autora da denúncia, a Procuradoria-Geral da República (PGR) sustenta que o deputado empregou nove funcionários fantasmas quando era deputado estadual no Paraná, entre os anos de 2003 e 2010, desviando R$ 2,8 milhões.

Outros gigantes

O banco de dados do Vem pra Rua inclui no rol de patrocinadores o atual ministro da Agricultura Blairo Maggi (PP-MT), suas empresas e parentes, que também têm Maggi no sobrenome. Seria coincidência? Quando senador, ele aprovou em 2002 o Projeto de Lei 6.299, que é um dos principais projetos do Pacote e dá nome à comissão especial.

Gigantes do tabaco, como a Philip Morris Brasil e China Brasil Tabacos, que já tiveram entre seus fornecedores fazendeiros que exploram mão de obra análoga à escravidão. O lucro das empresas que financiam a bancada ruralista vêm também da exposição de trabalhadores aos agrotóxicos usando apenas boné, bermuda e chinelo.

Fabricante de outro veneno cancerígeno, o amianto, a Eternit também marca presença. Maior produtora de telhas e caixas d’água do país a partir dessa matéria prima, a empresa teve em novembro passado reajustado o valor de indenização relativa a uma condenação por danos morais. O Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região do Rio de Janeiro elevou para R$ 50 milhões o valor original, de R$ 30 milhões. Em agosto, a Eternit havia sido condenada, em primeira instância, a pagar R$ 500 milhões por danos morais coletivos por expor pessoas ao amianto na mina de São Felix, em Minas Gerais, por meio de sua subsidiária Mineração Associados (SAMA).

Patrocinadora da bancada da bala, a fabricante de pistolas, revólveres e armas longas para uso particular e das forças armadas, a Forjaria Taurus também participa do financiamento de campanha dos defensores do Pacote do Veneno.  

A lista, imensa, inclui outros bancos privados, como Bradesco e Itaú, que buscam aumentar participação no agronegócio historicamente ocupado pelo Banco do Brasil. A perspectiva é de trazer para sua carteira clientes que desenvolvem atividades lucrativas.

Empresas processadoras de carne, que no Brasil dependem de pasto, que por sua vez são tratados com venenos agrícolas, também assinam polpudos cheques.

Confira algumas das empresas que financiaram campanhas dos principais integrantes da “Bancada do Veneno”:

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FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2018/05/usinas-bancos-agrotoxicos-tabaco-armas-e-amianto-financiam-bancada-do-veneno

 

O “Pacote do Veneno” é outra reafirmação da transformação do Brasil na latrina ambiental do planeta

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Acabo de ler que a votação do chamado “Pacote do Veneno” que está sendo capitaneado pelo deputado Luiz Nishimori (PR do Paraná) acaba de ser adiada, provavelmente para que a bancada ruralista use do seu prestígio para conseguir transformar para muito pior a já frágil legislação que controla a liberação e venda de agrotóxicos no Brasil [1].

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Como venho estudando a questão dos agrotóxicos há pelo menos 15 anos vejo como muita preocupação a inércia de segmentos políticos que deveriam, independente do seu viés ideológico, ser mais atuantes para impedir o aprofundamento da tendência do Brasil de ser a latrina ambiental do planeta. É que, acima de tudo, a indústria química já está preparando uma mudança mercadológica que irá aposentar os agrotóxicos das estratégias de manejo e controle que fazem parte do pacote tecnológico da chamada Revolução Verde.

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Como sempre ocorre no sistema capitalista, essa aposentadoria se dará desde o centro até a periferia mais extrema. Não é à toa que a União Européia já possui protocolos bastante restritivos em termos de quais agrotóxicos podem ser utilizados nos seus países membros. A recente decisão de proibir a utilização de agrotóxicos neonicotinóides que vem exterminando as populações de abelhas e pássaros no continente europeu apenas reafirma uma tendência de remover essas substâncias da agricultura européia [2]. 

People protest ahead of the historic EU vote on a full neonic-ban at Place Schuman in Brussels, Belgium.

O problema é que a evolução das estratégias no centro do Capitalismo acaba gerando uma sobra de produtos que precisa ser despejada na periferia até que eventualmente a eliminação seja total. Nesse quadro é que personagens que claramente representam os interesses do latifúndio agro-exportador apareçam para jogar um papel de suporte aos interesses das corporações multinacionais que produzem esses venenos agrícolas, sob a desculpa de beneficiar a agricultura brasileira. E esse é exatamente o caso dos membros da bancada ruralista tendo a frente o deputado Luiz Nishimori.

Quem se informar minimamente sobre a posição do Brasil no mercado consumidor mundial de agrotóxicos verá que o nosso país ocupa desde 2008 a insólita posição de campeão no consumo dessas substâncias, ultrapassando até os EUA  que por décadas foram os líderes desse ranking macabro. E aqui nenhuma surpresa, pois também nos EUA o “faseamento” dos agrotóxicos está em curso, ainda que num ritmo mais lento do que o dos países europeus. O que a maioria dos brasileiros não sabe é que hoje a imensa maioria da água consumida no Brasil já contém traços de agrotóxicos, sendo componentes cada vez mais significativos dos chamados “micro poluentes emergentes” [3]. 

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Mas afora ser o campeão mundial no consumo de agrotóxicos, o Brasil também vem se tornando uma espécie de desaguadouro para produtos que já foram banidos em outras partes do mundo e o destino de agrotóxicos falsificados que, na verdade, são formulações químicas que são transformadas em produtos comerciais sem que se saiba a sua composição e origem de fabricação. Em outras palavras, o caso dos agrotóxicos no Brasil é mais um daqueles muitos exemplos de como o lucro de poucos é colocado acima da segurança da imensa maioria.

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A dificuldade que encontramos é explicar com clareza para a maioria da população que comer comida envenenada por todo tipo de substância química é algo que não poderia ser aceitado de forma passiva.  Um problema adicional é que nem sempre quem passa fome, ou tem dificuldade de comprar comida por penúria financeira, está disposta a ouvir este tipo de ponderação. E em meio a isso, espertalhões como o deputado Luiz Nishimori acabam encontrando um campo aberto para aumentar ainda mais seus lucros às custas da saúde da maioria e do extermínio da biodiversidade.

No que pode ser uma forma de “justiça póetica” que ninguém se surpreenda se daqui algum tempo, itens importantes da pauta de exportações agrícolas brasileiras for banida do comércio mundial, exatamente por conterem níveis inaceitáveis de agrotóxicos em sua composição. É que uma das principais leis informais do Capitalismo é que se um determinado país aceita ser transformado em latrina, seus produtos acabam sendo rejeitados nos principais mercados. O problema é que até que isso aconteça, vamos ser envenenados de forma totalmente descontrolada e, pior, sob o amparo da legislação proposta por Luiz Nishimori e seus colegas da bancada ruralista.


[1] https://www.portalviu.com.br/meio-ambiente/adiada-votacao-do-pacote-de-veneno/

[2] https://www.theguardian.com/environment/2018/apr/27/eu-agrees-total-ban-on-bee-harming-pesticides

[3] https://aplicacao.mpmg.mp.br/xmlui/handle/123456789/1239