A corrida do ouro na Amazônia alimenta o comércio ilegal de mercúrio

Uma mina de ouro ilegal no departamento de Madre de Dios, no sudeste do Peru, fotografada em maio de 2024.

Uma mina de ouro ilegal no departamento de Madre de Dios, no sudeste do Peru, fotografada em maio de 2024. Foto: AFP/Ernesto Benavides
Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Em junho passado, autoridades aduaneiras peruanas descobriram quatro toneladas de mercúrio contrabandeado do México em um navio cargueiro com destino à Bolívia. Foi o maior carregamento do metal líquido prateado, altamente tóxico, já apreendido em uma região amazônica. E, no entanto, foi apenas uma gota no oceano. Desencadeada pelos altos preços dos metais preciosos, a região amazônica vem vivenciando uma corrida do ouro transfronteiriça há duas décadas, o que também multiplicou o comércio e o contrabando de mercúrio. Garimpeiros legais e ilegais usam o metal pesado para reter partículas finas de ouro dos sedimentos dos rios. Grandes quantidades do metal pesado, considerado uma neurotoxina, são liberadas no meio ambiente durante esse tipo de extração de ouro e poluem o ar, o solo e os cursos d’água.

Um estudo realizado por uma equipe internacional de cientistas, publicado em julho passado na revista médica Annals of Global Health, mostra concentrações alarmantemente altas de mercúrio tanto em peixes quanto na população local, com graves consequências para a saúde nas regiões amazônicas do Brasil, Colômbia e Peru afetadas pela mineração de ouro.

Os pesquisadores descrevem a contaminação por mercúrio como “cada vez mais preocupante”, especialmente para os povos indígenas. Eles encontraram os maiores níveis de exposição associados a efeitos na saúde entre os indígenas do Parque Nacional Yaigojé Apaporis, na Colômbia, na fronteira com o Brasil. Esses indígenas apresentaram níveis médios de mercúrio no cabelo de 23 µg/g, bem acima do limite de apenas 1 µg/g estabelecido pelo Conselho Nacional de Pesquisa Científica dos Estados Unidos.

Há “uma ação política urgente necessária, especialmente porque a poluição por mercúrio é impulsionada pela demanda global por ouro — um metal com uso prático limitado, cuja função principal é acumular riqueza em bancos e cofres. Ecossistemas inteiros e populações indígenas estão sendo sacrificados por uma mercadoria que não traz nenhum benefício significativo à humanidade.”

De acordo com um relatório recente da organização não governamental Agência de Investigação Ambiental (EIA), mais de 200 toneladas de mercúrio foram contrabandeadas de minas mexicanas para a Bolívia, Colômbia e Peru entre abril de 2019 e junho de 2025. A EIA estima que essa quantidade de mercúrio foi usada para extrair ouro “ilegal” no valor de pelo menos US$ 8 bilhões na Amazônia. Devido ao aumento contínuo do preço do ouro, o preço do mercúrio atingiu um novo recorde de US$ 330 por quilo este ano, desencadeando uma nova “febre do mercúrio” no México.

Grandes quantidades da neurotoxina entram no ambiente.

Segundo dados oficiais do México, entre 2009 e 2021, o país exportou um total de 740 toneladas de mercúrio, principalmente para mineração de ouro, para a Bolívia, 429 toneladas para o Peru e 466 toneladas para a Colômbia. Contrabandistas também transportam mercúrio desses países para garimpos legais e ilegais no Brasil.

O Instituto Escolas, em São Paulo, também atesta um crescente contrabando de mercúrio na região amazônica, principalmente da Bolívia para o Brasil. Segundo um estudo publicado pelo instituto em 2024, somente as minas de ouro legalizadas, ou seja, com permissão do Estado, produziram cerca de 127 toneladas do metal precioso entre 2018 e 2022. Os garimpeiros consumiram entre 165 e 254 toneladas de mercúrio. No entanto, o Brasil importou oficialmente apenas 68,7 toneladas nesse período. Isso mostra que entre 96 e 185 toneladas de mercúrio podem ter sido de origem ilegal.

A mudança para o mercúrio contrabandeado pode ser explicada pelo fato de ele custar apenas metade do preço do mercúrio comercializado legalmente. Além disso, não exige a aprovação trabalhosa do órgão ambiental.

Outro sinal claro do aumento do contrabando de mercúrio é o aumento drástico das exportações de ouro e da área de mineração no Brasil nas últimas duas décadas, aliado a um declínio simultâneo nas importações oficiais de mercúrio. Entre 2002 e 2022, as exportações “legais” de ouro brasileiro aumentaram de 35 toneladas para 96 ​​toneladas por ano, e a área total de minas de ouro legais na Amazônia aumentou de 68.000 hectares para 224.000 hectares.

Além disso, a mineração ilegal de ouro em áreas protegidas e reservas indígenas na Amazônia brasileira aumentou drasticamente. Segundo dados da rede científica MapBiomas, a área total de mineração ilegal de ouro aumentou de aproximadamente 4.000 hectares para 36.000 hectares entre 2000 e 2022. As importações oficiais de mercúrio, no entanto, caíram de 67 toneladas para 15 toneladas por ano.

Durante esse período, a Bolívia se tornou o maior importador de mercúrio da América do Sul. Entre 2018 e 2022, o vizinho do Brasil importou 723 toneladas de mercúrio, principalmente do México, Rússia e Tajiquistão, enquanto exportou apenas 196 toneladas de ouro. “A Bolívia importou cerca de dez vezes mais mercúrio do que o Brasil, mas produziu apenas 1,5 vez mais ouro”, segundo o estudo de Escolas. Portanto, é altamente provável que a maior parte do mercúrio “boliviano” tenha entrado ilegalmente no Brasil.

Convenção Internacional de Minamata de 2013 sobre a Redução do Uso de Mercúrio e Emissões Perigosas permite a produção do metal até 2032.

Em seu relatório, no entanto, a EIA pede o fechamento imediato das minas no México: “O mercúrio deve ser tratado como o que é: um catalisador altamente tóxico para crimes relacionados, como violações de direitos humanos, tráfico de armas, tráfico de drogas e mineração ilegal de ouro”. A produção contínua de mercúrio no México até 2032 terá consequências mortais a longo prazo por gerações.

Mas mesmo a proibição do mercúrio mexicano provavelmente só mudará as rotas de contrabando. O maior produtor mundial de mercúrio é a China, seguida pelo Tajiquistão, que ainda não assinou a Convenção de Minamata.


Fonte: Neues Deutschland