Descaso no Pantanal e Amazônia ameaça negócios do Brasil enquanto Governo se isenta de responsabilidade

Carta assinada por oito países alerta para dificuldade crescente em manter negócios com o país e empresas de agronegócios se unem a ONGs para cobrar ações contra desmatamento amazônico

onça águaUma onça ferida nos incêndios do Pantanal repousa na beira de um riacho no Parque Nacional Encontro das Águas, no Mato Grosso, que já teve mais de 60% de sua área destruída pelo fogo.MAURO PIMENTEL / AFP

Por Afonso Benites para o El País

Enquanto o Pantanal queima e a Amazônia registra índices de degradação cada vez maiores, o Brasil sofre a ameaça de ficar para escanteio na economia. Além dos alertas já emitidos por fundos de investimentos e bancos brasileiros e da ameaça de que o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul não se conclua, nesta terça (15) o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu uma carta assinada pelos embaixadores de oito países europeus – Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Noruega, Dinamarca e Bélgica. O recado da carta é claro: enquanto a questão do desmatamento e da preservação são foco dos governo e das empresas do continente, o “Brasil está tornando cada vez mais difícil para empresas e investidores atender a seus critérios ambientais, sociais e de governança”.

A pressão internacional se soma a uma inédita reação de mais de 200 organizações, entre ONGs, empresas de agronegócio e do setor financeiro, que enviaram um recado ao Governo nesta terça cobrando medidas para reduzir o desmatamento na Amazônia. “Não somente pelo avanço das perdas socioambientais envolvidas, mas também pela ameaça que a destruição florestal na região impõe às questões econômicas nacionais. Há uma clara e crescente preocupação de diversos setores da sociedade nacional e internacional com o avanço do desmatamento”, diz o texto, assinado pela chamada Coalizão Brasil Clima, Bosques e Agricultura. O grupo colocou lado a lado ONGs como a WWF, as indústrias JBS, Marfrig, além de Basf e Bayer. Entre as propostas do grupo, estão mais transparência nas ações e fiscalização nas florestas.

A pressão, porém, não tem mudado a resposta do Governo Bolsonaro apesar de fatos concretos mostrarem que a gestão está aquém da necessidade. “O comportamento que vemos na crise ambiental é um espelho da postura do governo na pandemia de COVID-19. Ele nega que seja um problema grande, nega a gravidade e alimenta a narrativa por meio de falas que não têm nenhuma substância científica”, diz Rômulo Batista, um dos porta-vozes do Greenpeace.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), responsável pelo Conselho da Amazônia, descarta que o Governo esteja errando, e fala em “seletividade na divulgação dos dados” no que diz respeito ao desmatamento. “Quando o dado é negativo o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga, entendeu?”, acusou o vice em declaração à imprensa na tarde do dia 15. Indagado sobre quem seria essa pessoa, Mourão respondeu: “Não sei, não sou diretor do INPE”. O que o vice-presidente não diz é que os dados são públicos. Basta acessar o site do INPE para saber quase em tempo real quantos focos de calor ocorreram em cada bioma.

Mourão defende que uma das saídas para combater os incêndios é manter os militares em operação constante na floresta até 2022 e decretar uma moratória do fogo, que está em vigor desde julho, uma estratégia que já foi questionada no Supremo Tribunal Federal pelo Partido Verde.

Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.MAURO PIMENTEL / AFP

O vice-presidente e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entraram em uma campanha para desacreditar os discursos de ambientalistas e seus apoiadores. Usando trechos de um vídeo do Greenpeace sem autorização, o vice-presidente diz no Twitter: “De que lado você está? De quem preserva de verdade ou de quem manipula seus sentimentos? O Brasil é o país que mais preserva suas florestas nativas no mundo. Essa é a verdade. Nós cuidamos”. O vídeo foi uma resposta a outra postagem da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Na peça, a organização diz que a “Amazônia é o coração do Brasil. Quem coloca fogo nela é inimigo do país”. Ainda pede que em defesa da Amazônia, o presidente brasileiro deveria deixar de ser financiado.

“Discutimos hoje temas que não deveríamos estar discutindo, que já tinham sido superados. Temos de provar que o fogo existe, que os dados são fatos, e não ideologia. Temos de lutar contra lendas de que o fogo é para subsistência e de que ele foi criminoso, não provocado por um raio”, diz a diretora-adjunta do ICV, Alice Thuault.

A realidade se impõe

Enquanto o governo briga com os fatos, a realidade segue se impondo no Pantanal. A Polícia Federal deflagrou no início desta semana a Operação Matáá, que cumpriu dez mandados de busca e apreensão Mato Grosso do Sul. De acordo com a instituição, investigações apontam que o fogo na região foi provocado deliberadamente para transformar a mata nativa em pastagem para o gado. Além disso, no período atual de seca na região ― que só se encerra em novembro ―, raramente caem raios na pastagem. Por isso, há a clara sinalização de que os incêndios foram causados por interferência humana.

A impunidade aliada à política de Bolsonaro de reduzir o número de infrações são outros fatores que interferem no aumento do fogo. Mesmo com o recorde de queimadas, neste ano houve uma queda de 48% nas infrações aplicadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os dois estados pantaneiros. Dados publicados pela BBC, e confirmados pelo EL PAÍS, mostram que de janeiro a 14 de setembro o Ibama aplicou 223 infrações nos dois Estados neste ano, contra 425 no mesmo período de 2019.

Ao analisar imagens de satélites do INPE e da NASA, o ICV também constatou que até agosto apenas nove pontos eram os responsáveis por 67% dos focos de incêndio em todo o Pantanal mato-grossense. Em cinco deles, é possível apontar que a propriedade onde iniciou o fogo era privada e estava registrada no cadastro ambiental rural (CAR). Ou seja, pode-se saber quem deveria estar preservando essa área e, como não o fez, poderia ser responsabilizado criminalmente. Outros três pontos eram de áreas não cadastradas. E um, em uma terra indígena. “As multas estaduais pagas no Mato Grosso é de mais ou menos 2% da quantidade de multas aplicadas. O ciclo da responsabilização não fecha. É uma impunidade que garante a continuidade dos incêndios ano após ano”, diz Thuault, do ICV.

Devastação

Em 33 dias, os incêndios no Pantanal praticamente dizimaram o Parque Estadual Encontro das Águas, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Imagens de satélite analisadas por técnicos da ONG Instituto Centro de Vida (ICV) mostram que, no dia 9 de agosto, alguns focos de incêndio provinham apenas da parte norte do parque, conhecido ponto de ecoturismo da região. Em 13 de setembro, no entanto, o fogo já vinha de todos os lados, atingindo 85% dos seus 108.000 hectares (veja vídeo abaixo).

As chamas se tornaram rotina diante de uma clara falta de planejamento dos órgãos ambientais, principalmente da esfera federal. A avaliação foi feita ao EL PAÍS por representantes de quatro organizações da sociedade civil que atuam principalmente na área ambiental: ICV, Greenpeace, WWF e Observatório do Clima. Desde o início do ano já se sabia que a região enfrentaria a sua maior seca em quase cinco décadas, que um dos principais rios da região, o Paraguai, teriam seu fluxo diminuído consideravelmente e que a falta de atuação no principal bioma vizinho, o cerrado, teria impacto direto no Pantanal.

Ainda assim, o governo demorou quase três meses para mobilizar os brigadistas e reduziu o orçamento para o combate ao incêndio em até 48%. “Essa situação no Pantanal está se repetindo. Também tivemos uma grande catástrofe. 2019 queimou mais que nos últimos dez anos. Já era um indicativo de que era necessário planejar. Mas nada foi feito”, disse Cássio Bernardino, analista em Conservação do WWF-Brasil.

Análise da ONG Instituto Centro de Vida com base em imagens de satélite apontam que até o dia 13 de setembro de 2020, mais de 92.000 hectares haviam sido atingidos pelo fogo no Parque Estadual Encontro das Águas. Isso representa 85% da área total do parque, que tem 108 mil hectares.ICV

Até o último dia 15, o Pantanal já tinha registrado 15.453 focos de calor, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É o maior índice da série histórica, iniciada em 1998. Mais de 15% de todo o território pantaneiro foi destruído. Na Amazônia, os números também não são nada animadores. No mesmo período, o bioma amazônico superou o total de focos registrados em todo mês de setembro de 2019. Já foram registrados 20.486 focos de incêndio, um crescimento de 86% em relação ao mesmo período do ano passado.

Queda de recursos

Uma das críticas feitas à gestão Salles- Mourão-Bolsonaro é quanto a redução dos recursos de prevenção e de fiscalização ambiental. Os dois principais órgãos federais que atuam nesta área são o Ibama e o ICMBIO. Entre 2019 e 2020, a rubrica controle de fiscalização ambiental do Ibama perdeu quase 35% de seu orçamento (caiu de 102,8 milhões de reais anuais para 66,2 milhões de reais). Já a de prevenção e controle de incêndios florestais teve queda de 16% no mesmo período, caindo de 45,9 milhões de reais anuais para 38,6 milhões. No ICMBIO, a queda proporcional foi maior. A área de fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais perdeu 48,6% de seu orçamento. Eram 37,1 milhões de reais em 2019. Agora, são 19 milhões de reais.

No início de 2019, a mando do presidente Bolsonaro, o ministro Salles desconstituiu o conselho do Fundo Amazônia, que geria recursos internacionais usados na área ambiental de todo país. Seus principais doadores são os governos da Noruega e da Alemanha. Hoje, há 1,5 bilhão de reais congelados em uma conta que não podem ser usados por ninguém porque não há quem administre esses recursos. “Enquanto nos deparamos com cortes no orçamento, temos dinheiro internacional parado que poderia estar sendo usado na prevenção e no combate aos incêndios”, destaca a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo.

A resposta do Governo é investir na militarização do combate aos incêndios. A operação Verde Brasil 2, comandada por Mourão, é a principal delas. Por mês ela custa cerca de 60 milhões de reais e mobiliza cerca de 4.000 militares. “Com dois meses desta operação pagamos os salários de mil fiscais do Ibama por um ano”, diz Araújo. Para ela, o problema não é, necessariamente, a falta de recursos, mas a ausência de vontade política para aplicá-los.

Nesta semana, os Governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul decretaram estado de calamidade e situação de emergência, respectivamente. Por meio desses decretos, é possível facilitar a burocracia para o uso de recursos no combate ao fogo. Para as próxima semanas, contudo, ainda nos depararemos com as chocantes imagens de animais mortos carbonizados.

jacaré mortoUm jacaré morto por causa de incêndio próximo à rodovia Transpantaneira.MAURO PIMENTEL / AFP

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo jornal El País [Aqui!].

Brasil: jacarés, onças-pintadas, ariranhas … Incêndios devastam biodiversidade no Pantanal

O Pantanal, maior área úmida tropical do planeta, vive um desastre ecológico sem precedentes, com danos irreparáveis ​​à biodiversidade. 

Por Hamza Hizzir

“Você sabe que as ONGs não têm voz comigo. Estou firme com essas pessoas, mas não posso matar esse câncer que a maioria das ONGs tem”, disse com certa medida. que o caracteriza, Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil, quinta-feira, 3 de setembro. É porque a raiva está rugindo. Do Greenpeace ao Human Rights Watch, por meio de uma campanha na Internet intitulada “Defundbolsonaro.org”, o ator Leonardo Di Caprio ou mesmo um grupo de fundos de investimento de US $ 4 trilhões: todos exortam o chefe de estado a reagem, enquanto as chamas mais uma vez assolam a Amazônia, e mais particularmente o Pantanal, a maior área úmida tropical do planeta.

Mais de 2,3 milhões de hectares já viraram fumaça desde o início do ano, segundo dados compilados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa-UFRJ). Os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) já identificaram 12.567 incêndios no Pantanal desde janeiro, um total já maior do que todos os anos de 2018 e 2019 juntos. E acima de tudo, o recorde de um ano inteiro (de 12.536 residências), datado de 2005, acaba de ser batido, em menos de nove meses, segundo novos dados atualizados quarta-feira, 9 de setembro.

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Mas, além dos números, é uma verdadeira tragédia que se desenrola neste santuário de biodiversidade com fauna excepcional, localizado no extremo sul da floresta amazônica e que se estende do Brasil ao Paraguai e à Bolívia. . No local, isso resulta em incontáveis ​​cadáveres de ariranhas e jacarés carbonizados, cobrindo um solo deserto com toda a água e vegetação. “Uma vez que o animal anda no chão brilhante, seu corpo queima, e ele não consegue mais se mover” , explica ao TF1, Felipe Coutinho, médico veterinário que, com outros voluntários, percorre essa paisagem infernal para emprestar a mão forte para os bombeiros.

Daniel, dono de um hotel na região, dá o alerta: “Nos mobilizamos com todos os vizinhos. Uma das maiores áreas de biodiversidade do mundo está desaparecendo. E não estamos recebendo nenhuma ajuda. ! ”  O Exército brasileiro foi de fato enviado em agosto para combater os incêndios. Mas é como escavar o oceano com uma colher de chá. Nesta semana, o Parque Natural Encontro das Águas, conhecido por abrigar a maior concentração de onças-pintadas do mundo, foi atingido por chamas … Felipe Coutinho, no entanto, tenta manter a coragem. E esperança: “ É um trabalho árduo. Não podemos salvar toda a região , confidencia. Mas se cada um de nós fizer a sua parte todos os dias.

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Este texto foi originalmente escrito em francês e publicado pelo canal de TV LCI [ Aqui!].

Escrevam o que eu digo: política biocida do governo Bolsonaro ainda vai causar um boicote global às commodities brasileiras

O escritor Paulo Coelho está sob fogo direto dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro por ter publicado (e apagado) um tweet onde ele indicava o boicote às commodities brasileiras por causa do caos ambiental instalado no Brasil pelo governo Bolsonaro (ver reprodução abaixo).

boicote paulo coelho

Eu diria que o problemas brasileiros e um iminente boicote aos produtos brasileiros por causa da destruição das florestas amazônicas e do Pantanal para ampliar as áreas destinadas à pecuária e o plantio de grandes monoculturas, tendo a soja à frente, independe da vontade individual de Paulo Coelho, e se tornou uma questão de tempo até que grandes parceiros comerciais como a União Europeia adotem essa medida.

Se isso realmente acontecer, os principais culpados pelo agravamento da crise econômica e social que um boicote às commodities brasileiras inevitavelmente causará será o próprio governo Bolsonaro e suas práticas biocidas.  As cenas de áreas florestadas queimando e engolindo no caminho aldeias indígenas inteiras (ver cenas abaixo do fogo consumindo o Polo Diauarum na Terra Indígena do Xingu).

A questão do boicote aos produtos brasileiros por causa das políticas anti-ambientais está se movendo rapidamente do terreno do “se vai acontecer” para “quando vai acontecer”. E de nada adiantará Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão, Ricardo Salles e Tereza Cristina se desentendidos quando o boicote começar. Afinal, é esse governo que dá o principal combustível para o boicote acontecer.

Enquanto o Pantanal é consumido pelo fogo, Ricardo Salles faz piada

queimadas

O ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, arranjou tempo hoje para produzir o vídeo abaixo e postá-lo na sua página oficial no Twitter, provavelmente com o propósito de fazer humor (de péssima qualidade) com as críticas que lhe são feitas em função da imposição de sua política de “passa boiada” em um dos principais ministérios em qualquer governo que se pretenda minimamente sério.

O humor canhestro de Salles já seria de gosto duvidoso se pouco acima de sua vídeo em minha linha do tempo no mesmo Twitter, eu não tivesse visualizado o vídeo abaixo que provém do Pantanal, um bioma que neste momento enfrenta um dos piores ciclos de destruição da história, mostrando um rebanho tentando escapar das fortes chamas que encurralam seus membros que fogem de um lado para outro em claro desespero.

Dizer que Ricardo Salles é a pessoa errada no lugar já é um daqueles lugares comuns que marcam a tragédia socioambiental em desenvolvimento no Brasil sob Bolsonaro e seu governo biocida. Mas além de seu vídeo trazer uma piada de mau gosto, o que a postura explicitada por um ministro ainda no exercício do cargo é um desdenhar que, em outros países, levaria não apenas à demissão, mas provavelmente à instauração de um processo criminal por omissão.

Mesmo que o atual contexto político do Brasil não traga qualquer sinal de que Ricardo Salles seja punido por poster esse vídeo já que não foi punido por tantas outras ações durante sua permanência no Ministério do Meio Ambiente, é importante denunciá-lo. É que não há como tolerar tamanha irresponsabilidade frente ao que está acontecendo tanto no Pantanal como na Amazônia como bem demonstra o vídeo abaixo.

Agora me digam, há algum motivo para rir da piada de Ricardo Salles?

O Pantanal em chamas

Mudanças climáticas e agronegócio brasileiro ameaçam maior área alagada do mundo

pantanalNo final de agosto de 2020, a fumaça de um incêndio florestal sobe perto do rio Cuiabá, perto do Pantanal no Brasil.  Foto: Reuters / Amanda Perobelli

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

Este ano, o incêndio está mais forte do que nunca no Pantanal, no oeste do Brasil. O mar de chamas já devorou ​​vários milhares de quilômetros quadrados da maior zona úmida do mundo. A brigada de incêndio e as forças armadas têm lutado até agora contra o incêndio em vão. A área com status de patrimônio natural mundial da Unesco, que realmente requer proteção especial, enfrenta a pior tragédia ambiental de sua história.

De 1º de janeiro a 31 de agosto deste ano, o instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 10.316 focos de incêndio no Pantanal, mais de três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde o início da vigilância por satélite, em 1998, o INPE nunca registrou tantos incêndios nessa região nos primeiros oito meses do ano. No final de abril, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados, que é mais de quatro vezes o tamanho de Berlim.

Os especialistas presumem que, como em anos anteriores, a maioria dos incêndios foi deliberadamente iniciada para dar lugar a pastagens de gado e plantações de soja. “Quem ateia fogo no Pantanal é uma pessoa”, diz André Luiz Siqueira, da organização local de proteção ambiental Ecoa. »Os incêndios naturais são gerados por raios, que estão sempre associados à estação das chuvas. Mas como não choveu no Pantanal, fica claro que o homem é a causa principal «, explica a bióloga.

O desmatamento e a queimada andam de mãos dadas. Só em abril passado, um tribunal do estado de Mato Grosso do Sul autorizou a empresa agrícola Majora Participações a derrubar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul. Mas a extensão da conflagração deste ano sugere outra causa: a possível mudança climática permanente. A zona úmida, que depende das chuvas e das inundações periódicas de seus afluentes do planalto central brasileiro, está passando atualmente por uma das piores estações de seca. De acordo com o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária Embrapa, a estação chuvosa de outubro a março, importante para a bacia do Pantanal, registrou 40% menos chuvas do que a média dos anos anteriores.

Além disso, o principal afluente, o Rio Paraguai, tem tão pouca água este ano como não há quase cinco décadas. No município de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde os níveis de água são medidos há 120 anos, o nível de água em junho era de apenas 2,1 metros – 3,5 metros abaixo da média de longo prazo e o menor valor medido em 47 anos. Um estudo da Universidade Estadual de Mato Grosso também mostra que o volume de água do Rio Paraguai está diminuindo a cada ano. Para o diretor de pesquisas Ernandes Oliveira Júnior, isso é claramente uma consequência das mudanças climáticas. Marcos Rosa, geógrafo da rede de pesquisa MapBiomas, teme que “esta seja uma nova normalidade em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que estão mudando o ciclo das chuvas,

Já em 2015, seu colega Aguinaldo Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul em Corumbá, alertava sobre as consequências potencialmente catastróficas das mudanças climáticas para o Pantanal. Sua equipe internacional de pesquisadores tem estudado mudanças ambientais na importante zona úmida desde 2000. “Podemos dizer com alguma certeza que o clima global está mudando e as temperaturas estão ficando mais quentes”, disse Silva. »Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal e alterar as enchentes anuais do Rio Paraguai. Podem ocorrer longos períodos de seca que têm um impacto negativo na flora e na fauna. ”

Para ele, porém, a maior ameaça ao Pantanal vem do planalto e das mudanças no balanço hídrico que ali ocorrem devido ao desmatamento do Cerrado e à disseminação das monoculturas de soja. “Os rios que deságuam no Pantanal nascem no Cerrado”, explica o geógrafo Marcos Reis Rosa. O desmatamento faz com que o solo perca sua proteção, o que torna os rios mais planos e assoreados. Hidrelétricas e barragens agravaram a situação. De acordo com dados oficiais, havia 41 usinas hidrelétricas nos afluentes do Pantanal em 2017, e mais de 100 estão em planejamento.

Outra causa da escassez de água no Pantanal é a destruição da floresta amazônica. Com a aceleração do desmatamento por lá, mudaram as estações das chuvas no Brasil, explica Vinícius Silgueiro, da organização não governamental Instituto Centro de Vida. “A Amazônia dá vida a praticamente todos os ecossistemas do continente.” No entanto, o aumento do desmatamento está afetando o “transporte fluvial”. Esse é um dos motivos pelos quais o Pantanal vive atualmente sua maior tragédia ambiental em décadas.

Os pesquisadores concordam que, se as ameaças não cessarem, o Pantanal de 150 mil quilômetros quadrados, lar de onças, jacarés e centenas de outras espécies de animais, extremamente rico em espécies, está prestes a entrar em colapso – e em um futuro não muito distante.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Fogo surpreende pescadores no Pantanal

Com recorde histórico de queimadas, região já perdeu 10% de seu território no ano

fogo 1Imagem registrada por grupo de pescadores em Cáceres (MT)

Um grupo que praticava pesca profissional na margem direita do rio Paraguai foi surpreendido por um incêndio de grandes proporções na mata em região próxima à cidade de Cáceres (MT). A queimada registrada em vídeo ainda não está na conta dos 4,2 mil focos de incêndio contabilizados de janeiro a julho deste ano pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Este é o maior número desde 1998, quando a série histórica foi criada. Segundo o instituto, os incêndios na zona pantaneira saltaram 240% este ano, e o bioma já perdeu cerca de 10% de sua área.

“Foi muito triste e desesperador ver tudo isso. Estou sem chão ainda. Só quem está vendo de perto para ter noção”, conta a pescadora Enilza Silva, que estava presente quando o fogo se alastrou no sábado (15/8). “Me trouxeram agora a pouco para cidade porque meu psicológico não está legal. Os bichos desesperados sem saber pra onde ir, outros já mortos. É desesperador.”

O grupo que desenvolvia a atividade na região é experiente e usa uma base de apoio localizada em um rancho nas proximidades. Acampados, eles chegam a pescar durante 5 a 7 dias ou até atingir a cota máxima permitida, que é de 125 kg de peixes por pessoa, por semana. Os pescadores relatam que ultimamente não estão conseguindo atingir essa cota.

“O rio já está quase atingindo a maior baixa dos últimos 50 anos. E no mês de fevereiro ocorreu um fenômeno chamado decoada exatamente porque o rio não encheu o suficiente, o que causa a decomposição de matéria orgânica, como folhas e galhos. Isso tira o oxigênio da água, matando muitos peixes no rio. E ainda tem o assoreamento”, explica Joari Costa de Arruda, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Ele é especialista em biodiversidade e biotecnologia e atua no projeto “Corredor ecológico, econômico e cultural do Rio Paraguai” junto a pescadores e comunidades ribeirinhas da região. “Este ano não está favorável para o rio e para quem depende dele para tirar o sustento da família”, lamenta o pesquisador.

Mensageiro sem verbas

Segundo notícia do jornal Folha de S. Paulo, o INPE, que monitora por satélites os desmatamentos e as queimadas no território brasileiro, ficará sem verba em 2021. Com a decisão, os pesquisadores da instituição serão mantidos, mas não terão condição de desenvolver seus trabalhos.

A medida é mais um desdobramento da crise institucional entre o órgão e o governo federal, desencadeada em 2019, após a divulgação dos números recordes de desmatamento. Na ocasião, a fumaça das queimadas nas regiões amazônica e pantaneira escureceram o céu de cidades localizadas no Sudeste do país, gerando comoção dentro e fora do Brasil. O cientista Ricardo Galvão foi exonerado da diretoria do INPE na sequência das divulgações, e em seu lugar foi efetivado o coronel da Aeronáutica Darcton Damião.

Estação recorde de incêndios no Brasil

Maior perda de floresta desde o início do monitoramento por satélites

fogo brasil

Por Norbert Suchanek para a Neues Deutschland

Enquanto o coronavírus faz mais e mais vítimas no Brasil e está se espalhando por todo o país, apesar das medidas de quarentena, outra tragédia já dura semanas. No sul e no oeste do Brasil, as florestas estão queimando desde o início do ano como não acontecia há décadas.

De 1º de janeiro a 25 de maio deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 2.646 florestas e incêndios florestais nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, 338% a mais que no mesmo período do ano anterior. O INPE nunca registrou tantos incêndios nesta região nos primeiros cinco meses do ano, desde o início do monitoramento por satélite em 1999.  Os incêndios ocorrem principalmente em áreas de Mata Atlântica. Neste ano, 3.859 quilômetros quadrados desse ecossistema florestal, extremamente rico em espécies, foram destruídos por chamas. O estado recordista na destruição da floresta por supostos incêndios antrópicos é Santa Catarina, onde o INPE registrou 711% mais incêndios neste ano do que em 2019.

Incêndios recordes como nunca antes também são registrados nos vizinhos do sul do Brasil. Desde o início do ano, os satélites registraram 14.078 focos de fogo, 314% a mais que no ano anterior. No Paraguai, por outro lado, mais de três vezes mais incêndios florestais e selvagens estão ocorrendo este ano do que em 2019 e no Uruguai quase quatro vezes mais.

No oeste brasileiro, por outro lado, o Pantanal, conhecido por sua abundante fauna, está queimando como nunca desde o início do ano. Até o final de maio, o INPE contabilizou 2.040 incêndios nesta maior área úmida do mundo, 185% a mais do que no mesmo período do ano anterior. No final de abril deste ano, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados nos 138.183 quilômetros quadrados da parte brasileira deste pantanal transfronteiriço. A própria estação seca e a estação dos incêndios florestais na região, de julho a outubro, ainda estão por vir.

Uma das causas desses numerosos incêndios florestais e incêndios florestais neste canto de quatro países do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que é dominado por plantações de soja e fazendas de gado, é uma seca incomum para esta época do ano, o que torna o trabalho dos incendiários muito mais fácil. Segundo especialistas, a maior parte dos incêndios no Pantanal foi iniciada por mãos humanas, como foi o caso dos incêndios recordes no segundo semestre do ano passado, para a criação de novas pastagens. Só em abril passado, o Tribunal de Justiça Mato Grosso do Sul autorizou a agroindústria Majora Participações a desmatar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul.

De fato, esta paisagem inundada, única no mundo, está há anos exposta a uma mudança estrutural almejada pelo estado no sentido de uma intensificação da pecuária, independentemente da vegetação natural. “As mudanças na pecuária do Pantanal são a principal causa do desmatamento na região”, disse Elton Antônio Silveira, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso no ano passado. As pastagens nativas seriam substituídas por gramíneas exóticas para atender às necessidades da raça Nelore de gado zebu, que substituiu o tradicional gado pantaneiro.

Há mais de 250 anos, a pecuária extensiva e sustentável, utilizando a paisagem natural, é praticada no Pantanal. Do cruzamento de onze velhas raças de gado de Portugal e da Espanha, surgiu o robusto gado pantaneiro, adaptado à planície de inundação tropical. Há vários anos, porém, uma nova geração de engenheiros agrônomos e empresas do agronegócio que estão comprando grandes áreas contam com a produção intensiva de carne com raças otimizadas de gado em pastagens com gramíneas africanas. Medida que o instituto estadual de pesquisas agropecuárias Embrapa recomenda aos pecuaristas para aumentar a produtividade e que também está legalmente aprovada desde 2012.

As perdedoras são as espécies animais e vegetais do Pantanal e do Gado Pantaneiro, que agora está na lista vermelha das espécies extintas da pecuária. Apenas cerca de 500 animais dessa raça milenar, dos quais cerca de três milhões já perambularam pelo Pantanal, sobreviveram à transformação estrutural, segundo dados da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS).

Outra possível causa da conflagração é o avanço das fazendas de soja, que agora ocupam grandes pastagens na orla do Pantanal. Entre 2009 e 2016, a área plantada com soja dobrou de 300 mil para cerca de 600 mil hectares, segundo dados do instituto ambiental SOS Pantanal, que vê a expansão da soja como a maior ameaça ao pantanal hoje. O cultivo da soja, com ou sem variedades geneticamente modificadas, não só leva os pecuaristas a desmatarem novas áreas, como também contamina as águas com agrotóxicos e fertilizantes artificiais.

A epidemia de coronavírus e a atual alta taxa de câmbio do dólar em relação às moedas sul-americanas drasticamente desvalorizadas, como o real e o peso, são mais um incentivo para cortar e queimar. Os agricultores de soja que produzem para exportação estão, portanto, tendo lucros mais altos do que nunca. Lucros elevados, por sua vez, geralmente levam à expansão da área plantada com soja, geralmente comprando ou deslocando pastagens para gado, vizinhos e pequenos proprietários, o que por sua vez estimula o corte e a queima.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Neues Deutschland [Aqui!].

Pantanal ardendo em chamas sintetiza as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro

serra do amolar

Imagem: André Zumak

As cenas abaixo mostram um trecho da chamada Rodovia Transpantaneira ardendo em chamas, alegadamente na região da Serra do Amolar, localizada em um distrito do município de Corumbá (MS).

Imagens por André Zumak

Ter o principal ecossistema de alagados da Terra ardendo em chamas é, com certeza, um dos feitos mal exitosos do governo Bolsonaro e de sua política “passa boiada” de destruição da governança ambiental e das estruturas de comando e controle que foram construídas ao longo de quase cinco décadas no Brasil.

As cenas desse incêndio certamente vão ganhar o mundo, mostrando mais uma vez o que acontece quando um governo ultraneoliberal elege o meio ambiente como um dos alvos de suas políticas de destruição.

E a essas alturas por onde andará o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles? 

Ação de Bolsonaro e indústria de cana-de-açúcar ameaçam a Amazônia, Pantanal e o Clima Global

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Por Lucas Ferrante

Na última quarta-feira, dia 06 de novembro de 2019, o presidente Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes, da Economia e Tereza Cristina, da Agricultura, assinaram em conjunto um decreto que extingue o zoneamento ambiental de cana-de-açúcar para a Amazônia e Pantanal. Esta medida ameaça drasticamente estes biomas, afetando a biodiversidade e serviços ecossistêmicos, com impacto que se estende a outras áreas do país.

Em 2018 o Senado Brasileiro havia cogitado revogar o decreto de 2009 que estabelecia o zoneamento de cana-de-açúcar para a Amazônia e Pantanal, sendo questionada até mesmo pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA). Para evitar este impacto, eu e o prêmio Nobel Philip Fearnside publicamos na revista Science, revista com maior impacto cientifico no mundo as consequências desastrosas que a liberação da cana de açúcar traria para a Amazônia, divulgando a senadores que pautaram contra a liberação do cultivo em 2018.

O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Evandro Gussi, publicou uma nota recente no site da UNICA, justificando sem nenhum respaldo cientifico e ignorando todas as pesquisas sobre o tema que não seria mais necessário o zoneamento ambiental para cana-de-açúcar na Amazônia e Pantanal, sob a justificativa que a Renovabio – a nova Política de Biocombustíveis aprovada em 2017, seria suficiente para mitigar estes impactos, o que não apenas é claramente uma afirmação fantasiosa e delirante e não apenas sem nenhum respaldo cientifico, mas o contrário do que a ciência tem mostrado, uma vez que em 2018 a carta publicada na revista Science e com revisão de outros cientistas experts do assunto, levanta todos os impactos que a liberação do plantio de cana-de-açúcar terá nestes biomas sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos, mas também sobre o abastecimento humano e a própria agricultura das regiões Sul e Sudeste do país, que serão causados pelo colapso dos serviços ambientais da Amazônia.

Definitivamente, como publicado na revista Science, que é posterior à aprovação do Renovabio, fica claro através das evidências científicas apresentadas que a cana-de-açúcar na Amazônia e Pantanal irá gerar impactos sem precedentes, onde de forma alguma podemos considerar que os biocombustíveis brasileiros possam ser considerados “limpos” e não estejam associados a uma cadeia de desmatamento e degradação ambiental da Amazônia com a revogação deste zoneamento. Além disso, este é mais um entrave para o Brasil frente ao acordo de Paris, que visa mitigar as mudanças climáticas. Desta forma, países da União Europeia que somente em 2018 importaram mais de 43 milhões de litros de etanol brasileiro, devem reavaliar as importações do produto brasileiro pelo impacto ambiental que sua produção terá sobre o clima global através da destruição da Floresta Amazônica.

Canavial da empresa Jayoro, em Presidente Figueiredo (Foto: Thaís Brianezi/Repórter Brasil)

Este é um crime de lesa pátria que afeta não apenas a maior floresta tropical do mundo e sua biodiversidade, mas também topa a capacidade agrícola do Brasil.

Integralmente, segue em português e com referências bibliográficas a carta publicada na revista Science em 2018, sendo posterior a criação da Renovabio e demostrando os impactos da liberação da cana de açúcar para a Amazônia e Pantanal, além de consequências para a própria agricultura brasileira.

Para apoiar a revogação do decreto que libera o cultivo da cana-de-açúcar na Amazônia, você pode assinar esta petição aqui

Em 30 de março de 2018, a revista Science publicou o artigo de Lucas Ferrante e Philip Martin Fearnside sobre a votação no plenário do Senado sobre o projeto de lei para abrir a Amazônia para plantio de cana-de-açúcar. O artigo foi republicado pela Amazônia Real com o título: Cana-de-Açúcar da Amazônia: Uma Ameaça à Floresta .

Notas:

1. Ferrante, L. & P.M. Fearnside. 2018. Amazon sugarcane: A threat to the forest; Sciencemag.

2. P. M. Fearnside, in Oxford Research Encyclopedia of Environmental Science, H. Shugart, Ed. (Oxford University Press, New York, 2017).

3. Brasil, Presidência da República, Decreto Nº 6.961, DE (17 de setembro de 2009).

4. Food and Agriculture Organization of the United Nations, Commodities by Country (2018).

5. P. M. Fearnside, in Biofuels and Neotropical Forests: Trends, Implications, and Emerging Alternatives, E.J. Garen, J. Mateo-Vega, Eds., (Environmental Leadership & Training Initiative, Yale University, New Haven, CT, 2009), p. 29–36.

6. L. Ferrante et al., J. Biogeogr. 44, 1911 (2017).

7. Brasil, Senado Federal, Projeto de Lei do Senado N° 626 (2011).

8. P. M. Fearnside. Ciênc. Hoje. 34, 63 (2004).

9. D. C. Zemp et alAtmosp. Chem. Phys. 14, 13337 (2014).

10. IBGE, Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (2018).

11. IBGE, Coordenação de População e Indicadores Sociais, Estimativas da população residente para os municípios e para as unidades da federação brasileiros com data de referência em 1º de julho de 2017 (2017).


A fotografia acima mostra a produção de cana-de-açúcar no interior do Amazonas

(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Lucas Ferrante possui formação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) em Minas Gerais, Mestrado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e atualmente é Doutorando em Biologia (Ecologia) também no INPA. É pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Serviços Ambientais da Amazônia (INCT-SERVAMB). Desenvolve pesquisas e popularização da ciência sobre a influência das ações humanas sobre a estrutura, dinâmicas, clima e biodiversidade de paisagens, em especifico florestas tropicais, bem como povos tradicionais que vivem na floresta, tendo como intuito minimizar os danos causados pela mudança da paisagem, expansão agropecuária e mudanças climáticas sobre pessoas, fauna e serviços ecossistêmicos.  ( lucasferrante@hotmail.com).

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Este artigo foi publicado inicialmente pelo site Amazônia Real [Aqui!].

Bolsonaro autoriza plantio de cana na Amazônia e no Pantanal

Após incentivar queimadas, Bolsonaro anuncia novo ataque à Amazônia e outros biomas: suas árvores poderão ser substituídas por extensos canaviais

canaviaisOs canaviais vão empurrar o gado para novas áreas de floresta, estimulando a devastação, o conflito, e ainda trarão as chuvas de agrotóxicos

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo — Depois de admitir a investidores árabes que “potencializou” as queimadas na Amazônia por discordar de políticas ambientais de governos anteriores, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) decretou que a região – bem como o Pantanal e a Bacia do Alto Paraguai, na mesma região – está liberada para o plantio da cana. O Decreto 10.084, de 5 de novembro, publicado hoje (6) no Diário Oficial da União, revoga o Decreto 6.961, de setembro de 2009, em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva instituiu o zoneamento para o plantio da cana e as operações de financiamento ao setor sucroalcooleiro. Além de Bolsonaro, assinam o decreto a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

A publicação coincide com os novos dados sobre o papel dos biocombustíveis na redução das emissões brasileiras de carbono em 2018, divulgados hoje pelo Observatório do Clima na Conferência Brasileira sobre Mudança do Clima, realizada em Recife.

“Com seu ato, os dois ministros, tidos como a ‘ala razoável’ do governo, expõem dois biomas frágeis à expansão predatória e economicamente injustificável da cana e jogam na lama a imagem internacional de sustentabilidade que o etanol brasileiro construiu a duras penas”, afirmou o Observatório por meio de nota.

A medida foi repudiada pelo ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que chamou Bolsonaro de “ecocida”.

minc cana

Sonho antigo

A liberação do plantio de cana na floresta é objetivo antigo do agronegócio que sustenta o governo e que tem na ministra da Agricultura, a “musa do veneno“, seu mais forte representante. Em março de 2018, mais de 60 entidades ambientalistas, de direitos humanos e de defesa da reforma agrária, entre outras, assinaram manifesto contra a aprovação do Projeto de Lei do Senado (PLS) 626/2011, de Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que libera o cultivo de cana de açúcar na Amazônia Legal.

Para essas entidades, permitir o cultivo de cana na região, mesmo que em terras degradadas, é um erro. “Significa acrescentar mais um motor ao crescente desmatamento. Para dar lugar à lavoura, a pecuária será empurrada para novas áreas, estimulando a devastação da floresta, a violência contra as populações locais e a injustiça social. Além disso, a área já liberada para a cana-de-açúcar no resto do país é do tamanho do território de Minas Gerais.”

A produção de cana também está associada à degradação do solo e dos ecossistemas. E o uso intensivo de agrotóxicos, principalmente por meio da pulverização aérea, tem aumentado o número de intoxicações agudas, crônicas e o aumento de casos de diversos tipos de câncer, malformações congênitas e outras doenças graves.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].