Por Carlos Eduardo de Rezende*
Há temas que, embora essenciais, raramente são tratados com a franqueza que exigem. Entre eles, está o modo como avaliamos nossos pares, pois este exercício que revela não apenas critérios técnicos, mas também nossos compromissos mais profundos com a integridade, a justiça e o futuro daquilo que construímos coletivamente. Recentemente, li um texto sobre as Fronteiras da Avaliação e achei que este é o momento oportuno, pois estamos renovando os Comitês de Área do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Neste ano, em que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) promove a renovação de diversos comitês assessores nas diferentes áreas do conhecimento, torna-se imprescindível repensar quem deve nos representar junto a essa importante agência de fomento à ciência e à tecnologia. A avaliação por pares precisa estar ancorada em princípios orientadores sólidos e, sobretudo, em diretrizes capazes de assegurar a integridade na atividade científica. Trata-se, aliás, de uma preocupação que não deve se restringir ao CNPq, mas se estender a todas as instituições que desenvolvem atividades de pesquisa. Não por acaso, intensificam-se os debates acerca dos limites éticos no uso de ferramentas de inteligência artificial, cujo avanço recente tensiona noções tradicionais de autoria, originalidade e responsabilidade intelectual.
Com a proposta de analisar e qualificar sistemas de avaliação da pesquisa, o Research on Research Institute, sediado no Reino Unido, desenvolveu o observatório on-line Atlas da Avaliação, uma plataforma lançada em maio de 2025 que reúne e compara modelos nacionais de 17 países, incluindo o Brasil. Os dados evidenciam a diversidade de abordagens e há sistemas centralizados, modelos híbridos e arranjos institucionais com diferentes níveis de autonomia e indução estatal. Em alguns países, como a China, existe mais de um modelo de avaliação que impactam diretamente o financiamento das instituições. Parte desses sistemas avalia o desempenho individual de pesquisadores, que resultam em incentivos como remuneração diferenciada e suporte institucional ampliado para aqueles com produção científica de destaque. Paralelamente, há mecanismos de adesão voluntária que avaliam o desempenho institucional e orientam a distribuição de recursos.
No Reino Unido, por sua vez, possui um modelo voluntário, mas com adesão praticamente universal, dada sua influência decisiva na reputação acadêmica e no financiamento anual das instituições que ultrapassa 2 bilhões de libras e estabelece a distribuição dos recursos com base nos resultados. A robustez e o impacto, acabou servindo de referência para iniciativas semelhantes em outros países. Esse panorama comparado revela que os sistemas de avaliação não apenas mensuram desempenho, mas também induzem comportamentos, prioridades e até culturas institucionais. Por isso, discutir quem avalia, como avalia e com quais critérios deixa de ser uma questão meramente técnica e passa a ocupar um lugar central no debate sobre os rumos da ciência.
O CNPq mantém as Bolsas de Produtividade em Pesquisa por muitos anos e em 2025 cerca de 17.080 pesquisadores estavam recebendo estas bolsas. Esta bolsa, de certa forma, serve para diferenciar os profissionais, mas ainda não atende a todos que poderiam estar recebendo e, portanto, ainda existe uma demanda reprimida. Uma situação que me chama atenão é que não são raras as críticas ao que se convencionou chamar de “produtivismo”, termo que, por vezes, reduz de forma simplista a complexidade da atividade científica.
Essa tensão revela uma dicotomia importante: de um lado, a necessidade de reconhecer e valorizar a produção científica como motor do desenvolvimento assim como a necessidade de enfrentar distorções e práticas questionáveis que podem emergir quando métricas quantitativas são sobrevalorizadas. Recentemente uma instituição enfrentou um sério problema onde docentes em início de carreira apresentam mais de uma publicação por semana entre artigos e capítulos de livros. O que chamou atenção na instituição foi a extensa rede de coautoria internacional e situações como essa não devem ser tomadas como regra, mas não podem ser ignoradas. Ao contrário, reforçam a necessidade de mecanismos institucionais robustos e a consolidação de Comitês de Integridade em Pesquisa.
Caminhando para o final, entendo que este tema possui muitas outras dimensões, preocupa a recorrência de discursos sobre excelência institucional dissociados da explicitação de critérios consistentes de avaliação e da adoção de parâmetros mínimos que orientem a alocação de recursos com base nas atividades fim das instituições. Em tais circunstâncias, a noção de excelência corre o risco de se tornar mais retórica para a plateia. Acredito ainda que parte dessas distorções pode ser atribuída à crescente influência de dinâmicas políticas nos processos decisórios das Instituições de Ensino Superior e a perda da perspectiva puramente acadêmica. Este é um aspecto sensível, que demanda ser enfrentado com maior franqueza e rigor analítico, evitando simplificações quanto a abordagens demagógicas que fragilizam os fundamentos da avaliação acadêmica e comprometem a integridade do sistema científico.
*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Ele também é bolsista de produtividade 1A do CNPq.
