Brasileiros estão comendo alimentos contaminados por agrotóxicos em um voo cego

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Uso intensivo, e muitas vezes abusivo, de agrotóxicos contamina principais alimentos consumidos pelos brasileiros.

Em meio à enxurrada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, os brasileiros estão totalmente desinformados sobre o montante de resíduos que estão sendo consumidos a partir da ingestão de alimentos produzidos no território nacional. É que desde 2016 está suspensa a divulgação de resultados do chamado “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos” (PARA) que era feita regularmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em seu último relatório, o PARA nos ofereceu dados assombrosos sobre a contaminação de alimentos que os brasileiros colocam diariamente em suas mesas, incluindo alface, pimentão, repolho, tomate, cebola, mamão e morango, apenas para citar os que apresentaram índices mais significativos de contaminação, e também pela multiplicidade de resíduos de diferentes tipos de agrotóxicos.

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Dentre as razões citadas no relatório do PARA que deveriam estar gerando grande alarme nos consumidores brasileiros estão a presença de agrotóxicos que já foram diagnosticados como causadores como doenças graves, o uso incorreto de produtos em relação ao que foi aprovado pelos órgãos reguladores, e ainda a aplicação de dosagens que extrapolam os limites de risco. Quando colocados juntos, todos esses fatores explicam a presença de vários agrotóxicos em uma mesmo alimento e com limites excedendo o estabelecido na legislação.

O fato é que o povo brasileiro está ingerindo alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos de uma forma que equivale a voar em um avião desprovido de aparelhos de navegação. E, pior, por causa da suspensão do PARA, sequer sabemos qual é o nível de contaminação dos itens que são consumidos de forma mais rotineira. Ou seja, estamos nos alimentando como se estivéssemos em um voo cego.  Desta forma, toda a cantilena que os pais usam para convencer seus filhos a consumirem salada pode não ser apenas propaganda enganosa, mas também uma fonte de envenenamento crônico para nossas crianças.

veneno está na mesa

O interessante é que neste momento, a União Europeia está negociando um amplo comercial com o Mercosul, do qual o Brasil é o principal membro em termos de exportação de alimentos para os países europeus.  O curioso é que na Europa, não apenas os níveis aceitáveis de resíduos de agrotóxicos são muito mais rígidos no que se refere ao que pode ser aplicado pelos agricultores europeus, mas também no que pode ser detetado nos alimentos.  

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Até agora a União Europeia passou ao largo do problema da contaminação da produção brasileira por agrotóxicos ao não permitir a alimentação direta a humanos, permitindo apenas o uso como ração. Mas com o aumento acelerado da aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, muitos deles já banidos na União Europeia, fica a dúvida de até quando essa permissão continuará.

Para complicar a situação ainda há a campanha de boicote iniciada pela rede sueca Paradiset contra alimentos produzidos no Brasil por causa da aprovação desenfreada de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro (197 apenas nos primeiros 5 meses de 2019) parece estar se disseminando para fora da Suécia, apesar dos apelos em contrário da embaixada brasileira em Estocolmo. Se mais redes de outros países europeus aderirem ao boicote, é bem possível que haja mais pressão por mais transparência sobre o nível de contaminação dos alimentos que os próprios brasileiros estão ingerindo todos os dias.

Johannes CullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset é o principal incentivador do boicote a alimentos produzidos no Brasil por causa da contaminação com agrotóxicos.

Mas o fato é que o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos não pode ser mais ignorado, pois efetivamente já se tornou um grave problema de saúde coletiva no Brasil.  A primeira demanda que devemos fazer neste momento é pela retomada da divulgação dos relatórios do PARA, pois é um direito de todos os brasileiros quais alimentos estão contaminados e por quais tipos de agrotóxicos. Ignorar o problema da contaminação dos nossos alimentos não é uma opção aceitável. Simples assim!

Para conter o “#BoycottBrazilianFood”, embaixada em Estocolmo envia carta falaciosa para Johannes Cullberg

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Em uma evidente demonstração de que o governo Bolsonaro sentiu o golpe causado pelo boicote convocado pelo fundador e Chief Executive Officer (CEO) da rede sueca de supermercados Paradiset a produtos originados do Brasil por causa da contaminação de agrotóxicos, a embaixada brasileira na capital da Suécia enviou uma carta onde tenta rebater os argumentos de Johannes Cullberg (ver carta abaixo)

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A carta é uma coleção de falácias, e começa por um ataque subliminar aos motivos que levaram a Johannes Cullberg a retirar os produtos brasileiros de suas prateleiras ao afirmar que os autores da carta não sabem se a rede Paradiset  realmente importa produtos orgânicos do Brasil.

Um argumento que é repetido à exaustão por representantes do latifúndio agro-exportador quando confrontados com os dados que dão conta que o Brasil é hoje o campeão mundial do consumo de agrotóxicos, a carta também sugere que Cullberg verifique bases de dados que mostram apenas uma taxa que efetivamente oculta o impacto dos agrotóxicos no modelo viciado por venenos que predomina na agricultura brasileira. Falo aqui da taxa composta pelo custo do volume consumido em relação à área total do Brasil, que coloca o Brasil em 7o. lugar do mundo e o Japão em 1o.  

A falácia desse argumento é, contudo, facilmente desmontada quando se verifica que o Brasil ocupa o primeiro lugar do mundo em termos de valor gasto com a compra de agrotóxicos (ver figura abaixo com dados de 2013).

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A carta omite ainda o fato cabalmente documentado em relatório publicado em 2019 pela organização não-governamental suiça “Public Eye” que apontou para o fato de que em 2017 o Brasil representava 18% do consumo mundial de agrotóxicos, empatado com os EUA. Além disso, o mesmo relatório mostrou que o Brasil se tornou uma espécie de piscina tóxica onde agrotóxicos banidos em outras partes do mundo são despejados.

A embaixada repete ainda a cantilena falaciosa de que o Brasil está fazendo esse uso intenso de agrotóxicos para alimentar o mundo, quando, na verdade, a cultura que mais ocupa área e recebe mais agrotóxicos é a soja, cujo destino não é alimentar seres humanos diretamente, mas ser usada como ração animal.

A carta da embaixada ainda faz uma relação indecorosa entre clima e uso de agrotóxicos, pois se esquece que a origem da necessidade dos agrotóxicos são as grandes monoculturas que são a raiz da proliferação de determinados organismos.  A carta tampouco relaciona a relação entre grandes monoculturas e a ampliação do uso de venenos altamente tóxicos. Isto sem falar no papel dessas mesmas monoculturas na ampliação do desmatamento na Amazônia brasileira e no Cerrado.

Felizmente, a resposta de Johannnes Cullberg não apenas não tardou, mas veio com o tom e conteúdo que a “carta” da embaixada brasileira em Estocolmo merece. Cullberg não apenas dizimou o argumento climático, como apontou para os crescentes casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil, e ainda lembrou o problema da explosivo aumento do desmatamento na Amazônia brasileira. De quebra, Cullberg ainda convidou os membros da embaixada brasileira a se juntar ao boicote que ele está impulsionando, mesmo que as redes brasileiras de supermercados não o façam, pois, segundo ele, “toda ação, ainda que pequena, faz a diferença“, e que  “nós não iremos ter uma segunda chance” (ver a carta de Johannes Cullberg logo abaixo).

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Trocados em miúdos, alguém na embaixada brasileira em Estocolmo pensou que estava falando com um ignorante sobre a situação dos agrotóxicos no Brasil, e acabou aprendendo que não.

De minha parte, fico com a certeza de que o “BoycottBrazilianFood” não pode ser um movimento que ocorra apenas por causa da decisão de consumo consciente do CEO de uma rede de supermercados que vive a 10.000 km do Brasil.  A demanda pelo direito de consumir alimentos saudáveis se transformou em uma das principais bandeiras políticas que os brasileiros devem assumir nessa primeira década do Século XXI. Ou forçamos as redes brasileiras de supermercados a adotarem a mesma posição da rede Paradiset ou estaremos condenando nossas filhas e filhos e os filhos deles a terem um futuro marcado por doenças graves e fatais.

Johannes Cullberg leva sua campanha contra o excesso de agrotóxicos na comida brasileira para o Facebook

cullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados Paradiset, que baniu produtos brasileiros por causa do excesso de agrotóxicos, também lançou grupo no Facebook para aumentar pressão sobre o governo Bolsonaro.

O fundador e CEO da rede de supermercados sueca Paradiset, Johannes Cullberg, não parou apenas na decisão de remover das suas prateleiras alimentos produzidos no Brasil por causa da farra de liberação de agrotóxicos altamente tóxicos que está sendo comandada pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS) a serviço da bancada ruralista.

É que para aumentar a divulgação de sua campanha em prol do banimento dos alimentos brasileiros até que se tome alguma medida para diminuir a contaminação por agrotóxicos, muitos deles banidos na União Europeia, Cullberg levou a sua batalha em prol de alimentos saudáveis para a rede social Facebook com a criação do grupo “#BoycottBrazilianFood”  (ver imagem abaixo).

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A posição e as razões da criação do #BoycottBrazilianFood ficam claras na descrição do grupo onde está dito que “Inscreva-se e compartilhe com seus amigos para reunir o maior número possível de pessoas. O uso de agrotóxicos perigosos na produção de alimentos brasileira precisa parar agora! Só em 2019, 197 pesticidas foram aprovados pelo Sr. Bolsonaro. Isso põe em perigo a saúde da população brasileira, o meio ambiente e nosso planeta como um todo. Este é um convite a todos para se juntarem e mostrarem ao senhor Bolsonaro que já chega! Ele não deveria ter mais permissão para destruir nosso planeta e nossos filhos!

É como eu tenho dito aqui após essa verdadeira orgia de aprovações de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo: o Brasil corre o risco de se tornar um pária ambiental no circuito das Nações, e de sofrer um forte boicote sanitário a seus produtos agrícolas em função da posição irresponsável de apostar em um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Agora,  para mim é quase certo que a partir do movimento iniciado pelo fundador da rede Paradiset, outros empresários e dirigentes de cadeias de supermercados europeus (especialmente aquelas comprometidas com a comercialização de produtos orgânicos, mas não só elas) venham a adotar posições semelhantes. Se isso acontecer, o governo Bolsonaro e a bancada ruralista que pressiona pela adoção de medidas regressivas contra a conservação ambiental serão os principais responsáveis.

Finalmente, fico curioso sobre o silêncio dos donos e dirigentes das grandes cadeias de supermercados que atuam no Brasil e que, até agora, estão completamente calados em relação à aprovação de tantos agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Precisamos ter uma rede de supermercados sueca para soar um alarme que deveria ter sido soado primeiro no Brasil.  Haja descompromisso com a nossa saúde.