Agrotóxicos usados na monocultura da cana causam a morte de tilápias

tilapia

Por Rafael J. Gonçalves Rubira para o “The Conversation”

A tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) está entre os peixes mais consumidos no Brasil e no mundo. Espécie originária da África, ela tem boa capacidade de adaptação a diferentes condições ambientais e apresenta crescimento rápido em cativeiro, a principal forma de abastecimento do mercado brasileiro.

Por sua presença à mesa, foi esse o peixe que escolhemos para um estudo realizado na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) que investigou os efeitos de resíduos dos pesticidas parationa-metílica (MP) e imazapique (IMZ) sobre esse animal.

MP e IMZ são borrifados nas plantações de cana-de-açúcar na região de Presidente Prudente, interior de São Paulo. Devido à sua toxicidade, há uma preocupação crescente com os resíduos desses produtos no solo e na água, que podem afetar diretamente os ecossistemas aquáticos.

O IMZ é um herbicida seletivo autorizado para uso no Brasil no plantio do amendoim, arroz, cana-de-açúcar, milho, pastagem, soja, sorgo e trigo. Porém, é considerado altamente tóxico e pode causar danos ao meio ambiente e à saúde humana.

O uso da parationa-metílica (MP), do grupo dos organofosforados, é permitido até o limite de concentração de 9,3 microgramas por litro (µg/L) nos Estados Unidos, mas proibido no Brasilpor seus efeitos tóxicos aos seres vivos.

No estudo que fizemos, utilizamos técnicas avançadas de microscopia para examinar alterações celulares nas brânquias das tilápias expostas a esses pesticidas em condições controladas de laboratório. O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP).

Desenho criativo do pesquisador Rafael Rubira exibe, no destaque, a localização das brânquias. A ação dos pesticidas degrada essas estruturas e mata os peixes por asfixia. Arquivo do autor

Brânquiasou guelras são órgãos respiratórios compostos por lamelas altamente vascularizadas que estão localizados na parte lateral da cabeça dos peixes. As lamelas absorvem oxigênio da água e eliminam dióxido de carbono, permitindo a respiração dos peixes em ambiente aquático.

A microscopia de fluorescência confocal é um tipo de microscópio óptico avançado que permite visualizar estruturas celulares ou subcelulares com alta resolução e sensibilidade. Ele utiliza luz fluorescente para destacar estruturas específicas dentro de uma amostra biológica. A técnica confocal elimina a luz dispersa fora do foco, resultando em imagens mais nítidas e contrastadas.

Isso é possível através de um sistema (pin hole) que permite a detecção de fluorescência apenas de uma pequena área focalizada da amostra e cria imagens tridimensionais de alta resolução.

Lesões e morte

O resultado dos testes feitos com tilápias em tanques de água no laboratório com diluição de pesticidas (em quantidades abaixo dos limites) revelou que os animais sofreram lesões significativas.

As análises microscópicas revelaram danos à integridade e funções das lamelas, comprometendo a capacidade dos peixes de absorver oxigênio da água.

Essas alterações nas brânquias levaram os peixes à morte por asfixia, evidenciando a sensibilidade das tilápias a esses pesticidas e os sérios impactos que podem causar na vida aquática.

O próximo passo será investigar as interações químicas nas moléculas de gordura desses órgãos. Usaremos um espectrômetro Raman, que permite estudar a resposta das células a estímulos com luz laser. As variações podem indicar possíveis alterações associadas a processos cancerígenos.

Os achados que fizemos até o momento com este estudo sugerem que a exposição prolongada das tilápias do Nilo estudadas aos pesticidas aumenta o risco de malformações, de problemas de desenvolvimento e reprodutivos.

As implicações para o meio ambiente do uso indiscriminado de pesticidas como o MP e o IMZ são vastas e profundas. A contaminação da água encabeça a lista de perigos, pois os pesticidas se infiltram no solo e podem alcançar corpos d’água, comprometendo fontes de água potável e ecossistemas aquáticos. O impacto recai sobre toda a cadeia alimentar aquática, incluindo organismos microscópicos, insetos e plantas.

A toxicidade dos pesticidas sobre organismos não-alvo é mais uma questão grave, atingindo insetos polinizadores, como as abelhas, e predadores naturais que desempenham um papel fundamental no equilíbrio ecológico. Isso pode levar a um aumento das populações de pragas e a uma diminuição da diversidade biológica.

Além disso, há riscos diretos à saúde dos trabalhadores e outras pessoas expostas aos resíduos de pesticidas, cujo efeito já foi relacionado por diversos estudos a alterações que vão desde distúrbios hormonais e no crescimento das crianças a problemas neurológicos e diversos tipos de câncer.

Não restam dúvidas de que medidas mais rigorosas são necessárias para fiscalizar e punir o uso e a aplicação dos pesticidas já proibidos no Brasil. Também são imprescindíveis os investimentos contínuos para a realização de mais estudos e monitoramento dos efeitos dessas substâncias no ambiente e na saúde coletiva.

Rafael J. Gonçalves Rubira  é Físico, Ph.D pela Universidade de Málaga (com foco na análise dos efeitos de agrotóxicos em sistemas biológicos) e pesquisador da Faculdade de Ciência e Tecnologia , Universidade Estadual Paulista (Unesp)


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “The Conversation” [Aqui!].

Pesquisa mostra efeito letal de dois agrotóxicos sobre o sistema respiratório de tilápias

Grupo da Unesp constatou que mesmo quantidades pequenas de dois agrotóxicos encontrados em áreas de cultivo de cana podem causar a morte dos animais em 24 horas

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Foram analisadas 150 tilápias do Nilo (Oreochromis niloticus) mantidas em aquários construídos na Unesp (ilustração: Rafael Rubira/Unesp)

Mônica Tarantino | Agência FAPESP  

Os agrotóxicos parationa-metílica (MP) e imazapique (IMZ) estão entre os produtos borrifados nas plantações de cana-de-açúcar da região de Presidente Prudente, no interior de São Paulo. Por causa de sua toxicidade, é grande a preocupação com o impacto dos resíduos no solo e nas águas. “Nos peixes, um dos efeitos desses produtos é a morte por asfixia”, conta o pesquisador Rafael Rubira, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual de São Paulo (FCT-Unesp).

Rubira e seus colegas analisaram os efeitos dessas substâncias nas brânquias de 150 tilápias-do-nilo (Oreochromis niloticus) mantidas em aquários construídos no laboratório da faculdade. As brânquias ou guelras são órgãos respiratórios que absorvem o oxigênio da água e eliminam dióxido de carbono.

O time de pesquisadores começou o estudo pelas brânquias por serem o primeiro ponto de contato dos peixes com essas substâncias, mas outros sistemas e órgãos, como fígado, rins e coração, estão sendo analisados. A tilápia foi escolhida por ser o peixe mais consumido no país, de acordo com o pesquisador. O critério de seleção dos pesticidas está referenciado em pesquisas anteriores que identificaram a presença de resíduos no solo e nas águas próximas às plantações e assentamentos humanos.

“Ficamos surpresos em constatar que a exposição a quantidades muito pequenas desses pesticidas, abaixo inclusive dos limites permitidos pela lei, foi suficiente para danificar as brânquias de tilápia”, afirma o pesquisador. Graduado em física, ele tem mestrado e doutorado em ciências e engenharia de materiais, com foco em metodologias sofisticadas para detectar partículas de pesticidas.

A investigação recebeu apoio da FAPESP por meio de seis projetos (21/14514-220/05423-020/16310-220/15324-020/15185-0 e 18/22214-6). Os resultados foram divulgados no Journal of Hazardous Materials.

O IMZ faz parte do grupo químico das imidazolinonas, que são herbicidas seletivos usados para combater o crescimento de certos tipos de plantas daninhas presentes no campo. Seu uso é autorizado no Brasil para as culturas de amendoim, arroz, cana-de-açúcar, milho, pastagem, soja, sorgo e trigo. “Porém, é uma substância altamente tóxica, com elevada solubilidade quando lixiviada em camadas mais profundas do solo”, diz o pesquisador. A lixiviação é um processo pelo qual minerais, nutrientes ou poluentes se movem através do solo ou de um meio poroso, geralmente devido à ação da água, podendo alcançar camadas mais profundas do solo, aquíferos e recursos hídricos subterrâneos.

O MP pertence ao grupo dos organofosforados e é um poderoso inibidor da enzima acetilcolinesterase, que atua na regulação do neurotransmissor acetilcolina, causando efeitos tóxicos no sistema nervoso de animais e com potencial para danificar a pele e os olhos, entre outros sistemas corporais expostos de seres vivos.

“Permitido nos Estados Unidos, com limite de concentração de 9,3 microgramas por litro [µg/L], o MP é proibido no Brasil, mas ainda é encontrado”, relata Rubira. Vale lembrar que o Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, seguido pela China e pela Índia.

Separados em grupos de dez por tanque, os peixes foram expostos ao IMZ e ao MP. “Neste trabalho, utilizamos animais ainda jovens de pisciculturas, livres da adição de insumos para estimular o crescimento, e os mantivemos em ambiente controlado”, explica Rubira.

Os agrotóxicos foram diluídos na água em quantidades abaixo dos limites permitidos pela legislação de vários países. Com a ajuda de um equipamento de microscopia confocal, os pesquisadores avaliaram a ação das substâncias sobre o órgão respiratório em 24 horas e depois de 96 horas. A técnica proporciona imagens tridimensionais nítidas e detalhadas dos tecidos e permite também ver mudanças na intimidade das células.

“Antes íntegras, as brânquias passaram a apresentar alterações prejudiciais à capacidade de absorção de oxigênio, levando os peixes à morte. Novamente nos surpreendemos ao observar que os animais já estavam muito debilitados com 24 horas de exposição”, relata Rubira.

As imagens obtidas revelam que, mesmo em pouca quantidade e em apenas 24 horas, os pesticidas destruíram completamente ou danificaram uma parte muito importante das brânquias, que são os filamentos ou lamelas. Trata-se de estruturas com muitos vasos sanguíneos, que desempenham um papel fundamental na troca de gases. Para entrar na corrente sanguínea do peixe, o oxigênio extraído da água precisa passar por essas lamelas. “Sua destruição é uma sentença de morte para os peixes”, diz Rubira.

Dados prévios

Antes do experimento com peixes vivos, o pesquisador e seus colegas simularam o impacto desses dois pesticidas em modelos de membranas plasmáticas sintetizadas para ter uma ideia do que poderiam encontrar. “Nós conseguimos criar modelos de membranas utilizando moléculas de lipídeos semelhantes às encontradas nas brânquias. Os fosfolipídios desempenham um papel importante na regulação do transporte de substâncias entre o interior e o exterior da célula”, explica o pesquisador.

No laboratório, essas estruturas foram bombardeadas com maiores quantidades de IMP e MP. “Quando vimos o resultado, nossa dúvida passou a ser se baixas concentrações afetariam da mesma forma os peixes. Vimos que os efeitos colaterais são os mesmos”, observa o especialista.

A morte de peixes e abelhas não é uma cena incomum na região. “Vemos com frequência, mas acontece principalmente no período de plantio da cana, quando são feitas muitas pulverizações com pesticidas”, diz o pesquisador. Ele conta que se deparou algumas vezes com a pulverização aérea de pesticidas enquanto coletava amostras das águas da região em áreas próximas a assentamentos humanos, o que contraria a lei. Em 2008, o Ministério da Agricultura emitiu uma diretriz proibindo a pulverização de agrotóxicos a uma distância inferior a 500 metros de áreas urbanas, cidades e fontes de abastecimento de água.

“Não foi o que eu testemunhei”, diz Rubira. Segundo o pesquisador, os resíduos de agrotóxicos pulverizados se espalham por quilômetros ao redor da plantação. “É frequente ouvir queixas dos moradores vizinhos das plantações sobre ardência nos olhos, coceira na pele e na cabeça e manchas cutâneas. Além disso, os resíduos desses pesticidas são cumulativos na água e no solo”, diz o pesquisador.

Na próxima etapa do estudo, o time de pesquisadores analisará as interações químicas ocorridas nas moléculas de gordura (lipídicas) das brânquias. Para isso, usarão um espectrômetro, dispositivo que mede a intensidade da luz ou radiação em diferentes comprimentos de onda ou energia para identificar os átomos. Depois, com a ajuda de análises computacionais, pretendem avaliar quais alterações estão associadas a processos cancerígenos. “Queremos mostrar, por microespectroscopia, que, se houver alterações no DNA ou no RNA, as próximas gerações de peixes poderão ter malformações”, pontua o cientista.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) informou que seu porta-voz não estava disponível.

Já o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), questionado sobre a existência de rotinas de monitoramento e controle do tipo de pesticida usado na cultura da cana-de-açúcar, esclareceu que “é de competência dos Estados legislar e fiscalizar o uso de agrotóxicos no âmbito da sua circunscrição.” O Mapa confirmou que a parationa-metílica tem uso agrícola proibido no Brasil desde 2015. E informou que a Anvisa monitora resíduos de agrotóxicos no âmbito do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para).

Consultada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) relatou que, no período de 2013 a 2022, a parationa-metílica, proibida desde 2015, foi pesquisada em 18.429 amostras de alimentos vegetais coletadas no âmbito do Para, tendo sido detectada em seis amostras (três coletadas em 2014 e três coletadas em 2015). A substância foi proibida por determinação da Anvisa devido a características mutagênicas.

“Como o imazapique não está incluído no escopo de substâncias prioritárias do Para, não há resultados da pesquisa deste ingrediente ativo em amostras coletadas”, informou a Anvisa.

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo disse à reportagem para contatar a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo de São Paulo, que, por sua vez, alegou que o assunto é da alçada do Mapa.

O estudo Biological responses to imazapic and methyl parathion pesticides in bioinspired lipid membranes and Tilapia fish pode ser lido [Aqui] .


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].