A guerra silenciosa do Brasil contra as mulheres

No Brasil, quatro mulheres são mortas por feminicídio todos os dias. Por trás das estatísticas está uma crise mais profunda, onde a violência de gênero colide com racismo, legados coloniais e desigualdade territorial, deixando mulheres negras, indígenas e rurais em maior risco

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Quando a jornalista brasileira Vanessa Ricarte foi assassinada por seu ex-noivo, o caso dominou brevemente a atenção nacional. Ricarte tinha 42 anos e, segundo investigadores policiais, já havia sofrido abusos e períodos de cativeiro antes do assassinato. Amigos depois descreveram um relacionamento que se tornou cada vez mais controlador. O assassinato, por mais devastador que tenha sido, não surgiu do nada.

Como muitos casos de feminicídio no Brasil, a violência não começou com o assassinato, ela cresceu lentamente, por meio de intimidação, controle e abusos crescentes, muito antes de se tornar fatal.

Em todo o país, esse padrão se repete com uma frequência inquietante.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram mortas em feminicídios no Brasil em 2025. Isso significa que quatro mulheres morrem todos os dias. Esse número representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, e é o maior registrado desde que o feminicídio foi formalmente reconhecido como crime na lei brasileira em 2015.

Desde que a lei entrou em vigor, pelo menos 13.703 mulheres foram mortas simplesmente por serem mulheres. Nos últimos cinco anos, o número de casos aumentou cerca de 14,5%. Entre 2021 e 2024, 97,3% dos casos de feminicídio foram cometidos exclusivamente por homens.

Só os números não explicam o que está acontecendo. Em muitos casos, a violência cresce lentamente: intimidação, insultos, coerção, isolamento e ameaças.

O que começa como controle psicológico pode escalar para agressão física. Quando as autoridades tomam conhecimento da situação, o perigo geralmente já é grave.

Jesem Orellana, epidemiologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontou uma lacuna crítica entre legislação e prevenção. Ele disse:

O Brasil possui um arcabouço legal robusto para proteger as mulheres, incluindo penalidades severas para feminicídio. No entanto, milhares de mulheres foram mortas nos últimos anos. Apesar das leis rigorosas, fizemos pouco progresso na prevenção eficaz, especialmente na saúde pública.

Fazemos pouco na atenção primária e temos dificuldade em reconhecer e denunciar diferentes formas de violência contra as mulheres. Isso leva à falta de intervenção precoce ou oportuna para prevenir o feminicídio.

Fora do Brasil, a violência no país é frequentemente associada ao tráfico de drogas ou ao crime organizado. O feminicídio conta uma história diferente. A maioria dos assassinatos acontece dentro de relacionamentos íntimos.

Dados analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que quase 60% das vítimas são mortas por um parceiro atual, enquanto cerca de 21% são assassinadas por ex-parceiros. Em outras palavras, a pessoa responsável geralmente é alguém em quem a vítima confiou, um parceiro, um marido ou ex-parceiro.

A localização do crime reflete essa realidade.

Em 66,3% dos casos de feminicídio, o assassinato ocorre dentro da própria casa da vítima. As armas envolvidas raramente são sofisticadas. Facas e outros objetos cortantes representam quase metade de todos os casos, enquanto armas de fogo são usadas em cerca de um quarto de água.

A pesquisa de Orellana destacou como sinais de alerta muitas vezes são visíveis muito antes do crime. Ele disse:

A maioria dos feminicídios, especialmente aqueles ligados à violência doméstica, são precedidos por problemas de relacionamento ou financeiros. Ciúmes e senso de pertença às mulheres são comuns e devem ser tratados como questões de saúde mental. A dependência financeira também desempenha um papel importante, muitas mulheres são impedidas de trabalhar, o que aumenta sua vulnerabilidade a abusos psicológicos e físicos, incluindo tentativas de feminicídio.

Ele acrescentou que a violência frequentemente se intensifica quando mulheres tentam sair:

É frequentemente nesse contexto de violência extrema que as mulheres decidem terminar o relacionamento, e o ciclo de ameaças e agressão se intensifica. Alguns obtêm medidas de proteção, mas outros ainda são mortos, mesmo sendo minoria, apesar dessas proteções.

A dimensão racial do feminicídio

As estatísticas também revelam profundas disparidades raciais.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, enquanto 36,8% eram brancas. A violência de gênero no país não pode ser separada de sua longa história de desigualdade racial e exclusão social.

A demógrafa Jackeline Ferreira Romio,analisada pelo veículo independente Outras Palavras, argumenta que o feminicídio deve ser examinado pela interseção de raça, gênero e classe. Ela disse:

Feminicídio é uma violência baseada no ódio.

Quando o racismo se cruza com a misoginia, a violência se intensifica, deixando mulheres que já enfrentam discriminação ou pobreza em risco muito maior de violência letal.

Observe onde os casos ocorrem e as desigualdades ficam mais claras. Mulheres que vivem em bairros urbanos periféricos, regiões rurais ou comunidades historicamente marginalizadas frequentemente enfrentam os maiores níveis de violência, tendo o menor acesso à proteção institucional.

Nesse sentido, o feminicídio não é apenas uma questão de gênero, é também um problema político e histórico moldado por legados do colonialismo e da desigualdade estrutural na sociedade brasileira.

Mulheres indígenas e violência colonial

Para as mulheres indígenas, a violência está frequentemente ligada a histórias mais longas de desapropriação colonial e disputas contemporâneas por terras.

Análises da plataforma Gênero e Número mostram que os relatos de violência física, psicológica e sexual contra mulheres indígenas mais que triplicaram entre 2014 e 2023. No mesmo período, a violência sexual, muitas vezes afetando meninas, quase quadruplicou.

Entre 2003 e 2022, as mortes violentas de mulheres indígenas aumentaram cerca de 500%.

A socióloga indígena, Pagu Rodrigues, argumenta que essa violência não pode ser explicada como parte das tradições culturais indígenas. Em vez disso, reflete séculos de violência colonial e patriarcado. Ela disse:

A violência contra as mulheres não é cultura indígena, faz parte de um processo colonial de violência, de patriarcado.

Em muitos territórios, a violência está intimamente ligada a conflitos por terras e recursos naturais. As mulheres indígenas frequentemente assumem papéis de liderança na defesa de suas comunidades e territórios, o que pode colocá-las em situações de risco elevado.

Rodrigues observa que a violência sexual às vezes é usada deliberadamente como intimidação. Ela explicou:

O estupro tem sido usado como estratégia para desmobilizar líderes indígenas.

Onde a mineração e grandes projetos de infraestrutura, a expansão do agronegócio e outras indústrias extrativistas avançam para terras indígenas, a violência de gênero pode se entrelaçar com conflitos ambientais e territoriais.

Geografia e ausência institucional

Onde uma mulher vive no Brasil pode influenciar se há proteção significativa disponível.

Municípios menores, com menos de 100.000 habitantes, registram as maiores taxas de feminicídio do país, cerca de 1,7 por 100.000 mulheres, em comparação com a média nacional de 1,4.

Embora apenas 41% das mulheres brasileiras vivam nessas cidades, elas representam cerca de metade de todos os feminicídios registrados em todo o país.

Parte da explicação está na ausência de serviços especializados. Mais de 70% desses municípios não possuem delegacias de polícia feminina, abrigos ou centros de apoio dedicados.

Orellana enfatizou que a desigualdade territorial aumenta diretamente o risco letal:

Em municípios com menor presença estatal, seja em segurança, saúde, judiciário ou serviços sociais, as chances de mulheres serem mortas são ainda maiores, porque não há apoio seguro ou oportuno.

Essas mulheres são frequentemente revitimizadas pelo Estado, que às vezes não só nega proteção, mas também as culpa, revelando outra face do machismo estrutural e do patriarcado.

Para mulheres em áreas rurais, buscar ajuda envolve viajar longas distâncias ou denunciar às autoridades que ainda são vítimas de violência doméstica como um assunto privado, e não um crime. A diferença entre a proteção legal e a realidade cotidiana pode ser grande.

As leis ficam aquém

O Brasil é frequentemente reconhecido por ter um dos marcos legais mais abrangentes da América Latina para combater a violência contra as mulheres.

No centro está a Lei Maria da Penha, promulgada em 2006, que comemora seu vigésimo aniversário este ano. A lei continua sendo o principal instrumento legal do país para combater a violência doméstica e familiar. Mas o problema não é mais criar novas leis, mas sim a capacidade de implementá-las de forma eficaz.

Orellana argumentou que a falha é sistêmica e requer ação coordenada:

O feminicídio não é um problema que possa ser enfrentado de forma eficaz por um único setor. Exige ação coordenada entre assistência social, saúde pública, judiciário e segurança pública.

Ainda não entendemos que a prevenção exige respostas integradas e intersetoriais e uma mudança cultural na forma como reconhecemos a violência contra as mulheres.

Evidências analisadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 13,1% das mulheres mortas em casos de feminicídio já haviam obtido ordens judiciais anteriormente. O sistema de justiça já havia reconhecido o risco, mas a proteção não conseguiu evitar o assassinato.

Paula Bevilacqua, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), disse que a violência em si está em constante mudança.

Falando no Seminário Amazônico sobre Vigilância de Inteligência sobre Feminicídio, ela observou:

Sempre haverá o fato de que os dados estão desatualizados. Sempre haverá uma nova violência recriada, inventada ou reinventada.

Alguns pesquisadores acreditam que a prevenção deve começar mais cedo. A mídia pode desempenhar um papel seguindo as diretrizes de reportagem promovidas pela ONU Mulheres, evitando narrativas que justificam implicitamente a violência ou sensacionalizam as vítimas.

Os profissionais de saúde também poderiam estar melhor preparados para identificar abuso psicológico, que muitas vezes aparece muito antes da violência física. A detecção precoce pode tornar a intervenção possível.

Um sistema que normaliza a violência

Alguns estudiosos argumentam que o feminicídio persiste não apenas por causa dos perpetradores individuais, mas porque formas anteriores de violência são frequentemente toleradas.

No mesmo seminário, Danúzia Rocha, professora da Universidade Federal de Acre, descreveu o feminicídio como a fase final de um ciclo de violência que repetidamente não é controlado. Ela disse:

O feminicídio acontece porque os homens têm permissão para matar. Essa morte é legitimada.

A tolerância ao assédio, intimidação ou agressão física pode permitir que a violência escale com o tempo.

Bevilacqua citou um caso polêmico em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, onde um desembargador liberou um homem acusado de estuprar repetidamente uma menina de 12 anos, argumentando que os atos ocorreram “por amor” e com consentimento.

Para Bevilacqua, casos como este ilustram como o sexismo e o preconceito ainda podem moldar decisões dentro do sistema de justiça. Quando as instituições deixam de responder de forma consistente, a impunidade torna-se mais provável.

A dimensão da crise

Até mesmo medir o feminicídio continua sendo um desafio.

Segundo Fiocruz, o Brasil ainda carece de um sistema nacional totalmente integrado capaz de registrar com precisão essas mortes. As informações frequentemente são espalhadas por registros policiais, sistemas de saúde e bancos de dados judiciais, o que pode resultar em subnotificação e inconsistências na classificação.

A violência em si está em constante evolução. O assédio digital e as ameaças online passam a fazer cada vez mais parte de relacionamentos abusivos, criando desafios adicionais para instituições que tentam monitorar riscos.

Em resposta, Fiocruz lançou uma rede nacional de observatórios de monitoramento e prevenção conhecida como Vigifeminicídio. Coordenada pela Fiocruz Brasília, a iniciativa visa reunir pesquisadores, autoridades públicas e organizações da sociedade civil para estratégias de monitoramento e prevenção.

Orellana, coordenador do Vigifeminicídio, explicou como novas ferramentas de monitoramento podem melhorar a prevenção:

Desenvolvemos uma estratégia rápida e de baixo custo para rastrear e caracterizar assassinatos de mulheres, permitindo coletar dados abrangentes em poucos meses, algo que as estatísticas oficiais não conseguem fazer devido à subnotificação. Essa é a principal vantagem do Vigifeminicídio: ele permite o monitoramento quase em tempo real dos padrões de violência letais.

No entanto, ele alertou que essas ferramentas ainda são subutilizadas politicamente:

Com esses dados, poderíamos agir de forma mais eficaz na prevenção. Mas, infelizmente, não nos é permitido avançar nessa direção, apesar da conscientização dentro dos ministérios federais. A violência contra as mulheres também é frequentemente ignorada nas chamadas para financiamento de pesquisas, o que reflete os poderosos efeitos do machismo estrutural no Brasil.

Além das estatísticas

No fim das contas, o feminicídio no Brasil não pode ser compreendido apenas por estatísticas. Os assassinatos refletem profundas desigualdades estruturais, moldadas pela história colonial, hierarquia racial, marginalização econômica e normas patriarcais enraizadas.

Mulheres negras, indígenas e aquelas que vivem em áreas rurais ou marginalizadas continuam sendo as mais expostas e menos protegidas. A vulnerabilidade deles não é acidental; É produzido por sistemas que distribuem segurança e justiça de forma desigual.

Enfrentar o feminicídio exige mais do que punição criminal, exige mudanças estruturais de longo prazo, desde a educação até a reforma institucional e políticas públicas mais fortes, reconhecendo a violência muito antes de se tornar fatal.

Até lá, a guerra silenciosa do país contra as mulheres continua, muitas vezes invisível, desenrolando-se atrás das portas fechadas, em lares onde os sinais de alerta antes eram pequenos o suficiente para serem ignorados.


Fonte: YourVoiz

O combate ao feminicídio e às formas de dominação masculina

feminicidio

Por Luciane Soares da Silva

Para todas as mulheres, o Estado deve ser laico. E devemos refletir sobre esta frase a considerar o que esta sentença significa na conjuntura brasileira nestes últimos quatro anos. Principalmente para as mulheres que vivem sob regras religiosas restritivas. Não é mais possível negar os abusos que ocorreram (e ocorrem) em nome de Deus. Não só contra mulheres, mas contra crianças. Observando o sagrado de cada um, combater estes abusos deveria ser também um caminho concreto para avançarmos nas pautas feministas.

Frequentemente por uma distorção lamentável de fundamentalistas religiosos, cria-se um fosso entre religião e a luta pela vida das mulheres. E a partir desta distorção, inaugura-se o reino do obscurantismo quando falamos destes temas. Projetos como “Escola sem Partido” e o combate ao que chamam “ideologia de gênero” são apenas alguns exemplos de nossa regressão nos últimos quatro anos. A ausência de educação sexual integral nas escolas perpetua o desconhecimento de crianças e adolescentes sobre seu corpo e coopera para naturalização do abuso. Quando não há informação, como reconhecer quando um tio, padrasto, padre, pastor, irmão ou “amigo” da família, o praticou?

Mulheres vivem sob regimes de dominação. E esta sentença não pode ser relativizada. E por que? Pelos inúmeros casos de feminicídio, pela crueldade envolvendo estes crimes (filhos mortos como vingança após uma separação, mortes que desfiguram o corpo, processos judiciais que retiram os direitos das mulheres e comprometem um sustento digno de sua família ), pelo regime de trabalho no qual o assédio é uma constante, pelas diversas formas de violência cotidiana contra mulheres.

O aborto, cuja discussão ainda é um tabu em nossa sociedade, constitui uma destas violências. Não preciso repetir o trauma vivido por uma mulher que, por qualquer razão privada (se trata exatamente de seu corpo), precisa interromper uma gravidez. Mas seria preciso dizer que não são as mulheres que abortam seus filhos. Pois uma vida não é concebida apenas pela mulher. Qualquer pesquisadora sabe que ao entrar em áreas de periferia ou da classe trabalhadora irá encontrar famílias chefiadas por mulheres. Nossa luta é para alterar uma percepção estranhamente comum sobre aborto como uma “solução fácil”. Nada está mais longe da verdade a considerar a morte de mulheres ao realizarem um aborto inseguro. E neste caso, são as mulheres negras, pobres e com pouca escolaridade que padecem em um ambiente clandestino e insalubre.

A culpabilização de uma mulher que sofre violência doméstica (as vezes ainda é julgada depois de morta), constitui parte desta dominação masculina. Costumamos aplicar uma régua moral que justifica o comportamento masculino. Basta procurar os comentários à época do assassinato de Eliza Samúdio. Entre as conversas que ouvi no Rio de Janeiro, “não ser feito de otário” era parte das justificativas para o ato indefensável cometido pelo goleiro Bruno. Um dos milhares de crimes praticados contra o corpo de namoradas, esposas, ex companheiras.

Dúvidas são mais constantes que a proteção do Estado. A atualização da frase “com que roupa você estava” segue entre nós. Em fevereiro deste ano, lia sobre o desaparecimento de uma jovem em uma pacata cidade dos Estados Unidos. Um crime sem solução, ocorrido 20 anos atrás. Em uma terça feira, início do mês, enquanto eu postava uma frase sobre a banalização da morte de mulheres, recebi a notícia da morte de Yasminny Ribeiro, farmacêutica de 28 anos. Ela voltava para casa em Sumidouro, na região serrana do Rio de Janeiro, quando foi morta com quatro tiros no rosto. Em uma cidade com menos de 20 mil habitantes, uma notícia desta causa um trauma coletivo. O ex-namorado confessou o crime. Ele tem 32 anos. E segundo as investigações, premeditou o ato. E tentou fugir.

Este fato teve dois impactos imediatos sobre minha psique: estar escrevendo sobre casos de feminicídio, tentando mostrar esta teia que nos amarra sem que tenhamos exatidão sobre quantas de nós são mortas diariamente naquele instante, foi o primeiro. O segundo foi o abalo por conhecer e nutrir grande admiração pelo padrasto de Yasminny, valoroso lutador público da justiça do Rio de Janeiro com o qual convivo desde 2020. Foi como um soco intenso no estômago. Foram dias com o pensamento na família, lendo dez vezes a mesma matéria. O quão perto sempre estamos de um ato como aquele?

Quando saímos da letra fria da lei, da manchete de mais um caso de violência, quando saímos das estatísticas, tudo dói.  Dói saber que Yasminny estava vivendo a plenitude de sua vida, que ela tinha uma mãe, que sonhava ser mãe ou uma grande profissional de sua área. Que estudara, que enfrentara toda a violência dos olhares de cobiça sobre sua juventude para formar-se e ter sua própria farmácia. Víamos mais uma família destroçada. Por motivo fútil, infinitamente fútil. Um homem ferido em seu ego. Quando não é esse o caso?

Estas mulheres têm uma história, têm uma família, alguém que as ama e a quem amam. Então, longe de soar algo sentimental ou do terreno do privado, estou reivindicando duas percepções: o feminicídio tem características muito específicas. Não é fruto de maldade intrínseca ou doença mental. Em segundo lugar, e mais importante, uma das formas mais potentes de combater a morte de mulheres, é combater a desigualdade a que foram submetidas historicamente. E combater as formas de dominação familiar, jurídica, religiosa.

Não haverá mudança real se seguirmos evitando tocar em assuntos como aborto, namoros abusivos, divórcios violentos, mortes cruéis e outros temas no almoço de domingo. Este fantasma da paz familiar tem nos custado um preço mais alto do que podemos pagar.

Será preciso ouvir mais, acolher mais, politizar mais. E estruturar de forma eficiente as políticas de suporte às mulheres. Que, a considerar a cidade de Campos, estão aquém do aceitável.


Luciane Soares da Silva é Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Cidade Cultura e Conflito NUC UENF e também chefia o Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado  LESCE/UENF