A erosão na Praia do Açu: EIA do Terminal de Regaseificação como instrumento de isenção de responsabilidades

tg

Ao longo dos últimos anos abordei de forma relativamente intenso o processo de erosão que está consumindo a faixa central da Praia do Açu em um processo erosivo que começou a se intensificar a partir da construção dos dois terminais do Porto do Açu. Uma das facetas deste processo é a inexistência de responsabilizações por um processo que estava previsto nos estudos de impactos ambientais realizados pela empresa Ecologus para a obtenção das licenças necessárias para a construção do Canal de Navegação (CN) e da Unidade de Construção Naval (UCN).

Ainda em Outubro de 2014 participei de uma audiência pública organizada pela Câmara Municipal de São João da Barra que procurava discutir o processo de erosão em curso na Praia do Açu e de sua possível relação com a implantação do Porto do Açu [1]. Naquela audiência tive a oportunidade de ouvir a apresentação de um relatório que foi preparado a pedido da Prumo Logística Global pelo professor Paulo César Rosman da COPPETEC da UFRJ (ver imagens abaixo).

 

Eis que agora em pleno processo do licenciamento ambiental do Terminal de Regaseificação do Porto do Açu descubro que o professor Rosman continuou atuando na região e “realizou uma investigação profunda do processo erosivo no litoral do Distrito de Praia do Açu” segundo o que consta do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) preparado pela CPEA – Consultoria, Planejamento e Estudos Ambientais (ver imagem abaixo) [2].

rosman 2

Interessante notar que diferente do primeiro diagnóstico oferecido oferecido pelo professor Rosman em 2014 que atribuiu como causas prováveis do processo erosivo na Praia do Açu “a rotação de cordões arenosos por alteração na direção de ondas” ou ainda pela autação de “um fenômeno de muito maior escala“, agora a causa seriam “as ondas de tempestade vindas de Sudeste“.  Mais interessante ainda é que em ambos os cenários diagnósticados pelo Prof. Rosman, o impacto das estruturas perpendiculares à linha da costa que compõe os terminais do Porto do Açu é negligenciado em nome de fenômenos “naturais”. 

Diante dessa absolvição é que acho altamente curiosas as propostas que constam do EIA apresentado pela CPEA alegadamente oriundas dos estudos do Prof. Rosman para que seja feito um engordamento da Praia do Açu e que seja construído um quebra-mar submerso em uma extensão de 2 km (ver imagens abaixo).

E por que acho isso curioso? Ora, como nada que se refere ao Porto do Açu vem na base do cafézinho grátis, essas sugestões parecem indicar que há algum angu neste caroço de aparente benevolência com os habitantes da Barra do Açu. 

De toda forma, como o EIA do Ramal de Gaseificação traz a lista dos relatórios produzidos pela equipe do Prof. Paulo Cesar Rosman sobre o processo erosivo ocorrendo na Praia do Açu, agora fica mais fácil que se requeira acesso aos mesmos para que se possa produzir uma análise crítica do que os mesmos apontam em relação ao fenômeno (ver imagem abaixo).

rosman 1

Uma curiosidade final que encontrei no EIA foi a presença do Prof. Ricardo Hirata, vice-diretor Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas da Universidade de São Paulo na equipe técnica que preparou o relatório no tocante ao chamado meio físico.  Para quem não se lembra do Prof. Hirata ele foi contratado pela defunta LL(X) do ex-bilionário Eike Batista para avaliar os impactos causados pelo processo de salinização causado pela dragagem realizada para a implantação do Porto do Açu [3].  Há ainda que se lembrar que quando instado pela imprensa a dar informações sobre os immpactos do processo de salinização, o Prof. Hirata declinou em razão de supostas regras de confidencialidade  que envolveriam sua contratação pela LL(X) [4].

 


[1] https://blogdopedlowski.com/2014/10/02/audiencia-na-camara-de-sao-joao-da-barra-mostra-populacao-do-acu-disposta-a-cobrar-solucoes/

[2] http://www.cpeanet.com.br/

[3] http://br.reuters.com/article/businessNews/idBRSPE96A03520130711

[4] https://blogdopedlowski.com/2014/08/26/da-serie-procura-se-os-resultados-dos-estudos-da-usp-sobre-salinizacao-no-porto-do-acu/

 

Rio Doce pós-TsuLama da Samarco: cadê a prometida ressurreição, Dr. Rosman?

rio doce

No dia 28 de  Novembro de 2015, o Prof. Paulo Rosman do COPPETEC/UFRJ deu uma entrevista à rede inglesa BBC com uma previsão que gerou muita polêmica nas redes sociais. Nessa previsão o Prof. Rosman indicou a sua crença numa eventual ressurreição do Rio Doce até o final deste mês de Abril, ou seja, cinco meses após a data da entrevista (Aqui!).

ressurrição

As reações à entrevista dada pelo prof. PauloRosman à BBC sobre a situação criada pelo incidente da Mineradora Samarco em Mariana (Aqui!) não tardaram. Um membro da rede social Facebook resolveu inclusive criar um evento que ele denominou de “Dia da Ressureição do Rio Doce, segundo Paulo Rosman e o MMA”.

ressurreic3a7c3a3o

Pois bem, ontem (28/4) completaram-se os cinco previstos pelo Prof. Rosman, a antecipada ressurreição do Rio Doce não se consumou. E, pior, notícias vindas das regiões atingidas pelo TsuLama da Samarco dão conta que as condições de recuperação dos ecossistemas atingidos continuam bastante lentas, até porque até hoje não foi interrompida a chegada de sedimentos aos sistemas aquáticos que desaguam no Rio Doce.

Além disso, o drama social causado pelo TsuLama tampouco se abateu, pois continuam os problemas com o abastecimento de água potável e persiste o abandono das famílias diretamente atingidas pelo incidente ocorrido em Bento Rodrigues.

Diante desse cenário todo, eu fico me perguntando se BBC vai procurar o Prof. Rosman para que ele nos esclareça porque a ressurreição do Rio Doce se transformou numa previsão furada. Já no caso da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira,  que havia prometido ações para mitigar os efeitos do TsuLama, é provável que a maior preocupação atual dela seja arrumar as gavetas com o iminente impeachment da presidente Dilma Rousseff.

E pensar que depois dessa tragédia toda a grande solução que está sendo preparada em Brasília é abolir o processo de licenciamento ambiental no Brasil.  Se isso se consumar, o mais provável que o TsuLama da Samarco seja apenas o primeiro de uma longa série de incidentes mortais. E ainda sem direito à ressurreição, seja dos mortos ou dos ecossistemas naturais.

Novo licenciamento do Porto do Açu: meu nome é dragagem, mas pode me chamar de negação da erosão

Graças a um atento leitor deste blog pude acessar e baixar no site do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) o Relatório de impacto Ambiental (Rima) preparado pela empresa  de consultoria Masterplan contratada pela Prumo Logística para viabilizar o processo de licenciamento ambiental da dragagem do Terminal 1 do Porto do Açu.

drag 1

O documento que servirá de base para as discussões (discussões?) que deverão ocorrer na audiência pública que deverá ocorrer em São João da Barra é um respeitoso calhamaço de 2.221 páginas, sendo 1.218 delas compostas por anexos ao documento principal.

A primeira informação que me chamou a atenção se refere ao total de material a ser dragado. Em qualquer dos três cenários apresentados, o volume de material que será removido do assoalho oceânico é, digamos, gigantesco como mostra a imagem abaixo, pois vai da ordem de 35 milhões a 39 milhões de metros cúbicos de material dragado.

drag 2

A coisa para mim começou a ficar mais interessante ao encontrar os dois mapas de influência (direta e indireta) desta mega dragagem. Vejamos primeiro o mapa da influência direta e depois o da influência indireta.

Em ambos os mapas, fica demonstrado que a Praia do Açu, atualmente atingida por um forte processo de erosão será afetada pela dragagem que está sendo proposta para aprofundar o canal de navegação e a área de acesso ao Terminal 1 do Porto do Açu. As razões para isso são várias, mas eu eu diria que, como o próprio RIMA mostra, uma alteração duradoura será a alteração da dinâmica de circulação de sedimentos naquela porção do litoral sanjoanense. É que como o volume de material removido será jogado em alto mar, o provável é que haja um aumento da velocidade das correntes (principal e deriva).

Mas, curioso que sou, fui procurar se havia no RIMA alguma menção ao processo de erosão já em curso na Praia do Açu, e não deu outra,  havia menções explícitas ao problema que muitos, a começar pelo o RIMA preparado pela OS(X) para licenciar o canal que agora deverá ter sua dragagem licenciada,  associam à construção dos dois terminais do Porto do Açu.

A primeira menção significativa que eu encontrei no RIMA acerca da erosão em curso na Praia do Açu aparece na imagem abaixo, onde está  dito explicitamente que a erosão em trechos da Praia do Açu seria resultado da “ocupação antrópica” que “interferiu na dinâmica natural da linha de costa”.drag 4 erosão

Antes que alguém se anime a pensar que, finalmente, a Prumo Logística se animou a finalmente reconhecer sua parcela de participação no processo de erosão que está consumindo a Praia do Açu, eu aviso logo que este não é o caso. É que na mesma parte do RIMA em que a imagem se encontra, encontrei uma descrição acerca do problema da erosão que, para todos os fins, reafirma o que está num relatório bastante discutível que foi preparado pelo engenheiro e professor da COPPETEC/UFRJ Paulo César Rosman a pedido da própria Prumo Logística, e que foi transformado num tratado científico para sancionar a falta de responsabilidade da empresa no problema da erosão.

Uma possível razão para explicar tamanho alinhamento entre o documento apresentado pelo próprio Prof. Rosman na audiência pública realizada na Câmara Municipal de São João da Barra  no já distante dia de 01 de outubro de 2014 (Aqui!), e o que é dito no RIMA da dragagem pode ser encontrado na apresentação da equipe responsável por sua confecção.  É que olhando o grupo técnico que preparou o RIMA da dragagem do Porto do Açu, verifiquei que o Prof. Rosman é identificado como o membro responsável pela avaliação da modelagem da hidrodinâmica (ver imagem abaixo). Em outras palavras,  o Prof. Rosman está confirmando no RIMA, o que ele mesmo disse no relatório com o qual a Prumo Logística vem se isentando de quaisquer responsabilidades sobre o problema da erosão na Praia do Açu!

drag 7 rosman

Ainda em relação ao Prof. Rosman, verifiquei que o seu Curriculum Vitae ocupa 70 páginas do RIMA destinado a apresentar a capacitação da equipe que preparou o documento (que no seu conjunto ocupa 15o páginas), o que efetivamente demonstra a importância do renomado pesquisador para a validação da competência de todo o grupo.

Agora, duas coisas que achei peculiar sobre o RIMA e a empresa que o confeccionou. A primeira coisa é que apesar de informar que haverá uma seção para apresentar as referências bibliográficas usadas na preparação do documento, não encontrei a referida seção no documento postado no site do Inea. Essa ausência me impediu, por exemplo, de verificar quem é o autor identificado no corpo do texto como “Menezes (2014)” e qual é o título do trabalho que este autor ou autora produziu, e que corroboraria o relatório apresentado na audiência pública realizada na Câmara de São João da Barra.

Já a segunda coisa que considero peculiar é o fato de que no site oficial da  empresa de consultoria Masterplan, na janela relativa a “alguns clientes” (Aqui!) quem aparece listado não é a Prumo Logística Global, mas sim o Inea e a Secretaria Estadual do Ambiente (Sema) (ver imagem abaixo!).

masterplan

Uma alma mais ingênua poderia me perguntar se o fato do Inea e da Sema serem ao mesmo tempo os licenciadores da dragagem do Porto do Açu e clientes da empresa que preparou o RIMA que será usado para obter as licenças não cria um conflito de interesses. A minha resposta a esse pergunta hipotética seria a seguinte: não é que parece?

Para quem também quiser acessar e baixar o RIMA que será discutido na audiência do 27.01, basta clicar  (Aqui!).

Finalmente, eu diria para que os moradores da Barra do Açu deveriam se organizar para participarem dessa audiência para cobrar explicações claras e diretas para os riscos visualizados para a estabilidade da linha de praia nas áreas de influência desta dragagem. É que, como mostrado nos mapas, a Praia do Açu estará sob efeitos direto e indireto. E é ai que mora o perigo! 

E agora está reconhecido que a ressurreição do Rio Doce não se dará em cinco meses. Alguém se surpreende?

rio doce

A matéria abaixo publicada pelo jornal Estado de Minas traz uma fotografia mais sóbria das expectativas de recuperação da bacia do Rio Doce após a invasão do TsuLama da Mineradora Samarco (Vale +BHP Billiton). Interessante notar que um dos especialistas ouvidos foi o professor Paulo César Rosman da COPPETEC/UFRJ que causou um certo frisson ao anunciar em uma entrevista à BBC a ressurreição do Rio Doce para um período de cinco meses (Aqui!). Na matéria mostrada abaixo, o Prof. Rosman é bem mais conservador em seus prognósticos, o que, convenhamos, já deveria ter sido na primeira entrevista.

O ponto que a matéria levanta e eu concordo integralmente é que os desafios colocados pelo TsuLama da Mineradora Samarco só serão solucionáveis em curto, médio e longo prazos. E mais importante, que dar resposta à crise social causada pelo TsuLama será apenas o primeiro passo de uma longa caminhada.

Mas atenção, essa caminhada só será possível com a permanente observação de membros socialmente comprometidos da comunidade científica e da sociedade civil, especialmente dos municípios atingidos pelo TsuLama. É que se depender do Estado brasileiro e das mineradoras (Samarco, Vale e BHP Billiton), toda essa lama será imediatamente empurrada para debaixo do tapete.

Reparação dos estragos em Mariana e no Rio Doce pode durar uma década

Balanço da catástrofe aponta desafios de curto, médio e longo prazos e indica que curar a ferida humanitária é só a primeira meta de uma longa missão

Tulio Santos/EM/D.A Press

Uma longa missão de recuperação, de alto custo, com ações que vão exigir sucessivos anos de comprometimento, público e privado. Essa foi uma das poucas certezas que ficaram depois das 16h20 de 5 de novembro, quando a Barragem do Fundão estourou, em Mariana, na Região Central de Minas. De lá até a foz do Rio Doce, no Espírito Santo, a enxurrada de 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério fez vítimas, causou prejuízos em escala ainda não estimada e deixou um imenso rastro de devastação. Passado um mês da tragédia, autoridades trabalham para cobrar da Samarco, proprietária da barragem, e de suas controladoras, as gigantes Vale e a anglo-australiana BHP, reparação dos estragos. Com a catástrofe ambiental ainda se expandindo, encontrar uma solução humanitária para as mais de 700 pessoas atingidas – muitas delas ainda vivendo em hotéis – é a medida mais urgente. A médio prazo, o desafio é evitar ainda mais devastação no Rio Doce. Mas chegar perto da recuperação de toda a bacia hidrográfica é tarefa bilionária, para pelo menos uma década.

Especialistas explicam ainda que a recuperação vai exigir diferentes medidas, a depender da localização do estrago. “Obviamente, nas áreas de montante (mais próximas da barragem), mais impactadas, onde os rejeitos passaram com volume e velocidade maiores, a recuperação será mais lenta. Até porque os resíduos extrapolaram a calha dos rios Gualaxo do Norte e do Carmo, e ainda há muito sedimento nas margens”, explica o professor Paulo Cesar Rosman, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que tem estudos sobre a Bacia do Rio Doce. Nos trechos seguintes, no médio Rio Doce, onde há três usinas hidrelétricas que contiveram parte dos sedimentos, o prazo para restauração deve ser um pouco menor. Na foz, é possível que, passado o período chuvoso, em abril, a água retome os índices normais de turbidez e oxigenação, com a sedimentação da lama e de metais pesados, como chumbo, ferro, alumínio e manganês, afirma o professor. Esses elementos ainda estão acima dos limites toleráveis, segundo relatório do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), divulgado no último dia 30.

O início do desafio ambiental, segundo a presidente do Ibama, Marilene Ramos, é conter o resíduo de rejeitos que ficou na área da barragem estourada, além de reduzir o volume que sobrecarrega o reservatório de Santarém. A estrutura, também da Samarco, foi afetada pela lama no dia do rompimento. “O objetivo é evitar novos carreamentos, principalmente porque estamos em pleno período de chuva”, afirma. Segundo ela, a empresa se comprometeu a construir diques drenantes, em 90 dias, para essa finalidade. Será preciso ainda remover e destinar adequadamente o rejeito que extravasou a calha dos cursos d’água em cerca de 70 quilômetros de áreas de preservação permanente, para regeneração da flora e melhoria da turbidez da água. Além disso, “é preciso manter o trabalho de proteção da ictiofauna e também das tartarugas marinhas e mamíferos aquáticos na área costeira”, lista Marilene.

O custo de R$ 20 bilhões para a recuperação da Bacia do Rio Doce foi estimado em ação civil pública ajuizada pela Advocacia-Geral da União (AGU), em conjunto com os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Segundo a presidente do Ibama, a restauração dos processos ecológicos, como crescimento de vegetação até a idade adulta e repovoamento da fauna, pode exigir 10 anos, “embora não seja possível prever quando o meio ambiente vai resgatar sua condição de normalidade.”

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/12/06/interna_gerais,714685/reparacao-dos-estragos-em-mariana-e-no-rio-doce-pode-durar-uma-decada.shtml

A difícil ressurreição pós-incidente da Mineradora Samarco

Este blog vem recebendo muito tráfego por causa da entrevista realizada com o Prof. Carlos Eduardo Rezende do Laboratório de Ciências Ambientais  (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que destrinchou algumas das dificuldades para que a previsão feita por outro especialista, o Prof. Paulo César Rosman, da COPPETEC da UFRJ para que a ressurreição do Rio Doce se confirme até o dia 28 de Abril de 2016.

Mas é óbvio que a entrevista do Prof. Carlos Rezende não exauriu o debate, e nem foi essa a minha pretensão, pois o incidente da Mineradora Samarco  (Vale + BHP Billiton) ainda deverá ser alvo de muito debate.

Entretanto, resolvi verificar que os principais jornais de Minas Gerais e do Espírito do Santo estão estampando em suas manchetes no dia de hoje, e verifiquei que a realidade é muito mais complexo do que a nossa tela de computador ou o nosso modelo de circulação oceânica pode querer nos mostrar.

Vejamos as capas dos sítios da internet de O TEMPO, Estado de Minas, Hoje em Dia e do Século Diário estampam na manhã desta 2a. feira (30/11).

Mas se as capas não forem suficientes para elucidar a complexidade do momento por que passam os ecossistemas do Rio Doce e da região costeira do Espírito Santo, a matéria abaixo da Gazeta provavelmente o faça, pois trata da repentina mudança da direção do TsuLama da Samarco que agora se dirige para o litoral sul capixaba por causa da ação dos ventos!

ressurreição 5

De toda forma, como muitas coletas independentes estão sendo feitas é provável que outras provas mais materiais da inviabilidade da ressurreição venham a público até o dia anunciado para que ela ocorra.

 

Pesquisador da UENF responde questões levantadas a partir da leitura da entrevista do Prof. Paulo César Rosman à BBC

Após ler com mais atenção a entrevista que o professor Paulo Cesar Rosman do COPPETEC/UFRJ concedeu à BBC sobre o incidente da Mineradora Samarco (Vale+BHP Billiton) no município de Mariana (MG), este blog conduziu uma entrevista com o Prof. Carlos Eduardo Rezende, professor titular e chefe do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).  Além disso, o Prof. Carlos Rezende é um expert na dinâmica de poluentes metálicos, nutrientes, composição elementar e isotópica da matéria orgânica, e biomarcadores na interface dos ecossistemas terrestres e aquáticos, e tem atuado com intensidade na área de Ecologia Aplicada desde que chegou à Uenf em 1993.

carlos rezende

Além de prestar essa entrevista ao blog, o Prof. Carlos Rezende disponibilizou o seu telefone de contato na Uenf para que sejam feitos contatos diretos acerca dos pontos que ele levanta em sua entrevista. O número de contato do Prof. Carlos Rezende é 22-2748-6080.

Blog do Pedlowski (BP): Em sua entrevista à BBC, o Prof. Paulo César Rosman declarou que “embora especialistas tenham divulgado previsões de danos catastróficos, que incluiriam danos à reserva marinha de Abrolhos, no sul da Bahia, e um espalhamento da lama por até 10 mil m²”. “Além disso, o Prof. Rosman afirmou que os efeitos no mar serão “desprezíveis”, que o material se espalhará por no máximo 9 km e que em poucos dias a coloração barrenta deve se dissipar.” Como o senhor vê essas declarações do Prof. Rosman?

Carlos Eduardo Rezende (CER): Eu notei que o Professor Rosman informou que os efeitos serão desprezíveis, mas não fez qualquer tipo de avaliação quanto ao que é ou não desprezível. O que eu poderia responder sobre isto é que com a redução na penetração da luz teremos certamente uma drástica redução na produção primária, ou seja, fixação de carbono com consequência na cadeia alimentar costeira. Outra coisa, o que é considerado desprezível, a morte de espécies fluviais e marinhas? Não quero sequer entrar na questão socioeconômica em toda região. Bom, quanto ao modelo que ele usou, não vi qualquer informação, e hoje por imagem de satélite já se pode chegar a uma conclusão. Neste momento, precisamos de informações precisas e não foram apresentados números para contestar as afirmações de outros grupos. Este momento é muito delicado e a comunidade acadêmica deve se manifestar, a meu ver, com mais precisão nas suas avaliações técnicas.

BP: O Professor Rosman também declarou á BBC que “para ele, a sociedade e os governos mineiro e federal precisam cobrar de Vale e BHP Billington, donas da Samarco, o processo de reflorestamento e reconstrução ambiental, de custo “insignificante” para as empresas.”.

CER: Custo insignificante em que termos? E os serviços ambientais que foram totalmente alterados ou comprometidos com o TsuLama que foi liberado pelo rompimento da barragem da Samarco? Eu diria que o reflorestamento e a reconstrução ambiental se forem feitos como se deve, precisaríamos de um acompanhamento ao longo de alguns anos para avaliar quando os serviços ambientais serão recuperados (ex.: A recarga das águas subterrâneas foi ou não comprometida?). Eu penso que não se pode tratar a questão ambiental varrendo coisas para debaixo do tapete e a população precisa de readquirir confiança na empresa e nos órgãos ambientais. Este momento deve ser usado como exemplo de pior hipótese, visto que o problema poderá ser repetido se mantivermos a precariedade na fiscalização, pois existem 765 barragens no estado de Minas Gerais, e poucos fiscais realizando este serviço.

BP: O Prof. Rosman declarou ainda que “no caso da ciência as coisas são mais factuais, quantitativas, mais numéricas. No caso do indígena, ele constata e sofre com a “morte” do rio. A diferença é que o rio está morto neste momento, é verdade, mas ressuscitará muito rapidamente, e eles vão poder comprovar isso.” O que o senhor tem a dizer sobre essa previsão de ressurreição que o Prof. Rosman fez?

CER: A minha resposta a esta afirmação é muito simples. Para quem afirma que ciência é quantitativa e mais numérica, precisamos de números, e estes não foram apresentados, mas foram realizadas afirmativas que deveriam vir respaldadas com maiores detalhes. Ao afirmar que em 5 meses tudo estará normalizado, seria fundamental saber o que realmente tínhamos neste sistema antes da passagem dos rejeitos e sabemos que as informações, neste exato momento, são insuficientes.

BP: O Professor Rosman também afirmou que “há muitos exemplos de acidentes muito mais graves e mais sérios do que este da barragem de Mariana. Veja a erupção vulcânica do monte Santa Helena, nos Estados Unidos (em 1980). Foi tudo devastado e destruído, numa área imensamente maior. Você vai lá hoje e vê que os animais voltaram e a mata voltou.” Como o senhor responde a estas afirmações?

CER: Aqui, mais uma vez, há uma tentativa de naturalização do problema ao usar um evento extremo e natural e compará-lo com um que poderia ter sido minimizado com medidas que deveriam estar sendo cumpridas. Para um profissional da área, o Prof. Rosman me parece estar negligenciando um ponto importante na engenharia de reservatórios e de segurança. Além disso, o evento de Itajaí precisa ser detalhado, pois muitas pessoas não conhecem. Os números precisam ser apresentados, e não basta, a meu ver, afirmar que foi maior, sem estabelecer claramente as diferenças entre os eventos.

BP: Na sua entrevista, o Prof. Rosman afirmou também que as fortes chuvas entre novembro e abril “lavarão” o rio Doce, num processo natural. Como o senhor vê essa previsão?

CER: O fato concreto é que parece ter sido esquecido que estamos sobre o efeito do El Niño, e que este fenômeno gera um déficit pluviométrico na região Sudeste, onde os dois estados atingidos pelo derrame da Mineradora Samarco estão inseridos, e que há 3 anos estamos passando por secas prolongadas.

BP: O Prof. Rosman também afirmou que “para se ter uma ideia, a água transparente do mar, costeira, tem tipicamente 5 mg/l de sedimentos em suspensão. A água dentro de uma baía tem tipicamente entre 50 mg/l a 100 mg/l de sedimentos em suspensão. A água de um rio com cor barrenta tem em torno de 500 mg/l de sedimentos de suspensão, são todos dados naturais.”. Nesse caso, há alguma coisa que o senhor gostaria de apontar?

CER: A região estuarina ou marinha do rio Doce não está diretamente associada a uma baía, muito pelo contrário é aberta e ligada diretamente ao oceano, assim 50 a 100 mg/L não é um valor baixo, inclusive estando dentro da faixa encontrada para rios (ex.: rio Paraíba do Sul). Inclusive, para considerarmos legalmente algumas questões, devemos observar a Resolução CONAMA 357/2005 e confirmar se as águas estão em conformidade com os padrões estabelecidos para a Classe I, pois a região é usada para recreação e, portanto, contato primário.

BP: Um aspecto final que eu gostaria de perguntar ao senhor se refere às responsabilidades pelo incidente em Mariana.  No tocante à isto, o Prof. Rosman disso o seguinte “Olha, irresponsabilidade é quando você tem consciência do fato e não faz nada. Tudo é óbvio depois que você já sabe o que aconteceu.”.  Como é que o senhor vê a questão das responsabilidades sobre o incidente que ocorreu em Bento Rodrigues com o rompimento da barragem Fundão da Mineradora Samarco?

CER: Creio que nesta resposta em particular, não houve uma resposta concreta, pois existem informações conflitantes sobre as condições deste e de outros reservatórios segundo informações publicadas em diferentes órgãos de imprensa nacional e internacional. Dai quando ocorrer algum outro rompimento de barragem de rejeitos, haverá ou não responsáveis? Parece-me que sim.

Após ler entrevista na BBC, internauta cria evento para celebrar o dia da ressurreição do Rio Doce

ressurreição

As reações à entrevista dada pelo prof. Paulo César Rosman da COPPETEC à BBC sobre a situação criada pelo incidente da Mineradora Samarco em Mariana (Aqui!) não tardaram. Um membro da rede social Facebook resolveu inclusive criar um evento que ele denominou de “Dia da Ressureição do Rio Doce, segundo Paulo Rosman e o MMA” e a adesão já foi significativa poucos minutos o convite estar disponível.

E o interessante é que a data anunciada para a “ressurreição” é 28 de Abril de 2015. Será que o Rio Doce ressuscita até lá?

Quem quiser aderir ao evento, basta clicar (Aqui!)