As enchentes devastadoras do Brasil atingiram mais duramente a “população negra da periferia”

Os bairros mais pobres de Porto Alegre, muitas vezes mais próximos dos rios e com a pior infraestrutura, sofreram o impacto da crise

sarandi rsHomens olham para uma rua inundada em Sarandi, uma das mais atingidas pelas fortes chuvas em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Fotografia: Anselmo Cunha/AFP/Getty Images

A esposa e os quatro filhos partiram em busca de abrigo com parentes, mas Ferreira, 51 anos, quis ficar: seu pai havia construído a modesta estrutura térrea e ele morou lá a vida toda.

Pela manhã, porém, a água lamacenta chegava até seu peito e ele sabia que não tinha escolha a não ser fugir.

A casa passou quase um mês sob a água fétida, poluída por esgoto, animais mortos, restos de comida e combustível de milhares de veículos submersos.

pessoa vestindo calça e suéter preto fica no portão em frente à casa com uma pilha de tábuas e itens empilhados em frente ao portão

Marcelo Moreira Ferreira. Fotografia: Fornecida

Quando Ferreira regressou numa manhã recente para começar a limpeza, uma mancha castanha a cerca de 1,8 metros acima das paredes ainda marcava a marca da água alta.

Para ajudar a mascarar o fedor, ele acendeu um incenso. Depois examinou a ruína: tudo o que sua família possuía estava em uma imensa pilha de escombros em frente à casa, esperando para ser recolhido.

“Temo que a água suba novamente, mas voltamos porque é o único lugar que temos”, disse ele.

Ferreira, um homem negro, vive em Sarandi, um dos bairros mais atingidos pelas cheias que mataram 175 pessoas, deslocaram centenas de milhares e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais como electricidade e água potável.

E embora os danos tenham afectado milhões de pessoas, a população negra da região foi a mais atingida: pesquisas recentes mostraram que as áreas onde as águas das cheias atingiram o pico mais alto, se espalharam mais e permaneceram por mais tempo foram aquelas com a maior proporção de residentes afro-brasileiros.

“As pessoas dizem: ‘As enchentes atingiram todo mundo’”, disse o geógrafo Paulo Soares, pesquisador do Observatório das Metrópoles, que participou do estudo. “Mas quando refinamos a pesquisa, vemos que – embora tenha atingido a todos de uma forma ou de outra – atingiu alguns grupos com mais força.

Em Porto Alegre e cidades vizinhas, os bairros mais pobres – muitas vezes mais próximos dos rios e com a pior infraestrutura – foram os mais afetados.

Historicamente, as pessoas se mudaram para bairros como Sarandi, e os vizinhos Farrapos, e Humaitá porque eram mais acessíveis.

“E eram mais baratos porque foram inundados durante a grande cheia de 1941”, disse Soares.

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Em 1941, as enchentes duraram 22 dias e inundaram 15 mil casas em Porto Alegre. O principal rio da cidade, o Guaíba, atingiu 4,76 metros de profundidade.

Esse costumava ser o padrão para inundações extremas, mas em maio deste ano todos os recordes foram quebrados. Mais de 300 mil casas foram inundadas só em Porto Alegre e o Guaíba atingiu 5,35 metros no dia 5 de maio.

Outro estudo recente mostrou que a queima humana de combustíveis fósseis e árvores tornava as inundações pelo menos duas vezes mais prováveis, enquanto as falhas nas infra-estruturas agravavam os danos.

Mais de 420 mil pessoas ainda estão deslocadas e 16 mil vivem em abrigos.

O governo federal do Brasil e o governo do estado do Rio Grande do Sul anunciaram pagamentos de ajuda totalizando cerca de £ 1.000 (US$ 1.273) por família às pessoas afetadas, mas para muitos – incluindo Ferreira – os subsídios são apenas uma gota no oceano.

“Eu trabalho como pintor de paredes. Se eu não trabalhar, não recebo salário e não trabalho há um mês. Estamos sobrevivendo graças às doações. Vou ao quilombo buscar comida.”

“Quilombo” é uma palavra de origem bantu que, durante os 350 anos de escravidão no Brasil, referia-se a comunidades estabelecidas por escravos fugitivos.

Agora a palavra também é usada para grupos comunitários negros tanto no Brasil rural quanto urbano. Hoje, existem cerca de 3.500 quilombos autodeclarados no país, incluindo o Quilombo dos Machado, a cerca de 500 metros da casa de Ferreira, onde a população local se reuniu para distribuir doações às famílias afetadas.

Cerca de 20 voluntários se revezam na distribuição de quatro refeições diárias (café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar), cestas básicas e colchões. As doações vêm de todo o país.

Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika, próximo ao Quilombo dos Machado.Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika, próximo ao Quilombo dos Machado. Fotografia: Fornecida

“Estamos operando 24 horas por dia, 7 dias por semana”, disse o líder quilombo, Luiz Rogério Machado, 43 anos, mais conhecido como Jamaika.

Atendendo cerca de 2.500 pessoas por dia, o centro está em funcionamento desde 2 de maio e não tem planos de fechar tão cedo. “Só quando esse inferno acabar”, disse Jamaika.

Jamaika disse que a história recente já mostrou que a população negra do Brasil muitas vezes sofre o impacto das crises de saúde pública.

“Quando veio a pandemia de Covid, já sabíamos qual população iria morrer… Então, com as enchentes não seria diferente. Sabíamos que a mais afetada seria a população negra da periferia”

Soares, o geógrafo, ressaltou que os cidadãos brancos do Rio Grande do Sul foram afetados e, embora os bairros mais atingidos tenham uma proporção maior de negros, eles ainda são predominantemente brancos. Os bairros mais ricos também foram gravemente afetados, assim como a cidade de maioria branca, Eldorado do Sul.

O pesquisador disse que algumas pessoas ficaram surpresas com os resultados do estudo por um motivo específico – até porque o Rio Grande do Sul é amplamente visto como uma das regiões “mais brancas” do Brasil.

Até o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse durante recente visita que não sabia que havia “tantos negros” no estado.

Desde o século XIX, as ondas de imigração alemã e italiana para a região – parte de um projeto governamental para “embranquecer” sua população – tiveram um claro impacto na demografia do Rio Grande do Sul: 78,4% de sua população é branca, segundo dados o censo de 2022 – quase o dobro do valor nacional de 43,5%.

Mas também existem 2,3 milhões de negros – 21% da população do estado, conhecidos como gaúchos.

Os negros gaúchos foram os responsáveis ​​por instituir o que mais tarde ficou conhecido como Dia da Consciência Negra, que este ano será comemorado pela primeira vez como feriado nacional.


Fonte: The Guardian

Um “rolezinho” das periferias

 

O fenômeno do “rolezinho” que ocorre, principalmente nos shoppings paulistas, ainda é um enigma a ser decifrado. Há os que veem nas manifestações a continuidade das mobilizações de junho de 2013. Para outros, as manifestações estão restritas às esferas das brincadeiras e não das de um movimento social. E, ao contrário, há também os que já as enquadram no campo das manifestações políticas e bem organizadas.

 

Editorial da edição 569 do Brasil de Fato 

Em suas sempre profundas e lúcidas análises sobre a sociedade brasileira, Florestan Fernandes dizia que a burguesia deste país primava pelo seu caráter antinacional, antissocial e antidemocrático.

O fenômeno do “rolezinho” que ocorre, principalmente nos shoppings paulistas, ainda é um enigma a ser decifrado. Há os que veem nas manifestações a continuidade das mobilizações de junho de 2013. Para outros, as manifestações estão restritas às esferas das brincadeiras e não das de um movimento social. E, ao contrário, há também os que já as enquadram no campo das manifestações políticas e bem organizadas.

Certamente teremos que esperar um tempo maior para constatar se essas manifestações estão sendo um embrião ou não de formas mais organizadas de intervenção nos espaços públicos e, consequentemente, de atuação política em nosso país.

No entanto, um mérito já deve ser reconhecido aos “rolezinhos”: eles expuseram ao país o acerto e atualidade da assertiva do Florestan Fernandes, citada acima, referente ao caráter da burguesia brasileira.

E, como sempre, a primeira engrenagem que a burguesia põe em movimento dessa estrutura antissocial e antidemocrática é exatamente o aparato repressivo. A ação violenta e indiscriminada com que a polícia militar reprimiu as manifestações, apenas atestam cinco séculos da máxima: “a questão social é caso de polícia”.

Diante da repercussão que obteve a brutalidade policial – e, certamente, com os ensinamentos aprendidos com as mobilizações de junho – se buscou no poder judiciário uma justificativa legal para atender aos interesses da irracional política de segregação social.

Os shoppings obtiveram do poder judiciário liminares que proibiam a reunião desses jovens em seu interior e autorização para que empresas de segurança privada fi zessem uma “triagem” de quem poderia ou não entrar no estabelecimento comercial. Os critérios usados para a “triagem” restringiam-se às indumentárias e aos traços físicos das pessoas. Não é difícil identificar jovens da periferia, pretos, mestiços e pobres.

Imaginaram que respaldo judiciário e a costumeira força repressiva eram condição sufi ciente para barrar os jovens pobres, os “bárbaros”, e assegurar a tranquilidade dos brasileiros “europeizados”, nas palavras do sociólogo Jessé Souza, no interior do templo do consumo.

A triagem motivou estudantes, movimentos negros e de Defesa dos Direitos Humanos a organizarem um protesto em frente a um dos shoppings mais luxuosos de São Paulo, o Iguatemi JK, do Grupo  Jereissati. Foi o suficiente para o shopping tomar a decisão de fechar as portas, em pleno sábado, ao meio dia. Os seguranças repetiam, inclusive para funcionários do shopping, que quem estava dentro não sairia e quem estava fora não entraria.

Os “bárbaros” que cercaram o luxuoso templo do consumo não eram mais do que 200 jovens. Foi o suficiente para causar insegurança e medo aos que detém empresas privadas de segurança e facilidades para obter e liminares do poder judiciário.

Por ultimo, não faltou participação da mídia. Não faltaram as análises dos colunistas – os especialistas de coisa nenhuma, nas acertadas palavras do senador Roberto Requião – para tentar promover uma histeria coletiva e pedir uma ação enérgica dos governos. São análises que partem sempre da premissa de que as concentrações de jovens das periferias representam perigo e destinamse, sempre a provocar badernas.

Até que esses mesmos jovens iam aos shoppings, em grupos apenas para olhar as vitrines e lotar as praças de alimentação, eram tolerados. Quando os mesmos grupos encontraram uma forma de serem vistos e ouvidos, causaram medo e insegurança.

Sentimento que se transformou na ação de expulsá-los e não permitir sua entrada naquele templo. Acompanhada do firme propósito de reafirmar uma relação de poder sobre as classes subalternas.

É animador perceber, desde já, que os que detêm o poder de fazer triagem nas portas de um shopping, gastam fortunas com a segurança patrimonial, obtêm facilmente liminares na justiça e contam com o irrestrito apoio de uma mídia oligopolizada – e decadente – tomaram um verdadeiro “rolezinho” dos jovens das periferias.

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/27184