
Foto: Luiz Rocha / Integramar
A segurança nutricional de comunidades pesqueiras do litoral nordestino pode correr risco diante da redução de espécies marinhas ameaçadas de extinção pelas mudanças climáticas, ambientais e pelo crescimento da pesca comercial. Isso é o que alerta artigo de pesquisadores brasileiros da Rede Integramar, das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN), de Santa Maria (UFSM) e do Pará (UFPA), em parceria com universidades internacionais, e publicado na segunda (16) na revista People and Nature.
A pesquisa mostra que os pescados são a principal fonte de proteína animal das famílias pesqueiras nordestinas, representando de 30% a 40% da ingestão mensal, seguida de ovos (15-20%) e frango (8-15%). Além disso, correspondem a mais de 70% da oferta dos nutrientes avaliados, em especial cálcio, selênio e ômega-3. Diante da iminente redução do consumo de peixes (ricos em cálcio, ferro, selênio e ácidos graxos Ômega 3), a saúde dos moradores locais pode ser afetada, aumentando o risco de desnutrição, anemia, doenças cardiovasculares e problemas cognitivos.
Para chegar a estes dados, em 2024, a equipe entrevistou 111 famílias de pescadores, de seis comunidades dos estados do Rio Grande do Norte (Touros, Rio do Fogo e Baía Formosa) e Pernambuco (Ipojuca, Tamandaré e São José da Coroa Grande) – todas com amplo potencial de pesca comercial e artesanal. O estudo também listou 122 espécies mais capturadas e consumidas e simulou a potencial extinção delas em cenários climáticos futuros com base em características como tamanho, vulnerabilidade e nível na cadeia alimentar. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram o impacto na saúde nutricional das famílias.
Por exemplo, a possível extinção de 25% das espécies de peixes poderia reduzir em mais de 70% a oferta dos nutrientes avaliados. Quando se trata de espécies mais nutritivas perdidas, a redução de nutrientes poderia ultrapassar 90%. “Se o peixe desaparecer, as famílias não necessariamente vão passar fome, pois restam ainda as outras opções de alimentos, mas podem ficar mal nutridas. Ou seja, não se trata apenas de comida na mesa, mas da qualidade dessa comida”, observa o pesquisador Fabrício Albuquerque, um dos autores do artigo.
Albuquerque explica que o estudo mostra que conservar a biodiversidade tem impacto direto na saúde das comunidades tradicionais e que a partir deste levantamento é possível orientar políticas públicas de proteção também de espécies com alto valor nutricional (ou seja, para além do valor econômico), como peixes papagaio e sardinhas, e de áreas de interesse ambiental, como recifes e manguezais. “A perda de biodiversidade atinge de forma desigual quem mais depende dela. Assim, proteger os peixes do Nordeste brasileiro é também proteger as pessoas que vivem do mar e sua cultura”, conclui o pesquisador.
Fonte: Agência Bori