Traição acadêmica, explorando o absurdo: os melhores ensaios pessoais da Science em 2025

Ilustração de pessoas ao redor de computadores de diferentes tamanhos.

Robert Neubecker 

Por Katie Langin para “Science”

“Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas.”

Esse foi o título de um impactante ensaio que publicamos em fevereiro, algumas semanas depois do início do segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump. O ensaio foi escrito por uma professora em início de carreira que compartilhou a dificuldade de observar as mudanças que estavam ocorrendo nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), sem saber como elas afetariam seu laboratório, suas pesquisas e sua carreira. “Será que meus pedidos de financiamento serão avaliados algum dia? O que poderei pesquisar?”, questionou ela.

Ao longo do ano, publicamos outros ensaios angustiantes de pesquisadores que enfrentavam as mudanças no cenário político e de financiamento dos EUA, bem como questões que podem ser aplicadas independentemente do tempo ou lugar — incluindo ensaios que exploraram as vantagens de ser você mesmo no trabalho, as semelhanças entre andar de bicicleta e a pós-graduação e a desvantagem de se concentrar demais no prestígio.

Todos os artigos foram publicados como parte da série Working Life da revista Science , que explora as principais lições aprendidas por cientistas ao longo de suas carreiras. Aqui estão, em ordem cronológica, os ensaios mais lidos da série Working Life do ano.

Como encontrei satisfação profissional ao ajustar minha definição de sucesso

Como professor em uma universidade focada no ensino, Salahuddin Mohammed percebeu que o sucesso não se resume apenas a publicações de alto impacto ou bolsas de pesquisa prestigiosas.

Sou um pesquisador financiado pelo NIH, afogado em incertezas

Violeta J. Rodriguez escreveu que continuaria “fazendo o que pudesse para levar minha pesquisa adiante. Mas eu, e muitos outros, não podemos fazer isso indefinidamente.”

A ciência costumava ser meu refúgio. Mas quando entrei em depressão, abandonei meu doutorado

Em meio a desafios significativos de saúde mental, Eric Martiné escreve que “fracassar na vida acadêmica foi o maior alívio que já experimentei”.

Após ser demitida do cargo de pós-doutoranda, recorri a um trabalho paralelo e encontrei uma nova carreira

Para complementar seu salário de pós-doutorado, Gertrude Nonterah começou a escrever como freelancer. Isso se tornou sua tábua de salvação.

Eu achava que a síndrome do impostor era a causa das minhas dificuldades no doutorado. Estava enganada

Quando Andrea Lius descobriu sua verdadeira paixão, finalmente entendeu por que se sentia como um peixe fora d’água no mundo acadêmico.

Minha oferta de emprego acadêmico foi rescindida. Vou continuar tentando, mas os pesquisadores americanos estão ficando sem opções

Apesar de um futuro incerto, a pós-doutoranda Na Zhao planeja “continuar fazendo a ciência que amo enquanto ainda tiver um espaço para trabalhar”.

Como um doutorado se compara a andar de bicicleta

Ehsan Hamzehpoor teve dificuldades na pós-graduação até que a encarou como um período de aprendizado.

Como uma traição acadêmica me levou a mudar minhas práticas de autoria

“Cada conjunto de dados limpo, script depurado e figura refinada merece reconhecimento”, argumentou o pós-doutorando Hari Ram CR Nair.

Como confrontei meu crescente cinismo em relação ao meio acadêmico — e reacendei meu senso de propósito

O professor Easton R. White ingressou na vida acadêmica com esperança e otimismo, mas esses sentimentos se dissiparam com o tempo.

Eu pensava que a ciência dependia do prestígio. Mudar-me para o exterior fez-me reavaliar as minhas prioridades

Após se mudar para a Dinamarca, o estudante de doutorado Henry C. Henson se apaixonou por uma sociedade igualitária que valoriza o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.


Fonte: Science

Cooperação internacional convida para pesquisa sobre políticas de conservação do patrimônio cultural em Campos dos Goytacazes

Os professores Carlos Eduardo de Rezende,  da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), e William Vásquez, da Fairfield University (EUA) convidam para participação em uma pesquisa sobre preferências individuais por políticas públicas voltadas à conservação do patrimônio cultural em Campos dos Goytacazes.

O questionário é simples, leva aproximadamente de 10 a 15 minutos para ser preenchido, e a participação é voluntária e totalmente confidencial. As respostas coletadas contribuirão com dados relevantes para identificar políticas de conservação do patrimônio cultural que a população campista apoiaria ou rejeitaria.

Quem desejar saber mais sobre o projeto e responder ao questionário, basta clicar [Aqui!].

Os professores Rezende e Vásquez agradecem antecipafamente aos que decidirem participar desta pesquisa tão importante para os esforços de conservação do patrimônio cultural de Campos dos Goytacazes.

De que tipo de professor titular precisa a Uenf?


Por Carlos Eduardo de Rezende

O perfil desejado para um Professor Titular em uma instituição de ensino superior comprometida com a excelência no ensino e na pesquisa deveria refletir uma trajetória acadêmica sólida, um compromisso contínuo com a produção de conhecimento e uma postura ética e institucional exemplar. É de se esperar que o docente possua uma ampla produção científica de qualidade, demonstrada por publicações em periódicos qualificados, livros e capítulos de impacto. Experiência em pós-doutorado é desejável, mas não obrigatória, colaborações internacionais e participação em redes de pesquisa são diferenciais valorizados, por fortalecerem a inserção do pesquisador no cenário científico nacional e internacional.

Na área da pesquisa, é essencial que o Professor Titular atue como liderança acadêmica, sendo capaz de idealizar, coordenar e executar projetos de relevância, com captação de recursos e capacidade de articulação interdisciplinar. A formação de recursos humanos qualificados é parte central dessa atuação, o que inclui a orientação de estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado, e, a supervisão de pós-doutorandos, promovendo um ambiente de pesquisa crítico, inovador e socialmente comprometido. Sua produção intelectual deve trazer contribuições relevantes que dialoguem com os desafios contemporâneos, contribuindo para o avanço científico e, sempre que possível, gerando impactos sociais, ambientais, culturais ou tecnológicos.

No campo do ensino, há que existir um compromisso contínuo com a qualidade da formação na graduação e na pós-graduação. O docente deve demonstrar atuar na sala de aula e ser capaz de despertar o pensamento crítico e promover a autonomia dos estudantes. Além disso, deve colaborar ativamente na construção e atualização dos currículos, articulando ensino, pesquisa e extensão, e contribuindo para uma formação cidadã, democrática e inclusiva.

A atuação em extensão universitária também é fundamental para este perfil. O Professor Titular deve desenvolver ações que aproximem a universidade da sociedade, promovendo a popularização do conhecimento, a transformação social e o fortalecimento do compromisso público da instituição. Projetos de extensão que dialoguem com comunidades locais ou regionais e que promovam inclusão, sustentabilidade e justiça social são especialmente valorizados.

Espera-se, ainda, uma postura ética, colaborativa e institucional. O docente deve contribuir ativamente para a vida universitária, participando de colegiados, comissões e núcleos institucionais, demonstrando compromisso com a gestão democrática, a transparência e a equidade. Sua conduta deve respeitar a liturgia acadêmica, promovendo ambientes de trabalho pautados pelo diálogo e pela valorização da diversidade.

Por fim, é essencial que o Professor Titular tenha uma visão estratégica sobre o papel da universidade pública e demonstre espírito público em sua atuação. Deve ser capaz de pensar e propor caminhos para o fortalecimento da instituição, articulando seu trabalho com os grandes desafios da sociedade contemporânea.  É de se esperar que atue como formador de novas lideranças acadêmicas, contribuindo para a renovação do corpo docente e para a consolidação de uma universidade crítica, inclusiva e socialmente referenciada.

Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf e pesquisador 1A do CNPq.

A Universidade do Terceiro Milênio: formação, ciência e desafios institucionais

Por Carlos Eduardo de Rezende

A Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro (Uenf) foi concebida com uma missão estratégica: impulsionar o desenvolvimento regional e nacional por meio da formação de recursos humanos altamente qualificados e da produção de conhecimento científico de excelência. Desde sua fundação, a instituição se destaca por ter sido a primeira instituição a propor a contratação de doutores, com dedicação exclusiva e tempo integral na Uenf ampliando assim o compromisso com o despenho acadêmico e a participação na formação dos nossos discentes em nível de graduação e pós-graduação. Aliás, sempre é importante ressaltar que a instituição começou quase que simultaneamente os cursos de graduação e pós-graduação; junto com a Uerj implantamos as cotas, e com a instituições públicas de ensino participamos desde a concepção do Ensino à Distância.

A transparência acadêmica e administrativa é um pilar essencial para a credibilidade da universidade. A ampliação e publicidade dos critérios de avaliação em editais, a prestação de contas públicas e a clara documentação dos processos decisórios fortalecem a confiança da comunidade acadêmica e da sociedade. A adoção de mecanismos de deliberação, com ampla consulta, assegura a inclusão de diferentes perspectivas na formulação de políticas institucionais.

No contexto da Uenf, a definição de diretrizes orçamentárias para execução de projetos e aprimoramento da infraestrutura deve seguir um fluxo decisório estruturado, promovendo o debate em instâncias como laboratórios e coordenações (graduação, pós-graduação e extensão), seguido pela deliberação nas diretorias de centros e posterior encaminhamento à Reitoria. Essa sistemática garante uma gestão eficiente, evitando favorecimentos e promovendo a integridade institucional.

Os procedimentos institucionais de uma universidade são fundamentais para garantir a eficiência da gestão, a lisura na aplicação de recursos e a promoção da qualidade acadêmica, desempenhando um papel central na prevenção de desvios administrativos, reduzindo a possibilidade de irregularidades em processos como a alocação de verbas públicas e a distribuição de bolsas acadêmicas.

No campo da formação de recursos humanos, a Uenf desempenha um papel central na capacitação de profissionais aptos a enfrentar desafios complexos em diversas áreas do conhecimento. Os seus programas de graduação e pós-graduação são reconhecidos pelo compromisso com a inclusão social, permitindo que estudantes de diferentes perfis socioeconômicos tenham acesso a uma formação de qualidade. No entanto, é fundamental dedicar maior atenção aos laboratórios destinados às aulas práticas e teóricas, bem como a toda a infraestrutura de apoio, assegurando condições adequadas para o desempenho dos docentes.

A inovação didática não pode ser vista como uma responsabilidade exclusiva do professor, mas sim como um processo que exige o necessário suporte institucional, que não será suficiente com a concessão de bolsas. Para que novas metodologias de ensino sejam implementadas de maneira eficaz é imprescindível que a universidade ofereça equipamentos adequados, espaços bem estruturados e investimentos contínuos em tecnologia e capacitação docente. Dessa forma, será possível aprimorar a qualidade do ensino, promover uma aprendizagem mais dinâmica, e garantir que os discentes tenham uma formação sólida e alinhada às demandas contemporâneas.

A produção científica da Uenf reflete uma sólida articulação entre ensino, pesquisa básica e aplicada, com ênfase em áreas estratégicas para região como agroecologia, biotecnologia, ciências biomédicas, ambientais e sociais, políticas públicas e engenharias. Os projetos conduzidos nos nossos laboratórios não apenas impulsionam o avanço do conhecimento, mas também geram soluções para demandas sociais e econômicas. Para garantir a continuidade desse protagonismo acadêmico é essencial manter investimentos sustentados em infraestrutura, apoio a pesquisadores e colaborações acadêmicas nacionais e internacionais.

O futuro da Uenf depende de sua capacidade de conjugar transparência institucional, gestão responsável, formação acadêmica sólida e produção científica comprometida com o interesse público. Esses elementos, articulados de maneira integrada, asseguram a qualidade acadêmica e reforçam o papel da universidade como agente transformador na construção de uma sociedade mais justa e sustentável.

Concluindo, a modernização dos recursos didáticos, aliada ao conforto de salas de aula bem equipadas para atividades teóricas e práticas, é essencial para alcançarmos um salto de qualidade no ensino.


Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF e pesquisador 1A do CNPq

Cientistas precisam de tempo para pensar

Chamadas de vídeo. Mensagens instantâneas. Chamadas de voz. E-mails. Mídias sociais. Smartphones. Tablets. Laptops. Desktops. Mais dispositivos digitais equivalem a menos tempo para se concentrar e pensar

time to thikn

Por Nature

Os efeitos negativos disso sobre os pesquisadores são abordados pelo cientista da computação Cal Newport em seu último livro, Slow Productivity1. O título do livro desafia a ideia, comum a muitos locais de trabalho, de que a produtividade deve sempre aumentar. Um estudo mostrou que a ciência está se tornando menos disruptiva, embora agora haja mais artigos sendo publicados e bolsas concedidas do que nunca2. Newport, que estuda tecnologia no local de trabalho na Georgetown University em Washington DC, diz que pesquisadores e outros trabalhadores do conhecimento precisam desacelerar e gastar mais tempo pensando, para se concentrar em manter e melhorar a qualidade em seu trabalho.

Newport presta um serviço à comunidade de pesquisa ao destacar uma força de trabalho sobrecarregada. As instituições já deveriam estar acessando a expertise que existe dentro de suas paredes na busca por respostas, mas não estão fazendo isso. Novas tecnologias de comunicação têm enormes benefícios, incluindo acelerar a pesquisa, como foi necessário durante a pandemia da COVID-19. Mas elas também estão espremendo o tempo de pensamento. O livro de Newport nos lembra que há pesquisadores que saberão como ajudar. Tempo de pensar — ​​o tempo necessário para se concentrar sem interrupções sempre foi essencial para o trabalho acadêmico. É essencial para projetar experimentos, compilar dados, avaliar resultados, revisar literatura e, claro, escrever. No entanto, o tempo de pensar é frequentemente subvalorizado; raramente, ou nunca, é quantificado nas práticas de emprego.

Uma maneira de pensar sobre a prática de fazer malabarismos com pesquisa, e-mail e mensagens instantâneas é visualizar alguém trabalhando ao lado de uma caixa de correio física. Imagine abrir e ler cada carta assim que ela chega e começar a redigir uma resposta, mesmo que mais cartas caiam na caixa

— o tempo todo tentando fazer seu trabalho principal. Pesquisadores dizem que suas listas de tarefas tendem a aumentar, em parte porque os colegas podem contatá-los instantaneamente, geralmente por bons motivos. Pesquisadores também frequentemente precisam escolher o que priorizar, o que pode fazer com que se sintam sobrecarregados.

Newport dá sugestões sobre como recuperar o tempo de reflexão, incluindo limitar o número de itens em listas de tarefas e equipes de projeto reservando tempo para concluir tarefas que exigem todos os membros, evitando assim que membros individuais enviem e-mails uns aos outros. Para instituições, Newport recomenda um sistema transparente de gerenciamento de carga de trabalho

— uma maneira de os gerentes verem tudo o que um colega deve fazer — e então ajustar a carga de trabalho se houver mais tarefas do que tempo disponível.

O tempo de reflexão é frequentemente subvalorizado; raramente, se é, quantificado em práticas de emprego.”

Sem dúvida, um bom conselho, isso pode ser mais fácil de implementar em ambientes industriais do que em acadêmicos. Em muitos laboratórios de pesquisa acadêmica, os pesquisadores se reportam a um único pesquisador principal, com pouca estrutura de gestão. Isso ocorre em parte porque é difícil justificar aos financiadores acadêmicos o orçamento para pagar por funções de gestão e administração.

Mas Felicity Mellor, pesquisadora de comunicação científica no Imperial College London, é cética sobre dar aos gerentes uma função no tempo de reflexão. Em muitos casos, os pesquisadores já estão sentindo o peso dos sistemas de monitoramento e avaliação de suas instituições. Mellor argumenta que incluir mais uma caixa em um formulário de avaliação pode não cair bem. Ela também acha que as instituições não aceitarão isso. “Você consegue imaginar a resposta se um cientista preenchesse uma planilha de ponto onde diz ‘oito horas gastas pensando’?” Em última análise, ela diz, criar uma cultura de pesquisa mais favorável precisa de uma mudança muito mais fundamental. Isso sugere uma reformulação ainda mais radical do modelo de financiamento atual para pesquisa acadêmica, como escrevemos no mês passado (veja Nature 630, 793; 2024), juntamente com mudanças em outros aspectos da ciência acadêmica.

Verificação de qualidade

A tese de Newport levanta uma questão muito mais fundamental: qual é o impacto do tempo de concentração perdido na ciência — não apenas na estrutura e no processo da ciência, mas também no conteúdo e na qualidade da pesquisa?

Em 2014, Mellor coliderou um projeto de pesquisa, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido, chamado The Silences of Science, publicado como um livro dois anos depois3. Os pesquisadores discutiram essa questão e outras em uma série de workshops, mas o trabalho não continuou após o término da bolsa. Essas explorações precisam ser revividas, mas também precisam incorporar o impacto das tecnologias de inteligência artificial. Essas ferramentas estão sendo implementadas em ritmo acelerado em todo o mundo para automatizar muitas tarefas administrativas de rotina. Os pesquisadores precisam avaliar se essas ferramentas podem liberar mais tempo de pensamento para os pesquisadores; ou se elas podem ter o efeito oposto.

As tecnologias de comunicação certamente evoluirão ainda mais e continuarão distraindo os pesquisadores de seu trabalho. Mais estudos investigando o efeito dessas tecnologias na ciência são necessários urgentemente, assim como estudos sobre como o tempo de pensamento pode ser protegido em um mundo de comunicação instantânea. Esse conhecimento ajudará pesquisadores e líderes institucionais a tomar melhores decisões sobre a implantação das tecnologias — e, esperançosamente, permitirá que os pesquisadores criem aquele espaço e tempo tão importantes para pensar.


Fonte: Nature

Em artigo, presidente da Fapemig Evaldo Vilela questiona os critérios para o financiamento da pesquisa científica

A edição de setembro a dezembro de 2015 da revista “Ciência para a vida”, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), publicou o artigo “Pensando ciência, repensando inovação”, assinado pelo Acadêmico e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Evaldo Vilela, e pela analista de Gado e Leite da Embrapa, Ester Gomide.

O texto questiona os critérios adotados atualmente no Brasil pelos setores público e privado para o financiamento da pesquisa científica, muitas vezes valorizando apenas a ciência aplicada e o retorno a curto prazo e deixando de lado a pesquisa básica.

“Reconhecer que a importância da pesquisa científica continua sendo responder às questões que desafiam o conhecimento existente e que os progressos vivenciados pela humanidade não teriam ocorrido se fossem orientados apenas por demandas do setor produtivo é o primeiro passo para uma modificação da lógica de financiamento”, afirmam os pesquisadores.

“Mais importante que determinar se a pesquisa será útil para o avanço científico e tecnológico, ou para a mitigação de problemas sociais e econômicos, é certificar-se de que ela será útil na sua essência, ou seja, que resultará na refutação ou aceitação de novos pressupostos que fundamentarão os avanços”, completam.

Leia o artigo completo clicando aqui.

(Samil Chalupe para NABC / Com informações de Ciência para vida)

FONTE: http://www.abc.org.br/article.php3?id_article=7675

Ética na pesquisa e seus 7 pecados capitais

wall-of-books

Em agosto de 2015, a jornalista Giuliana Miranda escreveu um artigo para a Folha de São Paulo onde foi abordado o fato de que os problemas éticos afetando o comportamento de pesquisadores não estão restritos ao Brasil (Aqui!).  Até ai não há grande novidade, pois os problemas gerados pelo paradigma do “publicar ou perecer” já produziram situações vexaminosas para pesquisadores vinculados a algumas das tradicionais instituições acadêmicas do planeta.

Mas  a matéria de Giuliana Miranda foi bastante enriquecida pela adição de um infográfico que mostrou quais seriam, digamos, os 7 pecados capitais que hoje assombram a comunidade científica e cujos efeitos não se resumem apenas ao mundo das revistas de acesso aberto, sejam elas produtoras conscientes de “trash science” ou não.

Abaixo coloco os “7 pecados” da ciência e as principais características de cada um deles:

Plágiopecado 1

Clube da coautoria pecado 3

Roubo de ideiapecado 4

Criatividade pecado 5

Máfia da citação pecado 6

Autoplágio pecado 7

Produção Salamepecado 2

O mais pernicioso da manifestação destes “pecados” é que raramente os mesmos vem acompanhados, já que o pesquisador que se habilita a realizar um deles vai acabar tentado a realizar os demais, já que atualmente a definição de mérito, e consequentemente premiação, está diretamente atrelada ao número de artigos publicados e não á efetiva contribuição ao avanço do conhecimento científico um determinado indivíduo está prestando com suas pesquisas.

Ciência brasileira adere ao ‘padrão salame’ de produção e avaliação científica

FOTO: Brian Harkin/NYT – Copyright

Faz tempo que quero escrever algo sobre essa cultura da “ciência salame” e sobre o debate da “quantidade x qualidade” na avaliação da produção científica e da qualidade científica de pesquisadores no Brasil. Não preciso mais … o biólogo Fernando Reinach (colunista do Estadão e um dos pioneiros da biotecnologia no Brasil) já fez isso por mim na edição de sábado (com muito competência do que eu seria capaz de fazer).

Copio abaixo o artigo publicado por ele na edição de sábado do jornal, que já tem mais de 10 mil compartilhamentos no Facebook, mas que merece ter muito mais ainda.

Abaixo do artigo do Reinach, copio também um artigo publicado em junho do ano passado na revista Trends in Ecology and Evolution, em que os autores discutem a “obsessão da academia com quantidade”. Ele faz parte de um fórum de discussão lançada pela revista em março deste ano para debater o tema “Que tipo de ciência queremos?“, que inclui um comentário de biólogos brasileiros da Universidade Federal de Goiás.

Publicar muita porcaria ou publicar pouca coisa boa? Eis a questão.   (não só na ciência, mas no jornalismo também)

Darwin e a prática da ‘Salami Science’

Fernando Reinach / O Estado de S.Paulo

Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a expressão “Salami Science”. Um de nós estava com uma pilha de trabalhos científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou: “Salami Science, espero que não chegue aqui”. Mas a praga se espalhou pelo mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.

“Salami Science” é a prática de fatiar uma única descoberta, como um salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil. Apesar disso, a “Salami Science” se espalhou, induzido pela busca obsessiva de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.

No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu… Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.

Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano – e onde. Querem saber como serão classificados. “Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto impacto no ano passado, não poderia ser diferente.” “O departamento de beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto…” Não que os olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.

Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein, Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil. O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos tenham sido aceitos para publicação.

Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual escondida por trás de algoritmos matemáticos.

Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano. Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar “Salami Science”. É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E, aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele descobriu…

Adademia’s obsession with quantity

Joern Fischer1, Euan G. Ritchie2 and Jan Hanspach1

1 Faculty of Sustainability, Leuphana University Lueneburg, Scharnhorststrasse 1, 21335 Lueneburg, Germany

2 Deakin University, School of Life and Environmental Sciences, 221 Burwood Hwy, Burwood, VIC 3125, Australia

We live in the era of rankings. Universities are being ranked, journals are being ranked, and researchers are being ranked. In this era of rankings, the value of researchers is measured in the number of their papers published, the citations they received, and the volume of grant income earned. Academia today is governed by one simple rule: more is better.

The idea to reward those who are productive seems fine at face value, but that idea has become ideology. Metrics of quantity once were the means to assess the performance of researchers, but now they have become an end in their own right. Ironically, once individuals actively pursue certain indicators of performance, those indicators are no longer useful as independent yardsticks of what they were once meant to measure.

Only a few years ago, a researcher publishing ten papers a year was considered highly productive. Now, leading researchers in ecology and evolution publish 20, 30, or, in some cases, over 40 papers a year, with a tendency for further increases. This volume of papers is attained via large laboratory groups and research consortia, which in turn require massive amounts of funding. Given that successful fundraising is a trusted performance indicator in its own right, funding keeps going to some of the biggest groups, keeping them big or growing them even further. However, a bigger group of researchers does not necessarily produce better science, just more of it. Thus, some research themes of solid (but not necessarily exceptional) quality can dominate the literature, just because they produce many papers. The type of work that ecologists produce is also different compared with just a decade or two ago: papers are shorter; reviews are increasingly quantitative not qualitative; the scope of papers has shifted from local to global; modeling papers are replacing field-based papers; and more papers focus on black-versus-white analyses because there is no journal (or mental) space for nuanced discussions. A recent high-profile example is the polarized debate on whether policy should encourage land sparing or land sharing.

The picture we paint is, of course, stylized. We acknowledge that there are exceptions among the most productive academics, the largest research groups, and the highest impact journals. However, despite exceptions, the overall trend is deeply concerning. Academics are increasingly busy with more papers, more grants, and more emails to keep the machinery going. The modern mantra of quantity is taking a heavy toll on two prerequisites for generating wisdom: creativity and reflection.

Creativity greatly benefits from an environment that is supportive, collaborative, and facilitates trialing new approaches, but suffers from working under excessive pressure. Similarly, reflection is vital for questioning assumptions and learning from experience. The gradual loss of creativity and reflection necessarily will affect our science. Many past landmark papers were full of good ideas, but were speculative and discursive. Would such papers be published today and, if they were, who would read them in depth? Is it possible to obtain and communicate deep insights via ‘twitteresque’ research sound bites?

Beyond the science itself, the quantity mantra is taking a toll on the quality of human interactions and relationships. Supervisors are increasingly too busy to discuss ideas at length with their research students. Academics work long hours, a supposed requirement for success, as if insight, motivation, and wisdom could not also arise from more balanced and family-friendly lives. The stressful environment of academia leads to many talented young people opting out of academia, and can lead to burnout in those who stay.

Along with political and spiritual leaders, academic leaders have a responsibility to help society move towards a better future, where we understand the world better, and use that understanding to live a ‘good life’. However, how can we do this if our professional rat race just mirrors the ills of society at large? Starting with our own university departments (but not stopping there), it is time to take stock of what we are doing. We must recreate spaces for reflection, personal relationships, and depth. More does not equal better.

FONTE: http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/ciencia-brasileira-adere-ao-padrao-salame-de-producao-e-avaliacao-cientifica/