A Uenf e seus vândalos

uenf pichação

Sempre que me perguntam sobre qual é o principal legado que já foi firmado pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em seus tenros 25 anos de existência, não hesito em responder que são os profissionais que de lá já saíram formados.  Essa posição acaba de se mostrar ainda mais acertada quando leio o artigo lúcido e certeiro de autoria do professor da UFF/Campos, Carlos Valpassos, onde ele disseca com agudez certeira quem realmente vandaliza e coloca em risco a existência  da Uenf neste momento (ver artigo abaixo). Para os que não sabem, Carlos Valpassos formou-se em Ciências Sociais e ali ministrou aulas por algum tempo antes de ser incorporado ao quadro docente da UFF/Campos.

valpassos

Como Valpassos bem coloca, quem vandaliza a Uenf hoje não são pichadores que utilizam paredes para denunciar a destruição do principal instrumento de justiça social que existe no Norte Fluminense sob a forma de uma universidade pública e gratuita. 

60670-educac3a7c3a3omercadoria

Eu adiciono ainda que atribuir a quem denuncia a destruição deste projeto o papel de vândalo equivale a se colocar do mesmo lado dos que querem destruir não apenas a Uenf e suas co-irmãs Uerj e Uezo, mas também a Faperj. Por isso é importante corrobrar a afirmação de Carlos Valpassos que não há, apesar das aparências enganosas, qualquer volta à normalidade após o fim da greve dos professores e servidores ou que a situação é menos crítica do que era antes.

Por isso mesmo atribuir à mensagens políticas o adjetivo de vandalismo só pode partir daqueles que ou não entendem o que está em jogo neste momento ou que entendem e decidiram se colocar do lado dos que querem destruir a Uenf e os sonhos de dias melhores que sua existência representa para gerações presentes e futuras de jovens pobres cujas vidas estão sendo continuamente vandalizadas por (des) governos cujas opções preferenciais são sempre para manter um status quo caracterizado pelo apartheid social onde educação de qualidade é coisa para poucos.

Desta forma, é bom notar que enquanto a reitoria da Uenf se comportou como um fiscal de bons costumes, aventando inclusive a criação de uma comissão especial de sindicância para apurar quem pichou paredes para denunciar a destruição da universidade pública no Brasil, um egresso da instituição vem a público para usar um espaço de mídia para colocar as coisas no seu devido lugar. 

E que fique claro de um vez por todas: vândalo é o (des) governo Pezão e seus aliados na destruição das universidades estaduais. Mais simples do que isso, impossível.

Quem vandaliza a Uenf? Pichadores politizados ou o (des) governo Pezão?

Pichação política na Argentina: o protesto político não é crime.

O jornal “Folha da Manhã”, talvez na falta de melhor assunto, publica hoje, com direito a chamada na capa, mais uma matéria sobre as pichações políticas que foram realizadas em um prédio do campus Leonel com menções ao governo Temer e aos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes (ver reprodução abaixo) [1].

Capa-Folha-16-05-18-768x620

À guisa de preâmbulo tenho que manifestar a minha surpresa que pichações dessa natureza não sejam mais frequentes no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense cujas paredes têm passado razoavelmente incólumes ao ataque avassalador que vem sendo imposto pelo (des) governo Pezão desde outubro de 2015 quando, efetivamente, os recursos de custeio inseridos no orçamento da instituição têm sido sonegados pelo (des) governo Pezão.

Para mim, a falta de pichações é um reflexo da baixa cultura política existente na Uenf e não o sinal de que somos uma universidade em que se prima pela integridade e pureza do campus. Para medir isso, basta ver o lixo que é deixado amontoado nas festas promovidas de tempos em tempos por organizações estudantis sob o olhar tolerante da reitoria da universidade.

Mas voltando ao caso dessas pichações, eu não sei se ainda deveria me surpreender com as posições da reitoria da Uenf, mas nas duas matérias publicadas pela Folha da Manhã, li menções à necessidade de se punir os pichadores, inclusive com a formação de uma comissão especial de sindicância para apurar quem foram os “delinquentes” que fizeram isso. Como se sabe comissões de sindicância são orientadas para apurar fatos eventualmente desviantes das leis vigentes e punir os que forem identificados como culpados na sua concretização. 

Uma frase do reitor da Uenf, Luís Passoni, que foi pinçada pelo pessoal da Folha da Manhã é bem revelador desse instinto punitivo, quando o magnífico reitor diz que “embora compreenda a necessidade da juventude se manifestar, a gente tem que preservar a integridade do campus”. Ora, alguém precisa lembrar ao reitor da Uenf que quem ataca a integridade do campus, e a Uenf por inteiro é preciso que se diga, é o (des) governador Luiz Fernando Pezão, e não alguns jovens com lata de tinta na mão.

Aliás, a única outra vez que vi uma parede pichada na Uenf em meus 20 anos dentro da instituição foi em 2013 , e a mesma foi coberta por tinta branca poucas horas após a realização do protesto [1] (ver imagem abaixo). Acontece que neste momento, graças ao bloqueio financeiro imposto pelo (des) governo Pezão, a Uenf não possui recursos financeiros sequer para comprar simplórios sacos de lixo e produtos de limpeza, que dirá de comprar tinta para cobrir pichações!

Eu realmente gostaria que essa disposição toda de condenar pichações políticas que o reitor da Uenf vem demonstrando fosse aplicada na denúncia do processo de desmonte que vem sendo imposto pelo (des) governo Pezão não apenas à Uenf, mas também às outras universidades estaduais (Uerj e Uezo) e agora também à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).  

Resultado de imagem para pichações uerj pezão

Mas tenho certeza de que do mato da reitoria da Uenf não sai coelho. Por isso, prefiro apostar minhas poucas moedas (já que meu salário continua sendo pago na metade do mês vencido) nos jovens que decidiram sair da apatia e se manifestar com latas de tinta na mão.

E não se esqueçam: vândalo é o (des) governo Pezão!

_____________________________

[1] http://opinioes.folha1.com.br/2018/05/16/pichacoes-na-uenf-acendem-o-debate-entre-protesto-e-vandalismo/

[2]  http://pedlowski.blogspot.com.br/2013/09/na-volta-das-aulas-na-uenf-e-uma.html