A autoridade climática de Lula: mais um castelo de areia no meio de uma tempestade perfeita

Lula tempestade

Em meio à greve crise hídrica e da temporada extraordinariamente alta de incêndios que afetam a Amazônia brasileira neste ano, o presidente Lula foi a Manaus para anunciar uma série de medidas que supostamente se dirigem a colocar o seu governo em movimento na luta contra a crise climática.  Durante essa visita, o presidente Lula anunciou, entre outras coisas, a criação de uma tal “Autoridade Climática que terá como função suposta atuar no enfrentamento dos eventos naturais extremos, os climáticos principalmente.

Pois bem, essa e outras medidas anunciadas em Manaus não passam de mais um exercício retórico do presidente Lula.  O fato é que seu governo vem atuando no sentido oposto do controle da crise climático, começando pelos mais de R$ 400 bilhões que serão destinados para financiar a atuação do latifúndio agro-exportador na safra 2024/2025, mas indo além na implementação de diversas metas incluídas no “novo” PAC que incluem a pavimentação da BR-319, a construção ou ampliação de hidrovias, portos e ferrovias. 

O financiamento estatal vai assim alimentar a máquina de destruição da floresta amazônica e contribuir para a perda de áreas importantes não apenas da Amazônia brasileira, mas também de outros biomas importantes como o Cerrado e o Pampa.  Já para as agências ambientais e seus servidores, a grana vai continuar curta, muito curta.

Assim, o fato é que os pronunciamentos feitos por Lula em Manaus são daquele tipo de que só acredita quem quer, por ingenuidade ou por cinismo. 

O problema que fica para todos que não estão usufruindo dos ganhos resultantes com a incineração das florestas e com o envenenamento dos recursos aquáticos pelos agrotóxicos despejados a gosto na monocultura da soja é o que fazer de prático para reverter essa aposta no aprofundamento da crise climática, e não em sua mitigação.

Eu começaria por deixar de acreditar nos castelos de areia que nos são presenteados pelo presidente Lula como se fossem qualquer tipo de solução real, mas que só servem para cegar quando secam.  O problema é que tudo indica é que as coisas ainda vão piorar muito antes de começarem a melhorar. 

Alimentos orgânicos e agroecológicos ganham só 0,02% dos créditos da agricultura familiar

Governo Lula lança programa de incentivo à agroecologia e produção orgânica de alimentos, mas movimentos sociais reclamam de falta de verbas e da captura do orçamento pelo agronegócio

produtor-rural-organico-daniela-moura-midia-ninja

Por Anelize Moreira e Diego Junqueira|  Edição: Paula Bianchi para a Repórter Brasil 

O governo Lula lança no dia 3 de julho o novo Plano Nacional de Agricultura Familiar e Produção Orgânica (Planapo). A ideia é estimular a produção de alimentos orgânicos e a transição para a agricultura com base agroecológica, que alia agricultura e preservação da natureza. 

Contudo, movimentos do campo ouvidos pela Repórter Brasil veem o anúncio com desconfiança, pois consideram baixos os investimentos e afirmam que o orçamento da União privilegia cada vez mais as commodities agrícolas e os ultraprocessados.

Conhecida como “Brasil Agroecológico”, essa política foi criada em 2012 e tem como principal forma de financiamento o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, Pronaf, que responde pela maior parte dos investimentos do Plano Safra da Agricultura Familiar. Mas apesar do foco que o governo Lula tem colocado na agricultura sustentável desde a eleição, os recursos destinados à produção orgânica são irrisórios, segundo o Painel do Crédito Rural do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

Na safra atual (2023/2024), foram fechados apenas 218 contratos na linha de crédito Pronaf Agroecologia, que financia os produtores orgânicos e agroecológicos. O total aplicado é de apenas R$ 7 milhões, o que não chega a 0,02% do total liberado pelo Pronaf: R$ 49,7 bilhões. As informações da atual safra são parciais e foram atualizadas em 8 de maio.

Somando o Pronaf Agroecologia às outras três linhas de crédito para Agricultura de Baixo Carbono (Pronaf  Semiárido, Pronaf Bioeconomia e Pronaf Floresta), o total chega a R$ 1,2 bilhão, ou 2,5% de todo o Pronaf. Em número de contratos, são apenas 2% dos quase 1,4 milhão de acordos fechados.

O valor chama ainda mais atenção quando comparado aos créditos destinados à agricultura empresarial pelo Plano Safra – R$ 364,2 bilhões, aumento de 26% em relação à safra anterior. Por outro lado, o Plano Safra para a Agricultura Familiar soma ao todo R$ 77,7 bilhões no ciclo 2023/2024. 

“Não dá para dizer que temos um plano à altura [das necessidades] nem no orçamento, nem nas ações. Infelizmente há uma dificuldade orçamentária e uma falta de diálogo entre os ministérios para investir de forma articulada na agroecologia”, diz Leomárcio Araújo, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

O governo federal vem construindo o novo plano agroecológico há quase um ano, desde que recriou a Câmara Interministerial de Agroecologia e Produção Orgânica (composta por 14 ministérios e nove entidades governamentais) e a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (formada por 21 instituições da sociedade civil), extintas no governo de Jair Bolsonaro (PL).

“As propostas para esse novo plano do ponto de vista de metas e de orçamento colocadas pelo governo são decepcionantes”, afirma “A expectativa era compensar o tempo perdido e o plano voltar com força. [Mas] já perdemos um ano e meio de governo sem que se tenha conseguido voltar às políticas fundamentais, isso é problemático”, afirma Rogério Dias, presidente do Instituto Brasil Orgânico e integrante da comissão de agroecologia.

Paulo Petersen, da Articulação Nacional da Agroecologia, critica também que mesmo os recursos da agricultura familiar são canalizados para produtores mais capitalizados das regiões Sul e Sudeste. Os dados do MDA comprovam a afirmação. 

Só os estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais concentram 64% de toda a verba do Pronaf. “Defendemos que os recursos sejam destinados à produção diversificada”, afirma Petersen. 

Ceres Hadich, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), lamenta que o governo continue culpando a gestão anterior pelo orçamento baixo. O orçamento para o plano Safra deste ano não vai atender as necessidades da agricultura familiar, e seguramente é o que vai acontecer também com o plano de agroecologia”. 

Produção orgânica de alimentos (Foto: Matheus Alves/MST)A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos nem fertilizantes químicos. Já a agroecologia vai além das práticas agrícolas, incorporando princípios ecológicos, sociais e políticos para transformar todo o sistema alimentar (Foto: Matheus Alves/MST)

Plano Safra empresarial X agricultura familiar

Apesar da retomada da política, os movimentos de trabalhadores rurais estão desconfiados se as medidas serão efetivas, já que o governo federal vem perdendo a queda de braço com a bancada ruralista não só no Congresso, mas também no Executivo. 

A diferença entre os investimentos do Plano Safra na agricultura empresarial e na familiar é um dos exemplos. Neste ano, a previsão do plano para agricultura familiar é de R$ 80 bilhões. Já para a linha empresarial, deve passar de R$ 500 bilhões. O MDA informou que só irá se pronunciar após o lançamento oficial dos planos.  

“Estamos falando de disputa de orçamento para diferentes modelos de agricultura. Eles [agronegócio] conquistaram regalias e subsídios ao longo do tempo e mantêm a força. O Executivo tem preocupação de buscar alternativas, mas temos dentro do Congresso Nacional a bancada ruralista, que determina o orçamento e usa evidentemente esta força para segurar o próprio governo”, afirma o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), presidente da bancada ambientalista no Congresso. 

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), braço institucional da bancada ruralista, foi procurada, mas não se manifestou.

Lula tem defendido uma produção agrícola menos destrutiva, ao mesmo tempo em que busca se reaproximar do agronegócio (Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação)
Movimentos do campo demonstração insatisfação com governo Lula, em razão das promessas do presidente de estimular a produção orgânica (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência)

Neste cenário, o modelo da agroecologia empilha derrotas no Legislativo. Uma das principais foi a derrubada de vetos presidenciais à nova Lei dos Agrotóxicos, apelidada por ambientalistas de “PL do Veneno”. Parlamentares governistas cederam durante as negociações, e o Ministério da Agricultura passou a centralizar o registro e a fiscalização dos produtos. 

“Lembro que em 2016 tínhamos o PL do Veneno, que é do agro, e o PL de Redução de Agrotóxicos (PNARA), que é de iniciativa popular. Em 2018, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, criou um grupo especial para analisar o PL do Veneno e apensou o PNARA,  praticamente matando ali a ideia, porque eram dois projetos completamente antagônicos, com modelos de agricultura diferentes. Dialogamos e conseguimos que eles fossem discutidos em comissões diferentes, mas não adiantou. A FPA avançou e saiu vitoriosa com o PL do Veneno”, relembra Tatto.  

Petersen, da Articulação Nacional da Agroecologia, critica ainda o fato de o governo não interferir nos mercados de alimentos. Segundo ele, oferecer apenas crédito aos pequenos agricultores não resolve a questão principal: melhorar a remuneração pela produção diversificada de alimentos. 

“Por mais baixos que sejam os juros, se não tiver mercados locais, incentivo à produção diversificada e assegurar preços mínimos, não mudará o rumo da agricultura familiar, pois o que remunera bem hoje são as commodities”, diz “Os mercados para alimentos locais estão sendo destruídos e substituídos por grandes cadeias de varejo que comercializam ultraprocessados”, completa.

Nota da redação: O texto foi alterado para atualizar a data de lançamento do novo Plano Safra da Agricultura Familiar, que foi adiada pelo governo federal do dia 25 de junho para 3 de julho de 2024


Fonte: Repórter Brasil

Novo plano safra de agricultura familiar do governo Lula: repetindo erros

O atual plano é a reprodução, sem qualquer modificação, do modelo de crédito iniciado por Fernando Henrique Cardoso em 1996

lula safra

Por Jean Marc Von der Weid*

O novo plano de safra, que inaugura a ação do novo governo Lula para a agricultura familiar, foi festejado pelos movimentos sociais em cerimônia com a presença do presidente em ato apoteótico. No entanto, trata-se da reprodução, sem qualquer modificação, do modelo de crédito iniciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em 1996, quando foi criado o Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar, PRONAF e o próprio e recém recriado Ministério do Desenvolvimento Agrário, MDA.

Qual a orientação deste crédito? Ao longo de todos estes 27 anos, do governo liberal de FHC, passando pelos governos ditos populares de Lula e de Dilma Rousseff, pelo governo golpista de Michel Temer e o governo protofascista de Jair Bolsonaro, o crédito facilitado para a agricultura familiar foi orientado para promover o uso de insumos químicos (adubos e agrotóxicos), sementes melhoradas (híbridas e transgênicas) para melhor aproveitarem adubos sintéticos e uso de maquinário agrícola (tratores, colheitadeiras).

Esse modelo produtivo, idêntico ao adotado pelo agronegócio de grande porte, responde a um paradigma produtivo que busca a máxima artificialização e controle do meio ambiente para favorecer uma monocultura. É um modelo sabidamente insustentável em qualquer escala em que for aplicado, mas é mais arriscado para os agricultores familiares. Dependendo de combustíveis fósseis em todas as suas operações no campo e na produção dos insumos e máquinas, o modelo está à mercê dos preços e disponibilidade de petróleo e gás e de fósforo e potássio. E todos estes insumos estão em fase de esgotamento e, em consequência, com custos sempre mais elevados.

O crédito altamente subsidiado pelo governo permitiu que uma camada significativa, mas bastante minoritária, da agricultura familiar tivesse acesso a estes insumos e provocou uma enorme diferenciação entre os beneficiários. A parcela mais capitalizada ou mais bem-dotada em termos de condições naturais de produção (solos de melhor qualidade, clima mais favorável, sobretudo na região sul, relevo mais plano, áreas maiores) progrediu em termos de volume de produção e melhoria de renda. A maioria, entretanto, teve dificuldades em pagar os créditos e muitos quebraram, apesar das várias anistias e renegociações de dívidas concedidas pelos governos populares.

Se olharmos para as negociações anuais entre as organizações dos agricultores familiares (CONTAG, CONTRAF e MST, MPA e MMC) e os governos populares (Abril Vermelho, Marcha das Margaridas, outros) vamos notar que o foco das reivindicações foi se dirigindo cada vez mais para tentar enfrentar o problema do endividamento, sem nunca o resolver de forma estável. Isto lembrando que estes governos criaram seguros de safra para cobrir os riscos climáticos para a produção. Estes riscos foram se tornando cada vez mais importantes ao longo destes anos, com secas mais longas e intensas na região nordeste e com a ampliação, no tempo e no rigor, do chamado veranico na região sul. A instabilidade do regime de chuvas foi se agravando sem limites e não houve seguro ou subsídio que desse conta do estrago.

Muitos analistas apontam para o fato de que o agronegócio também foi afetado por todos estes fatores e, no entanto, parece ter convivido melhor com eles. É bom notar que o agronegócio recebeu apoios ainda mais importantes por parte dos governos e que os subsídios, facilitação de créditos e isenção de impostos também os favoreceram. Mas há um outro fator que deu vantagens ao agronegócio: a escolha do que produzir. O agronegócio centrou sua atividade sobretudo em commodities do mercado internacional ou produtos dirigidos para o mercado interno de alta renda.

Quando se olha para a evolução da produção da agricultura familiar no período indicado acima, verificamos que a produção de alimentos para o mercado interno, sobretudo os chamados alimentos de base como arroz, feijão, milho e mandioca, caiu de forma sistemática, enquanto a produção voltada para as commodities como soja e milho (para ração animal) de exportação só fez crescer.

Quase metade de todo o crédito distribuído pelo PRONAF foi dirigido a projetos de produção de commodities no final do governo de Dilma Rousseff, sobretudo na região sul, que voltou a concentrar a maior parte dos créditos do programa depois de alguns anos de diversificação regional. Os projetos dos agricultores da região sul foram ficando cada vez mais caros, inclusive levando à criação de novas categorias do PRONAF, com limites mais elevados de créditos. Qual a razão para esta opção? O risco financeiro dos créditos levou estes agricultores a escolherem produtos com preços mais altos e mais estáveis e, nas condições do mercado nacional e do internacional, as commodities são mais rentáveis.

A segunda política mais importante dos governos populares, no que toca a agricultura familiar, foi a de assistência técnica e extensão rural, ATER. Apoiando-se sobretudo nas entidades dos governos estaduais de assistência técnica e extensão rural, as EMATER, a política de assistência técnica convergiu para estimular o uso do pacote técnico típico do agronegócio, em sintonia com a orientação do crédito.

Qual o efeito destas políticas para a categoria dos agricultores familiares? Já foi dito que elas favoreceram a inclusão de parte deste setor na economia de commodities, mas qual o impacto sobre a renda e a sustentabilidade dos produtores?

Se olharmos para os resultados dos censos agropecuários de 2006 e de 2017, constatamos que o número de famílias camponesas diminuiu fortemente no período. São, aproximadamente, menos 470 mil famílias, 10,7% das que existiam em todo o país. Isto aconteceu apesar de terem sido assentadas perto de 480 mil famílias no programa de Reforma Agrária. Ou seja, quase um milhão de famílias deixaram o campo em 11 anos.

Estes números cobram uma explicação e nem na campanha eleitoral ou na fase de transição entre os governos de Jair Bolsonaro e de Lula alguém se debruçou sobre este dado importantíssimo para avaliar o efeito da ação governamental sob responsabilidade da esquerda.

Qual a origem geográfica desta pesada evasão de camponeses? O maior número veio do Nordeste, quase 350 mil famílias (16% do total de agricultura familiar na região). Da região Sul saíram quase 185 mil (22%). Da região Sudeste saíram 11 mil. Nas regiões Norte e Centro Oeste o número de agricultores familiares aumentou, 68 mil e 6 mil respectivamente.

Qual a causa destas evasões? Há um sabido e estudado processo de envelhecimento da população rural, com agricultores se aposentando e sem sucessores. Mas os números citados são muito altos para esta ser a explicação principal. A evasão no Nordeste é histórica e tem a ver com o impacto cada vez mais importante de secas cada vez mais longas e intensas. Mas também foi constatado um alto nível de inadimplência nos empréstimos do PRONAF na região, o que sugere que esta pode ter sido também uma causa importante. No entanto, o tipo de empréstimo que prevaleceu na região Nordeste, conhecido como PRONAF B, não se voltou para a promoção do uso de insumos químicos e sementes melhoradas, como nas regiões Sul e Sudeste.

Na região Sul, a que mais recebeu créditos do PRONAF, a orientação técnica foi voltada para as monoculturas de soja e milho e para o uso de adubos químicos, agrotóxicos, sementes transgênicas e maquinário agrícola. É neste público e nesta região que se deveria avaliar o programa de crédito, sobretudo pelos valores despendidos tanto no volume total como no volume por beneficiário. E o indicativo é que uma boa parte dos agricultores que deixaram o campo o fizeram por problemas financeiros.

Durante a campanha Lula adotou a política de prometer “mais do mesmo”, idealizando as realizações do seu governo, já que o de Dilma Rousseff foi mal avaliado. Deu certo eleitoralmente, mas a equipe de transição que tratou do tema da agricultura familiar adotou uma importante mudança em relação aos tempos passados: a meta do novo Ministério do Desenvolvimento Agrário passou a ser a promoção da agroecologia como estratégia para dar sustentabilidade à produção desta categoria.

Sem ter havido uma avaliação das políticas aplicadas no passado, esta decisão a favor da agroecologia implica em uma crítica implícita aos governos de Lula, já que neles, assim como nos de Dilma Rousseff, prevaleceu amplamente a promoção das práticas do agronegócio visando a sua adoção pela agricultura familiar. As medidas de apoio à produção agroecológica foram residuais.

O que a equipe de transição não fez foi discutir como traçar políticas de crédito, de assistência técnica e extensão rural, de seguro e de acesso a mercados para realizar o objetivo definido. A experiência mostra que as medidas, bem marginais, adotadas nos governos passados para favorecer a agroecologia tiveram muitos problemas. Os créditos PRONAF agroecologia, semiárido e floresta foram mal formulados e tiveram pouquíssimos acessos; as chamadas de assistência técnica e extensão rural para financiamento de projetos de promoção da agroecologia também tiveram enormes problemas de formulação e execução. As compras da CONAB (PAA, Programa de Aquisição de Alimentos) favorecendo produtos agroecológicos tiveram melhores resultados, mas os valores foram diminutos e beneficiaram poucos agricultores.

O novo Ministério do Desenvolvimento Agrário tem dificuldades em fazer esta revisão das políticas. Em primeiro lugar, porque virou uma praxe desde os governos populares escantear qualquer crítica às ações do governo. As quedas de braço entre membros do Conselho do Ministério do Desenvolvimento Agrário (CONDRAF) e técnicos e dirigentes deste ministério foram constantes e resultaram em pelo menos um enfrentamento público por ocasião da primeira conferência nacional de assistência técnica e extensão rural, no governo Dilma Rousseff, com Pepe Vargas como ministro.

Já o programa de crédito ficou blindado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que conseguiu impedir a formação de um Comitê de acompanhamento/avaliação da política no CONDRAF ao longo de 13 anos. Apenas no apagar das luzes do governo Dilma conseguimos criar um grupo de trabalho para avaliar esta política, apoiado pelo ministro Patrus Ananias. Este GT chegou a reunir uns 10 pesquisadores de universidades do nordeste, sudeste e sul, técnicos de ONGs, agentes financeiros e responsáveis governamentais. Durou pouco. O golpe em Dilma Rousseff matou essa iniciativa no nascedouro.

Em segundo lugar, o novo Ministério do Desenvolvimento Agrário está composto por um grupo pequeno de técnicos, longe do número de pessoas que nele trabalhavam quando foi extinto por Michel Temer. O pior é que não consegui identificar, entre os que hoje se encarregam deste ministério, algum dos membros das equipes que nele trabalharam nos tempos de Lula I e II e de Dilma I e I/3. Não há hoje, na equipe atual, a memória viva das experiências, exitosas ou fracassadas, dos períodos anteriores.

De todas as políticas em prol da agricultura familiar, a de maior impacto e de maior durabilidade foi a de crédito. Ela foi concebida e dirigida por um técnico altamente competente, João Luiz Guadagnin, desde o governo FHC até a queda de Dilma. Foi o único programa a que Michel Temer e Jair Bolsonaro deram continuidade, promovendo técnicos que já trabalhavam no mesmo. E este programa, com todos os seus erros de concepção, está tendo continuidade neste governo, sem qualquer avaliação crítica. Me pergunto como é que o MST, importante participante do ato de lançamento do Plano de Safra no Planalto, recebeu esta “nova” proposta. Desde o governo Dilma Rousseff o MST tornou-se um defensor coerente e incisivo da agroecologia, assim como a CONTRAF e a CONTAG, embora estes dois últimos sejam menos convictos desta proposta, pelo menos como proposta universal.

A mesma crítica pode ser feita ao segundo dos programas mais importantes do antigo ou do novo Ministério do Desenvolvimento Agrário: o de assistência técnica e extensão rural. As novas chamadas para projetos de assistência técnica repetiram praticamente todos os vícios e erros das chamadas anteriores, em 2010/2016.

A necessidade de se fazer um planejamento rigoroso, baseado numa revisão das políticas passadas e dos seus efeitos é premente ou veremos a repetição dos resultados anteriores. A meu ver, não é apenas necessário discutir cada um desses programas, mas a própria abordagem do governo para a promoção do desenvolvimento da agricultura familiar.

Com efeito, não é de hoje que eu comparo os métodos e práticas dos projetos de promoção do desenvolvimento da agricultura familiar de entidades da ONU, como a FAO e o PNUD e as adotadas pelos governos populares. No Brasil as iniciativas de apoio à produção são distribuídas por várias políticas distintas (crédito, assistência técnica e extensão rural, compras governamentais, acesso a mercados, beneficiamento, seguro, pesquisa). Nos programas de desenvolvimento que acompanhei na África todas estas políticas estavam integradas em cada um dos projetos, com um só orçamento sendo gerido harmonicamente.

Na prática, a diferença se traduz (aqui) na necessidade de cada entidade que trabalha com um público definido de agricultores formular projetos para acessar os recursos que necessita: um projeto para a assistência técnica e extensão rural, centenas de projetos individuais para cada agricultor acessar crédito, centenas de outros para acessar o PAA, sendo que não existem recursos para projetos que envolvam pesquisas participativas ou para facilitar a integração com entidades como a EMBRAPA ou as equivalentes estaduais. Além dessa dispersão de recursos provocar enormes dificuldades operacionais para as equipes de apoio, existem incoerências na orientação de cada uma das políticas.

O modelo atual de políticas separadas funciona para a promoção de modelos convencionais de produção, mas são totalmente ineficazes para a promoção da produção agroecológica.

Se não for realizado um intenso esforço de avaliação das políticas e dos mecanismos de financiamento da promoção da transição agroecológica vamos assistir a repetição dos problemas já vividos pela agricultura familiar ao longo das últimas três décadas. Mais do mesmo não é uma solução.

*Jean Marc von der Weid


color compass

Este texto foi originalmente publicado pelo portal “A Terra é Redonda” [Aqui!].

Enquanto Brasil lidera desmatamento no mundo, governo Lula libera R$ 400 bilhões para o “ogronegócio” continuar sua marcha na Amazônia

Uma área de floresta tropical primária do tamanho da Suíça foi derrubada no ano passado, sugerindo que o compromisso dos líderes mundiais de interromper e reverter o desmatamento até 2030 está falhando

desmatamento fogo

De acordo com dados liberados pelo World Resources Institute no dia de ontem, o Brasil foi o campeão de desmatamento no mundo, com as perdas de florestas nativas representando 43% de tudo o que desmatado no planeta em 2022, com o impressionante desaparecimento de 1,4 milhões de hectares.  Com isso, as emissões de carbono do Brasil em função da mudança da cobertura vegetal  foram de 1,2 Gt C02 sendo emitidas, ou 2,5 vezes as emissões anuais de combustíveis fósseis do nosso país.

total deforestation

Brasil, República Democrática do Congo e Bolívia ficaram entre os três primeiros em perda de floresta tropical primária em 2022

Some-se a esses dados, o fato de que em 2022 (último ano de Jair Bolsonaro no poder), a variação em relação a 2021 aumentou em 20%, o que implica a maior perda de floresta primária sem fogo aumentou  desde 2005  (ver figura abaixo).

desmatamento 2002 2022

E sabemos que no Brasil os responsáveis por essas taxas astronômicas são os membros do chamado “ogronegócio” que avançam a franja de desmatamento na mesma velocidade em que deixam terras abandonadas para trás, visto que não há qualquer compromisso com a adoção de formas minimamente sustentáveis de uso da terra.

Entretanto, nem esse cenário de terra arrasada detém a influência do “ogronegócio” em abocanhar pesadas fatias de dinheiro público para subsidiar suas atividades destruidoras.  Uma prova disso é o fato de que nesta terça-feira, dia 27, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, lançam o Plano Safra 2023/2024.  Segundo fontes ligadas  ao “ogronegócio”, informações de bastidores indicam que será um plano histórico, que deve ultrapassar os R$ 400 bilhões.

O ato de lançamento de mais essa rodada de entrega de dinheiro para destruir os principais biomas florestais deverá ocorrer às 10 horas, em Brasília. E que soem as motosserras em festiva celebração, e junto com elas as bombas costais para despejar agrotóxico!

Dilma Rousseff se rende de vez ao agronegócio poluidor e escravocrata

dilmasafra2_88_0_552_361

Depois os neopetistas reclamam de que se afastou da sua agenda de neoliberalismo travestido de desenvolvimentismo! Hoje no lançamento no Plano Agrícola e Pecuário de 2014/2015, a presidente Dilma Rousseff afirmou ao lado da dublê de senadora e latifundiária Kátia Abreu que oBrasil tem motivos de sobra para se orgulhar do agronegócio” (Aqui!). Ainda que a parceria com a “rainha das motosserras” não seja nova, essa chancela oficial ao agronegócio demonstra qual é a verdadeira face do (des) governo liderado pelo PT. 

E essa é uma face tenebrosa! Afinal, graças à opção preferencial que o PT fez pelo agronegócio, o Brasil se tornou o principal consumidor mundial de agrotóxicos e caminha para se ocupar esse posto no consumo de sementes transgênicas. Além disso, apesar da redução do número de equipes, o latifúndio agro-exportador é ainda o principal alimentador do trabalho escravo no Brasil. Essa combinação de financiamento subsidiado pelo Estado, e poluição ambiental associada à negação básica dos direitos dos trabalhadores, é que alimenta as margens de lucros dos latifundiários, e não uma suposta capacidade de produção dos latifundiários.

Ao mesmo tempo em que enche os cofres do latifúndio, Dilma Rousseff congela a reforma agrária e entrega uma porção insignificante do fomento agrícola à agricultura familiar que, paradoxalmente, responde por 70% da produção dos alimentos consumidos pelos brasileiros. 

Diante dessa aliança é que eu me pergunto até quando o MST e outros movimentos e organizações sociais vão ficar numa posição vacilante e acomodada frente a um governo que de esquerda não tem nada. E tome agrotóxicos na nossa cabeça!