Rolex de R$ 305 mil, festas e suspeita de lobby: as revelações do ex-sócio de Flávio Bolsonaro

Reportagem do PlatôBR reúne relatos sobre festas com garotas de programa, um Rolex de R$ 305 mil, despesas pessoais pagas por terceiros e uma possível intermediação junto ao ministro Kassio Nunes Marques

A reportagem publicada pelo PlatôBR em 29 de setembro reúne mensagens, documentos e relatos de Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro. Segundo o veículo, esse material aponta que o senador teria participado de festas com garotas de programa, recebido presentes e despesas de alto valor pagos por pessoas próximas e atuado para aproximar interesses de um cliente do ex-sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Entre os itens citados estão um Rolex avaliado em R$ 305 mil e equipamentos de academia que teriam custado mais de R$ 90 mil. São alegações que exigem apuração rigorosa, contraditório e respostas dos envolvidos — não conclusões antecipadas sobre responsabilidade criminal.

Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas relatadas pelo UOL e, questionado por jornalistas, evitou comentar o caso. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro recebe parlamentares de todos os partidos e que isso não compromete sua imparcialidade; essa resposta, porém, não esclarece por si só as circunstâncias específicas mencionadas na reportagem.

O aspecto que merece atenção para além do conteúdo da denúncia é a dimensão dada a ela pelos grandes veículos. Há uma diferença entre publicar uma matéria e incorporá-la de fato à agenda pública: acompanhar os desdobramentos, cobrar explicações, contextualizar as relações políticas e manter o assunto visível. Uma cobertura concentrada em notas breves, ou que rapidamente desaparece das manchetes, pode reduzir o peso público de revelações relevantes justamente quando o personagem envolvido disputa a Presidência.

Não é correto afirmar que toda a mídia corporativa ignorou o caso: UOL e Folha, por exemplo, publicaram matérias sobre a reportagem, e outros veículos também repercutiram seus elementos. A questão, portanto, não é uma ausência absoluta, mas a intensidade, a continuidade e o destaque concedidos. É aí que a comparação com a cobertura de notícias envolvendo Lula e sua família se torna pertinente: quando denúncias atingem o presidente ou seus parentes, elas frequentemente ocupam o centro do noticiário por dias, com sucessivas entrevistas, análises e cobranças. Se revelações sobre Flávio Bolsonaro recebem tratamento mais discreto ou episódico, a assimetria precisa ser exposta e discutida.

Essa diferença de tratamento não prova, por si só, uma coordenação editorial para favorecer uma candidatura. Mas seus efeitos são políticos, ainda que não haja uma ordem explícita: o que ganha destaque se torna assunto nacional; o que recebe pouca atenção corre o risco de ser tratado como ruído. Em uma eleição presidencial, a seleção e a hierarquização das notícias influenciam o que os eleitores conseguem conhecer e comparar.

O caso também não pode ser reduzido à vida privada do filho primogênito de  Jair  Bolsonaro. O interesse público está nas perguntas sobre presentes de alto valor, despesas pessoais pagas por terceiros e possíveis intermediações em favor de interesses privados junto a um ministro do STF. Se confirmadas, essas circunstâncias levantarão questões éticas, políticas e, dependendo das provas e do enquadramento jurídico, legais. Desta forma, cabe à mídia corporativa esclarecer o que os documentos comprovam, o que permanece como alegação e quais respostas ainda faltam.

A mídia corporativa tem a obrigação de tratar todos os candidatos com os mesmos critérios. Mas, quando reserva manchetes, comentários e cobranças insistentes para Lula e sua família e oferece a Flávio Bolsonaro um noticiário mais contido diante de revelações  claramente graves, deixa de apenas selecionar notícias: pratica dois pesos e duas medidas com consequências eleitorais. Depois, será difícil invocar com credibilidade o direito à liberdade de expressão para se apresentar como vítima de censura, se esse direito tiver sido usado seletivamente para favorecer uma candidatura e poupar seus candidatos de um escrutínio público proporcional. O silêncio também comunica — e, neste caso, pode funcionar como peça de campanha.

O Brasil caminha a passos largos para ultrapassar 100 mil mortos por COVID-19 em 15 dias

cemitériosCom a pandemia da COVID-19 totalmente fora de controle, o número de mortos do Brasil deverá alcançar 100 mil até meados de agosto

Algo que era apenas teórico no início de março, agora se torna uma inevitabilidade: a COVID-19 matará mais de 100 mil brasileiros. E o tempo para ultrapassar essa marca será de no máximo 15 dias. Para isso basta analisar a chamada média móvel que indica algo em torno de 1.000 mortes diárias, enquanto os dados de contaminação seguem oferecendo números igualmente assustadores. 

Apesar disso, o governo Bolsonaro continua com um general que literalmente caiu de paraquedas na chefia do Ministério da Saúde, após a demissão de dois ministros que, pelo menos, eram da área médica.  Não bastasse a falta de coordenação federal, governadores e prefeitos aparentemente se livraram dos aparentes pruridos que mostraram no início da pandemia da COVID-19, optando por flagrantemente desconsiderar a crise sanitária e permitir toda sorte de desrespeito em relação às normas manifestas em prol de um mínimo de isolamento social.

O Brasil está assim entregue à mercê do coronavírus e se tornou um caso singular na pandemia da COVID-19, pois sua curva de óbitos se tornou um enorme platô, significado que a pandemia se tornou algo que não é mais agudo, mas crônico.  E, pior, na ausência de medidas que forcem a retomada de períodos de isolamento mais estrito, deveremos continuar com o número de mortos no atual platô.  Por isso, não chega a ser nenhuma novidade que 100.000 mil mortos não deverá representar o teto de mortes, mas apenas uma marca assombrosa que poderá ser ultrapassada por outras.

Brasil registra 1.211 mortes e 51.147 casos de coronavírus em 24 horas |  Poder360

 

Tenho ouvido pessoas sinceramente perplexas com as cenas de praias e bares lotados em diferentes partes do Brasil, a despeito do que se sabe em termos do avanço da contaminação e dos óbitos.  Afinal, depois de quase 5 meses de duração da pandemia, não há quem não tenha se tornado minimamente informado sobre a COVID-19. Então, se perguntam as pessoas que ainda optam por formas mais sérias de isolamento, o que leva a tantos brasileiros a, digamos, sambar na frente de uma pandemia letal?

Eu diria que temos uma complexa combinação que começa pelo papel desarticulador do governo Bolsonaro, passando pelas abissais diferenças sociais e chegando na desarticulação de sindicatos e movimentos sociais que deveriam estar agora na linha de frente da conscientização coletiva dos riscos da pandemia.  

Todavia, há que se mencionar que a coisa poderia estar ainda pior se também em diversas partes do Brasil, as próprias comunidades pobres não tivessem decidido na ausência completa do Estado decidido agarrar o touro pelo chifre. Menciono mais uma vez, o papel fundamental de movimentos sociais como o MST e o MPA têm cumprido na na distribuição de alimentos em periferias pobres, aliviando assim situações críticas de fome. Também existem casos em que a própria população criou sistemas alternativos de controle da pandemia, com resultados positivos.

A acumulação desses exemplos será fundamental não apenas para que se chegue ao final do túnel, mas para que se tenha o começo de um processo de reorganização que permita aos brasileiros tirarem os melhores ensinamentos da catástrofe em que estamos metidos neste momento.