Polícia Federal
Caso Master: André Mendonça afasta quem investiga e amplia as dúvidas sobre sua própria atuação
Ao afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada enquanto a PF apura fatos que alcançam sua relação com Vorcaro, ministro do STF aprofunda um delicado problema de conflito de interesses e credibilidade institucional
O afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, acrescentou um ingrediente particularmente explosivo ao caso do Banco Master. A questão não está apenas na excepcionalidade de um ministro do STF afastar dois integrantes da cúpula da Polícia Federal, mas no fato de que o próprio André Mendonça aparece no universo de informações levantadas pela instituição que agora tem seus dirigentes afastados.
André Mendonça sustenta que relatórios produzidos pela PF envolveram procedimentos ilegais de inteligência e que ele próprio teria sido alvo de monitoramento indevido. Essa alegação precisa evidentemente ser apurada. O problema institucional surge porque o ministro que se considera atingido pelos procedimentos é também aquele que determinou uma das medidas mais severas possíveis contra a direção da instituição responsável por produzi-los. Mesmo que André Mendonça esteja juridicamente correto sobre eventuais ilegalidades cometidas pela PF, permanece uma pergunta difícil de afastar: seria adequado que ele próprio decidisse sobre as consequências para os responsáveis por uma estrutura investigativa que produziu informações a seu respeito?
A situação torna-se ainda mais delicada porque André Mendonça confirmou ter recebido o banqueiro Vorcaro em março de 2025, embora sustente que o encontro tenha ocorrido uma única vez, em contexto institucional, e que sua atuação posterior no STF tenha inclusive contrariado interesses do banqueiro. O encontro, por si só, não demonstra qualquer irregularidade. Entretanto, sua existência torna especialmente necessária a preservação de uma distância inequívoca entre André Mendonça e decisões que possam interferir em investigações capazes de alcançar suas próprias relações com Vorcaro.
Existe ainda outra contradição. Quando informações obtidas nas investigações do caso Master alcançaram outros integrantes do STF, André Mendonça defendeu o aprofundamento das apurações e posteriormente retirou o sigilo de elementos que expunham relações entre Alexandre de Moraes e Vorcaro. Agora que informações produzidas pela PF atingem o próprio André Mendonça, sua reação foi questionar a legalidade dos procedimentos e afastar preventivamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência da instituição. As situações podem ter diferenças jurídicas relevantes, mas a assimetria é suficientemente evidente para exigir uma explicação pública particularmente robusta.
Não se trata, neste momento, de acusar André Mendonça de prevaricação ou de qualquer outro crime. As informações disponíveis não autorizam semelhante conclusão. O problema é anterior e talvez institucionalmente mais profundo: a aparência de que uma autoridade possa estar exercendo poderes jurisdicionais em uma controvérsia na qual possui interesse pessoal direto. Em um Estado de Direito, não basta que uma decisão seja juridicamente fundamentada; é igualmente necessário preservar condições capazes de afastar dúvidas razoáveis sobre a imparcialidade de quem decide.
O afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada também cria um precedente preocupante para a autonomia operacional da Polícia Federal. Se dirigentes policiais podem ser removidos por decisão de uma autoridade que aparece nas próprias informações produzidas pela instituição, investigadores encarregados de apurar fatos envolvendo integrantes dos poderes superiores passam a trabalhar sob uma ameaça objetiva: suas investigações poderão produzir consequências não apenas para os investigados, mas para os próprios investigadores.
É justamente por isso que a crise do Banco Master deixou há muito tempo de ser apenas uma investigação sobre Vorcaro e seus negócios. Ela passou a colocar à prova as relações entre Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal e demais instituições responsáveis pelo sistema de Justiça. Quanto mais as investigações se aproximam de autoridades encarregadas de supervisioná-las, maior deveria ser o cuidado com impedimentos, controles colegiados e transparência.
André Mendonça pode, ao final, estar correto ao sustentar que houve abusos na produção dos relatórios da Polícia Federal. Mas essa conclusão será muito mais convincente se for estabelecida por autoridades que não sejam simultaneamente julgadoras e personagens dos fatos examinados. Ao afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada enquanto ele próprio está inserido no universo das apurações relacionadas ao Banco Master, André Mendonça criou uma contradição que nenhuma decisão judicial consegue simplesmente apagar.
E talvez seja essa a pergunta que permanecerá sobre o episódio: quando uma investigação alcança quem possui poder para controlar os investigadores, quem deve decidir sobre os limites da investigação? A resposta institucionalmente saudável certamente não pode depender apenas da autoridade de quem está sendo investigado.
Minas Gerais: operação da Polícia Federal revela a engrenagem da mineração ilegal na Serra do Curral
Indiciamento de 17 pessoas mostra que a mineração ilegal depende de uma complexa rede empresarial, técnica, financeira e institucional, reforçando a necessidade de punição exemplar dos responsáveis
O indiciamento de 17 pessoas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Parcours, conectada à Operação Rejeito, representa mais um passo importante no desmonte de um sofisticado esquema de exploração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A reportagem assinada pelo jornalista Lucas Ragazzi, publicada no portal O Fator, aponta que a investigação revelou que planos de recuperação ambiental e de fechamento de mina teriam sido utilizados como fachada para viabilizar a continuidade da lavra em uma área tombada e legalmente protegida.
Os crimes investigados vão muito além da extração mineral sem autorização. Segundo a Polícia Federal, o esquema envolveria, em tese, usurpação de bens da União, dano ambiental, degradação de patrimônio tombado, organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude processual. Mais significativo ainda é o fato de que a investigação identifica diferentes núcleos de atuação (i.e., empresarial, técnico, financeiro e de captura institucional indicando que a mineração ilegal contemporânea não opera por meio de aventureiros isolados, mas através de estruturas organizadas, altamente especializadas e articuladas.
Esse talvez seja o aspecto mais relevante do caso. A imagem tradicional do garimpeiro ou do empresário que simplesmente descumpre a legislação ambiental já não explica a complexidade dos grandes empreendimentos ilegais. O que emerge das investigações é um modelo de atuação que depende da participação coordenada de empresários, advogados, consultores técnicos, operadores financeiros e, quando possível, de agentes capazes de influenciar ou capturar instâncias estatais responsáveis pelo licenciamento, fiscalização e controle.
O fato é que estamos diante de uma verdadeira cadeia econômica do crime ambiental. Cada segmento desempenha uma função específica para conferir aparência de legalidade a atividades que, segundo as investigações, produzem enormes danos ao patrimônio público e ao meio ambiente. O uso de instrumentos concebidos justamente para reparar impactos ambientais (e.g., planos de recuperação de áreas degradadas) como suposta cobertura para a continuidade da exploração mineral talvez seja um dos elementos mais perversos revelados pela investigação da Polícia Federal.
Entretanto, esse padrão não constitui uma novidade exclusiva de Minas Gerais. Em diferentes regiões do Brasil observa-se uma crescente sofisticação dos crimes ambientais associados à mineração, ao desmatamento ilegal, à grilagem de terras públicas e até mesmo à expansão de determinadas fronteiras agropecuárias. Em comum, esses casos apresentam a formação de redes capazes de mobilizar recursos financeiros, conhecimentos técnicos e influência política para reduzir riscos, neutralizar mecanismos de fiscalização e prolongar atividades ilícitas durante anos.
É justamente por isso que eventuais punições brandas produziriam um efeito devastador sobre a credibilidade das instituições. Quando organizações criminosas movimentam milhões de reais explorando bens públicos e degradando áreas protegidas, multas administrativas ou condenações limitadas deixam de cumprir qualquer função dissuasória. Ao contrário, acabam sendo incorporadas ao próprio cálculo econômico da atividade ilegal.
Se as acusações forem confirmadas ao longo do devido processo legal, será indispensável que as sanções alcancem todos os integrantes da estrutura investigada, independentemente de sua posição econômica, profissional ou institucional. Não basta responsabilizar apenas quem opera diretamente a extração mineral. O que fica evidente é que se torna igualmente necessário alcançar aqueles que oferecem suporte técnico, financeiro, jurídico ou administrativo para viabilizar o empreendimento ilícito.
A Operação Parcours deixa uma lição importante para o Brasil: combater crimes ambientais exige muito mais do que fiscalizar escavadeiras ou interditar minas. Este esforço exige enfrentar redes complexas de poder econômico e político que transformam a destruição ambiental em um negócio altamente lucrativo. Asssim, será somente com a responsabilização integral de todos os envolvidos poderá romper esse ciclo e demonstrar que a legislação ambiental brasileira não constitui um obstáculo meramente burocrático, mas um instrumento efetivo de proteção do patrimônio natural e do interesse público.
PF apertou o cerco às quadrilhas de falsificação de diplomas
Entre 2024 e 2025, operações se multiplicaram e expuseram redes de falsificação e revalidação fraudulenta de títulos acadêmicos

A Operação Side Job 2, da PF, investiga uma organização criminosa suspeita de produzir e comercializar diplomas falsos de cursos superiores, técnicos e de ensino médio em diversos estados. Fotos: Polícia Federal/Divulgação
Por Marcelo Menna Barreto para “Extra Classe”
Nos últimos anos, a Polícia Federal (PF) brasileira tem deflagrado operações específicas para combater a falsificação e o uso fraudulento de títulos stricto sensu no país. Trata-se de um verdadeiro mercado paralelo de certificados acadêmicos, cursos superiores irregulares e instituições ditas estrangeiras que operam à margem da legislação brasileira.
Titulações falsas têm se revelado, nos últimos anos, um filão lucrativo que envolve não apenas estelionatários, mas também instituições de ensino superior nacionais que revalidam títulos de mestrado e doutorado supostamente obtidos no exterior, mas eivados de irregularidades. A ameaça à credibilidade do sistema educacional pátrio e o risco oferecido à sociedade colocaram esse ecossistema criado por golpistas no radar da PF.
Como um todo, o golpe não é novo nem exclusivo do Brasil. Seguindo um modus operandi semelhante, falsários e estelionatários operam praticamente em todo o território nacional.
A ação pública mais recente da PF foi realizada em 17 de dezembro passado. Dois mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. A Operação Side Job 2 investiga uma organização criminosa suspeita de produzir e comercializar diplomas falsos de cursos superiores, técnicos e de ensino médio em diversos estados. De acordo com a PF, a apuração teve início em outubro de 2024, após denúncia do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ).
No Distrito Federal, site falso simulava sistemas de verificação
Em junho de 2025, a PF cumpriu 25 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em outros 11 estados. A ação integrou a Operação Código 451, voltada à desarticulação de uma rede criminosa de falsificação e venda de diplomas de ensino superior.
Segundo as investigações, os documentos ilegais eram utilizados para obtenção de registros em conselhos profissionais, permitindo o exercício irregular de profissões regulamentadas. Entre as áreas identificadas estão direito, engenharia, psicologia, biomedicina, fisioterapia, administração e educação física.
O esquema incluía a criação de um site fraudulento que simulava sistemas oficiais de verificação. Os investigados podem responder por falsificação de documento público, estelionato e exercício ilegal da profissão.
A PF não divulga os nomes dos alvos da operação. O Extra Classe, no entanto, teve acesso à ata da Reunião Plenária do Conselho Regional de Psicologia da 1ª Região (CRP-DF), realizada em 29 de julho passado. No documento, os conselheiros foram informados sobre um inquérito policial que envolvia diplomas de psicologia falsificados. Entre eles, o de Ângelo Ribeiro Froes.
Fábrica de diplomas
Froes já havia sido citado na série de reportagens Fábrica de Diplomas, produzida pelo Extra Classe desde 1º de agosto. Ele é identificado como vice-reitor da Emil Brunner World University (EBWU), organização sediada na Flórida, nos Estados Unidos.
A matéria Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias registrou que Froes tentou obter registro profissional no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).
Para isso, apresentou um diploma falsificado e um termo no qual se declarava “bacharel em Medicina” por uma empresa que se apresenta como instituição de ensino superior norte-americana. Alertado pelo conselho de que diplomas de graduação obtidos no exterior precisam, por lei, ser revalidados por universidades públicas ou institutos federais, ingressou com mandados de segurança contra a Universidade Federal de Goiás (UFG) e, posteriormente, contra a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), buscando a revalidação simplificada do título.
Nos dois casos, as ações foram abandonadas antes de decisão judicial, após as universidades levantarem questionamentos sobre a autenticidade da documentação. Os processos, ajuizados com o benefício da Justiça gratuita, foram extintos.
No mesmo mês da Operação Código 451, o vice-reitor da EBWU solicitou o cancelamento de seu registro no CRP.
Froes também figura como “chefe de reportagem” de um jornal digital que tem atuado na defesa de supostas instituições de ensino superior estrangeiras e na crítica ao trabalho do Extra Classe e do autor da série que denuncia fraudes atualmente sob investigação da PF.
Engodo em nome da Ufrgs
Até então, um dos casos mais emblemáticos conduzidos pela PF foi a Operação Engodo. Deflagrada em junho de 2024 e aprofundada em fevereiro de 2025, a investigação desarticulou um grupo criminoso que falsificava diplomas de mestrado e doutorado em nome da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
De acordo com a PF, o esquema produziu milhares de documentos acadêmicos falsos, incluindo diplomas, históricos escolares e certificados de conclusão de cursos de pós-graduação. Os títulos eram vendidos a interessados que buscavam vantagens funcionais, progressões na carreira pública ou reconhecimento profissional indevido.
Os documentos simulavam integralmente os padrões gráficos e administrativos da Universidade, com assinaturas, selos e registros inexistentes. A PF apura o uso desses títulos em órgãos públicos, instituições privadas e processos administrativos de concessão de adicionais salariais por titulação.
Além dos diplomas falsificados em nome da Ufrgs, o grupo vendia a promessa de revalidação de diplomas obtidos em instituições estrangeiras da Venezuela, Colômbia, Equador e Estados Unidos.
A PF estima que mais de dois mil diplomas falsos de mestrado, doutorado, especialização e outros cursos estejam relacionados ao grupo criminoso desbaratado pela Operação Engodo.
PF investiga diplomas estrangeiros e revalidações fictícias
Outro eixo recorrente das investigações da PF envolve instituições estrangeiras utilizadas como fachada. Em agosto de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fake Degree, voltada a um esquema de emissão de diplomas de mestrado e doutorado supostamente expedidos por uma instituição sediada na Venezuela.
A fraude, no entanto, não se limitava à emissão dos documentos. Segundo a PF, os diplomas eram irregularmente “validados” no Brasil por entidades sem competência legal, permitindo que os portadores utilizassem os títulos para obtenção de benefícios acadêmicos e funcionais, especialmente na docência.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Rondônia e Roraima, estados onde se concentrava parte dos beneficiários do esquema. A investigação apura prejuízos aos cofres públicos e possível participação de intermediários que atuavam como “despachantes acadêmicos”.
O esquema permitia que diplomas falsos de mestrado e doutorado fossem utilizados por professores para requerer retribuição por titulação, resultando em aumentos salariais indevidos que poderiam ultrapassar R$ 70 mil por ano.
Mercado que cresce à sombra da regulação
O trabalho recente da PF dialoga com investigações anteriores, como a Operação Academus, deflagrada em 2021. Ela revelou um esquema de compra e venda de revalidações de diplomas de mestrado e doutorado obtidos no exterior, sobretudo em países da América do Sul.
Embora, nesses casos, os diplomas não fossem necessariamente falsos em sua origem, o processo de reconhecimento no Brasil era fraudado, com pareceres simulados e procedimentos administrativos inexistentes — prática que, na essência, transforma a titulação acadêmica em mercadoria.
As investigações apontaram que os envolvidos atuaram em estados como Alagoas, Mato Grosso, Pará, Piauí e Maranhão, sempre utilizando o mesmo modelo de atuação.
As operações da PF reforçam uma realidade preocupante: a expansão desordenada da oferta educacional, aliada à fragilidade na fiscalização e à crescente demanda por títulos formais para progressão de carreira ou pontuação em concursos públicos, criou um ambiente propício à atuação de verdadeiras fábricas de certificados.
No caso das titulações stricto sensu, o impacto é ainda mais sensível. Mestrados e doutorados falsos comprometem a credibilidade da produção científica, distorcem trajetórias acadêmicas e geram prejuízos diretos ao serviço público, especialmente nas áreas da educação e da pesquisa.
FICS, Carolina Bori e o mercado paralelo em atividade
Especialistas ouvidos pelo Extra Classe afirmam que os esquemas não são episódicos, mas parte de uma engrenagem estruturada, com atuação nacional e internacional. Instituições inexistentes, universidades estrangeiras de fachada e promessas de revalidação “garantida” seguem sendo ofertadas no mercado educacional paralelo.
Alguns casos chegam a ser apurados por ministérios públicos e polícias estaduais. No entanto, por se tratar de crime sem grave ameaça à pessoa, a repercussão midiática costuma ser limitada.
A organização paraguaia Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) tem contribuído para lançar luz sobre o tema nos últimos meses. A quantidade expressiva de “diplomas” revalidados da FICS na plataforma Carolina Bori chamou a atenção e motivou questionamentos da PF às instituições de ensino superior credenciadas que têm concedido chancela na plataforma oficial de reconhecimento e revalidação de títulos acadêmicos do Ministério da Educação (MEC).
Apesar do que já vem sendo tratado como um escândalo no setor, a atuação do mercado paralelo não arrefeceu. Mesmo após a PF caracterizar a FICS como instituição que operou sem regularidade, contrainformações seguem sendo disseminadas em grupos de WhatsApp e em supostos veículos jornalísticos, com o objetivo de manter matrículas e mensalidades em dia.
Fonte: ExtraClasse
Ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro é acusado de planejar golpe de Estado
A polícia federal acusa 37 pessoas de crimes, incluindo conspiração e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo

Jair Bolsonaro se dirige a apoiadores durante comício em São Paulo, Brasil, em 25 de fevereiro de 2024. Fotografia: André Penner/AP
Por Tom Phillips para o “The Guardian”
O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e alguns de seus aliados mais próximos estão entre dezenas de pessoas formalmente acusadas pela Polícia Federal de fazerem parte de uma conspiração criminosa criada para destruir o sistema democrático brasileiro por meio de um golpe de Estado de direita.
A polícia federal confirmou na quinta-feira que os investigadores concluíram sua longa investigação sobre o que chamaram de uma tentativa coordenada de “desmantelar violentamente o estado constitucional”.
Em um comunicado, a polícia disse que o relatório — que foi encaminhado à Suprema Corte — acusou formalmente um total de 37 pessoas de crimes, incluindo envolvimento em uma tentativa de golpe, formação de uma organização criminosa e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo.
Os acusados incluem Bolsonaro, um capitão do exército desonrado que se tornou político populista, que foi presidente de 2018 até o final de 2022, bem como alguns dos membros mais importantes de seu governo de extrema direita.
Entre eles estavam o ex-chefe de espionagem de Bolsonaro, o deputado de extrema direita Alexandre Ramagem; os ex-ministros da Defesa, general Walter Braga Netto e general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres; o ex-ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno; o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos; o presidente do partido político de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto; e Filipe Martins, um dos principais assessores de política externa de Bolsonaro.
Também foi citado o blogueiro de direita, neto do general João Baptista Figueiredo, um dos militares que governaram o Brasil durante a ditadura de 1964-85.
A lista contém um nome não brasileiro: o de Fernando Cerimedo, um guru argentino de marketing digital que foi responsável pelas comunicações do presidente da Argentina, Javier Milei , durante a campanha presidencial de 2023 no país. Cerimedo, que mora em Buenos Aires, é próximo de Bolsonaro e de seus filhos políticos.
A tão esperada conclusão do inquérito policial acontece poucos dias depois de policiais federais terem efetuado cinco prisões como parte de uma operação contra supostos integrantes de um complô para assassinar o sucessor de esquerda de Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice-presidente de centro-direita, Geraldo Alckmin, além do desembargador Alexandre de Moraes.
Pouco antes de a polícia anunciar o fim do inquérito, Lula expressou gratidão pelo fracasso da tentativa de envenená-lo. “Estou vivo”, disse o esquerdista de 79 anos durante um discurso.
O Gen Mario Fernandes, uma das cinco pessoas presas pelo suposto plano de assassinato “Adaga Verde e Amarela”, também estava entre as 37 pessoas nomeadas pela polícia federal na quinta-feira – e, como os outros, foi formalmente acusado de fazer parte de uma tentativa criminosa de golpe. “Estamos em guerra”, Fernandes teria dito em uma mensagem descoberta por investigadores da polícia.
Bolsonaro negou anteriormente envolvimento em uma tentativa de anular o resultado da eleição de 2022, que ele perdeu para Lula. Falando a um jornalista do site de notícias brasileiro Metrópoles depois que ele foi nomeado no relatório policial, o ex-presidente disse que precisava ver o que estava na investigação. “Vou esperar o advogado”, acrescentou Bolsonaro.
Braga Netto, Heleno e outros nomes proeminentes na lista não fizeram comentários imediatos sobre as acusações no relatório da polícia federal, que o comunicado policial disse ser baseado em um grande acervo de evidências coletadas por meio de acordos de delação premiada, buscas e análise de registros financeiros, de internet e telefônicos. Mas políticos pró-Bolsonaro proeminentes criticaram o relatório, com Rogério Marinho, o líder da oposição no senado, atribuindo-o à “perseguição incessante” visando a direita do Brasil. “Quanto mais perseguem Bolsonaro, mais forte ele fica”, tuitou Sóstenes Cavalcante, um deputado bolsonarista do Rio.
A suposta tentativa de golpe pró-Bolsonaro teria ocorrido durante os turbulentos dias finais de seu governo de quatro anos, que chegou ao fim quando ele foi derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial de 2022.
Na preparação para essa votação decisiva, um manifesto assinado por quase um milhão de cidadãos alertou que a democracia brasileira estava enfrentando um momento de “imenso perigo à normalidade democrática” em meio a suspeitas generalizadas de que havia planos em andamento para ajudar Bolsonaro a se agarrar ao poder, mesmo se ele perdesse.
Depois de perder sua tentativa de reeleição, Bolsonaro voou para o exílio temporário nos EUA enquanto milhares de apoiadores se reuniam em frente a bases militares no Brasil para exigir uma intervenção militar que nunca aconteceu.
A tentativa frustrada de anular a vitória de Lula culminou nos tumultos de 8 de janeiro de 2023 na capital, Brasília, quando bolsonaristas radicalizados invadiram o palácio presidencial, o congresso e o supremo tribunal.
Quase dois anos depois, Lula está no poder, mas a ameaça da extrema direita à sua administração continua. Na quarta-feira passada à noite, um membro do partido político de Bolsonaro foi morto após aparentemente se explodir com explosivos caseiros enquanto atacava a Suprema Corte.
Durante uma busca no trailer do homem, a polícia teria encontrado um boné estampado com o slogan do movimento de extrema direita de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”
Em uma declaração em vídeo, Paulo Pimenta, ministro das Comunicações de Lula, disse que o governo estava “completamente perplexo e indignado” com as revelações de que o ex-presidente e membros das Forças Armadas supostamente estavam conspirando para derrubar a democracia brasileira “com uma audácia quase inacreditável”.
“São crimes gravíssimos [e] acusações gravíssimas”, acrescentou Pimenta, que disse que o governo Lula agora esperaria o Ministério Público decidir qual dos 37 seria processado e levado a julgamento. Os condenados teriam que pagar pelos crimes que cometeram contra a democracia, contra a constituição e contra o povo brasileiro, disse Pimenta. “Bolsonaro na cadeia”, escreveu o ministro ao lado do vídeo, ecoando um chamado de muitos brasileiros progressistas.
Ações da Polícia Federal mostram que Campos dos Goytacazes se firmou como vanguarda do atraso político

As ações da Polícia Federal realizadas pela Polícia Federal em Campos dos Goytacazes para prender ativistas de extrema-direita e documentos que os associe eventualmente aos atos de vandalismo ocorridos em Brasília no dia 8 de janeiro não devem (ou não deveriam) surpreender ninguém que acompanhe com atenção mínima a cena política municipal desde, pelo menos, 2018. É que naquela ano, formandos da Faculdade de Medicina de Campos decidiram por uma fotografia coletiva em que homenageavam o então candidato Jair Bolsonaro tratando-o como “Mito” (ver imagem abaixo), demonstrando uma curiosa opção por um político que não deveria merecer qualquer homenagem de futuros profissionais da saúde.

Mas a aparição da extrema-direita como um ator proeminente na cena campista não ficou restrito a estudantes entusiasmados com um político do baixo clero que sempre se notabilizou por defender, entre outras coisas, um torturador contumaz como foi o Coronel Brilhante Ustra. Aos longos dos últimos quatro anos, o que se viu foi a colocação de outdoors supostamente financiados por entidades patronais que em uma hora ameaçavam quem não apoiasse os desvarios sendo cometidos por Jair Bolsonaro na condição de presidente da república, para em outra expressar apoio à sua campanha eleitoral de reeleição (ver imagem abaixo).

Mas a pitada final nessa proeminência da extrema-direita em Campos dos Goytacazes foi a presença constante de um grupo de apoiadores do agora ex-presidente Jair Bolsonaro na frente da entrada do quartel da 2a. Companhia de Infantaria do Exército, que fica localizado na Avenida Deputado Bartolomeu Lizandro, para expressar a agenda extremista em prol de um intervenção federal, o que na prática significaria a instalação de uma nova ditadura militar no Brasil (ver imagem abaixo).

Provavelmente as ações da PF no dia de hoje vão servir como uma espécie de “espalha barata” em um grupo que se tornou subitamente visível, apesar de sempre ter estado presente de uma forma mais subterrânea. Entretanto, há que se lembrar que a volta a uma condição mais discreta não vai significar uma conversão ao Estado democrático de direito. Aliás, muito pelo contrário. O mais provável é que passado o susto das prisões e apreensões, vejamos novamente a extrema-direita em manifestações que reunirão em sua maioria idosos brancos, mas que ainda deverão congregar outros desafetos da democracia para continuarem agindo, ainda que na surdina.
A minha única dúvida é se efetivamente haverá uma busca pelos financiadores destes grupos como está sendo anunciado pelo Ministro da Justiça, Flávio Dino. Se houver, as coisas deverão ficar mais interessantes, pois até as pedras que rolam no Paraíba do Sul sabem que a extrema-direita está sendo financiada por “brasileiros de bens”.
Polícia Federal faz operação contra atos antidemocráticos em Campos dos Goytacazes
Investigadores cumprem cinco mandados de busca e apreensão e três de prisão temporária de suspeitos de organizarem atos em frente à quartéis do Exército, e participar ou financiar dos atos terroristas de 8 de janeiro em Brasília
Bolsonarista radical durante ataques terroristas aos prédios dos poderes em Brasília, em 8 de janeiro — Foto: Eraldo Peres/AP
Por g1
A Polícia Federal deflagrou, nesta segunda-feira (16), uma operação em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, contra atos antidemocráticos após o segundo turno das eleições e naqueles que culminaram na invasão às sedes dos três Poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro.
Os suspeitos são investigados por associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e incitação das Forças Armadas contra os poderes institucionais.
A operação, chamada de Ulysses, visa cumprir cinco mandados de busca e apreensão e três de prisão temporária de pessoas suspeitas de liderarem bloqueios de rodovias que passam pela cidade.
Os investigadores trabalham também para apurar a organização das manifestações em frente aos quartéis do Exército em Campos dos Goytacazes, bem como a participação dos investigados na organização e financiamento dos atos terroristas que levaram à invasão das sedes dos três Poderes em Brasília no dia 8 de janeiro.
“Durante a investigação, foi possível colher elementos de prova capazes de vincular os investigados na organização e liderança dos eventos. Além disso, com o cumprimento hoje dos mandados judiciais, será possível identificar eventuais outros partícipes/coautores na empreitada criminosa.”, diz comunicado da Polícia Federal.

Este texto foi originalmente publicado pelo portal G1 [Aqui!].
Genivaldo de Jesus e Roberto Jefferson: a dualidade de tratamentos que escancara o Brasil de Jair Bolsonaro

Dualidade brasileira: Genivaldo de Jesus, morto em uma câmara de gás improvisada, por cometer uma infração e de trânsito e Roberto Jefferson, contando sua história de agressão contra uma equipe da PF a um policial sorridente
Agora que Jair Bolsonaro já jogou o aliado Roberto Jefferson ao mar no melhor estilo de um capitão (pirata) punitivo, não vou nem me debruçar para a farsesca situação ocorrida no município de Comendador Levy Gasparian, pois já tem gente demais analisando o que aconteceu (de errado) naquela encenação recheada a balas e granadas.
Minha intenção aqui é comparar dois casos, um deles já esquecido pela maioria. Falo aqui da morte pelas mãos de agentes da Polícia Rodoviária Federal de um pai de família, Genivaldo de Jesus Santos, que acabou morto em uma câmara de gás improvisada no porta-malas de um camburão. Genivaldo morreu por uma simples infração de trânsito que teria sido resolvida com o lavrar de uma multa. Mas como era pobre, ele acabou sendo submetido a um grave processo de intoxicação que resultou na sua morte. Fecha o pano.
Agora, pensem em Roberto Jefferson, aliado do presidente Jair Bolsonaro, que se encontrava em prisão domiciliar por causa de crimes continuados, e que resolveu receber uma destamento da Polícia Federal com tiros de fuzil (inicialmente se fala em 20) e granadas (fala-se que ele arremesou duas contra os policiais). Pois bem, Roberto Jefferson não só teve mais de 8 horas para se entregar, mas as imagens da “negociação” mostram um policial federal (supostamente) rindo enquanto ouve a forma pela qual o ex-deputado bolsonarista tentou efetivamente assassinar seus colegas (ver vídeo abaixo).
Se essa situação toda não servir para mostrar que Roberto Jefferson fez o que fez porque tinha algum tipo de garantia de que não teria seus miolos estourados, pelo menos temos agora uma prova didática da imensa dualidade que rege a ação das forças do Estado no controle da situação social no Brasil.
É que se as cenas mostradas pelo próprio Roberto Jefferson do conforto de sua casa tivessem ocorrido no Complexo do Alemão ou na Favela da Maré, o que estariamos vendo hoje seriam cenas de violência extrema, poças de sangue de inocentes, e corpos sendo transportados pela própria população em carrinhos de mão.
Esses dois casos escancaram o Brasil de Jair Bolsonaro, e só não vê quem não quer.
Polícia Federal investiga empresa que movimentou R$ 16 bi em ouro ilegal

A Polícia Federal realizou ontem (7/7) uma megaoperação de combate à extração e ao comércio ilegais de ouro na Região Norte, com mandados de busca e apreensão e de prisão preventivas em sete estados. Dividida em três operações simultâneas (batizadas de Ganância, Golden Green e Comando), a ação é resultado de uma investigação de mais de um ano da PF sobre movimentações bilionárias do grupo empresarial, além da atuação de empresas de transporte aéreo para retirada do ouro dos garimpos.
De acordo com investigadores da PF, a empresa Gana Gold (atual M.M.Gold) “esquentava” o ouro extraído ilegalmente em garimpo na Amazônia Brasileira, facilitando sua comercialização com licenças inválidas. O dinheiro era lavado de diversas formas, inclusive através da criação de um criptoativo (token) próprio de uma das empresas envolvidas no esquema, com a finalidade de justificar os valores advindos da ação criminosa, como se fossem investimentos de terceiros. Entre 2019 e 2021, o grupo movimentou mais de R$ 16 bilhões, com um lucro superior a R$ 1 bilhão. Agência Brasil, Band, Folha e Valor, entre outros, repercutiram a ação da PF.
Por falar em garimpo, o InfoAmazonia destacou a resistência dos Povos Indígenas da Terra Raposa Serra do Sol, em Roraima, contra invasores interessados em explorar ouro na região. Nos últimos anos, as comunidades indígenas perderam o apoio da FUNAI e da Polícia Federal no trabalho de desintrusão da reserva, o que impulsionou a circulação de garimpeiros; estima-se que cerca de 4 mil estejam atualmente na área, de maneira ilegal. Em face à omissão governamental, os próprios indígenas estão se organizando em patrulhas para enfrentar e expulsar os garimpeiros, queimando balsas, apreendendo equipamentos e barracos e vigiando a reserva.
“As lideranças decidiram realizar essas ações de combate ao garimpo porque eles [garimpeiros] prejudicam muito a nossa população e a nossa Terra”, contou uma liderança Wapichana, que pediu anonimato por medo de represálias dos criminosos. “[Os garimpeiros] poluem o nosso rio com óleo, trazem bebidas e drogas. Não queremos viver dentro de uma Terra Indígena com essas situações”.
O problema do garimpo deve piorar caso a polêmica lei sancionada pelo governo de Roraima nesta semana, que proíbe a destruição de maquinário de garimpo apreendido em operações de fiscalização, saia do papel. O Globo informou que, além do Ministério Público Federal, o partido Rede Sustentabilidade também está acionando a Justiça para evitar a aplicação da nova lei. A legenda pediu ao Supremo Tribunal Federal a suspensão da matéria e o julgamento de sua constitucionalidade.

Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].
Associação indígena refuta PF e aponta ação de grupo organizado nas mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips

Em nota, a direção da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari questionou as informações dadas pela Polícia Federal à imprensa no sentido de que os assassinos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips teriam agido sozinhos (ver imagem abaixo)

A nota da Unijava afirma que os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips não “se trata apenas de dois executores, mas sim de um grupo organizado que planejou minimamente os detalhes desse crime”.
A direção da Unjivaja exigiu não apenas a continuidade e aprofundamento das investigações, mas também que a PF “considere as informações qualificadas” que a entidade teria repassado via ofício ao órgão policial.



