“Sem os povos da floresta, nenhuma iniciativa de REDD+ funciona”, diz pesquisadora do IPAM

Análise recomenda a participação paritária de povos e comunidades tradicionais em espaços de decisão e acesso a benefícios por proteção ambiental

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Iniciativas pela redução de emissões devem conter mecanismos de proteção aos direitos de povos indígenas e de comunidades tradicionais, recomenda um documento voltado a tomadores de decisão [policy brief, em inglês] lançado nesta quarta-feira, 7, pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

O foco da análise está em iniciativas de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) no bioma Amazônia.

“A intenção é evidenciar os principais obstáculos ao cumprimento das salvaguardas socioambientais de REDD+ na perspectiva dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, bem como oferecer sugestões para que os gestores estaduais consigam resolver esses obstáculos quando estiverem implementando seus sistemas jurisdicionais”, diz Raissa Guerra, pesquisadora do IPAM e principal autora do estudo.

Intitulado “Salvaguardas Socioambientais e a Garantia dos Direitos dos Povos da Floresta”, o documento identifica desafios e propõe soluções para o cumprimento das salvaguardas socioambientais – como são chamadas as medidas que podem garantir a inclusão equitativa dessas populações nas estruturas de governança e, assim, reduzir os riscos associados a projetos de compensação de emissões.

“O ano de 2023 bateu recordes de secas extremas, altas temperaturas e enchentes. Essa crise afeta de maneira mais intensa os povos indígenas, evidenciando a injustiça climática sentida por eles. Reverter esse cenário é urgente e, para isso, respeitar as salvaguardas socioambientais é o primeiro passo”, avalia Martha Fellows, coordenadora do núcleo de estudos indígenas do IPAM, também autora.

Os desafios mais citados pelos povos da floresta, quanto à construção dos sistemas de REDD+ estaduais, são apresentados em cinco categorias: participação social; protocolos de consulta; repartição de benefícios; proteção e direito aos territórios; e conflitos internos. Para chegar a esse resultado, as pesquisadoras realizaram oficinas sobre mudanças climáticas e REDD+ nos nove Estados da Amazônia Legal, algumas em parceria com a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

“Durante as oficinas, nós observamos que povos indígenas, quilombolas, extrativistas e outras populações locais querem mais participação e maior poder decisório na construção e implementação dos sistemas de REDD+. As salvaguardas de Cancun são um primeiro passo, mas mecanismos de proteção mais específicos e adaptados à realidade local precisam ser construídos em conjunto com os grupos envolvidos para a efetiva garantia de direitos e proteção dos territórios e modos de vida tradicionais”, comenta Ariane Rodrigues, pesquisadora do núcleo de estudos indígenas do IPAM e autora.

As salvaguardas de Cancun, citadas por Rodrigues, foram definidas em 2011 no âmbito da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) para garantir o compromisso de iniciativas de REDD+ com povos indígenas e comunidades tradicionais.

Entre as recomendações das pesquisadoras, a partir dos desafios identificados, está a criação de comitês de povos da floresta, com participação paritária, inclusive de gênero, em instâncias consultivas e deliberativas dos sistemas de REDD+ jurisdicionais, bem como a repartição justa dos benefícios econômicos da conservação. O fortalecimento do CIMC (Comitê Indígena de Mudanças Climáticas) e a garantia de acesso aos recursos naturais dos territórios pelos povos e comunidades também estão entre as sugestões.

Este policy brief reforça que sem o cumprimento das salvaguardas socioambientais e sem os povos da floresta, nenhuma política de REDD+ funciona, seja nos projetos privados, seja nos jurisdicionais. É importante que tomadores de decisão consigam estruturar seus Estados para incluir essas pessoas no mecanismo de REDD+. Elas precisam ser informadas, consultadas, e de espaços de governança que garantam a sua participação. Precisam estar inseridas nas discussões sobre repartição de benefícios e indicar como os recursos devem ser distribuídos”, acrescenta Guerra.

O mercado de carbono, por ser mais amplo, inclui atividades realizadas em diversos outros setores, como a indústria, energia e transporte. No mecanismo do REDD+, é atribuído um valor monetário à redução do desmatamento e à proteção e manutenção das florestas vivas, especialmente as mais ameaçadas. Isso é negociado em créditos de carbono, por reconhecer a contribuição e o valor econômico dos serviços ambientais prestados pela vegetação para a remoção de gás carbônico da atmosfera.

“Sabemos que a implementação de uma política de REDD+ se depara com um conjunto de desafios, como a falta de recursos, a grande extensão territorial a ser monitorada, além da dificuldade logística para realizar os processos de consulta. Mas é preciso superar essas questões”, conclui a primeira autora.

Leia o documento em português e em inglês.

Pesquisadores entregam recomendações sobre florestas degradadas ao MMA

Documento elaborado por um grupo de pesquisadores de instituições como IPAM, Embrapa, Universidade de Lancaster, MPEG, INPE, CEMADEN, Woodwell entre outras defende aprimoramento do PPCDAm para combater de forma eficiente a degradação, além do desmatamento.

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Um grupo de pesquisadores entrega, nesta terça-feira (25), ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima um policy brief de políticas públicas com recomendações para o combate à degradação florestal na Amazônia.

O documento aponta caminhos para o aprimoramento do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), a fim de tornar a prevenção e o combate à degradação um tema prioritário na agenda ambiental brasileira. Atualmente, este é o principal projeto para conter desmatamento no país, e está na fase de consulta pública. Mas os pesquisadores alertam que temos que ir além de conter desmatamento e combater a degradação na Amazônia também.

A degradação florestal é a deteriorização das florestas remanescentes da Amazônia, resultado de distúrbios causados pela ação humana, como o fogo e a exploração madeireira ilegal. Enquanto o desmatamento remove toda a vegetação de uma área, a degradação mantém alguma parte, mas em um estado enfraquecido. Entre 1992 a 2014, foram degradados 337.427 km², enquanto o desmatamento atingiu 308.311 km². Áreas degradadas também respondem por um volume semelhante de emissões de CO2.

Florestas degradadas tem um valor ecológico mais baixo do que florestas intactas; são menos eficazes na regulação do clima, contêm menos e biodiversidade, e aumentem a vulnerabilidade social das populações locais. Pesquisas estimam que florestas degradadas bombeiam um terço a menos de água para a atmosfera do que florestas intactas, afetando diretamente o abastecimento hídrico e a produção de chuva em diversas regiões do país.

As características das florestas degradadas e do processo de degradação fazem com que as ações focadas no combate ao desmatamento tenham pouco efeito na recuperação e fiscalização dessas áreas. De acordo com o relatório, diversas regiões da Amazônia conseguiram frear o desmatamento, mas ainda sofrem com o avanço da degradação por falta de políticas para esse fenômeno.

Dentre as medidas sugeridas pelo documento, estão o aprimoramento no mapeamento de florestas degradadas e a criação de um fundo de emergência capaz de apoiar a proteção de áreas degradadas em anos de seca, quando incêndios nessas áreas são comuns. O briefing também defende a criação de mecanismos específicos para garantir a qualidade das áreas dentro de reservas legais e outras áreas protegidas, além da necessidade de um grupo de trabalho técnico-científico que atue junto ao Ministério no desenvolvimento de novas políticas.

Cerca de 38% do que resta da Amazônia sofre com algum tipo de degradação, segundo estudo publicado na revista “Science” que conta com a participação de mais de 30 autores de instituições nacionais e internacionais, como a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o IPAM, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a Universidade de Lancaster no Reino Unido.

O Policy Brief foi resultado do encontro “Degradação das florestas amazônicas: um diálogo entre ciência e sociedade em busca de soluções”, ocorrido em Belém (PA), no mês passado. Participaram da elaboração, além do IPAM, CEMADEN (Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), Museu Paraense Emílio Goeldi, EMBRAPA(Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), SEMA-PA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente) do Pará, IMAZON (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), Woodwell Climate Research Center, UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), Universidade Federal Rural da Amazônia, NASA (National Aeronautics and Space Administration), UFPA (Universidade Federal do Pará), Universidade de Yale, Universidade de Oxford e Universidade de Lancaster.

Como as florestas são degradadas?

Existem dois agentes principais responsáveis pela degradação da floresta Amazônica: o fogo e a exploração ilegal de madeira. Segundo dados do MapBiomas, entre 1985 e 2020, cerca de 114.000 km2 de áreas florestais na Amazônia foram afetadas por incêndios. Além da emissão de grandes quantidades de CO², incêndios florestais na Amazônia, bioma que não está adaptado a esse tipo de evento, mata metade das árvores da área afetada e torna aquela região ainda mais propensa a novas queimadas.

A abertura de clareiras e estradas para a retirada, o transporte e venda da madeira de árvores derrubadas ilegalmente, também cria degradação na floresta. Esse tipo de perturbação cria áreas mais iluminadas e secas dentro das matas, prejudicando o desenvolvimento das espécies nativas e contribuindo para a ocorrência de incêndios.

O encontro e o Policy Brief foram financiados pelos CNPq e UKRI.