Agrotóxicos utilizados no Brasil comprometem a sobrevivência e capacidade de voo de abelhas, mostra estudo 

Abelha é fundamental na polinização de diversas culturas; estudo avaliou em laboratório efeito dos inseticidas nos insetos

Agência BORI

Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em condições de laboratório, revela que a exposição das abelhas africanizadas aos inseticidas clorantraniliprole e ciantraniliprole reduz a sobrevivência e prejudica a capacidade de voo, fator essencial para atividades como coleta de néctar, polinização e retorno à colmeia.  

Os resultados serão detalhados no artigo “Survival and flight ability of Apis mellifera after exposure to anthranilic diamide insecticides”, publicado no Brazilian Journal of Biology. O trabalho, apoiado pela Capes (Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), é resultado de uma pesquisa de mestrado da UFCG e foi orientado por Ewerton Marinho da Costa, engenheiro agrônomo, doutor em fitotecnia e docente da instituição.

Segundo o pesquisador, a ideia foi responder a uma demanda crescente dos próprios agricultores. “A principal motivação foi gerar informações para auxiliar na conservação das abelhas em áreas agrícolas. Essa é uma demanda dos produtores, que precisam de subsídios em relação aos efeitos de inseticidas sobre as abelhas para adoção de estratégias mitigadoras de risco”, afirma Costa.

A pesquisa comparou a mortalidade e as implicações motoras em abelhas expostas de duas maneiras: por pulverização direta e pela ingestão de dieta contaminada. As análises foram realizadas em laboratório. Os resultados mostraram baixa mortalidade para ambos os inseticidas, mas com diferenças importantes entre os modos de exposição. “Observamos que a exposição direta foi mais prejudicial às abelhas. Dentre os dois inseticidas, o ciantraniliprole causou os maiores percentuais de mortalidade”, relata o professor.

Além da sobrevivência, a equipe avaliou a capacidade de voo das abelhas, essencial para a polinização e para a manutenção da colônia. Costa enfatiza que impactos subletais podem comprometer todo o ciclo de produção agrícola. “A capacidade de voo das abelhas foi afetada, mesmo que de maneira sutil, após a exposição direta às gotículas da pulverização com os inseticidas”, diz. A comparação foi feita com abelhas pulverizadas com água destilada.

De acordo com o engenheiro agrônomo, estudar a capacidade de voo é crucial porque existem inseticidas que podem não proporcionar elevada mortalidade, mas podem prejudicar a mobilidade dos insetos. Qualquer prejuízo na mobilidade pode proporcionar falhas na polinização e redução drástica na obtenção de alimento. 

Os cientistas também se surpreenderam com alguns resultados. “Mesmo conhecendo o mecanismo de ação dos inseticidas, surpreendeu o fato da baixa mortalidade proporcionada em ambos os modos de exposição em comparação com o controle positivo. Outro ponto que gerou impacto foi o efeito adverso na capacidade de voo”, destaca Costa. “Os resultados serão utilizados para orientar produtores sobre formas de mitigação de riscos para abelhas em condições de campo, destacando os ingredientes ativos mais prejudiciais e aqueles que causam baixa ou praticamente nenhuma mortalidade”, diz.

Apesar dos avanços, o pesquisador reforça que é necessário avaliar os inseticidas em condições reais de campo, levando em consideração fatores ambientais como temperatura, vento e horário de aplicação.


Fonte: Agência Bori

Estudo inédito revela a viabilidade econômica da restauração florestal em fazendas de café na Mata Atlântica

coffee ma resto

A restauração florestal é reconhecida como uma das medidas mais eficazes para combater as mudanças climáticas e promover a proteção à biodiversidade. No entanto, os custos elevados – associados tanto diretamente ao plantio de árvores quanto à perda de áreas agriculturáveis ou de pastagem – costumam ser uma barreira para a sua implementação em larga escala. Mas uma pesquisa inédita conduzida em áreas de cafeicultura da Mata Atlântica revela que a restauração pode, ao contrário, ser uma abordagem economicamente viável.

Publicado na revista científica norte-americana One Earth, o estudo é assinado por Francisco d’Albertas, doutor em Ecologia pela USP, Gerd Sparovek, coordenador do Geolab (Esalq-USP), Luís Fernando Guedes Pinto, engenheiro agrônomo e diretor-executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, Camila Hohlenwerger, doutora em Ecologia pela USP, e Jean-Paul Metzger, professor do departamento de Ecologia da USP.

Os resultados demonstram que o aumento dos serviços ecossistêmicos impulsionados pelo reflorestamento, entre eles a polinização, resulta em um incremento na produção de café, compensando os custos referentes à restauração da floresta. Essa descoberta pode auxiliar os formuladores de políticas públicas a promover a adoção generalizada da restauração em paisagens agrícolas, aliando a mitigação das mudanças climáticas, a conservação da biodiversidade e a produção agrícola. Além disso, no caso do Brasil, em que a legislação ambiental já prevê a restauração/conservação de vegetação nativa em propriedades rurais, o estudo pode servir como um estímulo adicional para o cumprimento da lei.

O levantamento analisa diferentes cenários, estabelecendo um limiar em torno de 25% de cobertura florestal nas fazendas como ponto de equilíbrio para que, ao longo de 20 anos, os custos de restauração possam ser compensados pelos benefícios dos serviços ecossistêmicos no aumento da produção de café. Os resultados apontam ainda que um valor de CO₂ de pelo menos 20 dólares seria o ideal para aumentar a viabilidade financeira da restauração.

“Nossa pesquisa mostra que, ao impulsionar os rendimentos das colheitas e combinando ganhos provenientes do sequestro de carbono, a restauração se torna uma abordagem economicamente eficaz em paisagens agrícolas, indo na contramão do senso comum que considera o agronegócio e a conservação ambiental como atividades incompatíveis”, explica Francisco d’Albertas. “São, entretanto, necessárias medidas adicionais, como a consolidação do mercado de carbono, para tornar a restauração amplamente viável e imediatamente atraente para os agricultores”, completa.

A Organização das Nações Unidas (ONU) designou o período de 2021 a 2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas. Na Conferência de Biodiversidade da ONU de 2022, a COP 15, a Mata Atlântica foi reconhecida como um dos dez ecossistemas emblemáticos nessa iniciativa. Além disso, evidências indicam o bioma como uma das áreas prioritárias para a restauração global, dada sua capacidade de combater as mudanças climáticas e preservar a biodiversidade e os recursos hídricos.

Nesse sentido, Luís Fernando Guedes Pinto ressalta a importância das descobertas apresentadas pela pesquisa. “Para atender aos compromissos do Acordo de Paris, o Brasil deve eliminar completamente o desmatamento e restaurar em grande escala. Para a Mata Atlântica, a meta mais ambiciosa são 15 milhões de hectares de florestas naturais até 2030, estabelecida pelo Pacto pela Restauração do Bioma, que só poderá ser atingida com o apoio do agronegócio. E agora está evidente que o reflorestamento é uma abordagem positiva para todas as pessoas e setores econômicos”, afirma.

A pesquisa traz um estudo de caso ilustrativo que, para ampliar o entendimento sobre em que medida e em quais condições os benefícios da restauração compensam os custos, pode ser expandido para outras regiões do Brasil e do mundo. O estudo completo, intitulado Yield increases mediated by pollination and carbon payments can offset restoration costs in coffee landscapes (“Aumentos na produção, mediados pela polinização e pagamentos de carbono, podem compensar os custos de restauração em paisagens de café”, em tradução livre), está disponível, em inglês, no site da OneEarth.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica 

A Fundação SOS Mata Atlântica é uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos. Fundada em 1986, tem como missão inspirar a sociedade na defesa do bioma mais devastado do país. Atua para promover políticas públicas para conservar e restaurar a Mata Atlântica, trabalhando de maneira integrada as temáticas de água, biodiversidade e clima. Monitora a situação das florestas e ecossistemas associados, além de trabalhar para recuperar áreas já degradadas. Também defende e cria políticas públicas em prol do bioma. Essa causa beneficia diretamente mais de 70% da população brasileira, que vive na Mata Atlântica e depende dela para ter qualidade de vida.

Alimentos, solo, água: como a extinção dos insetos transformaria o nosso planeta

Um novo estudo duplica o número de espécies em risco de extinção para 2 milhões, impulsionado pelos dados mais recentes sobre insetos. Perder essas pequenas criaturas teria enormes implicações para a vida na Terra

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Uma abelha coberta de pólen pousa em uma malva comum. Estima-se que as populações de insectos tenham diminuído até 75% desde a década de 1970, com enormes efeitos na polinização das culturas alimentares. Fotografia: Thomas Kienzle/AFP/Getty

Por Phoebe Weston para o “The Guardian”

Ccorte uma maçã ao meio e a polpa branca revela um cacho de sementes pretas dispostas em forma de estrela. É uma pequena constelação de sementes escondida na fruteira. Mas revela um universo interligado de polinização e abundância da natureza – um sistema delicado e que pode facilmente ser desviado do rumo.

Quando as flores da macieira são polinizadas, as sementes liberam hormônios que dizem à planta para produzir as vitaminas, minerais e taxa de crescimento corretos. Eles ajudam a formular crocância, tamanho e forma. No entanto, se perdermos esses polinizadores, este sistema frágil ficará desequilibrado. Se apenas três ou quatro das sementes forem polinizadas, a nossa maçã pode ficar torta. O valor nutricional pode diminuir, assim como o prazo de validade da fruta, tornando-a marrom e enrugada antes do tempo.

A história da maçã é recontada continuamente em todo o mundo. Um novo relatório alerta que dois milhões de espécies estão em risco de extinção, o dobro das estimativas anteriores da ONU. Este aumento deve-se a melhores dados sobre as populações de insectos, que têm sido menos compreendidas do que outros grupos.

Muitas vezes, são animais como os insetos – as espécies com as quais tendemos a menos nos importar – que prestam os maiores serviços às populações humanas: polinizando culturas, ajudando a fornecer solos saudáveis ​​e controlando pragas .

Apesar das incertezas contínuas sobre os invertebrados, a perda alarmante de vida selvagem em todo o mundo está bem documentada. Nos últimos 50 anos, as populações de vida selvagem diminuíram em média 70% – e a sua perda já está a afectar a forma como as sociedades humanas funcionam e se sustentam.

O que está acontecendo com a polinização?

O último estudo estima que 24% dos invertebrados estão em risco de extinção – são eles que fazem mais polinização.

As culturas que fornecem a maior parte das nossas vitaminas e minerais, como frutas, legumes e nozes, dependem de polinizadores e organismos presentes no solo que o mantêm fértil. Estima-se que 75% das culturas alimentares dependam, até certo ponto, de polinizadores e 95% dos alimentos provêm direta ou indiretamente do solo.

O professor Simon Potts, da Universidade de Reading, diz: “Se você conseguir menos polinização, terá menos produção. Mas não só menos rendimento ou tonelagem, como também a qualidade desse produto irá diminuir… os seus morangos ficarão deformados e não estarão tão cheios de açúcares.”

“Chamamos isso de ‘déficit de polinização’”, diz ele. 



Um túnel cheio de plantas com uma caixa em primeiro plano com a imagem de uma abelhaUma colméia de papelão com abelhas terrestres ( Bombus terrestris ) trazidas para um politúnel para polinizar morangos. Fotografia: Arterra/UIG/Getty

Uma revisão de bases de dados científicas de 48 países, publicada na Nature Communications, analisando 48 culturas diferentes, descobriu que os frutos polinizados por animais e insectos tinham, em média, 23% melhor qualidade do que aqueles que não foram polinizados por animais, melhorando particularmente a forma, o tamanho e o tamanho. vida útil de frutas e legumes.

O cultivo de frutas que têm vida curta e parecem estranhas provavelmente aumentará o desperdício de alimentos, com impacto sentido em toda a cadeia de produção, alertam os pesquisadores.

O que isso faz ao nosso sistema alimentar global?

A polinização por insetos contribui com mais de 600 milhões de libras por ano para a economia do Reino Unido. “A biodiversidade deve ser considerada um insumo agrícola legítimo”, diz Potts. “Os agricultores gerem a água, gerem fertilizantes e pesticidas, gerem as sementes que colocamos no solo, mas muito poucos gerem a biodiversidade como insumo.”

Globalmente, entre 3% e 5% da produção de vegetais, frutas e nozes está a ser perdida devido à polinização inadequada, de acordo com uma investigação liderada pela Universidade de Harvard e publicada na revista Environmental Health Perspectives.

O pesquisador principal, Matthew Smith, especializado em saúde ambiental, diz: “À primeira vista, fiquei surpreso que o número parecesse um tanto modesto”.


Agricultores com chapéus de palha caminham em fileiras em um campo de arroz Agricultores polinizando arroz manualmente na província chinesa de Guizhou. A polinização deficiente pode levar a centenas de milhares de mortes excessivas, descobriu um estudo. Fotografia: Yang Wenbin/Shutterstock

No entanto, as implicações desta perda de 3-5% foram significativas: leva a cerca de 420.0000 mortes em excesso anualmente devido a uma redução no consumo de alimentos saudáveis ​​e às doenças daí decorrentes, descobriram os investigadores.

Smith diz: “Para colocar este número em perspectiva, isto é equivalente ao número de pessoas que morrem anualmente de distúrbios relacionados com o uso de substâncias, violência interpessoal ou cancro da próstata.”

As implicações económicas dessas perdas também podem ser substanciais. Um estudo mostrou que um défice na polinização da colheita de maçã Gala do Reino Unido pode equivaler a 5,7 milhões de libras em perda de produção.

A equipa de Smith modelou um valor económico perdido semelhante da produção agrícola para três países: Honduras, Nigéria e Nepal. Eles descobriram que entre 16% e 31% do seu valor económico agrícola foi perdido devido à polinização inadequada.

“Como entre um e dois terços da população destes países está empregada na agricultura, este é um efeito enorme e generalizado”, diz ele.

E a água?

Os polinizadores ajudam a fornecer água limpa e saneamento porque ecossistemas vegetais saudáveis ​​mantêm os cursos de água limpos. Os mangais, que beneficiam da polinização animal, filtram os poluentes, absorvem o escoamento e estimulam a sedimentação, o que ajuda a melhorar a qualidade da água. Desde o final da década de 1990, a cobertura global de mangais diminuiucerca de 35% .

Um artigo publicado na revista Nature mostra que habitats com mais espécies são capazes de remover poluentes mais rapidamente, o que melhora a qualidade da água. A investigação sugere que a vida selvagem nos ecossistemas de água doce está a ser perdida a uma taxa duas vezes superior à dos oceanos e das florestas. Apenas 40% das águas na Europa são classificadas como tendo boa saúde ecológica.


Alevinos acima de um leito de rio coberto de algas verdesAlgas no leito do rio Wye. Nos últimos 20 anos, a proliferação de algas provenientes do escoamento da indústria avícola tornou-se um problema crescente, transformando a água numa espessa sopa de ervilhas e destruindo a ecologia do rio por quilómetros. Fotografia: Alexander Turner/The Guardian

O que está acontecendo com nosso solo?

Quando ocorre uma seca, tendemos a pensar no impacto acima do solo: plantas murcham, lagos secam, pessoas ou animais forçados a migrar. Mas, abaixo da superfície, está em curso uma crise paralela.

As alterações climáticas provocam efeitos negativos diretos nas culturas, como o stress térmico, mas os seus efeitos indiretos estão a perturbar as populações de insetos e a reduzir a biodiversidade do solo, onde vivem mais de metade de todas as espécies . Um artigo publicado na Nature Communications mostrou que os micróbios nos solos não são tão resistentes como se pensava anteriormente durante as secas, o que parece alterar a sua biologia.

A professora Franciska de Vries, da Universidade de Amsterdã, que foi a pesquisadora principal do estudo, disse que os impactos imediatos de eventos extremos, como secas, ondas de calor e tempestades, recaem sobre as plantas. No entanto, condições climáticas extremas recorrentes prejudicam a biodiversidade do solo e a capacidade das plantas de crescerem a longo prazo. Se ficar realmente seco por tempo suficiente, os organismos do solo simplesmente morrem.


Duas mulheres caminham com duas crianças pequenas por uma extensão de areia vermelhaOs malgaxes caminham pelo que era um campo para recolher ajuda alimentar em Anjeky Beanatara, Androy, no ano passado. Fotografia: Alkis Konstantinidis/Reuters

“É uma espécie de golpe duplo”, diz De Vries. “Por um lado, não estamos a gerir muito bem os nossos solos, o que está a diminuir a sua capacidade de lidar com estes eventos extremos. Ao mesmo tempo, estes eventos extremos estão a tornar os nossos solos e as nossas culturas ainda mais vulneráveis.”

Até 40% das terras estão agora classificadas como degradadas,mostram dados da ONU , com metade da população mundial já a sofrer o impacto do esgotamento da fertilidade do solo, da água, da biodiversidade, das árvores ou da vegetação nativa. Nestas condições, é mais provável que as doenças se instalem, porque o sistema está enfraquecido e certos organismos do solo foram eliminados.

“Se você tiver solos saudáveis ​​com organismos que podem ajudar as plantas, então você mitiga os efeitos desses eventos extremos, até certo ponto.”

Quando esses efeitos começarão a fazer efeito?

A forma como os humanos serão afetados pela perda da natureza é muitas vezes enquadrada como algo que acontecerá no futuro. Apesar de todos os efeitos da perda da natureza – que já se fazem sentir – a consciência da crise da biodiversidade ainda está aquém da crise climática.

“Sinto que a biodiversidade está onde o clima estava há 20 anos”, diz Potts. “Penso que até que o público realmente viva a realidade de que ‘a sua vida mudou’, não creio que a investigação por si só consiga convencer as pessoas – veja a história do clima.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

 

Polinização é ameaçada por desmatamento e agrotóxicos no Brasil

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Declínio desse serviço ambiental, estimado em R$ 43 bilhões em 2018, põe em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, alertam autores do primeiro relatório sobre o tema no país (fotos: Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP))

Por Elton Alisson | Agência FAPESP

 Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produção de alimentos no Brasil, com processo de polinização conhecido, 114 (60%) dependem da visita de polinizadores, como as abelhas, para se reproduzir. Entre esses cultivos estão alguns de grande importância para a agricultura brasileira, como a soja (Glycine max), o café (Coffea), o feijão (Phaseolus vulgaris L.) e a laranja (Citrus sinensis).

Esse serviço ambiental (ecossistêmico), estimado em R$ 43 bilhões anuais, fundamental para garantir a segurança alimentar da população e a renda dos agricultores brasileiros, tem sido ameaçado por fatores como o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso de agrotóxicos. A fim de combater essas ameaças, que colocam em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, são necessárias políticas públicas que integrem ações em diversas áreas, como a do meio ambiente, da agricultura e da ciência e tecnologia.

O alerta foi feito por um grupo de pesquisadores autores do 1º Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil e de seu respectivo “Sumário para Tomadores de Decisão”, lançados quarta-feira (06/02), durante evento na FAPESP.

Resultado de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês), apoiada pelo Programa BIOTA-FAPESP, e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (REBIPP), o relatório foi elaborado nos últimos dois anos por um grupo de 12 pesquisadores e revisado por 11 especialistas.

O grupo de pesquisadores fez uma revisão sistemática de mais de 400 publicações de modo a sintetizar o conhecimento atual e os fatores de risco que afetam a polinização, os polinizadores e a produção de alimentos no Brasil, e apontar medidas para preservá-los.

“O relatório aponta que o serviço ecossistêmico de polinização tem uma importância não só do ponto de vista biológico, da conservação das espécies em si, como também econômica. É essa mensagem que pretendemos fazer chegar a quem toma decisões no agronegócio, no que se refere ao uso de substâncias de controle de pragas ou de uso da terra no país”, disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP e membro da coordenação da BPBES, durante o evento.

O relatório indica que a lista de “visitantes” das culturas agrícolas supera 600 animais, dos quais, no mínimo, 250 têm potencial de polinizador. Entre eles estão borboletas, vespas, morcegos, percevejos e lagartos.

As abelhas predominam, participando da polinização de 91 (80%) das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores e são responsáveis pela polinização exclusiva de 74 (65%) delas.

Algumas plantas cultivadas ou silvestres dependem, contudo, exclusivamente ou primordialmente de outros animais para a realização desse serviço, como é o caso da polinização de flores de bacuri (Platonia insignis) por aves. Outros exemplos são da polinização de flores de pinha (Annona squamosa) e araticum (Annona montana) por besouros, de flores de mangaba (Hancornia speciosa) por mariposas e de flores de cacau (Theobroma cacao) por moscas.

“As plantas cultivadas ou silvestres visitadas por esses animais polinizadores enriquecem a nossa dieta ao prover frutas e vegetais que fornecem uma série de nutrientes importantes”, disse Marina Wolowski, professora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e coordenadora do relatório. “Outras plantas cultivadas pelo vento, como o trigo e o arroz, por exemplo, estão mais na base da dieta”, comparou.

Os pesquisadores avaliaram o grau de dependência da polinização por animais de 91 plantas para a produção de frutas, hortaliças, legumes, grãos, oleaginosas e de outras partes dos cultivos usadas para consumo humano, como o palmito (Euterpe edulis) e a erva-mate (Ilex paraguariensis)

As análises revelaram que, para 76% delas (69), a ação desses polinizadores aumenta a quantidade ou a qualidade da produção agrícola. Nesse grupo de plantas, a dependência da polinização é essencial para 35% (32), alta para 24% (22), modesta para 10% (9) e pouca para 7% (6).

A partir das taxas de dependência de polinização dessas 69 plantas, os pesquisadores estimaram o valor econômico do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no Brasil. O cálculo foi feito por meio da multiplicação da taxa de dependência de polinização por animais pela produção anual do cultivo.

Os resultados indicaram que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país girou em torno de R$ 43 bilhões em 2018. Cerca de 80% desse valor está relacionado a quatro cultivos de grande importância agrícola: a soja, o café, a laranja e a maçã (Malus domestica).

“Esse valor ainda está subestimado, uma vez que esses 69 cultivos representam apenas 30% das plantas cultivadas ou silvestres usadas para produção de alimentos no Brasil”, ressaltou Wolowski.

Fatores de risco

O relatório também destaca que o serviço ecossistêmico de polinização no Brasil tem sido ameaçado por diversos fatores, tais como desmatamento, mudanças climáticas, poluição ambiental, agrotóxicos, espécies invasoras, doenças e patógenos.

O desmatamento leva à perda e à substituição de hábitats naturais por áreas urbanas. Essas alterações diminuem a oferta de locais para a construção de ninhos e reduzem os recursos alimentares utilizados por polinizadores.

Já as mudanças climáticas podem modificar o padrão de distribuição das espécies, a época de floração e o comportamento dos polinizadores. Também são capazes de ocasionar alterações nas interações, invasões biológicas, declínio e extinção de espécies de plantas das quais os polinizadores dependem como fonte alimentar e para construção de ninhos, e o surgimento de doenças e patógenos.

Por sua vez, a aplicação de agrotóxicos para controle de pragas e patógenos, com alta toxicidade para polinizadores e sem observar seus padrões e horários de visitas, pode provocar a morte, atuar como repelente e também causar efeitos tóxicos subletais, como desorientação do voo e redução na produção de prole. Além disso, o uso de pesticidas tende a suprimir ou encolher a produção de néctar e pólen em algumas plantas, restringindo a oferta de alimentos para polinizadores, ressaltam os autores do relatório.

“Como esses fatores de risco que ameaçam os polinizadores não ocorrem de maneira isolada é difícil atribuir o peso de cada um deles separadamente na questão da redução das populações de polinizadores que tem sido observada no mundo”, disse Wolowski.

Na avaliação dos pesquisadores, apesar do cenário adverso, há diversas oportunidades disponíveis para melhorar o serviço ecossistêmico de polinização, diminuir as ameaças aos polinizadores e aumentar o valor agregado dos produtos agrícolas associados a eles no Brasil.

Entre as ações voltadas à conservação e ao manejo do serviço ecossistêmico de polinização estão a intensificação ecológica da paisagem agrícola, formas alternativas de controle e manejo integrado de pragas e doenças, redução do deslocamento de agrotóxicos para fora das plantações, produção orgânica e certificação ambiental.

Uma política pública destinada aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos beneficiaria a conservação desse serviço ecossistêmico e promoveria a agricultura sustentável no país, estimam os pesquisadores.

“Esperamos que o relatório ajude a estabelecer planos estratégicos e políticas públicas voltadas à polinização, polinizadores e produção de alimentos em diferentes regiões do país”, afirmou Kayna Agostini, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e também coordenadora do estudo.

Na avaliação de Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, o relatório incorpora várias atividades que o programa BIOTA tem feito ao longo dos seus 20 anos de existência. Entre elas, a de fornecer subsídios para políticas públicas.

“O BIOTA-FAPESP participa ativamente da vida do Estado de São Paulo e do país ao fornecer subsídios científicos para as decisões governamentais e, ao mesmo tempo, realizar atividade de pesquisa da maior qualidade em uma área vital”, disse Zago na abertura do evento.

Também esteve presente na abertura do evento Fernando Dias Menezes de Almeida, diretor administrativo da FAPESP. 

 

Publicado originalmente pela Revista da Fapesp [Aqui!]

Colmeias eliminadas por agrotóxicos são problema mundial

Por Redação, com ACS/MST – de São Paulo

Estudos em realizados em todos os continentes mostram que abelhas, marimbondos, borboletas, morcegos, formigas, moscas, vespas, além do beija-flor, estão seriamente ameaçados

Estudos em realizados em todos os continentes mostram que abelhas, marimbondos, borboletas, morcegos, formigas, moscas, vespas, além do beija-flor, estão seriamente ameaçados

Os estudos com inseticidas do tipo neonicotinóides devem estar concluídos no primeiro semestre de 2015. Trata-se de um problema de escala mundial, presente, inclusive, em países do chamado primeiro mundo, e que traz como consequência grave ameaça aos seres vivos do planeta, inclusive o homem.

De acordo com o coordenador geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas e Produtos Perigosos do Ibama, Márcio Freitas, o órgão está reavaliando, desde 2010, vários produtos suspeitos de causar colapsos e distúrbios em colmeias paulistas e mineiras. Segundo Freitas, que integra o Comitê de Assessoramento da Iniciativa Brasileira para Conservação e Uso Sustentável dos Polinizadores, a intoxicação prejudica a comunicação entre as abelhas e isto impede que elas retornem às colmeias, levando ao extermínio dos enxames.

Proibição

Enquanto as análises dos produtos investigados não são concluídas, o órgão proibiu sua aplicação aérea (por avião) e na época da florada para não prejudicar a ação de insetos, aves e morcegos.

– Interessa ao Ibama conhecer o comportamento dos polinizadores, entender seu comportamento e estabelecer medidas de mitigação para protegê-los – explica Freitas.

Estudos em realizados em todos os continentes mostram que abelhas, marimbondos, borboletas, morcegos, formigas, moscas, vespas, além do beija-flor, estão seriamente ameaçados de desaparecer em função do uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos na agricultura.

É claro que o balé harmônico de polinizadores como o beija-flor em volta das flores, à procura do néctar, encanta homens e mulheres de todas as idades. Mas a maioria desconhece como eles são essenciais à existência e manutenção da vida no planeta.

Dependência

Documentos divulgados em dezembro 2013, durante a reunião da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistêmicos (IPBES), em Antalya, Turquia, mostram que pelo menos três quarto (75%) das culturas do mundo dependem da polinização por abelhas e outros polinizadores para se desenvolver e gerar frutos. O evento contou com a participação de cerca de 400 delegados representantes de mais de 100 países.

Os participantes decidiram, para os próximos cinco anos, desenvolver um programa de trabalho visando preparar um conjunto de avaliações acerca da polinização e sua relação com a produção de alimentos, degradação da terra e espécies invasoras. O objetivo é fornecer aos formuladores de políticas as ferramentas destinadas a enfrentar a pressão decorrente dos desafios ambientais.

Intoxicação

Espera-se que a primeira avaliação esteja disponível em dezembro de 2015, e o foco será a polinização e a produção de alimentos. Pesquisadores vinculados à IPBES acreditam ser necessárias mais informações a fim de se compreender melhor como a polinização sustenta a produção de alimentos, e avaliar a eficácia das políticas atuais.

Cientistas de todos os continentes concordam que a intoxicação dos polinizadores por agrotóxicos representa uma grave ameaça inclusive à sobrevivência do ser humano, caso nenhuma medida seja adotada.

De acordo com a analista ambiental e doutoranda em ecologia e conservação de recursos naturais do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ceres Belchior, esses produtos podem provocar a morte de polinizadores e aves e sugere restringir sua aplicação pelo menos durante a florada.

Como o assunto integra as políticas e ações estruturantes do MMA, o secretário de Biodiversidade e Florestas, Roberto Cavalcanti, enumerou seis eixos temáticos a serem trabalhados sobre vários eixos.

Eles incluem as relações entre a polinização e a cultura agrícola; a política para apicultura no Distrito Federal, situado numa região que abriga mais de 500 espécies de abelhas nativas; a elaboração de um projeto de lei voltado ao pagamento por serviços ambientais com polinização; a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas naturais, que, no Cerrado, somam pelo menos 12 mil espécies de plantas lenhosas da preferência das variedades de abelhas; as avaliações da política de mudanças do clima e os impactos na polinização; e uma reavaliação do licenciamento de agrotóxicos e pesticidas.

Importância Econômica

A mortandade disseminada das abelhas devido ao uso de agrotóxicos foi tema de explanação de Cavalcanti, em audiência pública na Câmara dos Deputados. De acordo com o secretário, 87,5% das espécies de plantas com flores conhecidas no mundo dependem de polinizadores (insetos, aves, mamíferos) para gerarem frutos e sementes sadios.

Segundo Cavalcanti, os polinizadores são tão importantes que 75% da alimentação humana dependem, direta ou indiretamente, de plantas polinizadas ou beneficiadas pela polinização.

E esclareceu: “Sem polinizadores, as plantas dependentes não se reproduzem e as populações que delas necessitam declinam e a abelha do mel (Apismellifera) é o polinizador de importância agrícola mais utilizado no mundo”.

Ele se lembrou da importância econômica dos polinizadores, que movem economia mundial. Dados de 2007 mostram que verduras e frutas lideram as categorias de alimento que necessitam de insetos para a polinização, gerando riquezas em torno de R$ 160 bilhões (50 bilhões de euros) para cada uma dessas áreas.

Em 2009, o valor econômico anual total da polinização girou na cada dos R$ 489,6 bilhões (cerca de 153 bilhões de euros), o que representou 9,5% do valor da produção agrícola mundial para alimentação humana em 2005.

Frutas e verduras

A cada ano, os polinizadores naturais geram uma economia superior a R$ 483 bilhões, no caso das culturas beneficiadas pela polinização por insetos, e a quantia astronômica de R$ 2,435 trilhões quando se trata dos cultivos dependentes da ação dos polinizadores.

O alerta, repassado aos parlamentares, é de que o declínio da quantidade de polinizadores pode levar à redução da produção de frutas, verduras e estimulantes (como café) abaixo do necessário para o consumo atual global.

Insetos, aves e animais polinizadores, como o morcego, estão ameaçados por causa da fragmentação dos habitats naturais, do uso indiscriminado de pesticidas, pela falta de práticas agrícolas amigáveis à sua conservação; surgimento de doenças; e mudanças climáticas inesperadas.

A Iniciativa Internacional para Uso Sustentável dos Polinizadores (IPI, na sigla em inglês), criada no ano 2000 e articulada pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), está empenhada em monitorar o declínio de polinizadores, suas causas e seu impacto; resolver a falta de informações taxonômicas (que define os grupos de organismos biológicos) sobre polinizadores; medir o valor econômico da polinização; e promover a conservação, restauração e uso sustentável da diversidade de polinizadores na agricultura e em ecossistemas relacionados.

Falta pesquisa

Nos Estados Unidos, a desordem e a desorientação das abelhas melíferas provocaram a perda de 90% das colmeias. Na Alemanha, França, Suíça e Península Ibérica, o desaparecimento das abelhas foi relacionado ao uso de inseticidas.

O problema chegou ao Brasil e causou preocupação o extermínio de 5 mil colmeias de abelhas africanizadas no estado de São Paulo. A questão, segundo Roberto Cavalcanti, é que existem poucos estudos toxicológicos avaliando os efeitos dos pesticidas sobre outras espécies de abelhas, inclusive internamente.

No campo das políticas ambientais, o MMA está imerso em projetos e ações destinadas a evitar maiores prejuízos aos polinizadores. Nos próximos anos, os esforços também se destinam a apoiar estudos acadêmicos, como os inseridos no Projeto de Conservação e Manejo de Polinizadores para uma Agricultura Sustentável através de uma Abordagem Ecossistêmica, iniciado em 2009 e com previsão de término para 2014, mas foi prorrogado até o final de 2015.

O Projeto recebeu investimentos de R$ 67 milhões, executados pelo Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), tendo esses recursos destinados ao Brasil, Gana, Índia, Quênia, Nepal, Paquistão e África do Sul. O apoio também veio do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), no valor de R$ 20,4 milhões.

Mais conhecimento

A iniciativa visa ampliar o conhecimento e oferecer ferramentas acessíveis aos profissionais que trabalham com a polinização; disponibilizar orientações e publicações sobre as limitações desta prática, manejo de serviços relacionados com agroecossistemas (que são a interpretação, avaliação e manejo do sistema agrícola, que permitem conduzir a produção com base nas inter-relações entre os elementos constitutivos desses sistemas, como homem e recursos naturais – solo, água, plantas e organismos e microrganismos – e entre outros sistemas externos, do ponto de vista econômico, social, cultural e ambiental), e valoração socioeconômica da polinização, além de fornecer ferramentas fáceis de serem utilizadas na identificação de polinizadores.

Uma das vertentes do projeto prevê a capacitação de agricultores para conservar e utilizar os serviços dos polinizadores silvestres, bem como melhorar a capacidade de pesquisa e construir ferramentas para desenvolvimento e manejo dos serviços de polinização.

Várias culturas já se beneficiam dos resultados desses esforços, como é o caso da produção de melão, maracujá, melancia, abóbora, caju, castanha do Brasil, maçã, canola, tomate e algodão, entre outras.

No caso do algodão, a Rede de Pesquisas dos Polinizadores do Algodoeiro no Brasil, realizou um estudo sobre a atuação das abelhas no incremento da produção nas áreas de Cerrado, no sul da região amazônica e na Caatinga.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Carmem Pires, apesar de o algodoeiro não necessitar de polinização para produzir, ficou demonstrado pela Rede de Pesquisas que as flores desta cultura que recebem a visita de abelhas apresentam um aumento de 12%.

FONTE: http://correiodobrasil.com.br/ultimas/colmeias-eliminadas-por-agrotoxicos-sao-problema-mundial/690035/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=b20140308