A falácia do encastelamento e o papel real das universidades públicas no desenvolvimento

Por Carlos Eduardo de Rezende

A corrida em direção a Brasília, Câmara de Deputados e Senado Federal, e a Alerj já começou e vemos inúmeras situações impostas por interesses pessoais e partidários. Nesse contexto, observamos diversas situações que envolvem interesses coletivos e o papel das instituições públicas sendo confrontados por interesses pessoais que muitas vezes não são transparentes. No entanto, não pretendo abordar questões político-partidárias ou posicionamentos que pouco contribuem para o fortalecimento das tão cobradas universidades públicas.

O ponto que gostaria de destacar é a recorrente afirmação de que a universidade estaria “encastelada” em seus próprios muros. Trata-se de uma visão superficial e atrasada, que acaba por difundir uma ideia distorcida e equivocada sobre o papel e a atuação dessas instituições públicas de ensino. As universidades públicas exercem uma função ampla e contínua na formação de recursos humanos qualificados, na produção de conhecimento científico e tecnológico e na interação permanente com a sociedade. Além disso, enfrentam diariamente o desafio de demonstrar, na prática, que suas portas estão abertas não apenas à comunidade acadêmica, mas também à sociedade em geral e às autoridades constituídas. Reduzir essa atuação complexa à imagem de isolamento institucional desconsidera as inúmeras iniciativas da extensão universitária, das parcerias com diferentes setores e o impacto direto que essas instituições têm no desenvolvimento social, econômico e cultural.

Ao longo da minha atuação em Campos dos Goytacazes, tive inúmeras experiências com diferentes órgãos públicos, o que reforça uma percepção importante, se há um ator que precisa se aproximar mais das universidades públicas, esse ator são os próprios políticos. A lógica dos políticos costuma ser imediatista, condicionada a ciclos de quatro anos, o que contrasta fortemente com o tempo da ciência e das universidades, que operam em horizontes mais longos. Por isso, é fundamental que gestores públicos se comprometam com a construção e a manutenção de políticas de Estado, que sejam duradouras e não reféns de mudanças de governo. Nesse contexto, professores de instituições públicas também têm um papel crucial: compreender e defender a importância dessas políticas estruturantes. No nosso caso específico, temos vivenciado descontinuidades em políticas que, pela sua natureza e relevância, deveriam ser tratadas como políticas de Estado. Essa instabilidade compromete não apenas a continuidade de projetos, mas também a consolidação de avanços científicos e institucionais.

No final da década de 1990, participei, em Campos dos Goytacazes, de uma proposta política totalmente inovadora: a criação do Fundo Municipal de Ciência e Tecnologia (FMCT). A proposta despertou grande interesse. No evento de lançamento, contamos com a presença de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC), dirigentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), profissionais de instituições de ensino superior e diversas lideranças políticas. Na ocasião, foi anunciada a liberação de recursos, formamos uma comissão, diversos projetos foram aprovados e realizamos um trabalho consistente na avaliação dessas propostas. E o que aconteceu? Nada. O político que sucedeu aquele que criou o FMCT simplesmente não liberou os recursos. Com isso, foi sacramentado o fim de uma excelente iniciativa, que deveria estar em pleno funcionamento até hoje.

Duas experiências marcantes ocorreram quando fui diretor do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) e chefe do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF. Na primeira, junto a todos os chefes de laboratório do CBB, participei de um encontro com o presidente da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes. Nosso objetivo era apresentar um diagnóstico detalhado da distribuição de hanseníase e tuberculose no município de Campos dos Goytacazes, oferecendo subsídios técnicos relevantes para a formulação de políticas públicas. No entanto, para nossa frustração, não obtivemos qualquer retorno por parte do presidente que, por ironia, era médico. A segunda experiência diz respeito a um trabalho realizado há cerca de 20 anos, quando, em conjunto com professores do LCA entre outros da UENF, elaboramos um diagnóstico da Lagoa de Cima. Esse estudo deveria ter servido de base para a criação de um Plano Diretor da região da Lagoa de Cima. Mais uma vez, porém, a iniciativa não teve continuidade. Hoje, observa-se uma lagoa que poderia ser um dos principais cartões-postais do município sendo ocupada de forma desordenada, além de sofrer com outros usos questionáveis.

Em conclusão, esses são apenas alguns exemplos do engajamento das universidades públicas na formulação e no apoio a políticas de Estado e, como esses, há muitos outros. Diante disso, é preciso evitar o equívoco, recorrente a cada eleição, de afirmar que a universidade deve “sair de seus muros”. Essa ideia desconsidera o papel que essas instituições já desempenham junto à sociedade. Tal visão torna-se ainda mais preocupante quando parte de pessoas vinculadas às próprias instituições públicas de ensino superior difundem essa visão totalmente equivocada.

 

*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia da Uenf e Bolsista Produtividade 1A do CNPq.

Porto do Açu e o efeito encantador de um colete sobre os políticos sanjoanenses

políticos

Ao longo dos últimos anos tenho visto uma sucessão de políticos do município de São João da Barra adentrando o canteiro de obras do Porto do Açu, onde são devidamente paramentados com vistosos coletes esverdeados. É que o basta para que declarações para lá de otimistas sejam emitidas, normalmente ao arrepio das evidências empíricas. Esse parece também ser o caso do jovem deputado estadual Bruno Dauaire (PR) como mostra a matéria abaixo publicada no jornal “O DIÁRIO”.

Uma das atribuídas ao deputado Dauaire é a seguinte:

” O porto está funcionando, operando a todo vapor, mas é preciso que se estabeleça uma correlação de forças com a população local, inclusive ajudando a qualificar a mão de obra.

Se o deputado estivesse lendo, por exemplo, o blog do professor Roberto Moraes saberia que não apenas o porto não está “funcionando a todo vapor” (Aqui!), mas como uma das suas principais âncoras que é o minério de ferro está afundada em problemas, com a possibilidade crescente de que a gigante sul africana Anglo American caia fora do empreendimento para minimizar suas perdas bilionárias com um negócio que começou mal, continuou pior, e hoje parece atingir a camada pré-sal das notícias ruins .

Enquanto isso, as mazelas sociais e ambientais causadas pela implantação do Porto do Açu continuam se avolumando, sem que haja qualquer visita de deputados aos locais que tiveram suas águas salinizadas ou aos agricultores que tiveram suas terras desapropriadas e que até hoje seguem sem as devidas reparações conforme o estabelecido pelo Artigo 265 da Constituição fluminense. Eu diria que as mazelas, essa sim, estão crescendo a todo vapor. E só não vê, quem não visita.  Aliás, para mediar conflitos há que se ver todos os lados, e começar pelo empreendedor é um começo, como diriam os jovens, sinistro! Simples assim!

Bruno Dauaire visita Porto do Açu

Portal OZK
Clique na foto para ampliá-la
Bruno Dauaire acompanhou o embarque de minério no Porto

O deputado estadual Bruno Dauaire (PR), presidente da comissão especial criada na Alerj para mediar os conflitos do Porto do Açu, visitou o empreendimento na última segunda-feira e presenciou o embarque de minério de ferro para a Ásia.

Ele foi recebido por diretores da Prumo e questionou a empresa sobre projetos para absorção de mão de obra local, incentivo ao comércio do município e valorização das vocações tradicionais, como a agricultura. As solicitações vão ser encaminhadas por ofício pela comissão

– Apesar do cenário nacional e regional de crise econômica, a impressão passada pelos diretores e técnicos da Prumo é que o porto é uma alternativa ao momento de dificuldade. O porto está funcionando, operando a todo vapor, mas é preciso que se estabeleça uma correlação de forças com a população local, inclusive ajudando a qualificar a mão de obra. Esta é a grande preocupação da comissão – disse Bruno. O deputado ouviu dos diretores da empresa que foi formado um comitê para cadastro dos fornecedores locais e quer acompanhar todo o processo, que visa valorizar as empresas locais

– É uma boa notícia que haja essa preocupação da Prumo com São João da Barra e região Mas vamos acompanhar. Precisamos da participação dos empresários, do parlamento e do governo local e da população – destacou Bruno Dauaire.

FONTE: http://www.odiariodecampos.com.br/bruno-dauaire-visita-porto-do-acu-21203.html