Crise ambiental no rio Tocantins: 12 toneladas de agrotóxicos foram derramadas com queda de ponte

Entre os produtos químicos derramados em queda de ponte, o 2,4-D tem fácil propagação pela água

ponte estreitoPor Rodrigo Chagas para o Brasil de Fato 

queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), além dos impactos socioeconômicos, pode desencadear uma grave crise ambiental. No domingo (22), três caminhões carregados com agrotóxicos e ácido sulfúrico caíram no rio Tocantins, espalhando 25,2 mil litros de agrotóxicos e 76 toneladas de ácido, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).

Entre os produtos derramados, estavam quase nove toneladas do herbicida 2,4-D, permitido no Brasil, mas proibido na Dinamarca, em Moçambique e no Vietnã devido à sua toxicidade. Também já foi proibido na Austrália e no Canadá. Na União Europeia, há um processo em curso para o banimento definitivo do composto.

O 2,4-D é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico que também foi usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era usada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água, alerta que os impactos ambientais e à saúde são profundos e duradouros. “Essa conversa de que os agrotóxicos são facilmente biodegradáveis não é verdadeira. Eles têm alta permanência, especialmente na água”, explica.

Segundo ele, mesmo que medições posteriores não constatem mais a presença dos produtos na água, não é possível garantir que o ambiente não estará contaminado. “Produtos como o 2,4-D e o picloram impregnam nas rochas e nos biofilmes epilíticos do fundo do rio, contaminando tudo por anos.” 

“Os agrotóxicos não desaparecem simplesmente à medida que o rio segue seu curso. Eles se diluem, mas deixam um rastro. Mesmo 40 ou 50 quilômetros rio abaixo, as moléculas podem estar presentes, contaminando a fauna aquática e os organismos bentônicos, como moluscos e peixes”, detalha Rheinheimer.

O professor reforça que a contaminação pode alcançar toda a cadeia alimentar, com riscos para a saúde humana. “Bactérias, algas e peixes que não morrerem agora ficarão contaminados, passando esse impacto para toda a cadeia trófica. Isso é um desastre terrível,” conclui.

O peso do 2,4-D: um veneno de longo prazo

Entre os produtos químicos derramados no acidente, o 2,4-D chama atenção por seus efeitos nocivos. Classificado como um “gatilho hormonal”, o herbicida é associado a casos de câncer e proibido na União Europeia.

“Com o derramamento de quase 9 mil quilos desse veneno, os efeitos não serão localizados ou temporários. Estamos falando de algo que vai se impregnar nos sedimentos e permanecer ativo por muitos anos, talvez décadas,” afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Melgarejo reforça que a desestruturação causada por esse tipo de contaminação não aparece de imediato. “Os problemas de saúde, como casos de câncer, podem surgir décadas depois, mas suas raízes estarão neste desastre e na irresponsabilidade que permitiu a fabricação e o transporte desse veneno no Brasil,” denuncia.

Outro produto transportado era o acetamiprid, inseticida da classe dos neonicotinóides. Ele é amplamente reconhecido por seu impacto devastador sobre abelhas e aves. Já o picloram, outro agrotóxico envolvido, será proibido na União Europeia a partir de 2028, devido à sua toxicidade persistente e riscos ambientais.

O acidente ocorrido na ponte Juscelino Kubitschek onde dois caminhões  carregados de agrotóxico e ácido sulfúrico caíram sob o rio fez com que 19  cidades ficassem impedidas de consumir água do rio

Detalhes da carga derramada

Os pesticidas transportados nos caminhões incluíam:

  • Carnadine (acetampirid): inseticida neonicotinóide, com 500 litros transportados, totalizando 100 kg de princípio ativo.

  • Pique (picloram): herbicida, com 2.700 litros transportados, totalizando 1.048 kg de princípio ativo.

  • Tractor (picloram): herbicida, com 22.080 litros transportados, totalizando 2.274 kg de princípio ativo.

  • Tractor (2,4-D): herbicida hormonal, com 22.080 litros transportados, totalizando 8.964 kg de princípio ativo.

O total transportado chegou a 12.386 kg de princípios ativos altamente tóxicos.

Medidas emergenciais e alertas à população

Por precaução, o governo do Maranhão recomendou a suspensão da captação de água nos municípios banhados pelo rio Tocantins. As prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas para que a população evite contato com a água devido ao risco de queimaduras químicas e intoxicação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) iniciou coletas em cinco pontos do rio para monitorar os parâmetros de qualidade da água.

No entanto, segundo Heinheimer, as medidas emergenciais podem não ser suficientes. “Mesmo que o monitoramento aponte baixos níveis de contaminação agora, os resíduos estarão impregnados nos sedimentos, e os impactos continuarão a surgir ao longo do tempo,” alerta.

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

A tragédia evidenciou problemas estruturais históricos denunciados pela população local. Construída na década de 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek está localizada na região do Matopiba, epicentro do crescimento do agronegócio no Brasil. Nas últimas décadas, a produção de commodities como soja e milho transformou a paisagem da região e sobrecarregou a infraestrutura de transporte.

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que precisamos de fiscalização e comprometimento com essas infraestruturas. Isso também está diretamente relacionado ao avanço voraz do agronegócio, que impulsiona o transporte pesado e agrava os impactos ambientais,” destaca Gilvânia Ferreira, doutoranda em Estudos Sociais Agrários.

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos.

A professora ressalta que os danos não são apenas econômicos, mas sociais e ambientais. “Essa ponte simboliza a destruição de territórios e modos de vida. O avanço da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e coloca em risco a saúde humana e dos animais,” explica.

Enquanto o Ministério Público e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apuram as causas do acidente, o Ministro dos Transportes, Renan Filho, prometeu a reconstrução da ponte até 2025. Porém, especialistas e moradores alertam que, sem mudanças estruturais e no modelo de produção agrícola predominante, tragédias como esta continuarão a ocorrer.

Edição: Geisa Marques


Fonte: Brasil de Fato

Wladimir Garotinho e sua bizarra ideia de construir uma ponte sobre a Lagoa de Cima

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Li com alguma incredulidade a informação de que o prefeito Wladimir Garotinho em sua recente à Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) teria anunciado a construção de uma ponte sobre o espelho da Lagoa de Cima, uma unidade de conservação ambiental criada via a Lei Municipal No. 5.394 de 24 de Dezembro de 1992 nos estertores do primeiro mandato de prefeito de Anthony Garotinho, que vem ser o pai mais famoso do jovem alcaide campista (ver imagem abaixo).

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A ideia de construir uma ponte sobre um ambiente lacustre que já se encontra sob forte pressão me faz pensar que, ao contrário do pai que mostrou em 1992 estar antenado com as preocupações ambientais emanadas naquele ano do interior da  Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro naquele mesmo ano, Wladimir está mais alinhado com as posturas de outro prefeito notório, Zezé Barbosa, que resolveu dividir outra famosa lagoa campista, a do Vigário,  para a construção de uma avenida sobre seu leito. 

A volta ao passado já tinha sinalizada por Wladimir Garotinho quando ele decidiu extinguir a secretaria municipal de Meio Ambiente, mas agora com a proposta de construção de uma ponte (que poderia ser chamada de Ponte Zezé Barbosa) sobre a Lagoa de Cima, a regressão está clara e escancarada.  E desde já sinalizo que essa proposta indecorosa não poderá ser tolerada, seja por quem se beneficia dos serviços ambientais propiciados por aquele importante ecossistema lacustre, mas também pelas autoridades judiciais.

É que não se for tolerada a construção dessa ponte sobre a Lagoa de Cima as consequências ambientais, bem como os prejuízos econômicos e culturais, serão inevitáveis.  O curioso é que no já distante ano de 2006, sob o comando científico do professor Carlos Eduardo de Rezende, dois laboratórios da Universidade Estadual do Norte Fluminense (o de Ciências Ambientais (LCA) e o de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), produziram um estudo detalhado sobre a Lagoa de Cima que foi transformado no livro intitulado “Diagnóstico ambiental da área de proteção ambiental da Lagoa de Cima” (ver imagem abaixo).

diagnóstico lagoa de cima

Essa obra trouxe não apenas informações sobre as características ambientais da Lagoa de Cima, mas uma série de informações importantes para a sua gestão sustentável. Lamentavelmente todas as informações contidas na obra, ainda que entregues em cerimônia pública a gestores municipais e posteriormente ao Ministério Público Estadual, na figura do falecido promotor de justiça Marcelo Lessa, nunca foram devidamente aproveitadas. No entanto, me atrevo a dizer que tanto o diagnóstico como as linhas mestras para o ordenamento e uso sustentável da APA da Lagoa de Cima continuam atuais.

Em função disso tudo é que será necessária uma mobilização urgente para impedir que a ponte Zezé Barbosa jamais saia dos planos mirabolantes de Wladimir Garotinho. Afinal de contas, não é possível que em pleno século XXI ainda se tolere ações que já estão para lá de ultrapassados. Essa ponte para o passado proposta por Wladimir não pode ser tolerada. Simples assim.

E antes que eu me esqueça, uma humilde sugestão ao prefeito: seja mais como seu pai foi, e menos Zezé Barbosa.  A natureza certamente vai agradecer!  Para quem tiver dúvida disso, sugiro que assista o vídeo abaixo que é bem ilustrativo das belezas da Lagoa de Cima.