O Homem, esse bicho da terra tão pequeno

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Francisco Mateus Conceição*

O antigo Continente de São Pedro, depois chamado de Rio Grande do Sul, é um espaço geográfico com enorme quantidade de águas, através de sangas, rios e lagoas. E também lençóis freáticos. Chegou a ser chamado, por navegadores, velejadores ou viajantes, como nos lembra Tau Golin, de Rio Grande das Alagoas. Região de repetidas inundações e enchentes. Em importante texto da literatura sul-riograndense, versão local da Lenda da Boitatá, narrada por Simões Lopes Neto, há uma inundação sem precedentes, assim descrita:

… foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…

Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas coleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num: os passos cresceram e todos aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. (aqui)

Os registros históricos também informam sobre enchentes de grandes proporções. Parece, porém, que os mandatários locais dos últimos tempos haviam esquecido ou nunca souberam disso. O último evento, de dimensões comparáveis ao deste ano, havia sido em 1941. Querer lembrança disso a líderes tão sedentos de se afeiçoarem ao futuro e à modernidade, seria exigir demais. Muitas vozes tentaram lembrá-los, mas de nada adiantou. Eles se sentiam ungidos pelo moderno empresarial. Por fim, a própria natureza também tentou, mas sua voz foi logo despistada. A falta de memória era completa, digna das páginas de um Gabriel García Márquez (Cem Anos de Solidão), ou, para ficar entre nós, de um Erico Verissimo (Incidente em Antares). De tanta desmemória deliberada, acabaram, como diria Eduardo Bueno, por não conhecerem o solo onde pisam.

Em setembro de 2023, chuvas torrenciais provocaram inundações, destruições e dezenas de mortes no interior do estado, especialmente no Vale do Taquari.  No dia 18 desse mesmo mês, o Governador do Estado anunciava lançamento de Edital para conceder o Cais Mauá, em Porto Alegre, à iniciativa privada. Em vídeo, atua entusiasticamente como garoto propaganda do projeto, que, conforme diz, conectaria o Rio Grande com o futuro. O muro da Mauá, essencial para a contenção das águas do Guaíba, seria modificado e transferido de lugar. Ao enumerar as supostas maravilhas desse futuro, antecipado em imagens digitais, o Governador destaca: “sem aquele muro que dividia o antigo porto da cidade” (aqui). O tom é de indisfarçável mal-estar e menosprezo com o tal muro. Logo após o anúncio, porém, como desdobramento das inundações que vinham ocorrendo, o Guaíba elevou-se e passou da cota de três metros. No dia 27 de setembro, o muro da Mauá mostrou que não era um trambolho entre a cidade e o rio, e ajudou a impedir que as águas invadissem a capital. Isso apesar de o sistema de contenção, com 68 km de diques, comportas e bombas de recalques, ter acusado falhas nesse ano, devido à falta de manutenção. O Governador sentiu o baque e gravou novo vídeo, no dia 29 de setembro, explicando que o muro não seria extinto. Deveria ser substituído por outro modelo e transferido de lugar. Feita a explicação, considerou tudo resolvido e o Edital de Concessão foi a leilão em fevereiro/2024, após mais uma inundação em novembro/2023.

E não parou por aí. Ele já havia, em 2020,  conforme informações da imprensa, suprimido ou modificado 480 artigos do Código Estadual do Meio Ambiente, flexibilizando e abrandando-o. Além disso, em 2021, extinguira a Lei dos agrotóxicos do Estado, que proibia o uso de produtos vetados em seus países de origem. Mas, qual um Fausto dos pagos, em seu pacto pela modernidade, entendeu que precisava fazer mais do mesmo. Em que pese as inundações de 2023, a bancada governista na Assembleia Legislativa aprovou, em março de 2024, Projeto de Lei para permitir construção de barragens em Áreas de Preservação Permanente (APPs), projeto este sancionado pelo Executivo em 09/04/2024. Possivelmente ainda estivessem comemorando a vitória, portanto, quando as leis da natureza, as mesmas de sempre, se manifestaram, de maneira mais inclemente e avassaladora. O mundo desabou num tempo feio a partir do final de abril, e os efeitos imediatos da calamidade se estendem até hoje,  sem que tenhamos perspectiva clara, de tempo e modelo, para a reconstrução de tudo. O Rio Grande do Sul que, conforme as palavras do Governador, olhava para o futuro, acabou se deparando com ele em sua face distópica.

Frente a essa calamidade, necessitávamos de iniciativas e ações rápidas e no rumo certo. Remontando aos saberes e à cultura local, há um provérbio segundo o qual “é no estouro da tropa que se vê se o índio é bueno”. Ou seja, diante de um caos generalizado, a pessoa é, inexoravelmente, testada quanto à capacidade e ao valor que dela se espera. Em um clássico de nossa literatura, Antônio Chimango, escrito por Ramiro Barcelos, sob o pseudônimo de Amaro Juvenal (por sinal uma sátira política), há uma longa descrição de alguns dons diante de uma cena dessas. Selecionamos a passagem a seguir:

Nisto é que está o busílis

Que não depende de ensino:   

Saber tomar um destino

E  não se apertar no apuro

Poder guiar-se no escuro

E nunca perder o tino. (aqui)

Depois que passar o estouro, cada um buscará contar sua história. Por isso, esse momento crucial é revelador, do antes e do depois, e é importante observá-lo. Vejamos, no que diz respeito a Porto Alegre, como agiram o Prefeito e o Governador do Estado quando a calamidade explodiu sobre o estado.

O estrago no interior foi como ativar uma bomba-relógio para Porto Alegre. Nos últimos dias de abril, a destruição provocada pelas águas já atingia dimensões catastróficas, derrubando pontes e rodovias, gerando vítimas fatais e grande número de desabrigados. Tudo amplamente divulgado pela imprensa. Tanto que, no dia 30 de abril, quebrando todos os protocolos, o Governador do Estado cobrava, pela Plataforma X (Twitter), ajuda imediata do Governo Federal, em razão das “chuvas intensas já ocorridas e que vão continuar nos próximos dias” (aqui). Grande parte desse problema se localizava na bacia do Guaíba e era questão de tempo para que esse volume excessivo de águas chegasse à capital do Estado. Porém, o Prefeito de Porto Alegre somente ordenou que os portões dos diques de proteção fossem fechados na quinta-feira, dia 02 de maio, após o alerta emitido, no final do dia anterior, pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (aqui). Enquanto as águas desciam e se aproximavam, era para ele estar preocupado, procurando e implementando, juntamente com sua equipe, soluções emergenciais. O sistema de contenção  continuava deteriorado e por isso as águas invadiram a Capital. O prefeito anterior, Nelson Marchezan Júnior, deixara de investir verba captada para essa finalidade específica e, ainda, extinguira o DEP (Departamento de Esgoto Pluvial), órgão responsável por cuidar do referido sistema. Ainda assim, muita coisa podia e devia ser feita pela atual gestão, que era sabedora desses problemas. Especialmente, após as inundações de 2023, em cuja sequência os técnicos apontaram onde havia problemas e como corrigi-los, sem que nada fosse feito e, consequentemente, tais problemas se repetissem. Além disso, por que não se preparar com maior antecedência neste momento? Se era para colocar os sacos de areia na frente dos portões, como se viu, que pelo menos colocassem os três metros de altura (a altura do muro). Ou usassem os bags, que parece terem descoberto somente depois – e até serviram para substituir um portão, desastradamente retirado. Nesse curto espaço de tempo, restava o improviso, a gambiarra, mas mesmo nisso agiu-se no último instante e mal. Não se tomaram as rédeas e o comando da situação. Em tudo a mesma constância: o que não se fez anteriormente também não se fez em 2024.

E quanto ao Governador? Ele foi rápido para cobrar, pelas redes sociais, ação do Governo Federal, mostrando um desejo de protagonismo. Explicou, posteriormente, que não poderia perder tempo frente à catástrofe. Pois bem, por este viés, era recomendável, também, ter quebrado protocolo e perguntado, pela mesma plataforma, ao Prefeito de Porto Alegre, se estavam perfeitamente resolvidos os problemas, evidenciados em 2023, no sistema de contenção. Neste caso, estaria agindo de maneira providencial, frente a um perigo imediato. Mas, convenhamos, ficaria estranho usar as redes sociais, se ambos estão na mesma cidade. Poderia, então, ter telefonado, mandado um bizu pelas rádios ou TVs locais, onde tem acesso amplo. Ou, então, poderia mesmo visitar a Prefeitura. Dialogar com o Prefeito, colocar-se à disposição… O Piratini fica a poucos metros da Prefeitura, e ambos distam pouquíssimos quadras do Cais Mauá, por onde as águas do Guaíba também estouraram.  Além disso, parece lógico que, sendo o Governo do Estado responsável pelo Edital de Concessão do Cais Mauá, pondo e dispondo livremente sobre o futuro do muro de contenção, também deveria assumir responsabilidade quanto à manutenção e segurança do que hoje existe, principalmente diante de uma tragédia anunciada. Ou será que o Governador não teria compreendido que as inundações, sem trégua, se dirigiam ameaçadoramente para Porto Alegre?

O problema ambiental possui tentáculos maiores, no espaço e no tempo, que nossos atuais gestores do Estado e da Capital. Mas eles atuam como líderes de uma ideologia liberal radicalizada, que sucateia e privatiza o bem público, intensifica os problemas sociais e devasta a natureza. Colaboraram para o surgimento da catástrofe. A dor ensina a gemer, mas não a pensar e a fazer autocrítica. A tragédia de 2023 nada ensinou a nossos gestores. E aí cabe a pergunta: o que serão capazes de fazer neste processo de reconstrução? O Prefeito já se moveu rapidamente para contratar a Alvarez & Marsal, multinacional de currículo duvidoso. O Governador, por sua vez, chegou a demonstrar preocupação com o grande número de doações, que, segundo ele, poderia agravar as  dificuldades da economia local. Sempre a mesma linha de pensamento, que vê no desempenho empresarial a única saída. Com essa concepção ideológica, a reconstrução tornará o serviço público ainda mais refém da iniciativa privada, que gosta de repetir o mantra segundo o qual não se deve falar em crise, mas em oportunidade.

A natureza cobrou seu preço e, frente a tanta água, o gaúcho se viu, como diria Drummond, retomando Camões, “homem, bicho da terra tão pequeno”. As águas camonianas são outras, mas alguns versos parecem ter nascido hoje.

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno? (aqui)

É momento de solidariedade e de trabalho de reconstrução, mas também de repensar concepções que trouxeram nosso Estado a este estado. Hora de reforçar nossa identidade cultural, mas também de repensá-la. Certas coisas não podem mais ter lugar. No mundo da cultura, a música é uma das primeiras e mais fortes expressões de uma população. Neste sentido, já vivemos, em nossos festivais nativistas, momentos bem melhores, quando brotaram músicas comprometidas socialmente, como “Canto do Renegado” , “Retirante” ou “Sabe Moço”. E também belíssimas músicas de temática ambiental, como “Rumos Perdidos”, “Súplica do Rio” “Queimada” ou “Cria Enjeitada”. Porém,  como tudo está interconectado, o retrocesso que verificamos no mundo político e econômico também se expressa e é produzido na cultura (que não é mero elemento decorativo). É culturalmente trágico, por isso, que uma música campeã de festival nativista reclame cegamente da “tal reserva legal”. A música se chama, paradoxalmente, “Embretados”, mas o brete em que nos encontramos resulta também desse negacionismo desenfreado.  Do estouro da boiada, hoje restam registros culturais, mas o estouro negacionista, que adora os campos digitais, é furioso e aonde chega leva tudo por diante, seja no Rio Grande do Sul, no Brasil ou no mundo.

Sem ode nostálgica ao passado. Sem ode evasiva ao futuro também. E sem o narcisismo cego da exaltação ao presente. Relembremos, de 1983, a denúncia e a reflexão nas estrofes do historiador e poeta Humberto Gabbi Zanatta, musicadas por João Chagas Leite:

Hoje a ambição fez pousada à minha volta
Plantou desertos em sementes traiçoeiras
Cria enjeitada de um progresso que importamos
Batendo palmas a ganâncias estrangeiras

Só temos pressa, e mais pressa pra ter pressa
Receita louca que inventamos pra morrer
De neuroses, de calmantes, pesticidas
Matando a vida que está doida pra viver

(“Cria Enjeitada”, João Chagas Leite /

 Humberto Gabbi Zanatta, 1983, aqui ou aqui)

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*Francisco Matheus Conceição é servidor público federal, ex-professor universitário e doutor em Literatura

Tragédia socioambiental no RS: revelando pobres e negros

Ao analisarmos com mais detalhe diversos dados sobre os territórios e as populações atingidas, algumas nuances da realidade se revelam

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Por André Coutinho Augusting e Paulo Roberto Soares para o Nexo Jornal

As enchentes das últimas semanas no Rio Grande do Sul são um doloroso exemplo brasileiro dos eventos extremos e das mudanças climáticas que têm alcançado uma nova magnitude em todo o mundo. Uma grande extensão do estado, incluindo a RMPA (Região Metropolitana de Porto Alegre) e seu entorno, porção do território que concentra a maior parte da população e das atividades econômicas (especialmente industriais e de serviços), foram afetadas.

Todos os gaúchos e gaúchas foram impactados de alguma forma. Alguns perderam suas casas ou seus negócios. Outros ficaram sem abastecimento de água, energia elétrica ou internet. Dificilmente alguma pessoa do estado não foi afetada ou não tenha algum conhecido afetado. Foram tantos os problemas que se torna difícil mensurar de forma objetiva as perdas de cada um. A paralisação e o isolamento rodoviário e aeroviário da capital do estado, Porto Alegre, gerou transtornos na prestação de serviços públicos, especialmente na área de saúde e em diversos serviços estaduais cujos sistemas de informação e dados encontram-se centralizados na capital. Houve perda de conexão aérea com as principais capitais. Enfim, uma situação nunca antes experimentada no estado e no país.

De acordo com o mapa elaborado, as áreas que mais sofreram com as enchentes apresentam uma concentração expressiva de população negra (pretos e pardos), geralmente acima da média dos municípios

No entanto, afirmar que a catástrofe afeta a todos e todas igualmente não é o mais correto. Ao analisarmos com mais detalhe diversos dados sobre os territórios e as populações atingidas, algumas nuances da realidade se revelam. Por isso, nós do Observatório das Metrópoles realizamos alguns cruzamentos de informações disponíveis da população das áreas afetadas diretamente pela inundação e publicamos um conjunto de mapas sobre estes temas.

Inicialmente, ao cruzar o mapa das áreas que inundaram com os dados de renda do Censo Demográfico de 2010 (ainda não há dados disponíveis para o Censo 2022), percebe-se que as regiões atingidas na RMPA concentram principalmente populações de baixa renda. É verdade que, ao contrário de outras enchentes de menor intensidade, dessa vez algumas áreas mais ricas também alagaram, como o bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Mas ainda assim não dá para dizer que todos foram atingidos da mesma forma.

Também comparamos as áreas atingidas pela enchente com a composição étnico-racial dos seus habitantes. Novamente utilizamos os dados do Censo Demográfico de 2010, uma vez que ainda não temos disponíveis os dados por setor censitário do Censo 2022. É importante ressaltar que, para o total de cada município, os dados de 2022 já foram divulgados e mostraram um crescimento significativo da proporção de negros (pretos e pardos segundo a denominação do IBGE) para toda RMPA, como mostram os seguintes municípios: Porto Alegre (de 20,2% em 2010 para 26,0% em 2022), Canoas (14,3% para 21,2%), São Leopoldo (13,7% para 21,2%), Novo Hamburgo (9,3% para 15,2%), Eldorado do Sul (18,0% para 25,4%), Guaíba (16,8% para 22,5%), Alvorada (26,1% para 33,2%). Há, portanto, uma defasagem nos dados de 2010, que são os únicos disponíveis para a análise das diferentes regiões de cada cidade.

De acordo com o mapa elaborado, as áreas que mais sofreram com as enchentes apresentam uma concentração expressiva de população negra (pretos e pardos), geralmente acima da média dos municípios. É o caso de Porto Alegre no Humaitá e Sarandi, embora também haja casos como a Restinga, que possui uma grande população negra mas está localizada longe do Guaíba. Em Canoas o bairro que mais sofreu foi o Mathias Velho, com uma forte presença negra especialmente no seu extremo oeste, próximo ao Rio dos Sinos. Em São Leopoldo, o bairro mais afetado foi o Santos Dumont e em Novo Hamburgo, o bairro Santo Afonso, ambos com maior proporção de população negra nestas cidades. Em Guaíba o bairro mais atingido foi o Santa Rita, que concentra uma grande proporção de população negra e de baixa renda.

Isto quer dizer que “a água escolhe cor” na hora das inundações? Evidentemente que não, quem “escolheu” estes espaços para a população mais pobre e negra foi a sociedade e o modelo socioeconômico historicamente estabelecido no estado e no país.

Os recortes de renda e étnico-racial são importantes (assim como o de gênero), pois eles muitas vezes se sobrepõem (isto está comprovado pelas estatísticas). Os dados gerais da população brasileira e gaúcha apontam que a população negra é a menos favorecida em termos salariais, qualificação profissional e nível de escolaridade, apesar das políticas afirmativas desenvolvidas desde a última década. Portanto, os programas de intervenção e recuperação destes territórios deverão levar em conta as especificidades da população que aí reside, caso queiram atingir resultados satisfatórios.

Também precisamos destacar que, apesar de haver alguns casos, a maioria das áreas atingidas não são de ocupação irregular. Em entrevista ao Jornal Nacional, o prefeito de Porto Alegre afirmou que as pessoas que estão nos abrigos “nunca deveriam morar onde moram”. Entretanto, para ficar em apenas um exemplo, quase 100% dos bairros do chamado Quarto Distrito (antiga região industrial próxima ao centro de Porto Alegre) ficaram debaixo d’água. Essa área tem uma ocupação centenária, presença de moradores de classe média e de classe baixa, e teve sua legislação urbanística recentemente alterada para permitir mais construções e beneficiar o mercado imobiliário. A prefeitura inclusive encomendou um “master plan” visando ampliar atividades e população (de 28 mil para 60 mil habitantes). Como que agora as pessoas “não deveriam estar onde estão”? Talvez a disputa não seja sobre onde deve haver pessoas morando, mas qual a cor e a renda dessas pessoas.

André Coutinho Augustin é economista e pesquisador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre.

Paulo Roberto Soares é professor do Departamento de Geografia da UFRGS e pesquisador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre.

Os artigos publicados na seção Opinião do Nexo Políticas Públicas não representam as ideias ou opiniões do Nexo e são de responsabilidade exclusiva de seus autores.


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Fonte: Nexo Jornal

Associação dos Geógrafos Brasileiros-seção Porto Alegre emite nota que é uma “crônica de uma tragédia anunciada”

Crônica de uma tragédia anunciada: a política econômica neoliberal, os eventos climáticos e a destruição das condições essenciais da vida Rio Grande do Sul

Rio-Guiaba

Maio de 2024. Camponeses, quilombolas, indígenas, trabalhadoras, trabalhadores urbanos do Estado do Rio Grande do Sul vivem uma das experiências mais dolorosas da sua história. Seja no campo seja na cidade, uma destruição imediata das condições básicas da vida promovida historicamente pela ação política e social que privilegia os interesses econômicos em detrimento da vida. Foram atingidas quase um milhão de pessoas que vivem na área mais populosa do Estado do Rio Grande do Sul, especialmente nos Vales dos Rios Taquari, Caí, Pardo, Jacuí, Sinos, Gravataí, Guaíba e avança para o sistema da Laguna dos Patos, ao que tudo indica em todas as bacias foi superado o nível de água da cheia histórica de 1941.

O nível do rio Guaíba chegou a 5,35 metros superando os 4,76 metros da cheia histórica de 1941, com uma diferença de 59 centímetros de extensão em Porto Alegre. As fotos, os mapas e os relatos são avassaladores no Estado do Rio Grande do Sul, promove-se na mídia um debate que oscila entre o entendimento naturalizante e um entendimento político sobre o processo histórico de ocupação e a formação territorial do Rio grande do Sul, o evento climático e seus desdobramentos.

IPH amplia informações em mapa de inundação de Porto Alegre — UFRGS |  Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Não podemos aceitar a leitura simplista e midiática de que a cidade de Porto Alegre por ter sido construída na beira do Rio Guaíba e produzida a partir de um engenhoso sistema de aterro urbano, certamente será sempre afetada pelas cheias, portanto “é a natureza apenas procurando o que é seu”, basta apenas melhorar o sistema de contenção do Rio Guaíba.

Há uma outra leitura possível, a de que ainda que haja a contraditória ocupação urbana nas áreas planas da planície de inundação do Guaíba e um sistema de contenção do avanço das águas na cidade, é evidente as falhas do sistema de contenção; avolumam-se os regimes de chuvas; identificam-se alterações significativas que apontam para a mudança global do clima e intensificam-se processos de ocupação no urbano e no rural que aprofundam a destruição ambiental, a impermeabilização do solo e por fim, que a ausência de uma estrutura técnica e política do Estado para combater os eventos climáticos e a opção pela o desenvolvimento do capitalismo e consolidação das políticas neoliberais deve ser responsabilizada pela magnitude da tragédia.

É preciso enunciar, de modo sucinto, como chegamos até esse momento: uma formação territorial do Estado do Rio Grande do Sul promovida pelo Estado Nação desde o período Imperial fundamentada na exploração madereira, expropriação e genocídio dos povos indígenas, migração subsidiada para a exploração do trabalho camponês, grilagem e apossamento das terras públicas; instituição do poder político oligárquico; estruturação dos órgãos estatais aliançados aos interesses do capital nacional e internacional; desestruturação dos órgãos e instituições do Estado fortemente realizada nos anos 2000 e o aprofundamento do projeto neolioberal de Estado. Nenhuma novidade sobre a história do Brasil, pois esse é o processo compartilhado na escala nacional.

Durante os anos 1990 e começos dos anos 2000 o Estado do Rio Grande do Sul e a Cidade de Porto Alegre viveram períodos importantes no processo democrático estabelecendo estruturalmente políticas sociais, gestão participativa do Estado e fortalecimento de instituições de planejamento e pesquisa no Rio Grande do Sul, estas experiências e estruturas alteraram a vida social no Estado, mas não foram o suficiente para uma mudança estrutural das políticas de Estado aliançadas ao poder econômico e pereceram pelo desmonte neoliberal.

A formação de colegiados, conselhos e comitês estruturam uma política de Estado interessante com muito trabalho realizado e acumulado ao longo de pelo menos 30 anos no Rio Grande do Sul. Lemos nesta última semana entrevistas, reportagens, posts nas redes sociais, lives e manifestações de gestores públicos técnicos, pesquisadores, professores universitários, políticos do campo progressista e da esquerda evidenciado todo esse trabalho e as possibilidades produzidas por este trabalho, todas elas negligenciadas.

Historicamente a pesquisa e a extensão universitária pelas diferentes universidades gaúchas desenvolveram inúmeros relatórios técnicos sobre as condições climáticas, as previsões de alagamentos e enchentes, o alcance dos desdobramentos desses eventos, é um trabalho acumulado, disponível ao poder público e à ação social.

O acúmulo do trabalho científico tem sido largamente evidenciado e publicizado no que diz respeito às informações e leituras básicas para que a gestão pública elabore sua ação antes mesmo dessa tragédia.

Há mapas e pesquisas que mostram há muito tempo a evolução do alcance das cheias na cidade de Porto Alegre; há inúmeros recursos que permitem o acompanhamento da evolução dos níveis de água; inúmeros relatórios técnicos e científicos que evidenciam a alterações do clima, planos e projetos junto à defesa civil que ainda não saíram dos estágios iniciais por falta de recursos; trabalhos de pesquisa que apontam para a emergência de realização da política nacional da assistência social que se tornou explícito com o advento da Pandemia da COVID-19; a geografia tem produzido trabalhos sobre a desestruturação ambiental, desmatamento, os processos de grilagem de terras, especulação imobiliária, a luta pela terra, a luta pelo território, a luta pela moradia, uma gama imensa de questões ambientais e sociais articuladas e aprofundadas. Em síntese, múltiplas ações sociais e trabalhos de pesquisa, teses, dissertações de mestrado e trabalhos de graduação têm sido desenvolvido pelo menos há mais de vinte anos com a participação social ampliada pelo acesso à universidade e aos projetos de extensão universitária.

O processo de transformação de florestas em áreas agrícolas da monocultura, a implantação de grandes projetos de exploração dos recursos naturais; a impermeabilização do solo; o desmatamento estrutural; a ampliação do uso de agrotóxicos e a ocupação promovida pela expropriação e valorização do espaço são a base material da alteração ambiental. Há uma diminuição temporal e uma intensificação nos eventos climáticos, discutido amplamente pela comunidade científica em articulação com o aquecimento global e a alteração climática na escala mundial. Tais eventos no Estado do Rio Grande do Sul sucedem de modo cada vez mais acelerado especialmente na última década, aliado ao aumento do desmatamento e as taxas de construção, seja de prédios, seja de barragens, seja dos plantios intensivos.

Pampa desmatamentoPampa é o bioma que mais perde vegetação nativa no Brasil, alerta MapBiomas

Todo esse volume de trabalhos indicam que a opção política materializa no poder legislativo que legisla a favor da burguesia nacional e internacional legalizando práticas criminosas inconstitucionais em lei; aloca (e desvia) recursos públicos para projetos econômicos voltados ao desenvolvimento do grande Capital no Brasil e toma decisões políticas de Estado que privilegiam os interesses econômicos.

Assim, para ficar apenas nos últimos dez anos, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul tem trabalhado fortemente para a consolidação do neoliberalismo no Brasil: flexibilizou em mais de 500 pontos o código ambiental e regulamentou essa flexibilização por meio de inúmeros decretos; autorizou a construção de grande edificações em áreas de proteção permanente; desestruturou e ignorou todas as estruturas democráticas de gestão participativa (comitês de bacias hidrográficas, conselhos de cidades, entre outros) que permitiu a aprovação e consolidação de planos de ordenamento territorial que subsidiaram a especulação imobiliária e o avanço da grilagem e apossamento de terras públicas e territórios de povos e comunidades tradicionais; permitiu a construção de barragens, aprovou projetos de exploração de energia eólica, instalação de linhas de transmissão e muitos empreendimentos que atingem povos e comunidades tradicionais sem a realização de audiências públicas e processos de consulta previstos pelos acordos internacionais e normalizados pelo Estado Brasileiro; susbisidou a ampliação do plantio de soja que avança a passos largos sobre os campos de cima da serra e o litoral; tem promovido o arrendamento me terras indígenas e o avanço do plantio de soja sobre elas alimentando conflitos internos e a violência no campo gaúcho; negligenciou a política agrícola para o campesinato gaúcho que sofre desde 2015, ano a ano os impactos das fortes chuvas e da movimentação de ciclones na região. Sem falar na ausência de qualquer debate sobre Reforma Agrária, a obstrução dos processos de demarcação de terras indígenas e quilombolas a partir do aparato dos poderes municipais articulado às oligarquias locais no campo e aos especuladores da cidade, culminando inclusive na perseguição política aos diversos sujeitos sociais envolvidos nos processos e todas as formas de violência que se desdobram em mortes e destruição das ocupações, assentamentos e retomadas.

Abril Vermelho: MST no RS realiza vigília no pátio do Incra, em Porto  Alegre - MSTOcupação do INCRA no Rio Grande do Sul. Foto: Maiara Rauber

O trabalho político do Estado é carimbado pelo aumento dos conflitos no campo gaúcho, e, enfim, pela tragédia que acomete as bacias com o maior contingente populacional do Estado. As veias do Rio Grande Sul estouraram, e já há muito tempo que os diagnósticos são precisos e unânimes em dizer que é preciso uma mudança estrutural. Essa é a explicação concreta para compreender que essa tragédia que não só é anunciada, mas se repetirá se não houver uma ação incisiva do poder público e da pressão social, é preciso com urgência fortalecer os movimentos sociais.

É preciso dizer que nas inúmeras ações de resgate, de acolhimento nos abrigos, nas avaliações das condições das escolas e buscas ativas dos alunos (desta vez para saber se estão vivos e com moradia), na organização da mobilidade das pessoas resgatadas para rumos diversos, foi a força das comunidades, o trabalho coletivo que comandou a ação política. A necessidade tem produzido um conhecimento técnico e social impressionante, com base no conhecimento das pessoas que vivem e estão sendo mais uma vez expropriadas de seus lugares.

Para nós, geógrafes, geógrafas e geógrafos ficou evidente a centralidade da geografia, dos conteúdos do território, da apropriação do espaço, da compreensão das estratégias da produção do espaço, da relevância da cartografia e de todo o instrumental técnico científico produzido pelo conhecimento geográfico. É seminal nosso trabalho científico e sobretudo político, não há conhecimento que se enraíze na realidade se não estiver comprometido politicamente e assuma sua postura social.

Cozinhas solidárias de movimentos populares distribuem marmitas aos atingidos pelas enchentes no RS; veja como colaborar 

A força das comunidades e da solidariedade é presente, vieram de muitos cantos do Rio Grande do Sul pescadoras(es), remadoras (es), professoras(es), assistentes sociais, médicas (os), enfermeiras (os), psicólogas (os), enfim diferentes profissionais que tem realizado o trabalho de ação e coordenação das ações emergenciais e sabemos que também seremos convocados pela realidade para seguir trabalhando para superar essa tragédia anunciada. A solidariedade é fundamental, mas não é suficiente, o poder público precisa urgentemente fazer seu trabalho e instituir condições estruturais e estruturantes de superação dessa condição de destruição.

O que está acontecendo no Rio Grande do Sul (e se agrava em outras regiões do Estado) e no mês de março no Estado do Acre, que foi atingido praticamente em sua totalidade, é a tragédia anunciada e já vivida em diferentes pontos do Brasil. Não são desastres pontuais ligados de modo circunstancial ao aumento esporádico do regime de chuvas, ao estouro de uma barragem, de uma enchente, de um deslizamento, a destruição das condições da vida e da vida de milhares de pessoas no país nestes eventos climáticos é um projeto político e é um projeto criminoso. É fundamental que o Brasil inicie de fato um processo de responsabilização histórica e política de seus criminosos, não podemos ficar à mercê do jogo eleitoral que se intensifica em 2024.

Ao poder público cabe de modo evidente e já anunciado barrar as sucessivas reformas no campo legislativo, no estabelecimento de uma política ambiental e social nas diferentes escalas: recuperação de áreas degradadas, demarcação de territórios indígenas e quilombolas, estabelecimento de uma política fundiária fundamentada na Reforma Agrária.

A nós, a força crítica que pulsa pela vida cabe fortalecer as lutas sociais para além das ações imediatas de solidariedade, é tarefa nossa estruturar uma política de enfrentamento e proposição radical de um processo não de reconstrução do estado das coisas, mas de produção de um outro modo de morar, de estabelecer as bases legais que estabeleça a relação entre o ambiente, o trabalho e a vida.

Recebemos nos últimos dias o apoio de associados de diferentes seções locais da AGB e de Seções Locais da AGB pelo Brasil, agradecemos imensamente a Diretoria Executiva Nacional e a AGB São Paulo junto a toda a organização do VIII Congresso Brasileiro de Geografia por prorrogar os prazos de envio de trabalhos.

Para trilhar esse caminho, a AGB Porto Alegre promoverá uma mobilização de arrecadação emergencial e convida a comunidade geográfica para avaliar e discutir as ações para enfrentamento desse momento histórico que vive o Rio Grande do Sul, mas também o Brasil. Em breve anunciaremos estas ações.

Nossa força coletiva é o que seguirá nos colocando em movimento!

 Porto Alegre, 08 de Maio de um Outono chuvoso que desastrosamente lavou a produção capitalista do espaço carregando consigo vidas inteiras. Viveremos por muito tempo o luto e a luta. Vamos precisar de todo mundo! Que possamos juntos semear a esperança, e produzir coletivamente um campo e a cidade solidária e comunal

Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção Porto Alegre

Marketing acadêmico: divulgando o V Encontro Brasileiro sobre Integridade na Pesquisa, Ciência e Ética na Publicação

Sinta-se convidado para participar do V BRISPE – Brazilian Meeting on Research Integrity, Science and Publication Ethics, que ocorre na PUCRS nos dias 25 e 26 de outubro de 2018. 
As submissões estão abertas até o dia 15 de junho.

 Mais informações no e-flyer abaixo e no site: http://www.pucrs.br/eventos/inst/vbrispe/

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