Trabalhadores estrangeiros clandestinos, outra faceta obscura da construção do Porto do Açu

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Estive hoje num interessante debate promovido pela Rádio Record de Campos sobre a situação do Porto do Açu que também contou com a presença do presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Campos (STICC), José Carlos Eulálio, do professor Alcimar Chagas do Laboratório de Engenharia de Produção (LEPROD) da UENF, e da professora Marina Suzuki do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF.

Entre os muitos aspectos tocados nesse debate um que eu sinceramente considerei novidade foi a informação de que as empresas contratadas para a construção do Porto do Açu estariam usando mão-de-obra estrangeira (incluindo trabalhadores angolanos e paraguaios) sem atender os requisitos legais.

Ainda que essa estratégia já venho sendo usada em outras obras, como ocorreu no caso da Companhia Siderúrgica do Atlântico, o caso específico de trabalhadores angolanos e paraguaios me parece inédito.

20131130_091342[1]Além disso, o José Eulálio me informou que frente às pressões do seu sindicato para apurar essa situação, os trabalhadores vêm sendo transferidos para outras frentes, de modo a despistar a fiscalização. E ai é que eu me pergunto: por onde a fiscalização do Ministério do Trabalho nessas horas?

Isso também explica porque tão poucos trabalhadores da própria região acabam sendo empregados nas obras do Porto do Açu, no que se configura numa refutação de que esse empreendimento gera empregos localmente. Essa é apenas mais uma das balelas que foram propagadas para vender essa nuvem por Eike Batista.

Finalmente, apesar de convidada a LLX não mandou representantes para participar do debate. Com certeza devem estar se reservando para participar de fóruns mais amigáveis aos seus interesses, onde suas declarações não vão ser contestadas por dados da realidade. Isso parece indicar que a mudança de donos não mudou ainda as práticas corporativas da LLX. A ver.

Análises da água do Quitingute mostram persistência da falta de oxigênio

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As imagens abaixo mostram visualmente a situação da concentração de oxigênio dissolvido (OD) nas águas do Canal do Quitingute a partir do início das medidas no dia 17 de Novembro até a última coleta realizada pelos pesquisadores do Laboratório de Ciências Ambientais na última segunda-feira (26/11).

E para entender que o problema permanece basta olhar os valores de OD e notar que a situação do Canal Quitingute é ruim em toda a sua extensão, mas atinge níveis de ausência de oxigênio a partir da localidade de Água Preta, se estendendo na malha amostral até Bajuru.

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O que esses resultados, espacializados e distribuídos num período de nove dias, indicam é que o problema de contaminação biológica do Quitingute não é pontual e nem cessou no momento em que o superintendente do INEA indicou que estávamos retornando a uma suposta normalidade.

Agora competiria ao próprio INEA, ou ao Ministério Público, tomaram medidas para identificar os pontos onde a contaminação por material orgânico está ocorrendo e identificar os responsáveis por isso. Afinal de contas, a trilha da anoxia está bem demonstrada pelas análises feitas pelo LCA/UENF.

Terceira Via: Funcionários do Porto do Açu denunciam más condições de trabalho

Foto: Silvana Rust

Trabalhadores que prestam serviço ao Porto do Açu voltaram a denunciar empresas que, segundo eles, não cumprem as leis conforme estabelecidas pela construção civil. Um trabalhador, que preferiu não ser identificado, informou a equipe de reportagem do Jornal Terceira Via, precariedades e falta de infraestrutura nas condições de trabalho, como falta de alimentação adequada, lugar seguro para dormir e morar, ônibus para transporte, além da falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

“Algumas empresas até dão uma pequena quantia de ajuda de custo, principalmente na parte de alimentação e transporte. Mas, mesmo com este valor, ainda é insuficiente para uma qualidade de trabalho digna. Quando reclamamos, eles ameaçam nos demitir. Estamos vivendo em péssimas situações sem poder falar. Pedimos socorro.”, disse o trabalhador, lembrando que, após a última fiscalização feita no mês de maio deste ano, a situação melhorou, mas não passou do primeiro mês.

E não é de hoje que o Complexo Portuário é alvo de questionamentos e denúncias. Em novembro de 2012, 33 dos 181 trabalhadores que vieram do Nordeste do Brasil, para ajudar na construção do estaleiro do Porto do Açu, em São João da Barra (SJB), pediram demissão. O pedido foi feito depois que o Ministério do Trabalho (MT) fez uma inspeção no alojamento dos trabalhadores, local conhecido com Carandiru, e constatou, pelo menos, 14 irregularidades. Duas empresas, uma contratante e outra sublocada foram notificadas pelo MT.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e do Mobiliário (Sticoncimo), José Carlos Eulálio, já foram feitas cinco denúncias ao Ministério do Trabalho e ao Ministério Público do Trabalho contra a empresa Engetec, que presta serviço pTerceira ra a LLX e que conta com a mão de obra de quase 800 trabalhadores.

“Não podemos obrigar as empresas a concertarem tudo o que está errado. O sindicato não tem o poder de polícia. As denúncias são levadas às autoridades, e se os trabalhadores não estão com paciência para esperar, que promovam paralisação”, induziu Eulálio, enfatizando que a iniciativa vai acelerar as denúncias que já foram feitas aos Ministérios.

Ele ainda disse que as denúncias feitas pelo sindicato também estão sendo feitas junto à Comissão Especial na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

A próxima audiência está prevista para acontecer no próximo dia 26, ocasião que as empresas serão convocadas a prestarem esclarecimentos.

Para saber o que as empresas citadas pela denúncia do trabalhador têm a dizer, a equipe de reportagem do Jornal Terceira Via entrou em contato com a empresa OSX, empresa contratante. Por meio de nota, ela informou que não irá comentar o que chamou de rumores. Tentamos contato com a empresa Engetec, mas não obtivemos sucesso.

Já a empresa LLX esclareceu que cumpre as normas e determinações da legislação brasileira e cobra o mesmo de todas as empresas contratadas diretas e indiretas nas obras do Porto do Açu. A empresa informou ainda que incentiva suas contratadas ao estreito relacionamento com o Sindicato da Construção Civil de Campos e região. E que a LLX está alinhada com seus clientes no cumprimento das leis, incluindo as normas de segurança e saúde ocupacional.

FONTE: http://jornalterceiravia.com.br/noticias/norte-noroeste_fluminense/36500/funcionarios_do_porto_do_acu_denunciam_mas_condicoes_de_trabalho

Caderno Norte Fluminense do O GLOBO/EXTRA traz matéria sobre desapropriações e salinização no Porto do Açu

O Caderno Norte Fluminense que é publicado como encarte na edição deste domingo (24/11) traz uma matéria sobre a situação das famílias de agricultores que foram desapropriadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral para beneficiar o Grupo EBX de Eike Batista. Além de tocar no assunto dos valores irrisórios das desapropriações, a matéria também aborda os diferentes problemas associados ao processo de salinização que foi causado pelo aterro hidráulico construído no Porto do Açu.

Como se vê, apesar dos desejos de alguns, essa problemática atrai cada vez mais a atenção até da mídia corporativa. Assim, mais do que nunca, há que se cobrar que seja feita a retrocessão com a devolução das propriedades aos agricultores. Afinal, se não pagaram e o motivo público alegado para os decretos já não existe mais, nada mais natural que após serem indenizados por todos os problemas que sofreram, os agricultores possam voltar para o que é seu de direito.

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Entrevista dada ao Instituto Humanitas da Unisinos sobre o colapso de Eike Batista

“Colapso de Eike Batista é ensaio do que virá com a manutenção das Parcerias Público-Privadas”. Entrevista especial com Marcos Pedlowski

 “Se analisarmos o que aconteceu não apenas com Eike Batista, mas com outros “campeões nacionais” escolhidos pelo governo Lula para mostrarem internacionalmente uma versão de capitalismo moderno à brasileira, veremos que os resultados foram pífios e causaram graves prejuízos ao tesouro nacional”, constata o geógrafo.
Foto: Enviada pelo entrevistado.

O anunciado fracasso das empresas do empresário Eike Batista é um “somatório de coisas que acabaram criando uma sinergia negativa para o Grupo EBX”, diz Marcos Pedlowski à IHU On-Line.

Na avaliação do pesquisador, que acompanha de perto os empreendimentos no Porto do Açu, no Rio de Janeiro, “os impactos reais ainda estão para ser mensurados, visto a velocidade da crise que consumiu a fortuna de Eike Batista. Mas, se olharmos de perto todos os projetos nos quais ele se envolveu nos últimos cinco anos, não há nenhum que tenha chegado à fase operacional, o que indica que todos foram negativamente afetados. Dois exemplos disso são os portos Sudeste e do Açu, os quais ainda não estão em operação e continuam tendo seus prazos de conclusão estendidos, mesmo após a sua venda para corporações multinacionais”.

Segundo Pedlowski, o governo brasileiro também é responsável pelos impactos negativos gerados pela derrocada do empresário, ao ter dado “carta branca a Eike Batista, o que o revestiu de certa aura de infalibilidade”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-LinePedlowski informa que, apesar de os empreendimentos em São João da Barra, RJ, possivelmente não saírem do papel, a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro – CODIN ainda quer desapropriar mais terras de famílias que moram na região. “O mais grave disso tudo é que toda essa terra vai passar para o controle de uma corporação estadunidense, o que implicará a criação de um enclave estrangeiro numa área onde até 2009 viviam pescadores artesanais e agricultores familiares”, denuncia. E dispara: “Só esse fato nos obriga a cobrar a anulação dos decretos de desapropriação, visto que não há qualquer interesse público que justifique este tipo de coisa”.

Marcos Pedlowski é graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e doutor em Planejamento pela Virginia Polytechnic Institute and State Unversity. Leciona no Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Confira a entrevista.

Foto: Enviada pelo entrevistado.

IHU On-Line – A que o senhor atribui a crise financeira das empresas de Eike Batista? Que fatores influenciaram para a derrocada?

Marcos Pedlowski – Em minha opinião, seria equivocado atribuir o colapso do conjunto de empresas da franquia “X” a fatores individuais, mas sim ao somatório de coisas que acabaram criando uma sinergia negativa para o Grupo EBX. Entretanto, muitos especialistas atribuem o colapso de Eike Batista a uma série de apostas erradas na capacidade de suas empresas de entregarem os produtos prometidos. O principal exemplo disso foi a OGX, cujos anúncios da descoberta de reservas gigantescas de petróleo não resultaram numa produção que ficasse minimamente à altura das promessas. Outro aspecto parece ter sido aquilo que parecia o maior mérito do projeto de Eike, qual seja, a integração entre as diferentes empresas “X”. Assim, quando a OGX começou a dar sinais de que estava passando por problemas sérios ao não encontrar petróleo em seus poços, isto imediatamente contaminou negativamente a OSX, que produziria navios e plataformas para a coirmã.

A partir daí foi uma espiral de más notícias que acabou levando todo o grupo ao fundo do poço. Mas também existe um bom número de analistas que enxergam no próprio Eike Batista a origem de toda a instabilidade que se apossou sobre todas as empresas da sua franquia. Ao apostar numa superexposição midiática, Eike parece ter se convertido numa espécie de alvo móvel para críticos dos seus métodos corporativos. Além disso, o fato de Eike ter passado a substituir diretores das diferentes empresas de forma quase cotidiana ao começarem os problemas, pode ter contribuído para a fuga de novos investidores nos seus múltiplos projetos.

Também enxergo uma boa parcela de culpa nos diferentes níveis de governo que se dispuseram a dar um tipo de carta branca a Eike Batista, o que o revestiu de certa aura de infalibilidade. Entretanto, quando Eike mais precisou de apoio, talvez premidos pelas circunstâncias políticas que surgiram no Brasil, esses mesmos governantes se omitiram completamente no oferecimento de saídas para a crise que se abateu sobre o seu conglomerado.

IHU On-Line – Quais os impactos da derrocada de Eike Batista nos empreendimentos que estão sendo realizados pelas suas empresas no Rio de Janeiro? Quais empreendimentos foram afetados?

Marcos Pedlowski – Os impactos reais ainda estão para ser mensurados, visto a velocidade da crise que consumiu a fortuna de Eike Batista. Mas, se olharmos de perto todos os projetos nos quais ele se envolveu nos últimos cinco anos, não há nenhum que tenha chegado à fase operacional, o que indica que todos foram negativamente afetados. Dois exemplos disso são os portos Sudeste e do Açu, os quais ainda não estão em operação e continuam tendo seus prazos de conclusão estendidos, mesmo após a sua venda para corporações multinacionais.

Mas a derrocada de Eike fez vítimas em todas as áreas em que ele colocou seus longos tentáculos, desde o seu iate de luxo, que servia a socialites em passeios luxuosos pela Baía da Guanabara, até o Hotel Glória, que recebeu mais de R$ 200 milhões de financiamento do BNDES para atender os turistas que virão ao Rio de Janeiro na Copa da FIFA de 2014, mas que até hoje só fez consumir recursos, sem que a reforma pareça estar próxima de sua conclusão.

Aliás, parece que o único empreendimento de Eike Batista que ainda não sentiu os efeitos da sua debacle é o restaurante Mr. Lam, que funciona na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Convenhamos que esta seja uma consolação de Pirro para quem sonhava chegar a uma fortuna de 100 bilhões de dólares ainda nesta década.

IHU On-Line – Segundo informações da imprensa, dois investimentos do empresário tiveram apoio financeiro cancelado: os investimentos em UPPs e a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas. Como ficam esses projetos a partir de agora?

Marcos Pedlowski – Esse é um aspecto curioso da relação íntima que existiu entre Eike Batista e o governo do Rio de Janeiro, pois essas benesses eram indiretamente financiadas com empréstimos que eram concedidos pelo BNDESe outras fontes de recursos do tesouro nacional. Entretanto, no caso específico das UPPs, o fato de que a PM do Rio de Janeiro participou de forma ostensiva na remoção de agricultores de propriedades desapropriadas no V Distrito do município de São João da Barra, cujas terras foram entregues para a LLX, coloca uma nuvem de dúvida sobre a lisura ou genuinidade da doação de Eike Batista para este programa. No mesmo sentido vai a promessa de contribuir para a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde Eike Batista possui pelo menos um empreendimento. Ao que se sabe, essa promessa nunca foi materializada, e agora que a bonança acabou é muito provável que nunca se materialize.

Agora, independente do que tenha acontecido com Eike Batista e suas promessas e ações concretas de apoio financeiro, tanto as UPPs como a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas já estavam enfrentando dificuldades financeiras para serem efetivadas. É que tanto o governo municipal, liderado por Eduardo Paes, como o estadual, deSérgio Cabral, gastaram bilhões em outras áreas (a começar pela bilionária reforma do Estádio do Maracanã, que depois foi entregue a um consórcio onde Eike Batista também tem participação) e deixaram as demais à mingua quase completa. Assim, mesmo sem ser um expert, creio que estes dois projetos vão enfrentar graves dificuldades em 2014. Aliás, a crise das UPPs já está ficando evidente, com policiais militares sendo encurralados por traficantes em comunidades que teoricamente tinham sido pacificadas.

IHU On-Line – Quais as repercussões da crise de Eike Batista em Porto do Açu?

Marcos Pedlowski – Como o Porto do Açu era uma das joias da coroa de Eike Batista, as repercussões são as piores possíveis. Se olharmos mais de perto o que foi efetivamente construído, veremos que, de todo o complexo prometido, apenas o porto avançou e possui alguma chance de operar num futuro próximo. Mas nada mais saiu do papel, e a última grande vítima foi o estaleiro que estava sendo construído pela OSX, que agora se encontra literalmente entregue às moscas.

A crise é tão profunda que nenhum dos grandes parceiros anunciados por Eike Batista acabou fincando suas estacas nas areias do Açu. A última desistência notável foi a GE Oil & Gas, que abandonou o seu projeto de construir uma nova unidade de montagem e testes de equipamentos de turbomáquinas no Porto do Açu, optando por levar as operações para o Porto de Recife, em Pernambuco.

No que tange a esse cenário, a EIG Global Partners, que adquiriu a LLX e, por extensão, o Porto do Açu, já deu sinais de que vai tentar finalizar as obras para iniciar o seu funcionamento em 2014. Agora, todo o resto do projeto parece ter sido colocado na geladeira de forma temporária ou definitiva. O fato de que nem a linha de transmissão que deveria fornecer energia para o porto foi concluída mostra a dimensão da crise. Este é para mim um dos símbolos maiores da derrocada do megaempreendimento idealizado por Eike Batista no Açu.

IHU On-Line – Como as desapropriações já realizadas até agora serão tratadas daqui para frente, diante do possível cancelamento dos investimentos?

Marcos Pedlowski – Essa é uma excelente questão! Quando o governo do Rio de Janeiro promulgou os quatro decretos que deram base legal para a desapropriação de quase 500 propriedades familiares, havia o argumento de que isto era feito em nome do interesse público, que seria teoricamente representado pela implantação do Distrito Industrial de São João da Barra. Agora que não há qualquer perspectiva de que esse empreendimento vai sair do papel, me parece lógico que esses decretos sejam anulados, e a terra, devolvida para os agricultores. Mas, por incrível que pareça, temos informações de que a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro – CODIN ainda quer desapropriar mais famílias e que novas marcações estão sendo feitas para esta finalidade.

O mais grave disso tudo é que toda essa terra vai passar para o controle de uma corporação estadunidense, o que implicará a criação de um enclave estrangeiro numa área onde até 2009 viviam pescadores artesanais e agricultores familiares. Só esse fato nos obriga a cobrar a anulação dos decretos de desapropriação, visto que não há qualquer interesse público que justifique este tipo de coisa.

IHU On-Line- Como a derrocada de Eike tem repercutido no Rio de Janeiro?

Marcos Pedlowski – Com a exceção dos muitos amigos que Eike Batista mantinha dentro das diferentes esferas de governo e na imprensa corporativa, creio que o sentimento comum é de que estamos assistindo à queda de um bufão. É que a maioria das pessoas com as quais eu conversei nos últimos anos, ainda que admirasse a aura de sucesso que cercava Eike, tinha um pé atrás com sua capacidade de entregar produtos reais. Agora, se perguntarmos aos agricultores e pescadores do V Distrito, o sentimento é de que Eike está recebendo exatamente o que mereceu por praticamente destruir comunidades inteiras e contribuir para um caos social, econômico e ambiental que ainda deverá assombrar os habitantes de São João da Barra por muitas décadas.

Nesse caso, ainda há uma espécie de desencanto e um sentimento de que foram traídos, pois o número de pessoas endividadas por terem acreditado nas promessas de Eike Batista é alto. Em suma, não creio que muita gente no Rio de Janeiro vai chorar pela derrocada de Eike e seu império de empresas pré-operacionais.

IHU On-Line – Alguns especialistas dizem que o fracasso de Eike Batista demonstra a fragilidade das Parcerias Público-Privadas – PPPs. O senhor concorda?

Marcos Pedlowski – Se analisarmos o que aconteceu não apenas com Eike Batista, mas com outros “campeões nacionais” escolhidos pelo governo Lula para mostrarem internacionalmente uma versão de capitalismo moderno à brasileira, veremos que os resultados foram pífios e causaram graves prejuízos ao tesouro nacional. Assim, em que pese o investimento de bilhões de reais que foi feito em Eike Batista e outros personagens mais discretos, o que tivemos foi um aprofundamento de um modelo de reprimarização da economia brasileira, que aumentou o processo de dependência das economias centrais que vivemos historicamente desde que os conquistadores portugueses aportaram por aqui em 1500. Nesse sentido, uma lição que o governo Dilma poderia estar tendo é de que o paradigma das PPPs é equivocado e negativo para o desenvolvimento econômico sustentável do Brasil. Entretanto, essa lição parece não ter sido assimilada, e prevejo mais desperdício de outros tantos bilhões de reais nas PPPs, independente de quem vença as eleições presidenciais de 2014. E se isto for confirmado, antevejo uma situação de aprofundamento do controle internacional de setores estratégicos da economia nacional, processo esse que está tendo um belo ensaio com a venda das empresas de Eike Batista a um pool de corporações estrangeiras. Nesse sentido, considero que o colapso de Eike Batista é uma espécie de ensaio do que virá com a manutenção das PPPs.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Marcos Pedlowski – Queria acrescentar que a minha expectativa é de que, com todos os equívocos que cercaram aascensão e queda de Eike Batista, fique a lição de que não existem salvadores da pátria para resolver a situação de profunda desigualdade que marca a existência dos brasileiros. Aliás, não vai ser com um Midas turbinado com dinheiro público que resolveremos as nossas dívidas sociais históricas. Se pelo menos os que efetivamente buscam um modelo de desenvolvimento que seja social, econômica e ambientalmente sustentável entenderem isso, acredito que já teremos avançado bastante.

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/525210-nyt-ascensao-e-queda-de-eike-espelham-trajetoria-recente-do-brasil

Vítimas do colapso de Eike Batista em São João da Barra continuam contando suas tragédias

Órfãos de Eike em São João da Barra tentam sobreviver

Comerciantes, lavradores e trabalhadores perderam clientes, empregos, terra e renda

O DIA

Rio – Eles não estão incluídos no processo de recuperação e não vão fazer parte de nenhum cronograma de pagamento de dívidas. São a ponta menos visível da crise do grupo X, do empresário Eike Batista: pequenos empreendedores que investiram para aproveitar oportunidades no Porto do Açu e agricultores desalojados para construção de um distrito industrial na Zona Rural de São João da Barra, Norte Fluminense, local do empreendimento.

Há um ano Manoel Peixoto foi detido por resistência à desapropriação, quando tentou proteger o terreno, Foto:  Fernando Souza / Agência O Dia

Com a suspensão das obras do estaleiro da OSX, que também pediu recuperação judicial, o clima é de apreensão no município de 35 mil habitantes. Desde abril, quando a crise se aprofundou, o movimento no comércio despencou e muitos empresários passaram a conviver com calotes da clientela.

Dos empreendimentos previstos, incluindo siderúrgicas e um polo metal mecânico, apenas o terminal de minério de ferro e duas fabricantes de equipamentos petrolíferos continuam em obras. A maior parte do terreno do porto permanece como estava antes da chegada da empresa: com grandes pastos e áreas de restinga. A população tem esperança de dias melhores, embora saiba que o empreendimento não terá o mesmo porte inicial.

“Está abandonado!”, gritou o motorista de ônibus ao ver a reportagem ao lado da cerca das obras do estaleiro da OSX, em São João da Barra, norte fluminense. Lá dentro, apenas um imenso galpão sem trabalhadores ou máquinas operando confirma: as obras estão suspensas.

A desmobilização jogou uma pá de cal sobre as expectativas dos moradores da região, que, desde o início das obras do porto, colhiam os lucros da intensa movimentação de empregados das empreiteiras e prestadoras de serviço contratadas pelo empreendimento.

“Vendia 800 quentinhas”

“Cheguei a vender 800 quentinhas por dia”, conta Paulo de Freitas Bastos, dono de um restaurante. “Hoje, não passa de 200”, conclui. Ele deixou a capital em 2007 rumo ao município, atraído pelas oportunidades que o porto geraria. Bastos se viu envolvido na espiral de calotes que assolou a região após o começo da crise. Hoje tem aproximadamente R$30 mil a receber.

“Antes de abril, tinha fila de ônibus, estava lotado de trabalhadores. Agora, está deserto”, lamenta Denis Toledo, dono de uma lan house no centro de Barra do Açu, próximo ao porto.

“Chegaram de mansinho e depois nos mandaram sair” 

Pesquisador do Instituto Federal Fluminense (IFF) Roberto Moraes estima que haja R$ 2 milhões em dívidas de fornecedores das empresas X junto a empresários do Norte Fluminense. Como se tratam de subcontratados, estes credores não fazem parte do processo de recuperação judicial.

Dono de uma pousada e um restaurante na cidade, João Batista Stellet Alves prefere não revelar o prejuízo que teve. Ele investiu R$300 mil no empreendimento, inaugurada em 2012.

“Eles primeiro chegam de mansinho, medindo as terras. Depois botam a placa e dizem que é deles”. A reclamação do produtor rural Reginaldo de Almeida, em frente ao terreno que pertence a sua família há 40 anos, foi feita com dedo em riste. Na mira, uma placa que identifica o terreno de 13 quilômetros quadrados, desapropriado para receber o polo siderúrgico da ítalo-argentina Ternium.

Com a retração do mercado de siderurgia e a entrada da empresa no grupo controlado pela Usiminas, porém, o empreendimento foi interrompido em setembro e a expectativa é que a companhia devolva as terras, hoje improdutivas. Outros produtores também foram desapropriados para as obras do distrito industrial.

A DESAPROPRIAÇÃO

A desapropriação iniciou em 2009. Estudos feitos à época definiram a necessidade de 70 quilômetros quadrados de área, antes dividida em 466 lotes de pequenos produtores rurais. Desde então, 292 propriedades já foram desapropriadas, mediante ação judicial.

Em contrapartida, o governo ofereceu em troca um assentamento próximo, além de auxílio-produção de um a cinco salários por dois anos. “Foram pagos R$ 2,8 milhões para 190 famílias, das quais 35 foram para o assentamento”, disse o governo estadual à reportagem.

Para os casos em que não houve acordo, já existem ações na Justiça e, hoje, as indenizações vem sendo feitas por depósito judicial. A resistência ao processo, que vem sendo usado como arma pela oposição ao governo Cabral, aumenta à medida em que o projeto do porto perde tamanho.

“Não precisava ter abraçado o mundo com tanta pressa. Esse porto está lá longe e nós perdemos pasto e área para plantar”, diz o produtor Manoel Peixoto, 61 anos.

Há um ano ele foi detido por resistência à desapropriação. A área de apenas um alqueire, está atualmente cercada por arame farpado. “Me agarraram pelo pescoço e me algemaram com meus dois filhos, como bandidos”, recorda. Ele lamentou terem jogado areia sobre a terra, que ficou improdutiva — mesmo que não seja mais usada pelo porto.

Reportagem de Nicola Pamplona

FONTE: http://odia.ig.com.br/noticia/economia/2013-11-14/orfaos-de-eike-em-sao-joao-da-barra-tentam-sobreviver.html

Após a quebra de Eike, quem é o pai da criança?

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Apesar do repentino interesse que a mídia corporativa está tendo pelos aspectos menos nobres da ação do ex-bilionário Eike Batista, parece que é chegada a hora de ver quem é que vai assumir as responsabilidades pelo rastro de destruição econômica, social e ambiental que ele deixou com o colapso de seu império de empresas pré-operacionais.

Dentre os muitos locais afetados por esse colapso e seus efeitos dantescos, o V Distrito de São João da Barra é certamente o que melhor sintetiza toda essa herança. Afinal, mexeu-se com a vida de centenas de famílias de pescadores e agricultores familiares, salinizou-se água e solos, e levou-se centenas de pequenos comerciantes à beira da bancarrota.

Agora que Eike Batista não está mais sendo vendido como o novo “Midas”, a questão que me parece fundamental é ver quem nos diferentes níveis de governo vai querer arcar com a pesada conta que ajudou a gerar. Os jornalões internacionais estão centrando o seu fogo no governo federal, mas é preciso lembrar que o principal fiador dessa aventura mal sucedida foi o governo do Rio de Janeiro, secundado de perto pela prefeitura de São João da Barra.  E o pior é que ainda não se viu nesses dois níveis de governo que estamos diante de um imbróglio de profundas ramificações para o qual não existem soluções fáceis.

Assim, quanto mais tempo se passar negando o problema, mais grave será o cenário que vai se montar em São João da Barra.  Como ninguém quer que o pior aconteça, mesmo porque os afetados pela bancarrota de Eike Batista já sofreram demasiadamente, há que se cobrar que os governantes parem de negar o óbvio e comecem a assumir suas responsabilidades de forma séria e inequívoca.

Exame: Cidade de super empreendimento de Eike enfrenta dias ruins

A cidade de São João da Barra, escolhida para receber o Superporto de Açu, perdeu mais de mil postos de trabalho em 2013 após anos de números positivos
 
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Beatriz Souza, de 

Reprodução/LLX 

Superporto de Açú

 O anúncio da construção do Superporto de Açú estimulou a criação de quase 4 mil empregos entre 2006 e 2012 em São João da Barra (RJ); neste ano a história se inverteu

 

São Paulo – A cidade de São João da Barra, no Rio de Janeiro, foi a escolhida para receber o maior empreendimento de Eike Batista, o Superporto do Açu. O investimento na ordem de 3,8 bilhões de reais prometia trazer um boom de desenvolvimento para a cidade de apenas 33 mil habitantes. Hoje, no entanto, ela parece refletir a crise do grupo EBX

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), entre janeiro e setembro deste ano, São João da Barra perdeu 1.117 postos de trabalho formais.

É a primeira vez desde o anúncio do empreendimento que a cidade sofre com fechamento de vagas, que só vinham aumentando ano a ano. Entre 2006 e 2012, 3.900 empregos com carteira assinadas foram criadas.

A queda no número de empregos impactou diretamente o setor de serviços da cidade. Segundo reportagem do G1, no primeiro semestre de 2013, a prefeitura de São João da Barra perdeu R$ 36 milhões em arrecadação de impostos.

O secretário municipal de Fazenda, Ranulfo Vidigal, acredita que a situação é temporária. Ao mesmo portal, disse que o município perdeu mil empregos num universo em que 10 mil foram criados.

“Muitas pessoas voltaram para suas bases. O que o município perdeu foi a demanda de serviços destas pessoas. Na minha previsão, esta perda é temporária. Um contrato entre a OSX e a Mendes Júnior voltará a trazer empregos a partir de março”, disse o secretário ao G1.

Colapso de Eike

No começo do mês, a petroleira OGX comunicou ao mercado que não vai pagar a seus credores cerca de US$ 45 milhões das parcelas referentes a juros de dívidas emitidas pela empresa no exterior que venciam dia 1º de outubro. Nesta quarta-feira, a empresa acabou entrando com o pedido de recuperação judicial e agora precisa apresentar um plano de reestruturação para pagar tudo o que deve.

A turbulência nos negócios de Eike começou há mais de um ano, quando a OGX passou a apresentar resultados de produção muito abaixo das expectativas do mercado e das próprias projeções da empresa.

FONTE: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/cidade-de-super-empreendimento-de-eike-enfrenta-dias-ruins