Maioria dos pacientes que sobrevivem à forma grave da COVID-19 apresenta sintomas prolongados da doença

pós covidEm seminário on-line organizado pela FAPESP, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos divulgaram resultados preliminares de estudos sobre a saúde mental e a qualidade de vida desses sobreviventes seis meses após alta hospitalar (foto: Engin Akyurt/Pixabay)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

A maioria dos pacientes que sobrevivem à forma grave da COVID-19 tende a apresentar sintomas prolongados ou sequelas da doença, condição que tem sido chamada de COVID longa ou subaguda. É o que apontam dados preliminares de estudos que estão monitorando fatores como saúde mental, qualidade de vida, reabilitação física, financeira e cognitiva dessas pessoas.

“Há mais de um ano sofremos as consequências da pandemia de COVID-19 e, com o tempo, fomos percebendo que, para além de problemas relacionados à transmissão, infecção e mortes, a COVID-19 pode trazer também consequências de longo prazo para pacientes. Como essas implicações ainda não estão completamente entendidas pelos cientistas, é muito importante estimular a troca de conhecimento e de experiências entre pesquisadores de todo o mundo”, disse Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, na abertura do seminário on-line “Long and post-acute COVID-19”, realizado no início de junho. O evento integra a série FAPESP COVID-19 Research Webinars, organizada com apoio do Global Research Council (GRC).

No evento, cientistas do Brasil e dos Estados Unidos apresentaram resultados preliminares de estudos que estão desenvolvendo a respeito do impacto prolongado da COVID-19.

No Brasil, 882 pacientes que estiveram internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) estão tendo aspectos da vida pós-COVID monitorados por pesquisadores a fim de aprofundar o entendimento sobre a presença de sintomas da doença seis meses após a alta hospitalar. Todos os participantes do estudo tiveram a forma grave da doença, sendo que dois terços precisaram de atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Com seis meses de análise, os pesquisadores observaram que é alta a ocorrência de sintomas após a alta hospitalar. Do total de pesquisados, 89,3% apresentaram sintomas persistentes, como cansaço, dores pelo corpo e dispneia. Além disso, 58,7% relataram pelo menos um sintoma emocional ou cognitivo, como perda de memória (42%), insônia (33%), concentração prejudicada (31%), ansiedade (28%) e depressão (22%).

“Esses sintomas estão todos inter-relacionados. Em outras palavras, o que verificamos é que uma pessoa que reclama de perda de memória também relata insônia, ansiedade e depressão. É importante destacar que esses resultados foram ajustados em relação aos sintomas apresentados antes de as pessoas terem COVID-19”, afirmou Geraldo Busatto, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM21) do HC-FM-USP e coordenador do estudo.

Busatto explica que, durante o estudo, foram realizadas entrevistas estruturadas com os pacientes, o que permitiu aos pesquisadores categorizar diagnósticos de transtornos psiquiátricos. “Há uma variedade de transtornos entre esses pacientes e um índice similar de estresse pós-traumático (13,65%) em relação aos dados disponíveis sobre a população em geral. No entanto, encontramos índices altos de alucinações (8,71%) e delírios (6,35%)”, ressaltou.

Também foi pedido que os participantes realizassem tarefas cognitivas. “Em comparação com a média brasileira, esses pacientes tiveram um resultado pior, isso especialmente entre os que tinham entre 60 e 75 anos. Já nos testes que analisaram fluência verbal, não houve diferença entre os pacientes e a população brasileira em geral. Isso mostra que, provavelmente, o déficit causado pela COVID-19 não é uniforme, algumas áreas da cognição devem apresentar mais déficits que outras”, disse Busatto.

Qualidade de vida pós-COVID

Outro estudo que também está sendo realizado no Brasil e que envolve mais de 55 centros de pesquisa pretende investigar as consequências de longo prazo da COVID-19 na qualidade de vida de cerca de mil indivíduos adultos que foram hospitalizados.

“Os dados preliminares mostram que seis meses após a alta hospitalar a mortalidade é alta (6,9%), e a re-hospitalização, comum (16%). Entre os pacientes que fizeram uso de ventilação mecânica, esses dados são maiores: 24% morreram seis meses depois da alta hospitalar, contra 2% dos que não precisaram de ventilação mecânica. Em relação à re-hospitalização, ela foi de 40% contra 10% em relação à ventilação mecânica. São diferenças estatísticas significativas, mesmo após o ajuste de covariantes como idade e comorbidades”, contou Regis Goulart Rosa, médico intensivista do Hospital Moinho de Vento em Porto Alegre (RS) e um dos coordenadores do estudo.

Foi observada ainda perda de funções físicas importantes para a realização de atividades do dia a dia. “Houve piora acentuada nos primeiros três meses, apresentando relativa melhora até o sexto. No entanto, entre os pacientes que utilizaram ventilação mecânica, mesmo após seis meses de alta, eles ainda não tinham atingido os mesmos patamares de antes da COVID-19”, afirmou Rosa.

Um estudo semelhante, realizado com pacientes norte-americanos, vai monitorar por seis meses 1.500 sobreviventes da COVID-19. O intuito é acompanhar variações na saúde cardiopulmonar e mental, bem como questões socioeconômicas.

Os dados de 253 pacientes coletados um mês após a alta hospitalar mostram que 54,9% apresentavam algum sintoma cardiopulmonar. Entre os pesquisados, 15,9% continuavam a precisar de suplementação de oxigênio em suas residências. Ainda de acordo com a pesquisa, os pacientes também apresentavam sintomas como tosse (23%), falta de ar antes de dormir (13,4%), batimentos cardíacos irregulares ou acelerados (19,1%) e dor no peito, cansaço ou angina (11,3%).

“Uma descoberta preocupante está no fato de que muitos dos pacientes que apresentam alguma dessas dificuldades retornam para suas casas sem nenhum auxílio para lidar com esses novos problemas. Isso se soma ao aspecto destacado na pesquisa de que 53% dos respondentes tiveram suas finanças drenadas após a hospitalização. Além disso, 38% tiveram que pedir ajuda para que parentes cuidassem deles e 20% tiveram que mudar de trabalho. Há um impacto socioeconômico da COVID-19 e também da COVID longa”, disse Catherine Hough, que coordena o estudo realizado na Oregon Health & Science University.

A recuperação da COVID-19 pode ser lenta para muitos pacientes. O estudo realizado nos Estados Unidos mostrou que 85% dos pacientes ainda não tinham se restabelecido completamente um mês depois da alta hospitalar. Do total, 65% apresentavam alguma incapacidade e 63% tinham algum problema cognitivo significativo. “Ao analisar os mesmos dados três meses após a alta dos pacientes, observamos pouca mudança em relação a esses sintomas: 75% dos pacientes ainda não tinham se restabelecido completamente, 60% apresentavam alguma incapacidade e 54% apresentavam algum problema cognitivo significativo.”

Hough ressaltou que os estudos sobre a COVID longa precisam considerar doenças e outros problemas de saúde que já estavam presentes antes da infecção pelo SARS-CoV-2. O vírus, segundo a pesquisadora, “pode ser um amplificador de problemas anteriores”.

Quebra-cabeça

Os mecanismos imunológicos que levam a essa variação de sintomas e sequelas pós-COVID também estão sendo pesquisados. “Há uma variação grande na forma como o sistema imunológico humano monta uma defesa contra o coronavírus, por isso temos essa multiplicidade de prognósticos: assintomático, leve, moderada, ou COVID-19 severa. Da mesma forma, sabemos que, enquanto algumas pessoas vão apresentar apenas a versão aguda da doença, outras terão uma versão mais prolongada, com sintomas e sequelas que poderão perdurar por meses”, explicou Carolina Lucas, pesquisadora do laboratório Akiko Iwasaki, na Yale School of Medicine nos Estados Unidos.

Em um estudo publicado na revista Nature, Lucas identificou quatro assinaturas imunológicas preditoras, que seriam capazes de distinguir e prever a trajetória da doença em cada paciente ao investigar parâmetros imunológicos e clínicos de 113 pacientes, entre casos moderados (fora da UTI) e casos graves (na UTI), ao longo de até 53 dias após o aparecimento de sintomas.

O grupo de pesquisadores observou que, entre os pacientes com doença moderada que se recuperaram, havia ainda uma maior abundância das proteínas envolvidas na cura e no reparo do tecido. No entanto, naqueles com a forma agravada da doença, as citocinas eram mais misturadas, aparecendo em combinações que são incomuns para infecção viral. Mais pessoas morreram nesse grupo.

Há ainda uma questão de timing. Os resultados das análises indicaram que os pacientes em estado grave não conseguiram controlar a carga viral ao longo do tempo e apresentavam níveis mais elevados de interferon, uma classe de proteínas produzidas por células de defesa para combater patógenos.

Outro aspecto identificado pelos pesquisadores está na correlação entre a carga viral e as quantidades de citocinas envolvidas nas funções antivirais, independentemente da gravidade da doença.

A íntegra do webinário pode ser acessada em: https://covid19.fapesp.br/covid-19-longa-e-sub-aguda/545.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui! ].

UFRJ reúne maiores especialistas do mundo para pensar o futuro pós-COVID

Conferência internacional debaterá os amanhãs desejáveis em áreas como sustentabilidade e inteligência artificial

POST COVID

O novo coronavírus mudou a forma que todos viviam. Entrelaçou uma crise sanitária sem precedentes a problemas sociais, econômicos e ambientais, aprofundando desigualdades, a polarização política e social, além dos desafios de governança global. Neste momento tão desafiador para a Humanidade, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiu reunir alguns dos mais importantes pensadores do mundo para discutir, de forma crítica e abrangente, qual futuro nos espera – e, mais do que isso, quais amanhãs são desejados e possíveis nos anos pós-Covid.

A Conferência Internacional “Desirable Tomorrows”, que, em virtude da pandemia, acontecerá de forma virtual, será aberta, no dia 29 de abril, pela reitora da UFRJ, professora Denise Pires de Carvalho, e por Jerson Lima, presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). O primeiro painel, que debaterá as tendências e desafios do mundo pós-Covid, terá entre os participantes a economista Mariana Mazzucato, considerada uma das mais influentes do mundo.
 
Prêmio Nobel de Química, o suíço Kurt Wüthrich também é um dos palestrantes do evento. Ele irá proferir a conferência magna em maio, quando serão realizados cinco painéis. Em um deles, Miguel Centeno, da Universidade de Princeton, lembrará que é preciso ter resiliência, pois não existe um ˜Planeta B˜. Martin Rees, da Universidade de Cambridge, perguntará ˜se teremos um novo século pela frente˜. O encontro internacional será encerrado no início de junho. As inscrições para quem quiser assistir ao evento on-line já estão abertas (http://desirabletomorrows.org/register).

Durante o período, serão trazidos à tona temas diversos, mostrando que o papel da pesquisa e do conhecimento científico são cruciais para que sociedade e governos possam enfrentar a crise multidimensional que hoje ocorre. Entre as tendências e desafios do mundo pós-Sars Cov-2, a academia, junto da sociedade civil, irá debater como construir um futuro mais sustentável e equitativo; iniciativas rumo à transição energética, o impacto da Inteligência Artificial na sociedade, entre outros, sempre indagando como a ciência e a tecnologia podem contribuir para um futuro benigno, superando as ameaças e riscos de colapso.

A ideia dos organizadores era realizar a conferência, de modo presencial, em setembro do ano passado, quando a UFRJ celebrou seu centenário. Por conta da pandemia, o plano original teve que ser alterado, mas a proposta de mergulhar em uma reflexão sobre o futuro se manteve. Mais do que nunca, a missão da Universidade pública, patrimônio da sociedade, se mostra estratégica e crucial para combater o obscurantismo e promover conhecimento científico.

A conferência, organizada pelo Colégio Brasileiro de Altos Estudos (Fórum de Ciência e Cultura) e pelo Programa de Internacionalização (PRINT) da UFRJ, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, será transmitida no YouTube do FCC com tradução simultânea.


Confira a programação.

Painel 1: O Mundo Pós-COVID: Tendências e Desafios (29 de abril, às 10h30m)

Painel 2: A Urgência da Mudança Social: Construindo um Futuro Sustentável e Equitativo (3 de maio, às 11h, e 4 de maio, às 13h)

Conferência Magna: Professor Kurt Wüthrich (2002 Prêmio Nobel de Química 2002) – 3 de maio às 14h30m

Painel 3: Mudança Climática, Biodiversidade e a Governança Ambiental – Desafios Globais e suas Implicações (11 de maio, às 9h30m e 11 de maio às 14h)

Painel 4: Inteligência Artificial e seu impacto na sociedade (18 de maio às 14h)

Painel 5: Fronteiras da Biologia e da Medicina (25 de maio, às 10h e às 14h)

Painel 6: Transição Energética: Desafio para o Século 21 (31 de maio às 10h)

Painel de Encerramento: Daqui para Onde? Geopolítica, Política, Tecnologia, e Economia para o Mundo Pós-Covid (7 de junho às 10h).

A íntegra dos painéis pode ser encontrada no link: