Avaliação e produtivismo na universidade

A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica

Neoliberalism, Mental Health, & Academia – Dr Nadine Leese

Por  *Danichi Hausen Mizoguchi  para “A Terra é Redonda” 

No dia 12 de janeiro de 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) divulgou os resultados preliminares de sua avaliação quadrienal. Trata-se de um marco relevante para o sistema de pós-graduação brasileiro, já que influencia diretamente no reconhecimento dos cursos de mestrado e doutorado e, consequentemente, das universidades.

O processo mensura o desempenho dos programas a partir de critérios como produção científica, formação de novos pesquisadores, impacto social e internacionalização, dentre outros, e, a partir disso, atribui notas que vão de 1 a 7.

Porém, a avaliação não é apenas um diagnóstico técnico: é um ritual de consagração e exclusão em que programas sobem ao altar enquanto outros são empurrados para a penumbra administrativa. Apenas programas com nota igual ou superior a 4, por exemplo, estão aptos à formação de doutores.

Programas com nota mais alta – entre 6 e 7 – tendem a ter mais recursos, bolsas, visibilidade e parcerias, enquanto programas com nota mais baixa enfrentam menos financiamento, menor atratividade e maior pressão por reestruturação. A avaliação decide quem respira, quem agoniza, quem merece existir – define hierarquias, condiciona verbas e orienta carreiras. Sob a retórica da excelência e o suposto ascetismo dos indicadores, distribui-se prestígio como quem distribui oxigênio.

Como não poderia deixar de ser, a comunidade acadêmica reagiu à divulgação com ansiedade – em alguns casos com frustação, em outros com euforia e, em quase todos, com uma pontinha de servilismo institucional. O rito se repetiu sem surpresas: assim que os resultados foram publicizados, universidades e programas bem-sucedidos correram às redes para exibir suas notas como se fossem medalhas.

Nas postagens, os avatares institucionais celebraram orgulhosamente a própria qualidade acadêmica. O aplauso defronte ao espelho ecoou alto, talvez para abafar o barulho do desmonte.

Pouco menos de um mês antes, em 19 de dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovava a Lei Orçamentária Anual para 2026, amputando quase meio bilhão de reais das universidades federais: o orçamento da educação encolheu, a assistência estudantil foi mutilada e as agências de fomento perderam recursos destinados a bolsas e pesquisa. Em outras palavras: menos estudantes pobres poderão permanecer na universidade, menos pesquisas poderão ser feitas, menos ciência será produzida.

O contraste é obsceno: enquanto se comemoram notas e rankings quase individualmente, a base material da universidade pública é sistematicamente corroída – e a recomposição orçamentária assinada por Lula no dia 20 de janeiro não é capaz de alterar o roldão histórico. Celebra-se a avaliação enquanto se aceita com naturalidade o estrangulamento: a festa acontece no convés de uma embarcação cujo casco faz água. A festa acontece sob luz artificial – e, do lado de fora, o madeirame range.

Em janeiro de 2021, sob o pseudônimo de Benamê Kamu Almudras, um professor identificado apenas como docente de uma universidade pública de São Paulo publicou na revista Piauí um ensaio intitulado “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”A peça causou certa polêmica – e uma série de réplicas foi publicada na sequência.

Partindo de um punhado de situações concretas ocorridas em salas de aula de graduação e pós-graduação em diversas regiões do Brasil, o texto argumenta que muitos discursos e práticas apresentados como revolucionários deslocam a ideia de transformação estrutural para o plano individual – empreendedor, autônomo, inovador – e, assim, mesmo que sob um verniz transformador, apenas e tão somente reforçam a lógica neoliberal: menos evidente, mais sedutora, mais palatável – mas, ainda assim, e quiçá ainda mais, neoliberal.

Benamê Kamu Almudras apontava duas virulentas ofensivas neoliberais simultâneas contra a universidade pública. À direita, o ataque frontal: cortes de verbas, demonização do serviço público, hostilidade à inclusão social realizada em especial com a implementação da política de cotas. À esquerda, a transformação do estudante em consumidor, da sala de aula em espaço de satisfação mercadológica, do professor em prestador de serviços, da educação em distribuição de diplomas.

Dentre outras coisas, o artigo talvez tenha incomodado por dizer algo quase indizível: que parte significativa da universidade que compreende a si mesma como crítica já não resiste ao neoliberalismo – ela o atualiza com gosto e gozo narcísico e midiático. Para usar um termo freudiano, o texto operava uma ferida narcísica: a denúncia de que parte significativa do discurso crítico universitário não apenas convive com o neoliberalismo, mas funciona como sua versão mais sofisticada, em nova maquiagem, novo vocabulário e nova estética que contribuem para uma universidade crítica perfeitamente adaptada à lógica privativista do mercado.

Pierre Dardot e Christian Laval definiram o neoliberalismo como uma racionalidade política global que reorganiza o Estado, a economia, as instituições e, sobretudo, as formas de subjetivação. Como disse Margaret Thatcher em uma de suas frases mais célebres, economics are the method: the object is to change the soul. Nesta chave de leitura, o neoliberalismo não se limita a privatizar empresas ou cortar direitos, mas também conduz os sujeitos a pensarem-se como empreendimentos que devem constantemente valorizar a si mesmo no mercado – seja ele qual for.

Ou seja, na leitura dos Pierre Dardot e Christian Laval, mas também de Margaret Thatcher, o neoliberalismo não governa apenas economias — governa almas sob uma norma concorrencial universal.

Assim, cada indivíduo torna-se uma empresa portátil que carrega seu CNPJ subjetivo, calcula seus investimentos e administra seus fracassos. O trabalhador metamorfoseia-se em capital humano, a vida vira portfólio e os direitos tornam-se performance. Byung-Chul Han descreveu com precisão essa mutação: o sujeito neoliberal não precisa mais ser oprimido, pois explora a si mesmo voluntariamente.

Em A Muralha da China, Franz Kafka descreve uma obra monumental construída em fragmentos intervalados e separados por longas distâncias. Gilles Deleuze e Felix Guattari viram nela o retrato de um poder que já não se apresenta como unidade, mas como rede de microcomandos. Para a dupla de franceses, a muralha deve ser entendida como um dispositivo político que revela a fragmentação do poder imperial – e é nessa astúcia que está sua força.

O imperador não é uma autoridade plenamente presente, mas uma figura distante, quase inexistente, que opera mais como um significante vazio do que como um soberano efetivo. O poder não se concentra no topo, mas se espalha em uma rede burocrática que atravessa os corpos e as práticas cotidianas.

Assim, a obediência não decorre de ordens claras, mas de uma adesão difusa a um sistema incompreensível – fato que reforça a dimensão imanente e impessoal do poder. O império não domina por uma presença forte, e sim por uma organização difusa que captura os indivíduos em um trabalho interminável e sem sentido totalizável.

Sob o neoliberalismo, a universidade se parece cada vez mais com essa muralha. A coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores e se perde a ideia de que a universidade é um serviço público dedicado ao ensino, à pesquisa e à extensão. A educação pública passa a funcionar como uma empresa mal disfarçada, e produz produtividade compulsiva, avaliações permanentes, comparação generalizada e culpa constante.

Karl Marx já havia diagnosticado essa condição em sua gigantesca cartografia do capitalismo:  trabalho alienado é aquele em que o trabalhador já não se reconhece no que produz. Academicamente, a alienação assume um verniz elegante e intelectual: publica-se em série artigos que ninguém lê, pesquisas que ninguém debate, participa-se de congressos que ninguém lembra – mas que contam para deixar o lattes mais parrudo e o perfil nas redes com mais engajamento.

Tudo vira post, nada permanece: o paper vira mercadoria, o currículo vira fetiche, o pesquisador vira gerente– e a solidez se desmancha no ar da lógica competitiva de mercado em sua mais radical pureza.

No final de novembro de 1998, quando a greve dos docentes das universidades federais completava quase cem dias, Fernando Henrique Cardoso afirmou: “Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor. Então fica a angústia: se vai ter um nome na praça ou se vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem”. A frase não foi um deslize: foi um sintoma.

A separação retórica entre o professor e o pesquisador era o início de uma era em que nunca se exigiu tanto que o professor produzisse em vastas quantidade e nunca se ofereceu tão pouco tempo para pensar. No enunciado do presidente da república, nenhuma crítica às condições estruturais da universidade brasileira e a dificuldade que impunham à pesquisa – e, assim, também à formação de um pensamento acadêmico nacional consistente apto a disputar com os centros mais ricos do mundo.

À guisa de contraexemplo, veja-se as regras do Collège de France, onde lecionaram nomes como Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Georges Canguilhem e Roland Barthes. De acordo com o regulamento da instituição os docentes devem expor a cada ano uma pesquisa nova e original, o que os obriga a sempre renovar o conteúdo do seu ensino, que não pode se repetir de um ano para o outro.

Todavia, os professores têm a obrigação de dar apenas 26 horas de aula por ano. De praxe, nas universidades federais brasileiras, a obrigação é de 8 horas semanais – o que totaliza quase dez vezes mais do que a parisiense.

Aqui, ao contrário, demanda-se produção sem dispor institucionalmente de tempo. Assim, a imaginação é reduzida a performance mensurável das quantidades. O professor pesquisador passa a ter como matéria-prima de sua labuta a autopromoção asseverada em formulários online, repositórios, assinaturas digitais, editais.

Citações-moeda, relatórios-capital simbólico, o tempo quadrienal em que livros valem menos que artigos e ideias só importam se indexada na lógica estatística– indexação e estatística, pasmem, saudados pela própria maquinaria universitária.

Houve um tempo em que, ao menos por parte das fileiras progressistas, o produtivismo acadêmico era criticado abertamente. “Capestalismo” era o neologismo utilizado para relacionar a agência do Estado à lógica extrativista do capital. Hoje, o que se vê, em boa parte destas mesmas fileiras, é adesão entusiasmada. Com seus avatares exibicionistas, a universidade converte a própria submissão em capital simbólico. Talvez esse seja o sinal mais claro da derrota.

Quando a crítica vira performance, quando a avaliação vira festa, quando a muralha é saudada como conquista, já não se trata apenas e tão somente de falta de recursos ou de políticas equivocadas. Trata-se de algo mais grave: a incorporação alegre da própria servidão – mensurada, sorridente e postada em alta resolução.

*Danichi Hausen Mizoguchi é professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Fonte: A Terra é Redonda

Sobre as avaliações quadrienais da CAPES

Imagem: Camilla Plener

Por Thiago Canettieri*

1.

Foi publicado o resultado das avaliações quadrienais da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior. Entre comemorações pelas notas alcançadas e recursos para tentar atingir as notas desejadas, perdem todos.

Nós, acadêmicos, nós, professor universitários, nós, teóricos críticos, nós, que nos mobilizamos no assim chamado “tsunami da educação” (primeira grande mobilização contra o Governo Jair Bolsonaro por conta do ‘contingenciamento’ de recursos para educação), naturalizamos o método quantitativo de avaliação da CAPES – que produz tanto sofrimento entre docentes e, sobretudo, discentes (afinal, são o andar de baixo desta pirâmide de sofrimento).

O modo de produção (acadêmica) CAPEStalista, baseado em criar uma equivalência universal e abstrata entre programas de pós-graduação, periódicos científicos, não difere tanto assim do modo de produção capitalista de mercadorias. Assim, o que o sistema de avaliação da CAPES produz nada mais é do que uma tentativa, fracassada de partida, de quantificar um trabalho que, em sua “natureza”, não é tão prescrito assim.

Paulo Arantes,[i] em uma aula pública durante as mobilizações do “tsunami da educação”, apontou que o problema não era exatamente o Governo Bolsonaro ou o Ministro Abraham Weintraub, mas sim o coração sombrio que legitimava os cortes na educação: o modo de como se concebe o “trabalho do conhecimento”.

O filósofo, pensando junto com Christopher Dejour, lembra que o trabalho de ensinar, orientar, acompanhar, participar, em suma, pensar, não pode, por princípio, ser avaliado. A produtividade do trabalho em uma fábrica de braças de linho ou de casacos pode ser avaliada quantitativamente – ainda que o real deste trabalho, como pensa Christopher Dejours,[ii] não seja capturado por esses métodos de avaliação.

A imposição deste sistema de avaliação – que não é exatamente uma novidade – deve ser lida em conjunto com os sucessivos cortes no chamado “orçamento do conhecimento”. Há mais de dez anos as universidades públicas e as instituições de apoio à pesquisa e à pós-graduação sofrem sucessivos cortes de orçamento.

Segundo o Observatório do Conhecimento,[iii] 2014 foi o primeiro ano em que os recursos empenhados no orçamento do conhecimento foram inferiores aos do ano anterior. Em 2015, o governo de Dilma Rousseff contingenciou 15% do orçamento do MEC. Em 2016, com o famigerado PEC do Teto de Gastos, um estudo conduzido pela Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira (Conof) da Câmara dos Deputados estimou que a PEC poderia causar perda real de até R$ 25,5 bilhões por ano para a educação.

Em 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, ocorreu o bloqueio de 20% das verbas do MEC, e o Ministério da Ciência e Tecnologia teve seus recursos contingenciados em 44%. 2021 foi o pior ano para o Orçamento do Conhecimento. Em 2024, primeiro ano de proposta de orçamento do Governo Lula III, o valor empenhado foi inferior ao de 2020. Tanto em 2024 quanto em 2025, o Orçamento do Conhecimento foi inferior à metade do de 2014 e 2015.

2.

O que a avaliação da CAPES permite (e ela já faz isso) é a “alocação eficiente” dos recursos públicos. Por que financiar um programa nota 3 se pode financiar um programa nota 7? Há algo mais neoliberal do que a alocação eficiente de recursos?

Como foi analisado pelo Observatório do Conhecimento,[iv] tem ocorrido um incremento da participação das emendas, individuais e de bancada, para financiar as universidades federais. Por serem recursos incertos e definidos a cada exercício financeiro, seu empenho nas universidades não permite estruturar políticas duradouras. Além disso, como as prioridades dos parlamentares mudam a cada exercício, a aposta neste tipo de instrumento pode resultar na ampliação das desigualdades, pois não distribui recursos de forma equitativa entre instituições e regiões do país. Afinal, o critério para pleitear os recursos continua sendo as notas da CAPES.

O modelo deste financiamento vem das universidades americanas e europeias que dependem de mecenas ou de parcerias com organizações privadas. O resultado é um sufocamento de áreas com ritmos de publicação e de inovação reduzidos, além de uma tendência ao reforço do lugar de destaque das instituições de ponta. O que, claro, só resulta na reprodução de uma lógica concorrencial de mercado.

Em um importante texto, o geógrafo escocês radicado nos Estados Unidos, Neil Smith,[v] aborda a questão da “corporatized education”. Seu mote é uma passagem do texto de O capital: “Diremos que um mestre-escola é um trabalhador produtivo se não se limita a trabalhar a cabeça das crianças, mas exige trabalho de si mesmo até o esgotamento, a fim de enriquecer o patrão. Que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensino, em vez de numa fábrica de salsichas, é algo que não altera em nada a relação”.[vi]

Neil Smith então vai narrar como as várias transformações do capitalismo tardio, a partir de 1970, produziram as condições de possibilidade para a mercantilização da educação nos Estados Unidos, com modelo de gestão e financiamento baseado no desempenho e produtividade, reconfigurando o que se chamava de “setor educacional”. A medida puramente quantitativa da produtividade acadêmica, diz Smith, produz “a mercantilização crescente” das universidades que “afeta e infecta a todos nós”: “diariamente, todos nós entramos na fábrica de salsichas. Alguns de nós somos as salsichas, alguns colocam a carne nas tripas, alguns apenas cuidam das máquinas e alguns são os gerentes – mas todos nós estamos na fábrica educacional de Marx”.[vii]

Para “aperfeiçoar” a universidade pública, gratuita, universal, e de qualidade, para que se possa produzir conhecimento e crítica sobre o nosso mundo, o primeiro passo é abrir mão da “escala” abstrata de sucesso acadêmico baseada em rankings, estratos de periódicos e notas de programas de pós-graduação. Talvez, assim, a universidade acabe por não se parecer com uma fábrica de salsichas.

*Thiago Canettieri é doutor em geografia e professor do Departamento de Urbanismo da UFMG.

Notas

[i] https://www.youtube.com/watch?v=zQ1S_K4ZGqg&t=687s

[ii] Christopher Dejours, Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, 14(3), 27-34, 2004.

[iii] https://observatoriodoconhecimento.org.br/wp-content/uploads/2024/12/ObC-PLOA-2025-1.pdf

[iv] https://observatoriodoconhecimento.org.br/emendas-parlamentares-no-orcamento-das-universidades-federais/

[v] Neil Smith, Who run this sausage factory? Antipode, 32(3), 330-339, 2000.

[vi] Karl Marx, O capital: crítica da economia política, livro I. Boitempo, 2013, p.578.

[vii] Neil Smith, p. 338.


Fonte: A Terra é redonda

Conexão Flórida-Paraguai inunda o Brasil com diplomas falsos de pós-graduação. E essa é só a ponta do iceberg

7 signs your school may be a diploma mill - eCampus News

O “Extra Classe”, jornal do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) está produzindo uma série de reportagens sobre uma verdadeira fábrica de diplomas de pós-graduação (as ‘diploma mills’) que está assentada primariamente no Paraguai e na Flórida. Como as diversas reportagens do “Extra Classe” mostram há um esquema azeitado que vai da expedição de diplomas falsos até a sua revalidação em território nacional via a Plataforma Carolina Bori que foi desenvolvida pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) com a finalidade de tornar estes diplomas reconhecidos no território nacional.

O esquema de atrair incautos (outros nem tanto) para a obtenção de diplomas falsos no Paraguai e na Argentina já era de meu conhecimento desde o início deste blog.  O que eu não tinha conhecimento era do fato de que o esquema tinha se estendido para os EUA onde existem instituições que são verdadeiras fábricas de diplomas em diversos estados, começando pelo Arizona e chegando na Flórida.

Como membro do Conselho Universitário da Universitário da Uenf vejo chegar um pequeno número de pedidos de revalidação de diplomas, os quais passam pela devida avaliação por comissões formadas com a finalidade de verificar se os pedidos são, digamos, compatíveis de serem aprovados. O problema é que, como mostra a série de reportagens do “Extra Classe”, os esquemas estão cada vez mais profissionais e envolvem uma série de “colaboradores” espalhados por diferentes regiões brasileiras.

O fato é que a demanda por diplomas de pós-graduação vem aumentando por causa dos requisitos inseridos nos Planos de Carreira de educadores em todos os estados e municípios brasileiros, sem que se dê o devido suporte e orientação para os profissionais que desejarem ter melhores salariais em função do avanço do seu treinamento profissional.  Com isso, se abre a possibilidade de que esses esquemas ilegais sejam abraçados sem muitos questionamentos. O resultado é que o está se descobrindo com as reportagens do “Extra Classe”:  as fábricas de diplomas estão funcionando a todo vapor, gerando custos para quem entra nos esquemas e prejuízos para os cofres de estados e municípios que passam a pagar salários ancorados em diplomas inexistentes.

Outro problema é que a expectativa de alguém que possua títulos de pós-graduação é que, em troca dos melhores salários, os profissionais possam entregar e empregar conteúdos de melhor qualidade.  Como é de esperar em qualquer esquema ancorado em falsidades, esse princípio acaba não se confirmando, gerando um ciclo vicioso que envolve profissionais mal treinados e alunos recebendo o mesmo de sempre.

A solução para este imbróglio seria a realização de investimentos de  ponta a ponta, começando pelos salários até a consolidação de um sistema nacional de pós-graduação que possa efetivamente assimilar a demanda que está sendo gerada com as pressões exercidas sobre os profissionais da educação. Mas este cenário, convenhamos, esbarra na política de controle orçamentário que vem encurtando brutalmente os investimentos em saúde, educação e desenvolvimento científico.  Com isso, as reportagens do “Extra Classe” estão provavelmente apenas mostrando a ponta de um longo iceberg. Há provavelmente ainda muita coisa a ser descoberta pela Polícia Federal. E salve-se quem puder.

À beira do colapso? A falência dos modelos atuais de pesquisa e pós-graduação

Por Érico Andrade para o “Blog da Boitempo” 

O sistema de pós-graduação no Brasil conheceu um avanço raro em poucas décadas. Para dar um exemplo, basta dizer que em 2023 a pós-graduação stricto sensu superou a marca de 350 mil matrículas. O crescimento da produção científica no Brasil e o incremento na formação de pessoas com mestrado e doutorado é notável. Segundo o Plano Nacional de Pós-Graduação, temos ainda um número deficitário de doutores quando comparado a outros países, mas com um esforço descomunal da comunidade acadêmica estamos equalizando esse quadro. Contudo, esse crescimento, por um lado, não foi acompanhado de melhores condições de trabalho, e por outro, foi objeto de uma maior ingerência dos órgãos de controle sobre a vida universitária. Ou seja, o aumento significativo na produção científica não teve como contrapartida um aumento do investimento em ciência que pudesse desonerar o pesquisador de ser um administrador, contador e expert em prestação de contas de projetos. Ademais, os órgãos de controle passaram a comportar cada vez mais exigências — todas elas quase kafkianas. Nos programas de pós-graduação, as secretarias (quando existe secretaria) parecem abarrotadas de trabalho, porque os sistemas das universidades para monitoramento da vida acadêmica estão cada vez mais complexos. Para alguns deles, aliás, é preciso até um tutorial de uso! 

Sob o pretexto de publicizar os atos administrativos, as universidades e agências de fomento têm sequestrado o tempo de pesquisa em nome de uma burocracia que aumenta na mesma medida em que o corpo técnico da universidade é diminuído e precarizado. Igualmente, o aumento de vagas na pós-graduação não é acompanhado por um crescimento no número de bolsas, e joga estudantes para uma espécie de concorrência fratricida e exaustiva para garantir um direito básico, qual seja, cursar uma pós-graduação com alguma renda que lhes permita se dedicar minimamente à produção acadêmica.

Essa concorrência se estende ao corpo docente, que muitas vezes, a fim de garantir mais recursos para os programas de pós-graduação, tem que produzir milhares de eventos, artigos e preencher não mais apenas o Lattes, mas diversas plataformas (Orcid, web of science, Scopus, academia.edu etc.) para se habilitar a submeter projetos que são avaliados considerando os rankings estrangeiros. Para a avaliação desses projetos, as agências de fomento naturalizaram o caráter privado dessas plataformas e obrigam o pesquisador a se desdobrar em tarefas que parecem não ter fim. A representação icônica disso é o nome do programa para recuperação de citação, “publish or perish” (literalmente, publique ou pereça), que indica que a morte acadêmica é o destino de quem não se adequa à compulsão por produzir. 

É nesse contexto que a lembrança de um texto do psicanalista Winnicott parece decisiva naquilo que, aqui, ele pode nos servir de metáfora. Em “O medo do colapso”, ele nos mostra que o medo intenso de um colapso frequentemente não é um temor do desconhecido, mas de reviver o que já experimentamos. Partindo dessa imagem como metáfora, é preciso afirmar que se sentimos medo do colapso da vida acadêmica é porque, de algum modo, esse colapso já ocorreu. Acredito que é precisamente o que estamos vivendo nos programas de pós-graduação quando, para cada tese escrita, cada projeto aprovado e cada evento feito, é produzida uma carga muito mais exaustiva de trabalho e, com isso, mais angústia, adoecimento e insegurança (diante da ameaça constante de perda de bolsas ou necessidade de devolver o financiamento recebido do próprio bolso por causa de um erro na prestação de contas).

É possível dizer que o atual sistema de avaliação, focado, sobretudo, em resultados — com as suas enormes exigências de produção e de comprovação de produções —  mimetiza tanto a lógica dos órgãos de controle quanto a lógica capitalista. O atual sistema de avaliação termina por contribuir para empurrar toda a comunidade acadêmica para um precipício.

***
Érico Andradeé psicanalista, filósofo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


Fonte: Blog da Boitempo

Estudantes de doutorado brasileiros desistem de oportunidades de pesquisa nos EUA

Pelo menos 96 estudantes que planejavam realizar pesquisas de pós-graduação nos Estados Unidos mudaram seu destino, citando políticas científicas e de imigração hostis

Bandeiras do Brasil e dos EUA sobre um fundo amassado com um rasgo no meio onde elas se encontram.

Doutorandos brasileiros estão cancelando seus planos de assumir posições de pesquisa nos Estados Unidos. Crédito: Saulo Angelo/iStock/Getty 

Por Meghie Rodrigues para a “Nature”

A ‘torre de marfim’ brasileira é de palha?

torre-de-marfim

Imagem: Benny Stæhr

Há uma boa dose de elitismo no meio acadêmico, sem dúvida alguma, mas a universidade brasileira nunca foi uma torre, muito menos de marfim

Em memória de M. E. (1965-2023), cuja orientadora um dia reclamou que ela era uma aluna com iniciativa.

Por Felipe A.P.L. Costa para “A Terra é Redonda”

O presidente da República esteve em Campinas (SP), em 2 de julho de 2024. Participou, entre outras coisas, do lançamento da pedra inaugural do Projeto Orion (ver aqui). Foi para mim uma grata surpresa, pois eu não tinha ideia de que um projeto dessa natureza e magnitude estivesse a ser implantado.

Os leitores não familiarizados com o assunto talvez não saibam, mas os melhores e mais seguros laboratórios existentes hoje no país não ultrapassam o chamado nível 2 de segurança (BSL-2, na sigla convencional em inglês). Nunca houve por aqui algo parecido com os níveis 3 ou 4 (BSL-3 e BSL-4).[1]. Garantir o funcionamento de laboratórios BSL-3 e BSL-4 é um empreendimento delicado; depende, entre outras coisas, de protocolos rigorosos cujo nível de exigência está muito além do nível que os laboratórios BSL-2 são capazes de atender. Laboratórios BSL-4, por exemplo, manipulam organismos potencialmente letais e contra os quais nós ainda não dispomos de qualquer tipo de defesa (e.g., vacinas).

Ouso dizer que os riscos decorrentes da operação desses laboratórios são comparáveis aos riscos associados à operação de uma usina nuclear. Desconfio — apenas desconfio — que ainda não haja gente qualificada em quantidade suficiente para conduzir com sucesso um empreendimento dessa magnitude em terras brasileiras. Ao contrário do que imaginam alguns, diplomar mestres e doutores não equivale a produzir cientistas. E o que nós fazemos hoje é distribuir diplomas.

A rigor, levando em conta que (i) o número de pós-graduados diplomados a cada ano não para de crescer; e (ii) o tempo de formação dos novos diplomados é cada vez menor; deveríamos nos preocupar mais com o efeito contrário: há uma progressiva deterioração na formação dos novos mestres e doutores, assim como na qualidade dos trabalhos acadêmicos produzidos por eles. A situação me parece delicada e preocupante. Mantidas as circunstâncias atuais, e na hipótese de que as instalações do Projeto Orion sejam concluídas, prevejo que será necessário recrutar gente (brasileiros ou não) que hoje trabalha fora do país.

Literatura científica

Incontáveis artigos científicos são publicados todos os anos, seja em versão impressa, seja em versão eletrônica. Poucos deles, porém, estão destinados a adquirir peso e relevância; um número ainda menor irá se converter em referência instrutiva (ainda que por tempo limitado) para outros autores.

A comunidade científica abriga uma variada gama de autores, desde gente laureada com o Nobel a gente encarcerada em presídios. A boa literatura científica funciona como um gigantesco sistema de irrigação. Repleto de ramificações e interconexões, esse sistema nutre e estimula o desenvolvimento de novas ideias, sobretudo no caso da ciência pura.[2]

Publicar artigos em revistas técnicas é o modo como os estudiosos anunciam os seus achados. É o jeito que se tem para atestar e reivindicar prioridade sobre um achado em particular. Tem sido assim desde os primórdios da ciência moderna. De resto, é também a oportunidade que os autores têm para demarcar um pequeno território, deixando ali a sua marca, ainda que nenhuma dessas marcas possa reivindicar para si o rótulo de definitiva.

Três tipos de pesquisa

A comunidade científica avalia a relevância de uma publicação em razão do impacto que ela tem sobre o corpo de conhecimento já estabelecido. Esse impacto em geral não ultrapassa os limites de uma área específica. Às vezes, porém, a novidade transborda os limites convencionais e atinge áreas vizinhas.

A depender da natureza e do alcance dos resultados, nós podemos identificar ao menos três tipos de pesquisa: (1) Em primeiro lugar, nós temos as pesquisas que promovem avanços conceituais; (2) Em seguida, as que promovem inovações metodológicas; e (3) Por fim, os estudos de caso — pesquisas ordinárias que atestam ou ajudam a sedimentar algum conceito ou método já existente.

Essas categorias diferem entre si em mais de um aspecto.

Pesquisas que promovem avanços conceituais, por exemplo, costumam ter um impacto amplo, profundo e duradouro. É graças a esse tipo de avanço que nós aprendemos a diferenciar o joio do trigo, o que nos permite subir um pouco mais na rampa do conhecimento.

Rupturas são excepcionalidades

Considere, para fins de comparação, a magnitude das mudanças históricas ocorridas em razão do trabalho dos seguintes autores: (1) Nicolau Copérnico (1473-1553) e a substituição (a posteriori) do modelo geocêntrico pelo heliocêntrico; (2) Gregor Mendel (1822-1884) e o surgimento (a posteriori) da genética; (3) Georges Lemaître (1894-1966) e o modelo do Estrondão [3] para explicar a origem do nosso Universo; e (4) Francis Crick (1916-2004) e James Watson (nascido em 1928) e o modelo em dupla hélice para descrever a estrutura da molécula de ADN.[4]

Rupturas dessa magnitude são excepcionalidades capazes de mudar o rumo da história. Exatamente por isso, tais rupturas são reconhecidamente raras. A grande maioria das pesquisas é apropriadamente descrita pelo rótulo de estudos de casos. No âmbito da ciência pura, essas pesquisas não têm a pretensão de mudar o mundo. O propósito delas é quase sempre protocolar: por à prova alguma ideia ou método já proposto por outros autores. Às vezes ocorrem surpresas, claro, e as coisas tomam um rumo algo inesperado.

Obter resultados inesperados (digo: resultados que não se enquadram em nenhum dos modelos explicativos existentes) pode ser algo promissor. Ocorre que essas reviravoltas dependem muito do preparo e do traquejo de quem está à frente da pesquisa. No mais das vezes, não há surpresas e os resultados servem apenas para atestar o que já está em circulação. O bordão chover no molhado serve bem para descrever o impacto da ciência ordinária.

Multiplicando a irrelevância

A literatura científica não para de crescer, caracterizando aquilo que nós poderíamos chamar de avalanche bibliográfica. De fato, como foi dito no parágrafo de abertura, muita coisa nova é publicada todos os anos. Ocorre que a relevância dessa literatura primária (e.g., artigos e teses) é muito desigual. Umas poucas publicações se tornam leitura obrigatória em sua área de pesquisa, de sorte que são lidas por quase todos que atuam naquela área. Muitas publicações, no entanto, são lidas por muito pouca gente ou sequer são lidas. Significa dizer que boa parte da literatura dita científica permanece escondida, com pouco ou nenhum impacto no avanço do conhecimento.[5]

No caso das teses, especificamente, estamos a falar dos trabalhos que são produzidos no âmbito dos chamados programas de pós-graduação (mestrado e doutorado).[6] A relevância delas é igualmente desigual, com o agravante de que nesse caso o número total de leitores é ainda menor.[7] Portanto, a importância das teses para o avanço do conhecimento tende a ser igualmente menor.

Capa vs. miolo

Em maior ou menor grau, as teses padecem daquilo que nós poderíamos rotular aqui de obsolescência programada. Os fatores que concorrem para isso podem ser divididos em duas categorias: os formais e os de conteúdo.

No primeiro caso, caberia chamar a atenção para o peso excessivo que às vezes se atribui às normas editoriais que definem a aparência das teses. Os formalistas costumam argumentar que as regras visam padronizar e facilitar a leitura. É uma preocupação válida, mas que não deveria ter todo o peso que costuma ter. Afinal, trata-se de algo absolutamente secundário.

De mais a mais, seguir as normas não é garantia de que a tese abrigará um texto coerente e consistente. Digo: obediência às normas pode até gerar um trabalho visualmente limpo e agradável, mas sequer evita que o texto seja tortuoso, prolixo e repleto de inconsistências. Como argumentam os conteudistas, por mais inteligentes que sejam as normas — e esse não costuma ser o caso —, elas são incapazes de garantir um conteúdo consistente e de qualidade.

É bom lembrar que nós, brasileiros, temos uma tendência a sobrevalorizar as aparências das coisas.[8] Todavia, ao menos no âmbito acadêmico, esse é um costume nocivo que deveria ser combatido com mais vigor.

Quantidade vs. qualidade

O que de fato deveria ocupar o primeiro lugar na fila das preocupações dos nossos professores é o nível de formação dos seus orientandos, incluindo aí a qualidade dos trabalhos que os estudantes estão a produzir.[9]

A julgar apenas pelas amostras que eu pude ler ao longo dos anos, o nível médio das teses está na contramão: enquanto o número de pós-graduandos não para de crescer,[10] o peso e a relevância das teses parecem seguir em sentido contrário.

Com relação especificamente ao universo da pesquisa básica (notadamente em áreas como física, química e biologia), apresento a seguir três generalizações (a rigor, três hipóteses sujeitas a exame) sobre o atual estado de coisas, a saber: (i) Ao longo das últimas décadas (de 1990 para cá, digamos), os temas e os assuntos abordados nas teses estão a se revelar cada vez mais provincianos e triviais.

(ii) A maioria das teses é desprovida de ideias inovadoras ou sequer audaciosas, do tipo que consegue mobilizar a atenção ou inspirar o trabalho de outros pesquisadores; e (iii) Como cresceu muito o número de teses, cresceu muito o número de revistas bancadas pelos próprios programas de pós-graduação. O principal objetivo desse tipo de iniciativa é dar vazão a um volume crescente de artigos (extraídos daquelas teses) que dificilmente seriam aceitos para publicação em revistas internacionais conceituadas.

Teses instantâneas

Para além da proliferação de teses protocolares, há um aspecto ainda mais preocupante: a formação e o nível das novas gerações de mestres e doutores. O clima geral parece ser de acomodação e nivelamento por baixo.

A origem do problema talvez tenha a ver com o calendário: o tempo médio de duração dos cursos está cada vez mais espremido — são dois anos para concluir o mestrado e quatro para concluir o doutorado. Se o aluno não consegue concluir tudo dentro do prazo, perde o apoio financeiro (bolsa) e o programa de pós ao qual ele está ligado passa a ser penalizado.

Durante a pós (mestrado ou doutorado), cabe ressaltar, os estudantes devem atender a algumas exigências, três das quais seriam as seguintes[11]: (1) Cursar um número mínimo de disciplinas; (2) Conduzir um trabalho de pesquisa original (leia-se: não vale plágio nem roubo, como é comum ocorrer no mundo dos negócios); e, por fim, (3) Escrever um relatório fidedigno e minimamente compreensível (ao menos por parte de colegas da área) a respeito da pesquisa realizada.

É nesse contexto que (i) os bolsistas correm para não perder a sua bolsa; e (ii) os programas correm contra a penalização e o rebaixamento.

O resultado dessa dupla corrida, fruto da dupla pressão exercida pelas agências de fomento, é o estado de coisas que estamos a presenciar: redução ao mínimo da carga de disciplinas e simplificação ao máximo das teses, de sorte que o aluno se livre de suas obrigações o mais depressa possível. E assim tem sido, para deleite de gestores que privilegiam a quantidade, pouco ou nada se importando com a formação dos estudantes ou com a qualidade das teses que estão a ser produzidas por eles.

Os efeitos colaterais são amargos e nocivos. Temas mais complexos ou procedimentos mais demorados são deixados de lado. A parte prática das pesquisas (laboratório ou campo) é abreviada ou simplificada ao máximo. A situação é particularmente preocupante — e corre o risco de se tornar caricata — em áreas que exigem trabalho de campo, atividade que outrora consumia meses ou até um ano inteiro (às vezes mais).

Coletar dados é de fato uma atividade arriscada (o reagente não chegou e o experimento vai atrasar ou a chuva não veio e a árvore não floresceu), razão pela qual essa etapa foi reduzida ao mínimo indispensável. Assim, o que outrora durava meses ou até um ano, mas gerava dados expressivos, hoje é uma questão de horas ou dias e está a gerar dados quase que meramente decorativos.

Feijão com arroz

Uma lei informal parece vigorar hoje em todos os programas de pós-graduação: a lei do feijão com arroz — “Vamos optar pelo caminho mais curto, nada de querer complicar, nada de querer abraçar o mundo; vamos respeitar os prazos, preencher os formulários e defender logo a tese”.

Os projetos que deram certo ou que foram elogiados em passado recente estão agora a ser adotados como modelo. Os candidatos de hoje já não são desafiados como os de outrora. Muitos orientadores, sobretudo os mais jovens (eles próprios malformados) se desincumbiram do trabalho pedagógico e agora se contentam em apontar atalhos para os seus orientandos. Estes, por sua vez, ficam felizes ao saber que podem terminar tudo em um piscar de olhos.

Não há ânimo nem vocação que resista: a criatividade é inibida, as ideias ousadas são banidas e a originalidade, combatida. No fim das contas, não há como evitar que o nível das pesquisas decline, ano após ano. Nesse contexto, é possível entender como até mesmo as teses mais fracas se tornam dignas de certificação — é só respeitar as normas editorias do programa.[12]

A força das agências

Em meio a uma série de argumentos falaciosos[13] e, sobretudo, em razão da forte pressão financeira, os programas de pós de todo o país deram a mão à palmatória e terminaram por adotar a cartilha das agências de fomento; a começar, claro, por aquelas que estão mais entranhadas no ensino superior (CNPq e Capes).

Ao longo dos anos, as agências (federais e estaduais) adquiriram densidade política — além de corpo técnico — e hoje praticamente mandam e desmandam no dia a dia dos programas de pós. Como o grosso da pesquisa científica conduzida no país está atrelado aos programas de mestrado e doutorado, não seria exagero dizer que a pauta e a agenda da ciência brasileira são definidas pelos patrocinadores.

Não me parece que a situação seja de todo confortável. É como se estivéssemos todos dentro de um ônibus a cruzar um extenso deserto; dentro do ônibus, as condições são desconfortáveis; do lado de fora, porém, a morte é quase certa, razão pela qual dificilmente alguém irá saltar e seguir a viagem por conta própria. No caso da comunidade científica, o xis da questão é mais ou menos este: dificilmente os pesquisadores ou os grupos de pesquisa que dependem de financiamento — mesmo os mais veteranos — irão levantar a voz e anunciar que o rei está nu. É melhor permanecer sentado e se adequar às normas impostas pelo motorista. Os passageiros continuarão a discutir e a brigar entre si, mas a viagem seguirá adiante, em uma jornada que parece nos levar do nada a lugar nenhum.

Catraca enferrujada

A pós-graduação brasileira não forma cientistas. A rigor, o propósito inicial era qualificar minimamente os professores dos cursos de graduação. Os meus professores de graduação, por exemplo, com uma ou outra exceção, não sabiam o que era pós-graduação. Mas isso foi no final da década de 1970. De lá para cá, como tentei mostrar ao longo deste artigo, as coisas mudaram bastante. Algumas coisas mudaram para melhor, claro, mas outras não. Em minha opinião, os rumos da pós começaram a degringolar a partir da década de 1990 (leia-se: governos FHC I e II). Foi quando a qualidade foi empurrada para debaixo do tapete e a quantidade tomou as rédeas do jogo.

Em condições normais de temperatura e pressão, o propósito da pós deveria ser a formação de uma nova geração de gente bem-pensante. Parte dessa preocupação deveria estar voltada para a formação de novos cientistas. Estou a pensar em cientistas de verdade, gente com autonomia e senso crítico, a ponto de ser capaz de conduzir pesquisas inovadoras por conta própria, seja na área em que foi treinada, seja em áreas afins.

O que presenciamos hoje, no entanto, não é exatamente isso.

Involuntariamente ou não, o que a pós está a fazer é servir de catraca para ingresso no serviço público, notadamente o ensino superior. A partir do momento em que os concursos para seleção de docentes passaram a exigir como pré-requisito um ou mais diplomas de pós (mestrado e, logo depois, doutorado), a demanda por esses cursos cresceu e se consolidou.[14] A situação hoje é mais ou menos esta: os programas de pós estão a distribuir bilhetes para os futuros candidatos ao magistério superior.

A rigor, os programas estão a produzir apenas e tão somente gente diplomada (leia-se: gente formada às pressas e de qualquer jeito, que vive a repetir a receita de bolo que lhe foi imposta durante a pós-graduação, mas que talvez não seja capaz de planejar e conduzir pesquisas de modo autônomo e por conta própria). Um testemunho da situação absurda que vivemos é o crescente número de doutores desempregados (aqui).

Pois é. Muitos pós-graduados estão a sair da universidade pensando em como voltar o mais depressa possível, mas agora para receber um salário de professor, não apenas uma bolsa de doutorado ou de pós-doutorado. Ainda há também aqueles que saem da universidade imaginando que logo irão ingressar em uma carreira de cientista em alguma instituição de pesquisa ou em alguma empresa.

No primeiro caso, o que se passa é que as instituições dedicadas à pesquisa são relativamente raras e as poucas que existem, com uma ou outra exceção, foram esquecidas ou mesmo atacadas pelos dois governos anteriores (2016-2018 e 2019-2022). Outras sequem em uma trajetória histórica de abandono e sucateamento, como se fossem cometas a fugir do Sol. Veja, por exemplo, a história de penúria dos nossos museus de história natural (e.g., Nacional e Goeldi) ou a situação de algumas repartições que prestam um serviço de relevância óbvia e imediata (e.g., Inmet, Inpe e Embrapa).

O Inmet, por exemplo, acumula um número crescente de estações meteorológicas inativas ou abandonadas (aqui). No plano estadual, além da situação geral estar ainda mais tenebrosa, a falta de perspectivas é uma coisa desoladora. Veja o caso da Fundação Zoobotânica, por exemplo, que o governo gaúcho achou por bem destruir de vez (aqui).

Coda

Uma das ideias falaciosas mais antigas que conheço a respeito da universidade brasileira é a imagem alegórica de uma torre de marfim. Pessoalmente, eu gostaria muito que houvesse alguma torre. Não precisava ser de marfim, podia ser de madeira ou de bambu, bastava ter alguma solidez.

Há uma boa dose de elitismo no meio acadêmico, sem dúvida alguma, mas a universidade brasileira nunca foi uma torre, muito menos de marfim. Somos desde sempre uma sociedade assentada em uma economia extrativa e agroexportadora.[15] Não estranha, portanto, que as classes dominantes sejam tão atrasadas — além de profundamente corruptas e preguiçosas. As universidades brasileiras, claro, refletem isso, assim como outras instituições que lidam ou deveriam lidar com o mundo das ideias (e.g., Academia Brasileira de Letras). Seja porque a universidade interage com a classe dominante, seja porque está a forjar os membros da próxima geração.

Ao longo das últimas quatro décadas, o que eu encontrei de melhor em nosso meio acadêmico se parece mais com um galpão.[16] Um galpão de madeira; simples, mas sóbrio e espaçoso. No cômputo final, as nossas instituições de ensino superior — com destaque para as arapucas de natureza privada — me fazem pensar, não na imprópria alegoria de uma torre de marfim, mas sim em um monte de palha seca ao relento. Palha tão seca e miúda que qualquer ventinho leva embora.

*Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor. Autor, entre outros livros de O que é darwinismo.

Referências


Balbachevski, E. 2005. A pós-graduação no Brasil: novos desafios para uma política bem-sucedida. In: Schwartzman, S & Brock, C, orgs. Os desafios da educação no Brasil. RJ, Nova Fronteira.

Bunge, M. 1987 [1980]. Epistemologia, 2ª ed. SP, TA Queiroz.

CGEE. 2024. Brasil: Mestres e Doutores 2024. Brasília, Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. (Disponível em: https://mestresdoutores2024.cgee.org.br.)

Costa, FAPL. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do Autor.

Costa, FAPL. 2019. O que é darwinismo. Viçosa, Edição do Autor.

Garrett, L. 1995 [1994]. A próxima peste. RJ, N Fronteira.

Inep. 2024. Resumo técnico do Censo da Educação Superior 2022. Brasília, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira / MEC. (Disponível aqui: https://www.gov.br/inep/pt-br.)

Koestler, A. 1989 [1959]. O homem e o universo. SP, Ibrasa.

Larivière, V. & mais 2. 2008. The declining scientific impact of theses: Implications for electronic thesis and dissertation repositories and graduate studies. Scientometrics 74: 109-21.

Losee, J. 1979 [1972]. Introdução histórica à filosofia da ciência. BH, Itatiaia & Edusp.

Romeiro, AR. 1998. Meio ambiente e dinâmica de inovações na agricultura. SP, Annablume & Fapesp.

Singh, S. 2006 [2004]. Big bang. RJ, Record.

Soares, DSL. 2002. A tradução de Big Bang. Sítio do Autor. (Disponível aqui.)

Schwartzman, S. 2022. Pesquisa e pós-graduação no Brasil: duas faces da mesma moeda? Estudos Avançados 36: 227-54.

Watson, JD. 1987 [1968]. A dupla hélice. Lisboa, Gradiva.

Notas


[1] Um guia comparativo dos quatro tipos de laboratório pode ser lido aqui. Para uma instrutiva leitura (em port.) sobre a importância dos laboratórios de alta segurança, ver Garrett (1995).

[2] Ciência aplicada não difere de ciência pura ou básica em termos de qualidade intelectual, precedência epistemológica ou prioridade histórica. A diferença é de foco: a ciência aplicada visa atender necessidades específicas. Para detalhes e discussões, ver Losee (1979) e Bunge (1987).

[3] Adoto aqui a proposta de Soares (2002), segundo a qual a tradução mais apropriada de Big Bang seria Estrondão; para uma introdução ao modelo, ver Singh (2006).

[4] Sobre Copérnico, ver Koestler (1989); sobre os demais, Costa (2017, 2019). O caso de Watson e Crick é particularmente ilustrativo: os dois foram agraciados com o Nobel (1963) por um achado cujo relato inicial ocupava tão somente duas páginas de uma edição da revista Nature (1953; 171: 737-8). Para um relato em primeira pessoa, ver Watson (1987).

[5] Que não haja dúvidas: Não é exatamente o fato de não ser lido que explica o fato de um artigo permanecer nas sombras. O xis da questão é a relevância. O sentido correto da relação causa-efeito aqui seria o seguinte: Muitos artigos permanecem na sombra porque são pouco ou nada relevantes e, por isso mesmo, pouco ou nada importam em termos de amparo ou inspiração para outros autores. Nos termos de quem vive e respira a corrida competitiva que caracteriza a arena científica, ler artigos pouco ou nada relevantes é visto tão somente como uma perda de tempo.

[6] A pós-graduação no país é uma experiência relativamente recente. Nas palavras de Schwartzman (2022, p. 228-9): “O sistema de cursos de pós-graduação no Brasil foi criado na década de 1970 por meio de dois estímulos relativamente independentes, um proveniente da área de educação, a partir da Reforma Universitária de 1968 e seus desdobramentos, e outro da área da ciência e tecnologia, sobretudo a partir do Ministério do Planejamento e suas agências de desenvolvimento, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Na área da educação, a origem deste sistema foi a Lei n. 5.540, de 28.11.1968 (Lei da Reforma Universitária) que estabeleceu que a admissão e promoção de professores nas universidades deveriam ser feitas em razão de sua titulação e produção científica e que as universidades deveriam ampliar progressivamente o número de professores contratados em regime de dedicação exclusiva.”

[7] As teses estão a ser cada vez menos citadas como referência bibliográfica. De resto, as tradicionais teses monográficas estão sendo substituídas por outros modelos. Por exemplo, alguns programas (no Brasil, inclusive) estimulam que a tese seja repartida em capítulos minimamente coerentes e autônomos, cada um dos quais seria então redigido como um manuscrito independente a ser submetido para publicação em algum periódico. Nas palavras de Larivière et al. (2008, p. 110; trad. livre): “Embora o doutorado exista desde a Idade Média, foi apenas no início do século 19, quando o ministro da Educação prussiano, Wilhelm von Humboldt, estabeleceu um novo modelo universitário na Universidade de Berlim, que o grau de Doutor se tornou um diploma associado à produção de pesquisa científica original e ao treinamento de novos pesquisadores.”

[8] Não é à toa, por exemplo, que as editoras brasileiras se disponham a gastar muito mais dinheiro com a capa do que com o miolo dos livros.

[9] Alguns professores olham para seus alunos e veem neles apenas e tão somente uma mão de obra barata e minimamente qualificada a ser usada em certas etapas da pesquisa. Outra coisa: não são raros os professores que não têm uma linha própria de pesquisa; assim, caso os orientandos venham a falhar na produção de uma tese, essa turma não terá o que publicar.

[10] A partir de 1980 (ano em que eu entrei na pós), testemunhei um aumento expressivo em todas as estatísticas — e.g., número de programas de pós e número de alunos matriculados em cursos de mestrado e doutorado. Para ter uma ideia da velocidade e da magnitude desse crescimento, eis aqui um exemplo numérico. Nos Estados Unidos, ao longo de todo o século 20, o número de doutores diplomados a cada ano aumentou de modo quase que ininterrupto. Entre 1900 e 2000, a ordem de grandeza dos números saltou de +500 para +50.000 (Larivière 2008), o que equivaleria a uma taxa de crescimento anual de 4,7%. Os únicos anos de queda coincidiram com a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, embora a série histórica seja bem mais curta (por aqui, os primeiros programas só tiveram início na segunda metade do século 20), o crescimento tem sido muito mais rápido. Entre 1996 e 2021, por exemplo, o número de novos doutores saltou de 2.854 para 20.679 (CGEE 2024), uma taxa de crescimento anual de 8,2%. É um exagero. Para mim, soa como uma abóbora gigante que não se pode comer. Considere o seguinte: no ritmo brasileiro, os EUA teriam chegado ao ano 2000 com a diplomação de ~1,4 milhão de doutores a cada ano, um número bem superior aos +50 mil referidos antes.

[11] Ou, para citar Balbachevski (2005, p. 279): “À medida que a pós-graduação se institucionalizava, o modelo dominante passava a ser aquele que exige do candidato a conclusão de número mínimo de disciplinas especializadas, sua qualificação junto a uma banca de professores e a defesa pública de uma tese diante de uma banca em que é norma a presença de pelo menos um professor externo ao departamento, no caso do mestrado, e dois, no caso do doutorado.”

[12] Um exemplo do tipo de tolice que os editores de algumas das nossas revistas técnicas fazem questão de alardear: “Em artigos científicos, nós não usamos a primeira pessoa do singular [Eu fiz] e sim a primeira pessoa do plural [Nós fizemos], mesmo quando o artigo só tem um autor”.

[13] Ladainhas do tipo: “Os doutores brasileiros estão a se diplomar em idade avançada”, “O país é pobre e está a desperdiçar recursos em programas demorados de pós-graduação”, ou “Precisamos acelerar a formação dos nossos doutores, só assim o país irá se tornar uma potência mundial”.

[14] Para um balanço recente, ver CGEE (2024).

[15] Sobre a história da agricultura brasileira, ver, e.g., Romeiro (1998).

[16] Em 2022, o país abrigava 2.595 IES, sendo 312 públicas e 2.283 privadas (Inep 2024). Entre as públicas, 115 eram universidades (37% das 312); entre as privadas, apenas 90 eram universidades (4% das 2.283). De 1977 até hoje, estive em 29 IES (18 universidades públicas e quatro privadas; um centro universitário público e seis faculdades ou centros universitários privados). Estudei em três dessas universidades públicas (UFJF, Unicamp e UnB).


Fonte: A Terra é Redonda

Queda acentuada nas matrículas de pós-graduação no Brasil sugere declínio no interesse por carreiras científicas

O número total de ingressantes em programas de mestrado e doutorado caiu 12% entre 2019 e 2022, atingindo o nível mais baixo em quase uma década.

 
Duas pessoas vestindo jalecos trabalhando em um laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Devido a questões sistêmicas e interrupções causadas pela pandemia da COVID-19, o interesse pelas carreiras acadêmicas no Brasil atingiu um novo nível. Crédito: Lucas Landau/Reuters

Por Rodrigo de Oliveira Andrade para a “Nature”

Um relatório preliminar divulgado no mês passado pela CAPES constatou que o interesse dos estudantes de graduação do país em seguir uma carreira acadêmica está em um ponto baixo. Após um crescimento constante entre 2015 e 2019, o número total de indivíduos inscritos em programas de mestrado e doutoramento começou a diminuir. Entre 2019 e 2022, mais de 14.000 vagas de pós-graduação foram perdidas, e 2022 teve o menor número de matrículas em pós-graduação em quase uma década.

Os programas de engenharia sofreram um impacto significativo. De 2015 a 2022, registaram-se um declínio geral no número de novos estudantes, que caiu de um pico em 2017 de 14.196 para 9.090 – uma diminuição de 36%. Os programas de pós-graduação em ciências agrárias também foram afetados, com queda de 23% desde 2015; nas ciências biológicas, esse número foi de 14%, e nas ciências da terra, foi de 12%.

“Isso é bastante preocupante”, diz Vinícius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação do Brasil, com sede em São Paulo. “Cerca de 90% da produção científica no Brasil envolve de alguma forma a participação de pós-graduandos e depende de suas contribuições”, acrescenta. Denise Guimarães Freire, química do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, diz que seu grupo passou por um declínio: “Há alguns anos, eu tinha dez alunos de pós-graduação em meu laboratório, mas agora só tenho três.”

Esses dados são do Plano Nacional de Pós-Graduação, documento publicado pela primeira vez na década de 1970 pela CAPES – órgão do Ministério da Educação de Brasília que avalia programas de pós-graduação e concede bolsas de mestrado e doutorado. O plano, que é publicado cerca de uma vez por década, contém métricas que informam a manutenção e o suporte do sistema de pós-graduação no Brasil.

Um fator óbvio que contribui para o declínio é a pandemia da COVID-19. Segundo o relatório, a suspensão das atividades presenciais gerou atraso nas inscrições, de modo que, em 2020, 25% dos programas de mestrado em 20 áreas de pesquisa tiveram mais vagas do que candidatos. Nos programas de doutoramento, 12 áreas registaram uma diminuição significativa da procura.

Falta de dinheiro

No entanto, alguns pesquisadores sugerem que esta crise poderá ter raízes estruturais que se estendem para além das perturbações pandémicas, tais como a falta de financiamento para subvenções e investigação. Soares diz que até 60% dos estudantes de pós-graduação no Brasil que fazem mestrado ou doutorado não têm bolsa ou financiamento por meio de projeto de pesquisa. No mês passado, num novo capítulo da crise de financiamento da ciência e da educação no Brasil, milhares de professores de universidades federais entraram em greve , exigindo salários mais elevados e financiamento para infra-estruturas em ruínas.

Essas circunstâncias podem levar muitos estudantes de pós-graduação a abandonarem os cursos e ingressarem no mercado de trabalho, afirma a presidente da CAPES, Denise Pires de Carvalho. Segundo dados da agência, num período de quatro anos iniciado em 2013, os programas de mestrado em engenharia tiveram uma taxa de evasão de 23%. Nos programas de doutoramento em engenharia, 21% dos alunos matriculados em 2013 abandonaram os estudos no prazo de cinco anos. “O mercado de trabalho nessas áreas é mais competitivo e oferece salários melhores do que qualquer bolsa acadêmica”, afirma Rodrigo Calado, pró-reitor de pós-graduação da Universidade de São Paulo.

Ao mesmo tempo, a inflação corroeu o valor das bolsas concedidas pela CAPES, o que também torna a pós-graduação uma perspectiva menos atraente. “Os valores das bolsas de mestrado e doutorado foram reajustados pela última vez em 2013, enquanto a inflação acumulada desde então chegou a 117%”, diz Carvalho.

No ano passado, diz ela, a agência criou 5.300 novas bolsas e aumentou o valor das bolsas de mestrado de 1.500 reais (US$ 290) para 2.100 reais por mês. As bolsas de doutorado foram aumentadas de 2.200 reais para 3.100 reais por mês. “Mas isso ainda não é suficiente para que os estudantes se dediquem em tempo integral à formação intelectual, principalmente em estados com alto custo de vida, como São Paulo e Rio de Janeiro”, diz Charles Morphy, pró-reitor associado de pós-graduação da Universidade Federal do ABC em Santo André, Brasil. Carvalho concorda, afirmando que “espera aumentar ainda mais estes valores até 2026”.

Longas distâncias

Além disso, muitos pesquisadores no Brasil descobriram que o longo tempo gasto em treinamento para uma carreira científica acadêmica não vale a pena. Geralmente, os cientistas levam pelo menos dez anos após obterem seu doutorado para conseguir um cargo permanente em uma universidade ou instituto de pesquisa. A trajetória profissional da bióloga Thaís Barreto Guedes ilustra essas dificuldades. Ela obteve seu doutorado em 2012 e realizou três bolsas consecutivas de pós-doutorado no Brasil e na Suécia.

Em 2022, aos 40 anos, ganhou uma bolsa de cinco anos para desenvolver um projeto sobre evolução de répteis e anfíbios tropicais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil. “Se eu não conseguir me firmar em uma universidade, estarei desempregado até 2027, pois não tenho contrato de trabalho com a Unicamp”, diz Guedes.

Para o biólogo Hernani de Oliveira, de 39 anos, a longa preparação e o investimento na carreira acadêmica ainda não valeram a pena.

Depois que Oliveira obteve seu doutorado na Queen Mary University of London em 2018, ele completou duas bolsas de pós-doutorado na República Tcheca e nos Estados Unidos. Em 2020, voltou ao Brasil para se firmar como pesquisador universitário, mas as oportunidades eram escassas. Ele passou a pandemia como pós-doutorado “enquanto [se candidatava a] cargos em universidades, institutos de pesquisa e agências governamentais — tudo sem sucesso”, diz ele.

Em vez disso, candidatou-se a um cargo de técnico de laboratório na Universidade de Brasília. “Sinto que meu potencial está sendo subutilizado”, diz ele. “Eu poderia estar fazendo pesquisas de alto impacto, mas em vez disso estou limpando vidros.” Olhando para trás, acrescenta ele, não escolheria seguir novamente a carreira acadêmica.

Estas duras realidades estão provavelmente a dissuadir os licenciados universitários de se inscreverem em programas de pós-graduação, dizem os entrevistados pela Nature. “Há uma percepção crescente no país de que não vale mais a pena ser professor ou pesquisador, pois as oportunidades se tornaram escassas e o salário se deteriorou devido à inflação”, diz Simon Schwartzman, sociólogo do Instituto de Estudos de Política Econômica em Rio de Janeiro. O governo estabeleceu um plano para formar 25 mil doutorados todos os anos entre 2014 e 2024, diz Schwartzman, “mas esqueceu-se de investir na infraestrutura necessária para absorvê-los”. Guedes acrescenta: “É como construir uma mansão e abandoná-la”.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-01504-8


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Fonte: Nature

Por que o interesse em mestrado e doutorado está caindo no Brasil

Com desestímulo financeiro e social, sistema de pós-graduação no país enfrenta queda na procura, ociosidade de vagas e fuga de cérebros

Laboratório de Produtos e Tecnologia em Processos | Foto: ViktoFoto: Viktor Braga/Universidade Federal do Ceará/FLICKR/Creative Commons

Por Edson Colambori para o “Jornal Nexo”

O sistema de pós-graduação no Brasil enfrenta uma interrupção em seu ciclo virtuoso. Desde 2018, o que se percebe é um viés de desinteresse dos recém-graduados pelos cursos de mestrado, pós-graduação e pós-doutorado.

Recentemente, informações veiculadas na proposta de Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG), feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), demonstraram que cerca de 25% dos cursos de mestrado oferecidos em 20 áreas do conhecimento (de um total de 49) tiveram demanda menor do que a oferta. Em relação ao doutorado, ao menos 12 áreas sentiram uma diminuição da procura que pode superar 30%.

Desenvolvida pela Capes para o registro e acompanhamento dos programas de pós-graduação no país, a Plataforma Sucupira apontou uma ociosidade de 21% nas vagas de mestrado e 25% no doutorado em 2020. Nos anos seguintes, entre 2021 e 2022, registrou-se uma diminuição de mais 11% na quantidade de ingressantes.

Os dados do PNPG mostram que o desinteresse tem sido mais intenso pelas engenharias, que tiveram uma baixa de aproximadamente 28% no número de novos pós-graduandos. Se em 2015 foram 12.551 ingressantes, em 2022 o número caiu para 9.090. A queda de ingressantes foi de 23% nas ciências agrárias, 14% nas biológicas, 12% nas exatas e da terra. Os números indicam que o viés de queda vem desde 2018. Antes, portanto, da pandemia.

A constatação da diminuição do interesse no mestrado e pós-graduação provoca reflexões. Por que os jovens estão se afastando? Quero dar aqui uma contribuição para esse debate tão necessário e estreitamente ligado ao desenvolvimento do país.

Desestímulo financeiro e social

Começo por uma consideração relacionada ao tempo de formação de um doutor: mais de vinte anos da vida de um jovem. Acompanhe comigo: do ensino fundamental I e II (nove anos) ao ensino médio (três anos) são cerca 12 anos na educação básica. Mais quatro anos de curso superior, em média, e outros quatro a seis no mestrado e pós-graduação.

Ou seja, é preciso muita resiliência e o que tem acontecido é um grande desestímulo financeiro e social que dificulta aos mais jovens a busca por essa formação. Ao mesmo tempo, é uma realidade que fere a percepção da importância e da necessidade de doutores para o crescimento e o avanço científico, filosófico e tecnológico de um país.

Fato é que o investimento na educação, em especial na formação dos doutores, vem se deteriorando há décadas. O valor das bolsas de pós-graduação não é suficiente para que o doutorando se dedique em tempo integral à sua formação intelectual.

Para agravar esse cenário, a pandemia de COVID-19 acelerou o processo de desmotivação para cursar ensino superior que vinha se delineando. Nos anos 2020 a 2022, o governo do período fez um grande desserviço à sociedade brasileira no que diz respeito ao conceito e metodologia científica para o desenvolvimento tecnológico de um país.

Baixos valores das bolsas

A associação desses contratempos a várias outras dificuldades ajuda a entender a evasão dos estudantes em todos os níveis de ensino. Além do investimento de um tempo prolongado da vida do estudante, muitas outras dificuldades inerentes ao processo de formação do doutor atrapalham o percurso acadêmico.

Entre elas, destaco os baixos investimentos nos valores de bolsas e nos laboratórios de pesquisas dos cientistas envolvidos na formação dos doutores e também incertezas de empregos após o doutorado nas instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Isso leva a uma fuga cada vez maior de cérebros.

Mas o que fazer para estimular os jovens a apostarem na educação no nível de doutoramento? Tudo começa por um investimento pesado na formação dos indivíduos desde a infância até o final do ensino superior completo. Este investimento passa pela necessidade de melhorar a formação e o salário dos professores do ensino fundamental, médio, e dos professores de ensino superior.

Hoje o início de carreira em uma universidade federal ou estadual está em valores muito defasados em relação às expectativas de um profissional após mais de vinte anos de formação.

Importante lembrar também que 75% dos estudantes universitários estão nas universidades privadas. Portanto, o Ministério da Educação precisa que exigir delas o nível de educação que é pedido aos professores nas universidades públicas. O percentual de doutores nos cursos das instituições privadas é extremamente baixo comparado às instituições públicas.

Não parece aceitável um corpo docente de nível superior que não tenha doutoramento. Essa é a exigência para as universidades públicas, mas o mesmo não vale para o setor privado. Desse modo, as escolas privadas precisam, evidentemente, investir em recursos humanos qualificados em Ensino e Pesquisa, inclusive para absorver os Doutores formados.

Esforço de repatriação

Ademais, as indústrias brasileiras não absorvem os doutores formados no Brasil. Se faz necessária e urgente a discussão de novas leis que favoreçam as indústrias a terem doutores em seus quadros, principalmente no desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias.

Recentemente, o CNPq abriu edital para repatriar doutores brasileiros que estejam fora do Brasil. Trata-se de um investimento com bolsas e enxoval para laboratórios.

No entanto, se não houver políticas para absorver estes doutores como professores ou pesquisadores nas instituições brasileiras, fica difícil acreditar em um sistema vigoroso de realmente investimento que de segurança aos doutores já formados e estabelecidos no exterior.

Penso que essas são algumas medidas que poderão tanto melhorar os cursos como o interesse por eles e a empregabilidade de quem se gradua. Essa problemática precisa ser amplamente discutida.

Além desse investimento pesado e contínuo na formação dos recursos humanos, interligando os pontos de início e término na educação das pessoas, também é crucial demonstrar à sociedade que universidades mais qualificadas, desenvolvidas e produtivas são imprescindíveis para melhoria geral do bem-estar de uma população e para o desenvolvimento de um país.

Eduardo Colombari é professor Titular de Odontologia, campus de Araraquara, Universidade Estadual Paulista (Unesp)


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Fonte: Jornal Nexo

A rebelião contra os rankings nos EUA será acompanhada por instituições da América Latina?

rankings-996x567Escolas de ciência, educação e medicina de universidades como Harvard, Stanford e Columbia começaram uma revisão em relação aos rankings universitários. Crédito da imagem: Hippopx, imagem de domínio público.

Aliás, as críticas aos rankings não são uma surpresa. Pode-se dizer que nasceram quase ao mesmo tempo que os próprios rankings nos anos de 1980 até se tornarem globais. A novidade desta vez é que algumas das escolas mais bem classificadas lideram a taxa de rejeição.

Hoje existe uma grande variedade de rankings com diferentes critérios e grande influência. Entre os internacionais mais populares figuram o de Shanghái (criado em 2003), o QS World University Ranking (2004) e o Times Higher Education Supplement (2010) .

Holden Thorp, editor-chefe do grupo Science, em um recente editorial sobre o fenômeno catalogado nos rankings como “uma tirania” e comemorou a decisão tomada por vários centros acadêmicos de rejeitar os rankings.

“A melhor alternativa educacional para alguns alunos não é a mesma para outros. Uma das melhores coisas sobre o ensino superior é que existem tantas opções.”

Holden Thorp, editor chefe do grupo Science

Em entrevista para SciDev.Net via e-mail, Thorp comentou que o “melhor seria que os rankings desaparecessem por completo” porque geram, muitos problemas.

Um é que as classificações numéricas sofrem de falsa precisão. Existe realmente uma diferença entre o N° 10 e o N° 11 nas classificações dos programas de pós-graduação?, pergunta Thorp em seu editorial.

O outro problema é que os rankings recompensam aquelas escolas que melhoram as medidas ao admitir estudantes que tiveram as vantagens de uma melhor educação pré-universitária e preparação para exames.

Thorp insiste que “a melhor alternativa educacional para estudantes não é a mesma para outros. Uma das melhores coisas da  educação superior é que existem muitas opções”.

Um dos casos mais chamativos desta investida contra os rankings foi protagonizada pela Universidade de Columbia (EEUU). Tudo começou em fevereiro de 2022 quando um de seus professores de matemática, Michael Thaddeus, publicou em um blog um documento em que expôs inconsistências nos dados apresentados pela instituição US News & World Report , o mais popular dos rankings criado nos EUA em 1983.

Dados como o tamanho das aulas de graduação, gastos com instrução e o nível educacional dos professores, conforme sua investigação, foram alterados para favorecer a valorização do ranking. O escândalo veio a público em setembro de 2022, e a Columbia University caiu do 2º ao 18º lugar neste ranking.

Para Nina Faraoni, docente da Universidade de Granada (Espanha) e autora da tese de doutorado Reputação y rankings universitarios: análisis de sus debilidades y aplicaciones , publicada em 2022, é interessante que “que sejam algumas das universidades norte-americanas as que decidiram não mais aparecer nos rankings, quando são elas as que tradicionalmente estão melhor posicionadas”. Na sua opinião, esta posição pode ser um sintoma da enorme pressão e competição entre elas.

Diana Lucio Arias, diretora do Departamento de Ciência da Informação da Universidad Javeriana na Colômbia, acredita que um grande problema com os rankings é que “homogeneízem” os sistemas universitários, anulando assim a diversidade que que existem em contextos sociais como os latino-americanos.

“Qualquer universo mais diverso é melhor. Necessitamos respostas das universidades a distintas demandas sociais”, comentou a SciDev.Net .

Mario Albornoz, investigador principal do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina na área de políticas de ciência e tecnologia e co-autor da investigação  Rankings de universidades: qualidade global e contextos locais, disse ser um “defensor dos indicadores de ciência e tecnologia e de educação superior” e afirmou não estar “contra os rankings”.

No entanto, Albornoz opinou que os rankings distorcem a realidade ao escolher alguns indicadores em detrimento de outros. “Na Argentina há universidades que fazem um esforço muito grande para melhorar nos rankings. Mas esse não é um esforço necessariamente acadêmico, mas sim de relações públicas com as empresas que organizam os rankings”, acrescentou.

Albornoz considera que um elemento central nesta discussão é que os rankings não levam em conta os contextos locais das diversas universidades.

Existe um ranking ideal? Albornoz acredita que tal vez não, mas o que deve ser capaz de dar conta da relação das universidades com seus contextos locais.

Andres Molano, diretor do Instituto Colombiano para a Avaliação da Educação (ICFES), comentou ao SciDev.Net por telefone que “me agrada que a ideia de rankings como listas ordenadas desapareça”, mas alertou que isso não pode ser traduzido em uma claudicação antes do esforço de buscar formas de melhorar a qualidade educacional.

É importante reconhecermos que precisamos medir. Mas para isso devemos descobrir o valor que cada instituição agrega aos seus estudantes. Dessa forma, é desejável que existam sistemas que permitam comparar universidades que recebem populações de estudantes semelhantes e meditar sobre o suporte em seus processos de aprendizagem.

“Temos que encontrar um sistema alternativo. Estou interessado em descobrir intelectualmente esse sistema na América Latina. Um sistema de avaliação que considere as características de nosso continente, que tem outro sistema referencial, que não se compara, por exemplo, com Cambridge”, enfatizou Albornoz.


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!  ].

Lista Qualis e a duvidosa qualidade dos critérios de qualidade

Critérios adotados para o sistema de avaliação de publicações científicas promovem distorções cujos impactos alcançam inclusive outras instâncias, como classificação de artigos de candidatos a concursos. Indicador deve ser visto como um meio, não um fim em si mesmo

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Por Marcelo Takeshi Yamashita para o “Jornal da Unesp”

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), tem, entre outras responsabilidades, a de zelar pela qualidade dos programas de pós-graduação brasileiros, o que implica a produção, ainda que de forma implícita, de juízos de valor sobre a qualidade da produção acadêmica e científica do país. Os rankings de pós-graduação publicados periodicamente pela Capes são aguardados com ansiedade, celebrados (e até temidos) por instituições públicas e privadas.

Os processos de avaliação utilizados valem-se de indicadores quantitativos e qualitativos que buscam trazer objetividade – números verificáveis e critérios bem-definidos – que, em tese, deixam de fora os preconceitos e favoritismos peculiares das pessoas físicas envolvidas na execução do processo. Um desses critérios é a lista Qualis, um ranking de classificação das revistas indexadas onde pesquisadores de instituições com pós-graduação publicam seus artigos.

No fim de 2022, a Capes anunciou que começaria a adotar uma nova lista, baseada na avaliação quadrienal 2017-2020. A despeito de os critérios de classificação terem mudado ao longo do tempo, não é de hoje que esse ranking de revistas científicas é alvo de críticas. Desta vez, a nova lista gerou reações negativas de pesquisadores de diversas áreas e a criação de um abaixo-assinado.

De acordo com a Capes, a lista Qualis é utilizada exclusivamente para avaliação dos programas de pós-graduação, sendo que o ordenamento das revistas é feito através da aferição das suas qualidades. O ranking classifica os periódicos científicos nos seguintes grupos (do melhor para o pior): A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4 e C. Artigos publicados em veículos que não constam da lista, ou em revistas do grupo C, são desconsiderados.

Um sistema que vincula a qualidade de um artigo científico unicamente ao local onde está publicado é bem questionável. O Clay Mathematics Institute é uma fundação privada de fomento a atividades que promovam a matemática. Dentre as suas ações está o pagamento de um prêmio de um milhão de dólares por cada solução de qualquer um dos “Problemas do Millenium”. Esses problemas, um total de sete, envolvem questões complicadíssimas relacionadas à matemática pura, alguns deles sem solução há mais de 100 anos.

Um dos problemas do milênio, a conjectura de Poincaré, foi resolvido em 2002 pelo matemático russo Grigori Perelman. O artigo, com a assinatura de Grisha Perelman, foi publicado no arxiv.org, uma base de acesso aberto onde pesquisadores publicam artigos ainda “crus”, para torná-los públicos antes de submetê-los a algum periódico científico. A complexidade da solução do problema fez com que levasse alguns anos para que a demonstração fosse reconhecida como válida pela comunidade de matemáticos. Mas, afinal, em qual revista Perelman publicou o artigo?

A resposta é: nenhuma. Grisha não somente não quis publicar em periódicos – preferiu compartilhar o conhecimento em uma plataforma de acesso aberto – como recusou prêmios do calibre da Medalha Fields (análogo ao Nobel concedido para a área de matemática). Este exemplo de Perelman (e existem outros) mostra que não há conexão intrínseca entre a qualidade de um artigo e o local de publicação.

Indicadores usados na definição e implementação de políticas públicas precisam (e isto deveria ser óbvio) ter validade – isto é, realmente medir o que se pressupõe que está sendo medido. Uma régua não é um instrumento válido para medir pressão atmosférica, por exemplo. Para o ranqueamento de revistas, porém, algumas comissões que elaboraram o ranking Qualis utilizaram o chamado Fator de Impacto (FI) – um parâmetro que não está relacionado à qualidade da revista.

O FI é um indicador bibliométrico que atribui um número ao periódico com base na quantidade de citações dos artigos publicados. O cálculo é feito tomando-se o total de citações, em determinado ano, dos artigos publicados nos dois anos anteriores, dividido pelo número de artigos publicados nesse mesmo período. Por exemplo:

A = Total de citações em 2020

B = Citações, em 2020, dos artigos publicados em 2019 e 2018 (subgrupo de A)

C = Artigos publicados em 2019 e 2018

D = B/C = Fator de impacto de 2020

O FI de uma revista pode ser definido por apenas uns poucos artigos que recebam muitas citações. Quando se assume o fator de impacto como representativo da qualidade de uma revista (pressupondo, por um momento, que o número de citações seja um indicador válido de qualidade, algo em si discutível) incorre-se em erro, pois boa parte dos artigos publicados naquele periódico sequer recebeu uma única citação.

Adotar o FI, ou outro fator estritamente numérico, pode gerar anomalias como a apontada pelo físico Silvio Salinas no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em 2009, no texto “Quo Vadis, Qualis?, do qual reproduzo alguns trechos a seguir:

“Francamente, acho que atingimos um limite perigoso, que coloca em risco o próprio conceito de avaliação. Por exemplo, o que significa classificar Physical Review D como A2 e Physical Review B como B1? Por acaso os particuleiros são melhores do que os solidistas? […] Acho que está na hora de refletir sobre essa numerologia, que pouco a pouco se acentua em todas as áreas, impulsionada pelas facilidades da informática e por uma vaga ideia de globalização”.

Apesar de as avaliações não utilizarem unicamente o FI para composição do Qualis, ele continua tendo um papel relevante na classificação dos periódicos. Ainda que haja a utilização de outros indicadores para o estabelecimento desse ranking, a avaliação qualitativa permanece comprometida. O problema de uma mesma revista ser classificada em estratos de Qualis diferentes, como apontado lá em 2009, ainda persiste (por exemplo, Physics Letters A é A3 e Physics Letters B é A2).

Poderíamos descrever longamente aqui os critérios Qualis das diferentes áreas de conhecimento – cada área tem os seus, e todos são passíveis de alguma crítica. Talvez isso mostre que existe um problema inerente ao modelo, que busca objetividade e pragmatismo em uma avaliação que deveria ser o oposto disso. Os indicadores deveriam ser utilizados como meio, e não fim. A avaliação da qualidade de um artigo vai muito além do local onde está publicado e demanda leitura atenta de alguém que tenha algum conhecimento da área de pesquisa.

Outro efeito colateral negativo da canonização de um ranking de revistas por um órgão como a Capes é a utilização dessa lista por outras instâncias e para finalidades para as quais ela não foi pensada. Utilizar o Qualis para avaliações individuais como, por exemplo, a classificação de artigos publicados por candidatos a concursos, atribuindo uma pontuação maior para uma publicação em Qualis A1 do que A3, pode acabar influenciando o direcionamento das pesquisas para periódicos mais bem avaliados, quando o que deveria ser levado em conta pelo pesquisador é a pertinência do artigo à revista.

Antes que a proposta de tornar as avaliações mais qualitativas seja vista como uma utopia, é importante lembrar que a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) solicita que em todos os pedidos de auxílio seja anexada uma súmula curricular do pesquisador. Neste documento deve-se constar uma lista de até cinco resultados de pesquisa mais relevantes e de maior impacto.

Uma iniciativa semelhante à da Fapesp poderia ser adotada para todas as avaliações, inclusive a dos programas de pós-graduação. Isso tornaria o trabalho dos avaliadores menos árduo e seria possível realmente avaliar a qualidade do que é submetido, reduzindo inclusive a dependência de indicadores externos – muitos deles, gerados por empresas que cobram para fornecer os números.

Recentemente, tomando como exemplo o modelo atual de orientação de alunos de doutorado, a Nature publicou um editorial defendendo a necessidade dos pesquisadores e das universidades se adaptarem às expectativas da sociedade. Sobre o Qualis, remeto novamente ao texto do professor Salinas: “Entretanto, nos dez anos de uso ele tem sido mudado para não mudar… Ou seja, o ‘sarrafo’ muda de posição, mas a lógica da avaliação continua a mesma, exacerbando a importância de um dos aspectos da pós-graduação e subjugando a relevância sob indicadores erigidos em critérios finais e únicos”. Isso foi lá em 2009. Será que estamos muito diferentes em 2023?

Marcelo Takeshi Yamashitaé assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Foi diretor do Instituto de Física Teórica (IFT) no período de 2017 a 2021.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da UNESP” [Aqui! ].